As duas testemunhas de Apocalipse 11:3 e mais erros de interpretação futurista

Captura de Tela 2020-06-23 às 12.47.49Os assuntos proféticos relacionados ao livro de Apocalipse têm provocado alguma polêmica nos últimos tempos. Recentemente, foi publicado um novo vídeo apresentando uma interpretação sobre as “duas testemunhas” mencionadas em Apocalipse 11:3. Nessa interpretação, foi sugerido um segundo ou duplo cumprimento profético, para além daquele entendimento que tem sido, ao longo do tempo, divulgado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Vamos agora comentar algumas das declarações produzidas no vídeo sobre essas duas testemunhas e o contexto em que aparecem. Não temos interesse algum em falar de pessoas específicas, mas, sim, do tema, do assunto em questão.

  1. Em primeiro lugar, é feita a declaração de que a “cidade santa” pisada por 42 meses mencionada em Apocalipse 11:2 é Jerusalém (a cidade literal, em Israel).

“42 meses”, “1260 dias” ou “tempo, tempos e metade de um tempo” são o mesmo período profético mencionado em Daniel 7:25; 12:7 e Apocalipse 11:2; 11:3; 12:6; 12:14; 13:5, que sempre se aplica simbolicamente ao período de domínio papal entre 538 e 1798 (1260 anos literais).

Durante esse período literal de 1260 anos, qual foi a relevância profética da cidade literal de Jerusalém? Rigorosamente nenhuma. Portanto, essa “cidade santa” que é pisada (Apocalipse 11:2) tem de referir-se a algo que não a cidade literal de Jerusalém, em Israel.

Vamos perceber isso nos outros textos onde temos referências proféticas ao período de 1260 anos literais além de Apocalipse 11.

Daniel 12:7

“E ouvi o homem vestido de linho, que estava sobre as águas do rio, o qual levantou ao céu a sua mão direita e a sua mão esquerda, e jurou por aquele que vive eternamente que isso seria para um tempo, tempos e metade do tempo. E quando tiverem acabado de espalhar o poder do povo santo, todas estas coisas serão cumpridas.”

Daniel 7:25

“E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo.

Apocalipse 12:6

“E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.”

Apocalipse 12:14

“E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente.”

Apocalipse 13:5-7

“E foi-lhe dada uma boca, para proferir grandes coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para agir por quarenta e dois meses. E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu. E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação.”

Comentando o texto de Apocalipse 11:2-11, Ellen White diz o seguinte sobre os 42 meses mencionados no versículo 2 e os 1260 dias mencionados no versículo 3: “Os quarenta e dois meses e os mil duzentos e sessenta dias são o mesmo período, o tempo em que a igreja de Cristo deveria sofrer opressão de Roma” (O Grande Conflito, p. 119).

Fica, portanto, evidente que em todos os casos em que esse período de tempo profético é mencionado, os santos de Deus, a igreja de Cristo é que são perseguidos, não a cidade literal de Jerusalém. Contudo, o apresentador do referido vídeo declara: “Aqui está dizendo que Jerusalém será novamente pisada. Jerusalém se tornará posse, se tornará jurisdição papal.”

Ora, conforme vimos anteriormente, toda a revelação no contexto dos 42 meses aponta para o período entre 538 e 1798, e nunca para o futuro. Não conhecemos nenhuma evidência clara e definida que aponte algum segundo ou duplo cumprimento nesse caso; mas mesmo que encontrássemos, isso seria sempre algo relacionado ao povo de Deus, à Sua igreja, como já vimos, e não à cidade literal de Jerusalém.

Mais ainda: o apresentador do vídeo alega que Daniel 11:45 profetiza que o papado romano (“rei do norte” no fim e Daniel 11) dominará sobre a cidade de Jerusalém (descrita no fim de Daniel 11 como “entre o mar grande e o monte santo e glorioso”). Fazer uma leitura da “cidade santa” de Apocalipse 11:2 ou de “entre o mar grande e o monte santo e glorioso” de Daniel 11:45 como sendo Jerusalém literal, em Israel, é incorrer no erro dispensacionalista das interpretações proféticas da maioria dos evangélicos norte-americanos.

Profeticamente, escatologicamente, Israel e Jerusalém devem ser entendidos de forma simbólica e não literal. Permita-me apresentar uma evidência:

Romanos 9:27: “Também Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo.”

Isaías 10:22: “Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá.”

Se, escatologicamente, ou seja, referente ao fim dos tempos, “Israel”, “Jerusalém”, “cidade santa” e “entre o mar grande e o monte santo e glorioso” forem entendidos literalmente, então apenas israelitas, judeus é que serão salvos. Essa ideia contraria frontalmente este ensinamento das Escrituras: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Romanos 2:28, 29).

Portanto, judeu, israelita, Jerusalém devem ser lidos e entendidos espiritualmente, não literalmente.

  1. No vídeo, o apresentador sugere que quando a ferida mortal que o papado romano sofreu (Apocalipse 13:3) for totalmente curada – o que, corretamente, é ligado à promulgação de um decreto dominical –, começam os 42 meses ou três anos e meio literais da última supremacia papal, tempo esse mencionado em Apocalipse 13:5.

Atente para este gráfico que descreve de forma resumida os últimos eventos antes da segunda vinda de Cristo:

grafico

Todos percebemos facilmente que o decreto dominical será assinado antes do fim do tempo da graça, antes de Cristo terminar Seu ministério do lugar Santíssimo do santuário celestial. Isso quer dizer que, caso no momento do decreto dominical se comece a contar um periodo profético de 42 meses (que o apresentador alega serem literais, mas nem importa para o caso se são literais ou simbólicos) de Apocalipse 13:5, então temos tempo profético definido antes do fim do tempo da graça! Isso estaria em contradição com as seguintes afirmações de Ellen White:

“O povo não terá outra mensagem com tempo definido. Após o fim desse período de tempo, que vai de 1842 a 1844, não pode haver um traçado definido de tempo profético. O mais longo cômputo chega ao outono de 1844” (Cristo Triunfante, p. 380).

“O tempo não tem sido um teste desde 1844, e nunca mais o será” (Primeiros Escritos, p. 74).

Ora, se colocarmos os 42 meses de Apocalipse 13:5 começando no momento do decreto dominical, nesse caso teremos um “teste de tempo”; teremos um “traçado definido” antes do fim do tempo de graça. Isso é simplesmente inadmissível!

Em confirmação, veja atentamente o comentário de Ellen White aos 42 meses mencionados em Apocalipse 13:5:

“No Capítulo 13:1-10, descreve-se a besta ‘semelhante ao leopardo’, à qual o dragão deu ‘o seu poder, o seu trono, e grande poderio’. Esse símbolo, como a maioria dos protestantes tem crido, representa o papado, que se sucedeu no poder, trono e poderio uma vez mantidos pelo antigo Império Romano. Declara-se quanto à besta semelhante ao leopardo: ‘Foi-lhe dada uma boca para proferir grandes coisas e blasfêmias. […] E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do Seu nome, e do Seu tabernáculo, e dos que habitam no Céu. E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação.’ Esta profecia, que é quase idêntica à descrição da ponta pequena de Daniel 7, refere-se inquestionavelmente ao papado. ‘Deu-se-lhe poder para continuar por quarenta e dois meses.’ E, diz o profeta, ‘vi uma de suas cabeças como ferida de morte’. E, mais, ‘se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá; se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto’. Os quarenta e dois meses são o mesmo que ‘tempo, tempos, e metade de um tempo’, três anos e meio, ou 1.260 dias, de Daniel 7, tempo durante o qual o poder papal deveria oprimir o povo de Deus. Este período, conforme se declara nos capítulos precedentes, começou com a supremacia do papado, no ano 538 de nossa era, e terminou em 1798” (O Grande Conflito, p. 439).

Novamente, não conhecemos nenhuma evidência clara e definida que aponte algum segundo ou duplo cumprimento neste caso. Pelo contrário, temos novamente vários problemas com essa interpretação.

  1. O apresentador do vídeo comete um grave lapso que, espantosamente, denuncia seu raciocínio errado. Em determinado momento, ele diz: “No passado, o povo de Deus foi pisado, pisoteado, perseguido por 42 meses proféticos, 1260 anos. A História se repete.”

Qual o problema aqui? É que o apresentador sugere que a perseguição que haverá nesses 42 meses que coloca ainda no futuro será sobre a cidade literal de Jerusalém, em Israel. Contudo, a perseguição no passado, que também menciona, os 42 meses proféticos, ou 1260 anos literais entre 538 e 1798, não foi sobre Jerusalém literal, mas, sim, sobre Jerusalém simbólica, o “povo de Deus” que o apresentador corretamente mencionada.

Portanto, na leitura que é sugerida, temos: quem foi perseguido pelo papado de 538 até 1798 foi o povo de Deus, o Israel ou Jerusalém simbólico; mas, no futuro, após o decreto dominical, quem será perseguido pelo papado será Jerusalém literal. A isso o apresentador chama de repetição da História; creio que fica bem claro que isso é repetição de incoerência e inconsistência.

  1. No vídeo, é feita a sugestão de que os três anos e meio (ou 42 meses) literais, que começam no decreto dominical, terminarão quando acontecer o que está previsto em Apocalipse 17:16, momento em que a prostituta (papado romano) será colocada “desolada e nua”, “comerão a sua carne” e a “queimarão no fogo”. Em seguida, o apresentador propõe que essa queda final e definitiva do papado (a besta que sobe do mar de Apocalipse 13, a prostituta de Apocalipse 17) marca o momento em que Satanás personificará a Cristo e promoverá o decreto de morte.

Veja o que Ellen White comenta acerca do momento em que Satanás imitará a segunda vinda de Jesus: “Como ato culminante no grande drama do engano, o próprio Satanás personificará Cristo. A igreja tem há muito tempo professado considerar o advento do Salvador como a realização de suas esperanças. Assim, o grande enganador fará parecer que Cristo veio. Em várias partes da Terra, Satanás se manifestará entre os homens como um ser majestoso, com brilho deslumbrante, assemelhando-se à descrição do Filho de Deus dada por João no Apocalipse (cap. 1:13-15). A glória que o cerca não é excedida por coisa alguma que os olhos mortais já tenham contemplado. Ressoa nos ares a aclamação de triunfo: ‘Cristo veio! Cristo veio!’ O povo se prostra em adoração diante dele, enquanto este ergue as mãos e sobre eles pronuncia uma bênção, assim como Cristo abençoava Seus discípulos quando aqui na Terra esteve. Sua voz é meiga e branda, cheia de melodia. Em tom manso e compassivo apresenta algumas das mesmas verdades celestiais e cheias de graça que o Salvador proferia; cura as moléstias do povo, e então, em seu pretenso caráter de Cristo, alega ter mudado o sábado para o domingo, ordenando a todos que santifiquem o dia que ele abençoou. Declara que aqueles que persistem em santificar o sétimo dia estão blasfemando de Seu nome, pela recusa de ouvirem Seus anjos a eles enviados com a luz e a verdade. É este o poderoso engano, quase invencível” (O Grande Conflito, p. 624).

A pergunta que se impõe é: Se, como Ellen White refere, nessa contrafação da segunda vinda de Cristo, Satanás irá alegar “ter mudado o sábado para o domingo, ordenando a todos que santifiquem o dia que ele abençoou”, como é que, conforme o apresentador do vídeo sugere, o papado já caiu, já foi desolado? Sendo que a santificação do domingo é a marca da supremacia e autoridade de Roma, como é que Satanás só usaria esse expediente após a queda final do papado romano?

Penso que esse raciocínio não tem o mínimo fundamento lógico.

  1. O apresentador diz que a besta que sobe do abismo representa também o dragão, o próprio Satanás. Alega ainda que “a Bíblia diz que Satanás foi lançado para o abismo, quando ele foi expulso do céu”.

Existem vários textos da Bíblia que abordam a expulsão de Satanás:

“Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações!” (Isaías 14:12 NVI).

“Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra” (Ezequiel 28:17).

“A soberba do teu coração te enganou, como o que habita nas fendas das rochas, na sua alta morada, que diz no seu coração: Quem me derrubará em terra? Se te elevares como águia, e puseres o teu ninho entre as estrelas, dali te derrubarei, diz o Senhor” (Obadias 1:3, 4).

“E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a Terra, e, com ele, os seus anjos” (Apocalipse 12:9).

Aliás, é o próprio Satanás que acaba por confirmar sua expulsão para a terra: “Então o Senhor disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e passear por ela” (Jó 1:7).

Portanto, todos esses textos sucessivos apontam Satanás sendo expulso para a terra e não para algum abismo.

Existem 53 referências a abismo em toda a Escritura. Com relação nítida a Satanás, temos Apocalipse 20:1-3: “E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos. E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo.”

Ora, a concretização dessa descrição profética está no futuro, e por isso não tem ligação com as “duas testemunhas” ou com a “besta do abismo” de Apocalipse 11.

Identificando essa besta que sobe do abismo, Ellen White escreveu: “Fora a política de Roma, sob profissão de reverência para com a Bíblia, conservá-la encerrada numa língua desconhecida, ocultando-a do povo. Sob seu domínio as testemunhas profetizaram ‘vestidas de saco’. Mas um outro poder – a besta do abismo – deveria surgir para fazer guerra aberta e declarada contra a Palavra de Deus. […] Segundo as palavras do profeta, pois, um pouco antes do ano 1798, algum poder de origem e caráter satânico se levantaria para fazer guerra à Escritura Sagrada. E na terra em que o testemunho das duas testemunhas de Deus deveria assim ser silenciado, manifestar-se-ia o ateísmo de Faraó e a licenciosidade de Sodoma. Esta profecia teve exatíssimo e preciso cumprimento na história da França” (O Grande Conflito, p. 269).

Portanto, se esse poder da “besta que sobe do abismo” deveria surgir após os 1260 anos, ou seja, não estava lá antes, obviamente não deve nem pode ser identificado como Satanás. É, sim, um poder de origem, caráter, inspiração satânicas; mas assim também é a “besta que sobe do mar” (Apocalipse 13:1) ou a “besta que sobe da terra” e “fala como dragão” (Apocalipse 13:11), nem por isso alegamos que elas também representam Satanás.

  1. Vamos, então, perceber quem são essas “duas testemunhas”, revendo alguns dos pontos anteriormente mencionados.

“E darei poder às Minhas duas testemunhas, e profetizarão por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de saco. Estas são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Deus da terra” (Apocalipse 11:3, 4).

Esclarecendo o significado desses versículos: “Tua Palavra é lâmpada para meus pés, e luz para o meu caminho” (Salmo 119:105). [Os castiçais fornecem luz; as oliveiras alimentam os castiçais com azeite.]

“E o anjo que falava comigo voltou, e despertou-me, como a um homem que é despertado do seu sono, e disse-me: Que vês? E eu disse: Olho, e eis que vejo um castiçal todo de ouro, e um vaso de azeite no seu topo, com as suas sete lâmpadas; e sete canudos, um para cada uma das lâmpadas que estão no seu topo. E, por cima dele, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda. E respondi, dizendo ao anjo que falava comigo: Senhor meu, que é isto? Então respondeu o anjo que falava comigo, dizendo-me: Não sabes tu o que é isto? E eu disse: Não, senhor meu. E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel…” (Zacarias 4:1-6).

As duas testemunhas representam a Palavra de Deus, as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos. Fica evidente que estamos falando da própria Bíblia. Ellen White confirma essa ideia, como percebemos nos seguintes textos.

“Relativamente às duas testemunhas, declara mais o profeta: ‘Estas são as duas oliveiras, e os dois castiçais que estão diante do Deus de toda a Terra.’ ‘Tua Palavra’, diz o salmista, ‘é lâmpada para meus pés, e luz para o meu caminho’ (Apocalipse 11:4; Salmo 119:105). As duas testemunhas representam as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos. Ambos são importantes testemunhas quanto à origem e perpetuidade da lei de Deus. Ambos são também testemunhas do plano da salvação. Os tipos, sacrifícios e profecias do Antigo Testamento apontam para um Salvador por vir. Os evangelhos e as epístolas do Novo Testamento falam acerca de um Salvador que veio exatamente da maneira predita pelos tipos e profecias” (O Grande Conflito, p. 268).

“O período em que as duas testemunhas deveriam profetizar vestidas de saco finalizou-se em 1798” (O Grande Conflito, p. 268).

É isso que podemos apender da Bíblia e restante revelação profética sobre as “duas testemunhas” de Apocalipse 11:3. Mais do que isso será pura especulação sem fundamento algum.

(Filipe Reis é ancião na Igreja Adventista de Avintes, em Portugal, e diretor do projeto O Tempo Final)

42 meses são 3,5 anos literais? Análise respeitosa do vídeo do Pr. Samuel Ramos

Metá tauta e a impossibilidade futurista

johnEstudar o livro do Apocalipse é sempre uma tarefa desafiadora e, ao mesmo tempo, gratificante. Sua estrutura literária profético-simbólica estabelece critérios hermenêuticos que, se não forem devidamente aplicados, podem resultar numa interpretação equivocada. O contrário, entretanto, é verdadeiro, isto é, quando as regras hermenêuticas são utilizadas corretamente, quando o texto é analisado dentro de sua estrutura literária e os parâmetros historicistas são devidamente aplicados, o resultado é hermeneuticamente mais confiável.

Recentemente, algumas teorias, que vão numa linha diferente da ortodoxia há tanto defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, têm se levantado e causado certa confusão entre os irmãos. Dentre elas, há uma afirmando que a leitura do Apocalipse deve ser feita de forma sequencial e linear, baseando-se na utilização da expressão metá tauta (“depois destas coisas”, ou “depois disto”). Este artigo pretende analisar a fragilidade do uso dessa expressão grega (metá tauta) como marcador de tempo da sequência cronológica dos acontecimentos descritos a partir do capítulo 4. [No fim deste artigo você encontrará uma tabela explicando sucintamente as nove ocorrências dessa expressão em Apocalipse.]

Como sugere essa teoria, Apocalipse capítulos 1 a 3, que trazem uma introdução geral ao livro, bem como seu objetivo e destinatário, devem ser compreendidos dentro de uma visão historicista, na qual o cumprimento profético das igrejas ocorre ao longo da história, e o tempo presente está enquadrado no período de Laodiceia. Nesse sentido, não há discordância entre o pensamento histórico adventista e o que sugere essa teoria. O que se segue, entretanto, sai completamente do escopo historicista, alinhando-se a uma perspectiva futurista de interpretação. Para os proponentes dessa visão, o início do capítulo 4 sugere uma progressão linear dos eventos descritos com a introdução do que eles entendem ser uma cena de juízo, ou seja, o que ocorre nos capítulos 4 e 5 necessariamente acontece depois do período das sete igrejas:

Depois destas coisas (metá tauta), olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz que, como de trombeta, ouvira falar comigo, disse: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas (metá tauta)” (Ap 4:1).

A pergunta que se faz é: A expressão “depois destas coisas” (metá tauta) está funcionando como um marcador de tempo estabelecendo uma ordem cronológica dos acontecimentos ou apenas a cronologia das visões? Para responder a essa pergunta de maneira satisfatória, é necessário observar as demais aparições dela no livro de Apocalipse.

A expressão em estudo ocorre cerca de nove vezes no livro do Apocalipse. Em pelo menos duas delas, nota-se claramente que serve como marcador de eventos sequenciais, ou seja, indica que os acontecimentos são cronologicamente posteriores aos que foram citados:

  1. “Passou o primeiro ai; eis que depois destas coisas (metá tauta) vêm ainda dois ais” (Ap 9:12).
  2. “E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois disso (metá tauta) importa que seja solto por um pouco de tempo” (Ap 20:3).

Como se pode observar, a expressão “depois disto” ou “depois destas coisas”, nos versos acima, indica eventos que aconteceriam depois dos mencionados: os dois “ais” ocorreriam cronologicamente após o primeiro “ai”, isto é, “depois destas coisas”. Da mesma forma, a expressão “depois destas coisas” em Apocalipse 20:3 indica que Satanás deverá ser solto cronologicamente após o evento do milênio.

As demais aparições de metá tauta no Apocalipse sempre estarão acompanhadas do verbo “ver”, com exceção de Apocalipse 19:1, verso em que a expressão está acompanhada do verbo “ouvir”. Note este padrão muitíssimo interessante que acontece nas demais ocorrências: “depois destas coisas, vi” (μετὰ ταῦτα εἶδον – metá tauta éidon). Esse padrão chama a atenção, pois o verbo “ver” associado à expressão “depois destas coisas” sempre indica o início de uma nova visão. É como se o texto estivesse informando: “depois destas coisas”, ou seja, depois das coisas apresentadas nesta visão que acabou de ser mencionada, “vi”, isto é, João passa a ter outra visão. Sendo assim, a expressão “depois destas coisas” não estaria enfatizando que os eventos a serem descritos a partir dessa sentença são cronologicamente posteriores aos eventos da visão anterior, mas que João entra numa nova visão depois das coisas que viu na visão anterior.

A teoria que propõe o uso da expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) como indicativo de que os eventos descritos a partir do capítulo 4 são cronologicamente posteriores aos eventos descritos nos capítulos 1-3, isto é, devem ser interpretados como eventos a ocorrerem após o período das sete igrejas, torna-se extremamente frágil e perigosa. Veja, por exemplo, Apocalipse 15:1-6:

“E vi outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus [visão dos sete anjos com as taças]. E vi um como mar de vidro misturado com fogo; e também os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número do seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos” [visão dos salvos diante do mar de vidro]. E depois disto olhei (metá tauta éidon), e eis que o templo do tabernáculo do testemunho se abriu no céu. E os sete anjos que tinham as sete pragas saíram do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro pelos peitos” [retorno à visão do v. 1].

 Seguindo a linha de interpretação em que a expressão “depois destas coisas” significaria que os eventos que seguem são cronologicamente posteriores aos descritos na visão anterior, chega-se à conclusão equivocada de que as pragas são derramadas após os salvos estarem no Céu. Note que dos versos 2 ao 4 são apresentados os salvos diante do mar de vidro e, “depois destas coisas”, João vê os sete anjos com as taças da ira de Deus para serem derramadas sobre o mundo, como, de fato, ocorre a partir do início do capítulo 16. Será esse o entendimento correto para tais eventos? Seriam as pragas derramadas após os salvos estarem no Céu diante do mar de vidro e do trono de Deus? Claro que não! Como entender a passagem de Apocalipse 15? Veja abaixo:

  1. O verso 1 inicia a visão dos anjos com as sete taças da ira de Deus que seriam derramadas sobre a Terra: “E vi outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus” [visão dos sete anjos com as taças].
  2. O verso 2 inicia outra visão que se estende até o verso 4. Na realidade, essa visão é um complemento daquilo que estava sendo apresentado no capítulo 14, a partir do verso 14, onde João vê a cena da seara e da colheita, bem como a colheita das uvas para preparar o vinho que seria derramado sobre a Terra, isto é, as pragas. O capítulo 14:14-20 é um preâmbulo para o que ocorre no capítulo 15. Há duas cenas no capítulo 14 que são retomadas no capítulo 15: a primeira é da seara dos justos (v. 14 a 16) e a segunda, o preparo do vinho que seria derramado sobre a Terra como pragas de Deus sobre os ímpios (v. 17-20). Lembre-se de que, originalmente, o Apocalipse não foi escrito com divisões de capítulos e versículos. Era um texto único. Portanto, a visão iniciada no capítulo 14:14 é retomada nos versos 2 a 4 do capítulo 15. Observe:

“E vi um como mar de vidro misturado com fogo; e também os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número do seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as Tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem Te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o Teu nome? Porque só Tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os Teus juízos são manifestos” [visão dos salvos diante do mar de vidro].

Esses versos fazem referência aos versos 14 a 16 do capítulo 14; são uma continuidade. A visão demonstra o resultado da ceifa dos justos feita por Jesus no capítulo 14.

  1. O verso 5 do capítulo 15 retoma a visão do verso 1, que, conforme foi demonstrado, é na verdade a continuação daquilo que se apresentou inicialmente na segunda parte da visão do capítulo 14, mais especificamente dos versos 17 a 20: “E depois disto olhei (metá tauta éidon), e eis que o templo do tabernáculo do testemunho se abriu no Céu. E os sete anjos que tinham as sete pragas saíram do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro pelos peitos” [retorno à visão do v. 1 do capítulo 15, iniciada no capítulo 14].

 Se for aceito o entendimento de que a expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) se refere a eventos que ocorrem cronologicamente posteriores à visão precedente numa sequência linear de acontecimentos, comete-se o erro de colocar os salvos no Céu antes de as pragas caírem sobre a terra. O mesmo pode ser dito do início do capítulo 4 quanto à expressão em questão: caso metá tauta éidon se refira a eventos que ocorrem cronologicamente posteriores às sete igrejas, a compreensão será futurista e com sérias implicações hermenêuticas.

Como apresentado na parte inicial deste artigo, a abertura do capítulo 4 de Apocalipse apresenta a sentença metá tauta éidon (depois destas coisas, vi). O que vinha sendo apresentado nos capítulos anteriores, 2 e 3, era a visão das sete igrejas. Logo, alguns sugerem que os eventos da visão do capítulo 4 e dos capítulos posteriores incluindo os sete selos e as sete trombetas seriam eventos que se dariam após o período das sete igrejas. Para tanto, propõe-se que os capítulos 4 e 5 estariam retratando uma cena de juízo, a saber, o juízo investigativo que ocorre a partir de 1844. A visão do capítulo 4 de Apocalipse seria, portanto, similar à visão dada a Daniel no capítulo 7. Não obstante, apesar de existirem elementos de similaridade nessas visões, as diferenças são gritantes e maiores que as semelhanças, a ponto de ser completamente imprudente a associação entre elas. Falando acerca desse ponto, o Dr. Jon Paulien diz:

“Especialmente impressionantes são as acentuadas diferenças entre Apocalipse 4–5 e Daniel 7. Em Daniel são postos uns tronos (7:9); em Apocalipse os tronos já estão lá (4:2-4). Em Daniel muitos livros são abertos (7:10); em Apocalipse um livro está selado (Ap 5:1). Em Daniel a figura central é “o filho do homem” (7:13; expressão com a qual o Apocalipse certamente está familiarizado – 1:13); em Apocalipse ele é o Cordeiro (Ap 5:6; um termo mais apropriado para o serviço diário do que para o Dia da Expiação em qualquer caso).”

Para o Dr. Paulien, uma linguagem de juízo não é encontrada nos capítulos 4 e 5. Uma expressão que denote juízo vai ocorrer apenas em Apocalipse 6:10, o que deixa claro não haver ainda começado o juízo como pretende a teoria futurista. Dr. Paulien ainda argumenta que mesmo havendo algumas alusões ao santuário nos capítulos 4 e 5 que poderiam ser entendidas como sendo referência ao Yom Kippur (dia da expiação), “a impressão geral dada por essa passagem não pertence a qualquer compartimento ou serviço, mas sugere uma lista abrangente de quase todos os aspectos do antigo ministério.”[1] Para ele, as cenas observadas nos capítulos 4 e 5 de Apocalipse mais se aproximam de “uma descrição simbólica do serviço de inauguração no santuário celestial que ocorreu em 31 d.C. O que segue à cena de inauguração tem que ver com toda a Era Cristã, não apenas com o seu fim.”[2]

Segundo a ideia futurista, as cenas do capítulo 4 se dão no primeiro compartimento do santuário celestial, e as cenas do capítulo 5 no segundo compartimento. Entretanto, tais inferências são “refutadas com base na absoluta falta de evidência no texto para qualquer movimento do trono entre os dois capítulos. Os dois capítulos retratam uma simples localização visionária.”[3]

Como se pode observar, não há como traçar um paralelismo entre as visões de Apocalipse 4 e 5 com a visão de Daniel 7. Segundo o Dr. Paulien, os capítulos 4 e 5 estariam falando da entronização de Cristo por ocasião de seu retorno ao Céu. Mas, para que não fique “na palavra apenas de homens” (mesmo sendo de pessoas com autoridade para fazê-lo), note como Ellen White identificou as visões de Apocalipse 4 e 5 (para responder àqueles que sempre dizem: “ele é doutor, mas não é inspirado”):

“Ali está o trono, e ao seu redor, o arco-íris da promessa. Ali estão querubins e serafins. Os comandantes das hostes celestiais, os filhos de Deus, os representantes dos mundos não caídos, acham-se congregados. O conselho celestial, perante o qual Lúcifer acusara a Deus e a Seu Filho, os representantes daqueles reinos imaculados sobre os quais Satanás pensara estabelecer seu domínio – todos ali estão para dar as boas-vindas ao Redentor. Estão ansiosos por celebrar-Lhe o triunfo e glorificar seu Rei.

“Mas Ele os detém com um gesto. Ainda não. Não pode receber a coroa de glória e as vestes reais. Entra à presença do Pai. Mostra a fronte ferida, o atingido flanco, os dilacerados pés; ergue as mãos que apresentam os vestígios dos cravos. Aponta para os sinais de Seu triunfo; apresenta a Deus o molho movido, aqueles ressuscitados com Ele como representantes da grande multidão que há de sair do sepulcro por ocasião de Sua segunda vinda. […]

“Ouve-se a voz de Deus proclamando que a justiça está satisfeita. Está vencido Satanás. Os filhos de Cristo, que lutam e se afadigam na Terra, são ‘agradáveis… no Amado’ (Ef 1:6). Perante os anjos celestiais e os representantes dos mundos não caídos, são declarados justificados. Onde Ele está, ali estará a Sua igreja. ‘A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram’ (Sl 85:10). Os braços do Pai circundam o Filho, e é dada a ordem: ‘E todos os anjos de Deus O adorem’ (Hb 1:6).

“Com inexprimível alegria, governadores, principados e potestades reconhecem a supremacia do Príncipe da Vida. A hoste dos anjos prostra-se perante Ele, ao passo que enche todas as cortes celestiais a alegre aclamação: ‘Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças’! (Ap 5:12).

 “Hinos de triunfo misturam-se com a música das harpas angélicas, de maneira que o Céu parece transbordar de júbilo e louvor. O amor venceu. Achou-se a perdida. O Céu ressoa com altissonantes vozes que proclamam: ‘Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre’ (Ap 5:13).”[4]

 Note que Ellen White claramente faz inteira associação entre a entronização de Cristo por ocasião de Sua ascensão após a ressurreição e o capítulo 5 de Apocalipse. Os detalhes expressos nesse texto são claros o suficiente para descartar qualquer visão futurista que projete os capítulos 4 e 5 para o ano 1844, como se estivessem fazendo menção do juízo investigativo descrito no capítulo 7 de Daniel. Ademais, a expressão metá tauta, quando associada ao verbo “ver” (éidon), indica o início de uma nova série de cenas apresentadas em uma nova visão e não uma série de eventos cronologicamente posteriores às cenas anteriormente apresentadas. Sendo assim, as cenas descritas em Apocalipse 4 e 5, por se tratarem da entronização de Cristo, estão mais bem situadas, cronologicamente falando, com as cenas do capítulo 1 ou antes delas, e não após os períodos das sete igrejas.

Conclusão

 Podemos concluir que as tentativas de se fazer uma interpretação cronologicamente linear dos eventos descritos nos capítulos 1 a 3 com o capítulo 4 são completamente equivocadas, futuristas, tendenciosas e carecem de uma melhor avaliação da estrutura do texto. A expressão μετὰ ταῦτα (“depois destas coisas” ou “depois disto”), quando associada ao verbo “ver” (éidon), indica o início de uma nova série de cenas apresentadas em uma nova visão e não uma série de eventos cronologicamente posteriores às cenas anteriormente apresentadas na visão precedente. Tal evidência pode ser confirmada na leitura de Apocalipse 15:5, onde, se feita a leitura da expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) como sendo uma sequência cronológica de eventos, cai-se no equívoco de afirmar que os salvos estariam no Céu diante do trono de Deus por ocasião do derramamento das pragas no mundo, o que é inadmissível. A leitura correta do texto, portanto, é feita quando se aceita que a expressão metá tauta éidon indica o início de uma nova visão e não uma sequência dos eventos da visão anterior.

Concluiu-se, também, com base na literatura acadêmica, por meio do estudo do Dr. Jon Paulien, que a tentativa de associação dos capítulos 4 e 5 com o juízo investigativo descrito em Daniel 7 é completamente equivocada, dada a quantidade de dessemelhanças entre as visões. As cenas apresentadas nos capítulos 4 e 5 têm que ver, portanto, com a entronização de Cristo, segundo ele. Tal abordagem recebe apoio da palavra profética dada a Ellen White, confirmando, por meio de citações diretas, que as cenas dos capítulos 4 e 5 não podem ser outra coisa senão a entronização de Cristo por ocasião de Sua ascensão após a ressurreição.

(Eleazar Domini é formado em Teologia e mestre em Teologia e Ensino da Bíblia)

“META TAUTA” EM APOCALIPSE*
Passagem bíblica Texto bíblico Interpretação bíblica
1:19 “Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto as presentes como as que estão por vir.” Neste verso, a expressão meta tauta se refere ao conteúdo da visão que João está descrevendo. Aliás, no texto, essa expressão sai da boca do ser com quem João interage dentro da visão. Assim, meta tauta aponta para uma sucessão de atos que ocorrem dentro da visão e não uma sucessão de eventos que ocorrem na história.
4:1 (2x) Depois dessas coisas olhei, e diante de mim estava uma porta aberta no Céu. A voz que eu tinha ouvido no princípio, falando comigo como trombeta, disse: ‘Suba para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas.'” Aqui, a primeira ocorrência de meta tauta sendo dita pelo próprio João aponta para o conteúdo daquilo que ele viu e ouviu desde 1:11 até 3:22. Cada uma das sete cartas para as sete igrejas começa com a fórmula introdutória – “ao anjo da igreja em […] escreve” – mostrando que o conteúdo das cartas fazia parte do discurso daquele com quem João dialogava em visão. Logo, essa primeira ocorrência de meta tauta tem relação com o conteúdo da visão e não com eventos históricos a acontecer no futuro. A segunda ocorrência, agora dita pelo mesmo ente celestial que fora visto no começo, repete as palavras do apóstolo. Ou seja, ela também indica o conteúdo da visão.
7:9 Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas.” Todo o capítulo 6 de Apocalipse fala da abertura de seis dos sete selos. O capítulo 7 começa com a expressão meta tauta. Assim, ela não se refere a eventos que acontecerão depois dos seis selos abertos, mas às coisas que João contemplou no capítulo 6, a abertura dos seis selos.
9:12 “O primeiro ai passou; dois outros ais ainda estão por vir.” Aqui, ao que parece, de fato, meta tauta indica uma sucessão de eventos cronológicos, especificamente a ocorrência dos “ais”. Primeiro um “ai” e, depois disso, outro “ai”.
15:5 Depois disso olhei, e vi que se abriu no Céu o santuário, o tabernáculo da aliança.” Aqui não é possível conceber que meta tauta designe uma sucessão de eventos cronológicos, porque isso implicaria na conclusão de que as pragas que deverão cair sobre a terra (15:5-16:21) só cairão após a ascensão dos salvos para o Céu (15:2-4). Logo, meta tauta só pode designar a sucessão de coisas na visão. Aliás, o verso 5 nada mais é do que uma retomada daquilo que foi dito no verso 1.
18:1 Depois disso vi outro anjo que descia do céu. Tinha grande autoridade, e a terra foi iluminada por seu esplendor.” Neste verso, também não é possível conceber que a expressão meta tauta indique uma sucessão de eventos cronológicos. O capítulo 17 descreve uma “grande meretriz” sentada sobre uma besta escarlata. Esta mulher é chamada de “Babilônia”. O capítulo 18, que fala sobre a queda de Babilônia, é uma explicação de como a mulher do capítulo anterior (Babilônia) será destruída. Assim, meta tauta, ao introduzir o capítulo 18, está introduzindo uma visão que descreve a queda da Babilônia do capítulo 17 e não algo que acontece depois desse capítulo.
19:1 Depois disso ouvi no céu algo semelhante à voz de uma grande multidão, que exclamava: “Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus” O capítulo 19 tem como assunto central o júbilo no Céu por parte daqueles que enfrentaram as crises terrestres finais e a honraria que Cristo recebe por ter vencido a besta e o falso profeta. Todo esse assunto é um desdobramento das coisas relatadas no capítulo anterior. Desse modo, meta tauta, neste caso, descreve tanto uma sequência de coisas dentro da visão quanto eventos que se sucedem na história.
20:3 “…lançou-o no abismo, fechou-o e pôs um selo sobre ele, para assim impedi-lo de enganar as nações até que terminassem os mil anos. Depois disso, é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo.” Aqui o contexto favorece a interpretação que entende meta tauta como tendo sentido histórico (eventos que acontecem na história), antes de sentido literário (coisas que se sucedem na visão descrita pelo texto).

* Todos os textos dessa tabela foram extraídos da Bíblia Nova Versal Internacional (NVI).

Nota: A tabela foi criada por Elton Queiroz. 

  1. PAULIEN, Jon. Selos e trombetas: algumas discussões atuais. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.) Estudos sobre Apocalipse: Temas introdutórios. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2010 (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 6).
  2. Ibid.
  3. PAULIEN, Jon. Selos e trombetas: algumas discussões atuais. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.) Estudos sobre Apocalipse: Temas introdutórios. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2010 (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 6).
  4. WHITE, E. G.O desejado de todas as nações. São Paulo, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2007. 835.

Ele se entregou a Jesus, e o Apocalipse foi a “isca”

Gil_e_VivianSempre tive particular interesse pelo livro do Apocalipse, desde criança, para ser mais exato. Engraçado que naquela época os adultos me diziam: “Menino, pare de ler isso”, mas eu não parava; eu gostava demais disso! Ficava fascinado ao imaginar aquelas cenas. Entendia que algo grandioso estava acontecendo ali. Os anos foram passando, vieram a puberdade, os estudos para entrar na universidade, e aquele velho interesse pelo Apocalipse adormeceu. Mas, como diz uma certa canção: “Quando a gente tenta / De toda maneira / Dele se guardar / Sentimento ilhado / Morto, amordaçado / Volta a incomodar.”

Essa é uma música do cantor Fagner; interessante que o nome dela é “Revelação”. E assim aconteceu; aquele sentimento, aquele desejo de ler o Apocalipse que eu havia deixado ilhado, morto e amordaçado voltou a incomodar. Novamente ressuscitou em mim o interesse por esse livro abençoado.

Nessa nova fase de leitura, eu tinha um entendimento mais amplo, mas isso não me impediu de ser afetado por falsas interpretações. Com sinceridade, eu buscava entender aquilo que não estava claro, e muitas vezes fui iludido por interpretações frágeis (algumas falsas mesmo). A cada descoberta da falsidade de um sistema interpretativo se seguia um período de frustração.

Não lembro exatamente quando tive contato pela primeira vez com o sistema de interpretação adventista; acho que faz uns dez anos, aproximadamente. Naquela época, comecei a me dedicar a entender como os adventistas interpretam a Bíblia. Foi um longo caminho, cheio de contratempos, de desistências, mas o sentimento lá dentro não me deixava quieto; eu tinha sempre que recomeçar.

Quando li O Grande Conflito pela primeira vez fiquei confuso e admirado; pensei: “Então é isso, é assim?” O impacto foi tão forte que tive que abandonar essas coisas por um tempo. E de todos os assuntos, o que mais me causou arrepio foi o sábado. Eu concordava com tudo, menos com o sábado. A revelação é impressionante, mas ela incomoda se for amordaçada; eu não suportava mais isso. Há aproximadamente cinco anos, minha esposa e eu começamos a guardar o sábado por conta própria, e continuamos estudando. Mas nunca vinha aquele desejo de tomar uma decisão de entrar para a igreja, afinal de contas, podemos aprender em casa, lendo e assistindo, assim pensávamos.

Tudo bem, pensei; já guardo o sábado e já entendi os assuntos escatológicos. Mas ainda havia uma coisa estranha nisso tudo: Como seria possível fazer o mundo parar aos domingos? Fiquei com essa dúvida enquanto deixava o tempo passar. Foi então que veio a pandemia. Que impacto! Percebi que desperdicei anos da minha vida longe da igreja, longe do contato com pessoas que têm a mesma fé, que têm a mesma esperança; e agora estamos proibidos de nos reunir. Percebi que, sim, é possível fazer o mundo parar; podemos parar por vários dias, semanas, até meses. Fica claro que será bem aceita a sugestão de parar apenas um dia na semana.

E agora? Quero pertencer à igreja; quero ser batizado; quero tornar pública minha aceitação de Cristo como meu Salvador. Conversei com amigos adventistas da minha cidade, conversei com o pastor local e, obedecendo às regras de distanciamento social e uso máscaras e álcool, em um momento de flexibilização da quarentena na cidade, foi realizado um pequeno culto, com menos de dez pessoas, e então fomos batizados, minha esposa e eu.

Muito obrigado, Michelson! Sua oração foi atendida. Você conseguiu levar mais duas pessoas a Cristo. Foram anos ouvindo e assistindo você, lendo suas matérias. Oro todos os dias por você e por muitos outros servos de Deus que me conduziram a Cristo. Hoje faço a mesma oração que você faz; é infalível! Já fui atendido e estou dando estudos bíblicos. A oração é esta: “Senhor, mostre-me pessoas que precisam conhecer Tua Palavra.”

Louvo a Deus por ter sido tão paciente comigo.

Gildemar C. Saturnino

P.S.: Gosto de desenhar e, aproveitando a oportunidade, envio uma arte que mostra de modo bem rápido e prático o fundamento do sábado em quatro tópicos. Fique à vontade para utilizar essa arte.

Sábado, 4 pontos

Não leia o Apocalipse (de maneira errada)

As sete trombetas e as sete últimas pragas

pragas[Este texto é parte do artigo “As sete últimas pragas”, escrito pelo Dr. José Carlos Ramos e publicado na revista teológica Parousia, do Unasp, campus Engenheiro Coelho, no 2º semestre de 2000.]

Há um perfeito paralelo entre as sete trombetas e as sete pragas. Edwin Thiele estabelece-o da seguinte forma:54

Trombetas Pragas
Sobre a terra – 8:7 Sobre a terra – 16:2
Sobre o mar – 8:8 Sobre o mar – 16:3
Rios e fontes d’água – 8:10 Rios e fontes d’água – 16:4
O sol ferido – 8:12 Sobre o sol – 16:8
Escurecimento do ar – 9:2 Trevas – 16:10
Grande Rio Eufrates – 9:14 Eufrates – 16:12
O mistério de Deus terminado – 11:15 “Está feito” – 16:17
“Relâmpagos, vozes, trovões, terremoto, grande saraiva” – 11:19 “Vozes, trovões, relâmpagos, grande terremoto, grande saraiva” – 16:18, 21

O paralelo é tão impressivo que alguns são tentados a imaginar que os dois grupos de sete preveem os mesmos fatos a se cumprirem na História; em outras palavras, são a mesma profecia sob terminologia e perspectiva diferentes. De fato, 9:20 identifica os eventos das trombetas como pragas ou flagelos, e Ellen G. White parece fazer uma aplicação futura das trombetas, equiparando-as às pragas. Ela diz:

“Solenes eventos diante de nós estão ainda por ocorrer. Trombeta após trombeta deve soar, taça após taça derramada uma após outra sobre os habitantes da terra. Cenas de estupendo interesse estão exatamente sobre nós.”55

Além disso, as trombetas soam após o anjo intercessor atirar à terra o incensário cheio de fogo do altar (8:5), o que parece indicar um cumprimento pós-graça delas. No entanto, a melhor interpretação é aquela que considera os dois materiais proféticos como distintos um do outro, e apontando para uma ordem diferente de eventos, embora iguais em significado. O próprio Thiele afirma:

“A natureza básica tanto das trombetas quanto das pragas deve ser a mesma; ambas são juízo e castigos sobre os ímpios, homens impenitentes; ambas compreendem uma terminação da obra de intercessão de Jesus seguida por um soltar das paixões malignas dos homens ao Satanás obter o controle. Mas, conquanto ambas sejam semelhantes, não são iguais – uma é um tipo da outra. As trombetas estão, em sua maior parte, no passado, enquanto as pragas estão no futuro.”56

Concordamos com esse comentarista na maneira como ele vê o toque das trombetas em consonância com uma interrupção da obra intercessora de Cristo. Claramente ele reporta essa interrupção ao passado, e a contrasta assim com a terminação da obra intercessora no futuro, quando então ocorrerá o derramamento das pragas. Que para determinadas pessoas e em determinado momento e circunstância a obra intercessora de Cristo pode cessar, sem que ocorra o fechamento futuro da porta da graça, é evidente da experiência de Caim, Saul e Judas. De forma mais coletiva, cita-se o que aconteceu com os judeus no contexto da destruição de Jerusalém em 70 d.C. “Por causa de seus pecados, foi anunciada a ira contra Jerusalém”, e tanto resistiram à graça que “sua pertinaz incredulidade selou-lhes a sorte”.57 Esse fato, que bem pode ser o cumprimento da primeira trombeta,58 “tornou-se um exemplo doloroso do que veio a acontecer com outros grupos em cumprimento das trombetas seguintes, e mais particularmente do que ocorrerá com o mundo todo a partir do fechamento da porta da graça”.59

Assim, nem o detalhe do atirar o incensário à terra, nem o que Ellen G. White afirma com respeito a um futuro retoque das trombetas60 indica que elas deveriam ser confundidas com as pragas. Elas são, como diz Thiele, um tipo das pragas, não uma primeira edição delas. Isso também explica o serem consideradas como pragas em 9:20.61

Os seguintes pontos indicam claramente que as trombetas se cumprem no transcurso da era cristã, e não após o fechamento da porta da graça no futuro, como acontece em relação às sete últimas pragas:

  1. O prólogo às sete trombetas (8:2-6), ao contrário de indicar que se cumprem em sua totalidade após o fechamento da porta da graça, aponta para o período entre o primeiro e o segundo adventos como o tempo do seu cumprimento. A sétima se estende para além da dispensação da graça (isto é, para quando a salvação não mais estiver disponível), e alcança sua culminação com a volta de Jesus, extensiva, em seu efeito último, ao fim do milênio. Esse fato é demonstrado no prólogo por duas ações específicas do anjo intercessor: (a) o oferecimento de incenso (o que indica a operação da graça), e (b) o atirar do incensário à terra, o que indica o cessar dessa operação.

Os demais pontos confirmam isso:

  1. Há um interlúdio entre a sexta e a sétima trombetas registrado em 10:1–11:14. Segundo esse interlúdio, a obra da graça está ainda em franca operação, o que se depreende de 10:1, 11:3-6 e 13; em outras palavras, pelo menos até o mesmo tempo da sexta trombeta a porta da graça ainda não terá sido fechada.62
  1. A operação salvífica da graça avança, todavia, até o tempo da sétima trombeta, pois só aí o “mistério de Deus” é cumprido (10:7), isto é, atinge sua plenitude. O mistério de Deus é o Evangelho, e o ser ele cumprido aponta para o momento em que a obra da pregação em todo o mundo é concluída. De fato, a obra da pregação será concluída em todo o mundo sob a pregação da tríplice mensagem angélica de 14:6-12. Ali o “evangelho eterno” atinge “cada nação, e tribo, e língua e povo” (v.6). E sabemos que a pregação da tríplice mensagem angélica se cumpre no tempo da sétima trombeta. Assim, se essa trombeta “está ligada ao fechamento da obra do evangelho […], então as seis trombetas anteriores obrigatoriamente soam durante o tempo da graça”.63
  1. A menção de períodos de tempo profético no material da quinta e da sexta trombetas (9:5, 10, 15) indica que essas trombetas se cumprem antes do tempo do fim, quando, segundo o anjo, “não haveria mais demora” (10:6), isto é, não haverá mais períodos de tempo profético.64 Como Kenneth Strand tem demonstrado, o livro do Apocalipse se desenvolve numa estrutura quiástica com um centro singular (e fundamental para a mensagem do livro) entre dois blocos principais, o primeiro compreendendo os capítulos 1-13, e o segundo os capítulos 16-22. O centro seriam os capítulos 14 e 15. Ele chama o primeiro bloco de série histórica, porque tem que ver com eventos que ocorrem dentro da Era Cristã, enquanto o segundo bloco é denominado série escatológica, pois tem que ver com os eventos finais desta era.65 As sete trombetas são parte da série histórica, e não podem, portanto, ser confundidas com as sete pragas que integram a série escatológica.
  1. É explicitamente declarado que a ira de Deus “chegou”, não na primeira, mas na sétima trombeta (11:18). Em outras palavras, as sete últimas pragas (a ira de Deus, 15:1) são um dos eventos previstos, entre outros, para a última trombeta, e não uma reedição das sete. Logo, as seis primeiras (e parte da sétima) se cumprem antes e não depois do tempo da graça. É simplesmente impossível, à luz desse fato, equiparar trombetas com pragas e vice-versa.
  1. A referência aos que “não têm o selo de Deus sobre as suas frontes” (9:4) como o alvo do juízo da quinta trombeta não significa necessariamente que essa trombeta se cumpre após a conclusão da obra do selamento de Apocalipse 7, isto é, após o fechamento da porta da graça, pois o selo de Deus não é um artigo exclusivo do tempo imediatamente anterior à volta de Jesus. O selamento, como atividade divina, não pode ser circunscrito ao dia final. Em todas as épocas Deus distinguiu, dentre a humanidade, os que eram Seus. A esse respeito Joh Paulien declara:

“Quando referido ao povo de Deus, o sentido predominante de selar é apropriação e aceitação por Deus. ([o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo:] o Senhor conhece os que Lhe pertencem” [2Tm 2:19]). Nesse sentido, ele [o selo de Deus] já era uma realidade no tempo de Abraão (Rm 4:11) […] Assim, não se deveria assumir que o selamento em Apocalipse 7:1-3 é necessariamente idêntico àquele de 9:4. Também não se deve assumir que o selamento de Apocalipse 7:1-3 está limitado ao fim do tempo. […] Ele simplesmente enfoca o significado dessa obra numa situação própria do fim.”66

Referências: 

  1. Edwin R. Thiele, Apocalipse – Esboço de Estudos (São Paulo: Colégio Adventista Brasileiro, 1960), p. 112.
  1. Ellen G. White, Carta 112, 1890.
  1. Thiele, p. 112.
  1. White, O Grande Conflito, p. 23. Ver também as páginas 25, 26, 613, 614.
  1. Ver Thiele, p. 113-115. Essa interpretação é adotada por Jon Paulien em “Allusion, Exegetical Method, and Interpretation of Revelation 8: 7-12” (Tese de PhD, Andrews University, 1987), p. 378-381.
  1. Diz Ellen G. White: “Quando a presença de Deus se retirou, por fim, da nação judaica, sacerdotes e povo não o sabiam. Posto que sob o domínio de Satanás, e governados pelas paixões mais horríveis e perniciosas, consideravam-se ainda como os escolhidos de Deus. Continuou o ministério no templo; ofereciam-se sacrifícios sobre os altares poluídos, e diariamente a benção divina era invocada… Assim, quando a decisão irrevogável do santuário houver sido pronunciada, e para sempre tiver sido fixado o destino do mundo, os habitantes da Terra não o saberão. As formas da religião continuarão a ser mantidas por um povo do qual finalmente o Espírito de Deus Se terá retirado” (O Grande Conflito, p. 613, 614).
  1. Isso não significa que Ellen G. White adotou a ideia de um segundo cumprimento profético das trombetas. Segundo ela, é a história, não a profecia, que deve se repetir. Esse ponto é muito bem discutido e esclarecido por George E. Rice em seu estudo “Ellen G. White’s Use of Daniel and Revelation”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 145-161, principalmente p. 150-154. Ele declara: “Circunstâncias similares àquelas que cumpriram uma profecia no passado podem existir no presente [e acrescentaríamos que podem ocorrer no futuro]. Circunstâncias presentes não são, todavia, um cumprimento da profecia, pois a profecia foi cumprida historicamente pelo montante original de circunstâncias. Mas a geração presente pode ser informada pelo estudo da profecia e pelo relatório histórico dos eventos que a cumpriram, e assim estar preparada para desempenhar um papel inteligente nas circunstâncias similares do presente. Assim é que uma profecia, previamente cumprida pode, nesse sentido, ser ‘aplicada’ à situação presente” (p. 151).
  1. É simplicidade imaginar que toda vez que o Apocalipse emprega o termo “flagelo” faça referência às sete últimas pragas. O termo aparece treze vezes em todo o livro, e em três instâncias (9:18, 9:20 e 11:6) é seguramente duvidoso que se refira exclusivamente àquele evento.
  1. Que o referido interlúdio supre eventos que ocorrerão entre a 6ª e a 7ª trombetas é evidente de 11:14 (o fim do interlúdio) onde é dito que “passou o segundo ai”, isto é, a sexta trombeta, e o “terceiro”, a sétima trombeta, vem em seguida.
  1. “Issues in Revelation: DARCOM Report”, Ministry, janeiro de 1991, p. 9-11.
  1. A palavra grega original vertida para “demora” em 10:6 é chronos, tempo que transcorre, que escoa, e se refere, inclusive à luz do verso 11, a tempos proféticos.
  1. KENETH Strand, Interpreting The Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines with Brief Introduction to Literary Analysis (Ann Arbor, MI: Ann Arbor Publishers, Inc., 1976), p. 43-52. Naturalmente, o centro também é, nesse sentido, escatológico. Ver também “Foundational Principles of Interpretation” e “The Eight Basic Visions”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 3-49, principalmente p. 28-46.
  1. Jon Paulien, “Seals and Trumpets: Some Current Discussions”, em Symposium on Revelation – Book I, Daniel & Revelation Committee Series – v. 6, Frank Holbrook, ed. (Silver Springs: Biblical Research Institute of General Conference of Seventth-day Adventists, 1992), p. 256.

Uma caminhada na ilha de Santa Cruz, Galápagos

Apocalipse: “Faço novas todas as coisas”

nova jerusalemFinalmente, chegamos à conclusão do livro do Apocalipse: a Terra renovada ao seu status original sem a presença do pecado. Jesus é retratado como um grande conquistador, montado em um cavalo branco, assim também como o Seu exército de milhões de anjos que O seguem. O pecado e os pecadores impenitentes finalmente deixarão de existir. A Terra será renovada e será até mesmo melhor que no princípio, pois desta vez o próprio Deus habitará conosco ao transferir o próprio trono para a Terra (21:2, 3; 22:3).

Perguntas para discussão e aplicação

Compare Apocalipse 19:7, 8 com 7:13, 14; Isaías 61:10; 64:6. O que causa essa mudança de “vestes” espirituais ou de caráter? Apesar de não sermos salvos por nossas próprias obras, o que significam as “vestes de justiça” daqueles que serão salvos?

1. Apocalipse 19:11-16 retrata simbolicamente Jesus voltando com Seu exército de anjos, todos montados em “cavalos brancos”. Em sua opinião, qual é o significado dessa ilustração? O que significam os nomes de Jesus nesse texto para essa ocasião? O que significa a “espada” que sai de Sua boca (ver Efésios 6:16)? De acordo com 19:21, de que forma essa “espada” tem o poder de matar os homens?

2. Leia Apocalipse 14:19, 20 e 19:17-21, textos que tratam da ocasião da volta de Jesus. Por que esse evento tão aguardado pelos cristãos é retratado com imagens tão fortes quando se refere aos perdidos? Compare esse pensamento com Provérbios 8:35, 36; Ezequiel 33:11; João 3:16; Romanos 6:23 e responda: Por que o evangelho, ao fim, se resume em vida ou morte?

3. Note o que o texto diz sobre as aves em 19:17, 18, 21. Se essas palavras forem literais, isso significa que os animais continuarão vivos depois que os humanos ímpios morrerem e as aves se banquetearão com os seus cadáveres. Isso era considerado uma grande maldição na Antiguidade. Em sua opinião, por que os animais, diferentemente dos humanos impenitentes, não morrem diante da presença de Deus nessa ocasião?

4. Depois da volta de Jesus os salvos passarão mil anos no Céu com Jesus e com todos os salvos ressuscitados e trasladados de todas as épocas. Leia sobre a situação do planeta Terra nesse período em Apocalipse 20:1-3 e Jeremias 4:23-26. Só depois desses mil anos os ímpios finalmente deixarão de existir. Em que sentido Satanás estará “preso” durante esses mil anos? Por que Deus não o destrói de uma só vez na ocasião de Sua vinda em vez de esperar esse longo período? Leia Mateus 19:28; 1 Coríntios 6:2, 3; Apocalipse 20:4-6 e responda: Qual o propósito dos mil anos antes da eliminação final e total do mal?

5. De acordo com Apocalipse 20:7-9, o que acontecerá após o período do milênio? Por que tem que ser assim? O que isso nos diz sobre a gravidade do pecado? Como seria o Universo se o pecado não fosse jamais erradicado?

6, Compare Isaías 65:17; 66:22; 2 Pedro 3:13 e Apocalipse 21:1. Por que precisamos de um “novo céu” e uma “nova Terra”? De que forma o pecado estragou o nosso céu atmosférico e a Terra? Por que Jesus Se preocupa até com o nosso futuro habitat? E por que Ele mesmo vai morar conosco dessa vez?

7. Leia Apocalipse 21:21-22:5. Imagine a cidade santa inteirinha descendo de algum lugar do vasto espaço sideral, com o trono de Deus no meio dela! Isso significa que essa cidade será a capital do Universo! Significa que Deus morará conosco! Significa que este planetinha, daí em diante, passará a ser o “Céu”, porque o Céu é onde está o trono de Deus! O que isso tudo diz ao seu coração? Como esses fatos maravilhosos o estimulam a ser fiel até o fim?

Este é o fim do nosso estudo sobre o livro do Apocalipse. Mas devemos continuar estudando sempre. Como este estudo impressionou você? O que mais lhe impactou? Quanto você realmente gostaria de passar pelas provas finais e estar entre os salvos? Como esse desejo deve se refletir em sua vida diária?

Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Jardim Iguaçu, Maringá, PR

Materiais de estudo do Apocalipse recomendados pela IASD

esEstudar a palavra de Deus é um privilégio. Hoje em dia temos muitos recursos para estudar a Bíblia de forma sistemática e séria. Lição da Escola Sabatina; Reavivados por sua Palavra; estudos bíblicos, etc. Além disso, na internet você encontra diversos recursos que potencializam o uso dessas ferramentas. Infelizmente, nem tudo que está disponível é recomendado para um estudo sério, cristão e verdadeiramente bíblico. A seguir você encontra uma lista de alguns recursos que são materiais oficiais, sérios e confiáveis. Eles foram produzidos pela Igreja Adventista para auxiliar em seu estudo da Lição da Escola Sabatina (guia de estudos oficial da igreja). Recomenda-se que você faça uso desses materiais conforme sua preferência, mas que evite materiais “semelhantes” e não oficiais, que misturam interpretações pessoais, ideias particulares e muitas vezes doutrinas perigosas. 

Apocalipse: Revelação do Rei

Esse material foi produzido pelo pastor Ranko Stefanovic, autor da Lição da Escola Sabatina deste trimestre e doutor em Teologia. Ele é especialista no livro do Apocalipse e professor de Novo Testamento na Andrews University. Esse material do Dr. Ranko traz uma abordagem séria acerca da interpretação adventista do livro do Apocalipse

Lições da Bíblia (Novo Tempo)

Material produzido pela TV Novo Tempo, com pastores que estão na ativa e compartilham a Lição por meio de um bate-papo, sempre respeitando a proposta original da Lição.

Escola Sabatina Oficial (DSA)

Canal oficial da Divisão Sul-Americana que traz recursos e subsídios para o professor da Escola Sabatina por meio de vídeos semanais. Esse material auxilia os professores com dicas didáticas e um panorama geral da Lição.

Comentários do pastor Natal Gardino

Publicados semanalmente neste blog, com a proposta de oferecer/propor perguntas para promover maior interatividade nas unidades da Escola Sabatina.

Por outro lado, não são recomendados vídeos e publicações daqueles que não seguem o método adventista (herdado da Reforma Protestante) de interpretação da Bíblia (gramático-histórico) e que substituem o método de interpretação profética historicista por abordagens futuristas, o que resulta em uma teologia com conclusões perigosas e cheias de riscos.

O próprio Manual da Igreja adverte que, “embora todos os membros tenham direitos iguais dentro da igreja, nenhum membro, individualmente ou em grupo, deve iniciar um movimento, formar uma organização ou buscar motivar adeptos a fim de alcançar qualquer objetivo, ou para o ensino de qualquer doutrina ou mensagem que não esteja em harmonia com os objetivos e ensinamentos religiosos fundamentais da igreja. Tal curso de coisas resultaria no desenvolvimento de um espírito de divisão, na fragmentação do bom testemunho da igreja, e, portanto, no impedimento do desempenho de suas obrigações para com o Senhor e com o mundo” (p. 61).

Além dos recursos indicados acima, você pode encontrar muita informação boa nos livros e nas publicações sobre o assunto disponibilizados pela editora oficial da IASD no Brasil, a Casa Publicadora Brasileira (CPB), e também nos livros teológicos da Unaspress (editora do Unasp).

A besta que sobe do abismo e a batalha ideológica