O que nos torna brasileiros? Uma abordagem cristã

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Sinto uma emoção forte ao pensar que, há exatos duzentos anos, em um gesto despretensioso, o jovem príncipe regente, prestes a completar 24 anos, em declaração que passou para a história de nosso país, proclamou  nossa independência em relação ao reino de Portugal. Dom Pedro I jamais imaginaria o que estava por acontecer, e que, em um gesto muito mais preocupado com a coroa portuguesa, que futuramente estaria sobre sua cabeça, estava na verdade dando o primeiro passo constitutivo do Brasil como país. Soaria absolutamente absurda, para o jovem estadista, a ideia de que um dia, um país de proporções continentais chamado Brasil, com um território de mais de 8 milhões de km², teria uma população de mais de duzentos milhões de habitantes.

Pouco importa que o grito da independência não tenha ocorrido exatamente como nos ensina a história oficial e o imaginário popular, para o qual muito colaborou a pintura do quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo. Provavelmente nunca houve um cavalo “quarto de milha marchador”, de pelo branco escovado, sobre o qual nosso futuro imperador teria montado e desembainhado sua espada para o famoso brado retumbante. Ao que tudo indica, as circunstâncias eram bem outras. Mas o fato é que, daquele momento em diante, estava pronta a forma que criaria um dos seres mais enigmáticos que o mundo viria a conhecer: o brasileiro.

O brasileiro é, antes de ser um forte e um bravo, um ser indefinível. Formado pela junção de três raças distintas – o negro trazido a força para ser escravo, o branco que perdia sua cidadania e identificação com seu país de origem e o índio desalojado de sua terra e cultura -, receberia nos duzentos anos seguintes várias ondas migratórias de outros povos, formando um mosaico étnico que não permite ao brasileiro ter um biotipo identificável, reconhecível. Não existe um brasileiro típico. Tal mistura de ingredientes tão peculiares faz com que seja ainda mais difícil entender qual seria o ponto que nos une.

O que pode haver em comum entre um seringueiro no Acre e um gaúcho dos pampas? E o nordestino, vindo do sertão, do agreste, comendo buchada de bode e farinha no desjejum… poderia conviver com o paulista de origem italiana e japonesa? E o sertanejo, o peão vindo das Gerais e o homem da caatinga, possuem alguma semelhança com o boiadeiro mato-grossense, que passa meses no pantanal entre onças e jacarés? O rio-grandense de origem alemã toma chimarrão e não dispensa um bom churrasco. Já o pantaneiro, prefere o tererê. Mineiro come pão de queijo, jiló e um pingado. O Amazonense não vive sem seu tambaqui assado ou a caldeirada de tucunaré. E o goiano, essa figura que come frango caipira e arroz com pequi, quem entende? E se formos para a sobremesa, os doces, teríamos assunto para os próximos 200 anos. O que explica a união de pessoas com personalidades e costumes tão distintos?

Por mais diferentes que possamos ser, na cultura, nos costumes, na personalidade e até nas formas de adorarmos ao mesmo Deus, todos nos unimos diante de um arroz com feijão, ou quem sabe pela magia verde-amarela-azul-e-branca, quando a seleção canarinho entra em campo e se ouve o grito de gol do Neymar. Porém, isso é muito pouco para forjar a união de um povo como nação, nação esta que acaba de completar duzentos anos de independência e tem fôlego para mais duzentos. Mas, afinal, o que faz com que tenhamos esse sentimento de brasilidade, uma criatividade indescritível? Enfim, o que nos torna especiais por ser brasileiros?

Acreditar que todo esse sentimento que nos emociona ao ouvirmos o Hino Nacional e vermos nossa bandeira tremulando seja obra do mero acaso, seria banalizar demais nossas origens. Não tenho como saber se sua família veio parar aqui, no “país do futuro” (segundo Stefan Zweig), na busca por novos horizontes, ou se seu tataravô estava em um navio acorrentado olhando para os céus e pensando: “Deus, oh, Deus, onde estás que não respondes?” (Castro Alves, em “Navio Negreiro”). Também não tenho como imaginar se vinte gerações antes de você, seu ta-ta-ta…..taravô já estava por aqui, na grande nação Tupinambá, caçando, pescando e dizendo: “Assim o Timbira, coberto de glória, guardava memória do moço guerreiro, do velho Tupi. E à noite nas tabas, se alguém duvidava, do que ele contava, tomava prudente: Meninos, eu vi!” (Gonçalves Dias, “I-Juca Pirama”).

Por isso prefiro crer em algo maior que nossa herança cultural.

Em Ester 4:14, Mardoqueu está admoestando a moça a agir por seu povo, para evitar sua destruição, e no fim do verso diz: “E quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” Há uma razão para estarmos aqui. Por maior que seja este mundo, ele cabe na palma da mão do Criador, e em Sua sabedoria Deus nos colocou aqui, neste país tropical. O mesmo Deus que estabelece reis e remove reis (Daniel 2:21) nos pôs aqui, assim como a nossos antepassados, e nos deu um lugar, uma terra, uma pátria, um povo ao qual pertencemos. Portanto, do ponto de vista cristão, temos uma missão aqui, como brasileiros, como nação.

É claro que sonhamos com uma pátria melhor, mesmo aqui neste mundo. Sabemos que nosso país tem defeitos; não sejamos meramente ufanistas. Nosso povo heroico solta seu brado retumbante todos os dias, na busca pelo trabalho, pelo pão nosso de cada dia, pela sobrevivência. Para pagar o penhor dessa igualdade, todos os dias precisamos de muito mais do que a ajuda de um braço forte. Por mais que nossos campos tenham mais flores, precisamos deixar de desmatar nossos bosques, para que eles continuem tendo mais vida, mesmo que nossa vida não tenha necessariamente mais amores. Oh, pátria amada, idolatrada, salve, salve! Que ela nos ame assim como a amamos. Precisamos aprender a reconhecer o nosso “lábaro” estrelado, assim como outros dos incontáveis presentes que Deus nos deu, nesta terra em que, plantando, tudo dá (Pero Vaz de Caminha, na “Carta do Descobrimento”). Que a justiça não seja aqui meramente a clava forte, que às vezes oprime com o castigo, ou em outras circunstâncias fecha os olhos para as mazelas sociais. A pátria sabe que um filho seu não foge à luta, nem teme, quem lhe adora a própria morte… dura verdade das periferias, da criminalidade, do uso do crack; onde sair para trabalhar todos os dias pela manhã já é um ato de coragem ante o risco de morte. Nossa pátria amada ainda falha em reconhecer que, dos filhos deste solo, é uma mãe gentil. Que o digam os muitos analfabetos, as vítimas de balas perdidas e aqueles que choram, como as Marias e as Clarices.

O apóstolo Paulo nos diz, em 2 Coríntios 3:18, que hoje contemplamos a glória de Deus como que por um espelho. Em seu tempo, o espelho era um objeto feito de bronze polido, que refletia uma imagem um tanto distorcida da realidade. Aplicando um raciocínio análogo, a pátria que hoje temos é uma imagem distorcida, e por mais que possamos trabalhar e viver por ela, sabemos que os problemas sempre existirão. Se somente no Céu poderemos contemplar o rosto de Deus face a face, da mesma forma, somente no Céu nossos relacionamentos serão perfeitos, restaurados à imagem de Deus. A pátria celestial, essa sim, será a imagem real da glória de Deus, e não mais uma imagem vista por um espelho de bronze.

Deus nos deu o sentimento de nação, de pertencimento. Assim como nos conhecia desde antes de sermos formados no ventre materno (Jeremias 1:5), também conhecia a história da nossa formação como nação, desde antes da gestação, dos fatos que desencadearam nossa independência.

Mas, acima de tudo, Deus sabe de onde você veio. Foi Ele que colocou você aqui. Ele sabe que você veio do morro, do engenho, da selva, dos cafezais, da linda terra do coco, da choupana onde um é pouco, dois é bom e três é demais. Ele sabe que você pode ter vindo das praias sedosas, das montanhas alterosas, do pampa, dos seringais, das margens crespas dos rios, dos verdes mares bravios… Mas Ele sabe também onde é a minha verdadeira terra natal. Portanto, que jamais percamos de vista que a nossa pátria celestial também tem palmeiras onde cantará o sabiá, e que as aves que aqui gorjeiam, jamais gorjearão como as de lá. Não apenas o mar já não existirá, mas também a saudade, esse sentimento difícil de se traduzir, mas tão fácil de entender. E mesmo que aqui neste mundo venhamos a ficar distantes do nosso amado Brasil, a pátria celestial será tão especial que deveríamos ter em mente a cada dia ao acordar a certeza de que aqui, por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que leve por divisa esse V que simboliza a vitória que virá.

Que neste 7 de setembro, em que comemoramos a proclamação da independência do Brasil, tenhamos em mente nossa dependência de um Deus que nos levará à pátria celestial.

(Mateus Alexandre Castanho, Departamento de Publicações da IASD Central de Brasília)