Sexo antes do casamento

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Estudo feito pela psicóloga Paige Harden, da Universidade do Texas, e publicado na revista Psychological Science, mostrou que a primeira relação sexual pode influenciar a qualidade e a estabilidade das relações afetivas futuras. Quando a primeira relação sexual ocorre por volta dos 19 anos, isso está associado a maior escolaridade e renda familiar e menos parceiros na vida adulta. Os parceiros casados que adiaram a primeira experiência sexual também reportaram baixos níveis de insatisfação conjugal.

Paige explica que aqueles que primeiro acumulam maturidade cognitiva e emocional e depois entram em relações íntimas aprendem habilidades de relacionamento mais eficazes do que aqueles que têm relações sexuais ainda na adolescência.

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Lição dos Juvenis: buscando e encontrando

O que falta para o decreto e a perseguição?

A teologia negra de James Cone (conclusão)

A obra de James Cone contém muitas ideias úteis na luta contra o racismo, mas pode representar um afastamento do ensino bíblico em alguns pontos.

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Não podemos ser insensíveis às experiências e memórias dramáticas que moldaram a retórica e a teologia de Cone. O terror racial e o histórico de linchamentos e humilhações sofridos pelos negros nos Estados Unidos não podem ser deixados de fora de nossas abordagens teológicas à questão racial. Ainda existem teologias que servem à ideologia de supremacia branca, e estas devem ser continuamente denunciadas e combatidas, pois distorcem a Palavra de Deus em seus fundamentos.

Cone está totalmente correto ao afirmar que a “essência do evangelho em Cristo permanece ou recai na questão da humanidade negra e não existem formas de uma igreja ou instituição estar relacionada ao evangelho de Cristo e se apoiar ou tolerar qualquer forma de racismo”.[1]

A teologia negra, de maneira tocante, coloca um holofote sobre o vínculo histórico entre os negros e a fé em Jesus. Os negros escravizados e seus descendentes encontraram em Jesus “um amigo que conhece os problemas dos pequeninos e é a razão do ‘Aleluia’ deles”.[2] Como Cone aponta corretamente, a cruz está no centro da histórica espiritualidade cristã negra, pois também revela a solidariedade de Jesus com os negros em seu sofrimento.[3]

A teologia negra também contribui positivamente ao trazer para o ambiente eclesiástico a urgente discussão sobre o racismo.[4] Os recentes apelos por uma igreja que se levante mais abertamente contra o racismo são necessários, mas eles precisam ser feitos a partir de uma plataforma que não negue a autoridade das Escrituras. E é nesse ponto que, numa perspectiva adventista, a teologia negra apresenta características que merecem uma avaliação mais ponderada: a experiência negra não pode substituir a Bíblia como fundamento.

Dada a natureza deste artigo, certamente não é possível fazer aqui uma avaliação exaustiva de todo o corpus teológico de Cone (a escatologia, por exemplo, ficou de fora). Mas as citações utilizadas, que saltaram aos olhos em leituras prévias, parecem ser representativas da teologia negra. A obra de Cone contém muitas ideias úteis na luta contra o racismo, mas pode representar um afastamento do ensino bíblico em alguns pontos.

Para não cair no erro do anacronismo, a avaliação feita aqui procurou levar em conta o contexto histórico de cada declaração. Além disso, no prefácio da edição de 1997 de God of the Oppressed, Cone reafirmou o que havia escrito nos anos 1970: “Exceto pela incorporação de uma linguagem inclusiva, pouco mudou nesta edição [de 1997] de God of the Oppressed. Ainda representa minha perspectiva teológica básica.”[5]

Em poucas palavras, embora sua teologia tenha sido desenvolvida em fases, Cone não apresentou nenhuma drástica ruptura com suas visões teológicas iniciais. Ele apenas reafirmou e explicou melhor suas antigas convicções teológicas básicas numa retórica mais suave. Aparentemente, ele manteve o que escreveu em 1970, em A Black Theology of Liberation, até o fim da vida.

Além disso, suas posições mais preocupantes são explícitas. Um leitor não precisa conhecer toda a moldura teórica, histórica, e todos os detalhes conceituais da teologia de Cone para perceber que algumas ideias estão em oposição à Bíblia e ao espírito do evangelho. Em outras palavras, não é preciso um conhecimento profundo de história negra, Tillich, Barth ou Marx para perceber problemas nas ideias de Cone.

A cristologia da teologia negra é um ponto que também merece consideração. Como todas as teologias da libertação, a teologia negra coloca muita ênfase no aspecto humano de Jesus. Há uma identificação total e irrestrita entre Cristo e o ser humano. No entanto, o quadro cristológico completo encontrado na Bíblia traz um Cristo divino-humano, imanente e transcendente, que conhece a experiência humana, mas que é “o resplendor da Glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hb 1:3 NVI), “santo, inculpável, puro, separado dos pecadores, exaltado acima dos céus” (Hb 7:26 NVI).

A pergunta de Jesus a Seus discípulos “quem dizeis que eu sou?” (Mt 16:15) precisa ser respondida sem rodeios não apenas pela teologia negra, mas por todas as teologias identitárias da libertação (feminista, queer, mulherista, etc.). O enfraquecimento de doutrinas como a autoridade das Escrituras, o pecado humano e a natureza de Cristo não são problemas exclusivos da teologia negra.

Cone afirma que “nossas ideias intelectuais sobre Deus, Jesus e a Igreja foram derivadas de teólogos brancos europeus e seus livros”,[6] e por isso é preciso construir “um novo movimento teológico”[7] sobre outras bases. Como exemplos de teólogos brancos que supostamente teriam moldado nossas ideias, Cone cita Barth, Tillich e Bultmann. E isso levanta a pergunta: Em nome de quem Cone fala quando diz que nossas ideias vêm desses homens? É inegável a influência desses teólogos brancos, mas é igualmente inegável que grande parcela do protestantismo e do evangelicalismo têm verdadeira aversão à teologia deles, especialmente setores mais teologicamente conservadores.

Além disso: O valor e a verdade de um argumento teológico dependem da origem étnica de quem fala? A verdade continua sendo verdade mesmo quando proferida por judeus do século 1, ou africanos como Atanásio e Agostinho, ou um asiático do século 21. Nos primeiros séculos da era cristã, as verdades bíblicas já ecoavam na Etiópia enquanto a Europa ainda era quase completamente pagã. Por outro lado, o próprio Cone reconhece que parte de seu pensamento foi construído sobre Barth e Marx (brancos europeus). Assim, a justificativa que Cone dá à necessidade de um novo movimento teológico baseado em critérios étnicos e raciais não parece ser um forte argumento.

O que a teologia negra faz, propositalmente ou não, é chamar doutrinas bíblicas centrais de “teologia branca”, e então descartá-las. Ronilso Pacheco, por exemplo, denuncia a “identidade branca da igreja que herdamos, ou a branquitude da identidade da mesma”, o que ele chama de “imaginário branco de ser igreja”.[8] Para ele, o que chamam erroneamente de “teologia de verdade” seria apenas uma visão teológica particular de nomes como Abraham Kuyper, James Orr e Wihelm Dilthey.

No entanto, essa descrição de Pacheco é parcial, e omite duas coisas importantes: (1) existem crenças ortodoxas historicamente compartilhadas por toda a cristandade desde a época em que a igreja cristã era composta majoritariamente por judeus oprimidos num império romano; (2) a teologia negra não está apenas rejeitando o neocalvinismo, o fundamentalismo ou a teologia colonial europeia da “igreja branca”, está rejeitando as crenças bíblicas centrais e históricas do cristianismo.

Levanto aqui algumas questões que podem ser úteis à reflexão sobre a teologia negra. Ao lançar mão da metodologia histórico-crítica, de pressupostos da teologia liberal, das categorias do pensamento marxista e das reflexões de teólogos como Tillich, Niebuhr e Barth – por que a teologia negra estaria isenta do problema da “branquitude”? Ou a branquitude só afeta os defensores da ortodoxia doutrinária?

Por que a crítica da teologia negra brasileira às “hermenêuticas engessadas, históricas e hegemônicas” e a defesa da teologia decolonial como uma resposta ao pensamento “eurocêntrico-estadunidense” não são afetadas pelo fato de se apoiarem nas “reflexões postas por James Cone, Jacquelyn Grant, Cornell West [sic], Gayraud Wilmore”,[9] todos eles estadunidenses? Isto é, não há nenhum problema no fato de a teologia negra brasileira ser uma novidade importada (com algum atraso) dos Estados Unidos? Não há nenhum problema de colonização em mimetizar discursos estadunidenses, categorias de análises surgidas no contexto estadunidense, e até importar neologismos da língua inglesa e incorporá-los à versão brasileira da teologia negra?

A denúncia do racismo entre as igrejas evangélicas é extremamente necessária. E algumas iniciativas nesse sentido têm levado a sério as questões históricas, sociológicas e teológicas, amparadas em dados estatísticos.[10] No entanto, existem denúncias feitas sem fundamentação, reproduzindo apenas senso comum e generalizações, como a afirmação de que a “igreja brasileira tem em seu DNA uma forte aliança com as mentalidades escravocratas do Sul dos Estados Unidos”, e coopera “para a manutenção de pensamentos racistas”, cuja hermenêutica é “um olhar branco europeizado”.[11] Há verdades nessas denúncias, mas isso inclui, generalizadamente, os pentecostais brasileiros? Inclui, indiscriminadamente, as diversas denominações historicamente abolicionistas e do Norte (como a IASD)?

O que fazer com a crença teologicamente conservadora dos negros (que são maioria nas igrejas evangélicas brasileiras[12])? Estaria a teologia das igrejas evangélicas e pentecostais (a religião mais negra do Brasil[13]) incluída nessas críticas? A crença histórica dos negros nas doutrinas ortodoxas, incluindo a crença na Bíblia como inspirada e infalível Palavra de Deus e na doutrina da expiação pelo sangue de Jesus, faz parte das “hermenêuticas engessadas” e “olhar branco europeizado”?

Em outras palavras: O que a teologia negra pretende fazer com o fato de a maioria dos protestantes e evangélicos negros, estadunidenses ou brasileiros, acreditarem nas principais doutrinas ortodoxas? Aqui surge novamente a pergunta: Se a teologia negra não representa a crença dos cristãos negros, quem ela representa?

Portanto, sob o pretexto de rejeitar a “igreja branca”, a teologia negra rejeita a doutrina dos apóstolos e do próprio Jesus, e a crença histórica de milhares de negros. Ao rejeitar a doutrina bíblica da expiação, da substituição, e remover a cruz do centro, dizendo que Jesus morreu “(quase) voluntariamente”, a teologia negra não está combatendo o ensino de uma suposta igreja branca, mas um ensino bíblico. Quando James Cone remove a Bíblia da base da teologia cristã e assume que sua experiência pessoal e comunitária é a base, ele não está rejeitando um ensino da suposta igreja branca, mas um ensino do Novo Testamento.

Ao vincular a revelação, a verdade e o conhecimento de Deus exclusivamente à teologia e à experiência negra, Cone gera uma espécie de “gnosticismo étnico”.[14] Acreditar que algumas pessoas, por causa de sua etnicidade, são capazes ou não de entender alguma verdade sobre Deus não encontra nenhum respaldo na Bíblia.

Firmado na autoridade da experiência negra, Cone reinterpretou conceitos bíblicos como revelação, verdade, pecado e evangelho de formas consistentes com seu projeto de libertação negra. Mas a falha central de sua teologia negra é exatamente essa insistência axiomática de que a Bíblia deve ser lida através das lentes da experiência negra. Um cristão bíblico adventista, de qualquer etnia, acredita que o texto bíblico tem significado objetivo e que a verdade revelada pode ser aprendida fora da experiência negra, ou da experiência feminina, ou de qualquer outra experiência identitária.

Como apontou o teólogo negro Anthony Bradley: “O que é mais desconcertante sobre a reflexão de Cone é sua falta de confiança nas Escrituras […] para fornecer ferramentas suficientes para analisar a cultura”.[15] O vínculo entre a teologia negra de Cone e o marxismo é inegável, e sua sugestão de que o marxismo seria o melhor método para ler a realidade tem implicações hermenêuticas sérias. De fato, um estudante da Bíblia precisa estar ciente das forças ideológicas que moldam a nossa cultura, mas não precisa escolher uma delas e transformá-la em autoridade máxima, ou numa lente para ler até mesmo a Bíblia.

Na epistemologia da teologia negra, as verdades da Bíblia são acessíveis apenas a certos grupos étnicos, e a experiência desse grupo está acima do lema protestante Sola Scriptura. Assim, a Bíblia não pode ser a única regra de fé e prática, e deve ser submetida a outro padrão de julgamento. Cristãos bíblicos simpáticos à teologia negra não podem continuar sem avaliar se isso é aceitável.

Finalmente, o pragmatismo de Cone também compromete a fidelidade à sã doutrina. A partir da pergunta pragmática “para que serve essa teologia?”, a Bíblia pode ser arrastada a qualquer tribunal hermenêutico, e julgada pela experiência, interesses e necessidades específicos de qualquer grupo. A superênfase na imanência, na transformação histórica, no aqui e agora, em vez de “uma nova vida no céu” [16] também pode fazer o peregrino cristão se preocupar demais com a estrada e esquecer o horizonte, o destino final.[17]

Embora a teologia negra ainda seja um movimento periférico no protestantismo e evangelicalismo brasileiro, é possível ouvir os ecos da teologia de Cone em publicações e discussões nas redes socias, especialmente entre jovens. Por isso, é interessante que os cristãos se familiarizem com sua obra, e avaliem as suas suposições, sua retórica, seus fundamentos e as consequências de aceitar suas sugestões teológicas.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)

Leia também as partes 1, 2, 3 e 4 (aqui).


[1] CONE, 2020b, p. 68.

[2] CONE, 2011, p. 21.

[3] CONE, 2011, p. 21.

[4] Para uma abordagem cristã à questão racial, que inclui reflexões sobre arrependimento, racismo sistêmico, reparação histórica e fim do pensamento etnocêntrico, ver PIPER, John. O racismo, a cruz e o cristão: a nova linhagem em Cristo. São Paulo: Vida Nova, 2012.

[5] CONE, 1997, p. xi.

[6] CONE, 1977, p. 148.

[7] CONE, 1977, p. 149.

[8] PACHECO, Ronilso. A igreja branca tem que acabar. Folha de São Paulo. 09 jan. 2020. Disponível em: https://bit.ly/341tmVV. Acesso em 26 set. 2020.

[9] PACHECO, Ronilso. A Teologia Negra no Brasil é decolonial e marginal. CrossCurrents, v. 67, n. 1, (p. 233-242) 2017. p. 234.

[10] Como, por exemplo, OLIVEIRA, 2015 e PIPER, 2012.

[11] GUIMARÃES, André. Jesus: exemplo de resistência e esperança para promoção de direitos e vida do povo negro. PACHECO, Ronilso; MOURA, João Luiz (orgs.). Jesus e os direitos humanos: porque o reino de Deus é justiça, paz e alegria. Rio de Janeiro: Vlado, 2018. (p. 59-72) p. 66-67.

[12] ROMANO, Giovanna. Datafolha: Mulheres e negros compõem maioria de evangélicos e católicos. Veja. 13 jan. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3czy00X. Acesso em 26 set. 2020.

[13] OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil: por que os negros fazem opção pelo pentecostalismo? Viçosa: Ultimato, 2015.

[14] Ouvi essa expressão em uma palestra do dr. Voddie Baucham a respeito do racismo, disponível em: https://youtu.be/Ip3nV6S_fYU. Acesso em 25 set 2020.

[15] BRADLEY, Anthony B. Liberating Black Theology: The Bible and the Black Experience in America. Wheaton: Crossway, 2010. p. 119.

[16] CONE, 1990, p. 127.

[17] Essa ideia do peregrino que se apaixona pela estrada e se esquece do horizonte eu ouvi do teólogo Igor Miguel. Infelizmente não pude encontrar uma fonte para referenciar.

Amamentação reduz risco de AVC e doenças cardiovasculares

Estudos mostram que a prática traz inúmeros benefícios ao bebê e também à mãe.

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No mês de agosto celebramos o Agosto Dourado, ação conhecida mundialmente que tem como propósito orientar e incentivar o aleitamento materno. A amamentação tem uma série de pontos positivos não somente à saúde do bebê, mas também para a saúde das mamães. 

Um deles é a prevenção e a redução de chances de doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral (AVC). Um estudo desenvolvido por pesquisadores dos Estados Unidos e publicado no Jornal da Associação Americana do Coração aponta que as mulheres que amamentaram seus filhos por mais de seis meses tiveram 23% menos chance de sofrer um AVC. Por outro lado, a probabilidade negativa de ter o problema de saúde reduz para 19% para aquelas que proveem o aleitamento aos filhos até os seis meses. Sendo assim, os pesquisadores concluíram que o risco diminui à medida que o período de amamentação se estende.

De acordo com a neurocirurgiã Danielle de Lara, que atua no Hospital Santa Isabel (Blumenau, SC), durante a gravidez o metabolismo da mulher é alterado pois o corpo passa a armazenar gordura para fornecer a energia necessária à gestação do bebê. “Ao amamentar, a mulher possibilita que o corpo acelere a perda de peso e a eliminação dessa gordura armazenada de forma mais rápida e efetiva e isso auxilia na melhoria da saúde cardiovascular, evitando doenças cardíacas. Além de reduzir a possibilidade de ambos terem problemas cardíacos, a amamentação auxilia também na redução da mãe desenvolver câncer de mama ou dos ovários, diabetes e artrites”, comenta Danielle de Lara. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o leite materno deve ser a única fonte de alimentação do bebê em seus primeiros seis meses de vida. “O alimento é rico em proteínas, açúcares, gorduras, vitaminas, água e glóbulos brancos o que leva a prevenção de diversas doenças ao bebê como infecções e alergias.”

Leia mais sobre leite materno e amamentação aqui.

Comentário da Lição: ciclos do descanso

Lição dos Adolescentes: Jesus gostava de ter crianças por perto

A teologia negra de James Cone (parte 4)

A ideologia política e a teologia negra

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A teologia negra de Cone é uma teologia política: “Não pode haver uma teologia cristã que não seja social e política.”[1] A luta política “contra a pobreza e a injustiça não só é coerente com o evangelho, mas é o próprio evangelho de Jesus Cristo”.[2] Cone apresenta o movimento Black Power como uma revelação divina: “A política do Black Power era o evangelho de Jesus para a América do século 20.”[3] Cone alertou para a necessidade de desenvolver uma teologia negra capaz de “justificar nossa definição de Black Power como uma expressão do evangelho cristão”.[4] Para ele, o conceito de verdade só pode ser conhecido no contexto da luta política: “Não há verdade sobre Yahweh a menos que seja a verdade da liberdade conforme esse evento é revelado na luta do povo oprimido por justiça neste mundo.”[5]

Ou seja, o conhecimento de Deus só pode existir na luta política: “Não há conhecimento de Yahweh exceto por meio da atividade política de Deus em nome dos fracos e desamparados da terra.”[6] A revelação divina é um evento político: “A revelação é um acontecimento negro, quer dizer, aquilo que o povo negro está fazendo por sua libertação.”[7] Para Cone, a teologia deve falar sobre a libertação política, pois isso é o evangelho: “A essência do evangelho éa libertação dos oprimidos da humilhação sociopolítica para uma nova liberdade em Cristo Jesus (e não vejo como alguém pode ler as Escrituras e concluir o contrário).”[8]

Esses elementos definitivamente mostram que a teologia negra é uma teologia política, e que “a teologia é uma linguagem política”.[9] Além de dizer que a essência do evangelho é a libertação política, Cone recorre extensa e explicitamente aos escritos de Karl Marx para embasar seus conceitos.[10] Ele defende a necessidade de incluir a “análise social marxista” na compreensão cristã da injustiça e até nas doutrinas:

O marxismo como método de análise social pode servir como instrumento para descobrir o que os governantes tentam esconder. [...] Os cristãos precisam aplicar o método de análise de Marx não apenas às doutrinas e práticas de suas igrejas, mas também e especialmente aos pronunciamentos e práticas públicas de seu governo.[11]

Cone acrescenta: “A importância de Marx para nossos propósitos é sua insistência em que o pensamento não tem independência da existência social”.[12] O que Cone (através de Marx) está afirmando é que a teologia é condicionada pela sua localização social; e não é possível uma teologia objetiva. Em vez disso, “[nossas] ideias sobre Deus são reflexos do condicionamento social”.[13]

Como Cone vê a teologia como um produto social, um “discurso subjetivo sobre Deus”,[14] ele fica à vontade para propor – antes do labor teológico – uma leitura marxista da realidade, com todas as suas categorias de análise, incluindo a “prática revolucionária da classe proletária, derrubando as condições sociais injustas”.[15]

Cecil Cone, irmão de James Cone, tentou reverter essa visão e apresentar a teologia negra como teologia religiosa,em vez de uma teologia política, afirmando que “o ponto de partida da religião negra não é, pois, a política, e sim Deus”.[16] No entanto, a declaração sobre a teologia feita pela Commission of the National Conference of Black Churchmen em 1976 apresenta a teologia negra não apenas como uma teologia política, mas como teologia política socialista:

Como algumas formas de socialismo, em termos de humanismo e de cooperação, são mais cristãs e promovem mais a justiça e a moralidade que o capitalismo americano, a teologia negra não abre mão da exploração de alternativas socialistas para a idolatria do dólar, para o individualismo caótico e para o materialismo corrosivo da economia e do sistema político americano” (Statement by the Theological Commission of the National Conference of Black Churchmen,1976).[17]

Pessoalmente, Cone defendeu uma aproximação entre as igrejas negras e o marxismo em 1980,[18] e o movimento Black Power e o partido dos Panteras Negras também assumiram o marxismo como ideologia-base para sua atuação.[19] Cone chega a fazer um apelo: “Um encontro sério com Marx fará os teólogos confessarem suas limitações, sua incapacidade de dizer algo sobre Deus que não seja ao mesmo tempo uma declaração sobre o contexto social de sua própria existência.”[20]

Cone diz que o guerrilheiro e ex-sacerdote colombiano Camilo Torres “estava certo quando descreveu a ação revolucionária como ‘uma luta cristã, sacerdotal’”.[21] Camilo Torres, que morreu empunhando uma arma, embora não fosse exatamente um marxista, também via no marxismo “uma ferramenta útil para as suas ideias”.[22]

A visão pragmática foi essencial para o surgimento da teologia negra como uma teologia política. “A questão central que deu origem à teologia negra foi: ‘O que o evangelho de Jesus tem a ver com a luta dos negros oprimidos por justiça na sociedade americana?’”[23] Cone faz uma pergunta: “De que adianta um ponto teológico se não for útil na luta dos negros pela liberdade?”[24] Assim, para a Cone, a teologia branca não passa de “um exercício burguês de masturbação intelectual”.[25]

Aqui surge um problema, pois a pergunta pragmática “para que serve essa teologia?” talvez seja útil em algumas reflexões missiológicas, mas ela não pode ser o guia seguro da teologia. A pergunta da teologia não é “para que serve isso?”, mas “isso é verdade?”. Nas palavras do diabo de C. S. Lewis:

Ele [o homem que o diabo aprendiz deveria tentar] não classifica as doutrinas essencialmente em “verdadeiras” ou “falsas”, mas como “acadêmicas” ou “práticas”; “ultrapassadas” ou “contemporâneas”; “convencionais” ou “opressoras”. É o jargão, e não o argumento, o seu maior aliado para mantê-lo longe da Igreja.[26]
“Acredite nisso não porque seja verdade, mas por alguma outra razão.” Esse é o jogo.[27]

O pragmatismo (“para que serve essa teologia?”) acima da fidelidade às Escrituras leva à inversão na escala da autoridade; a Bíblia se torna mero instrumento – e a instrumentalização das Escrituras para fins políticos era exatamente o que a teologia negra pretendia denunciar na teologia branca.

O pragmatismo afeta o conceito que Cone tem da verdade. Citando Marx, Cone afirma que a verdade “não é uma questão de teoria, mas uma questão prática”.[28] Em vez de um conceito ou uma ideia, a verdade “é um acontecimento libertador”.[29] Por isso, ele elogia Marx por destacar “o papel da economia e da política na definição da verdade”.[30]

Em poucas palavras, para Cone, não basta a teologia ser política: ela precisa ser de esquerda, com viés marxista.[31] Isso fica muito nítido em seus livros, e também em detalhes como o fato de Paulo Freire[32] ter escrito o prefácio de Teologia Negra, e Henrique Vieira, pastor batista e militante do PSOL, ter feito a apresentação da versão em português de Deus dos Oprimidos.

Uma questão incontornável surge então: se a teologia negra é definida como a “teologia feita pelo povo negro para o povo negro”,[33] como define Ronilso Pacheco, então o povo negro deve ser marxista em sua análise? O que cristãos negros não marxistas deveriam pensar e fazer a respeito disso?

Outra questão pertinente é: Se não existe verdade objetiva (Cone chama isso de “suposição ingênua” e “ridícula”[34]), e a suposta verdade teológica é sempre subjetiva e determinada pelo contexto social, como é possível explicar a histórica existência de comunhão entre cristãos pobres e ricos, negros e brancos em torno de crenças comuns? Ou essa comunhão é falsa? Como explicar a semelhança doutrinária entre denominações e grupos cristãos surgidos de realidades socialmente tão distintas?

Como a leitura marxista proposta por Cone poderia explicar o fato de que, em muitos momentos da história, a defesa cristã da ortodoxia teológica (supostamente o discurso de uma classe dominante) representou perda de prestígio social, marginalização e até risco de morrer? Se nossas “ideias sobre Deus são o reflexo do condicionamento social”,[35] essas ideias deveriam se organizar socialmente: cristãos ricos e cristãos pobres jamais poderiam compartilhar as mesmas crenças.[36] Como explicar que um quaker rico do século 19 compartilhava as mesmas ideias sobre Deus com uma ex-escrava como Sojourner Truth? Como pessoas influentes e cheias de prestígio social como os membros da Seita de Clapham poderiam ter basicamente as mesmas ideias sobre Deus que Olaudah Equiano? A realidade da história do cristianismo simplesmente ignora essa distinção teórica marxista.

E como explicar o fato de que pessoas de uma mesma condição social mantenham ideias distintas sobre Deus? É muito óbvio que pobres mantêm crenças teológicas distintas entre si (e ricos também), e atribuir isso a algum tipo de condicionamento ou doutrinação burguesa é subestimar demais a capacidade cognitiva de seres humanos. Me parece que a leitura marxista sobre a “força intelectual dominante” não dá conta de explicar a complexidade do fenômeno.

Ao se lembrar de alguns teólogos brancos abolicionistas, Cone percebe essa dificuldade, e admite timidamente que “a existência social não é algo necessariamente mecânico e determinista”, pois “o evangelho concede às pessoas a liberdade de transcender sua história cultural e afirmar uma dimensão de universalidade comum a todos os povos”.[37] Afinal, a verdade é subjetiva e socialmente condicionada? Ou ela é objetiva e universal?

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)

Leia também a parte 3 deste artigo (aqui).


[1] CONE, 2020a, p. 137.

[2] CONE, 2020a, p. 136 (ênfase no original.

[3] CONE, 1984, p. 32.

[4] CONE, James H. Black Theology and the Black Church: Where Do We Go From Here? CrossCurrents, v. 27, n. 2, (p. 147-156), 1977. p. 148.

[5] CONE, 1997, p. 57.

[6] CONE, 1997, p. 59.

[7] CONE, 1990, p. 40-54.

[8] CONE, 2020a, p.102-103 (ênfase no original).

[9] CONE, 2020a, p. 95.

[10] CONE, 1997, p. 38; CONE, 2020a, p. 89-95.

[11] CONE, 1997, p. 186-187.

[12] CONE, 1997, p. 39.

[13] CONE, 1997, p. 41.

[14] CONE, 2020a, p. 89.

[15] CONE, 2020a, p. 90.

[16] CONE, Cecil. The Identity Crisis in Back Theology. Nashville: AMEC Publishing, 1975. p. 141.

[17] CONE, James; WILMORE, G. Black Theology: a Documentary History, 1966-1979. Maryknoll: Orbis Books, 1979. p. 340-344.

[18] CONE, James H. The Black Church and Marxism: What Do They Have to Say to Each Other? New York: Institute for Democratic Socialism, 1980.

[19] GIBELLINI, 2012, p. 412-413.

[20] CONE, 2020a, p. 91.

[21] CONE, 2020b, p. 56.

[22] ZILCH, Evlyn Louise (trad.). Camilo Torres, “uma figura incômoda para a direita e a esquerda”. IHU Unisinos, 21 jan. 2016. Disponível em: <https://bit.ly/3nss8w9&gt;. Acesso em: 14 fev. 2021.

[23] CONE, 1984, p. 80.

[24] CONE, 1984, p. 34.

[25] CONE, 2020a, p. 97.

[26] LEWIS, C. S. Cartas de um diabo a seu aprendiz. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. p. 18.

[27] LEWIS, 2017, p. 128.

[28] CONE, 2020a, p. 90.

[29] CONE, 2020a, p. 320.

[30] CONE, 2020a, p. 90.

[31] É curioso observar como muitos proponentes de uma teologia política como a teologia negra pretendem denunciar o envolvimento de pastores e igrejas com a política conservadora e economicamente liberal. Me parece que o problema não é a atuação política de líderes religiosos, mas o envolvimento com o “outro lado” do espectro ideológico. Em poucas palavras: o problema desses líderes religiosos criticados é estar do lado errado.

[32] Apesar de não ser exatamente um marxista, é inegável a forte presença de elementos marxistas no pensamento de Paulo Freire. Como ele mesmo disse em entrevista: “Eu fiquei com Marx na mundanidade, mas a procura de Cristo na transcendentalidade” (Disponível em: <https://bit.ly/3teweZP>. Acesso em 28 abr. 2021).

[33] VIEIRA, João. Teologia negra resgata conceito de igreja, fé e família entre evangélicos. 21 set. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3mUWoil.Acesso em 27 set. 2020.

[34] CONE, 2020a, p. 94.

[35] CONE, 2020a, p. 94.

[36] CONE, 2020a, p. 94.

[37] CONE, 2020a, p. 100.

Sindicatos se unem aos esforços ECOmênicos

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A COP26 Coalition é uma coalizão da sociedade civil sediada no Reino Unido de grupos e indivíduos que se mobilizam em torno da justiça climática durante a COP26. Líderes mundiais e especialistas se reunirão em Glasgow em novembro nas negociações globais sobre o clima, COP26. Os problemas globais precisam de soluções globais. As decisões tomadas na COP26 irão moldar a forma como os governos respondem (ou não) à crise climática. Eles decidirão quem deve ser sacrificado, quem escapará e quem terá lucro. Estamos reunindo movimentos de todo o mundo para construir poder para a mudança do sistema – movimentos indígenas, comunidades de linha de frente, sindicatos, grupos de justiça racial, grevistas jovens, trabalhadores rurais, camponeses, ONGs, campanhas comunitárias de base, movimentos feministas, grupos religiosos – para citar uns poucos. Onde quer que você esteja no mundo, agora é a hora de se juntar à luta por justiça climática. Precisamos de todas as mãos à obra: nos locais de trabalho, comunidades, escolas, hospitais e além das fronteiras nacionais.

A próxima reunião da bancada sindical ouvirá um relatório sobre as atividades desde nossa última reunião em julho, incluindo os secretários-gerais dos sindicatos e as mobilizações planejadas para Glasgow, Londres e outras partes da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Isso será seguido por uma discussão aberta dos participantes sobre as iniciativas em andamento nas regiões/nações para se mobilizarem para o dia 6 de novembro. Isso inclui conselhos sindicais e sindicais individuais com o objetivo de focar no apoio necessário para apoiar a organização, especialmente onde há lacunas, e como promovermos o bloco sindical/trabalhista. A reunião será concluída com uma breve visão geral do último relatório do IPCC “código vermelho para a humanidade” e o próximo Congresso do TUC.

Vamos nos organizar para a justiça climática na COP26!

(COP26 Coalition)

No começo do século 20, Ellen White escreveu: “Expulso do Céu, Satanás estabeleceu o seu reino neste mundo, e desde aquele tempo tem porfiado incansavelmente por afastar os seres humanos da lealdade a Deus. Usa o mesmo poder de que se serviu no Céu — a influência da mente sobre a mente. Os homens tornam-se tentadores dos semelhantes. Acariciam os fortes, corruptores sentimentos de Satanás, e exercem um poder dominante, coercivo. Sob a influência desses sentimentos, os homens ligam-se entre si, formando confederações, em sindicatos e em sociedades secretas. Há em operação no mundo forças que Deus não tolerará por muito tempo mais” (Carta 114, 1903).

“Em razão de monopólios, sindicatos e greves, as condições da vida nas cidades estão se tornando cada vez mais difíceis. Sérias aflições encontram-se perante nós; e sair das cidades se tornará uma necessidade para muitas famílias” (A Ciência do Bom Viver, p. 364).

Saiba mais sobre ECOmenismo nesta playlist.

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