Ellen White e o conservadorismo

É um erro tentar encaixar sentidos do século 21 em uma palavra que, no século 19, foi utilizada para descrever coisas diferentes das que descreve hoje.

White-Ellen

Alguns textos de Ellen White criticam o “conservadorismo”, porém, hoje a Igreja Adventista do Sétimo Dia se descreve como “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”.[1] Será que Ellen White teria usado, no século 19, o termo “conservador” no sentido teológico contemporâneo (oposto ao liberalismo/progressismo teológico)? As evidências mostram claramente que não. Os editores do livro Eventos Finais em inglês (Last Day Events) perceberam o potencial de confusão e fizeram este esclarecimento entre colchetes, na seguinte citação:

“O trabalho que a igreja tem deixado de fazer em tempo de paz e prosperidade terá de realizar em terrível crise, sob as circunstâncias mais desanimadoras, proibitivas. As advertências que a conformidade com o mundo tem silenciado ou retido precisam ser dadas sob a mais feroz oposição dos inimigos da fé. E por aquele tempo a classe dos superficiais, conservadores [Ellen White não está aqui distinguindo os conservadores teológicos de suas contrapartes liberais; ela está descrevendo aqueles que colocam a “conformidade mundana” em primeiro lugar e a causa de Deus em segundo], cuja influência tem retardado decididamente o progresso da obra, renunciará à fé.”[2]

Sem dúvida, Ellen White tinha algumas ideias e atitudes consideradas “progressistas” para a época dela. Mas as palavras são curiosas: mudando o tempo e o contexto, elas podem significar exatamente o oposto do que imaginamos hoje. Ellen usou “conservador” para descrever pessoas que seguiam a moda, que eram contrárias às reformas, que não se misturavam com o povo simples, que eram acomodadas com o que todos faziam ao redor, pouco criativas no evangelismo, tinham medo de arriscar, que eram mundanas, pouco zelosas na fé, que rejeitavam novas descobertas bíblicas, etc.

Outro sentido que ela dá à palavra “conservadorismo” é o de “preconceito”. Ela descreve “o antigo e estreito conservadorismo dos judeus”, que tinha “uma tendência a afastá-los de seus preconceitos contra outras nações”.[3] E é nesse mesmo sentido que ela lamenta: “O Espírito de Deus entristece quando o conservadorismo afasta o homem de seus semelhantes, especialmente quando é encontrado entre aqueles que professam ser Seus filhos.”[4]

Roupas e divertimentos “conservadores”

Ellen White chamou de “conservadores” aqueles que eram contra a reforma do vestuário: “O ato de reformar é sempre acompanhado de sacrifício. Requer que o amor ao conforto, o interesse egoísta e a concupiscência da ambição sejam mantidos em sujeição aos princípios do que é correto. Quem quer que tenha a coragem de reformar encontrará obstáculos. O conservadorismo daqueles cujos negócios ou prazer lhes colocam em contato com os defensores da moda e que perderão sua posição social pela mudança, opor-se-á a tal pessoa.”[5]

O curioso é que o “traje americano” foi chamado na época por uma das líderes do movimento, a Dra. Harriet N. Austin, de reforma “verdadeiramente conservadora”.[6] No entanto, sobre essa moda, Ellen White escreveu: “Nunca devemos imitar a Dra. Austin ou a Dra. York. Elas se vestem muito semelhante aos homens.”[7]

Ou seja, Ellen White foi contra uma reforma considerada “conservadora”, que consistia em fazer mulheres usar roupas semelhantes às de homens. Você consegue perceber como a palavra “conservador” tem sentido diferente? Hoje aqueles que discordam dessa questão de mulheres não usarem roupas parecidas com as de homens se consideram conservadores?

Ironicamente, Ellen e Tiago White foram acusados de não serem conservadores, e até citaram a roupa dela como argumento: “Alguns estavam censurando nossa conduta, dizendo que não éramos tão conservadores como devíamos ser; nós não procurávamos agradar as pessoas como podíamos; falávamos muito francamente; reprovávamos muito severamente. Alguns estavam falando sobre o vestido da irmã White, realçando minúcias. Outros estavam expressando insatisfação com a conduta do irmão White, e observações passavam de um para outro, questionando sua conduta e achando defeito.”[8]

Ou seja, os “conservadores”, nesse contexto, eram os que procuravam agradar a todos, os que não reprovavam ninguém severamente. Seria esse o sentido comum hoje? Isso mostra como as palavras podem mudar de sentido com o tempo.

Jovens que têm dificuldade para rejeitar divertimentos mundanos também são descritos como “conservadores”, pois seguem as tendências da maioria: “Se você realmente pertence a Cristo, terá oportunidades de testemunhar por ele. Você será convidado a frequentar lugares de diversão e, então, terá a oportunidade de testificar de seu Senhor. Se você for fiel a Cristo, então, não tentará formar desculpas para o seu não comparecimento, mas declarará clara e modestamente que é um filho de Deus, e seus princípios não permitiriam que você estivesse em um lugar, mesmo uma única vez, onde você não poderia convidar a presença de seu Senhor. Não devemos permitir que o espírito de conservadorismo nos leve a representar mal nosso Senhor.”[9]

E então? O “espírito de conservadorismo” é o espírito de ceder à pressão e seguir a moda, e o medo de se posicionar de maneira firme e pública. Mas, hoje, um jovem adventista que não vê problema em frequentar esses ambientes dificilmente se definiria como “conservador”.

Os mundanos conservadores

Curiosamente, Ellen vincula “conservadores” à “conformidade com o mundo”, à superficialidade, à simpatia com os inimigos da obra, e à apostasia: “As advertências que a conformidade com o mundo tem silenciado ou retido precisam ser dadas sob a mais feroz oposição dos inimigos da fé. E por aquele tempo a classe dos superficiais, conservadores, cuja influência tem retardado decididamente o progresso da obra, renunciará à fé e tomará sua posição com os francos inimigos dela, para os quais havia muito tendiam suas simpatias. Esses apóstatas hão de manifestar então a mais cruel inimizade, fazendo tudo quanto estiver ao seu alcance para oprimir e fazer mal a seus antigos irmãos e incitar indignação contra eles. Esse tempo se acha justamente diante de nós.”[10]

Ela também chama de “conservadores” os professos cristãos, unidos ao mundo, que falam bastante de “piedade e amor”, “se desviam dos velhos marcos”, e “aconselham os fiéis obreiros de Deus a serem menos zelosos e mais conservadores”. Ou seja, o “conservadorismo” aí é seguir o mundo, seguir o fluxo daqueles que desprezam a Palavra de Deus:

“[…] nossa resposta deve ser apelar para a Palavra de Deus. Quando os que se estão unindo com o mundo reclamam união com os que sempre foram opositores da causa da verdade, devemos temer e evitá-los tão decididamente como o fez Neemias. Os que se desviam dos velhos marcos para formar uma conexão com os ímpios não são enviados pelo Céu. Qualquer que possa ter sido sua primitiva posição, seu comportamento presente tende a perturbar a fé do povo de Deus. Esses conselheiros são movidos por Satanás. Eles são servidores de ocasião. Os testemunhos, reprovações e advertências dos servos de Deus não lhes são agradáveis, mas uma censura às suas propensões de amantes dos prazeres mundanos. Deveríamos evitar essa classe tão resolutamente como fez Neemias.”[11]

Nesses contextos, os conservadores são os que negam os velhos marcos, e ficam contra quem “se recusa a aceitar costumes e tradições populares”. Definitivamente, não é esse o sentido comum da palavra “conservador” hoje.

Falando de “pessoas impulsivas”, ela vincula conservadorismo à condescendência: “Existem aqueles que, por atitudes apressadas e insensatas, trairão a causa de Deus, entregando-a ao poder do inimigo. Haverá pessoas que buscarão vingança, que se tornarão apóstatas e trairão a Cristo na pessoa de Seus santos. Todos necessitam de aprender prudência; então, por outro lado, há o perigo de sermos conservadores, de darmos lugar ao inimigo mediante a condescendência.”[12]

Ellen White também dá o sentido de egocentrismo e egoísmo ao conservadorismo. Para não ser conservador nesse sentido, os cristãos “devem estudar as Escrituras com o propósito de viver a vida altruísta de Cristo. O verdadeiro cristão não se tornará egocêntrico ou conservador em seus planos. ‘De sua plenitude todos nós recebemos, e graça sobre graça.’ Como a graça de Deus nos é dada gratuitamente, ela deve ser transmitida a outros”.[13]

Conservadorismo e a diversidade teológica

Ellen White repreendeu um pastor, presidente de Associação, que “revelou que é muito conservador e que suas ideias são em extremo mesquinhas”.[14] O problema dele era desanimar o povo e não incentivar o evangelismo. Também usou “conservadores” para descrever os anglicanos que mantiveram muitos costumes da igreja de Roma.[15]

Ela também chama de “conservadores” os que evitam debates teológicos, desencorajam a investigação e a discussão de novas verdades bíblicas, e não querem crescer no conhecimento doutrinário, apegando-se ao conhecimento que já têm. O adventismo surgiu como um movimento que promovia o livre exame das Escrituras. Desde os dias de Ellen White até hoje, o adventismo nunca foi uma teologia hegemônica, e ainda hoje é considerado seita por alguns cristãos. Porém, Ellen White combateu o panteísmo de Kellogg, uma doutrina inovadora no adventismo. Assim, o tema não é tão simplório.

Nesse contexto, Ellen White usa “conservadorismo” como um problema, e vê perigo nos dois extremos: “Há os que, por meio de medidas apressadas e imprudentes, irão trair a Causa de Deus, deixando-a em poder do inimigo. Haverá homens que procurarão desforrar-se, que se tornarão apóstatas e que trairão a Cristo na pessoa de Seus santos. Todos precisam aprender discrição; então, ao contrário de ser conservador, há o perigo de favorecer o inimigo em concessões.”[16]

Descrevendo as qualidades do líder cristão, Ellen White diz que eles “serão humildes, tementes a Deus, não conservadores nem astuciosos, mas homens de independência moral, que avancem no temor do Senhor”. No contexto, ela diz que esses líderes não “permitem que seu testemunho seja adaptado para agradar mentes não consagradas”, e farão “com que sua voz seja ouvida acima das vozes dos infiéis que apresentam objeções, dúvidas e críticas”; eles declaram “destemidamente toda a verdade”, e proclamam “a verdade em justiça, quer os homens ouçam ou deixem de ouvir”.[17] Novamente, conservadorismo aqui é seguir o fluxo mundano, negociando doutrinas e princípios.

Ellen White contrasta a obra de reforma de saúde do Instituto de Saúde de Battle Creek com o das instituições “conservadoras”. O instituto adventista deveria “aliviar os aflitos, disseminar luz, despertar o espírito de indagação e promover a reforma”, sob “princípios que são diferentes daqueles de qualquer outra instituição de higiene no país”, que ela chama de “princípios da higiene bíblica”.[18] As instituições conservadoras buscavam apenas lucro. Percebe-se que “conservadorismo” aqui não tem nenhuma relação com a Bíblia, e até parece descrever algo que é contrário à Bíblia.

Então, como a IASD pode se considerar teologicamente conservadora?

Por outro lado, Ellen White defendeu a vida inteira o que hoje pode ser chamado de “teologia conservadora” (em oposição à teologia liberal modernista que lança dúvidas sobre a Palavra de Deus). Ela condenou a “alta crítica”[19] e os que negam que a Bíblia é a Palavra de Deus (uma característica central das teologias progressistas).

Por isso, hoje, a IASD se define como “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”, cuja fé está “embasada na Bíblia e centralizada em Cristo”.[20] George Reid descreve como “conservadora” a posição teológica protestante que mantém a Bíblia como a autorizada Palavra de Deus. O livro A Symposium on Biblical Hermeneutics, publicado pela IASD, afirma que, teologicamente, “denominações inteiras podem estar dentro da estrutura conservadora – como é o caso, por exemplo, dos adventistas do sétimo dia”.[21]

O livro Interpretando as Escrituras expõe a compreensão adventista de alguns temas bíblicos, e argumenta sob uma perspectiva teológica conservadora,[22] rejeitando a visão liberal.[23] Teologicamente, o Oxford Handbooks descreve a IASD como “uma denominação biblicamente conservadora, arminiana, evangélica e protestante”. O historiador Nicholas Miller define a IASD como conservadora, e Roger Coon a define como “denominação protestante […] conservadora e de orientação evangélica”.[24]

Por que adventistas se descrevem como teologicamente conservadores, mesmo diante das palavras de Ellen White? Porque ela usa a palavra num sentido diferente. No sentido técnico, “conservador”, “liberal” e “progressista” são termos usados na literatura teológica porque conseguem descrever razoavelmente algo que temos dificuldade de descrever de outra forma.[25] Teologicamente, esses termos não têm necessariamente a ver com costumes, comportamentos ou opiniões políticas, mas têm a ver, principalmente, com a opinião que se tem a respeito da Bíblia como Palavra de Deus, inspirada e infalível. Por isso, apesar de manterem crenças peculiares, os adventistas são corretamente descritos como teologicamente conservadores.[26]

Conclusão

Portanto, é um erro tentar encaixar sentidos do século 21 em uma palavra que, no século 19, foi utilizada para descrever coisas diferentes das que descreve hoje. Quando lidamos com textos antigos, é preciso levar sempre em conta o sentido das palavras no contexto histórico-cultural original.

Aqui estamos falando de teologia. Conservadorismo ideológico, político ou comportamental não tem necessariamente nenhuma relação com o conservadorismo teológico. A IASD se descreve como “teologicamente conservadora”, pois rejeita as pressuposições da teologia liberal e da alta crítica (ver Métodos de Estudo da Bíblia, 1986), que ainda hoje encontram eco em teologias contemporâneas.

Mas isso não deveria nos definir, pois os rótulos podem mudar de significado, e o importante mesmo é nos esforçarmos para ser “bíblicos”, seja buscando novas verdades ou defendendo as verdades já descobertas.

Transpondo os princípios do século 19 para o século 21: quem não quer ser conservador no sentido em que Ellen White usa o termo precisa continuar promovendo uma reforma do vestuário, evitar lugares e diversões impróprias, abandonar preconceitos que ferem e afastam pessoas e continuar crescendo no conhecimento bíblico. Além disso, deve ter a Bíblia em alta conta, não seguindo os modismos e as teologias hegemônicas que rebaixam o status da Palavra de Deus. É isso que Ellen G. White quer dizer quando menciona o “conservadorismo” no século 19. Concordo com tudo isso. E você?

Referências:

1. Tratado de Teologia, p. 1.

2. Last Day Events, p. 174.

3. The Sending Out of the Seventy, The Signs of the Times, December 10, 1894.

4. Selected Messages, v. 1, p. 160.

5. Testemunhos para a Igreja, v. 4, p. 636.

6. Seventh-day Adventists and the Reform Dress, p. 33.

7. Letter 6, To Brother and Sister Lockwood, September 1864.

8. Testemunhos para a Igreja, v. 3, p. 312.

9. Serviço Cristão, p. 120.

10. Lições da Vida de Neemias, p. 53-54.

11. Cristo Triunfante, p. 363.

12. Review and Herald, 30 maio 1899.

13. Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 370.

14. O Grande Conflito, p. 289.

15. Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 397.

16. Liderança Cristã, p. 107.

17. Testimonies for the Church, v. 3, p. 165.

18. “Como nos dias dos apóstolos os homens procuravam destruir a fé nas Escrituras pelas tradições e filosofias, assim hoje, pelos aprazíveis sentimentos da ‘alta crítica’, evolução, espiritismo, teosofia e panteísmo, o inimigo da justiça está procurando levar as almas para caminhos proibidos. Para muitos a Bíblia é uma lâmpada sem óleo, porque voltaram a mente para canais de crenças especulativas que produzem má compreensão e confusão. A obra da ‘alta crítica’, em dissecar, conjeturar, reconstruir está destruindo a fé na Bíblia como uma revelação divina. Está roubando a Palavra de Deus em seu poder de controlar, erguer e inspirar vidas humanas” (Atos dos Apóstolos, p. 245).

19. Tratado de Teologia, p. 1.

20. A Symposium of Biblical Hermeneutics, p. 90.

21. Interpretando as Escrituras, p. 22, 40, 192.

22. Interpretando as Escrituras, p. 50.

23. Gift of Life, p. 9.

24. Hoje, por exemplo, já se fala em “pós-liberalismo” e “pós-conservadorismo”.

25. Existem classificações alternativas. Por ex., Kwabena Donkor classifica a teologia adventista como “biblico-historical realism”. Mas, no geral, o adventismo é considerado teologicamente conservador <https://bit.ly/2CPKhk4>