A realidade da IASD em Cuba: testemunho de um pastor

Perseguida pela ditadura, igreja teve sérias dificuldades para levar avante sua missão na ilha

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O pastor Rolando de los Ríos nasceu em Sancti Spíritus, Cuba, em 8 de agosto de 1947, em uma família adventista do sétimo dia. Recebeu a educação primária na Escola Elementar Adventista na década de 1950, antes do triunfo da revolução de Fidel Castro. “Cursei os primeiros anos de Teologia no seminário do Colégio das Antilhas da Igreja Adventista, de 1962 a 1966. Em fevereiro de 1967, o governo socialista de Fidel Castro assumiu definitivamente a instituição, expulsando o corpo discente”, recorda. A educação privada foi proibida em Cuba anos antes, de modo que era esperado que ocorresse uma ação.

Já nos Estados Unidos, e depois de ter servido em vários lugares e ocupado cargos na obra adventista, o pastor Rolando estudou na Andrews University, em Michigan, onde obteve o grau de mestre em Ministério Pastoral. Quanto à experiência ministerial, a partir de 1967, começou como ministro da igreja, em Cuba, até 1980, quando deixou o país. Nos Estados Unidos, serviu como pastor, administrador e evangelista. Hoje é pastor aposentado.

Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, ele fala sobre sua infância em Cuba e sobre a situação vivida em seu país de origem.

Fale sobre sua infância em Cuba.

Venho de uma família de classe média trabalhadora. Meu pai tinha um pequeno negócio de selaria e trabalhava com peles na produção de cintos e bainhas para facões e facas. Foi assim que ele sustentou a família de cinco filhos com minha mãe. Participei do Clube de Desbravadores em minha igreja local, e desde muito jovem ocupei cargos na igreja. Sou adventista por nascimento e convicção. Minha vida de infância se desenvolveu como a de qualquer criança normal, participando de jogos infantis com meus vizinhos e amigos.

Como foi a educação escolar? Que tipo de conteúdo era ensinado? 

Minha educação primária foi em um ambiente cristão adventista. Mesmo no Seminário Adventista o lema era “educar a mão, a mente e o coração”. As disciplinas ministradas, além das bíblicas, foram ciências, artes, história, princípios cívicos, educação física, etc. Nos primeiros anos da revolução, estudei em escolas públicas que já estavam sob a direção do Departamento de Educação do Governo Revolucionário. Lá recebi doutrinação política como parte integrante da educação.

Entre 1959 e 1962, o comunismo não foi abertamente reconhecido. Fidel Castro disse à imprensa que sua revolução não era vermelha (comunista), mas que era “mais verde do que as palmas”, negando repetidamente que era comunista. Não sofri a pressão da doutrina marxista-leninista como minha filha, de apenas sete anos, sofreu nos anos 1970.

Durante os anos da ditadura de Fulgencio Batista, por princípios pacíficos de base cristã, minha família e a Igreja Adventista em geral permaneceram fora de toda atividade política, nem a favor nem contra. Devo admitir, porém, que um de meus tios paternos se envolveu na luta civil clandestina contra o governo de Batista, tendo sofrido fortes represálias. Dois de seus irmãos, de Nova York, ajudaram a causa da revolução levantando fundos para apoiar os rebeldes nas montanhas de Cuba. Tudo isso criou em mim, como na maioria dos cubanos no fim dos anos 1950, simpatia por Fidel Castro e sua revolução. Como demonstração dessa simpatia, na minha adolescência fiz parte das Brigadas de Alfabetização Conrado Benítez. Considerava que essa atividade não era contrária aos meus princípios cristãos por ajudar na educação do meu país.

Foram as crianças dessa época que receberam mais influência assim que a revolução foi declarada socialista. Desde a pré-escola, nas creches, as professoras mandavam as crianças de três e quatro anos fecharem os olhos e pedir a Deus que lhes enviasse doces. Quando abriam novamente os olhos e viam que suas mesas estavam vazias, ouviam as professoras dizer: “Deus não existe!” Depois diziam para elas novamente fecharem os olhos e pedir doces a Fidel. As professoras então aproveitavam o momento para depositar silenciosamente doces nas mesas e, assim, afirmar que Fidel Castro lhes havia dado o que Deus não deu. Desse modo, elas estavam preparando a mente infantil para o ateísmo pregado pela doutrina marxista.

Como era o país antes da revolução comunista?

É bem conhecido e registrado na história que Cuba era um país pequeno, mas desenvolvido durante os anos 1950. Muito antes de outros países latino-americanos, Cuba liderou os avanços tecnológicos. A ferrovia na ilha foi estabelecida bem antes do que em alguns dos países vizinhos, incluindo a própria Espanha. Sabe-se também que a televisão em cores teve seus primórdios em Cuba em 1958. O peso cubano era equivalente ao dólar dos Estados Unidos e, em meados dessa década, valia vários centavos a mais que a moeda americana.

Se citar alguns dados da minha própria cidade de origem, Sancti Spíritus, poderia dizer que por ser uma cidade relativamente pequena (cerca de 40 mil habitantes na década de 1950), teve grande desenvolvimento industrial e comercial. Contava com um grande número de empresas e indústrias, além de grande número de profissionais, médicos, advogados, professores, artesãos e comerciantes.

Na minha cidade existiam várias fábricas e indústrias que forneciam trabalho para grande parte da população: as fábricas de laticínios Nestlé e Nela, bem como a fábrica de conservas de fruta Libby’s. Também a La Mosa, outra fábrica que produzia as embalagens para as fábricas mencionadas acima.

No município de Sancti Spíritus havia quatro engenhos de açúcar com plantações de cana que abasteciam o consumo nacional, bem como exportação abundante. É importante lembrar que, desde então e até alguns anos depois, Cuba foi reconhecida como o principal exportador de açúcar do mundo. A cidade em que nasci era considerada uma das maiores produtoras leiteiras do país, daí o desenvolvimento de uma florescente indústria de couro, já que possuía vários curtumes e fábricas.

Meu pai, artesão de peles, sustentava a família sem luxos supérfluos, mas nunca íamos para a cama com o estômago vazio. Minha querida mãe, como dona de casa, preparava três refeições diárias para a família, fornecidas aos visitantes e vizinhos em abundância.  Não me lembro de nenhum de nós ter que andar descalço porque não tínhamos sapatos; éramos pobres, mas não miseráveis. Meus irmãos e eu tínhamos roupas suficientes para não ter que usar a mesma roupa todos os dias.

Quanto à realidade política, o fato de Fulgencio Batista ter chegado ao poder em 1952, dando um golpe de estado no presidente eleito constitucionalmente, Carlos Prío Socarras, criou grande descontentamento contra aquela ditadura. Embora o governo Batista fosse relativamente próspero economicamente, o problema social e político do país, bem como a forma como foi conduzido, resultou no surgimento da revolução.

Fale sobre o episódio em que o Colegio de las Antillas recebeu Che Guevara e seus homens.

Nos últimos dias de 1958, Ernesto Che Guevara comandou o ataque à cidade de Santa Clara, no centro da ilha, e a conquistou após descarrilar um trem blindado do governo de Batista carregado com suprimentos militares. O exército se protegeu nos prédios da Universidade Marta Abreu, em frente ao nosso campus, enquanto Che chegou com seus soldados à nossa escola e pediu comida para suas tropas. A administração forneceu o que eles precisavam. Não se pode negar que alguns professores da nossa escola simpatizavam com aqueles bravos jovens barbudos, capazes de desafiar a tirania de Fulgencio Batista.

Poucos meses depois do triunfo da revolução, o coro polifônico do Colegio de las Antillas apresentou um concerto no teatro principal da cidade de Santa Clara, e Che Guevara foi convidado para fazer o discurso de abertura. Ele disse então: “Alguns podem se surpreender que um comandante da revolução esteja aqui, mas é que entre os adventistas e a revolução existe uma velha amizade.” Em seguida, contou de quando, após o desembarque do iate Granma, no fim de 1956, os poucos expedicionários sobreviventes percorreram o matagal da montanha e chegaram, ao anoitecer, perto de uma humilde casa de camponeses onde pediram comida e ajuda. Ouvindo que dali saía a melodia de um hino cristão, e confiando que por serem religiosos os ajudariam, decidiram chegar sem medo de ser denunciados. Segundo Guevara, aquela família cuidava deles dividindo a comida, e ele, com forte crise de asma, recebeu uma camisa de um dos rapazes da casa. Então ele soube que era a única camisa que aquele jovem tinha.

Em seu livro Passagens da Guerra Revolucionária, Che incluiu a experiência daquela ocasião em que viu alguém andando por um caminho. Ao dar a ordem “Parem!”, viram que se tratava de “duas mulheres negras, de sobrenome Maya, adventistas de religião, e embora se opusessem a todo tipo de violência por causa de suas crenças religiosas, ainda assim nos ajudaram com tudo que foi necessário”.

Poucos meses depois do triunfo, o próprio Fidel Castro, acompanhado por vários de seus governantes, visitou o Colegio de las Antillas. Em seu discurso, elogiou a forma como funcionava a instituição, que incluía o trabalho físico dos alunos como parte do programa educacional, e disse: “A revolução estabelecerá muitas escolas como esta em Cuba.” 

O diretor e os professores de nossa escola não tinham como saber que alguns meses depois um representante revolucionário chegaria e declararia que a instituição havia sido tomada, passando para as mãos do governo. Pouco depois, na esteira da crise dos mísseis soviéticos na ilha, nossos professores estrangeiros foram presos. Cito o pastor Alfredo Aeschlimann, do Chile, por exemplo. Outros foram obrigados a deixar Cuba, como aconteceu com o então diretor, Dr. Walton Brown, do Brasil.

Nossa escola continuou a funcionar sob intervenção como um seminário religioso até fevereiro de 1967, quando o ministro da Educação, Armando Hart, ordenou que professores e alunos deixassem o campus imediatamente. Naquela época, Castro já havia declarado a revolução como socialista marxista-leninista. Muitos de nossos alunos foram expulsos de casa por suas famílias, devido à paixão política e à discriminação religiosa. Expulsos do lar, esses jovens saíram sem saber para onde ir.

O que você acha do comunismo em geral? Cuba é comunista?

Não me considero especialista em política, mas penso que bastaria ter vivido os primeiros 21 anos de socialismo/comunismo em meu país para poder emitir essa opinião. Lembro-me de quando visitei em Matanzas, Cuba, um dos poucos seminários que permaneceram de pé na ilha. Eu me perguntava o motivo da existência de um seminário teológico “perdoado” pelo governo castrista, quando o nosso, entre outros, havia ficado sido destruído. A resposta foi imediata quando vi uma pintura em exposição no saguão com o título: “El Cristo Guerrillero”. Lá estava o humilde Nazareno carregando um rifle no ombro.

O que eu acho do comunismo? É mais uma doutrina humana que promete tornar todos os cidadãos iguais – e isso é verdade, mas não explica em que nível: todos iguais na pobreza. Afinal, quem viveu por mais de seis décadas em Cuba, bem como na ex-União Soviética e nos países do Leste Europeu sabe que o comunismo é apenas uma teoria.  Enquanto a liderança e os governantes vivem em mansões luxuosas, com iates caros e mesas abundantes, o povo em geral sofre com a fome, a miséria, a falta de remédios e, acima de tudo, a falta de liberdade de expressão.

Enquanto milhares de médicos cubanos são enviados para outros países como “missionários” dos recursos médicos da revolução cubana, o povo nada tem. Basta olhar para o estado dos hospitais onde as pessoas têm que conviver com a falta de higiene e de medicamentos.

Penso que, na ausência de uma resposta mais abrangente, devo recordar a definição dada por um dos maiores estadistas do mundo, o primeiro-ministro inglês Winston Churchill: “Socialismo é a doutrina do fracasso, o credo da ignorância e a pregação da inveja. Seu defeito inerente é a distribuição igualitária da miséria.”

Como foi o início da obra adventista em Cuba?

A obra adventista do sétimo dia começou em Cuba nos primeiros anos do século 20, devido à chegada ao país de um casal de enfermeiros missionários.

Quando a Igreja foi instalada na ilha, quais eram exatamente as regras que o governo estabeleceu? Até que ponto o evangelismo foi permitido?

Como uma nação democrática recém-nascida, Cuba desfrutava de liberdade religiosa, com uma separação marcante entre igreja e Estado. Embora a religião mais popular, devido às raízes espanholas dos cubanos, fosse a católica, outras crenças religiosas podiam ser praticadas sem inconvenientes e também proselitismo gratuito.

A grande maioria dos soldados rebeldes que lutaram ao lado de Fidel Castro nas montanhas eram homens que acreditavam em Deus, de diferentes religiões. Vale a pena mencionar um mártir da revolução como José Antonio Echeverría, um jovem católico.  Mas quando Fidel declarou sua revolução socialista, começando no início dos anos 1960, os cristãos tiveram que enfrentar a antipatia e até a discriminação do governo.  Lembro-me de ter ouvido a frase de Karl Marx repetida muitas vezes: “A religião é o ópio do povo.” Por outro lado, na convocação em massa para ouvir Fidel Castro nos seus intermináveis ​​discursos, a bela melodia do nosso Hino Nacional foi partilhada com o Hino da Internacional Socialista, apelando ao proletariado. A última estrofe daquela canção do comunismo revela por si mesma seu descontentamento com tudo o que se chama religião: “Chega de salvadores supremos, nem César, nem burguês, nem Deus, para que nós mesmos façamos a nossa própria redenção.”

Em 1965, o governo criou a Unidade de Auxílio à Produção Militar (UMAP). Na realidade, era um campo de concentração para onde eram enviados todos aqueles que fossem considerados “males sociais”. Eram os jovens que o governo considerava inúteis ao exército. O Serviço Militar Obrigatório (SMO) acabava de ser criado. Os acampamentos da UMAP, estabelecidos na província de Camagüey, estavam cheios de jovens de crenças cristãs, entre os quais havia um número considerável de adventistas do sétimo dia, bem como outros crentes, católicos e evangélicos. O atual cardeal católico de Cuba estava entre eles. Outros indesejáveis ​​para o governo também foram enviados àqueles infames acampamentos para realizar trabalhos forçados nos canaviais: os homossexuais, ou todos aqueles que pareciam ao regime como tais. 

Se hoje você perguntar a um cubano com menos de 50 anos, ele lhe dirá que nada sabe sobre a existência da UMAP. O governo comunista de Cuba se encarregou de erradicar da história aqueles campos que se revelaram negativos em sua propaganda internacional a favor do regime, devido ao tratamento desumano praticado neles.

Nossos jovens adventistas sofreram profunda discriminação nas UMAPs. Basta um exemplo: um dos meus colegas estudantes do seminário, Manuel Molina, junto com outros dos nossos, foi forçado a trabalhar no corte da cana no sábado. Quando ele e seus companheiros recusaram, foram confinados na prisão e privados de qualquer alimento, como expressou o chefe militar, atribuindo a um ideólogo comunista a frase: “Quem não trabalha, também não deve comer.”

Depois de permanecerem nesse jejum forçado, sem ceder em seus princípios cristãos, receberam a visita de um alto funcionário de Havana que perguntou por que estavam na cela sem comida. Sabendo do porquê, perguntou se eles estavam recebendo água potável. Quando foi informado de que eles haviam recebido água, o líder sênior disse: “Parem com isso! Esses ‘cães’ não merecem nem mesmo receber água!”

Após o oitavo dia, eles foram levados para uma corrida em terra arada. Esse é um exercício militar usado para fazer os soldados perderem peso. No décimo dia, foram levados para a parte de trás do acampamento onde havia uma vala na qual seriam enterrados após serem fuzilados, se não abandonassem suas crenças religiosas. Havia um pelotão de fuzilamento pronto para cumprir a ordem. Para a surpresa desses soldados, aqueles jovens, desfalecidos e quase a ponto de desmaiar, disseram que estavam prontos para tudo, mas que não negariam sua fé em Cristo e obedeceriam aos Seus mandamentos. Por fim, ouviu-se a voz: “Preparar, apontar…”, mas, em vez de dizer: “Fogo!”, o oficial proferiu uma interjeição grosseira, acrescentando: “Com essa gente não há quem possa!”

Esses heróis contam que talvez o plano de atirar fosse apenas um meio de assustá-los; mas ainda era uma tremenda prova de fogo.

Quanto ao plano de evangelização em Cuba, desde o início do governo socialista, devo dizer que toda a atividade foi limitada dentro dos edifícios da igreja; a colportagem também foi proibida. Sempre fui evangelista, mas não fui nomeado em Cuba para esse cargo; era apenas pastor. Minhas atividades eram campanhas realizadas dentro do templo e nos dias permitidos pelo Estado; qualquer reunião no templo fora do horário estabelecido poderia ser considerada ilegal e o pastor teria que enfrentar as consequências. 

Os panfletos não podiam ser utilizados para a promoção das reuniões, e os convites eram então feitos pessoalmente a familiares e amigos, tendo a certeza de que essas pessoas não fossem filiadas ao Partido Comunista ou a outras organizações políticas do governo. Isso poderia ter consequências sérias também.

Como pastor da cidade de Camagüey, fui acusado de praticar ato de proselitismo, tentando atrair um jovem membro da União da Juventude Comunista (UJC). Fui convocado para entrevistas rigorosas em meio a ameaças. Agradeço a Deus por ter sido absolvido por falta de provas. A verdade é que não procurei aquele jovem, mas ele visitou minha igreja para me fazer perguntas, as quais respondi. Sempre enfatizei que respondia porque ele tinha vindo a mim e não eu ido a ele. Espero que esse jovem tenha sido sincero e aceitado Jesus como seu Salvador.

Havia liberdade para escolher a liderança da igreja no país?

Antes do governo de Fidel Castro nossa igreja em Cuba funcionava livremente como em outros países. Na década de 1960, mudanças foram feitas na organização de nossa igreja, dividindo o país em seis delegações, uma para cada província então existente, todas sob uma Associação Nacional. Isso manteve a unidade da igreja nacionalmente.  Durante o tempo em que trabalhei como pastor em Cuba, as nomeações dos oficiais das congregações eram feitas todos os anos, como no resto do mundo, porém, foram impostas mudanças de funções. Por exemplo, as igrejas não tinham tesoureiros, mas, sim, coletores. O único tesoureiro legal era o da delegação. No nível da igreja, havia apenas coletores que traziam dízimos e ofertas para o escritório da delegação, que era responsável por todas as despesas da congregação local. Periodicamente, nossa organização tinha que relatar ao governo todas as saídas e entradas econômicas, bem como os membros que foram adicionados e aqueles que haviam sido desligados, e o motivo. Talvez tenha sido uma maneira sutil de saber se alguns infiltrados nas congregações haviam sido descobertos. Oportunidade não faltou para que o Senhor nos indicasse a presença de alguns “Judas”, embora sempre tivéssemos cuidado ao lidar com eles.

A cada ano cada delegação realiza um congresso juvenil em que se encontram os jovens de toda a jurisdição da província. Essa atividade exigia uma permissão especial para a reunião no maior templo que tínhamos. A década de setenta foi, no meu tempo em Cuba, talvez a mais difícil. Na Delegação de Camagüey, o então presidente, pastor Nicolás Bence, certa vez aguardou até sexta-feira à tarde a autorização do Ministério do Interior para o registo de associações do fim de semana. Quando os membros das igrejas já haviam chegado depois de uma longa viagem, nosso presidente recebeu uma ordem arbitrária de que a reunião do congresso não fora permitida. Correndo riscos, a reunião de sexta-feira foi realizada, mas o pastor Bence anunciou tristemente que eles não poderiam mais voltar na manhã de sábado.

Quanto à nomeação dos dirigentes das organizações em âmbito nacional, estas foram realizadas, com licenças especiais, claro, de dois em dois anos, e depois de três em três.  Essas nomeações tinham que ser relatadas ao governo. Quanto ao respeito do governo pela pessoa do pastor, verdade seja dita que todos nós tínhamos que evitar fazer a coisa errada e ter muito cuidado para fazer a coisa certa. Um exemplo foi o pastor Rolando Morgado, que foi revistado em sua casa, pois se dizia que ele tinha material subversivo contra o governo comunista. Claro, eles só encontraram livros religiosos em sua biblioteca. No entanto, encontraram algo que virou motivo para acusá-lo: um antigo exemplar de uma revista Seleções; isso foi o suficiente para lhe garantir vários meses de trabalho forçado. 

Lembramos também quando dois de nossos pastores, Gustavo González e Fidel Paneque, foram comissionados para viajar à fazenda de um irmão da igreja que havia doado, da colheita de sua propriedade, cerca de 23 quilos de feijão preto. Esse produto seria usado para alimentar os participantes do congresso anual de jovens. Os pastores dividiram o fardo, que deveria ser autorizado pelo governo. Quando chegaram de trem à cidade de Camagüey, a polícia os esperava com sentença: meio ano de trabalhos forçados na reforma das ruas da cidade. Claro que o feijão desapareceu. Há que esclarecer que, nessa altura (e creio que ainda é assim), o cidadão não estava autorizado a transportar alimentos, o que era considerado clandestino.

A Igreja Adventista apoiou a revolução ou o governo? Se sim, conhecendo as consequências ou inocentemente?

Posso dar a resposta exata a essa pergunta com conhecimento de causa. A Igreja Adventista do Sétimo Dia nunca apoiou a revolução ou o governo comunista. Não descarto a possibilidade de que algum membro da igreja, pessoalmente, tenha feito isso, de uma forma ou de outra, mas nossa organização nunca o fez. Lembro-me da cidade de Matanzas, onde servi nos últimos anos como pastor, que o diretor do Departamento do Ministério do Interior, encarregado de igrejas, me repreendeu dizendo que os adventistas não cooperavam com o governo como as outras religiões, e que aquelas, sim, eram formadas por “verdadeiros cristãos”. Infelizmente, os cristãos em Cuba nem sempre estiveram unidos, em detrimento daqueles de nós que sempre defendemos nossos princípios.

A Igreja Adventista cubana alguma vez se opôs à Associação Geral? Chegou a ver a liderança mundial como uma espécie de “imperialismo”?

Minha resposta é categórica: a Igreja Adventista em Cuba nunca se opôs à Associação Geral de forma alguma. Quanto mais tempo a igreja vive em um ambiente opressor, mais adere à organização geral da igreja. Nem vimos nossa organização como “imperialista” porque está localizada nos Estados Unidos. Os adventistas do sétimo dia em Cuba nem mesmo viam os Estados Unidos com desprezo, nem nos sentimos autorizados a ver outros países da mesma forma. Acredito que os cristãos são, como Jesus disse, “o sal da terra”. Nossa missão deve ser de unidade e não o contrário.  Honestamente falando, acredito que a maioria dos cubanos, crentes ou não, não desprezam os Estados Unidos. Prova disso é que os milhões de cubanos que emigraram, de uma forma ou de outra, de Cuba, encontraram no país do norte uma casa e um futuro que não encontraram em sua própria pátria.

Como era a questão alimentar em face das restrições governamentais?

O ano de 1959, o primeiro do governo de Castro, foi muito próspero. Mas já em 1960 os alimentos começaram a escassear. As relações com os Estados Unidos ainda não haviam sido rompidas, mas, talvez devido à má gestão do governo desde o início, não era fácil conseguir alimentos básicos. Não há razão para acusar o chamado “embargo” pelas carências reinantes.

Lembro-me do período que passei em Sierra Maestra, na província oriental de Cuba, como alfabetizador. Eu sorria quando o velho dono da casa onde eu estava me dizia que gostaria que houvesse azeite de oliva novamente ali, em tamanha quantidade que se poderia tomar banho nele. Nossa dieta básica lá era banana-da-terra cozida.

À medida que a escassez aumentava e o Ministério do Comércio Interno atribuía a cada família uma caderneta de abastecimento alimentar, limitando o que podia ser retirado mensalmente dos armazéns, houve mais e mais dificuldades. Cuba sempre foi um país agrícola que produzia o que o povo consumia e muito mais. Agora o camponês era obrigado a vender seus produtos ao governo, ao preço que este decidia pagar.  Nunca houve motivo para que a cana-de-açúcar, produzida no país como em nenhum outro lugar, fosse distribuída por meio de racionamento.

Foi fácil guardar o sábado?

Não, nunca foi fácil em Cuba guardar o sábado durante o longo governo comunista de mais de seis décadas. Tem sido um grande teste de fé para os adventistas pedir a seus chefes que lhes permitam cobrir as horas de sábado em outros turnos durante a semana.  Acredito sinceramente que esse é um teste permanente para os fiéis de Deus em qualquer país e sistema político, mas você pode imaginar o que significa estar sob um sistema em que há apenas um chefe de trabalho: o governo? Se a Igreja Adventista guarda fielmente o sábado há mais de 60 anos, isso só pode ser explicado por meio de milagres.

Outro problema sério foi visto nas salas de aula. Até a sexta série não havia aula aos sábados, no entanto, quando nossos adolescentes iam para o ensino médio, não só era obrigatório o comparecimento, mas também os exames principais eram feitos naquele dia. Isso frustrava nossos jovens, que eram obrigados a repetir o mesmo curso todos os anos. No ensino superior, o caso era ainda pior, pois nossos jovens não poderiam ter cursos universitários, a menos que fizessem parte do Partido Comunista da Juventude (UJC) e, claro, frequentassem as aulas aos sábados. Durante os 21 anos que fiquei em Cuba, não ouvi dizer que um jovem adventista pudesse se formar em uma universidade.  Se bem me lembro, no fim dos anos 1960, o jovem Reinaldo Pelicié chegou bem perto. No dia do exame final, professores lhe colocaram o seguinte dilema: “Pelicié, você está para fazer seu último exame, mas tem que responder a esta pergunta: ‘Você ainda acredita em Deus?’ Quando ele respondeu afirmativamente, ali mesmo o direito ao exame lhe foi negado e ele jamais pôde ser médico como havia sonhado.

Admiro a visão dos líderes de nossas igrejas que, assim que essa dificuldade começou a ser apresentada, compensaram a falta de educação de nossos jovens criando um departamento de música para ensinar-lhes a tocar instrumentos musicais, em todo o país. Isso fez com que tivéssemos toda uma geração capaz de praticar música, tanto instrumental quanto cantada. Honremos a memória de homens como os professores Félix Spengler e David Carvajal, entre outros, que prestaram tão digno serviço.

Existe liberdade para evangelizar hoje?

Visto que o comunismo considera a religião um potencial inimigo ideológico, o proselitismo ou o exercício do evangelismo nunca foi abertamente permitido em Cuba.  Já na década de 1990, época que o governo designou como um “período especial” (sem mais apoio e recursos da extinta União Soviética), alguns evangelistas, como o pastor Alejandro Bullón, foram autorizados a apresentar campanhas públicas. Eu mesmo fui convidado, entre outros evangelistas, a liderar uma campanha multipartidária sob a direção do então presidente da Associação Geral Robert Folkenberg. Não temos dúvidas de que isso aconteceu por obra e graça de Deus. Foi a grande oportunidade para milhares de pessoas de conhecer Jesus. Num sistema comunista, em princípio ateu, quando isso acontece é porque se vê uma vantagem estratégica. Seja o que for, Deus Se manifestou.

Na Cuba comunista não houve liberdade, mas, às vezes, tolerância. No fundo, o Partido Comunista vê o cristão com a Bíblia nas mãos muito mais perigoso do que o inimigo com uma metralhadora. O religioso é seu inimigo ideológico mais temido.

A mídia é controlada lá?

Enquanto estive em Cuba, a internet não era conhecida. O único meio de comunicação que tínhamos para saber sobre nossos parentes no exterior era o telefone. Como não tínhamos nosso próprio telefone e as ligações eram extremamente caras para nosso baixo orçamento, podíamos fazê-lo uma ou duas vezes por ano por cerca de dez a quinze minutos cada vez. O outro meio mais utilizado eram as cartas, que demoravam dois ou três meses a chegar às nossas mãos. Atualmente, soubemos que as pessoas têm permissão para usar a internet em seus telefones celulares, desde que um parente de fora de Cuba possa pagar por eles. Quanto ao controle de uso, é claro que existe e temos provas disso em função dos incidentes ocorridos desde 11 de julho passado.

Os programas de rádio e televisão de nossa igreja nunca foram permitidos sob Fidel.  Embora o programa de rádio “La Voz de la Esperanza” tenha nascido em Havana em 1942 e fosse transmitido todos os domingos até os primeiros anos do governo comunista, foi suspenso e continua assim até hoje.

Quando você saiu de Cuba e por quê?

Quando me casei em 1969, a família de minha esposa já tinha planos de partir para os Estados Unidos. O pai da minha mulher, depois de trabalhar arduamente para construir o negócio da família, que consistia numa fábrica de tijolos e materiais de construção, teve que enfrentar a dor da intervenção do governo em tudo. A livre iniciativa não é permitida sob o regime comunista; tudo deve ser controlado pelo governo. Meu sogro, sendo pai de uma numerosa família de filhas, achou necessário sair em busca de um futuro para elas. De nossa parte, ficamos onze anos em Cuba esperando a oportunidade, quase impossível, de que algo acontecesse e nos encontrássemos novamente. Finalmente, conseguimos fazê-lo depois que deixamos Cuba, via Costa Rica, em meados da década de 1980. Quando tinha dez anos, nossa filha pôde abraçar seus avós e tias que não conhecia.

Por que o povo se rebelou agora, desafiando o regime?

Em 11 de julho, uma revolta massiva ocorreu em quase cinquenta cidades de Cuba – um evento sem precedentes. Em sua maioria jovens, aqueles que nasceram e foram criados sob o comunismo, sem armas nas mãos a não ser o despertar pela reivindicação de seus direitos à liberdade de expressão. Embora talvez a faísca que acendeu o pavio tenha sido a condição em que vive a nação diante da Covid-19, a falta de remédios e alimentos, o que tenho ouvido nas gravações de vídeo que esses mesmos manifestantes colocaram na internet, é que a razão é a falta de liberdade que sufoca os cubanos há muitos anos.  Agora vemos uma nova geração de jovens que não quer continuar vivendo como seus pais e avós. Eles reivindicam seus direitos de viver como os líderes de um país cujo conforto não passa mais despercebido pelo povo.

Cito as palavras de Abraham Lincoln: “É possível enganar todas as pessoas parte do tempo, ou enganar parte das pessoas o tempo todo, mas é impossível enganar todas as pessoas o tempo todo.”

Suas últimas palavras.

Por favor, elevem a Deus suas orações pelo povo cubano. Exorto-vos também a orar pelo vosso próprio povo, seja ele qual for, para que desfrute por mais tempo de um dom inestimável como a liberdade de sentir, pensar, falar e acreditar.

Você não precisa ter um conhecimento profundo da Bíblia ou de religião para perceber que o mundo está passando pela fase mais difícil e preocupante da história. Tanto física, quanto moral, política e religiosamente, tudo indica que chegamos a um ponto sem volta. Em breve será estabelecido o único governo perfeito cujo governante guiará Seu povo pelos caminhos da justiça em direção a um futuro de felicidade e estabilidade eternas. Estou esperando por aquele país cujo presidente é Jesus Cristo.

(Colaborou: pastor Francis Giovanella)