Cubano manifesta revolta com narrativa falsa sobre a IASD em Cuba

Nunca permita que o nome de meu pai e dos adventistas cubanos seja usado para induzir a juventude brasileira a abraçar o comunismo, porque isso é uma infâmia e uma grande falsidade.

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Recentemente, uma revista eletrônica que se autointitula adventista, mas vive criticando a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) e defendendo pautas filosófica e teologicamente contrárias ao que ensina a IASD, tentou construir a narrativa falsa de que a igreja em Cuba teria apoiado o regime ditatorial comunista na ilha. Já publiquei aqui no blog e em meu canal no YouTube textos, entrevistas e vídeos (veja abaixo) que desmentem essa acusação leviana, mas abro espaço para mais um relato, de Argelio Rosabal Sotomayor, filho de Argelio Rosabal, o camponês que socorreu Che Guevara e seu bando revolucionário no início da revolução. Quando tomou conhecimento das mentiras da referida publicação, Argelio expressou revolta e enviou a seguinte mensagem:

“Em todos [os artigos da referida revista] a sombra da falsidade, o engano e as mentiras são vistos claramente. O que eles contam sobre a ajuda dada por meu pai tem muito de verdade, mas alegar que ele o fez a partir de ideais socialistas ou comunistas é uma mentira tão grande quanto uma catedral! Lembre-se de que tanto meu pai quanto os parentes e membros da igreja que o acompanharam e prestaram aquela ajuda, salvando a vida de um grupo de homens que estavam destinados a morrer nas mãos dos soldados de [Fulgêncio] Batista eram camponeses sem estudos nem qualquer formação ideológica. O que os levou a se envolver nisso foi apenas sua consciência cristã e humanitária, e nada mais. Na verdade, nenhuma dessas pessoas foi chamada a ocupar cargos no governo ou era membro do Partido Comunista. E posso dizer com total ênfase que meu pai sempre se recusou a pertencer a esse partido. Lembre-se de que os expedicionários e o próprio Fidel sempre negaram que fossem comunistas; só fizeram isso depois de chegar ao poder, enganando todos que colaboraram e os ajudaram, inclusive meu pai.

“Afirmar que há mais liberdades em Cuba do que no Brasil e nos Estados Unidos é uma zombaria da inteligência humana e de todos os que leem esse tipo de literatura. Mas quero acrescentar mais algumas coisas, com a experiência de quem viveu 40 anos nesse inferno comunista: em Cuba vigiam você 24 horas por dia, mesmo dentro de sua própria casa, porque você tem um organismo macabro, criado pelo próprio Fidel Castro, para garantir sua permanência no poder, os chamados Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), aqueles que mais sabem de sua vida e dos movimentos de sua família. Mas você também tem a Segurança do Estado, que trabalha em segredo e você nunca sabe quem são seus agentes, porque eles podem ser até seu próprio irmão. Essa agência tem a missão de informar sobre qualquer pessoa que considere não estar vivendo de acordo com os ditames do regime. Existem também as Brigadas de Resposta Rápida, criadas pelo decrépito comandante, a quem cabe fiscalizar as manifestações suspeitas de acordo com os princípios revolucionários. Essas gangues paramilitares carregam pedaços de madeira, barras de ferro, pedras e tudo o que estiver ao seu alcance para atacar e dissolver qualquer manifestação contra o regime. Mas também contam com membros do Partido Comunista, da União dos Jovens Comunistas (UJC), além de um exército de informantes e delatores. Essa é a liberdade política que existe em Cuba!

“Creio que é muito importante que a juventude adventista brasileira esteja plenamente ciente do que é a praga chamada comunismo e, em particular, aquela que está disseminada hoje em toda a América Latina, o castrocomunismo.

“Associar o nome e a figura de Argélio Rosabal à ideologia comunista é a maior bobagem que se pode ouvir em relação ao meu pai. Como expliquei, meu pai nunca foi comunista e ajudava os desembarcados. Em 1956 não foi por ideais políticos ou patrióticos [que ele fez o que fez]; ele o fez simplesmente por causa de sua consciência cristã e humanitária; porque eles estavam matando todos como apareciam. Mas digo mais: pouco depois do triunfo da revolução, quando ninguém sabia que eram comunistas, porque em todo o tempo o negaram, a primeira coisa que fizeram foi enfrentar as religiões, a ponto de templos serem transformados em casas de festas, casas de boxe e outros esportes.

“Lembro-me de que quando eu tinha dez anos, eles […] davam grandes festas na porta da igreja para interromper as reuniões de adoração. Os policiais e militares do regime de Castro entravam no templo, algemavam o pastor, o ministro ou quem estava oficiando, e o levavam preso às masmorras da delegacia de polícia da cidade de Pilón, para libera-los depois de algumas horas ou no dia seguinte.

“Lembro também de que alguns de meus primos (Ruperto Rosabal Mora, Daniel Rosabal Mora, Joel Sotomayor García e outros adventistas) foram levados para o serviço militar e, como se recusaram a pegar em armas, os jogaram com força e causaram hematomas, ferimentos e alguns ossos quebrados. Eles também foram colocados para limpar o acampamento e lavar as roupas dos oficiais, tudo como parte de um tratamento desumano e humilhante.

“Aos nove anos de idade, frequentei o centro escolar Mártires del Mareón, juntamente com meu primo Joel Sotomayor García, porque não íamos às aulas aos sábados; às segundas éramos obrigados a limpar todo o jardim da escola e o pomar com as unhas [com as mãos desprotegidas], e acabávamos sangrando. Em seguida, eles reuniam todos os alunos, nos colocavam em um pequeno estrado e nos apresentavam como macacos de feira para que fôssemos zombados e ridicularizados por todos os presentes, o que tinha aprovação dos professores e do diretor da escola.

“O Colégio ou Seminário Adventista do Sétimo Dia, localizado na cidade de Santa Clara, sofreu intervenção da ditadura de Castro e foi transformado no que parecia melhor para eles.

“Amigo, nunca permita que o nome de meu pai e dos adventistas cubanos seja usado para induzir a juventude brasileira a abraçar o comunismo, porque isso é uma infâmia e uma grande falsidade. Os trabalhadores adventistas sempre foram relegados aos trabalhos mais difíceis que existem em Cuba (agricultura, construção e outros), porque não trabalham aos sábados, e foram considerados pela ditadura como pessoas antissociais, perigosas e pouco confiáveis. As posições entre adventistas e comunistas são antagônicas e irreconciliáveis. Seria um crime não alertá-los a esse respeito.

“Digo mais uma coisa: não sou de direita; considero-me um socialdemocrata, porque creio nos povos, nos trabalhadores e nos menos favorecidos, nos que passam miséria e fome; porém jamais serei comunista, porque é uma ideologia baseada no engano e na mentira, que converte as pessoas e os povos em zumbis e os relega à miséria e à fome, enquanto a casta governante leva uma vida de burgueses. Asseguro-lhe que se meu pai pudesse adivinhar em que degeneraria aquela revolução, que foi a grande ilusão de todos os cubanos, nunca teria apoiado, ainda que não tivesse sido o único cubano enganado; todos fomos enganados.”

Argelio Rosabal Sotomayor

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