O erro dos que querem dicotomizar obras e doutrinas

Se dependesse do desprezo que alguns jovens manifestam às doutrinas, não haveria mártires, nem movimento missionário, nem evangelização (seria descartada sempre como “colonialismo”?), nem reavivamentos, nem escolas bíblicas. Com esse tipo de pensamento, não haveria Atos, as viagens missionárias de Paulo, suas disputas nas sinagogas, em Atenas, e suas cartas cheias de apologia e ensino doutrinário às igrejas. As sete igrejas do Apocalipse, por exemplo, são avaliadas por suas obras, mas também pelos ensinos (que sustentam e que rejeitam). Jesus repreende Pérgamo por abrigar “os que sustentam a doutrina de Balaão” (que incluía idolatria e imoralidade sexual; Ap 2:14). Além disso, eles tinham os que “sustentam a doutrina dos nicolaítas” (Ap 2:15). Em Tiatira, havia a “doutrina” das “coisas profundas de Satanás” (Ap 2:24). Se a doutrina tem pouca importância e o que vale são as obras, qual o parâmetro para colocar à prova os “apóstolos mentirosos” em Éfeso? Qual seria o parâmetro para avaliar “a obra dos nicolaítas”? Se não existe ortodoxia doutrinária, qual seria o parâmetro para identificar uma “blasfêmia” em Esmirna? E como seria possível avaliar os ensinos da falsa profetiza Jezabel em Pérgamo (v. 20-22)? Se doutrina é algo desprezível diante das obras, de onde vem a ideia de que prostituição, adultério e idolatria são pecado?

Filadélfia é elogiada por “guardar a Minha palavra” (Ap 3:8) e “guardar a palavra da Minha perseverança” (Ap 3:10). Jesus Se apresenta como aquele que tem “a espada afiada de dois gumes” (Ap 2:12), uma referência à Palavra de Deus (Ef 6:17; Hb 4:12). Ele promete vir pelejar “com a espada da Minha boca” (Ap 2:16). Além disso, Jesus é “o que sonda mentes e corações” (Ap 2:23): ortodoxia, ortopatia e ortopraxia não existem de maneira isolada; são uma harmonia.

Finalmente, cada igreja é exortada a ouvir “o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22). O Espírito Santo guia a toda a verdade, e a Palavra de Deus é “a espada do Espírito” (Ef 6:17). O “vento” jamais sopra contra o texto sagrado! Os mártires só existiram porque acreditavam que havia doutrinas inegociáveis.

Frequentemente “tiro as sandálias” e leio os relatos dos clássicos protestantes: O Livro dos Martires (John Foxe), O Peregrino (John Bunyan), e outras histórias sobre homens e mulheres que preferiram morrer a que negar a fé. Desprezar o ensino bíblico hoje é zombar desses santos da história da igreja. É dizer para eles: “Vocês sofreram e morreram sem necessidade! Não há nenhuma verdade doutrinária pela qual valha a pena morrer!”

No Novo Testamento há muita correção de erros doutrinários. E a dureza do discurso e da postura de Paulo em Gálatas mostra que existe, sim, um ponto de corte (“Anátema!”). No Novo Testamento vemos respostas às alegações de estoicos, epicuristas e proto-gnósticos. Há verdades fundamentais, e a igreja primitiva “perseverava no ensino dos apóstolos” (At 2:42). Ou seja, havia uma unidade de crença básica na igreja primitiva, e sua base eram as Escrituras. Paulo, por exemplo, admite que estava transmitindo o que recebeu, e que o Evangelho era o que Jesus fez “segundo as Escrituras” (1Co 15:1-5).

O motivo para essa preocupação do Novo Testamento é que, fora do espaço seguro para diferenças de opinião, há ensinos e crenças que contradizem Jesus e negam a revelação divina. Jesus disse: “Se alguém se envergonhar de Mim e das Minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem Se envergonhará dele quando vier na glória de Seu Pai com os santos anjos” (Mc 8:38).

Não é hora de ter vergonha de Jesus e de Suas palavras.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)