O que aprendi com a pandemia

Quatro lições bíblicas ilustradas pela Covid-19

Terra

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a pandemia do novo coronavírus durará cerca de dois anos.[1] Até o preparo deste artigo, 103.036.685 pessoas foram infectadas, 57.141.354 se recuperaram e, infelizmente, 2.229.601 morreram em 192 países.[2] Além do impacto global na saúde, os efeitos negativos sobre a economia, as relações sociais, o meio ambiente e até a espiritualidade perdurarão por muitos anos. Diante dos inúmeros e incalculáveis prejuízos individuais e coletivos causados pela pandemia, podemos aprender algo de bom com ela? Ao adentrarmos o segundo ano desta crise global, aprendi quatro lições bíblicas, ilustradas a partir da Covid-19.

A pandemia me ensinou que o cuidado da saúde é a chave da prevenção ao contágio. A Bíblia nos ensina que os hábitos espirituais são o segredo da vitória contra o mal (Ef 6:10-20).

Segundo os médicos, bons hábitos de saúde são fundamentais na prevenção ao novo vírus. O papel do sistema imunológico é crucial na resistência a essa ameaça. O uso dos oito remédios naturais é fundamental para a prevenção de todas as doenças, inclusive a Covid-19.

O apóstolo Paulo escreveu sobre a importância da armadura de Deus para sermos fortes, vencermos as batalhas espirituais e resistimos às investidas do inimigo. Embora todas as partes da armadura sejam necessárias, três deles são essenciais:

A. A Espada do Espírito (v. 17): estudo diário, minucioso e transformador da Bíblia.

B. O valor de orar sempre (v. 17, 18), pois “a oração é a respiração da alma”.[3]

C. O papel do testemunho (v. 19, 20). Pessoas com morbidade (obesos, hipertensos, idosos, etc.) foram as principais vítimas fatais da Covid-19. Os obesos espirituais (só consomem e não se exercitam) logo morrem na fé. “A Igreja deve ser ativa, se quiser ser uma igreja viva.”[4]

A pandemia me ensinou que o isolamento pode salvar vidas. A Bíblia ensina que isolar-se do mundo e de suas práticas preserva nossa integridade espiritual (Rm 12:1).

A principal estratégia no combate ao novo coronavírus foi o isolamento social. Medidas foram tomadas por governos e muitos, conscientemente, evitaram circular em ambientes aglomerados para não transmitir ou contrair o vírus.

A. A Bíblia nos exorta: “E não vos conformeis a este mundo” (Rm 12:2). Devemos nos isolar do mundo material (sociedade corrupta, lugares proibidos, jogos proibidos e do terreno do inimigo).

B. Devemos nos isolar do mundo virtual imoral (internet corrupta, pornografia online, redes sociais agressivas, etc.).

C. Isolar-nos da cultura decadente (músicas profanas, novelas, filmes e séries espíritas, etc.).

A pandemia me ensinou que, se estivermos unidos, teremos força contra o inimigo comum, seja o coronavírus ou Satanás (Fl 2:1-4).

Durante a pandemia, ficou patente a falta de harmonia, entendimento e trabalho em equipe de organizações, países e autoridades. O resultado tem sido desinformação, alienação e prejuízos. O mesmo acontecerá na igreja, caso a unidade não seja prioridade.

A. Unidade é a doce harmonia causada pelo Espírito entre nós. Paulo nos exorta a “conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:3). Unidade é um dom especial concedido pelo Espírito para a existência da igreja. Ellen White afirmou: “E, para que a obra do Senhor possa avançar sadia e solidamente, Seu povo deve unir-se.”[5] Seu apelo constante foi: “Uni-vos, uni-vos, uni-vos.”[6]

Alguns imaginam que é impossível pensar, sentir e agir como seus irmãos (Fl 2:1-4). Entretanto, segundo os escritos de Ellen White, unidade não é uniformidade.[7] Rupertius Medenius declarou: “Nas coisas essenciais unidade; nas não essenciais liberdade; em todas as coisas, amor.”[8] Na prática, deveríamos ter um consenso doutrinário (crendo nas 28 crenças fundamentais); missiológico (apoiando a pregação do evangelho) e organizacional (respeitando a autoridade da Igreja).

No livro Rumo ao Futuro,[9] o autor explica que nossa teologia é a base para nossa missão, que realizamos por meio de nossa organização. Podemos discordar em temas não essenciais, sempre com amor e respeito, mas deveríamos buscar a harmonia nesse trio essencial.

B. A oração de Cristo destacou a necessidade da unidade (Jo 17). Para Ellen White, “a oração de Cristo a Seu Pai, contida no capítulo 17 de João, deve ser o credo de nossa Igreja”.[10] A unidade é o mais forte testemunho da igreja (Jo 17:21, 23). Você e eu não somos a cabeça da igreja, somos apenas membros do corpo de Cristo (ver Cl 1:18). Separar-se é suicídio espiritual e enfraquece todo o corpo.

C. Como preservar a unidade da Igreja? Como a Bíblia ensina que devemos nos esforçar “diligentemente por preservar a unidade” (Ef 4:3, ARA), temos algo a fazer a respeito. Além de orar, devemos promover a unidade. Nesse sentido, pastores e demais líderes têm um papel a desempenhar por meio do exemplo e das palavras. O Manual da Igreja é um fator que unifica procedimentos, evitando dissensões. A Lição da Escola Sabatina é um dos principais instrumentos na unidade adventista, já que é a mesma em todo o mundo. É importante ainda estar alerta com ideias dissidentes, risco sério para nossa unidade.

D. Podemos, também, como igreja local ou distrito, promover eventos que reforcem a unidade (retiro espiritual, reunião campal, congresso, etc.).

A pandemia me ensinou que as fake news também podem matar. A Bíblia ensina que a mentira é a principal arma de Satanás para ceifar vidas (2Ts 2:9-12).

Durante esta crise, uma avalanche de falsas notícias têm sido disseminadas pelas redes sociais. Alguns países, estados e cidades têm tratado com rigor pessoas que circulam esses boatos, com potencial destrutivo. Na pandemia, as falsas notícias são perigosas, mas no mundo espiritual elas podem ser fatais.

A. As fake news espirituais serão intensas, abundantes e sedutoras nos dias finais (Mt 24:6, 11, 24). Satanás é o pai da mentira (Jo 8:44) e os mentirosos não herdarão o reino do céu (Ap. 21:8; 1Co 6:9). “Mentir é o pecado do anticristo (1Jo 2:22) e todos os mentirosos habituais perderão a salvação eterna (Ap 21:27).”[11] 

B. Principais fake news divulgadas em conexão com a pandemia: entre os principais boatos proféticos, podemos destacar as teorias conspiratórias de todo tipo; a sugestão da data para o fim do mundo em 2027, com base na falsa teoria dos seis mil anos (Mt 24:36; At 1:6-8; ver Ap 16:17); especulações proféticas (a vacina seria a marca da besta: Ap 13); falso sistema de interpretação profética, chamado futurismo adventista; revisionismo profético (como a ideia de trocar os Estados Unidos pela China como novo império mundial) e a ideia de deixar as cidades imediatamente, etc.[12]

C. Em lugar de boatos espirituais, devemos acolher a verdade, pois ela é a encarnação do próprio Jesus; somente ela pode nos libertar e nos santificar (Jo 8:31; 14:6; 17:17). 

Conclusão

Em abril de 2020, senti os sintomas da Covid-19. Embora não tenha feito o teste, suspeito de que fui infectado. Nessa fase, tomei os remédios naturais e alguns medicamentos receitados; isolei-me da família (passei a dormir na biblioteca, por exemplo) e não saí nem fui à igreja. Além disso, percebi que deveria seguir, harmoniosamente, as orientações das autoridades e da igreja. Tentei, mesmo à distância, manter um discurso harmônico na comunidade de fé. Finalmente, alertei sobre o perigo das fake news, dos exageros e das especulações sobre a pandemia. Percebi, nessa experiência, que isso tudo me ajudou no tratamento. A doença foi embora. Em relação à vida espiritual, as práticas devem ser mantidas sempre, se quisermos evitar ser destruídos pelo vírus do pecado.

(Ribamar Diniz é mestrando em Teologia pelo SALT/FADBA, membro da Sociedade Criacionista Brasileira e pastor na Missão Pará Amapá)

Referências:

1. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/08/21/oms-preve-que-pandemia-ira-durar-menos-de-dois-anos.htm

2. https://coronavirus.jhu.edu/map.html

3. Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, p. 249. Edição online.

4. White, Serviço Cristão, p. 77. Edição online.

5. White, Testemunhos Seletos, v. 3, p. 406. Edição online.

6. White, Manuscrito 31, 1906. “Oh! como Satanás se regozijaria se alcançasse êxito em seus esforços de penetrar no meio deste povo, e desorganizar a obra num tempo em que a organização integral é essencial, e constitui a maior força para evitar os levantes espúrios, e refutar pretensões não abonadas pela Palavra de Deus! Precisamos manter as linhas uniformemente, para que não haja quebra do sistema de organização e ordem, que se ergueu por meio de sábio, cuidadoso labor. Não se deve dar autonomia a elementos desordeiros que desejem controlar a obra neste tempo.”

7. Ver, por exemplo, Evangelismo, p. 95-100; Mente Caráter e Personalidade, v. 2, p. 426; Atos dos Apóstolos, p. 275. Ver ainda https://www.revistaadventista.com.br/conferencia-geral-2015/a-unidade-e-possivel/

8. http://solascripturatt.org/SeparacaoEclesiastFundament/NasCoisasEssenciaisUnidade.NasNaoEssenciaisLiberdade-VemIssoBiblia-DCloud.htm

9. Jere D. Patzer, Rumo ao Futuro: Como Liderar a Igreja no Século 21 (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2004).

10. White, Manuscrito 12, 1899.

11. A. Flavellem (“Lie, Lying”, New Bible Dictionary [InterVarsity, 1996], p. 687). Citado em https://www.revistaadventista.com.br/marcio-tonetti/destaques/resultado-de-20-anos-de-pesquisa/

12. Em uma entrevista, Vanderlei Dorneles tocou em alguns desses pontos. Revista Ministério, novembro-dezembro de 2020, p. 8, 9.