Histórias de super-heróis: catarse infanto-juvenil

A cultura pop, base para esse fenômeno, é uma capitulação, tanto da individualidade quanto do bom senso e da maturidade.

Histórias de super-heróis nada mais são que catarse infanto-juvenil, portanto, têm sua hora e lugar na vida da pessoa, assim como as rodinhas na bicicleta – passada essa época, podem, no máximo, despertar breves saudades. Mas, quando persistem, é sinal de que a pessoa desenvolveu problemas psíquicos. Pior: quando, além de perdurarem na vida adulta, continuam a ocupar interesse e dedicação exageradas, demandam tratamento psicológico.

Ficções com fundo fantástico, como musicais, terror, sci-fi, universo Marvel/DC, etc., são bem-sucedidas na medida em que conseguem induzir no espectador uma suspensão temporária da realidade, pois essa é a função desse tipo de catarse: um desligamento momentâneo do senso comum a fim de se mergulhar em uma fantasia extravagante.

Mas tem que ser momentâneo! Pessoas normais sabem que transeuntes anônimos não param no meio da rua para dançar uma coreografia complexa ao som de uma orquestra invisível; sabem que milionários não abrem mão de suas vidas para vestir um colant cafona com máscara e arriscar uma morte inglória e dolorosa duelando com outro maluco; sabem que o cadáver vingativo de um coitado que sofreu bullying na adolescência não vai se levantar da tumba pleno de onisciência e poderes titânicos; sabem que veneno, radiação e acidentes não trazem superpoderes, mas enfermidades, degeneração e morte.

Contudo, como condescender com essas bizarrices e ao mesmo tempo conseguir ser levado a sério? Simples: conferindo a elas sentidos simbólicos, significados profundos que escapam ao intelecto comum, lições morais embutidas como nas fábulas de La Fontaine e apreciações estéticas alardeadas por refinados “connoisseurs“. Enfim, transformar a marmota em arte com pinceladas de “ciéncia“. Curiosamente, esses ardis podem a tudo alavancar – da coprofagia à necrofilia.

A cultura pop, base para esse fenômeno, é uma capitulação, tanto da individualidade quanto do bom senso e da maturidade. A falsa sensação de liberdade concedida pelo relativismo aliena a percepção das leis naturais (na fantasia) e morais/sociais (no cotidiano). A mente se dissolve em um grupo imenso e esparso que se imbeciliza nas palavras, nos pensamentos, nos hábitos e até na indumentária. Essa é a desgraça: ao relativismo moral do pós-guerra soma-se aqui o relativismo mental, em que a realidade passa a ser interpretada pela autocongratulação histérica. “Assim é se te agrada” (desculpe, Pirandello).

Agora, quando essa danação é levada aos púlpitos é sinal de que a igreja está prostrada, enfraquecida bastante para não conseguir tomar uma atitude. Azar do pobre rebanho.

(Marco Dourado é formado em Ciência da Computação pela UnB, com especialização em Administração em Banco de Dados)