A criação e a sexualidade humana

Para se defenderem modalidades sexuais diferentes da estabelecida por Deus em Gênesis (na criação do primeiro casal), seria necessário antes redefinir casamento.

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1. Ninguém é obrigado a se casar por causa do Gênesis

O relato do Gênesis é o modelo ideal para o casamento, mas não obriga todo ser humano a se casar e procriar. Estabelece os parâmetros a serem seguidos por aqueles que quiserem se casar. Jesus demonstrou isso em Mateus 19:4-12. Após mencionar Gênesis 1:27 e 2:24, e explicar o divórcio, ouviu Seus discípulos dizerem que “é melhor não casar”. Jesus então afirmou que “nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite” (Mt 19:11, 12).

O Gênesis mostra que, divinamente instituída, a família começa com a união entre um homem e uma mulher (Gn 1:27, 31; 2:24), e estabelece os princípios para a atividade sexual: ela está restrita ao casamento heterossexual e monogâmico.[1] Gênesis dá o modelo que é confirmado em toda a Escritura, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (cf. Mt 19:4-6).

O importante é que o casamento consiste especialmente (mas não exclusivamente) na união sexual entre um homem e uma mulher. Biblicamente, não existe a opção de fazer sexo (heterossexual ou homossexual) fora do casamento sem que isso seja errado e tenha consequências danosas (Gn 29:23-25; cf. Lv 20:10-21; Dt 22:13-21, 28, 29).

Assim, ninguém é obrigado a casar por causa do Gênesis, mas sexo sem casamento é sexo ilícito.

2. Sexo não é apenas para procriação

Seguir o padrão proposto em Gênesis nos obrigaria a fazer sexo só para a procriação? Esse é outro equívoco. Ninguém precisa fazer sexo apenas para procriação, e Cantares de Salomão mostra de forma poética e ricamente erótica a função prazerosa do sexo. Assim, sexo sem procriação não é pecado, mas sexo sem casamento continua sendo sexo ilícito.

É biblicamente difícil provar que o sexo foi criado por Deus apenas para a procriação e que a sexualidade só passou a ter outras funções com o decorrer do tempo após o pecado. Mesmo em Gênesis, é possível perceber outras funções para o sexo. O Criador destinou a sexualidade no casamento também para proporcionar unidade: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gn 2:24). Tornar-se “uma só carne” também é uma referência à união sexual (1Co 6:16), sem nenhuma conotação de procriação.

Richard Davidson chega mesmo a afirmar que “o propósito primário da sexualidade era o relacionamento pessoal, e que a procriação foi apresentada como uma bênção especial adicional. O significado do propósito unificador da sexualidade é destacado em Gênesis 2 pela completa ausência de qualquer referência à reprodução de filhos. Essa omissão não nega a importância da procriação (como se torna evidente nos capítulos posteriores da Escritura). Mas por meio do ponto final depois de “uma só carne” no verso 24, é dada à sexualidade significado e valor independentes. Ela não precisa ser justificada apenas como um meio para um fim superior, isto é, a procriação”.[2]

No propósito divino, a sexualidade no casamento une um homem e uma mulher, e lhes proporciona alegria, prazer e complementação física.

3. O incesto foi uma necessidade temporária posteriormente alterada

Seguir o padrão proposto em Gênesis tornaria o incesto normativo? Esse é outro equívoco. O incesto foi uma necessidade que durou poucas gerações, e não um modelo normativo (pois foi alterado e abolido). A narrativa registra, por exemplo, que “coabitou Caim com sua mulher [אִשָּׁה, ‘ishshah]; ela concebeu e deu à luz Enoque” (Gn 4:17). Não diz que ele coabitou com “sua parenta”, “sua irmã” ou outra expressão que caracterizasse incesto. O texto não enfatiza (ou até suprime) o parentesco; não coloca o holofote sobre o suposto incesto.

Além disso, o próprio Gênesis traz experiências normativas sobre isso (Ló e suas filhas [30-38], Rubem e Bila [35:22], por exemplo).[3] E há, ainda no Pentateuco, clara revelação da vontade de Deus a respeito do incesto (Lv 18:6-23; 20:11-21). Um cristão só ficará em dúvida a respeito do incesto se ignorar o que a Bíblia diz sobre o assunto.

No caso de Ló, o próprio fato de as filhas terem que embebedá-lo indica que elas tinham noção de que havia algo errado. O Novo Testamento registra que Ló era um “homem justo, que [em Sodoma] se afligia com o procedimento libertino dos que não tinham princípios morais” (2Pe 2:70). A expressão “[sem] princípios morais” vem de ἄθεσμος (athesmos), literalmente “sem lei” ou “sem princípios”. Deduz-se daí, por contraste, que Ló não era um “sem lei”, e por isso tinha a reputação de um homem “justo”. Se estivesse sóbrio, provavelmente não cometeria incesto com as filhas.

Por outro lado, onde estão no Pentateuco (ou em toda a Bíblia) as experiências normativas e as correções posteriores que favoreçam os relacionamentos homossexuais? Não existem. Assim, o incesto após as primeiras gerações já começava a ser visto negativamente mesmo antes da lei escrita,[4] e seguir o modelo de casamento do Gênesis não indica que o incesto possa ser praticado atualmente.

Conclusão

Para se defenderem modalidades sexuais diferentes da estabelecida por Deus em Gênesis (na criação do primeiro casal), seria necessário antes redefinir casamento como algo diferente da união entre um homem e uma mulher que torna lícita a relação sexual entre os dois. E tudo isso de maneira consistente com a totalidade das Escrituras.[5]

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University; Reação Adventista)

Referências:

1. A poligamia e o concubinato não foram estabelecidos por Deus, nunca fizeram parte de seus planos. Contudo, como em outros temas, em sua misericórdia, Deus os regulamentou temporariamente. Sobre isso, ver a tese de Du PREEZ, Ron. “Polygamy in the Bible With Implications for Seventh-day Adventist Missiology.” Tese (doutorado). Berrien Springs: Andrews University, 1993. p. 28-278. Disponível em: <http://digitalcommons.andrews.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1163&context=dmin&gt (acesso em 28/8/2016).
2. DAVIDSON, Richard. The Theology of Sexuality in the Beginning: Genesis 1-2. Andrews University Seminary Studies, v. 26, n.1, Berrien Springs, 1988, (p. 5-24). p. 22. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/f813/2e85137fb1c8b6dc3dc5a0207deaa18e91cd.pdf&gt (acesso em 13/10/2016).
3. A Bíblia ensina por preceito e também por meio das narrativas, dos exemplos bons ou maus: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar” (Rm 15:4); “Essas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas como advertência para nós, sobre quem tem chegado o fim dos tempos” (1Co 10:11).
4. Antes da lei escrita, já havia a Palavra de Deus, mandamentos, preceitos, estatutos e leis divinas; cf. Gn 26:5; Êx 16:28.
5. Afinal, esse é o princípio hermenêutico de Jesus Cristo, revelado no caminho de Emaús, quando, “começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24:27), “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24:44). “O princípio tota Scriptura refere-se à interpretação de todos os conteúdos bíblicos e da lógica interna da condição hermenêutica biblicamente interpretada do método teológico (sola Scriptura)” (CANALE, Fernando. Creation, Evolution, and Theology: The Role of Method in Theological Accommodation. Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2005. p. 99). Junto com o princípio tota Scriptura está o princípio analogia Scripturae, aparentemente utilizado por Paulo, e pode ser encontrado, por exemplo, nas citações do AT encontradas em Romanos 3:10-18 e Hebreus 1:5-13; 2:6-8, 12, 13. Gerhard Hasel ensina esse princípio afirmando que o “procedimento envolve a coleção e o estudo de todas as partes da Bíblia de passagens que tratam do mesmo assunto”, de modo que uma possa ajudar a interpretar a outra (HASEL, Gerhard. Biblical Interpretation Today. Washington: Biblical Research Institute, 1985. p. 103).

Para um estudo abrangente sobe sexualidade numa perspectiva bíblico-adventista, leia Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (clique aqui).