“Vá e não peque mais” ou “Vá embora”?

A história ainda fala de nossos pecados, e do mesmo e único jeito para resolver seus problemas: e não é refazer a definição divina de pecado, mas ir e não pecar mais

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Admira-me a facilidade com que informações equivocadas são propagadas hoje em dia nas mídias sociais, às vezes justamente por aqueles que deveriam saber. Nesse caso, desconhecimento não é desculpa. A história da mulher flagrada em adultério (Jo 8:1-11) é um dos mais sublimes exemplos do amor perdoador de Jesus. Por ser sem pecado (v. 48), Jesus era o único que poderia haver atirado alguma pedra nela. Em vez, disso Ele a perdoou. Mas a história não termina aqui, em que pesem os esforços de alguns em dizer que a frase “vá e não peque mais” não é original. O que se alega é que essa frase teria sido acrescentada posteriormente por moralistas cristãos insatisfeitos com o tratamento que Jesus deu à pobre mulher.

A informação simplesmente não é verdadeira. Não há um único manuscrito grego (ou latino) que tenha a história e que omita a frase final de Jesus. Além disso, essa não teria sido a única vez em que Jesus mostraria compaixão por alguém e recomendasse que ele não pecasse mais (Jo 5:14).

Dois pontos aqui são importantes. O primeiro é que a tentativa de “açucarar” o evangelho como se ele não exigisse nenhuma resposta de nossa parte é uma grave distorção. Quando Deus salva, Ele salva “do pecado”, não “no pecado”. A Bíblia é clara: o perdão é um dom de Deus, mas ele deve ser aceito mediante uma atitude de arrependimento e conversão (At 3:19). Isso significa que o perdão deve provocar mudanças (Rm 6:15; Ef 2:8-10; Tg 2:11, 12), levar a uma vida de obediência e santidade (Rm 6:16-22).

O segundo ponto é que a vitória sobre o pecado não é uma realização humana. É divina (Fp 2:13; 1Ts 5:23). Mas somos nós que escolhemos o que queremos para nossa vida. Sem nossa vontade e nosso comprometimento (1Co 9:27; Fp 2:12), Deus nada poderá fazer – e que ninguém diga que é fácil tomar tempo para a oração e o estudo da Bíblia. Nesta vida, jamais seremos perfeitos, mas estaremos cada dia exercitando nossa vontade, escolhendo e fazendo aquilo que permita que Deus continue Sua obra em nós (Rm 12:1, 2; 1Co 16:13). Ou seja, “vá e não peque mais” é tanto parte do evangelho quanto “também eu não a condeno”.

(Dr. Wilson Paroschi, Instagram)

O Cristo que conheci nas páginas das Escrituras disse a uma mulher pecadora: “Vá e não peque mais.” Palavras poderosas que contêm tanto libertação quanto compromisso: “vá” indica liberdade, movimento e vida. Ela não estava mais presa nas mãos de captores, nem condenada à morte. Ela podia ir. “Não peques”, exigindo compromisso, comprometimento e mudança de caminho e vida. Sua direção do caminhar e a direção de sua vida não podiam ser as mesmas de onde vinha. Ela não poderia incluir o pecado que até ali tinha sido seu principal escravizador. Eram palavras de compromisso que levavam à Vida.

Mas alguns, não podendo suportar o peso do compromisso e a responsabilidade existentes e exigidos nessas palavras, acrescentaram “eu também não te condeno”. Acrescentaram porque para eles Jesus NÃO pode ser tão desumano a ponto de condenar alguém por pecados, ou mesmo exigir que eles sejam abandonados. Acrescentaram às palavras do Legislador que liberta palavras que eximem. Eximem de uma realidade que, de fato, nem mesmo existe, porque pecado é apenas um conceito fluído, vazio, uma oportunidade de Deus demonstrar todo o Seu poder e toda a inutilidade daquele monte de palavras de condenação da aliança levítica e do reino imprestável da Lei. Afinal, o que vale não é o que está escrito, mas o que eu penso que deveria estar escrito.

Não amigos, nenhuma palavra foi acrescentada nesse relato de João 8. É fato que não foi o apóstolo João quem o escreveu, mas a história ali contada é verdadeira, veraz e verídica (pleonasticamente proposital). Cristo SIM perdoou aquela mulher. E isso é graça que alcança. Mas também exigiu dela esforços para não mais pecar. E isso é resposta. Aliás, toda a Escritura é construída em torno desse maravilhoso binômio: ação divina => resposta humana. Nessa ordem. A cada ação divina deve corresponder uma resposta humana, fundamentada na compreensão de nossa pecaminosidade e da graça salvadora de Deus. A disparidade da ação divina é, então, apreciada e a única resposta é a fidelidade a essa ação, cuja existência se baseia na normatividade da aliança (Dt 31:15ss; Jo 14:15ss).

As Escrituras apresentam de forma clara, indelével e absoluta a realidade do pecado. Não há relativização. O que foi outrora pecado, como adultério, homossexualidade, assassinato, idolatria, hipocrisia, é ainda pecado hoje. E não adianta a lógica de uma exegese estrábica tentar desfazer essa realidade. Você pode até não aceitar que seja pecado, mas precisa declarar então que não crê na Bíblia como Palavra de Deus, ou não crê em Deus. Não tente usar o amor de Deus para diminuir o ódio dEle pelo pecado. Ele amou o povo de Israel, mas em nenhum momento redefiniu o que era pecado, para poder eximir Seu povo de seus erros. Eles estavam errados, eram pecadores, mas continuavam sendo amados por Deus. Eles foram mandados para o exílio, entregues a um povo estranho, mas eram ainda objeto do amor de Deus, que não os eximia, nem reduzia o pecado e o extinguia ou redefinia, mas apresentava o perdão como meio para escapar da condenação e a graça para viver longe do pecados e de seus efeitos.

Deus não mudou! Sua palavra não mudou! Sua vontade não mudou! O que Ele disse ser pecado segue sendo pecado! O que o desagradava e Ele abominava segue ainda sendo de Seu desagrado e também abominável, quer a sociedade moderna aceite quer não. A história ainda fala de nossos pecados, e do mesmo e único jeito para resolver seus problemas: e não é refazer a definição divina de pecado, mas ir e não pecar mais.

(Pr. Sérgio Monteiro; Facebook)