Quando a oposição vem de dentro

Não se deixe abater quando se assustar com algumas coisas que vamos testemunhando.

Desde há algumas décadas, tem-se fortalecido dentro da Igreja Adventista uma visão contrária àquela que poderemos chamar de tradicional e histórica. Seguindo a inquestionável tendência da sociedade rumo ao liberalismo e progressismo, com forte reflexo nos costumes e estilo de vida, a Igreja (conceito lato) não conseguiu ficar imune nem estanque; copiando, em nível comportamental, algumas dessas caraterísticas, transportou-as para a nossa religião, revestiu-as de uma capa bíblica e, por fim, tentou normalizá-las e padronizá-las como não apenas aceitáveis, mas também desejáveis. Esta mesma semana, assistimos a mais uma triste evidência de que essa tendência é mais forte do que muitos pensariam.

Resumidamente, tivemos destacados líderes da Igreja em nível mundial que, de forma educada e respeitosa, mas não menos firme e determinada, produziram algumas declarações que não são mais do que a reafirmação daquilo que nós somos e acreditamos, entre as quais:

a) A Palavra de Deus tem autoridade.

b) O Espírito de Profecia manifestado em Ellen White é totalmente confiável e deve ser crido em sua totalidade.

c) Vivemos tempos urgentes, na iminência da segunda vinda de Jesus.

d) As filosofias humanistas não se sobrepõem à inspiração divina.

e) A Igreja Adventista deve se manter afastada do ecumenismo.

f) O congregacionalismo não deve prevalecer sobre a Igreja remanescente mundial.

g) Evolução e evolução teísta estão em oposição ao relato bíblico literal da criação.

h) Práticas homossexuais, transgenerismo e estilo de vida LGBT+ estão em desacordo com o plano de Deus para a sexualidade humana.

Isso deveria ter agradado e confirmado nos irmãos a certeza de que há uma identidade histórica, doutrinária, até missiológica na qual estamos firmes e convencidos em seguir, representando aquilo que é o nosso claro e indiscutível entendimento bíblico.

É verdade que muitos, tal como seria de esperar, se manifestaram favoravelmente quanto a essas posições. Alegremente, percebemos que, ao contrário do que apregoam os críticos profissionais da Igreja Adventista, existe, sim, um rumo, uma trajetória definida, e também uma barreira delimitadora entre o certo e o errado, entre o que cremos e o que rejeitamos, e que não temos medo nem vergonha de o declarar.

Contudo, tivemos também alguns, que se chamam de adventistas, que não esperaram muito para dizer que aquelas declarações foram uma “retórica inflamada” que “deixou muitos em fúria”, uma arrogante atitude de “nós estamos certos e vocês todos errados”, o que configura uma “abominação que deve terminar”.

Na mesma linha, e referindo-se ao incentivo dos líderes para que cada membro foque a sua ação na proclamação das mensagens dos três anjos, um obreiro da igreja fez uma lista daquilo que, ele entende, devem ser as prioridades atuais do movimento adventista, entre as quais: “Injustiça, preconceito, racismo, homofobia, misoginia, ódio e abuso.” Por um momento, pensei tratar-se de um ativista qualquer de causas fraturantes que atualmente se identificam como os novos “messias” que pretendem salvar a sociedade da sua História judaico-cristã; mas não, era mesmo um professor de uma escola adventista.

Não menos relevante, e quando surgem renovadas intenções para um projeto de distribuir mundialmente um bilhão de cópias de O Grande Conflito nos próximos tempos, surge o comentário de outro obreiro, este aposentado, que classifica essa obra de Ellen White como mera “tradição adventista do século 19”, em que o objetivo de a espalhar como folhas de outono resulta de “analfabetismo escatológico”.

Já sabíamos que o adventismo está há muito sob ataque; agora, temos a certeza de que não é só de fora.

Quando nos apercebemos de dificuldades internas, alguns têm a tendência de desanimar, fraquejar, duvidar e até desistir. Não aguentam perceber que, tal como no passado, infelizmente a casa de Israel vai tendo aqueles que preferem erguer bezerros de ouro ou adorar Baal, enquanto isso apenas deveria renovar e reforçar nossos esforços de lealdade e fidelidade para com Deus, Sua causa e Sua Igreja. Então, o que fazer?

Deixemos que seja a pena inspirada a responder:

“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus” (Educação, p. 57).

“Quando a religião de Cristo for mais desprezada, quando Sua lei mais desprezada for, então deve nosso zelo ser mais ardoroso e nosso ânimo e firmeza mais inabaláveis. Permanecer em defesa da verdade e justiça quando a maioria nos abandona, ferir as batalhas do Senhor quando são poucos os campeões – essa será nossa prova. Naquele tempo devemos tirar calor da frieza dos outros, coragem de sua covardia, e lealdade de sua traição” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 31).

Em todo o tempo, temos os Moisés, que podem até partir as tábuas, mas não se curvam diante do bezerro; temos os Josués e Calebes, que não se acovardam diante do medo dos outros; temos os Neemias, que estão demasiado ocupados na obra para perder tempo com os insidiosos opositores; temos os quatro homens em Babilônia, que preferem enfrentar as ameaças de morte a ceder no princípio; temos os Jeremias, que até podem ser espancados e lançados num poço, mas preferem continuar servindo a Deus; e temos tantos outros, desde antigamente até aos dias de hoje, cuja dedicação e retidão nos inspiram a ficar ao lado do que é correto, aconteça o que acontecer, quer no mundo, quer na Igreja.

Não se deixe abater quando se assustar com algumas coisas que vamos testemunhando; aliás, se Ezequiel estivesse aqui, ele iria nos lembrar de que, em meio do seu espanto para com as abominações que via no templo, o Senhor o avisou: “Ainda verás coisas piores.” Por isso, renove as suas forças, cresça a sua coragem, confie e espere no Senhor.

“Se vos puserdes a trabalhar como Cristo determina que Seus discípulos o façam, e conquistar almas para Ele, sentireis a necessidade de uma experiência mais profunda e um maior conhecimento das coisas divinas, e tereis fome e sede de justiça. Instareis com Deus, e vossa fé se fortalecerá e vossa alma beberá livremente da fonte da salvação. As oposições e provações que encontrardes vos impelirão para a Bíblia e para a oração. Crescereis na graça e no conhecimento de Cristo e desenvolvereis uma rica experiência” (Aos Pés de Cristo, p. 80).

(Filipe Reis é ancião na Igreja Adventista de Avintes, em Portugal, e diretor do projeto O Tempo Final)