Ellen White era contra o uso de remédios?

Sem levar em conta o contexto das declarações da autora, algumas pessoas a tem feito “dizer” o que nunca disse.

Há pessoas usando indevidamente e fora de contexto citações de Ellen White em que ela condena o uso de “drogas venenosas” e de “efeito danoso” (como ela diz, por exemplo, na Carta 90, de 1908). Essas pessoas que frequentemente desprezam o contexto e a época em que os textos foram escritos acabam prestando um desserviço à própria autora, dando a impressão de que ela era contra a ciência médica (logo ela, que incentivou a criação de hospitais!) e que teria gerado oposição entre os chamados remédios naturais e as terapias e os recursos científicos desenvolvidos para ajudar a natureza. Isso é, no mínimo, lamentável e depõe contra o legado da Sra. White.

Que drogas eram essas condenadas pela pioneira do adventismo no tempo dela? Em seu ótimo livro 101 Perguntas Sobre Ellen White e Seus Escritos, o Dr. William Fagal, do White Estate (localizado na sede mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia), explica que no começo do ministério da Sra. White as três drogas medicinais mais usadas eram o ópio, o calomelano (cloreto de mercúrio) e a noz-vômica (que continha o veneno estricnina). Essas substâncias eram realmente “drogas venenosas”, e era a elas que Ellen se referiu quando escreveu suas críticas (p. 143, 144). Quanto ao uso de recursos adicionais aos oito remédios da natureza, é bom lembrar que Ellen White tratou com raios-x um pequeno tumor na testa (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 303). Será que Ellen teve esse tumor por não ter seguido as orientações que ela mesma deu sobre reforma de saúde? Será que ela teria cometido pecado ao se valer de um recurso médico fora dos oito remédios naturais? A resposta para as duas perguntas é um retumbante “não”!

A Enciclopédia Ellen G. White, nas páginas 1067 e 1068, menciona a resposta que Ellen deu a um estudante do terceiro ano de medicina: “Os tóxicos das drogas querem dizer os artigos que você mencionou.” E que artigos o estudante havia mencionado? Ópio, estricnina, arsênico e mercúrio. O aluno perguntou se essas drogas fortes e tóxicas deveriam ser consideradas da mesma forma que “remédios mais simples” como potássio, iodo e cila, por exemplo. Ellen foi clara em condenar os “tóxicos” e não os “simples”. “O calomelano era administrado muitas vezes em doses grandes e prolongadas, de modo que o envenenamento crônico por mercúrio era muito comum”, por isso Ellen escreveu: “Os preparados de mercúrio e calomelano, introduzidos no organismo sempre retêm sua força venenosa enquanto restar uma partícula dela no corpo. […] Tudo fica melhor sem essas misturas perigosas” (Enciclopédia, p. 1068)

Quanto aos medicamentos não “venenosos”, no livro Mensagens Escolhidas, volume 2, páginas 286 a 291, há uma boa coletânea de declarações da profetisa. Leia algumas delas abaixo (todos os grifos são meus):

“Não é negação da fé usar os remédios que Deus proveu para aliviar a dor e ajudar a natureza em sua obra de restauração. Não é nenhuma negação da fé [para o doente que pede orações em seu favor] cooperar com Deus, e colocar-se nas condições mais favoráveis para o restabelecimento. Deus pôs em nosso poder o obter conhecimento das leis da vida. Este conhecimento foi colocado ao nosso alcance para ser empregado. Devemos usar todos os recursos para a restauração da saúde, aproveitando-nos de todas as vantagens possíveis, agindo em harmonia com as leis naturais” (A Ciência do Bom Viver, p. 231, 232).

“A ideia que tendes, de que não se deveriam usar remédios para os doentes, é erro. Deus não cura os doentes sem o concurso dos meios de cura que estão ao alcance dos homens, ou quando os homens se recusam a ser beneficiados pelos remédios simples que Deus proveu no ar e na água puros. Houve médicos nos dias de Cristo e dos apóstolos. Lucas é chamado o médico amado. Confiou no Senhor quanto a tornar-se hábil na aplicação de remédios. […]

“Todas estas coisas nos ensinam que devemos ser muito cuidadosos para não acolhermos ideias e impressões radicais. Vossas idéias acerca da medicação por drogas, devo respeitar; mas mesmo nisso deveis nem sempre revelar aos pacientes que desprezais inteiramente as drogas, até que eles compreendam bem o assunto. Muitas vezes assumis atitudes em que prejudicais vossa influência e a ninguém fazeis bem algum, expressando todas as vossas convicções. Deste modo vos separais do povo. Deveis modificar vossos fortes preconceitos” (Carta 182, 1899).

E uma última citação interessante e esclarecedora, levando, novamente, em conta o contexto em que foi escrita (em 1903):

“Tenho recebido muitas instruções acerca da localização de clínicas. Devem estar distantes alguns quilômetros das cidades grandes, e possuir terras junto delas. Devem ser cultivadas frutas e hortaliças, e os pacientes devem ser animados a fazer trabalho ao ar livre. Muitos que sofrem de doenças pulmonares poder-se-iam curar se vivessem em clima onde pudessem estar ao ar livre a maior parte do ano. Muitos que morreram de tuberculose poderiam ter vivido se tivessem respirado mais ar puro. O ar puro, fora de casa, é tão eficaz para curar como os remédios, e não deixa efeitos danosos. […] Teria sido melhor se, desde o princípio, todas as drogas tivessem sido excluídas de nossas casas de saúde [já discutimos acima que drogas eram essas], fazendo-se uso dos remédios simples como a água pura, ar puro, sol e algumas das ervas comuns que crescem no campo. Esses elementos seriam justamente tão eficazes como as drogas, usadas sob nomes misteriosos, e preparadas pela ciência humana [é importante destacar a distinção que Ellen White faz entre “ciência humana” e “ciência verdadeira” ou de Deus; neste vídeo há uma explicação sobre isso]. E não deixariam efeitos danosos no organismo. Milhares que são afligidos pela doença poderiam recobrar a saúde se, em vez de confiar nas drogarias quanto a sua vida, abolissem todas as drogas [já mostramos quais], e vivessem com simplicidade, sem usar chá, café, alcoólicos ou especiarias, que irritam o estômago e o deixam débil, incapaz de digerir mesmo alimento simples sem ser estimulado. O Senhor está disposto a fazer Sua luz brilhar em raios claros e distintos a todos os que estão fracos e debilitados” (Manuscrito 115, 1903).

Fica claro que o ideal na manutenção da saúde é utilizarmos os remédios naturais e deixarmos de lado hábitos, bebidas e alimentos nocivos. Mas, mesmo quando procuramos seguir todas essas recomendações, não ficamos imunes aos males e às doenças deste mundo de pecado e decadência. Haverá situações que exigirão cirurgias, uso de anestesia, antibióticos, vacinas e outros recursos médicos modernos criados com a permissão e ajuda de Deus. E não será pecado usá-los tanto quanto não foi para Ellen White, quando ela se submeteu ao tratamento com raio-x.

(Michelson Borges é jornalista, pós-graduado em Biologia Molecular e editor da revista Vida e Saúde)