Do sábado para o domingo

Admissões da obra mais importante a defender a suposta abolição do sábado e a observância do domingo.

shabbat

O livro Do Shabbath Para o Dia do Senhor, escrito por um grupo de estudiosos evangélicos, provavelmente é a obra mais importante a defender a abolição do sábado e a observância do domingo. Assim como Samuele Bacchiocchi e outros estudiosos adventistas, esse livro mostra que, no fim do segundo século, muitos cristãos já consideravam o domingo como um dia de culto (na verdade, segundo os autores, no primeiro século, mas eles não apresentam evidências conclusivas para essa alegação). No entanto, um dos fatos mais interessantes para nós adventistas é que essa obra defende (1) que a observância do domingo como um dia de DESCANSO (não meramente de culto) se ORIGINOU por influência do imperador Constantino e do bispo Eusébio de Cesareia e (2) que tal observância se CONSOLIDOU somente no sexto século, com o estabelecimento do papado. Abaixo, estão apenas duas citações:

“Mesmo depois que o domingo se tornou um dia de folga do trabalho, após a legislação de Constantino em 321 d.C., não houve grandes tentativas de se oferecer uma base teológica para essa instituição em termos de uma transferência das obrigações sabáticas. O comentário de Eusébio [contemporâneo de Constantino] sobre o Salmo 91, a primeira obra de que temos conhecimento a afirmar que o [sábado] havia sido transferido para o domingo, faz tal declaração com base na atividade dos sacerdotes no culto, e não nas proibições do quarto mandamento com relação ao trabalho. Bauckham pode afirmar, portanto, [na página 300 deste livro] que ‘apesar da legislação de Constantino, fica claro que o verdadeiro sabatismo [isto é, considerar o domingo como um dia de descanso] foi um fenômeno medieval, e não patrístico’” (A. T. Lincoln, “Do Shabbath para o Dia do Senhor: uma perspectiva bíblica e teológica”, em Do Shabbath Para o Dia do Senhor, ed. D. A Carson [Cultura Cristã, 2006], p. 401).

“O sabatismo medieval [isto é, a observância do domingo como um dia de descanso] se desenvolveu dentro do contexto da monarquia teocrática e da disciplina eclesiástica de caráter cada vez mais jurídico [isto é, com o estabelecimento do papado]. […] No ano 585 d.C. o segundo Concílio de Mâcon chamou o domingo de ‘dia perpétuo de descanso prefigurado no sétimo dia e revelado a nós na Lei e nos Profetas’, e o Concílio de Rouen (aprox. 650), usando a mesma linguagem do Antigo Testamento sobre a observância, decretou que os dias festivais (i.e., domingos e outras festas) fossem celebrados […] ‘de uma noite à outra sem realizar obra servil’. […] Apesar de os mandamentos mosaicos acerca da observância do [sábado] serem considerados rigorosamente obrigatórios, não se sugeria que o eram por quaisquer outros motivos além do fato de a igreja – para a qual o Dia do Senhor era uma instituição divina análoga ao [sábado] mosaico – os haver aplicado ao primeiro dia da semana” (R. J. Bauckham, “O Shabbath e o domingo na igreja medieval do Ocidente”, em ibid., p. 315, 316).

(Matheus Cardoso é bacharel em Teologia e tradutor)