Há “Marciãos” na igreja lendo a Bíblia com uma “tesoura”

Entenda a relação da heresia marcionista do segundo século com as ideias de cristãos liberais que negam a Bíblia como Palavra de Deus

maciao

A história dos primeiros anos da igreja cristã já demonstrava que seu progresso não seria fácil. Desde o nascimento, quando ainda era liderada pelos apóstolos, aprendeu a sobreviver em meio às heresias que já circulavam entre os novos conversos. Basta uma análise das cartas enviadas às sete igrejas (Ap 2-3) – que, apesar de terem uma aplicação historicista, também se referem primeiramente às igrejas literais que existiam naquela época – para notar as advertências contra o nicolaísmo, a doutrina de Balaão, as prostituições e idolatrias promovidas por Jezabel, etc. Tudo isso representando falsas doutrinas que sacudiam a igreja.

No livro de Atos, Lucas registrou um discurso de Paulo aos presbíteros da igreja de Éfeso, no qual ele os advertiu contra lobos vorazes que se infiltrariam entre os crentes e não poupariam o rebanho (At 20:29). O apóstolo também repreendeu os gálatas por influências legalistas dos judaizantes e falou fortemente contra as práticas libertinas que existiam na igreja de Corinto. João, o último sobrevivente dos 12 discípulos, escreveu um evangelho para combater a famosa heresia gnóstica. Há dezenas de exemplos que poderiam ser citados. Porém, avançando um pouco na história, especificamente no segundo século, vamos nos deter no movimento conhecido por marcionismo. A fim de compreendê-lo, precisamos falar daquele que deu nome ao movimento.


“Marcião foi um proprietário de navios comerciais que nasceu e cresceu no Ponto, próximo ao Mar Negro. Em meados do segundo século, ele apareceu em Roma como crente em Cristo, […] conseguiu grande influência junto à igreja de Roma de duas maneiras. Como patrono, assistiu a igreja com sua riqueza e influência, e ao mesmo tempo revelou-se fervoroso líder religioso” (A Trindade, p. 146, 147 – CPB).

O problema é que Marcião não concebia uma relação de unidade entre o caráter de Cristo e o Deus do Antigo Testamento. Na visão dele, o Deus do Novo Testamento e Pai de Jesus Cristo não era o mesmo Jeová do Antigo Testamento. Ou seja, a dificuldade dele era compreender a harmonia dos atributos de Deus. Como a santidade, a ira e a justiça, por exemplo, se relacionam com o amor, a graça e a misericórdia? Ele sugeria que o Deus doador da lei, vingativo e justo não poderia ser o mesmo apresentado por Jesus no Calvário. E qual foi o resultado?

“Marcião compilou uma lista de livros que deveriam ser, segundo ele, as escrituras cristãs. Esses livros eram o evangelho de Lucas e as epístolas de Paulo. […] Que dizer, então, de todas as citações do Antigo Testamento que aparecem em Lucas e nas epístolas paulinas? Naturalmente, tais citações não poderiam ser genuínas, e por isso Marcião chegou à conclusão de que haviam sido incluídas no texto sagrado por judaizantes que tratavam de adulterar a mensagem de Paulo e de Lucas” (História Ilustrada do Cristianismo, v. 1, p. 66 – Vida Nova).

Em sintonia com o registro acima, Eric Voeglin diz que “Marcião rejeitou inteiramente o Antigo Testamento e criou um Cânone das escrituras, que consiste em um novo Evangelho, que ele mesmo compôs” (História das Ideias Políticas, v. 1: Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo, p. 237 – É Realizações).

Em razão de suas doutrinas parecerem tão simples e lógicas, a propaganda marcionista ameaçou seriamente a igreja no segundo século. Seu testemunho de uma vida moral elevada eclipsava a heresia que propagava. No fim, a maioria dos cristãos, entre os quais estavam os membros da igreja de Roma, rejeitou completamente as ideias de Marcião. No entanto, o perigo ainda nos ronda. Quase dois milênios se passaram até vivermos um renascimento do marcionismo. Sim! Não é exagero! Há cristãos lendo a Bíblia com uma “tesoura”. Selecionando o que é inspirado por Deus e o que julgam ser humano nas Escrituras. Dizem que a Bíblia contém a Palavra de Deus, mas não é a Palavra de Deus. Usando métodos racionalistas, ocultam-se sob o manto do que chamam de “Jesus como chave hermenêutica”, e interpretam a Bíblia de forma humanista e antropocêntrica. Há “Marciãos” na igreja cristã em nossos dias. Citarei apenas dois exemplos.

Em um vídeo intitulado “Cartas vivas com letras mortas”, publicado no YouTube em 25/10/2020, Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista Água Branca, fez as seguintes declarações:

“A ética bíblica reflete uma estrutura de sociedade daquele tempo, daquele mundo, daquela época. E não dá pra gente pegar um texto que foi escrito quatro mil anos antes, três mil anos, dois mil anos e trazer pra hoje, aplicando literalmente o que esse texto está dizendo, sem perceber que nas suas linhas a Bíblia é insuficiente, mas nas suas entrelinhas, na revelação que traz a respeito do Cristo ressurreto, a Bíblia explode promovendo uma grande revolução, uma grande transformação no mundo. Então a gente precisa atualizar a Bíblia.

Se queremos ser cartas para o novo mundo, se a Igreja quer ser carta para o novo mundo, nós vamos precisar atualizar a Escritura e vamos ter de fazer essa atualização e ter essa coragem de enfrentar os pecados de gênero da nossa sociedade. De enfrentar a questão da homossexualidade, da homoafetividade e dos gays que frequentam as nossas comunidades. Estão dentro das nossas comunidades. Mas continuam sendo condenados ao inferno por causa de dois ou três textos bíblicos que não foram atualizados.

Não é possível tratar a Bíblia como um livro que revela verdades absolutas. Porque nós não somos seguidores de um livro, nós somos seguidores de Jesus Cristo.”

Precisamos atualizar a Bíblia?! Acaso não estamos diante de intenções semelhantes às de Marcião e até mesmo de pressupostos iguais aos dele? Lembra que a dificuldade dele era encontrar harmonia entre o amor e a Lei de Deus?

O outro exemplo está na resposta dada a uma pergunta que fiz para uma página administrada por “adventistas”. A questão foi a seguinte: Vocês acreditam na inspiração da Bíblia exatamente conforme a Igreja Adventista ensina? Eis a resposta:

“A Bíblia foi sim inspirada por Deus. E também foi escrita por seres humanos falhos e pecadores, com suas influências culturais, limitações científicas e posicionamentos do senso comum de determinados momentos e contextos históricos. Uma coisa não invalida a outra. Logo, a ‘Palavra de Deus’ está na Bíblia, mas nem tudo o que está na Bíblia é palavra de Deus. […] O filtro ou o parâmetro que define o que é ‘Palavra’ e o que é ‘escritura’, é Jesus Cristo. Por isso eu O chamo de ‘Chave Hermenêutica’. O Evangelho são as lentes sob as quais a Bíblia deve ser lida. É dessa forma que entendemos o que é ‘humano’ e o que é ‘divino’ nas Escrituras” (Adventistas Subversivos).

Pois é! O marcionismo voltou. Agora com uma nova roupagem. Julga utilizar metodologia científica e regras de interpretação críticas superiores. Não se engane! Essa é a velha e perigosa heresia que o diabo tentou semear na igreja no segundo século. O que mais preocupa é saber que ela não está apenas rodeando nossa igreja, mas leigos, cantores populares e até teólogos, em rebeldia contra as crenças fundamentais da IASD, seguem propagando esses ensinamentos, especialmente nas redes sociais. Prepare-se! Estude profundamente a Bíblia e conheça as 28 crenças fundamentais da igreja. Acredito que estamos sentindo os primeiros ventos de uma forte tempestade que se aproxima.

Como é bom saber que Deus, apesar das falhas humanas, sempre esteve à frente de Sua igreja. E por meio de Sua mensageira nos advertiu antecipadamente contra esse perigo:

“Quando pessoas mencionarem a alta crítica [método histórico-crítico] e se arrogarem no direito de julgar a palavra de Deus, chamem a atenção delas para o fato de terem esquecido quem foi o primeiro e o mais sábio dos críticos. Aquele que tinha centenas de anos de experiência prática. É ele quem ensina os assim chamados altos críticos de hoje. Deus punirá todos quantos, a exemplo desses altos críticos, exaltam a si mesmos e criticam a santa Palavra de Deus” (Ellen White, Bible Echo, 1º/2/1897; citado no Tratado de Teologia ASD, p. 117).

“Em nosso tempo, como na antiguidade, as verdades vitais da Palavra de Deus são substituídas por teorias e especulações humanas. Muitos professos ministros do Evangelho não aceitam toda a Bíblia como a Palavra inspirada. Um sábio rejeita esta parte, outro duvida daquela. Elevam sua opinião acima da Palavra; e as Escrituras que eles ensinam repousam sobre a autoridade deles próprios. Sua autenticidade divina é destruída. Desse modo é semeada largamente a semente da incredulidade; porque o povo é confundido e não sabe o que crer” (Ellen White, Parábolas de Jesus, p. 12).

Deus nos ajude a termos um posicionamento firme e corajoso em favor da Verdade. Em nome de Jesus, amém!

(Jefferson Araújo é estudante de jornalismo no Unasp e criador do ministério Última Verdade Presente)