Duas verdades não se anulam

Tender para qualquer um dos lados da questão não é dar destaque para uma verdade, mas escolher a apostasia que mais se encaixa no seu gosto.

Duas verdades não se anulam. Ao contrário, são complementares. Jesus, ao criticar os fariseus, não sugeriu que sua obediência estava errada, mas que ela havia se tornado superficial e voltada aos atos isolados, desassociada dos princípios. “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezam os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Mas vocês deviam fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mateus 23:23).

Dar o dízimo não era mal, o problema é que a força motriz do amor havia sido substituída pela vaidade, que o capítulo inteiro condena. A solução para isso não era deixar de praticar o que é certo, mas mudar as intenções do coração. Pensamento e atos devem guardar uma relação íntima.

Na atualidade, muita gente prefere rivalizar o que, na realidade, é complementar. Por exemplo, a educação dos desejos é importante. Mas ela não anula outro princípio cristão básico: modéstia cristã. Essa rinha entre verdades cristãs, a meu ver, é resultado de um desequilíbrio teológico.

No discipulado, a educação da vontade ocupa um papel, enquanto o da modéstia cristã outro. São verdades que devem ser internalizadas e vividas, e são especialmente desafiadoras, pelo fato de que guerreiam contra as tendências naturais do ser humano para a opolulência e a licenciosiade.

Para defendermos uma posição de pureza, não precisando abdicar da modéstia – elas são verdades complementares. O desequilíbrio promovido por esse divórcio é como uma leitura parcial da Escritura. Acredito que isso surja por meio da imposição ideológica, quando uma filosofia ganha corpo para arbitrar o que é melhor para o ser humano, tomando o lugar da lei de Deus.

Quando a ideologia assume esse papel de juiz revisor da teologia, vejo a repetição dos vícios intelectuais promovidos pelo cristianismo positivo, a linha teológica trazida pelos nazistas. Quando valorizamos as virtudes cristãs de acordo com um projeto político, estamos renunciando o poder de transformação que o Evangelho realmente tem a dar.

Se pureza é verdade, modéstia também é. Quem depende da ideologia, entretanto, vai filtrar o que lhe parece conveniente. Os seguidores de um cristianismo secularizado que se arroga conservador terão a capacidade de achar que o pudor feminino é o que causa a pureza no homem. Ridículo. A transformação que Cristo promove blinda o interior do crente. Tão falso quanto isso é a perspectiva de que a Escritura está despreocupada de princípios que submetem homens e mulheres no cuidado dos recursos e do corpo. A transformação que Cristo faz é vista no exterior do crente.

Melhor seria fazer como os líderes religiosos que encerram o casamento dizendo: “O que Deus uniu, não separe o homem.” Tender para qualquer um desses lados não é dar destaque para uma verdade, mas escolher a apostasia que mais se encaixa no seu gosto.

(Davi Boechat é jornalista e estudante de Direito)

Quando a oposição vem de dentro

Não se deixe abater quando se assustar com algumas coisas que vamos testemunhando.

Desde há algumas décadas, tem-se fortalecido dentro da Igreja Adventista uma visão contrária àquela que poderemos chamar de tradicional e histórica. Seguindo a inquestionável tendência da sociedade rumo ao liberalismo e progressismo, com forte reflexo nos costumes e estilo de vida, a Igreja (conceito lato) não conseguiu ficar imune nem estanque; copiando, em nível comportamental, algumas dessas caraterísticas, transportou-as para a nossa religião, revestiu-as de uma capa bíblica e, por fim, tentou normalizá-las e padronizá-las como não apenas aceitáveis, mas também desejáveis. Esta mesma semana, assistimos a mais uma triste evidência de que essa tendência é mais forte do que muitos pensariam.

Resumidamente, tivemos destacados líderes da Igreja em nível mundial que, de forma educada e respeitosa, mas não menos firme e determinada, produziram algumas declarações que não são mais do que a reafirmação daquilo que nós somos e acreditamos, entre as quais:

a) A Palavra de Deus tem autoridade.

b) O Espírito de Profecia manifestado em Ellen White é totalmente confiável e deve ser crido em sua totalidade.

c) Vivemos tempos urgentes, na iminência da segunda vinda de Jesus.

d) As filosofias humanistas não se sobrepõem à inspiração divina.

e) A Igreja Adventista deve se manter afastada do ecumenismo.

f) O congregacionalismo não deve prevalecer sobre a Igreja remanescente mundial.

g) Evolução e evolução teísta estão em oposição ao relato bíblico literal da criação.

h) Práticas homossexuais, transgenerismo e estilo de vida LGBT+ estão em desacordo com o plano de Deus para a sexualidade humana.

Isso deveria ter agradado e confirmado nos irmãos a certeza de que há uma identidade histórica, doutrinária, até missiológica na qual estamos firmes e convencidos em seguir, representando aquilo que é o nosso claro e indiscutível entendimento bíblico.

É verdade que muitos, tal como seria de esperar, se manifestaram favoravelmente quanto a essas posições. Alegremente, percebemos que, ao contrário do que apregoam os críticos profissionais da Igreja Adventista, existe, sim, um rumo, uma trajetória definida, e também uma barreira delimitadora entre o certo e o errado, entre o que cremos e o que rejeitamos, e que não temos medo nem vergonha de o declarar.

Contudo, tivemos também alguns, que se chamam de adventistas, que não esperaram muito para dizer que aquelas declarações foram uma “retórica inflamada” que “deixou muitos em fúria”, uma arrogante atitude de “nós estamos certos e vocês todos errados”, o que configura uma “abominação que deve terminar”.

Na mesma linha, e referindo-se ao incentivo dos líderes para que cada membro foque a sua ação na proclamação das mensagens dos três anjos, um obreiro da igreja fez uma lista daquilo que, ele entende, devem ser as prioridades atuais do movimento adventista, entre as quais: “Injustiça, preconceito, racismo, homofobia, misoginia, ódio e abuso.” Por um momento, pensei tratar-se de um ativista qualquer de causas fraturantes que atualmente se identificam como os novos “messias” que pretendem salvar a sociedade da sua História judaico-cristã; mas não, era mesmo um professor de uma escola adventista.

Não menos relevante, e quando surgem renovadas intenções para um projeto de distribuir mundialmente um bilhão de cópias de O Grande Conflito nos próximos tempos, surge o comentário de outro obreiro, este aposentado, que classifica essa obra de Ellen White como mera “tradição adventista do século 19”, em que o objetivo de a espalhar como folhas de outono resulta de “analfabetismo escatológico”.

Já sabíamos que o adventismo está há muito sob ataque; agora, temos a certeza de que não é só de fora.

Quando nos apercebemos de dificuldades internas, alguns têm a tendência de desanimar, fraquejar, duvidar e até desistir. Não aguentam perceber que, tal como no passado, infelizmente a casa de Israel vai tendo aqueles que preferem erguer bezerros de ouro ou adorar Baal, enquanto isso apenas deveria renovar e reforçar nossos esforços de lealdade e fidelidade para com Deus, Sua causa e Sua Igreja. Então, o que fazer?

Deixemos que seja a pena inspirada a responder:

“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus” (Educação, p. 57).

“Quando a religião de Cristo for mais desprezada, quando Sua lei mais desprezada for, então deve nosso zelo ser mais ardoroso e nosso ânimo e firmeza mais inabaláveis. Permanecer em defesa da verdade e justiça quando a maioria nos abandona, ferir as batalhas do Senhor quando são poucos os campeões – essa será nossa prova. Naquele tempo devemos tirar calor da frieza dos outros, coragem de sua covardia, e lealdade de sua traição” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 31).

Em todo o tempo, temos os Moisés, que podem até partir as tábuas, mas não se curvam diante do bezerro; temos os Josués e Calebes, que não se acovardam diante do medo dos outros; temos os Neemias, que estão demasiado ocupados na obra para perder tempo com os insidiosos opositores; temos os quatro homens em Babilônia, que preferem enfrentar as ameaças de morte a ceder no princípio; temos os Jeremias, que até podem ser espancados e lançados num poço, mas preferem continuar servindo a Deus; e temos tantos outros, desde antigamente até aos dias de hoje, cuja dedicação e retidão nos inspiram a ficar ao lado do que é correto, aconteça o que acontecer, quer no mundo, quer na Igreja.

Não se deixe abater quando se assustar com algumas coisas que vamos testemunhando; aliás, se Ezequiel estivesse aqui, ele iria nos lembrar de que, em meio do seu espanto para com as abominações que via no templo, o Senhor o avisou: “Ainda verás coisas piores.” Por isso, renove as suas forças, cresça a sua coragem, confie e espere no Senhor.

“Se vos puserdes a trabalhar como Cristo determina que Seus discípulos o façam, e conquistar almas para Ele, sentireis a necessidade de uma experiência mais profunda e um maior conhecimento das coisas divinas, e tereis fome e sede de justiça. Instareis com Deus, e vossa fé se fortalecerá e vossa alma beberá livremente da fonte da salvação. As oposições e provações que encontrardes vos impelirão para a Bíblia e para a oração. Crescereis na graça e no conhecimento de Cristo e desenvolvereis uma rica experiência” (Aos Pés de Cristo, p. 80).

(Filipe Reis é ancião na Igreja Adventista de Avintes, em Portugal, e diretor do projeto O Tempo Final)

Mais uma profecia de Ellen White se cumpre

Lição do Jardim: somos todos iguais

Round 6: colégios alertam pais para evitar que crianças e adolescentes assistam

Violência, tortura psicológica, suicídio, tráfico de órgãos, cenas de sexo e palavras de baixo calão fazem parte da produção sul-coreana.

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O seriado sul-coreano Round 6, disponível na Netflix, é um fenômeno e está na boca do povo. Lançada em setembro, em poucas semanas, a série já é a mais assistida da plataforma de streaming com 111 milhões de espectadores. Um sucesso de público, mas também uma preocupação para pais e escolas de Salvador. É que, pela grande repercussão, Round 6, apesar de não ser indicado para menores de 16 anos, está também na boca das crianças e até em suas brincadeiras. O que deixa os responsáveis e os colégios para lá de preocupados já que a série faz uso de brincadeiras infantis para construir uma narrativa violenta em um jogo que dá ao vencedor uma fortuna, enquanto mata os que são eliminados no processo.

De acordo com Elisângela Santos, psicopedagoga do Colégio Montessoriano que já emitiu comunicado alertando os pais sobre, o seriado atrai as crianças por ter em seu roteiro brincadeiras, mas pode ser extremamente prejudicial aos pequenos pelo seu desfecho. “São brincadeiras exibidas na série que têm um viés até infantil em sua concepção e, por isso, aguçam a curiosidade das crianças, mas que são inseridas em um contexto absolutamente violento, que é inapropriado para crianças e adolescentes. Questiono até se de fato poderia ser assistida por quem tem 16 ou 17”, declara a psicopedagoga.

Além do Montessoriano, o Colégio Antônio Vieira também encaminhou comunicado aos pais e responsáveis sobre o seriado. “Como esse conteúdo vem tomando proporção nas redes sociais e também percebemos que vem sendo comentado entre as crianças, durante o recreio e horários livres, convidamos a todos para que fiquem alertas e acompanhem diariamente os conteúdos de acesso de seus filhos, sejam eles em filme, séries, músicas, sejam os conteúdos explorados nas redes sociais”, informa o Serviço de Orientação Educacional do Vieira em comunicado. […]

“São conteúdos explícitos na série: violência, tortura psicológica, suicídio, tráfico de órgãos, cenas de sexo, palavras de baixo calão, entre outros”, escreve a coordenação pedagógica. […]

Para Elisângela Santos, toda essa preocupação de pais e escolas tem sentido já que a série tem entrado não só no campo de visão das crianças, mas também em suas brincadeiras. “É uma série que não é para criança. Um conteúdo que remete a suicídio, tráfico de órgãos, tortura e violência realmente não é pra criança. E elas estão brincando fazendo referência à série, o que é muito natural porque, nessa idade, a criança é uma esponja que absorve tudo que vê de forma inocente”, relata.

A psicopedagoga diz ainda que os traumas adquiridos da série podem se estender por toda a vida. “Os danos psicológicos podem caminhar com esses jovens para o resto da vida. Cenas de violência podem disparar muitos gatilhos. Principalmente, para jovens que apresentam situação de ansiedade e depressão, acho muito perigoso”, alerta. […]

O terapeuta infantil Iarodi Bezerra concorda com a inadequação da série para a idade abaixo da sua classificação, mas questiona o que pode ser uma atenção direcionada, que ignora outros conteúdos problemáticos. “A série é para adultos. Mesmo que se utilize de um contexto com referências lúdicas, não é para criança. Atualmente, crianças e jovens estão em contato diário com conteúdos como Free Fire, Fortnite, GTA, Jogos Vorazes. Todos com nível de violência superior a Round 6. Ressalto que as crianças expostas à violência, podem apresentar sim comportamentos disfuncionais. Neste caso, os pais precisam fiscalizar e filtrar o que os filhos assistem, garantindo um desenvolvimento saudável e evitando desespero em um único conteúdo”, orienta o terapeuta.

Sobre o risco da série induzir violência para os pequenos que a assistiram ou participaram de brincadeiras ligadas a ela, Iarodi descarta essa possibilidade. “A série não leva a criança a replicar a violência. Não acredito que ela faça isso por si só, é necessário fatores ambientais, sociais, emocionais e maturação cognitiva para que o façam. É só olhar que o conteúdo dos filmes de ação que passam na TV aberta em plena tarde de Domingo não são diferentes da série e não geram o mesmo alarde. O que precisa mudar é a responsabilização dos pais sobre o que os filhos estão vendo.”, afirma ele, que atende crianças com atitudes violentas, mas que não são agressivas por conta destes conteúdos e sim pelo ambiente familiar. […]

(Correio)

No Rio de Janeiro, a escola Escola Aladdin emitiu, na primeira semana de outubro, um comunicado aos pais dos alunos, alertando para o conteúdo inadequado e para a “obsessão” dos jovens pela série. Ao jornal O Globo, diretores da instituição informaram que os alunos estavam reproduzindo brincadeiras que fazem alusão ao assassinato de personagens. No Colégio Adventista Marechal Rondon, em Porto Alegre, a série não chegou a inspirar jogos no recreio, mas a vice-diretora Tatiane Goetz dos Santos relata que mesmo as crianças mais jovens comentam sobre. 

Inspirada pela ação da escola carioca, a instituição gaúcha publicou, na semana passada, uma nota dirigida a pais e familiares de alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio. A circular alerta para o conteúdo inapropriado de Round 6 para crianças, a relação dela com jogos da infância e o fato de a série ou de recortes dela compartilhados em redes sociais estarem impactando os alunos.

“Mesmo sabendo que a série saiu em setembro e que muita gente já maratonou, publicamos a circular para alertar os pais a ficarem de olho no que seus filhos estão vendo. Até porque, quando um coleguinha comenta, desperta interesse e curiosidade no outro que não tinha nem ouvido falar. E ele vai, com certeza, procurar. A Netflix tem acesso infantil, que limita, mas muitos (alunos) têm acesso ao perfil adulto também. Nossa carta é uma medida preventiva e, a partir daí, a família administra essa situação da forma que achar necessário”, afirma Tatiana. […]

(Gaúcha ZH)

Perguntas interativas da Lição: aliança eterna

A Lição da Escola Sabatina desta semana examina o conceito da aliança de Deus segundo o livro de Deuteronômio, e como ela se relaciona com o “Evangelho eterno” (Ap 14:6). Nesse relacionamento, a aliança é a essência do Evangelho, e o Evangelho é a essência da aliança.

Perguntas interativas para discussão em grupo:

Compare Ezequiel 16:60 com Apocalipse 14:6. Qual é a relação entre a “aliança eterna” de Deus e o “Evangelho eterno”? Em que sentido podemos dizer que “a aliança é a essência do Evangelho” e que “o Evangelho é a essência da aliança”?

De que forma a aliança de Deus com Abraão (Gn 12:1-3; 15:18) já era um prenúncio do Evangelho? (ver Gl 3:7-9)

Apesar do fato de que a aliança de Deus (o Evangelho) é totalmente baseada em Sua graça, por que ela envolve a obediência? (Jo 14:15)

Que papel a Lei desempenha na vida dos que foram salvos pela graça? Por que essa lei é tão crucial para nossa experiência com Deus? (ver 1 Jo 2:3, 4)

Como o conceito de Lei e Evangelho aplicados juntos se ajusta perfeitamente à primeira das três mensagens angélicas (Ap 14:6, 7)?

Que textos bíblicos você usaria para provar que a Lei de Deus não foi abolida no contexto da nova aliança? (Exemplos: Mt 5:17, 18; Mc 10:19; Jo 14:15; Tg 2:10-12; 1Jo 2:3, 4; 3:4; etc.)

Apesar das falhas dos descendentes de Abraão, por que Deus ainda mantinha Sua parte na aliança feita com esse patriarca? Como isso se compara à igreja, hoje?

Como podemos interpretar a declaração de Deuteronômio 5:3? Como isso também se aplica aos cristãos que vivem hoje tantos séculos após os eventos narrados nos evangelhos?

Leia Deuteronômio 8:5 e 14:1. Como essa imagem nos ajuda a entender o tipo de relacionamento que Deus deseja ter com Seu povo? De nossa parte, que tipo de filhos devemos ser? (ver 1Co 4:14; Ef 5:1). Como esse pensamento pode transformar sua experiência com Deus?

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Lição dos Adolescentes: preparando-se para o amanhã

Lição dos Jovens: dez palavras

A destruição de Sodoma e Gomorra

A destruição de Sodoma e Gomorra não se trata de um debate “homossexualidade ou inospitalidade”, mas foi um caso de perversão sexual e inospitalidade.

sodoma

1. O relato de Sodoma e Gomorra enfatiza a prática sexual

O tema de Gênesis 18 não é ser homossexual ou não, é ter relações homossexuais, o que é diferente. É preciso diferenciar a prática homossexual do desejo ou orientação homossexual. O relato apenas indica o que os homens de Sodoma queriam fazer. Não é corretor deslocar o problema do “praticar algo” para o “ser alguma coisa”. O texto não fala sobre ser homossexual (isso pode ser inferido), mas claramente descreve a intenção de praticar sexo com pessoas do mesmo sexo. Esse é o foco primário do relato e de alguns outros textos bíblicos que comentam o relato.[1]

Destaco que essa passagem não deveria ser o ponto de partida para qualquer argumentação a respeito da homossexualidade. Existem textos mais claros e mais diretos. A leitura popular da Bíblia produz algumas distorções, e é importante destacá-las. O texto não diz, por exemplo, que Ló era o único cidadão que não era homossexual em Sodoma. O texto diz que vieram “os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos” (Gn 19:4). A expressão “todo o povo de todos os lados” (Gn 19:4) tem o objetivo de evidenciar que não havia nem dez justos em Sodoma, como no desafio proposto a Deus por Abraão (Gn 18:32).

2. Na história, “conhecer” é ter relações sexuais

A exigência dos homens de Sodoma foi: “Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações [יָדַע, yada] com eles” (Gn 19:5). O verbo yada significa literalmente “conhecer”, e é abundantemente usado na Bíblia para indicar relações sexuais (por ex.: 1Rs 1:4). O pedido dos homens de Sodoma é idêntico ao dos homens de Gibeá na história do levita de Juízes 19: “Traga para fora o homem que entrou na sua casa para que tenhamos relações (yada) com ele!” (Jz 19:22).

A resposta de Ló (Gn 19:8) evidencia qual era o sentido de “conhecer” (cf. Gn 4:1; Nm 31:17; Jz 19:22): “Olhem, tenho duas filhas que ainda são virgens [literalmente, ‘que não conheceram homem’, usando yada]” (Gn 19:8).

Assim, “conhecer” aqui significa claramente “ter relações sexuais”, como em Gênesis 4:1. E o fato de Ló oferecer suas filhas virgens como substitutas evidencia qual era a intenção dos homens de Sodoma: praticar sexo com os visitantes.

3. O problema não foi apenas a inospitalidade, mas a imoralidade sexual

O Novo Testamento confirma que o problema de Sodoma foi pecado sexual também, e não apenas xenofobia, inospitalidade e injustiça social:

“De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram à imoralidade [ἐκπορνεύω, ekporneuo] e a relações sexuais antinaturais [lit. ‘ir após outra carne’]. Estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo” (Jd 1:7).

O verbo ekporneuo significa “entregar-se à imoralidade”, “entregar-se à fornicação”, “ser indulgente com a imoralidade grosseira”. Na raiz desse verbo está o substantivo πορνεία (porneia), que significa imoralidade sexual, fornicação, e de onde vem o prefixo da palavra “pornografia”.

A expressão “ir após outra carne” (ἀπελθοῦσαι ὀπίσω σαρκὸς ἑτέρας, apelthousai opisō sarkos heteras) está explicando o “entregar-se à imoralidade”. O termo “outra carne” pode significar atos sexuais antinaturais entre seres humanos e mesmo entre homens e animais. Os canaanitas (Sodoma e Gomorra incluídas) praticavam os dois tipos de pecados (Lv 18:22-29).

Pedro também aponta a imoralidade sexual como motivo para a destruição de Sodoma: “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios; mas livrou Ló, homem justo, que se afligia com o procedimento libertino [ἀσέλγεια, asélgeia] dos que não tinham princípios morais (pois, vivendo entre eles, todos os dias aquele justo se atormentava em sua alma justa por causa das maldades que via e ouvia )” (2Pe 2:6-8).

A palavra grega ἀσέλγεια significa luxúria desenfreada, lascívia, devassidão, sensualidade, licenciosidade (cf. Mc 7:21, 22; Rm 13:13; 2Pe 2:2, 7, 18; Jd 1:4). Claramente a Bíblia vincula a destruição de Sodoma ao aspecto sexual da história.

Pode-se até discutir qual é o sentido mais exato dessas expressões, mas será muito difícil negar que uma das causas da destruição de Sodoma foi a perversão sexual. E, como o único tipo de relação sexual presente no relato de Gênesis é o de homens com homens, há uma forte justificativa para usar esse texto contra a prática homossexual.

No entanto, alguém poderia argumentar que o problema foi o estupro, o sexo não consentido, forçado. Mas textualmente esse argumento é inconsistente, pois o relato afirma que os homens de Sodoma queriam “conhecer” (yada) os homens visitantes, e em hebraico existem expressões e palavras específicas para o estupro (como “forçar”, “humilhar”, “deitar à força com”, etc.), e elas não são usadas com relação a Sodoma.

Certamente a Bíblia descreve a xenofobia de Sodoma e Gomorra como um dos pecados delas, mas não diz que foi o único nem o maior. Com certeza, a hospitalidade é algo muito importante na Bíblia, no AT e no NT (cf. Mt 25:34-40; Rm 12:13; 1Tm 5:10; Hb 13:2), e a falta dela foi um dos motivos para a destruição de Sodoma e Gomorra.

4. Sodoma foi destruída também por causa das práticas sexuais repugnantes

Quando se cita Ezequiel 16, é preciso ler os versos 49 e 50, pois dizem que Sodoma foi arrogante e cometeu abominação (ou prática repugnante). No texto hebraico, há uma diferença significativa entre abominação (to’ebah) e abominações (to’ebot) que não ficou tão clara nas versões em português.[2] Ao falar especificamente de Sodoma e Gomorra, Deus afirma que “eram altivas e cometeram práticas repugnantes [תּוֹעֵבָה, to’ebah; no original, está no singular absoluto] diante de Mim. Por isso eu Me desfiz delas conforme você viu” (Ez 16:50).

Sodoma cometeu práticas repugnantes ou abominação, e essa palavra, to’ebah (no singular), é exatamente a mesma usada para descrever a prática homossexual em Levítico 18:22 e 20:13. Todas as vezes que Ezequiel usa to’ebah no singular ele está se referindo a um pecado sexual (Ez 22:11 e 33:26).[3]

E aqui to’ebah é um pecado adicional à injustiça social do verso 49; um pecado extra, diferente da opressão ao pobre. A “abominação” (singular) do verso 50 não se refere à injustiça social do verso 49, ou seja, to’ebah (singular) não inclui o verso 49, mas as “abominações” (plural) do verso 51 incluem. A palavra to’ebot (plural) no verso 51 resume todos os pecados anteriormente relatados em 49 e 50. Isso é confirmado pelo uso semelhante que Ezequiel faz de to’ebah e to’ebot em Ezequiel 18:10-13.

Ocorre o mesmo em Levítico 18. A prática homossexual é to’ebah (singular) em 18:22, e todas as práticas sexuais proibidas são descritas coletivamente como to’ebot (plural). Essa é uma forte evidência gramatical e intertextual de que Ezequiel 16:49, 50 pode estar falando da prática homossexual em Sodoma como um dos pecados sexuais devido aos quais Deus a destruiu.

O contexto mais amplo de todo o capítulo 16 de Ezequiel também deixa claro que ele está falando de pecados sexuais, especialmente ao falar da lascívia de Jerusalém no verso 43: “Acaso você não acrescentou lascívia [זִמָּה, zimmah] a todas as suas outras práticas repugnantes [תּוֹעֲבוֹת, to’ebot, plural]?” (Ez 16:43b).

A palavra é zimmah, e um de seus significados é “crime lascivo”;[4] e geralmente se refere ao pecado sexual premeditado (Lv 18:17; 20:14; Jz 20:6; Ez 16:27, 58; 22:9; 23:27, 29, 35, 44, 48; 24:13).

Finalmente, o argumento pode ser resumido assim:

a) Ezequiel afirma que Sodoma foi destruída também por causa de to’ebah.
b) Em Ezequiel, to’ebah é pecado sexual.
c) Então, Ezequiel quer dizer que Sodoma foi destruída também por seus pecados sexuais, o que é confirmado no NT.

A esse silogismo acrescente-se que a única atividade sexual em Sodoma registrada no relato do Gênesis é a tentativa de prática homossexual: homens queriam ter relações sexuais (yada) com outros homens. Assim, Ezequiel 16 deixa claro que Sodoma foi destruída por causa de to’ebah, práticas sexuais repugnantes, além da inospitalidade e da injustiça social.

5. Os livros apócrifos confirmam: não foi apenas falta de hospitalidade

Assim como a Bíblia, os livros apócrifos e pseudoepígrafos afirmam que o pecado de Sodoma e Gomorra também foi de imoralidade sexual: Jubileus 16:5, 6 e 20:5, 6; Testamento de Benjamin 9:1 e Testamento de Levi 14:6:

“E nesse mês o Senhor executou julgamento em Sodoma e Gomorra […] eles se profanavam mutuamente, cometendo fornicação e impureza em sua carne sobre a terra” (Jubileus 16:5, 6).

“E ele [Abraão] contou a eles sobre o julgamento dos gigantes, e sobre o julgamento dos sodomitas, como eles haviam sido julgados devido à maldade, e haviam morrido devido a fornicação, e impureza, e corrupção mútua pela fornicação. E guardem-se de toda fornicação e impureza, e de toda poluição do pecado, para que não tornem nosso nome em maldição, e suas próprias vidas um assobio, e seus filhos a serem destruídos pela espada, e vocês se tornem malditos como Sodoma, e seu remanescente como os filhos de Gomorra” (Jubileus 20:5, 6).

“Deduzo a partir das Palavras de Enoque o justo que vos dareis a práticas não boas. Fornicareis ao estilo de Sodoma e perecereis exceto por uns poucos” (Testamento de Benjamim 9:1).

“Ensinareis os mandamentos do Senhor por avareza, profanareis a mulheres casadas, manchareis as virgens de Jerusalém, e vos unireis a prostitutas e adúlteras. Tomareis como mulheres as filhas dos gentios, purificando-as com uma purificação ilegal, e vossa união será como as de Sodoma e Gomorra, por causa da impiedade” (Testamento de Levi 14:6).

Conclusão

A destruição de Sodoma não se trata de um debate “homossexualidade ou inospitalidade”, mas foi um caso de perversão sexual (prática homossexual incluída) e inospitalidade.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University; Reação Adventista)

Referências:

1. Outros textos falam sobre ser alguma coisa: os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores (Gn 13:13); ímpios, libertinos e sem princípios morais (2Pe 2:6, 7), imorais (Jd 1:7).
2. Na versão NVI, usada aqui, a expressão é “práticas repugnantes”, sem diferenciar singular e plural.
3. “Um homem comete adultério [to’ebah] com a mulher do seu próximo, outro contamina vergonhosamente a sua nora, e outro desonra a sua irmã, filha de seu próprio pai” (Ez 22:11); “Vocês confiam na espada, cometem práticas repugnantes [to’ebah], e cada um de vocês contamina a mulher do seu próximo. E deveriam possuir a terra?” (Ez 33:26). Em Levítico, tanto to’ebah (singular) quanto to’ebot (plural) referem-se a pecados sexuais.
4. Segundo alguns léxicos hebraicos, outros significados relacionados às práticas sexuais são: licenciosidade, adultério, prostituição, falta de castidade e incesto.

Para um estudo abrangente sobe sexualidade numa perspectiva bíblico-adventista, leia Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (clique aqui).

O vento não sopra contra o texto

Certamente as ações e ensinos de Deus não se limitam ao que está escrito da Bíblia, mas o que está escrito é o suficiente, e as revelações divinas extrabíblicas jamais contradizem o texto canônico.

É correto invocar a figura do “vento do Espírito” para justificar posturas contrárias às Escrituras?

É verdade que “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai” (João 3:8), mas não há discordância entre o Espírito e a Palavra. Durante seu ministério na Terra, “Jesus foi conduzido pelo Espírito” (Mateus 4:1), e prometeu que o Espírito levaria seus discípulos a toda verdade (João 16:3).

Jesus usava a expressão “palavra de Deus” para Se referir ao texto sagrado (Mateus 15:6; João 10:35; 17:17). A Palavra de Deus é “a espada do Espírito” (Efésios 6:17), portanto, há íntima relação entre o texto sagrado e o Espírito. Se Ele é o “Espírito da verdade” (João 15:26), e a verdade é a Palavra de Deus (João 17:17), um dos principais efeitos do sopro do Espírito é nos levar ao texto inspirado.

Portanto, não parece correto apelar à ação misteriosa do Espírito Santo para justificar o abandono das Escrituras. O vento não sopra contra o texto. O vento soprou e o texto surgiu. Ele continua soprando, e lançando luz e entendimento sobre o texto.  

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