O poder da música e as diretrizes divinas 

Nem tudo que se apresenta como louvor em verdade está sendo aceitável a Deus e recebendo dEle aprovação.

louvor

Quando se fala do assunto “música”, no contexto da adoração, muitas ilações se levantam quanto ao que agrada a Deus ou não, o que é de Deus e o que não é. Proponentes se acirram numa “luta sem fim” para provar seus pressupostos, apresentando argumentos que orbitam o universo musical, desde os instrumentos utilizados à maneira de cantar, até as definições daquilo que pode ou não agradar a Deus.

Este artigo não se propõe divinizar ou demonizar instrumentos musicais, fazer uma listagem das músicas que podem ou não ser ouvidas e/ou cantadas na igreja, falar de experiências do uso da música com plantas e animais e quais foram os efeitos sobre eles, tampouco se propõe ser a voz final da Igreja Adventista neste assunto. A abordagem, entretanto, apresentará diretrizes que poderão ajudar você a entender o poder que a música tem e, assim, com base nas diretrizes bíblicas e encontradas nos conceitos inspirados de Ellen White, você mesmo poderá avaliar como melhor louvar ao Senhor.

Estabelecendo princípios

Música é uma das formas de adoração com grande capacidade de alcance evangelístico. Por se tratar de uma forma de adoração, é importante definir que “adoração não é o que eu quero dar para Deus, mas o que Deus quer receber de mim”. E de onde se extrai essa definição? De um episódio triste, lamentável, mas com profundos ensinamentos quanto a esse assunto: Caim e o assassinado de Abel. Você conhece a história, e, portanto, os detalhes serão dispensados. Abel levou uma oferta requerida por Deus, ao passo que Caim levou daquilo que ele achava que agradaria a Deus. Mesmo fazendo com “boas intenções”, ou quem sabe dando “o melhor que tinha”, não foi suficiente para agradar a Deus. E por quê? Porque não foi o que Deus havia pedido. Lembre-se: ao adorar a Deus, o mais importante não é apenas fazer de coração ou dar o que se tem de melhor, mas oferecer a Deus aquilo que Ele requer.

Naturalmente, você deve estar se questionando neste momento: “Mas se eu der o que Deus requer, será suficiente?” A resposta é: não! Nada que o ser humano fizer ou ofertar será suficiente para um Deus santo, tão-somente porque sempre estará manchado com a natureza corrupta que o homem tem. Isso não quer dizer que o adorador pode então ofertar qualquer coisa, tendo em vista que nada será suficientemente perfeito para Deus. Mesmo em sua imperfeição, quando o ser humano obedece a Deus e Lhe oferece aquilo que Ele requer, o Senhor olha com compaixão e aceita a oferta. Imagine um pai que pede para o filho de seis anos: “Filho, por favor, prepare o desjejum para mim.” O garoto vai e pega um sorvete pronto na geladeira e oferece ao pai. É saboroso, é chamativo, ele ofereceu até com boa intenção, indo além do que o pai pediu, mas não cumpriu a exigência paterna. Imagine agora o inverso: que o filho, com toda a sua inexperiência, corta um pão todo errado, coloca algumas frutas ainda com casca num prato, quem sabe um pouco de leite ou suco num copo e leve para o pai. Naturalmente que não estaria no padrão de um adulto, mas, com certeza, agradaria muito mais o coração daquele pai pelo simples fato de o garoto tentar fazer o melhor dentro daquilo que lhe foi solicitado, mesmo não sendo perfeito.

Muito bem, a parte difícil (ou não) é saber o que Deus requer quando o assunto é música. Porque sabendo e oferecendo o que Ele quer, a música pode ser um instrumento poderoso para salvar pessoas. Ela tem um poder e um alcance não encontrado em nenhuma outra forma de adoração. Os princípios apresentados a seguir não serão exaustivos, mas, com certeza, lhe ajudarão a ter clareza no que concerne ao louvor que, dentro das imperfeiçoes humanas, torna-se aceitável a Deus.

Entonações claras – dicção distinta

“Palavra alguma pode exprimir devidamente a profunda bênção do verdadeiro culto. Quando os seres humanos cantam com o espírito e o entendimento, os músicos celestiais tomam o tom e unem-se ao cântico de ações de graças. Aquele que nos outorgou todos os dons que nos habilitam a ser cooperadores de Deus, espera que Seus servos cultivem a voz, de modo a poderem falar e cantar de maneira que todos entendam. Não é o canto alto que é necessário, porém entonações claras, a pronúncia correta, a dicção distinta. Tomem todos tempo para cultivar a voz, de maneira que o louvor de Deus seja entoado em tons claros, suaves, sem asperezas e estridências que ofendam ao ouvido. A aptidão de cantar é dom de Deus; seja ele usado para glória Sua” (Ellen G. White, Testimonies, v. 9, p. 143, 144).

Volume moderado e suavidade

“Pode-se fazer grande aperfeiçoamento no canto. Pensam alguns que, quanto mais alto cantarem, tanto mais música fazem; barulho, porém, não é música. O bom canto é como a música dos pássaros – dominado e melodioso. Tenho ouvido em algumas de nossas igrejas solos que eram de todo inadequados ao culto da casa do Senhor. As notas longamente puxadas e os sons peculiares, comuns no canto de óperas, não agradam aos anjos. Eles se deleitam em ouvir os simples cânticos de louvor entoados em tom natural. Os cânticos em que cada palavra é pronunciada claramente, em tom harmonioso, eles se unem a nós no cântico. Eles combinam o coro, entoado de coração, com o espírito e o entendimento” (Manuscrito 91, 1903).

Reverência

“A melodia do canto, derramando-se dos corações num tom de voz claro e distinto, representa um dos instrumentos divinos na conversão de almas. Todo o serviço deve ser efetuado com solenidade e reverência, como se fora feito na presença pessoal de Deus mesmo” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 195).

Mais comunhão e menos ostentação

“Aparelhamento faustoso, ótimo canto e música instrumental na igreja não convidam o coro angélico a cantar também. À vista de Deus estas coisas são como os galhos da figueira infrutífera, que só mostrava folhas pretensiosas. Cristo espera fruto, princípios de bondade, simpatia e amor. Estes são os princípios do Céu, e quando se revelam na vida de seres humanos, podemos saber que Cristo, a esperança da glória, está formado em nós. Pode uma congregação ser a mais pobre da Terra, sem música nem ostentação exterior, mas se ela possuir esses princípios, os membros poderão cantar, pois a alegria de Cristo está em sua alma, e esse canto podem eles dedicar como oferenda a Deus” (Manuscrito 123, 1899).

Coração consagrado

A música só é aceitável a Deus quando o coração é consagrado, e enternecido e santificado por sua docilidade. Muitos, porém, que se deleitam na música não sabem coisa alguma sobre produzir melodia ao Senhor, em seu coração. Estes foram ‘após seus ídolos’” (Ez 6:9; Carta 198, 1899).

Naturalmente, existem outros princípios que podem ser agregados aos que foram apontados acima. Não obstante, esses são suficientes, senão para demonstrar aquilo que Deus requer, pelo menos indicar um norte acerca do caminho a seguir. Tais princípios, quando utilizados, podem fazer com que a música exerça um poder sublime sobre aquele que está ministrando o louvor, bem como sobre aqueles que estão ouvindo. Além disso, essa música aceitável a Deus, proveniente de um coração consagrado, é poderosa e pode atuar em diversos âmbitos da vida pessoal:

Traz paz ao lar e estreita os laços no âmbito escolar

“Nunca se deve perder de vista o valor do canto como meio de educação. Que haja cântico no lar, de hinos que sejam suaves e puros, e haverá menos palavras de censura e mais de animação, esperança e alegria. Haja canto na escola, e os alunos serão levados para mais perto de Deus, dos professores e uns dos outros” (Educação, p. 168).

Ajuda a vencer o desânimo

“Caso houvesse muito mais louvor ao Senhor, e muito menos repetição de desânimos, muito mais vitórias seriam obtidas” (Carta 53, 1896).

“O canto é uma arma que podemos empregar sempre contra o desânimo. Ao abrirmos assim o coração à luz da presença do Salvador, teremos saúde e Sua bênção” (A Ciência do Bom Viver, p. 254).

Alivia as tensões do trabalho

“Tornai vosso trabalho agradável por meio de cânticos de louvor” (Orientação da criança, p. 148).

Afasta o inimigo e ajuda a vencer as tentações

“Vi que diariamente devemos estar levantando e mantendo a supremacia sobre os poderes das trevas. Nosso Deus é poderoso. Vi que cantar para a glória de Deus frequentemente afastava o inimigo, e que louvar a Deus o derrotava e nos concedia a vitória” (Manuscrito 5, 1850).

“Quando Cristo era criança como estas aqui, era tentado a pecar, porém não cedia à tentação. Ao ter mais idade, era tentado, mas os cânticos que Sua mãe Lhe ensinara vinham-Lhe à mente, e Ele erguia a voz em louvor. E antes de os companheiros se aperceberem, estavam cantando com Ele. Deus quer que nos sirvamos de toda facilidade que o Céu tem providenciado para resistir ao inimigo” (Manuscrito 65, 1901).

É um poderoso meio para ganhar pessoas para Jesus

“Há muita emoção e música na voz humana, e se o aluno fizer decididos esforços, adquirirá hábitos de falar e cantar que lhes serão uma força no ganhar almas para Cristo” (Manuscrito 22, 1886).

“A música é de origem celestial. Há grande poder na música. […] Há algo especialmente sagrado na voz humana. Sua harmonia e seu sentimento subjugado e inspirado pelo Céu supera todo instrumento musical. […] Cantar com o espírito e com o entendimento também é um grande auxílio aos cultos na casa de Deus. Como este dom tem sido aviltado! Se fosse santificado e refinado, poderia realizar grande bem, derrubando as barreiras do preconceito e da descrença empedernida e sendo um meio de converter almas. Não é suficiente ter noções elementares do canto, mas com o entendimento, com o conhecimento, deve-se ter tal ligação com o Céu que os anjos possam cantar por nosso intermédio” (Mensagens Escolhidas, p. 334, 335).

Conclusão

Diante do exposto, é conclusivo observar que nem tudo que se apresenta como louvor em verdade está sendo aceitável a Deus e recebendo dEle aprovação. Certos cuidados precisam ser observados, tais como reverência, suavidade no cantar, entonação clara e dicção correra, mas, principalmente, comunhão com o Criador, tornam-se elementos fundamentais para o bom discernimento daquilo que agrada a Deus. Quando se atinge esse alvo, o poder da música se evidencia em diversos âmbitos, tanto na vida daquele que exprime seu louvor, quanto dos que são alcançados por ele.

(Eleazar Domini é pastor em São Luís do Maranhão, mestre em Teologia e violonista clássico)