O pecado perdeu a vergonha (parte 2)

Somente quem continua vivo para o pecado pode fazer qualquer concessão a ele

vergonha

No post anterior, mencionei que nem sempre é possível distinguir pecado voluntário de pecado involuntário. Também pode ser que algum “fiel” esteja tentando acobertar uma transgressão voluntária, continuada. Nada disso, porém, é desculpa para se imaginar que todos na igreja são culpados do pecado voluntário, muito menos para se defender a tese de que a igreja deve tolerar o pecado voluntário e público entre seus membros. A lógica é completamente errônea, se não perversa, até porque, como disse, o coração é jurisdição exclusiva de Deus. Somente Deus pode determinar a verdadeira natureza do ato ou a motivação subjacente. É necessário, portanto, separar a questão individual (salvífica) da questão social (eclesiástica). Deus cuida do individual. A igreja cuida do social.

Mesmo sendo imperfeita, a igreja é chamada a estabelecer uma linha de demarcação clara entre o sagrado e o profano, o puro e o impuro (1Co 5:9-11; 2Co 2:14-18), e a dar um testemunho vivo do amor de Deus e do poder transformador do evangelho. O problema é que alguns parecem estar se acostumando demais ao pecado e por isso o pecado tem se tornado cada vez menos ofensivo e cada vez mais ousado e desavergonhado. O pecado não deve jamais ser visto como a norma, sequer como tolerável. Ele é um intruso, uma anomalia, uma aberração no universo de Deus. O pecado, tanto voluntário quanto involuntário, não é para ser defendido. É para ser odiado, rejeitado, condenado. Foi o pecado involuntário que levou Paulo a exclamar em Romanos 7:24: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” – ou seja, da sua natureza caída e debilitada pelo pecado. Olhemos para o Calvário e digamos se há alguma dignidade, virtude ou aceitabilidade no pecado! O pecado é um monstro que levou o próprio Filho de Deus à morte, não para que o pecado se tornasse aceitável, mas exatamente para que ele fosse derrotado, destruído, eliminado (Rm 6:6; 1Jo 3:8).

O pecador, sim, é para ser amado, não o pecado. Ocorre que nem sempre é fácil encontrar o ponto de equilíbrio entre o amor ao pecador e a aversão ao pecado, o que resulta às vezes ou no moralismo cruel de um lado ou na tolerância permissiva de outro. Somente com muita oração, humildade e fidelidade ao evangelho é que a igreja conseguirá realmente adotar uma postura digna do reino de Deus, postura que mostre de que lado ela está no grande conflito entre o bem e o mal e, ao mesmo tempo, que vise à restauração do pecador. A igreja deve sempre objetivar a cura do transgressor (2Ts 3:14, 15; Tg 1:13). Mas acostumar-se ao pecado significa perder de vez a noção do projeto salvífico de Deus. “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6:1, 2).

Somente quem continua vivo para o pecado pode fazer qualquer concessão a ele.

(Dr. Wilson Parosci, via Instagram)

Há um julgamento que não deve ser feito. Qual?

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“Não julguem para que vocês não sejam julgados” (Mateus 7:1). Nesse verso é muito importante entender o que Jesus NÃO está dizendo, e o que Ele ESTÁ dizendo. Aqui Jesus Cristo NÃO está dizendo que é errado praticar o julgamento crítico que tem como objetivo identificar a verdade e o erro. Afinal, Ele mesmo, ao longo de toda a Palavra, nos adverte sobre más decisões, maus comportamentos, e nos diz que devemos escolher a justiça, a verdade, a vida.

O que Jesus Cristo ESTÁ dizendo é que não devemos fazer o julgamento que tem como objetivo destruir, prejudicar, as pessoas; não devemos determinar que tal e tal pessoa vá se perder.

Devemos julgar para identificar a verdade e o erro; mas não devemos fazer julgamento salvífico de alguém, do tipo: “Fulano vai se salvar”; ou: “Sicrano vai se perder.”

E por que NÃO devemos fazer o julgamento salvífico de alguém? Simples: porque não somos Deus, e por isso nunca temos o quadro completo da realidade; nunca conhecemos os bastidores da vida das pessoas.

Somente Deus conhece plenamente tudo e todos; por isso, somente Ele pode julgar corretamente e dizer quem vai se salvar e se perder.

Exerçamos juízo claro e guiado pelo Espírito Santo para identificar e seguir a verdade; e para identificar e rejeitar enfaticamente a mentira e o erro. E deixemos o juízo salvífico com Jesus Cristo. Ele fez, faz e fará isso corretamente, e não precisa de auxiliares.

(Pastor Adolfo Suarez, via Instagram)

Star Wars Day

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Hoje os fãs de Star Wars, também conhecido por aqui como “Guerra nas Estrelas”, comemoram o Star Wars Day. É um dia separado por eles para celebrar a cultura Star Wars. Os filmes, conforme a maioria das narrativas criadas pela Walt Disney, Marvel, DC Comics e outras empresas, atraem milhões de seguidores por explorar justamente aquilo que toda pessoa percebe intuitivamente, mas talvez não tenha a compreensão real: o bem e o mal existem e há uma disputa entre eles.

Apocalipse 12:7 revela que estamos em meio a um conflito cósmico que não tem nada de ficção. É tão real que somos afetados diretamente. Uma guerra que começou no Céu, alterou o universo criado, e está amadurecendo até chegar ao seu clímax em nosso mundo. Cristo e Satanás estão disputando a conquista da sua vida.

A Bíblia apresenta um panorama geral dessa guerra desde o Gênesis ao Apocalipse. Ellen White, escritora adventista, que também acreditamos ter sido inspirada por Deus, escreveu uma série de livros chamada “Série Conflito”, na qual apresenta detalhes da peleja. Ainda não leu? São cinco livros que rasgam o véu da história da humanidade e revelam fatos impressionantes dessa batalha que está chegando ao fim.

A própria experiência de Ellen White para escrever aquele que talvez seja o livro mais famoso dessa série, O Grande Conflito, é impressionante. Foi em Ohio, num funeral realizado numa tarde de domingo, em março de 1858, na escola pública de Lovett’s Grove (agora Bowling Green), que foi dada à Sra. White a visão do grande conflito entre Cristo e seus anjos e Satanás e seus anjos, desde seu início até ao fim. Dois dias mais tarde o grande adversário tentou tirar-lhe a vida, para que ela não pudesse apresentar aos outros o que lhe fora revelado. Mantida, contudo, por Deus, na realização da obra que lhe fora confiada, descreveu as cenas que lhe haviam sido apresentadas, sendo publicadas no verão de 1858 o livro de 209 páginas Spiritual Gifts, v. 1, The Great Controversy Between Christ and His Angels, and Satan and His Angels (PE, p. 133-295).

Aproveitamos, então, o ensejo para sugerir a leitura da Série Conflito. Ela pode ser adquirida no site cpb.com.br em sua versão completa ou na versão condensada e com linguagem atualizada para adolescentes e jovens. Não perca tempo!

(Jefferson Araújo, Última Verdade Presente)

O que a Bíblia diz sobre a homo********dade?

Nota do pastor Eleazar Domini: “Entenda por que minha conta no Instagram foi bloqueada por dois dias. Eu resumiria o assunto assim: querem ser ouvidos, mas não querem ouvir; direitos e liberdade de expressão, sim, se você concorda com eles, se não concorda, seu direito é o silêncio. Obs.: o Instagram em si não agiu com má-fé. A rede segue protocolos de segurança para o benefício dos próprios usuários. Quando postagens indevidas são feitas e outros denunciam, por medida de precaução, a plataforma restringe até verificarem a procedência da denúncia. Ou seja, meu conteúdo foi denunciado e fiquei dois dias sem poder usar a rede. Depois da análise feita, verificou-se que a denúncia não procedia e tudo voltou ao normal.”

Quase 170 mil recebem estudos bíblicos nos primeiros três meses do ano

O desafio missionário em tempos pandêmicos é encarado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia com criatividade, atenção e cuidado com as pessoas. É a realidade de igrejas que proporcionam várias programações, encontros e capacitações realizados de forma digital por conta da necessidade de respeito a medidas de segurança sanitária. Sem falar na ênfase que a organização tem dado para que o atendimento de pastores e outros líderes seja sempre realizado de uma forma responsável.

Neste contexto, o balanço missionário apresenta alguns dados importantes. De acordo com o levantamento realizado pela área de Ministério Pessoal da sede sul-americana adventista, 168.985 pessoas receberam estudos bíblicos no primeiro trimestre do ano por meio do trabalho da organização adventista em oito países sul-americanos. O número de instrutores bíblicos chegou a 130.793.

A Secretaria Executiva da sede sul-americana possui um registro das atividades missionárias. A fonte destes dados é o sistema ACMS, que as pessoas responsáveis pela área de secretaria dos templos adventistas costumam alimentar periodicamente. De acordo com estes dados, de janeiro a março de 2021 foram registradas 39.468 entradas de novos membros adventistas, principalmente por meio de batismos e profissão de fé.

Neste mesmo período, os registros mostram 39.677 saídas da Igreja Adventista, seja por abandono da fé ou mesmo morte. Com isso, o crescimento real de membros ficou em -0,01%, se a comparação for feita no mesmo período em 2020.

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Religiosos fundamentalistas são uma praga, disse o papa em 2019

O diálogo inter-religioso é uma forma importante de combater os grupos fundamentalistas, bem como a acusação injusta de que as religiões semeiam divisão, disse o papa Francisco. Encontrando-se com membros do Instituto Argentino para o Diálogo Inter-religioso em 18 de novembro [em 2019], o papa disse que “no mundo precário de hoje, o diálogo entre as religiões não é uma fraqueza. Ela encontra sua razão de ser no diálogo de Deus com a humanidade ”.

Relembrando uma cena do poema do século 11 “A Canção de Roland”, em que os cristãos ameaçavam os muçulmanos “a escolher entre o batismo ou a morte”, o papa denunciou a mentalidade fundamentalista de que “não podemos aceitar nem entender e não podemos mais funcionar”.

“Devemos ter cuidado com os grupos fundamentalistas; cada (religião) tem seus próprios. Na Argentina, existem alguns cantos fundamentalistas”, disse ele. “O fundamentalismo é uma praga e todas as religiões têm algum primo fundamentalista”, disse ele. […]

A “complexa realidade humana” da fraternidade, continuou o papa, pode ser vista nas escrituras quando Deus pergunta a Caim sobre o paradeiro de seu irmão.

Essa mesma pergunta deve ser feita hoje e levar os membros de todas as religiões a refletirem sobre as maneiras de se tornarem “canais de fraternidade em vez de muros de divisão”, disse ele. […]

“É importante mostrar que nós, crentes, somos um fator de paz para as sociedades humanas e, ao fazê-lo, responderemos àqueles que injustamente acusam as religiões de incitar ao ódio e causar violência”, disse o papa.

(Catholic Philli)

Os escarnecedores mais ousados

Profetas e profetisas de Deus continuam sendo zombados e, por extensão, o Deus que os envia. Mas Deus não muda…

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“Muitos [antediluvianos] a princípio pareceram receber a advertência; não se voltaram, todavia, para Deus, com verdadeiro arrependimento. Não estavam dispostos a renunciar seus pecados. Durante o tempo que se passou antes da vinda do dilúvio, sua fé foi provada, e não conseguiram suportar a prova. Vencidos pela incredulidade prevalecente, uniram-se afinal a seus companheiros anteriores, rejeitando a solene mensagem. Alguns ficaram profundamente convencidos, e teriam atendido às palavras de aviso; mas tantos havia para zombar e ridicularizar, que eles partilharam do mesmo espírito, resistiram aos convites da misericórdia, e logo se acharam entre os mais ousados e arrogantes escarnecedores; pois ninguém é tão descuidado e tão longe vai no pecado como aqueles que tiveram uma vez a luz, mas resistiram ao convincente Espírito de Deus” (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 95).

“Eliseu era um homem de espírito brando e bondoso; mas que podia também ser severo é mostrado pela maldição que lançou quando, a caminho de Betel, foi escarnecido por rapazes ímpios que haviam saído da cidade. Esses rapazes tinham ouvido da ascensão de Elias, e fizeram desse solene acontecimento o assunto de seus motejos [zombaria], dizendo a Eliseu: ‘Sobe, calvo; sobe, calvo.’ Ao som de suas zombeteiras palavras o profeta voltou-se, e sob a inspiração do Todo-poderoso pronunciou uma maldição sobre eles. O terrível juízo que se seguiu foi de Deus. ‘Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles pequenos’ (2 Reis 2:23, 24).

“Tivesse Eliseu permitido que a zombaria passasse despercebida, e teria continuado a ser ridicularizado e insultado pela turba, e sua missão para instruir e salvar em um tempo de grave perigo nacional poderia ter sido derrotada. Este único exemplo de terrível severidade foi suficiente para exigir respeito pelo resto de sua vida. Durante cinquenta anos ele entrou e saiu pelas portas de Betel, e andou de um para outro lado em sua terra, de cidade em cidade, passando pelo meio de multidões indolentes, rudes e dissolutas de jovens; mas nenhum o injuriou ou fez caso omisso de suas qualificações como profeta do Altíssimo” (Ellen G. White, Profetas e Reis, p. 235, 236).

Obs.: As palavras traduzidas como “rapazinhos” em 2 Reis 2:23, 24 (no hebraico nearim qetannin) significam “homens jovens”, não se tratando, portanto, de crianças irresponsáveis (Ellen White os chama de “rapazes ímpios”). As palavras “sobe, calvo”, segundo o Comentário Bíblico de Moody, faziam eco às palavras dos discípulos dos profetas a Eliseu: “O Senhor levará (para cima) o teu mestre” (v. 3, 5). Essas palavras tinham o seguinte significado: “Suba, para que possamos nos ver livres de você (e possamos continuar imperturbados pelos nossos maus caminhos)!” Uma cabeça calva ou rapada era sinal de lepra e indicava desgraça (Isaías 3:17). Embora Eliseu provavelmente não fosse calvo ainda, o epíteto mostra que os jovens o consideravam um “pária”, como um leproso. Desprezavam o profeta de Deus. A zombaria desonrava a Deus. Por isso a promessa de julgamento divino. Eles violaram a aliança divina ridicularizando seu superintendente. E a violação da aliança produz castigo/punição. Além disso, o tamanho do grupo dá a impressão de que a zombaria foi pré-arranjada. Infelizmente, profetas e profetisas de Deus continuam sendo zombados e, por extensão, o Deus que os envia. Mas Deus não muda… Vivemos novamente um tempo de “grave perigo nacional” (ne verdade, mundial) e a voz profética precisa mais do que nunca ser ouvida e respeitada. Que os zombadores modernos acordem para o perigo que correm, atendam ao chamado do Santo Espírito e voltem-se de seu pecado. Ainda há tempo. [MB]

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O pecado perdeu a vergonha

Quem define o que é pecado é Deus, não o homem

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Alguns advogam a premissa de que, como todos são pecadores, a igreja tem que tolerar qualquer tipo de pecado. A lógica não poderia ser mais equivocada! Há pecado voluntário e há pecado involuntário (1Jo 5:16-18). Pecado voluntário é uma escolha pessoal, consciente – a pessoa sabe que é pecado, pode evitar, mas não quer evitar –, e por isso é uma grave ofensa a Deus e à comunidade dos crentes.

A Bíblia se refere ao pecado voluntário como o pecado “da mão levantada,” como diz o texto hebraico original de Números 15:30, 31 (ARA, “atrevidamente”). É um ato de desprezo e rebelião. Não há sacrifício que possa expiar tal pecado (Hb 10:26, 27), a menos, é claro, que o pecador se arrependa, peça perdão e se converta (do latim convertere, “dar meia-volta”).

Pecado involuntário, por sua vez, não é uma escolha, mas um acidente – resultado de uma natureza caída e fragilizada pelo pecado. É do pecado involuntário que Paulo fala em Romanos 7:14-25, e é justamente por ser involuntário que o apóstolo conclui dizendo que “não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). Ao longo do capítulo 8, especialmente nos versículos finais, Paulo vai explicar por que (v. 31-39; cf. 1Jo 2:1, 2).

Mas a pergunta é: Como diferenciar pecado voluntário de pecado involuntário? Isso nem sempre é possível. Nem sempre é possível conhecer as reais motivações por trás do ato, isso porque o coração é jurisdição exclusiva de Deus (Jr 17:10; Rm 2:16). De ninguém mais, incluindo-se a igreja. A igreja deve apenas salvaguardar a boa causa do evangelho (Tg 2:4, 8, 10). Ainda que imperfeita, ela é chamada a agir quando o pecado, voluntário ou involuntário, trouxer desonra à fé e ao nome de Deus (Ti 1:10, 11). Portanto, os que defendem uma espécie de salvo-conduto eclesiástico para os que vivem em flagrante violação dos princípios divinos estão confusos acerca do que é pecado, do que é graça e do que é igreja – confusos ou coisa pior, afinal de contas, vivemos numa época em que o pecado perdeu a vergonha. E nunca é demais lembrar que quem define o que é pecado é Deus, não o homem.

(Dr. Wilson Paroschi é Professor de Novo Testamento no Southern Adventist University; via Instagram)

Lição do Jardim: passando pelo teste

William Ramsay: quis desmentir o evangelho de Lucas, acabou se convertendo

Quando os céticos descrentes da Bíblia olharem para Ela sem pressupostos negativos, quem sabe chegarão à mesma conclusão a que ele chegou

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Lucas existiu e escreveu o livro de Atos com precisão histórica e geográfica. A primeira sentença pode ser verdadeira, mas a segunda está longe de ser realidade. Isso se deve ao fato de que esse livro foi escrito no 2º século d.C., ou seja, bem distante dos eventos do cristianismo do século anterior que ele pretendia narrar. O principal nome dessa visão foi Ferdinand Christian Baur, teólogo da Universidade de Tübingen no século 18. Baseado na filosofia de Hegel (tese, antítese e síntese), ele desenvolveu toda uma estrutura dos primórdios do cristianismo. Para Baur, Pedro representava a ala judaica do cristianismo (tese), Paulo, a gentílica (antítese), Atos, a igreja unida (síntese), algo que só foi possível no 2º século. Toda essa estrutura de pensamento estava fundamentada na Redaktiongeschichte (a história da redação), um movimento de pensamento alemão que afirmava que o livro de Atos e também os evangelhos foram escritos mais de uma perspectiva teológica do que histórica.

Foi nesse contexto que surgiu a figura de Sir William Ramsay, adepto de tais ideias que viajou para a Ásia Menor, as terras das viagens missionárias de Paulo, com a intenção de provar os pressupostos de Baur e da Redaktiongeschichte. Porém, todas as pesquisas arqueológicas dele mostraram o contrário. A obra de Lucas é extremamente precisa quando se refere aos costumes, lugares e personagens do 1º século d.C. Ramsay, ao longo de seus trabalhos, considerou o livro de Atos como autoridade em assuntos como topografia, antiguidades e sociedade da Ásia Menor, e um aliado útil em escavações obscuras e difíceis.[1]

Uma de suas contribuições para a historicidade do livro foram seus estudos sobre a grande fome nos dias do imperador Cláudio (At 11:27-30). O pano de fundo do texto bíblico segundo alguns não é histórico, é improvável e não corroborado por outras evidências.[2] Ramsay encontrou diversas fontes sugestivas em conformidade com a passagem de Atos. Diversos historiadores mencionam algo sobre a escassez de alimentos nesse período de Roma. Suetônio, historiador romano do 2º século, menciona uma assiduae sterelitates (fome intensa) durante o império de Cláudio (41-54 d.C.). Tácito menciona duas fomes na capital do Império e Eusébio de Cesareia fala de uma fome na Grécia e provavelmente na Ásia Menor.[3] Todas essas informações nos levam a crer que o reinado de Cláudio foi marcado por más colheitas que ocasionaram ausência de alimento em diversas partes do Império. Curiosamente, Atos 12, o capítulo seguinte, contém fatos que aconteceram em 44 d.C. (a perseguição e morte de Herodes Agripa I), ou seja, durante o período referido acima.

Hoje temos um fato bastante irônico. Eruditos do Novo Testamento negam a historicidade de Atos 4 e historiadores da antiguidade consideram as narrativas desse livro como historicamente exatas. B. H. Warmington, professor de História Antiga na Universidade de Bristol, afirmou que, “quando se refere a aspectos da lei e do governo romano, os historiadores têm considerado como fontes confiáveis”. Para A. N. Sherwin-White, um dos maiores eruditos em historia romana, “a confirmação da historicidade de Atos é abundante e qualquer tentativa de negá-la é absurda”.[5]

O escritor com maior número de livros no Novo Testamento é sem dúvida alguma Paulo. Lucas, ao contrario, escreveu apenas dois livros, o evangelho que leva o nome dele e os Acta Apostolorum (Atos dos Apóstolos), mas somente esses dois ocupam mais de 30% do segundo cânon. Na realidade, algumas evidências nos levam a crer que o Evangelho e Atos são uma única obra, dividida em dois volumes.

O que motivou Lucas a escrever sua obra? Logo no prólogo do seu evangelho, ele a justifica (1:1-4). Ele diz que sua “acurada investigação” (v. 3) era destinada para Teófilo. O autor o chama de “excelentíssimo” (kratiste em grego), e ele devia ser alguém muito importante, já que esse termo é usado outras duas vezes, para Félix (23:26) e Festo, e ambos ocupavam cargos extremamente importantes na política da época. Não só isso, mas o texto da obra se assemelha muito a dossiês jurídicos do 1º século. Provavelmente, Teófilo tenha sido um advogado que estaria defendendo o apóstolo Paulo perante o júri romano.

Em favor dessa opinião, temos três detalhes importantes: (1) em Lucas 1:3 ele usa a palavra grega akribos, minucioso em detalhes, tinha de ser algo preciso; (2) a partir de Atos 13, o foco é quase totalmente voltado para Paulo; e (3) o segundo volume da obra termina com Paulo na prisão.

Se Lucas tinha interesse em ser preciso em todos os detalhes históricos e geográficos de sua obra, por que ele não seria também com os assuntos religiosos? Se sua mensagem histórica é digna de crédito, é de se esperar o mesmo sobre as boas-novas da salvação em Cristo Jesus. Quando os “Williams Ramsays” dos tempos modernos, os céticos descrentes da Bíblia, olharem para Ela sem pressupostos negativos, quem sabe chegarão à mesma conclusão a que ele chegou.

(Luiz Gustavo S. Assis é formado em Teologia pelo Unasp e doutorando no Boston College)

Referências:

1. Ramsay, William M. St. Paul: the Traveller and the Roman Citizen. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1962. p. 8.
2. Ramsay, p. 48. Ele está citando um autor chamado Schürer, que não acreditava no relato bíblico.
3. Thompson, J. A. The Bible and Archaeology. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1972. p. 382
4. Bornkamm, Günter. Paulo: Vida e Obra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992. p. 16.
5. Yamauchi, Edwin. Las Excavaciones y las Escrituras. Casa Bautista de Publicaciones. 1977. p. 104, 105.