Chave hermenêutica: as Escrituras

A única serventia da tal chave hermenêutica é revelar o grau de comprometimento que se tem para com a Palavra de Deus.

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Para quem deseja mais informação, essa coisa do filtro do evangelho, de Jesus como a chave hermenêutica ou do princípio cristocêntrico (ou crucicêntrico) foi popularizada poucos anos atrás nos Estados Unidos pelo pastor e escritor progressista (pós-moderno) Greg Boyd. Na obra The Crucifixion of the Warrior God (A Crucificação do Deus Guerreiro), em dois volumes, ele sustenta que tudo na Bíblia deve ser avaliado a partir da revelação suprema do amor de Deus em Cristo Jesus, um amor não violento e que se sacrifica a si mesmo pelos outros. Ou seja, as Escrituras devem ser lidas pelas lentes da cruz e qualquer coisa – mesmo se atribuída a Deus – que, na visão de Boyd, não se ajusta ao princípio da cruz, deve ser rejeitada como incorreta, culturalmente condicionada e mesmo demonicamente induzida.

O problema de Boyd é com o que ele chama de “lado escuro” do Antigo Testamento, que são as passagens em que Deus é retratado como exercendo juízo de forma violenta (como o dilúvio, a rebelião de Coré, Sodoma e Gomorra, etc.). Para Boyd, a cruz demonstra que Deus não condena. Ele apenas ama. Logo, os relatos bíblicos em que Deus parece condenar pecado e pecadores são falsas representações do caráter divino. Na verdade, afirma Boyd, não era Deus. Eram forças satânicas em operação e, ao creditar o relato a Deus, o escritor humano (Moisés, Josué, Samuel, etc.) está apenas evidenciando sua própria obstinação e perversidade.

Boyd defende o mesmo com relação ao Novo Testamento. O que temos aqui, porém, nada mais é que uma rejeição sumária da autoridade divina e sua substituição pela autoridade humana. É o homem querendo decidir o que é correto e o que não é, o que é “bíblico” e o que não é. Se não condiz com minha mentalidade liberal quanto ao que é pecado e o que não é, eu rejeito!

O tema é amplo, mas gostaria de perguntar de novo (veja meu post anterior, “O filtro do evangelho”): Onde está o apoio bíblico para esse pseudocritério de interpretação? Simplesmente não existe!

Pelo contrário, Jesus explicitamente afirmou que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17), que a Escritura não pode falhar (10:35), que mesmo as menores partes da Escritura continuam válidas (Lc 16:17), que Ele viera para Se submeter à Escritura (Mt 5:17) e que enquanto durassem os céus e a terra nada seria tirado da Escritura (v. 18). Ele reconheceu a autoridade de Moisés e afirmou que os escritos dele seriam a norma no juízo final (Jo 5:45-47). E pouco antes de morrer, Ele orou para que Seus discípulos fossem santificados na verdade, acrescentando que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17). Ou seja, Jesus jamais sequer insinuou que o Antigo Testamento possa conter concepções distorcidas sobre o caráter de Deus ou não ser autoritativo em tudo o que diz (cf. 2Tm 3:15, 16; Tt 1:2; Hb 6:18; 2Pd 1:19-21).

Não há dúvida de que Jesus é o centro da Escritura e do plano redentor (Jo 5:39, 46; 2Tm 3:15), mas usar isso para excluir passagens ou conceitos bíblicos só porque eles não condizem com as minhas preferências pessoais é brincar de Deus (cf. Gn 3:15). A única serventia da tal chave hermenêutica, portanto, é revelar o grau de comprometimento que se tem para com a Palavra de Deus.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)