Duas verdades não se anulam

Tender para qualquer um dos lados da questão não é dar destaque para uma verdade, mas escolher a apostasia que mais se encaixa no seu gosto.

Duas verdades não se anulam. Ao contrário, são complementares. Jesus, ao criticar os fariseus, não sugeriu que sua obediência estava errada, mas que ela havia se tornado superficial e voltada aos atos isolados, desassociada dos princípios. “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezam os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Mas vocês deviam fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mateus 23:23).

Dar o dízimo não era mal, o problema é que a força motriz do amor havia sido substituída pela vaidade, que o capítulo inteiro condena. A solução para isso não era deixar de praticar o que é certo, mas mudar as intenções do coração. Pensamento e atos devem guardar uma relação íntima.

Na atualidade, muita gente prefere rivalizar o que, na realidade, é complementar. Por exemplo, a educação dos desejos é importante. Mas ela não anula outro princípio cristão básico: modéstia cristã. Essa rinha entre verdades cristãs, a meu ver, é resultado de um desequilíbrio teológico.

No discipulado, a educação da vontade ocupa um papel, enquanto o da modéstia cristã outro. São verdades que devem ser internalizadas e vividas, e são especialmente desafiadoras, pelo fato de que guerreiam contra as tendências naturais do ser humano para a opolulência e a licenciosiade.

Para defendermos uma posição de pureza, não precisando abdicar da modéstia – elas são verdades complementares. O desequilíbrio promovido por esse divórcio é como uma leitura parcial da Escritura. Acredito que isso surja por meio da imposição ideológica, quando uma filosofia ganha corpo para arbitrar o que é melhor para o ser humano, tomando o lugar da lei de Deus.

Quando a ideologia assume esse papel de juiz revisor da teologia, vejo a repetição dos vícios intelectuais promovidos pelo cristianismo positivo, a linha teológica trazida pelos nazistas. Quando valorizamos as virtudes cristãs de acordo com um projeto político, estamos renunciando o poder de transformação que o Evangelho realmente tem a dar.

Se pureza é verdade, modéstia também é. Quem depende da ideologia, entretanto, vai filtrar o que lhe parece conveniente. Os seguidores de um cristianismo secularizado que se arroga conservador terão a capacidade de achar que o pudor feminino é o que causa a pureza no homem. Ridículo. A transformação que Cristo promove blinda o interior do crente. Tão falso quanto isso é a perspectiva de que a Escritura está despreocupada de princípios que submetem homens e mulheres no cuidado dos recursos e do corpo. A transformação que Cristo faz é vista no exterior do crente.

Melhor seria fazer como os líderes religiosos que encerram o casamento dizendo: “O que Deus uniu, não separe o homem.” Tender para qualquer um desses lados não é dar destaque para uma verdade, mas escolher a apostasia que mais se encaixa no seu gosto.

(Davi Boechat é jornalista e estudante de Direito)