Mudanças litúrgicas para alcançar os secularizados

celebrationO que acontece quando uma congregação adventista deseja mudar para alcançar pessoas seculares? E se o padrão de mudanças inclui alterações litúrgicas e a adoção de métodos e práticas das igrejas evangélicas? Quais as consequências para a identidade profética? Para responder a essas e outras perguntas, aqui serão analisados brevemente os primórdios do movimento Celebration, suas implicações e reações (assista ao vídeo que completa o texto).

Breves apontamentos históricos

O pastor Dan Simpson estudou as técnicas de crescimento de igreja propostas por Peter Wagner, um dos gurus do movimento, e as compartilhou com a congregação adventista que ele pastoreava, a Calimesa Church.[1] Sem resultados, Simpson assumiu a congregação adventista Azure Hills, localizada em Grand Terrace, California, no fim do ano de 1986, onde contou com a assessoria de Carl F. George, um consultor de igrejas associado ao Charles E. Fuller Institute of Evangelism and Church Growth.[2]

Em abril de 1989, a Associação da qual Simpson fazia parte votou que ele estabelecesse a congregação que ficaria conhecida como Colton Celebration Center, em um edifício alugado da denominação Assembleia de Deus.[3] A proposta logo ganhou adesão de outras congregações adventistas, recebendo especial destaque as congregações Milwaukie church, em Oregon e Buffalo church, em New York.[4] Nascia o movimento Celebration, que representou “uma ruptura decisiva com a liturgia adventista tradicional”,[5] o qual atingiu muitas congregações adventistas nos Estados Unidos durante a década de 1990 e ainda influencia a discussão sobre liturgia em muitos contextos. O que podemos aprender desse movimento?

Nos bastidores do estilo celebracionista

Hasel, analisando o estilo “celebracionista” de culto, constatou a ocorrência de pelo menos três mudanças: (a) quanto à estrutura congregacional, sendo que as congregações tornaram-se mais independentes, abandonando o uso do Hinário Adventista e agindo administrativamente como se fossem “mini-denominações”; (b) quanto à liturgia, que agregou elementos como dança, teatro, inovações hinódicas, etc.; (c) quanto às doutrinas: ao invés das doutrinas tradicionais adventistas, a ênfase recaiu sobre amor, perdão e aceitação.[6] A conclusão de Hasel traz um alerta muito expressivo: “Em nossa fome espiritual, em nossa ânsia por reavivamento e poder do alto, fixemos nossos olhos na direção da Palavra de Deus. Na Escritura nós encontraremos força renovada e poder divino para descobrir e redescobrir a vontade de Deus para Seu povo no tempo do fim. Os adventistas são o povo do Livro; e o Espírito que fala através do Livro nos renovará.”[7]

Por que o estilo de adoração celebracionista se oporia ao estudo das Escrituras? Segundo Bacchiochi, deve-se reconhecer que, em muitos casos, “aqueles que suplicam por música eclesiástica que ofereça satisfação pessoal ignoram que isso implica buscar uma estimulação física egocêntrica em vez de uma celebração espiritual teocêntrica das atividades criativas e redentivas da divindade”.[8] Essa aproximação da cultura secular remete a modelos mais bem observados na fenomenologia de cultos pagãos. Dorneles afirma que a “relação direta entre espírito (mundo sagrado) e o homem e a natureza (mundo profano), quer seja pela gênese dos espíritos como descendentes dos humanos, quer seja pelo fenômeno de possessão, influencia a aproximação, senão a integração entre o sagrado e o profano”.[9]

Sem dúvida, isso representa um desvio do propósito da adoração autêntica, conforme asseverou Ted Wilson, presidente da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia: “O diabo está tentando neutralizar a igreja de Deus por meio da tendência de aceitar a música e a adoração carismáticas e pentecostais, abordagens que focam nos membros da igreja e naqueles que lideram a liturgia, em lugar de focar no Deus verdadeiramente adorado. Um falso entendimento da adoração nos leva ao cerne das três mensagens angélicas, uma vez que tais mensagens são para que o povo volte à verdadeira adoração a Deus e não à falsa, experiência eufórica, mas, ao contrário, à genuína conexão espiritual com Deus por meio do estudo da Bíblia e da oração.”[10]

Como deveríamos celebrar?

Segundo Klingbeil, diante dos riscos da adoração mal orientada, precisa-se tratar do assunto do culto de um ponto de vista bíblico.[11] Rodríguez reforça a ideia, enfatizando que “mudanças na liturgia necessitam ser precedidas de uma análise séria sobre a natureza da adoração cristã que auxiliará no enriquecimento da experiência de culto dos fiéis”.[12] Os adventistas do sétimo dia possuem um entendimento bastante claro sobre adoração. Entretanto, como assinala Fortin, em “anos recentes, uma hermenêutica pós-moderna de preferências pessoais e culturais tem dominado qualquer discussão sobre adoração”.[13] O autor segue dizendo que muitos estudos que pretendem descobrir princípios de adoração são de natureza revisionista e influenciados pela hermenêutica que ele denuncia. Como resultado, “todo formato e entendimento sobre adoração são impostos sobre todo o povo, e que todo estilo de adoração é um objeto de preferências congregacionais e culturais”.[14] Oliveira advoga uma consciência crítica fundamentada no significado intrínseco à música: “Se realmente tivéssemos a devida seriedade e sobriedade que o assunto do uso de música na Igreja requer, iríamos no mínimo ter a curiosidade de tentar descobrir como a música é capaz de nos afetar e comunicar ideias e sentimentos.”[15]

Em qualquer grupo de adoradores o culto em geral e o tipo de música em especial são conduzidos de acordo com a visão que se tem da divindade.[16] Gordon pondera que por dezenove séculos diversas tradições cristãs, nas mais variadas culturas, admitiram a convivência de música antiga e contemporânea, sendo a última selecionada e incorporada ao repertório da igreja. A mudança nesse padrão aponta uma mudança profunda.[17] A salvaguarda seria propor mudanças no culto somente a partir do entendimento bíblico, uma vez que, ao introduzir metodologias e práticas sob a influência da cultura secular, corre-se o risco de comprometer o sistema bíblico-doutrinário adventista. Conforme Becerra argumenta: “Alguém pode falhar em perceber como a prática de adoração gradualmente modifica a doutrina. A introdução de práticas de adoração não enraizadas nas Escrituras poderia ser perigosa. A Igreja Adventista deveria ser cautelosa em definir teologia e prática de adoração bíblica. A sociedade contemporânea é caracterizada pelo desejo pela experiência e sentimentos acima da doutrina, como se vê na adoração carismática contemporânea. Qualquer adoção de novas formas de adoração deveria ser avaliada pela sua fidelidade às Escrituras.”[18]

Para Plenc, com base na teologia bíblica, o “culto deve ser caracterizado pela reverência, ordem e solenidade em equilíbrio com comunhão, espontaneidade e alegria”.[19] Tanto na Bíblia quanto nos testemunhos de Ellen G. White, a adoração se fundamenta “em virtude dos atributos absolutos de Deus, como a infinitude, a eternidade, a grandeza e perfeição”.[20] Rodríguez acrescenta que o chamado para a adoração exclusiva que aparece nas Escrituras ocorre no contexto do grande conflito, sendo a resposta a esse chamado – e consequente envolvimento na adoração – uma tomada de posicionamento, traduzida em “expressão de lealdade a Ele [Deus] e um reconhecimento de Seu amor”, o que tem estreita relação com o coração da mensagem adventista (Ap 14:6-12).[21]

Conselhos finais

Os adventistas foram agraciados por Deus com orientações adicionais, provenientes dos testemunhos de Ellen G. White. Nos seus escritos, encontramos a seguinte repreensão a um grupo de crentes nos seguintes termos: “Sua religião parece ser mais da natureza de um estimulante do que uma permanente fé em Cristo.”[22] Para a pioneira adventista, os “verdadeiros [cristãos] conhecem o valor da obra interior do Espírito Santo sobre o coração humano. Satisfazem-se com a simplicidade nos cultos”.[23]

Desde o início, o adventismo parece ter lutado contra o excesso de emocionalismo; por isso, nota-se a recomendação: “A verdade deve ser apresentada à mente o mais isenta possível do elemento emocional.”[24] Por outro lado, não se defende um formalismo mecânico; pelo contrário: “Seu culto deve ser interessante e atraente, não se permitindo que degenere em formalidade insípida. Devemos dia a dia, hora a hora, minuto a minuto viver para Cristo; então Ele habitará em nosso coração e, ao nos reunirmos, seu amor em nós será como uma fonte no deserto, que a todos refrigera, incutindo nas almas esmorecidas um desejo ardente de sorver da água da vida.”[25]

E se no passado o movimento Celebration procurou efetuar a evangelização de forma contextualizada à sociedade norte-americana, é justo que se avalie a iniciativa a partir da contundente declaração inspirada: “Muitos supõem que, para se aproximar das classes mais altas, é preciso adotar uma maneira de vida e um método de trabalho que se harmonizem com seus fastidiosos gostos. Uma aparência de riqueza, custosos edifícios, caros vestidos, equipamentos e ambiente, conformidade com os costumes do mundo, o artificial polimento da sociedade da moda, cultura clássica, as graças da oratória, são considerados essenciais. Isso é um erro. O caminho dos métodos do mundo não é o caminho de Deus para alcançar as classes mais elevadas. O que na verdade os tocará é uma apresentação do evangelho de Cristo feita de modo coerente e isento de egoísmo.”[26]

(Douglas Reis é mestre em Teologia, doutorando em Teologia [PhD] pela Universidade Adventista del Plata e autor de livros e artigos acadêmicos sobre identidade adventista, desenvolvimento da doutrina adventista e pós-modernidade)

Referências:

[1] Viviane Haenni, “The Colton Celebration Congregation: A Case Study in American Adventist Worship Renewal 1986-1991” (Tese doutoral: Andrews University, 1996), 64.

[2] Ibid., 65.

[3] Ibid., 68.

[4] J. David Newman e Kenneth R. Wade, “Is It Safe to Celebrate?,” Ministry Magazine, 1990, acesso: 29 de Janeiro de 2017, https://www.ministrymagazine.org/archive/1990/06/is-it-safe-to-celebrate.

[5] John S. Nixon, “Towards a Theology of Worship: An Application at the Oakwood College Seventh-Day Adventist Church” (Tese doutoral, Andrews University, 2003), 21.

[6] Gerard F. Hasel, “The ‘third Wave’ Roots of Celebrationism”, in Samuel Koranteng-Pipim, Here We Stand: Evaluating New Trends in the Church (Berrien Springs, MI: Adventism Affirm, 2005), 395.

[7] Ibid., 396–397.

[8] Samuele Bacchiocchi, “Una Teología Adventista de La Música Eclesiástica”, Kerigma (Col. Moderna, México, 2001), no 2, 23.

[9] Vanderlei Dorneles, Cristãos em Busca do Êxtase: Para compreender a nova liturgia e o papel da música na adoração contemporânea (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2006), 9.

[10] Ted Wilson, “God’s Prophetic Movement, Message, and Mission and Their Attempted Neutralization by the Devil”, sermão durante o concílio anual, realizado em Silver Spring, em 11 de outubro de 2014, acesso: 15 de Outubro de 2014, http://www.adventistreview.org/church-news/%E2%80%98god%E2%80%99s-prophetic-movement,-message,-and-mission-and-their-attempted-neutralization-by-the-devil%E2%80%99.

[11] Gerald A. Klingbeil, “Una Teologia de La Musica Sacra”, Theologika (Lima, Peru, 1997), ano 12, no 2, 191.

[12] Ángel Manuel Rodriguez (org), Teologia Do Remanescente: Uma Perspectiva Eclesiológica Adventista (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2012), 18.

[13] Denis Fortin, “Ellen G. White’ Theology of Worship and Liturgy.” In Ángel Manuel Rodriguez (org), Worship, Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3. (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 84.

[14] Ibid.

[15] Jetro Oliveira, “Além Da Estética: Um Ensaio Sobe a Música Sacra E Seu Significado”, Kerigma (Engenheiro Coelho, SP, 2006), ano 2, no 1, 28.

[16] Ver especialmente Wolfgang H. M. Stefani, Música Sacra, Cultura E Adoração (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2002).

[17] T. David Gordon, Why Johnny Can’t Sing Hymns: How Pop Culture Rewrote the Hymnal (Phillipsburg, N.J.: P & R Pub., 2010), 42-43.

[18] Sergio E. Becerra, “Worship and the Magisterial Reformers.” In Ángel Manuel Rodriguez (org), Worship, Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 29.

[19] Daniel Plenc, “Toward an Adventist Theology on Worship”, In Ángel Manuel Rodriguez (org), Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 131.

[20] Daniel Plenc, “Elena G. de White Y La Adoración”, In Hector O. Martín e Daniel A. Mora (ed.), Elena G. de White: Manteniendo Viva La Visión: Documentos Del I Simpósio Bíblico-Teológico Del Seminário Teológico Adventista de Venezuela (Yaracuy, Venezuela: Seminário Teológico Adventista de Venezuela, 2015), 245–246.

[21] Rodriguez, Ángel Manuel. “Elements of Adventist Worship: Their Theology.” In Worship, Ministry, and the Authority of the Church, 133–147; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 133.

[22] Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2008), 502.

[23] Ibid.

[24] Ibid., 611.

[25] Ellen G. White, Testemunhos Seletos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), v. 2, 252.

[26] Ellen G. White, A Ciência Do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 213.

Liberdade religiosa para todos

liberdadeApesar de a liberdade religiosa ser um assunto de grande relevância para todos, poucos são os que se debruçam para entender o seu significado e alcance, especialmente para os tempos em que vivemos e sob a perspectiva adventista escatológica. Não é um tema restrito a advogados, sociólogos ou filósofos. Trata-se de um assunto relacionado a todos os que creem e até àqueles que não creem, e se torna especial e distinto para aqueles que professam a crença nas profecias bíblicas para o tempo do fim.

Liberdade religiosa conceitua-se como o direito de livremente praticar ou expressar uma religião, segundo os ditames de sua própria consciência. Constitui-se como uma questão de foro íntimo, de modo que seu exercício e prática são inerentes ao próprio conceito de dignidade do ser humano, que é o princípio máximo das constituições democráticas de um Estado de Direito. Constituída como direito humano na ordem jurídica internacional e internalizada pelas nações soberanas (como o Brasil), como garantia fundamental, a liberdade religiosa preconiza o direito de consciência, crença, culto e evangelização. A todos é garantido o direito de livremente escolher essa ou aquela religião, e até de não crer, segundo sua livre consciência e convicção. Apenas quando se permite amplo e irrestrito exercício da liberdade religiosa é que se garante a plena concretização da dignidade humana.

A dignidade do ser humano é concebida como o valor máximo inerente ao exercício e a fruição de todos os valores individuais. Segundo o conceito de Günter Dürig (1956), “cada ser humano é humano por força de seu espírito, que o distingue da natureza impessoal e que o capacita para, com base em sua própria decisão, tornar-se consciente de si mesmo, de autodeterminar sua conduta, bem como de formatar sua existência e o meio que o circunda”.

Para o exercício da liberdade religiosa é necessário também um Estado laico, que pode ser definido como a separação absoluta que deve existir entre igreja e Estado. No entanto, não há inimizade entre a igreja e o Estado. Pelo contrário, deve haver uma cooperação recíproca entre ambos para que se concretize plenamente o exercício da liberdade religiosa. O Estado pode subsidiar e promover atividades da igreja que promovam o bem comum, da mesma forma que a igreja pode apoiar atividades do Estado para a promoção dos valores da livre democracia. O que não pode ocorrer é um interferir na nomeação dos líderes do outro e vice-versa, assim como nas regras que ditam a ordem interna de cada qual. Por não ser um “Estado ateu”, o Estado laico defende que haja harmonia entre o exercício da fé e as atividades públicas de interesse social.

O primeiro registro que se tem do termo “liberdade religiosa” é do cristão converso Tertuliano, cidadão romano que viveu entre os anos 160 e 220 d.C., tendo afirmado que “a religião exige, por si só, a recusa a todo tipo de repressão em termos de religião”. Em 13 de junho de 313, o imperador romano Constantino promulgou o Édito de Milão, proclamando que o Império Romano seria neutro com relação à religião e que cada um poderia ter o privilégio de escolher e adorar qualquer divindade que lhe agrade. Surge então o primeiro conceito legal de liberdade religiosa e Estado laico. No entanto, 12 anos após, por meio do Concílio de Niceia, a Igreja começou a perseguir todos aqueles que ousavam discordar de seus dogmas.

Com a Reforma Protestante se iniciam movimentos na busca pela liberdade religiosa e o direto de discordar dos dogmas da Igreja Católica. A Revolução Americana nos Estados Unidos, em 1776, em sua Primeira Emenda à Constituição, trouxe o direito ao exercício da liberdade religiosa e regra de separação entre igreja e Estado, o que influenciou diversas outras constituições democráticas a também tomarem medidas semelhantes.

No contexto da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), as primeiras declarações sobre liberdade religiosa foram proclamadas em 1850, antes mesmo da organização formal da IASD, em 1863. Em 1888, com a proposta de lei do senador americano Henry Blair, que tornaria o domingo dia de guarda religioso (blue law), punindo todos aqueles que ousassem trabalhar nesse dia, teve início um grande movimento na IASD para conter tais movimentos contrários à liberdade religiosa. Nesse tempo se insurgiu contra tais medidas o pastor adventista Alonzo Trévier Jones (1850-1923), que apresentou petição ao Congresso Americano com 500 mil assinaturas de adventistas. Jones foi o representante da IASD que defendeu com intrepidez e destemor o direito à liberdade religiosa perante o Senado, tendo se saído muito bem com a revogação daquele projeto de lei federal.

Em virtude de tais questões, a Associação Geral da IASD designou uma comissão específica sobre liberdade religiosa, que, em 21 de julho de 1889, foi absorvida pela Associação Nacional de Liberdade Religiosa, que posteriormente veio a se tornar a atual Associação Internacional de Liberdade Religiosa (International Religious Liberty Association – IRLA). Em 1892, alguns adventistas chegaram a ser presos por trabalhar no domingo, no Estado do Tennessee. No entanto, com a sedimentação da liberdade religiosa e do princípio do Estado laico na Suprema Corte, tais legislações dominicais foram revogadas e não mais subsistem nos Estados Unidos.

Em 1889, foi editada a Declaração de Princípios da Associação Nacional de Liberdade Religiosa, trazendo como principal premissa: “Acreditamos em apoiar o governo civil e submeter-nos à sua autoridade. Negamos o direito de qualquer governo civil legislar sobre questões religiosas. Acreditamos que é o direito, e deve ser o privilégio de cada homem adorar de acordo com os ditames de sua consciência. Também acreditamos ser nossa responsabilidade usar todos os meios legais e honoráveis de evitar a legislação pelo governo civil.” Tais princípios foram depois incorporados à IRLA, que, em 1948, passou a admitir pessoas de outras religiões como seus associados.

Associados famosos da IRLA, como Eleanor Roosevelt e René Cassino, influenciaram a Declaração Universal dos Direitos do Homem da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1948, marco importantíssimo para a sedimentação da liberdade religiosa nas constituições das nações democráticas em todo o mundo, trazendo a seguinte declaração sobre liberdade religiosa: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.”

Em 1981, foi editada pela ONU a “Declaração sobre a eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação fundadas na religião ou nas convicções”, texto relevante especialmente para aqueles que dedicam um dia exclusivo para o descanso religioso. O art. 6º, alínea “h” estabelece a liberdade de “[…] observar dias de descanso e de comemorar festividades e cerimônias de acordo com os preceitos de uma religião ou convicção”.

Os maiores desafios à liberdade religiosa no mundo são problemas como nacionalismo, ideologias ateístas, secularismo intolerante e extremismo religioso. Movimentos nacionalistas e ideologias ateístas sempre redundam em interferências nefastas, privilegiando determinada religião (nacional) ou privando todos de ter uma religião (ateísmo). O secularismo intolerante traz em si discriminação àqueles que creem e impõem a cultura secular a todos indistintamente. O extremismo religioso, especialmente em países teocráticos muçulmanos, gera agressões físicas e atentados genocidas, e hoje afeta em torno de 150 milhões de pessoas em todo o mundo. Atualmente, cerca de 2/3 da população mundial sofre algum tipo de restrição ou intolerância religiosa, e as agressões têm se intensificado nos últimos anos (Pew Research Center, 2018).

Os maiores obstáculos ao diálogo em questões de liberdade religiosa são a própria religião, e suas respectivas igrejas, que impõem de certo modo seus pontos de vista a outros e buscam interferir em decisões do Estado para buscar a primazia e se agigantarem enquanto instituição. O evangelismo também, algumas vezes quando redunda em proselitismo e se não bem conduzido, traz problemas quanto ao diálogo com o Estado, e disso surgem conflitos, como nos casos em que algumas igrejas são acusadas de manipular os fiéis, especialmente em matéria de dízimos e ofertas.

No Brasil, o direito fundamental à liberdade religiosa encontra-se registrado no artigo 5º, incisos VI a VIII, da Constituição Federal de 1988, sendo garantida a liberdade de consciência e de crença, assegurado o exercício e a proteção dos cultos religiosos e de suas liturgias. Também se assegura a prestação religiosa em entidades civis, militares e coletivas, assim como veda-se privar alguém por motivo de crença religiosa ou até convicção filosófica ou política, e quando necessário cumprir obrigações a todos impostas, cabe prestação alternativa. Por sua vez, o princípio do Estado laico encontra-se previsto no art. 19 da Constituição Federal, sendo vedado ao Estado estabelecer cultos religiosos, igrejas, subvencioná-las, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com elas alianças, ressalvada a colaboração por interesse público.

Para os adventistas do sétimo dia no Brasil, a questão da guarda do sábado tem sido um grande desafio, especialmente por se tratar de uma religião minoritária e que não ocupa espaços relevantes nos cargos governamentais. Em um país de maioria católica, com protestantes e evangélicos que cultuam o domingo como dia separado para as atividades litúrgicas, torna-se especialmente necessário que haja efetiva proteção ao pleno exercício da liberdade religiosa para os sabatistas.

Nesse contexto, pode-se afirmar, com plena convicção, que existe no direito brasileiro o direito fundamental ao descanso semanal religioso, garantindo ao crente o direito de separar um dia na semana, conforme sua crença e liturgia. Destaca-se como garantia ao próprio exercício da fé, tendo em vista que qualquer violação ou restrição, por menor que seja, pode vir a privar a própria consciência e o livre exercício de escolha da religião. Ou seja, ao impor restrições quanto à guarda do sábado, muitos podem não decidir se tornar adventistas por restrições financeiras ou educacionais. Trata-se de restrições no trabalho, na escola, em concursos públicos ou vestibulares.

Em 3 de janeiro de 2019, foi sancionada pelo presidente Jair Messias Bolsonaro a Lei nº 13.796, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, garantindo a todos os estudante de instituições de ensino ausentar-se de prova ou aula marcada para o dia em que, em virtude de sua consciência e crença, segundo os preceitos de sua religião, seja vedado o exercício de tais atividades. Apesar de a lei ter conferido dois anos para as instituições de ensino implementarem progressivamente as medidas necessárias à adequação de seu funcionamento, a lei entrou efetivamente em vigor na data de 4 de abril de 2019, obrigando todas as instituições de ensino, públicas e privadas, exceto militares, a conferir efetiva proteção ao direito fundamental ao descanso semanal religioso, segundo os ditames dessa ou aquela religião. A forma como a lei tratou a questão foi bastante positiva, na medida que garante idêntico direito a todas as religiões, seja para aqueles que guardam a sexta-feira, o sábado ou o domingo.

Defender a liberdade religiosa é uma questão para todas as pessoas, em todos os lugares. A perseguição, nesse contexto, surge como resultado da intolerância, que é fruto do pecado. De fato, ser perseguido faz parte do chamado a ser cristão (João 15:20; Mateus 24:9), mas isso não implica que devemos nos omitir ou negligenciar a defesa da liberdade religiosa. Tem sido pela omissão de muitos que, em tempos de paz, a igreja tem dominado o Estado ou vice-versa. Alguns dos maiores conflitos da humanidade sempre estiveram relacionados com a liberdade religiosa, como a perseguição aos cristãos nos primeiros séculos, a perseguição aos “hereges” pela Igreja Católica, o Tribunal da Inquisição, a Reforma Protestante, o Holocausto, o comunismo, e atualmente os ataques terroristas em países democráticos e execuções onde impera a lei da Sharia.

A IRLA, tradicionalmente presidida por adventistas, é precursora na defesa da liberdade religiosa há mais de um século, tendo influenciado a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU. Por mais de 20 anos, o PhD John Graz esteve à frente da defesa da liberdade religiosa, que é o oposto do conceito de ecumenismo, pois este advoga a união de igrejas em pontos de doutrina e aquele o direito de cada um ter a religião que bem entender ou mesmo de não ter religião alguma. John organizou os maiores eventos de que se tem notícia de liberdade religiosa no mundo, com a participação de até 70 mil pessoas em festivais. Organizou jantares com as mais altas autoridades, comitês acadêmicos interconfessionais e congressos em diversos países e continentes.

Defender a liberdade religiosa deve ser a bandeira de todos aqueles que gostariam que sua liberdade não fosse atingida. Devemos buscar legitimamente em tempos de paz tudo quanto nos é por direito. No entanto, a prática revela que somente se dá importância a esse tema quando se sofre algum tipo de restrição. Como adventistas, devemos ter em mente que a coalizão do anticristo está usando a força para impor sua adoração (Apocalipse 13:16, 17). Por meio da tríade satânica, poderes terrenos irão perseguir os cristãos fiéis aos mandamentos bíblicos, pretendendo dar a todos o mesmo direito e impor a adoração do domingo. Devemos estar preparados para a grande tribulação e aguardar firmes na fé a breve volta do Senhor Jesus.

(Yuri Schmitke Almeida Belchior Tisi é advogado, bacharel em direito pelo Centro Universitário de Brasília, pós-graduado em Direito de Energia Elétrica pelo UniCEUB e mestrando em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB; é presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos, membro do Instituto Brasileiro de Estudos do Direito de Energia, da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético e da Associação Nacional de Juristas Evangélicos)

O dia dos pais de antigamente.

paiQuarenta por cento das crianças nascidas nos Estados Unidos nascem de mães solteiras, e mal conhecerão os pais. Para as crianças hispânicas o número sobe para 52%, e para as crianças negras sobe ainda mais: para 70%. Das crianças mais sortudas, que nascem com pai e mãe, como antigamente, 45% irão vê-los se separar nos primeiros 15 anos de casamento. Justamente quando as crianças tiverem entre 2 e 12 anos; e que falta faz nessa idade. Entre 60% a 85% das crianças americanas não terão, portanto, muito que celebrar no dias dos pais. Por isso quero agradecer minha esposa, meus filhos e minhas noras por poder festejar o dia dos pais. E vou lhes fazer uma confissão:

Graças a eles eu comemoro o dia dos pais, todo santo dia e dou graças a Deus. Quando vejo meus filhos crescidos, trabalhadores, corretos, bem casados, cuidando dos meus netos com primor, com duas noras tanto quanto trabalhadoras e corretas, que eu amo de paixão. Não é todo pai, portanto, que tem essa bênção.

Muitos pais separados veem os filhos semana sim, semana não. Outros não falam com os filhos há anos, porque brigaram ou foram os filhos que brigaram entre si. Muitos pais viram os filhos se separar e assim veem os netos uma semana sim, uma semana não, e olhe lá.

O que fizeram com o pai de antigamente? Aquele que cuidava da esposa, dos filhos e dos netos em primeiro lugar? De onde veio todo esse ódio contra a família? Por que grupos ativistas destilam veneno contra o casamento e a favor da poligamia e da poliginia serial? Por que grupos ativistas são tão contra darmos uma visão sadia do mundo aos filhos, com um mínimo de ética e religião?

Se você ainda não se casou ou ainda não tem filhos, lembre-se:

Jamais abandone sua família e seus filhos por algo melhor, porque esse algo melhor pode ser ilusão momentânea.

Cuide de sua família com amor e carinho.

Assim você vai festejar o dia dos pais todo dia, e não somente no segundo domingo de agosto.

Aos meus filhos, esposa e noras, muito obrigado por todos esses dias.

(Stephen Kanitz, Facebook)

Nota do Marco Dourado: Isso foi planejado por ideólogos de esquerda ainda na primeira metade do século passado. Destruir a família e a religião faz com que o Estado seja a maior, se não a única referência existencial.

Leia também: Meu querido pai

Spoiler da Lição: Jesus e os necessitados

A nova maneira de vir ao mundo

man pregnant“Criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27). Aí veio o ser humano e complicou.

Duas matérias publicadas recentemente mostram o nível da confusão em que nossa espécie se meteu. A primeira conta a história de uma professora de academia que conheceu há seis anos outra mulher que frequentava o local. Na época, a aluna usava cabelão e saia. As duas começaram uma relação lésbica, mas após dois anos de relacionamento, a “aluna” (vou chamá-la assim) começou um tratamento hormonal, chegou a marcar a mastectomia, mas desistiu por medo da cirurgia. Passado um tempo, o “casal” entrou na fila de adoção, mas desistiu, com receio de que um dia o filho quisesse conhecer os pais biológicos.

Depois de meses de pesquisas sobre inseminação caseira, a ideia era que a “professora” passasse pelo procedimento, mas não deu certo, foi incômodo e ela desistiu. Então a “aluna” (repaginada como “homem”) decidiu passar pelo processo em casa, depois de alguns meses sem tomar testosterona. O doador ia à residência da dupla, ejaculava em um frasco e a “aluna” injetava o conteúdo na vagina com a ajuda de uma seringa. Depois de onze tentativas ela finalmente engravidou. A “aluna”, que diz não se sentir confortável com a aparência (que geralmente deixa as mulheres orgulhosas), não se olhar no espelho nem sair de casa, afirmou que, depois de amamentar, voltará a tomar hormônios masculinos. Na empresa em que a “aluna” trabalha ela está sendo chamada de “papai do ano”. Na certidão, o bebê terá o nome das duas mulheres, até a “aluna” mudar seus documentos, e será amamentada pela “mãe” e pelo “pai”.

A outra história é parecida. Duas mulheres “casadas” queriam ter um filho. A “esposa” não conseguia engravidar com o sêmen doado por um colega de classe casado (que concordou com a doação, com a condição de que a esposa não ficasse sabendo de nada). Então o “marido” decidiu que engravidaria, e o sêmen foi doado pelo namorado de um amigo das duas. A matéria conta que no dia combinado o doador foi para o banheiro da casa delas assistir a vídeos pornográficos a fim de ejacular em um potinho. A “esposa” colocou o material em uma seringa, fez um carinho para acalmar o “marido” e injetou o conteúdo na vagina “dele”. Deu certo. “Ele” engravidou. O doador disse que não gosta de crianças e prometeu não interferir na vida delas.

Veja que coisa (e espero que a epigenética não tenha tanto efeito assim): o pai verdadeiro de um dos bebês não gosta de crianças e a gerou assistindo a filmes pornográficos; o “pai artificial” da outra ficou desgostoso com o corpo grávido e sequer quis sair à rua para exibir uma condição que, em condições normais, gera orgulho e satisfação. Minha única pergunta é: Que futuro aguarda essas crianças oriundas desse tipo de configuração familiar e vindas ao mundo de um jeito tão diferente do normal? O tempo dirá.

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