O filtro do evangelho

Essa coisa do filtro não passa de uma cortina de fumaça para tentar encobrir preferências e arbitrariedades pessoais.

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Quem foi que disse que temos que usar o evangelho como filtro para definir quais declarações bíblicas aceitar e quais não? Jesus é que não foi! Sendo assim, o suposto princípio interpretativo não passa no próprio teste. E nem poderia, porque Jesus reconhecia plenamente a inspiração e a autoridade das Escrituras de Seus dias, o Antigo Testamento. Já tratei disso num post anterior (“Jesus e as Escrituras”). Ele jamais relativizou ou minimizou o que os profetas disseram (Mt 5:17-20; Lc 16:31; Jo 5:39-46). Além disso, pouco antes de concluir Seu ministério, Jesus conferiu autoridade apostólica aos Doze e os tornou depositários de Seus ensinos (Mc 3:14-19; cf. Mt 10:1-4; Lc 6:13-16; Jo 6:70). Ele inclusive deu a eles “as chaves do reino” (Mt 16:19), autorizando-os a ensinar e preparar pessoas para o reino dos céus (cf Lc 24:47-49; Jo 20:23). E acrescentou: “Quem ouve vocês ouve a Mim; e quem rejeita vocês é a Mim que rejeita; quem, porém, Me rejeita está rejeitando Aquele que Me enviou” (Lc 10:16; cf. Jo 13:20).

Dizer que os escritos apostólicos precisam eles mesmos passar pelo crivo do evangelho soa, no mínimo, contraditório. Afinal, como foi que o evangelho chegou até nós se Jesus mesmo não deixou nada escrito – nenhuma autobiografia ou coleção de ensinos? O evangelho chegou até nós justamente por meio daqueles a quem Jesus chamou, preparou e inspirou para serem Suas testemunhas (Lc 1:1-4; Jo 20:30-31; 21:24; cf. Jo 14:25-26; 15:26; 16:12-15; 20:22).

Sem os apóstolos, portanto, incluindo-se o temporão Paulo (1Co 15:8; cf. 9:1-2; 2 Co 12:11-12), não haveria evangelho, tampouco haveria Cristo.

A objeção maior é a Paulo, o apóstolo que mais fez para universalizar e sistematizar a fé cristã. Paulo é questionado porque ele identifica o pecado de uma forma que não condiz com a agenda liberal. Mas quem chamou e comissionou Paulo não foi outro senão o próprio Jesus, e quem conta a história é Lucas, o mesmo que escreveu o terceiro evangelho (At 9:3-6, 15; 22:6-10; 26:12-18). Ou seja, essa coisa do filtro não passa de uma cortina de fumaça para tentar encobrir preferências e arbitrariedades pessoais. O resultado não é cristianismo, mas uma caricatura grotesca do cristianismo.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)