Breve análise da cerimônia de posse do presidente Biden

De mãos dadas com o papa, buscando o apoio dos evangélicos e surfando na onda do medo

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Com direito a discurso de um amigo padre jesuíta e hino nacional interpretado pela polêmica cantora pop Lady Gaga, Joseph Biden foi empossado hoje como o quadragésimo sexto presidente dos Estados Unidos da América. Sua vice, Kamala Harris, é a primeira mulher a ocupar essa função na história do país. Em sua fala, o presidente católico (o segundo desde JFK) citou – é claro – o papa Francisco e o teólogo Agostinho. A tônica do discurso – filosofia que certamente deverá nortear o novo governo – foi: união de todos, luta pelo bem comum, capitalismo inclusivo e preservação do meio ambiente. Quase uma repetição de tudo o que o papa vem dizendo nos últimos anos.

Para Joe Biden é sempre ao redor da fé que se reconstrói um império caído. Frequentador de missas e membro do Partido Democrata, Biden, à semelhança do atual papa, é mais alinhado com o pensamento progressista, portanto mais aberto à teologia da libertação ambientalista defendida por Bergoglio, especialmente em sua encíclica dominguista e ECOmênica Laudato Si. Alinhamento “melhor” não poderia haver… (E se você ainda não sabe o que é ECOmenismo, assista aos vídeos abaixo.)

Segundo Steven Millies, diretor do Centro Bernardin da União Teológica Católica em Chicago, citado pelo site do National Catholic Reporter, “nunca houve uma administração mais católica na história dos Estados Unidos”. Além dos cargos oficiais do Gabinete, Biden nomeou o ex-secretário de Estado John Kerry para liderar sua equipe climática e a ex-embaixadora da ONU Samantha Power para chefiar a USAID, que supervisiona a ajuda humanitária. Ambos são católicos e admiradores do papa Francisco. Kerry foi fundamental na negociação do Acordo Climático de Paris em 2015 e elogiou especificamente a encíclica Laudato Si como uma “ferramenta poderosa para responder à ameaça das mudanças climáticas”. (É bom lembrar, também, que a atual Suprema Corte norte-americana é composta por uma maioria de juízes católicos – a mais recente indicada por Trump, inclusive: Amy Barrett.)

Em entrevista concedida em 2015, quando da passagem escatologicamente estrondosa de Francisco pelos Estados Unidos, Biden falou de seu encontro com o papa, ocorrido dois anos antes: “Ele é a personificação da doutrina social católica com a qual fui criado.” Se a antipatia entre Trump e Bergoglio era nítida, a proximidade e simpatia entre o novo presidente dos Estados Unidos (que carrega um terço/rosário no bolso) e o chefe da Igreja Católica é mais do que evidente.  

Um dos desafios do novo governante será o de lidar com os “evangélicos de Trump” (conforme matéria da Folha de S. Paulo). Mas, nesse caso, basta um “laço de união universal” (para usar as palavras de Ellen White) forte o bastante para que todos se unam pelo bem comum. Matéria recente publicada no site da National Geographic dá uma pista de que laço poderia ser esse (na verdade, um tema que tenho abordado há mais de dez anos). Eis o subtítulo: “O novo presidente assume o cargo durante uma crise ambiental cada vez mais nítida e destrutiva. Para controlá-la, terá que se concentrar em alguns aspectos fundamentais.”

A matéria diz mais: “Os resultados não surpreendem. Apesar da queda de 7% nas emissões de carbono oriundas de combustíveis fósseis em 2020 resultante das paralisações econômicas causadas pela covid-19, a humanidade ainda lançou cerca de 40 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono na atmosfera, além dos trilhões de toneladas já emitidos pela ação humana desde o século 19 [a despoluição verificada durante as quarentenas e os lockdowns vem sendo usada como argumento pró-ambientalismo]. Com essa pressão constante, as temperaturas médias globais continuaram subindo. Joe Biden, o novo presidente dos Estados Unidos, prometeu enfrentar a crise climática assim que assumir o cargo, em 20 de janeiro. Ele prometeu retornar ao Acordo de Paris, cancelar o oleoduto Keystone XL e adotar um ambicioso programa de redução das emissões dos Estados Unidos em um ritmo incessante.” 

De mãos dadas com o papa, com o apoio dos evangélicos dominguistas, surfando na onda do medo (alimentado por entidades como o World “The Great Reset” Economic Forum), essa união pela paz e pelo salvamento do planeta tem tudo para dar certo e fazer avançar um pouco mais os ponteiros do relógio profético.

Michelson Borges

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Cerimônia praticamente sem público, transmitida ao vivo, devido às restrições causadas pela pandemia