Os adventistas, os romeiros de Aparecida e a contextualização

adventistasQuando eu era católico, uma das experiências mais marcantes e significativas que tive foi representar Jesus em uma encenação da paixão de Cristo, durante a Semana Santa de 1990. Fazia pouco mais de um ano que eu estava estudando a Bíblia com um jovem adventista chamado Vanderlei. Eu ainda tinha o coração dividido, e aquela foi a minha última participação em um evento da Igreja Católica. Conto essa história com mais detalhes no vídeo “Minha História Eterna”, em meu canal no YouTube. O que quero destacar aqui, no entanto, é a atitude daquele jovem adventista quando lhe pedi que fotografasse a encenação, pois se tratava de um momento muito especial para mim. O Vanderlei aceitou meu pedido e a decisão dele me deixou positivamente impressionado. Em outras ocasiões ele também aceitou meu convite para participar de reuniões do grupo de jovens que eu liderava. O Vanderlei quebrou meus preconceitos e ajudou a preparar o caminho para a decisão que eu tomaria meses depois.

Por que conto essa história? Para mostrar como é importante construir pontes em lugar de erigir muros entre nós e as pessoas com quem queremos partilhar as boas-novas do evangelho. Desde que, nesse processo, princípios não sejam comprometidos, devemos sempre nos aproximar do nosso semelhante (na condição de pecadores somos mais semelhantes do que imaginamos) e procurar maneiras novas, às vezes diferentes, contextualizadas de cumprir a antiga comissão de Jesus.

Foi o que grupos de adventistas procuraram fazer no último feriado de 12 de outubro, data reservada para homenagear a santa católica Nossa Senhora de Aparecida. Como acontece todos os anos, milhares de romeiros se dirigem para o santuário localizado na cidade de Aparecida do Norte, em São Paulo. Alguns caminham a duras penas por muitos e muitos quilômetros numa peregrinação que pode durar vários dias. Há quem chegue à basílica em condições lastimáveis, até. O que fizeram os adventistas, afinal? Montaram tendas e ali ofereceram abrigo do sol, água aos romeiros sedentos e até massagem relaxante. Graças a essa atitude misericordiosa, puderam fazer contato com quase três mil pessoas, conversar com elas sobre saúde e outros assuntos e, depois, entregar um livro missionário para cada uma delas. Livros que foram invariavelmente aceitos de todo o coração e com muita gratidão.

O vídeo na página do Facebook oficial da Igreja Adventista no estado de São Paulo teve mais de três milhões de visualizações e as reportagens veiculadas pela TV Canção Nova e emissoras seculares tiveram grande repercussão.

Milhares de pessoas deixaram comentários elogiosos no Facebook da igreja, entre elas muitos católicos, espíritas e umbandistas. Segundo os organizadores da iniciativa, uma força-tarefa foi criada para dar prosseguimento a esses contatos e manter um diálogo com essas pessoas.

Infelizmente, houve também críticas farisaicas – não de pessoas “de fora”… Gente que parece ter se esquecido do conselho de Ellen White: “Unicamente os métodos de Cristo trarão verdadeiro êxito no aproximar-se do povo. O Salvador misturava-Se com os homens como uma pessoa que lhes desejava o bem. Manifestava simpatia por eles, ministrava-lhes às necessidades e granjeava-lhes a confiança. Ordenava então: ‘Segue-Me.’” (A Ciência do Bom Viver, p. 143).

Como se a solidariedade por si só não fosse uma grande ação destruidora de preconceitos e um exemplo de amor desinteressado como o de Jesus, é bom que fique claro que o “segue-me” não foi esquecido. A diferença é que, por ter sido precedida de misericórdia, a mensagem encontrou terreno mais receptivo.

Obviamente que aqueles romeiros sabem (ou pelo menos a maioria deve saber) que os adventistas não concordam com a adoração de imagens e que, portanto, não estavam ali na rodovia para apoiar a romaria. Estavam ali simplesmente porque queriam fazer o bem. Mais ou menos como os adventistas fazem em projetos como aquele que ficou conhecido como “Bálsamo”, que consiste em organizar grupos de irmãos para visitar os cemitérios no Dia de Finados a fim de distribuir folhetos e revistas que tratam da esperança da ressurreição. É claro que, com esse tipo de ação, os adventistas não estão apoiando a veneração aos mortos, as preces pelos falecidos, nem coisa semelhante (clique aqui e saiba por que). Estão apenas, mais uma vez, expressando solidariedade aos que sofrem e partilhando verdades bíblicas que trazem consolo.

Um último exemplo de oportunidade evangelística contextualizada que quero citar são as campanhas realizadas durante a chamada Semana Santa. Os adventistas não celebram essa data, mas levam em conta a predisposição natural das pessoas para a religiosidade, nessa época, e falam de Jesus, do plano da salvação e das promessas bíblicas quanto ao retorno do Mestre. Curiosamente, décadas atrás, quando esse projeto começou a ser posto em prática, críticos de plantão igualmente levantaram objeções. Hoje ninguém duvida de que se trate de um plano abençoado.

Contextualização e excessos

Já que falei em “contextualização”, é bom que se diga que, apesar de necessário e bem-vindo, esse esforço deve ter limites. Deus utilizou uma estátua para tornar Sua mensagem conhecida ao rei Nabucodonosor. Jesus contou uma parábola antibíblica (do rico e Lázaro) a fim de ilustrar um assunto mais profundo e importante. Paulo, no areópago em Atenas, citou pequenos trechos da literatura grega a fim de captar e manter o interesse dos que o ouviam. Mas note que em todos esses e em outros exemplos que poderiam ser aqui mencionados os pregadores e mesmo Deus não se demoram no elemento secular da história. O propósito sempre é conduzir as pessoas à salvação e a uma maior compreensão dos planos divinos.

Acredito que os adventistas que fizeram contato com os romeiros de certa forma imitaram a conduta evangelística de Paulo diante dos altares pagãos de Atenas, o que é bem diferente, por exemplo, de incentivar cristãos a assistirem séries de TV para tentar extrair dali eventuais e esparsos conteúdos cristãos. Eu sei, esse assunto dá “pano pra manga”. Por isso voltarei a ele oportunamente.

Oremos por aquelas milhares de pessoas que receberam livros missionários e o carinho dos adventistas, e oremos também para que cada vez mais nossa igreja se torne relevante e atuante, deixando na comunidade uma marca positiva que facilitará o processo de compartilharmos as verdades que nos são tão caras. Conteúdos que nos fizeram tão bem que não nos contentamos em guardar só para nós. Exatamente como o Vanderlei fez comigo há mais de duas décadas.

Michelson Borges

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A chegada do adventismo ao Brasil

O perigo do fanatismo e da indiferença

Isso é o que dá ficar marcando datas para o fim

jogadorEle estava no auge da carreira quando decidiu abandonar o futebol. A razão? Preparar-se para o fim do mundo. A religião sempre teve um papel central na vida de Carlos Roa, internacional argentino que, aos 29 anos, recusou propostas milionárias e desapareceu durante alguns meses. O tempo passado em isolamento, nas montanhas, permitiu ao goleiro “ficar mais próximo da família”. Quando sentiu falta do futebol, regressou “relaxado e feliz” – mas o tempo dele já tinha passado, e a carreira não voltaria a ser o que era. Carlos Roa não teve um início fácil: estreou no campeonato argentino aos 19 anos, pelo Racing Avellaneda. […] A aventura europeia começou em 1997-98. […] Veio o Verão e Carlos Roa juntou-se à seleção argentina para o Mundial 1998. Titular indiscutível na equipe de Daniel Passarella, não sofreu qualquer gol na fase de grupos e voltou a ser decisivo nos pênaltis, perante a Inglaterra, nas oitavas-de-final. […]

Roa era um herói nacional e na época, 1998-99, foi eleito o melhor goleiro do campeonato espanhol. Havia sobre a mesa uma proposta milionária do Manchester United, mas o goleiro tinha tomado a decisão de abandonar o futebol para dedicar-se a “transmitir a palavra de Deus”, como pastor [sic] da Igreja Adventista do Sétimo Dia. À semelhança de outros crentes, acreditava que a mudança de milénio traria o fim do mundo. A camiseta 13 do Maiorca (“O 1 é Deus, a criação, e o 3 porque Cristo ressuscitou ao terceiro dia”) deixou de ter dono, Roa libertou-se de todos os bens e retirou-se para um lugar incerto.

Passou uns meses numa localidade isolada nas montanhas, mas sentiu falta do futebol e voltou. Só que já era tarde. Perdeu o lugar no Maiorca, depois rumou ao Albacete na 2ª Divisão e, em 2004, foi forçado a parar de jogar quando lhe detectaram câncer nos testículos. “A mim, que sou vegetariano, não bebo, não fumo, não tomo nada”, disse na época ao El País. Conhecido como “alface”, devido à sua dieta estritamente vegana, Carlos Roa despediu-se dos holofotes. Agora com 48 anos, é treinador de goleiros no Chivas de Guadalajara. E já não pensa no fim do mundo.

(Público)

Nota: Embora, como adventistas, sejamos motivados a estudar as profecias e conhecer o tempo em que vivemos, e sejamos, também, incentivados a adotar um estilo de vida saudável e a morar em lugares mais calmos, todas as nossas ações e decisões devem ser feitas com muita oração e bom senso. Embora publiquemos o livro Vida no Campo, com orientações sobre como viver fora das cidades, também temos o livro Ministério Para as Cidades, ambos de Ellen White. A leitura desses dois livros nos ajuda a pintar um quadro completo do assunto. Mesmo com recomendações para que moremos no campo, Ellen White diz que alguns deverão trabalhar nas grandes cidades pela salvação dos perdidos que vivem ali. Devemos manter nossas igrejas abertas nas cidades e até abrir restaurantes vegetarianos a fim de ensinar as pessoas a terem saúde física, mental e espiritual. Deus tem uma missão para cada um de Seus filhos e não podemos ensinar que a missão é igual para todos. Muita gente, ao longo dos anos, tomou decisões precipitadas, sem a clara orientação de Deus, para depois ter que triste e vergonhosamente voltar atrás. E o pior: dando a impressão de que as recomendações de Deus para Seu povo estão erradas. Quando a pessoa adota uma dieta vegetariana estrita de maneira precipitada e descuidada, ou deixa tudo para trás para morar no meio do mato, sem ter certeza de que se trata do momento certo, as chances de as coisas darem errado são muito grandes. Pior é quando tudo isso é influenciado por uma má teologia ou uma compreensão equivocada dos escritos inspirados. Foi o caso do goleiro Carlos Roa. Marcar datas para a volta de Jesus é o óbvio do erro, uma vez que Ele mesmo disse que ninguém sabe nem deve saber o dia nem a hora (nem o mês e o ano, obviamente). Marcar datas para o fim é um convite à decepção, à humilhação e à vergonha pública. Com essa atitude, o que Roa conseguiu fazer foi lançar descrédito sobre a mensagem que pregava e atrair o escárnio dos que duvidam da volta de Jesus e criticam o estilo de vida saudável. Fica a lição. [MB]

Ellen White fez profecias que não se cumpriram?

Ellen-WhiteO dom de profecia tem sido dado por Deus a homens e mulheres ao longo da história. Na Bíblia, há a predição de que, no tempo do fim, pessoas receberiam revelações especiais de Deus (Jl 2:28-31; At 2:17-21; 1Co 14:1). Cada vez mais, diferentes segmentos do cristianismo aceitam a verdade bíblica de que a manifestação dos dons espirituais, entre eles o dom de profecia, não ficou restrita ao período de composição das Escrituras e é uma dádiva de Deus que será concedida à igreja até a segunda vinda de Cristo (1Co 13:8-13). Entre as pessoas em quem se reconhece a manifestação do dom de profecia está Ellen White (1827-1915). Essa senhora recebeu aproximadamente duas mil visões e sonhos proféticos entre 1844 e o ano de sua morte. Seu trabalho foi essencial para a formação e organização da Igreja Adventista do Sétimo Dia. De sua lavra, foram produzidas cerca de 35 mil páginas de conteúdo impresso, entre livros, folhetos e artigos de revista, além de centenas de cartas, sermões, manuscritos e vários diários. Esses escritos são frequentemente chamados de “Espírito de Profecia”. Entende-se que os textos de Ellen White são inspirados por Deus da mesma forma que a Bíblia é, mas os escritos dela são uma mensagem específica para o povo de Deus no tempo do fim e não têm a mesma autoridade da Bíblia. Sua importância e autoridade é semelhante ao que os profetas antigos falaram ou escreveram inspirados por Deus, mas que não está na Bíblia.

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O que não é um perfeccionista

praying-manO perfeccionista “clássico” é aquele que acredita que pode “marcar pontos no Céu” por meio de suas boas obras. No extremo dessa crença, está a ideia de que a própria salvação pode ser alcançada por mérito. O perfeccionista geralmente pensa em Jesus mais como modelo do que como redentor. Por isso, ele minimiza a gravidade do pecado, encarando-o antes como uma escolha do que como uma condição (embora ambas as coisas coexistam). Acha que pode igualar o Modelo, mais do que assemelhar-se a Ele. Assim, o perfeccionista, por minimizar a doença, acaba minimizando também a importância do remédio. Perfeccionistas são críticos e verdadeiros vigias dos deslizes alheios. Geralmente, condenam nos outros aquilo contra o que eles mesmos lutam. Essas pessoas são infelizes, já que, em seu íntimo, sabem que não conseguem viver à altura do padrão que elas mesmas estabeleceram. Ou, então, são orgulhosas, pois, por rebaixar o padrão, vivem na ilusão de havê-lo alcançado e, por causa disso, acabam olhando de cima para baixo seus irmãos “imperfeitos”. Há quem diga que esse tipo de perfeccionista não existe. Tenho minhas dúvidas…

Tratei do tema do perfeccionismo aqui, aqui e aqui. Mas tem algo mais que precisa ser dito a respeito desse assunto: há pessoas zelosas e sinceras sendo consideradas perfeccionistas pelo simples fato de desejarem viver de acordo com a luz que receberam. Assim, creio que é importante listar algumas características daqueles que não são perfeccionistas, mas que, às vezes, são tidos por:

1. Dedicam tempo para se familiarizar com a Bíblia, seus princípios, suas verdades, suas orientações e seus temas. Dão atenção especial às profecias para este tempo, como as de Daniel e Apocalipse, pois amam Jesus e querem muito saber em que momento da história vivemos e quanto tempo ainda falta para o grande encontro com o Salvador – muito embora saibam que nossa preocupação não deve ser quanto a datas e esquemas proféticos sensacionalistas e sem fundamento.

2. Valorizam o grande presente que Deus concedeu à Sua igreja remanescente: os escritos inspirados de Ellen White. Por lerem e estudarem esses textos que estão em pleno acordo com a luz maior, a Bíblia Sagrada, esses filhos de Deus percebem que há muita coisa em nossa vida que precisa ser mudada com a ajuda de Deus. Percebem, também, que, com a Bíblia e os escritos da Sra. White, não temos porque errar o caminho, já que o Senhor nos deu orientações mais do que suficientes para vencermos a batalha da vida.

3. Por reconhecer que, por meio dos escritos inspirados, Deus fala ao Seu povo, essas pessoas evitam perder tempo com as futilidades e distrações que o inimigo coloca no caminho daqueles que desejam chegar à vida eterna. Essas pessoas se abstêm de conteúdos midiáticos levianos, blasfemos, ideologicamente contrários ao cristianismo, que não se adequam aos valores expostos em Filipenses 4:8 – enfim, evitam todo e qualquer conteúdo que possa macular seus pensamentos e afastar Jesus do coração.

4. Por entender que o corpo é o templo do Espírito Santo e que aquilo que fazem com o corpo afeta a mente, esses cristãos procuram seguir o estilo de vida orientado por Deus por meio dos escritos inspirados dados à igreja. Exercício físico, repouso adequado, dieta o mais natural possível (de preferência, vegetariana) e a observância dos demais “remédios naturais” fazem parte desse estilo de vida, e essas pessoas procuram colocar tudo isso em prática sem fanatismo e extremismo, e sem julgar os outros. Fazem isso porque reconhecem que é o melhor para a vida delas e porque amam Aquele que deu essas instruções. Fazem isso, sobretudo, porque querem ser instrumentos úteis nas mãos de Deus no sentido de abençoar outras pessoas (missão). Por meio de um exemplo tranquilo e sábio, procuram motivar seus semelhantes a colocar em prática esses princípios de saúde e respeitam o livre-arbítrio daqueles que ainda não se sentiram motivados a fazê-lo. Cuidar da saúde é uma ótima forma de exercitar o domínio próprio, afinal, como controlar o que sai da nossa boca, se nem conseguimos controlar o que entra por ela?

5. Esses cristãos creem que os servos de Deus devem ser a luz do mundo e que são verdadeiros “mostruários” dos valores do reino eterno. Assim, procuram exibir em sua vida os princípios da modéstia, do bom gosto e da decência. O objetivo deles é chamar a atenção para o Mestre e não para si. Por isso são discretos e se vestem de maneira honrosa, digna e simples. Por outro lado, evitam modas antiquadas ou retrógradas e esquisitas, que acabam, igualmente, chamando a atenção para si, só que por outro motivo – pelo ridículo.

6. Cristãos como esses procuram em Deus o amor com devem amar uns aos outros. Na comunhão com o Eterno recebem sabedoria, equilíbrio e mansidão para viver em família e em comunidade. Eles amam o cônjuge e os filhos, e essa relação amorosa faz do lar deles um pedacinho do Céu na Terra e um elemento forte de atração para o cristianismo. O culto familiar é, para eles, uma prioridade. Outras pessoas vão querer ser como eles e ter o que ele têm. E se em algum momento houver atritos nessas relações (porque são imperfeitos), esses cristãos de carne e osso pedirão perdão a Deus e ao semelhante e vão orar para ser pessoas melhores.

7. Porque amam a igreja, essas pessoas não são críticas e não fazem comentários destrutivos, mas procuram, com amor e no espírito de Mateus 18:15, chamar a atenção dos que vivem em erro, mostrando interesse genuíno na salvação deles e não posando de modelo de santidade. Pessoas assim até chamam o pecado pelo nome, mas não chamam o nome do pecador, a fim de não expô-lo indevidamente.

8. Cristãos imperfeitos procuram andar no caminho da perfeição bíblica, ou seja, do crescimento em maturidade e amor (que é exatamente o conceito bíblico de perfeição). Entendem que antes da glorificação por ocasião da volta de Jesus não haverá uma condição de impecabilidade, e farão de tudo, com suas capacidades e seus recursos, para resgatar outras pessoas imperfeitas e mostrar-lhes o caminho da salvação. Assim, esses servos do Altíssimo terão um espírito missionário bem aguçado e serão verdadeiros mordomos de Deus, aproveitando cada oportunidade para falar de Seu amor, jamais utilizando o dízimo, por exemplo, de maneira indevida, em desarmonia com os propósitos da igreja. Cristãos “perfeitos” entendem que todas as bênçãos que Deus nos dá (saúde, prosperidade material e outras) devem ser usadas não apenas em proveito próprio, mas, sobretudo, para abençoar o semelhante.

Vários outros itens poderiam ser acrescentados à lista, mas creio que esses são suficientes para mostrar que muita gente na igreja não deveria ser considerada “perfeccionista” pelo simples fato de que, na verdade, são simplesmente cristãos.

Michelson Borges

A Igreja Adventista e seus críticos

criticoParece ser cada vez mais frequente haver entre nós uma estranha propensão para a crítica à Igreja Adventista do Sétimo Dia como organização e entidade. Qualquer pequeno ou grande motivo é logo razão para o início de uma cruzada, individual ou coletiva, contra aquela que sempre soubemos ser e reconhecemos como a Igreja de Deus para este tempo. Antes de mais nada, devemos compreender a diferença entre duas críticas diferentes: (a) a primeira será perceber que certamente existem membros que assumem um comportamento errado diante de determinadas circunstâncias ou fatores (neste caso, entenda-se crítica como avaliação); (b) a outra será criticar a Igreja Adventista em si, questionando suas doutrinas, seus princípios e até mesmo sua importância escatológica. O que importa aqui nesta reflexão é a crítica à instituição e não ao comportamento particular dos membros.

Tentando exemplificar um pouco, as acusações que se levantam contra a Igreja podem ser de âmbitos diferentes: (a) genericamente, somos acusados de ter jesuítas infiltrados (confira aqui), de fazer pactos secretos com a Igreja Católica, de participar dos movimentos ecumênicos e do Concílio Mundial de Igrejas, etc.; (b) em casos específicos, a queixa é sobre doutrinas ou escritos de Ellen White que foram propositadamente alterados, pastores que estão em apostasia, o uso do dízimo, a natureza do Espírito Santo, etc.

Regra geral, quem são os críticos à instituição Igreja Adventista do Sétimo Dia? Se estivermos minimamente atentos, vamos perceber que eles assumem caraterísticas normalmente muito semelhantes e repetitivas, que nos permitem identificar um padrão:

  1. Membros insatisfeitos com o estado da Igreja (o que, por si só, não é mau) ou com as lideranças.
  2. Membros que não são capazes de discernir entre o que é a Igreja como corpo e o comportamento individual das pessoas como membros.
  3. Membros que mantêm e não resolvem conflitos internos.
  4. Membros que, mesmo inconscientemente, pretendem justificar seu próprio mau proceder com os erros da Igreja.
  5. Membros que se julgam portadores de uma importante revelação que entendem como fundamental e imprescindível para reformar e reavivar a Igreja.
  6. Membros mais atentos aos problemas do que às soluções – gastam muito tempo na crítica e pouco ou nada em estudos bíblicos, distribuição de literatura ou até mesmo em colaborar nas funções da Igreja.

Infelizmente, as pessoas que assumem uma postura deste tipo – apontar erros e fazer nada mais do que isso, sugerir corrupção em tudo o que veem, declarar apostasia por tudo e por nada – geralmente acabam por se afastar da fé e/ou da comunidade de crentes, ficando a pairar sobre si mesmos sem saber ao certo o que mais fazer e para onde ir. Temos observado que em todos os casos aqueles cujo “ministério” consiste em criticar a Igreja, normalmente de forma gratuita e sem intenção de construir ou corrigir positivamente, quase sempre se perdem pelo caminho – de críticos experientes, rapidamente se tornam em apóstatas intransigentes.

Ellen White avisou acerca do que esse procedimento provoca ao próprio Deus: “Coisa alguma neste mundo é tão preciosa para Deus quanto Sua igreja. Coisa alguma é por Ele guardada com tão cioso cuidado. Coisa alguma ofende tanto ao Senhor quanto um ato que prejudique os que Lhe estão fazendo o serviço. Ele chamará a contas todos quantos ajudam Satanás em sua obra de criticar e desanimar” (Conselhos Para a Igreja, p. 253).

E se olharmos um pouco mais para trás em nossa história até aos dias de hoje, vamos verificar que, em todos os casos, no meio da crítica e por vezes ataque severo à Igreja Adventista, não conseguimos discernir uma pessoa ou grupo que, lançado nessa empreitada contra a Igreja, tenha prevalecido seriamente e tenha mostrado provas concretas da direção de Deus.

Por outro lado – ainda que alguns de seus integrantes, incluindo membros e líderes, já pareçam ter caído até às portas do inferno –, criticada e acusada, a Igreja como entidade, mantém-se firme, seguindo em frente e para cima. Pode ser que tenha – e certamente tem – muitos percalços pelo caminho; mas não é por isso que ela deixa de avançar.

Quero com isso dizer que a Igreja é inatacável e está numa espécie de condição papal, acima de qualquer crítica? Bom, devemos perceber melhor o que entendemos como Igreja: (a) se estivermos falando de Igreja como sendo o conjunto de crentes, temos muitas razões para parar e rever comportamentos, como sugeri antes; (b) se estivermos falando de Igreja como sendo o conjunto das suas doutrinas, princípios, valores, mensagem e missão, podemos ter certeza de que criticar a Igreja é lutar contra o próprio Deus.

Aliás, a Bíblia faz menção a isso por meio da afirmação de Gamaliel: “E agora digo-vos: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará. Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus” (Atos 5:38, 39).

Ainda assim, se houver motivo de reparo e retificação na Igreja, faça-o imediatamente para advertir, recuperar, construir, até mesmo repreender; mas nunca para condenar, ferir e prejudicar a Igreja que Deus mantém sobre a terra.

Veja a advertência que temos de Ellen White a esse respeito: “Sejam todos cuidadosos para não clamarem contra o único povo que está cumprindo a descrição dada do povo remanescente, que guarda os mandamentos de Deus e tem a fé em Jesus” (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 50, 58).

Todos reconhecemos que há problemas na Igreja, disso não temos a mínima dúvida; mas, quando se começa a atacar a Igreja em si, aquilo que de mais basilar a Igreja comporta, seus mais nucleares fundamentos, confesso que, se Deus me der vida e capacidade, defenderei esta Igreja até ao limite de todas as minhas forças.

Conclusão, nas palavras de Ellen White: “Deus tem uma igreja, um povo escolhido; e pudessem todos ver como eu tenho visto, quão intimamente Cristo Se identifica com Seu povo, não se ouviria uma mensagem como essa que denuncia a igreja como Babilônia. Deus tem um povo que é Seu coobreiro e este tem avançado em frente, tendo em vista a Sua glória. Ouvi a oração de nosso representante nos Céus: ‘Pai, aqueles que Me deste, quero que, onde Eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a Minha glória.’ Como o Chefe divino almejava ter Sua igreja consigo! Com Ele haviam comungado em Seus sofrimentos e humilhação, e é a Sua mais elevada alegria tê-los consigo, para serem participantes de Sua glória. Cristo reclama o privilégio de ter Sua igreja consigo. ‘Quero que, onde Eu estiver, também eles estejam comigo.’ Tê-los consigo, está de acordo com o concerto da promessa e o pacto feito com Seu Pai. Reverentemente, apresenta Ele, no trono da graça, a consumada redenção para Seu povo. O arco da promessa circunda nosso Substituto e Penhor ao lançar Sua amorável petição: ‘Pai, aqueles que Me deste quero que, onde Eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a Minha glória.’ Contemplaremos o Rei em Sua beleza e a igreja será glorificada” (A Igreja Remanescente, p. 16).

(Filipe Reis é evangelista leigo no Ministério Fé & Evidências, em Portugal: www.fe.pt)