A arte de permanecer casado

Em Cantares 7, o marido faz elogios apaixonados para a esposa, destacando aspectos físicos, mas também sua postura e linhagem nobre. Em resposta, a esposa promete mais do que apenas satisfazer o desejo sexual de seu marido por ela; ela promete que o amará com alegria, e que desfrutará da vida ao lado dele. Essa leitura nos faz pensar no seguinte: o relacionamento conjugal envolve mais do que apenas sexualidade e romance. O relacionamento conjugal duradouro envolve todos os aspectos da vida, e leva o homem e a mulher a desfrutarem com otimismo os dias que passam juntos, sejam eles repletos de boas aventuras, ou manchados por tristes experiências.

Fica claro na reflexão que o casamento autêntico resiste ao tempo e às pressões, fugindo de desculpas como “incompatibilidade”, “desgaste”, “cansaço da relação”, “anseio por algo diferente”.

A perspectiva bíblica de casamento se contrapõe à concepção de relacionamento numa sociedade onde o que importa é o casal sair bonito na foto, dar festas que impressionem, conseguir likes nas redes sociais e transmitir a ideia de que vive em constante lua-de-mel. E se isso não se concretizar, facilmente opta-se pela descartabilidade da relação.

A vida conjugal, nos moldes bíblicos, inclui as alturas de experiências marcantes e lindas, mas também as experiências tristes e comuns da planície. E, convenhamos, na maior parte do tempo vivemos na planície de uma vida comum, corriqueira, normal.

Assim, mesmo diante da monotonia de um casamento “normal” – sem aparentes grandes histórias para contar –, precisamos permanecer unidos, renovando diariamente os votos de uma união firme, consciente, e dialogando sobre a necessidade de vencer os desafios, e, de fato, lutando para transpor as barreiras de quem quer fazer a vontade de Deus, permanecendo casado, como é da vontade do Criador do casamento, nosso Pai Celestial.

Se quiser casar de novo, faça-o, mas com a mesma mulher, com o mesmo marido!

(Adolfo Suárez é pastor e reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia)

O livro de Cantares e a contracultura sexual

A leitura da Bíblia surpreende. Cantares 4 é surpreendente! Nesse capítulo, o esposo e a esposa fazem elogios um ao outro. Mas quem toma a iniciativa é o marido. O esposo exalta as qualidades físicas da esposa, destacando características específicas e marcantes de sua beleza física. Mas os elogios não se restringem aos aspectos físicos. Ele destaca a força, a postura e a pureza dela. Ele enfatiza que nela não há defeito.

Uma qualidade destacada é a virgindade da esposa quando era noiva. Quando ela se casou, não havia tido experiência sexual. Ele diz: “Meu amor, minha noiva, você é um jardim fechado, um manancial recluso, uma fonte selada” (Cantares 4:12). Isso indica que a jovem se guardou somente para o amado.

O ensinamento bíblico é claro: a experiência sexual deve ser reservada para o casamento e vivida entre um homem e uma mulher. “Mas estamos no século 21”, alguém pode dizer. “Estamos em outros tempos.” Outra pessoa pode argumentar: “Nada a ver; eu faço com meu corpo o que eu quero. Meu corpo, minhas regras.” Ainda alguém pode afirmar: “As pessoas decidem quando e como ter relacionamento sexual, e não devemos reprimi-las.”

Toda opinião deve ser respeitada, claro. Mas se alguém afirma ser cristão bíblico, então DEVE viver este princípio em todo tempo e lugar: a experiência sexual é reservada para o casamento, e vivida entre um homem e uma mulher. Não há negociação. Ponto. E isso vale para homens e mulheres.

“Eu sou cristão, eu sou cristã, e sobre esse assunto eu penso diferente.” Se alguém pensa e vive diferente dos princípios bíblicos, tem essa liberdade; claro que tem. Mas então não pode dizer que é cristão bíblico. Simples assim.

Num mundo em que tantos pregam o relativismo naquilo que convém, numa sociedade em que o sexo é mercadoria servida a gosto do freguês, a Bíblia é categórica: o sexo deve acontecer no contexto do casamento, exclusivamente entre um homem e uma mulher. Esse conceito pode parecer careta no mundo em que vivemos. Mas sabemos que pureza e fidelidade são elementos essenciais para um casamento seguro e feliz.

A sexualidade que traz felicidade total é aquela que segue as orientações do Pai Celestial.

Ser cristão bíblico tem seus custos. Seguir os princípios da Palavra é um deles.

(Adolfo Suárez é pastor e reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia)

Leia também: “Virgindade: preservando o presente (e o futuro)” e “Sexo: vantagens de esperar”

1 Tessalonicenses 4 é um texto notável quando o assunto é esse: “…não com desejos imorais, como os gentios que não conhecem a Deus” (v. 5).

a1

a2

Se quiser receber todos os dias pela manhã reflexões bíblicas do Pr. Michelson Borges, inscreva-se neste canal do Telegram: https://t.me/michelsonborgesdevocionais

Da autoajuda para a escatologia: o retorno da pregação adventista

pregacaoO apóstolo Paulo escreveu: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28). Ele tem razão. Totalmente.

Há 30 anos acompanho os púlpitos adventistas brasileiros, e um padrão se revela de modo geral: sermões de autoajuda e teologia superficial. Mas eis que a crise dos dias em que vivemos alterou isso de modo radical, e o que eu não vi em 30 anos agora vejo nos últimos três meses: a autoajuda e a teologia superficial foram substituídas por sermões escatológicos, bíblicos. Estou muito impressionado!

Poucos minutos no YouTube ou Facebook não deixam dúvidas: dezenas de sermões foram apresentados nesta época de igreja virtual, focando nos eventos finais, no preparo para a volta de Jesus. Nada de papinha, nada de fast-food. É alimento de “gente grande”. Vitaminado mesmo. E pasmem: há sermões com 50 mil, 80 mil, 200 mil, 500 mil visualizações. Espetacular!

Tenho a impressão de que nos últimos três meses de pregação se falou mais de escatologia do que nos últimos 30 anos. Glória a Deus! E também tenho a impressão de que o número de visualizações dos sermões destes últimos três meses soma muito mais do que o total de gente que assistiu aos sermões pregados nos últimos 30 anos de modo presencial. Algo a se pensar…

O apóstolo Paulo tem razão: todas as coisas cooperam para o bem. A igreja está enfrentando desafios devido à crise da Covid-19, mas o púlpito está voltando a fazer o que nunca deveria ter deixado de fazer: orientar, alimentar, advertir, conclamar, desafiar, interpelar, preparar (e não massagear, entreter, fazer sorrir, distrair). E, como resultado disso, as pessoas estão fortalecendo sua fé, pois a fé vem pelo ouvir a Palavra.

Os pregadores que se cuidem! Agora as pessoas sabem o que é ouvir um sermão que alimenta, que desafia, que ensina com profundidade. Daqui em diante, elas não vão aceitar menos do que isso. Que assim seja!

Minha conclusão: prefiro o púlpito sólido da crise ao púlpito soft da bonança.

Deus, obrigado pelas crises, que nos permitem voltar aos trilhos de Tua vontade!

(Pastor Adolfo Suárez é reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia)

Imitando a cultura

uzaNum instante, Davi se transformou num assassino, quando Uzá foi fulminado por sua ousadia em tocar a Arca (1 Crônicas 13). E tudo começou com uma aparentemente ingênua ação: colocar a Arca num carro, em vez dos ombros dos levitas. O entusiasmo e o pragmatismo de Davi o levaram ao erro e ao pecado. Mas a ação de Davi não foi original; os filisteus transportaram a Arca num carro (1 Samuel 6:7, 8). Portanto, ao imitar a cultura, Davi fracassou!

Esse episódio nos lembra que a obediência à Palavra é muito mais importante que o entusiasmo, o pragmatismo e a cultura.

“Mas eles estão fazendo assim!” “As igrejas estão fazendo desse jeito.” “As pessoas gostam disso!” “Os estudos mostram que…!”

Esqueçamos a cultura! Esqueçamos as tendências sociológicas e antropológicas! Esqueçamos o pensamento dominante! Esqueçamos o que dizem os especialistas! Se eles disserem e praticarem diferente da Palavra, esqueçamos!

O conselho das pessoas, as pesquisas dos especialistas e os ditames da cultura jamais devem substituir as prescrições da Palavra de Deus.

Pastor Adolfo Suárez

A identidade do adventismo

Logo IASD oficialTermos seculares e humanistas, por mais legitimados e usados que possam ser, nem sempre estão de acordo com a compreensão bíblica. Por isso, é necessário refletir nisto: “Tenho sido bíblico em todos os meus ensinos, em meus projetos, minhas atividades? Ou tenho propagado ideias seculares, humanistas, porque elas encantam mais as pessoas?” Não devemos esconder nossa identidade nem disfarça-lá com um discurso e uma postura determinados pelo grupo ou pela pessoa a quem queremos evangelizar. Por isso, quando dialogarmos com os que não têm simpatia pela religião institucionalizada, devemos ter respeito, sim, mas temos que conversar como remanescentes. Quando dialogarmos com universitários inteligentes e engajados, façamos isso como remanescentes. Quando dialogarmos com empresários e pessoas de negócios, respeitemos, mas façamos isso com linguagem de remanescentes. O nosso discurso deve ser de remanescente. A nossa postura deve ser de remanescente. O nosso estilo de vida deve ser de remanescente. O nosso sermão deve ser de remanescente. O nosso louvor deve ser de remanescente.

Nesse sentido, tenho uma preocupação, que é o surgimento de grupos, movimentos, comunidades ou igrejas adotando elementos seculares como ferramenta de evangelismo. Vejo que surgem grupos na Igreja Adventista que querem um tratamento diferente, sob o argumento de que querem alcançar grupos diferentes, e propõem estratégias tão diferentes que não se configuram mais como adventistas, e muito menos como remanescentes.

Muitos desses grupos se especializaram tanto em falar aos pós-modernos, por exemplo, que no final acabam sendo pós-modernos. Dias atrás assisti a um culto pela internet, um culto de domingo de uma comunidade adventista dessas que pretendem alcançar pessoas pós-modernas. Fiquei estupefato! O sermão era pós-moderno, o pregador era pós-moderno, a liturgia era pós-moderna, o ambiente era pós-moderno, a calça rasgada… tudo era pós-moderno. Um barril de 200 litros de gasolina foi pintado transformado em púlpito.

Será que realmente precisamos de igrejas diferentes para grupos específicos? Ou será que o que precisamos, na verdade, é revitalizar a igreja normal para que alcance, acolha, receba e evangelize os pós-modernos?

Será que o grande evangelista Paulo ainda serve de referência? Que eu saiba, ele não criou uma igreja específica para grupos diferenciados. Ele, sim, preparou a igreja “normal” para evangelizar os diferentes.

Assim, sugiro que reflitamos nisto: Meu discurso e prática me caracterizam claramente como sendo do povo remanescente? Ou sou influenciado pelo secularismo, tanto no discurso quanto na prática?

Atentemos para cinco preocupações:

1) LEITURA: A preocupação de que livros seculares e evangélicos tenham se tornado fundamento da teologia.

2) PÚLPITO: A preocupação grande com o empobrecimento do púlpito (pregação) adventista.

3) VOCÁBULOS: Uso de termos seculares, humanistas, para expressar atividades e conceitos supostamente bíblicos.

4) VERDADE: Supervalorização de diversas fontes para a comunicação da verdade.

5) ECLESIOLOGIA: Preocupação com o surgimento de grupos, movimentos, comunidades ou igrejas adotando elementos seculares como ferramenta de evangelismo.

Amigos queridos, vocês são líderes. Vocês são formadores de opinião. Gostaria de desafiá-los como líderes: coloquemos o melhor do nosso intelecto, o melhor do nosso esforço e o melhor da nossa influência para resgatar e fortalecer a identidade do remanescente. Como igreja, temos uma responsabilidade, mas como indivíduos também temos uma responsabilidade.

Os membros da nossa igreja precisam ver claramente a identidade do remanescente; os que não são membros da igreja também precisam ver claramente a identidade do remanescente.

Fortalecer a identidade da igreja é, antes de tudo, um dever de cada adventista; mas é um imperativo aos líderes. E lembrem-se de que retroceder é um elemento essencial para avançar. Isso tem que ver com a nossa identidade. A identidade da igreja não é responsabilidade da instituição. É responsabilidade sua e minha.

(Trecho de um sermão do pastor Adolfo Suarez dirigido a pastores e líderes da IASD; ele é reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia)

spurgeon