Evangelho social?

É muito fácil submeter a experiência pessoal da graça e o testemunho cristão a um discurso de caráter social (ou político), mas esse não é o evangelho de Deus.

Não há evangelho social. O evangelho é o que sempre foi: “O poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16). Querer usar o evangelho para defender bandeiras sociais nitidamente humanistas consiste numa grave distorção da graça e do plano salvífico de Deus. O evangelho não atua no coletivo, mas no individual. Ele não visa a reformar o mundo, mas o coração. Seu propósito não é produzir cidadãos melhores, mas novas criaturas, transformadas e restauradas segundo a imagem do Criador (2Co 5:17; Gl 6:15).

Não há dúvida, porém, de que o evangelho vai gerar pessoas melhores e vai, de algum modo, impactar positivamente a sociedade. O cristão que realmente nasceu de novo não vai ser indiferente às necessidades dos menos favorecidos (At 4:33-35; Tg 1:27; 2:2-9), mesmo que não lhe caiba tentar mudar a ordem social. Ele não vai discriminar com base em sexo, raça ou cor (At 10:34; 17:26; cf. Gl 3:28) ou mesmo com base nas preferências sexuais (Rm 15:7; 3Jo 1:5-11), ainda que exista desarmonia para com o projeto criador de Deus (cf. Gn 1:27; Mt 19:4-6; Rm 1:21-27).

O cristão não vai desobedecer às autoridades constituídas (Tg 3:1, 2; 1Pd 2:13, 14), embora o princípio da lealdade a Deus permaneça supremo (At 5:29). E o cristão não vai destruir a natureza, porque ele sabe quem a criou e sabe que sua função é protegê-la (Gn 2:15; cf. Ap 14:7).

Visto que a verdadeira causa das mazelas que afetam o mundo não é social, mas moral (Rm 3:23), a solução não está no ativismo social – que apenas gera mais conflitos e aprofunda as diferenças –, mas na operação interior da graça de Deus, uma graça que perdoa, restaura e educa a como viver neste mundo enquanto aguardamos o mundo porvir (Tg 2:11-14). Para dizer a verdade, nem a graça será capaz de salvar o mundo. O mundo só vai piorar (2Tm 3:1-5). A graça se destina a salvar indivíduos. A pergunta, portanto, é: O que a graça tem feito em minha vida e que diferença estou fazendo em meu círculo de ação? É muito fácil submeter a experiência pessoal da graça e o testemunho cristão a um discurso de caráter social (ou político), mas esse não é o evangelho de Deus.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

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