Sinal do fim? O que Ellen White viu em Órion?

Que espaço aberto a pioneira do adventismo viu no céu? Qual o significado disso?

orion

Não é de hoje que a constelação de Órion chama a atenção dos astrônomos – e dos adventistas do sétimo dia. Em maio de 2010, um telescópio europeu em órbita encontrou algo inusitado enquanto procurava por estrelas jovens: um verdadeiro “buraco espacial” na nebulosa NGC 1999, uma nuvem brilhante de gás e poeira exatamente na direção da constelação de Órion. Na época, presumiu-se que um ponto escuro da nuvem era uma bolha mais fria de gás e poeira, que de tão densa bloquearia a passagem da luz. Mas novas imagens do observatório Herschel, da Agência Espacial Europeia, mostram que a “bolha”, na verdade, é um espaço vazio. Isso porque o observatório capta imagens infravermelhas, o que permite que o telescópio veja além da poeira mais densa e enxergue os objetos dentro da nebulosa. Mas até mesmo ao Herschel o ponto estava preto. Na época, isso atraiu mais uma vez a atenção dos leitores de Ellen White. Na verdade, os adventistas ficam interessados sempre que ouvem falar em Órion, e isso se deve a este texto da Sra. White: “Nuvens negras e densas subiam e chocavam-se entre si. A atmosfera abriu-se e recuou; pudemos então olhar através do espaço aberto em Órion, donde vinha a voz de Deus. A santa cidade descerá por aquele espaço aberto” (Primeiros Escritos, p. 41). Seria o ponto escuro na nebulosa NGC 1999 esse espaço aberto mencionado por Ellen? Ou esse texto dela estaria dizendo outra coisa?

Na década de 1950 (quase vinte anos antes da ida do homem à Lua), o pastor adventista e astrônomo amador Julio Minham, membro da Associação Brasileira de Astronomia, escreveu um livro intitulado Maravilhas da Ciência, publicado pela Associação Brasileira de Astronomia. Nele Minham constata: “Uma escritora americana, Ellen G. White, que nada sabia de astronomia e que provavelmente nunca ouvira falar da Nebulosa de Órion, em um de seus livros traduzido para o português com o título Vida e Ensinos, depois de comentar essa luminosidade, escreveu [e ele cita o texto de Ellen White]. Isso dito assim tão simplesmente por quem nunca olhou um livro de astronomia, nem sonhava com buracos em parte alguma do céu, só pode ser creditado a dois fatores: histerismo ou inspiração. Para ser histerismo, parece científica demais a afirmação de que toda uma cidade, a Nova Jerusalém, tenha livre passagem pelo túnel de Órion. A escritora não sabia do túnel, nem que ele é tão largo a ponto de comportar noventa sistemas solares. Terá sido revelado a essa escritora uma verdade que os astrônomos não puderam descobrir?” Interessante um escritor analisar esse assunto de uma perspectiva mais científica há setenta anos, e mais interessante ainda o livro ter sido publicado pela Associação Brasileira de Astronomia. Mas será que o tal túnel de Órion seria o espaço aberto no céu visto por Ellen White?

Antes de prosseguir na análise do texto de Ellen, quero recordar que, de fato, a constelação de Órion é bastante significativa também do ponto de vista histórico. Nas culturas antigas, Órion é um caçador/guerreiro. As famosas estrelas três Marias compõem o cinturão imaginário desse guerreiro. Inscrições egípcias mostram o guerreiro celestial (Osíris) expulsando do Céu um dragão com quatro asas (como os querubins bíblicos). Alguma semelhança com outra história que você conhece? Na Mesopotâmia, Órion também é o guerreiro que expulsa um dragão do Céu. Uma das estrelas da constelação é Betelgeuse. Betel (do sonho de Jacó) quer dizer “casa de Deus”. Betelgeuse significa “portal da casa de Deus”. Portanto, realmente se trata de uma constelação simbolicamente significativa como referencial para o maior acontecimento da história. Então, voltemos ao texto de Ellen White.

Vamos ler de novo e atentamente: “Nuvens negras e densas subiam e chocavam-se entre si. A atmosfera [da Terra] abriu-se e recuou; pudemos então olhar através do espaço aberto [Onde o espaço foi aberto? R.: na atmosfera terrestre] em Órion [muito provavelmente Ellen estivesse se referindo à constelação de Órion como ponto de referência, e não à nebulosa que leva o mesmo nome], donde vinha a voz de Deus [portanto, a voz de Deus, nos momentos finais da história, foi ouvida no espaço aberto na atmosfera, na direção da constelação de Órion]. A santa cidade descerá por aquele espaço aberto [Qual espaço foi aberto e onde? Leia de novo: ‘A atmosfera [da Terra] abriu-se e recuou’].” Qualquer coisa dita além do que se lê é mera conjectura.

Um vídeo tem circulado nas redes sociais e nele uma palestrante fala sobre astronomia e sobre a constelação e a nebulosa de Órion. Infelizmente, existem vários conceitos equivocados do ponto de vista científico, e mais uma vez especulações escatológicas são feitas com base na afirmação mal-compreendida de Ellen White. Para o bom entendimento do assunto e com todo o respeito à referida palestrante, convidei meus amigos Eduardo Lütz (astrofísico) e Graça Lütz (bioquímica) para fazer uma análise do vídeo. Eis aqui algumas conclusões deles. [MB]

1. A palestrante confunde nebulosa e constelação. Constelações são desenhos imaginários que formamos usando a posição aparente de estrelas no céu da Terra. Elas não são objetos reais e suas estrelas não têm vínculos entre si. Constelações representam uma região do céu do ponto de vista de quem está na superfície da Terra. Se nos afastarmos razoavelmente do Sistema Solar, as constelações deixam de ter sentido, pois a posição aparente das estrelas muda, de maneira que não se encaixam mais nos desenhos que vemos na Terra. Nebulosas, por outro lado, são objetos reais, compostos por poeira, gás, e outros objetos, inclusive estrelas, em muitos casos. As estrelas mencionadas na palestra são as principais da constelação de Órion (objeto imaginário), mas nenhuma delas pertence à nebulosa de Órion (objeto real).

Cada uma das estrelas da constelação de Órion está a uma distância bastante diferente de nós. Parecem próximas só por causa do efeito de projeção. Para ilustrar a ideia, se olharmos para a Lua e ela estiver baixa no horizonte, ela pode parecer estar próxima a alguma montanha ou prédio, mas isso é apenas efeito de projeção, pois a montanha e a Lua estão a distâncias muito diferentes de nós. Assim também as estrelas da constelação de Órion estão a diferentes distâncias, de 243 (Bellatrix) a 1.360 (Alnilan) anos-luz de distância da Terra. Betelgeuse, que foi bastante citada na palestra, está a uma distância de 429 anos-luz de distância.

2. Estrelas absorvem luz. Completamente falso. Todas as estrelas normais emitem luz por causa de sua alta temperatura. Ocorrem reações nucleares no núcleo de cada estrela ainda viva, as quais mantêm a alta temperatura do objeto, o que a faz emitir luz. Mesmo estrelas que já esgotaram seu combustível nuclear continuam emitindo luz por longas eras por causa da energia térmica residual. É possível que a palestrante tenha ouvido falar que estrelas emitem luz de forma muito semelhante a um corpo negro, que não reflete luz alguma, apenas absorve a luz incidente e tudo o que ele emite é em função de sua temperatura. Mas é completamente errado imaginar daí que as estrelas apenas absorvem luz e não a emitem. Faltou ler com mais atenção. E conhecer um pouquinho de temas básicos de Física também teria ajudado.

3. Uma delas emite, ao invés de absorver, e é um mistério para a ciência. Desconfie quando alguém disser que algo é um mistério para a ciência. A ciência é como uma caixa de ferramentas. Por outro lado, existem coisas que deixam os cientistas curiosos ou até perplexos, especialmente quando seus modelos não se encaixam bem no que se observa. Mas não é o caso aqui.

Como mencionamos, todas as estrelas normais emitem luz. Betelgeuse não é exceção nesse sentido. Como qualquer outra estrela, ela é alimentada por reações nucleares em seu núcleo, o que a mantém aquecida e emitindo luz. O que existe de especial com Betelgeuse é sua instabilidade, pois ela varia grandemente de tamanho, forma e luminosidade ao longo do tempo. Esse comportamento, sim, é curioso e inspira muitos estudos.

4. Ela confunde o que Ellen White fala da atmosfera da Terra com a de Órion. Em sua visão, Ellen White descreve fenômenos que ocorrem na atmosfera da Terra imediatamente antes da vinda de Cristo. A palestrante fala como se esses fenômenos ocorressem na nebulosa de Órion. Qualquer fenômeno intenso alterando a nebulosa de Órion não seria visível a olho nu e demoraria de dezenas a centenas de anos para que ocorresse em função da extensão da nebulosa.

5. Ela errou a distância até a nebulosa de Órion. A certa altura, a palestrante fala de Betelgeuse mencionando dados (errados, por sinal) dessa estrela como se fossem dados da nebulosa de Órion. Como explicamos antes, Betelgeuse fica bem longe da nebulosa de Órion (objeto real), embora esteja na constelação de Órion (objeto imaginário). A nebulosa em si está há pouco mais de 1.300 anos-luz de distância da Terra.

6. A nebulosa está se aproximando da Terra. Não, não está. Os dados a que a palestrante se refere são de objetos diferentes ou de fonte errada. Todas as estrelas e nebulosas possuem movimentos, mas nada no Universo apresenta velocidades superiores à da luz, como seria o movimento da nebulosa de Órion se os números que a palestrante apresentou fossem verdadeiros. A nebulosa sempre esteve aproximadamente onde está desde que foi descoberta.

7. A massa da nebulosa está expandindo, e ela confunde massa com tamanho. Além de confundir massa com tamanho, a palestrante confunde as alterações que ocorrem com a estrela Betelgeuse com fenômenos que estariam ocorrendo em Órion. Isso não tem cabimento.

8. Se fosse colocada no lugar do Sol, ela iria até Saturno em tamanho. Isso é tamanho de uma estrela grande, não da nebulosa de Órion. A nebulosa é muitíssimo maior do que o Sistema Solar. Talvez a palestrante tenha mais uma vez confundido a estrela Betelgeuse com a nebulosa de Órion. Só para dar uma ideia, o raio do Sistema Solar é de algumas horas-luz (uma hora-luz é a distância que a luz percorre em uma hora). O raio da nebulosa de Órion é de uns 12 anos-luz. O Sistema Solar inteiro juntamente com sistemas estelares vizinhos (Alfa Centauro, Sírius e outros), mantendo entre si as distâncias atuais, tudo isso caberia confortavelmente dentro da nebulosa de Órion.

9. Ela confunde a estrela Betelgeuse com a nebulosa. Em vários momentos, a palestrante começa a falar de Betelgeuse e segue aplicando suas propriedades à nebulosa de Órion, e vice-versa. Isso leva a graves enganos.

10. A constelação muda de lugar, mistério para a ciência; é a única que muda de posição porque não pertence à nossa galáxia. Completamente falso em todos os sentidos. A constelação é um objeto imaginário, como comentamos. As posições de todas as estrelas variam, sim, mas esse movimento é praticamente imperceptível e demora muitos séculos para fazer alguma pequena diferença a olho nu. As estrelas da constelação de Órion não são diferentes em coisa alguma quanto a isso. A nebulosa de Órion também apresenta apenas movimentos muito sutis.

Além disso, as estrelas que a humanidade escolheu para fazer parte do desenho imaginário de Órion, todas pertencem à Via Láctea e estão relativamente próximas ao Sistema Solar ,se levarmos em conta o tamanho de nossa galáxia. A nebulosa de Órion também está a apenas pouco mais de 1.300 anos-luz de distância, o que é muito pouco comparado o diâmetro da Via Láctea, entre 200 mil e 300 mil anos-luz. Se compararmos nossa galáxia a uma cidade, tanto as estrelas da constelação de Órion quanto a nebulosa de Órion moram no mesmo bairro do Sistema Solar (nossa casa).

11. Ela está numa galáxia espiral a 500 anos luz de nós. Completamente errado. 500 anos-luz é uma distância insignificante quando se fala em galáxias. É como se o Sr. José, morador de São Paulo capital, dissesse que a casa do Sr. Antônio fica em outra cidade a 10 cm de distância. Não faz sentido algum! E nossa galáxia, a Via Láctea, é uma galáxia espiral, por sinal, com um raio de mais de 100 mil anos-luz.

12. A ciência não consegue explicar por que a luz sai de dentro da estrela. A palestrante continua tecendo considerações sobre a conclusão completamente falsa de que estrelas apenas absorvem luz e que Betelgeuse emite, e que isso seria um mistério para a ciência. Já explicamos que isso é completamente falso.

13. Cristo vai voltar pela estrela/nebulosa. É importante deixar claro que constelações (objetos imaginários) servem apenas para indicarmos regiões do céu do ponto de vista da Terra. Quando Ellen White diz que Cristo vem do Órion, está dizendo por qual lado Ele se aproximará da Terra. Apenas isso. Cristo vir através de uma estrela não faz sentido algum. E vir através da nebulosa de Órion, faria sentido? Também não, e vamos ilustrar por quê.

Imagine que uma equipe de médicos venha do Japão para ajudar a conter uma epidemia em Manaus. Eles tomam um avião em Tóquio e descem em Moscou, para seguir o resto do caminho de ônibus. Faz algum sentido? Mas o que isso tem que ver com a volta de Cristo? Existe uma lei da natureza que diz que informação não pode viajar pelo espaço mais rapidamente do que a luz no vácuo. Por outro lado, existem leis que podem permitir viagens intergaláticas por meio de “buracos de verme” (wormholes [Visões do Céu, p. 6]) sem violar o limite da velocidade da luz. É como se fosse um túnel por fora do Universo (mas, tecnicamente, não é bem assim) conectando pontos diferentes. Se o objetivo da comitiva de Cristo é chegar à Terra, Órion não ajuda, pois teriam que percorrer a distância entre a nebulosa e a Terra no máximo à velocidade da luz, demorando mais de 1.300 anos para chegar. Por outro lado, abrir o portal próximo à Terra, mas em Órion no sentido da direção da constelação, aí, sim, faz sentido.

14. O planeta Terra vai girar mais rápido em 2021, vai ser visível. Não, não vai ser visível. São frações ínfimas de segundo por ano. É importante ler e entender os dados apresentados nas notícias para evitar ideias absurdas como essa.

15. Tsunami alterou a rotação da Terra. Sim, mas novamente numa medida insignificante, só perceptível por instrumentos extremamente precisos. E isso não tem nada a ver com água ficando mais leve!

Não continuamos registrando os demais problemas conceituais porque a quantidade era muito grande, e o que coletamos nos primeiros minutos do vídeo já provê uma boa amostragem do problema. (Eduardo e Graça Lütz)