Análise do vídeo “Mudando a Palavra”, de Walter Veith

O Textus Receptus é tão superior aos demais? As Bíblias modernas devem ser encaradas com suspeita?

Biblia

Respeito a pessoa e a biografia do ex-ateu e zoólogo Dr. Walter Veith. A análise que segue diz respeito à palestra “Mudando a Palavra”, apresentada por ele cerca de dez anos atrás, mas que ainda influencia muitas pessoas nos dias atuais. A tônica da palestra consiste na crítica ao trabalho de “atualização” da Bíblia feito por Brook Foss Westcott (1825-1903) e Fenton John Anthony Hort (1828-1892), ministros anglicanos professores da Cambridge University, acusados por Veith e outros de darwinistas, defensores do purgatório, das orações pelos mortos e do culto a Maria, e descrentes da inspiração dos autores bíblicos. Algumas versões/traduções bíblicas em linguagem contemporânea derivam (às vezes em parte) dessa versão de Westcott e Hort. Assim, o Dr. Walter Veith tece inúmeras críticas às versões modernas e exalta repetidamente a antiga versão anglicana King James (KJV), publicada em 1611 e que tem como base textual o Textus Receptus (série de textos do Novo Testamento em grego impressos entre os séculos 16 e 19, e que serviu de base para várias traduções da Bíblia além da King James, como a Bíblia de Lutero e a João Ferreira de Almeida; a primeira edição desse texto foi feita pelo padre e filósofo humanista Erasmo de Roterdã (1467-1536), em 1516, que usou seis manuscritos gregos disponíveis em Basileia e a Vulgata latina para traduzir a parte final do Apocalipse).

Será que a King James é realmente a única versão confiável, como Veith faz parecer? Será que todas as versões modernas foram tão adulteradas que merecem ser chamadas de “demoníacas”, como ele afirma?

O erudito adventista Johannes Kovar, em artigo para o Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral, destaca a história do Textus Receptus para questionar o valor superestimado que lhe é atribuído. “Para a publicação de seu texto, Erasmo [de Roterdã (1467-1536)] confiou em [apenas] seis manuscritos datados entre os séculos 11 e 15 [ou seja, cópias com afastamento superior a mil anos desde que o texto foi escrito], estando bem ciente de sua qualidade inferior. Nenhum desses manuscritos era completo, e Erasmo mudou o texto grego aqui e ali, frequentemente de acordo com a Vulgata Latina. Os manuscritos que Erasmo usou, incluindo as anotações que fez neles, ainda existem, de forma que seu trabalho pode ser analisado de maneira relativamente fácil.”

O Dr. Wilson Paroschi afirma que com a descoberta de manuscritos mais antigos, o trabalho de Erasmo em seu Textus Receptus perdeu espaço: “Apesar de os críticos ainda divergirem com relação a algumas das teorias textuais, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, sob os mais violentos protestos, romperam definitivamente com o Textus Receptus.”

Segundo o Dr. Paroschi, que há décadas estuda e ensina crítica textual, sendo autor de um dos mais respeitados livros nessa área, ao contrário do que dizem os defensores do Textus Receptus, o Códice Sinaítico tem um dos melhores textos, próximo ao do Códice Vaticano. Ambos são superiores aos demais porque o texto deles remonta a manuscritos do segundo século. Existem inúmeros papiros (completos e fragmentários) do segundo século, e o texto dos códices Sinaítico e Vaticano é apoiado por esses papiros. “Do ponto de vista da evidência material e documental, há evidências de sobra de que o Textus Receptus de Erasmo é tardio e inferior, já ‘viciado’ por copistas. As versões mais modernas são, sim, baseadas em manuscritos antigos muito melhores”, afirma Paroschi. E completa: “O que se diz de Wescott e Hort dá a impressão de que antes e depois deles ninguém fez nada. Isso é pura desinformação.”

Como se pode ver, as coisas não são tão preto no branco como Veith faz parecer em seu vídeo, sendo uma versão totalmente confiável e as outras deprezíveis. A verdade é que nenhuma tradução será perfeita e sempre haverá detalhes a serem estudados e explicados (como, por exemplo, a vírgula mal posicionada em Lucas 23:43, em algumas versões). No entanto, cremos que Deus milagrosamente trabalhou para que Sua Palavra fosse preservada em seu todo, de modo que as variações e os erros de tradução não comprometessem a obra que a Bíblia precisa realizar e vem realizando, haja vista o grande número de pessoas que se convertem ao Evangelho lendo qualquer uma das versões/traduções (eu me converti lendo inicialmente uma Bíblia católica traduzida da Vulgata Latina). 

Infelizmente, em sua palestra, Veith mais causa alarde e sensacionalismo do que esclarece e confirma a fé na Palavra de Deus. Esse não é o tipo de tema que se deva analisar em público e sem o devido equilíbrio. O efeito colateral pode ser a descrença e o desprezo em relação às versões mais contemporâneas da Bíblia, por um lado, e a idolatria da King James, por outro.

Conforme questiona o doutor em Teologia Heraldo Lopes, reitor da Universidade Adventista de Moçambique, “Satanás tem poder para alterar o texto bíblico e Deus não tem poder para cuidar? Então quem garante que o que temos é divino e não satânico? O mesmo Deus que inspirou os autores e cuidou do texto deixou milhares de manuscritos para vermos como é realmente a Palvra de Deus. Esses ataques que surgem podem causar um efeito muito perigoso, pois vão gerando na mente nas pessoas a ideia de que a Bíblia não é confiável, e de que dependeríamos de documentos secretos e de denunciadores para dizer que alguns versos não são confiáveis, quando bastaria um estudo comparativo para selecionar as melhores versões. Ou seja: para eles o diabo teve poder sobre a Palavra de Deus. É isso o que cremos? É isso o que Ellen White ensinou sobre o assunto?” Mais adiante veremos o que Ellen escreveu a respeito disso.

Compartilho a seguir algumas impressões em relação à análise do discurso na palestra de Veith e aponto algumas inconsistências e erros na fala dele:

<> Veith diz que muitas alterações foram feitas para minimizar o poder de Jesus. Só que esse foi um péssimo trabalho de Satanás, pois é possível provar a divindade de Cristo mesmo na Tradução Novo Mundo das antitrinitarianas testemunhas de Jeová.

<> Existem variações e até falhas nas traduções, mas creio que Veith maximiza demais o assunto. As variantes não são assim tão drásticas como ele faz parecer. Ele mesmo começa dizendo que se converteu lendo a NIV (New International Version). Eu me converti lendo uma Bíblia Paulinas traduzida da Vulgata, como já disse.

<> Ele suspeita o mal e tenta justificar a mudança em todos os textos. Soa quase onisciente. No minuto 52’20”, ele diz: “Vocês acham que isso é só um erro de interpretação? Eu não ACHO.” Essa técnica dele é conhecida. Lança a pergunta, questiona, e mais adiante afirma. Sabe onde vi muito essa técnica de “lavagem cerebral”? No livro Eram os deuses Astronautas. Däniken faz exatamente isso. Ele lança algo no ar numa página e uma ou duas páginas depois afirma o que havia perguntado. Anos atrás, quando ainda não era adventista e li esse livro, já havia percebido a manipulação. Se Veith faz isso consciente ou inconscientemente, não posso afirmar.

<> Mesmo o “hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:43) pode não ter sido escrito por pura maldade. Pode ter sido a crença dos tradutores que interferiu. Como há inúmeros textos para comparação, fica fácil mostrar o problema às pessoas.

<> Para Veith, em todas as variantes há uma intenção oculta por trás; que os ocultistas mexeram em um monte de textos. Não consigo aceitar isso. É um diabo muito forte! Hoje as Bíblias mais vendidas são as “adulteradas” e não a King James. O diabo venceu?

<> Sinceramente, para mim, uma palestra dessa presta mais desserviço do que bênção. É assunto para se discutir numa aula de teologia. O resultado está aí: confusão. O mesmo tipo de resultado observado com o vídeo em que Veith sugere o ano de 2027 para a volta de Jesus (confira).

<> Em 58’40”, Veith aponta que na Bíblia jesuítica Douay, na Revised Standard Version (RSV) e na NIV não aparece “segundo a ordem de Melquisedeque”. Ele diz que os maçons de grau elevado são iniciados na ordem de Melquisedeque e que, portanto, deram um jeito de rebaixar Jesus na Douay. Esses maçons são sempre muito poderosos!

<> Em 1h03, ele tenta explicar Hebreus 11:3 e se confunde, trazendo inclusive a controvérsia criação x evolução para a discussão. A King James traduz assim o verso: “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela Palavra de Deus.” A RSV fala em “séculos” e a NIV diz “universo”. O texto grego de fato descreve a criação do tempo (espaço/tempo) e não dos mundos. Logo em seguida, Veith tenta descredibilizar uma explicação de Westcott, que, nesse caso, está certa. E ainda distorce o sentido da palavra “evolução” usada no texto de Westcott. Aqui fizeram falta conhecimentos da língua original e de cosmologia. Vejamos:

<> A palavra αἰῶνας (aiônas), traduzida como “mundos” pela King James em Hebreus 11:3, tem o sentido original de “eras” ou “tempo”, e apenas por implicação pode significar “mundos” (Isidro Pereira, S. Dicionário grego-português e português-grego. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1969).

<> Hebreus 11:3 diz que Deus criou as eras (tempo, eternidade). Ainda sobre o tempo, o astrofísico Eduardo Lütz afirma que “o tempo é um dos atributos do Universo. Existe uma profunda conexão entre a criação do tempo e a criação do Universo, não tem como separá-los. Se o tempo não teve um início, Deus não criou o que chamamos hoje de Universo, pois o tempo depende do Universo para existir”. Em outras palavras, segundo o astrofísico, “tempo pode existir sem matéria, mas matéria não pode existir sem tempo”.

<> Em terceiro lugar, espaço-tempo é o “material” com que foi “tecido” (katarithmeo) o universo. Não existe tempo sem espaço. Não existe Universo sem espaço-tempo. Não existe espaço-tempo sem Universo. Tempo é só mais uma das coisas que fazem parte da criação. Portanto, Hebreus 11:3 na King James está mal traduzido e a má tradução é impropriamente defendida por Veith.

<> Em 1h06, de novo vemos um levantamento de hipótese sem confirmação (algo recorrente nos vídeos de Veith): “Vocês não acham que aqui há um ataque sutil a Jesus Cristo? Ou talvez um ataque não tão sutil? Talvez seja um ataque aberto a Jesus Cristo.” Aí ele frequentemente diz: “Só estou perguntando…”

<> “Quanto às traduções modernas e comentários, a própria Sra. White os utilizava. Você encontrará várias citações extraídas de outras versões bíblicas, além da King James Version, em muitos de seus trabalhos mais recentes, quando aquelas versões estavam disponíveis. Ocasionalmente, ela também consultava comentários bíblicos” (William Fagal, 101 Perguntas Sobre Ellen White e Seus Escritos, p. 195). Ellen usou amplamente a versão mais disponível e popularizada no tempo dela: a King James, mas recebeu com satisfação e usou também versões mais novas que iam surgindo. Tenhamos a mesma postura equilibrada da serva do Senhor e não causemos alarde desnecessário.

Falando nela, vejamos um texto que pode nos ajudar a ter uma atitude equilibrada em relação a esse assunto: “Alguns nos olham seriamente e dizem: ‘Não acha que deve ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?’ Tudo isso é provável, e a mente que for tão estreita que hesite e tropece nessa possibilidade ou probabilidade estaria igualmente pronta a tropeçar nos mistérios da Palavra Inspirada, porque sua mente fraca não pode ver através dos desígnios de Deus. Sim, com a mesma facilidade tropeçariam em fatos simples que a mente comum aceita e em que discerne o Divino, e para quem as declarações de Deus são simples e belas, cheias de essência e riqueza. Mesmo todos os erros não causarão dificuldade a uma pessoa, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada. Deus confiou o preparo de Sua Palavra divinamente inspirada ao homem finito. Esta Palavra, arranjada em livros – o Antigo e o Novo Testamentos – é o guia para os habitantes de um mundo caído, a eles legado para que, mediante o estudar as direções e obedecer-lhes, pessoa alguma perdesse o caminho do Céu” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 16, 17).

“O Senhor fala aos seres humanos em linguagem imperfeita, a fim de os sentidos degenerados, a percepção pesada, terrena, dos seres da Terra poderem compreender-Lhe as palavras. Nisto se revela a condescendência de Deus. Ele vai ao encontro dos caídos seres humanos onde eles se acham. Perfeita como é, em toda a sua simplicidade, a Bíblia não corresponde às grandes ideias de Deus; pois ideias infinitas não se podem corporificar perfeitamente em finitos veículos de pensamento. Em lugar de as expressões da Bíblia serem exageradas, como julgam muitos, as fortes expressões se enfraquecem ante a magnificência da ideia, embora o escritor escolha a mais expressiva linguagem para transmitir as verdades da educação mais elevada. Os seres pecadores só podem suportar olhar a sombra do brilho da glória celeste” (Ellen G. White, Carta 121, 1901).

Para o Dr. Heraldo, “o Textus Receptus teve seu papel, mas depois foram descobertos muitos manuscritos. O texto base para o Novo Testamento da Almeida Revista e Atualizada e da Nova Almeida Atualizada é o da United Bible Societies (UBS); e desde 1952, quando o texto de Nestle passou a ser Nestle-Aland, ele segue uma linha muito adotada pelos protestantes. Logo, dizer que o Receptus é ainda o melhor texto é ignorar tudo de bom que se descobriu depois e foi sendo acrescentado e melhorado. É como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais. As versões que usamos não se baseiam em Westcort-Hort. É só verificar as diferenças entre o texto da UBS e de Westcort-Hort. São diferentes”.

O Intituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral (órgão oficial da IASD em âmbito mundial) publicou o artigo “The Textus Receptus and modern Bible translations” (aqui). Cito a seguir alguns trechos bastante esclarecedores:  

“Ele chega a essa posição [tratada acima] em parte por causa de certas teorias da conspiração, que ele defende, e não com base em um estudo dos manuscritos gregos originais.”

“Sua tradução difere substancialmente do texto encontrado nos manuscritos. Há palavras no texto de Erasmo que hoje não são encontradas em um único manuscrito grego. Quem considera o Textus Receptus como o texto original inspirado do Novo Testamento tem que acreditar que o texto original grego do NT era desconhecido até o ano de 1516, e deve aceitar o sacerdote católico e humanista Erasmo como um escritor inspirado do Novo Testamento.”

“Um dos primeiros grandes hereges, Marcião, veio originalmente da Ásia Menor. Portanto, é incorreto concluir que a Ásia Menor e a Grécia garantiram a ortodoxia. Por outro lado, o bispo de Alexandria excomungou Orígenes, mantendo assim a ortodoxia. Mais tarde, na disputa cristológica, o alexandrino Atanásio demonstrou novamente que o Egito aderiu a posições teológicas saudáveis. A ideia de que as descobertas no Egito implicam que os manuscritos também foram escritos lá não pode ser provada e não é provável.”

“Em 1881, [Westcott e Hort] publicaram uma edição do NT grego que causou sensação entre os estudiosos. Ela foi muito atacada, mas, no geral, foi recebida como a mais próxima do texto original do NT. Seu texto lançou as bases para as edições posteriores de Nestlé e Aland. Embora a alegação de que fossem espiritualistas não possa ser comprovada pelo exame histórico, os ‘ativistas da King James somente’ perpetuam constantemente essa ideia.”

“As diferenças entre as traduções das Bíblias baseadas no Textus Receptus e as que seguem o texto eclético não são graves. Apenas muito poucas passagens são de maior significado. Estima-se que 98% do texto do NT não revele variações apreciáveis. Os ‘campeões do Textus Receptus’ muitas vezes levam as diferenças muito a sério.”

“Palavras teologicamente duvidosas no Textus Receptus. Há casos em que o texto majoritário é problemático. O Textus Receptus de João 5:3, 4 diz: ‘Pois um anjo descia em certo tempo ao tanque e agitava as águas’ (KJV). Esse texto está ausente nas Bíblias modernas ou é relegado às notas de rodapé. No entanto, a leitura da KJV resulta em uma teologia alarmante: Deus é arbitrário, recompensando os fortes e punindo os fracos. Curiosamente, Ellen G. White também questiona esse texto [no Desejado]. Ela explica que o texto retrata a tradição popular e claramente não acredita em uma obra divina. Não há fundamento para afirmar que o Textus Receptus é mais ortodoxo.”

“Ellen White citou a English Revised Version (ERV) e a American Revised Version (ARV, 1901), também conhecida como American Standard Version [ASV]), ambas baseadas no texto grego Westcott-Hort do NT. Ela deu instruções específicas à sua secretária para usar a versão que melhor refletisse suas ideias. Em seu livro The Ministry of Healing (1905), ela usou dez textos bíblicos da ERV, mais de cinquenta da ARV e alguns textos de outras versões. Isso prova que ela não se limitou à KJV. Quando mais tarde ela fez declarações importantes sobre inspiração (Mensagens Escolhidas, v. 1, e a introdução de O Grande Conflito), ela não advertiu contra novas traduções. Evidentemente, ela não via nelas qualquer ameaça às crenças e à teologia.”

“Quando novas traduções para o inglês apareceram, a Associação Geral mais uma vez considerou necessário apresentar uma declaração (1954). A igreja justificou a necessidade de novas traduções com dois argumentos ainda válidos hoje: primeiro, novas descobertas arqueológicas enriquecem nossa compreensão, e, segundo, cada língua viva está em constante flutuação. As traduções da Bíblia devem levar isso em conta.”

“As diferenças em ambos os tipos de texto são pequenas e, portanto, não devem minar nossa confiança na transmissão e na validade do texto bíblico. Não é cientificamente legítimo nem pastoralmente aconselhável negar às traduções modernas e cuidadosamente traduzidas da Bíblia seu direito de existir.”

Para mais informações, leia o texto “The Textus Receptus and modern Bible translations”, no boletim do Biblical Research Institute, da Associação Geral da IASD (clique aqui). Leia também “Apocalyptic ficcion in times of Covid-19” (aqui).

Michelson Borges