Filósofo ateu diz que Lúcifer foi o primeiro empreendedor

karnalO filósofo Leandro Karnal, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem quase um milhão de seguidores e ganhou fama por abordar de forma clara temas complexos da filosofia. Entre seus livros está o Pecar e Perdoar, publicado em 2014 e que acaba de ser relançado, no qual ele propõe uma reflexão sobre o julgamento tendo como fio condutor a Bíblia. Em entrevista ao jornal O Globo, Karnal é provocativo ao analisar o Antigo e o Novo Testamentos, busca associar com nossos dias personagens como Lúcifer, o anjo caído, e toca em outros assuntos. Detalhe: Karnal é ateu declarado e por isso fiquei curioso pelo fato de ele dedicar tanta atenção a um ser que, se Deus não existir, é ele também mitológico. Em nenhum momento o filósofo se refere a Satanás como mito. Pior, menciona a postura do anjo rebelde como digna de elogio. Quero adiantar que respeito Karnal e admiro sua inteligência e capacidade. As críticas que faço aqui são pontuais e não pessoais, evidentemente. Leia a seguir alguns trechos da entrevista, com meus comentários entre colchetes [MB]:

Pecar e Perdoar é um livro sobre julgamento. Julgar é humano? Ou foram as religiões que nos tornaram julgadores?

As religiões, apesar de darem a base moral para os julgamentos, sempre insistem em não julgar os outros. As religiões, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, fornecem a base material para inventar o pecado, mas também recomendam quase universalmente a misericórdia, a compaixão, o perdão, o não julgamento. Faz parte de um jogo complexo. Nós gostamos de julgar. Se fosse apenas por causa da religião, em regimes ateus como a União Soviética ou a China de Mao-Tsé-Tung não teriam ocorrido julgamentos. Então eu diria que, apesar de a religião dar o vocabulário, o julgamento é humano, não é exatamente religioso. […] [Típico discurso ateísta de que pecado é uma invenção humana. Para alguns, o próprio mal é uma invenção. Aí se criam contradições como esta: o mal não existe, mas Deus é mau. Pecado, segundo a Bíblia, é a transgressão da lei de Deus. Por causa de Adão e Eva, herdamos a tendência para pecar, e por isso precisamos da graça habilitadora de Cristo para vencer. Mas, se Adão e Eva não existiram, o pecado realmente não existe. Se não existe pecado, não precisamos de Jesus e a lei de Deus se torna desnecessária. Sem saber, ateus que defendem esse ponto de vista acabam ajudando Satanás em sua luta contra a lei de Deus e em seu esforço para manter os seres humanos no pecado, longe da graça. Se o pecado e o conceito de mal são invenções humanas, quem define o que é mal? A mutável ética humana?]

Por que o erro, o pecado, é tão sedutor?

Nós temos uma sedução profunda pelo mal [sim, porque temos uma natureza caída]. De longe o demônio é o anjo mais interessante. Compare a biografia de Lúcifer com a do arcanjo [sic] Gabriel, que faz o anúncio a Maria [na verdade, Arcanjo só existe um: Miguel = Jesus]. De longe o demônio, o erro e o desvio são muito mais sedutores para nós. Você vai lembrar para sempre de Odete Roitman, ou de Nazaré Tedesco, mas não vai lembrar a personagem boa, pura. Nós gostamos dos rebeldes. Nós gostamos de quem quebra a regra. A liderança numa sala quase sempre está naquele que infringe as regras, e não no nerd. O nerd exerce pouca liderança numa sala. Nós gostamos do pecador. E, aliás, Deus também no cristianismo parece ter uma predileção pelo pecador. [Por que termos essa predileção pelo pecado? Qual a explicação naturalista para isso e qual a vantagem evolutiva dessa propensão para fazer o que é errado? O pecado é uma invenção humana, mas gostamos de pecar. Deus tem “predileção pelo pecador” porque é o pecador quem precisa de ajuda para se levantar. Simples assim. É só ler a parábola do filho pródigo. Faltou Karnal dizer que Deus ama o pecador, mas odeia o pecado. Isso está muito claro na Bíblia.]

No livro, você lança um olhar positivo sobre Lúcifer, o anjo caído. Por que viveríamos “tempos luciferinos”, como você diz?

Essa visão positiva de Lúcifer aparece na literatura quando John Milton, em Paraíso Perdido, põe na boca do demônio a seguinte frase: “É melhor reinar no inferno do que ser escravo no céu.” [Diz isso quem não conhece o reino das trevas de Lúcifer; quem não sabe o que significa a pobreza, a miséria e a morte. Será que Milton manteve essa mesma opinião quando foi confrontado pela dor e pela morte de pessoas queridas? Quem conhece a Deus sabe que ser “escravo” dEle é ser livre. O conceito de reinado de Milton tem que ver com poder e autoridade, por isso ele preferia isso. No reino de Deus, reinar significa servir. Como não querer ser “escravo”, súdito de um Rei que deixou Seu trono para morrer por mim?] Essa é uma noção de empreendedor. Prefiro o meu pequeno negócio do que ser empregado numa grande instituição [só que o “negócio” de Lúcifer arruinou este planeta]. O empreendedor clássico sempre se orgulha do ilícito. Steve Jobs, na sua biografia, conta que criou uma máquina para roubar o sinal interurbano da AT&T. Napoleão começou sua carreira como político em 1799, dando um golpe no regime que jurou defender. O empreendedor, o grande líder é louvado porque é alguém que quebra as regras, inclusive as leis, aceitas pelo grupo [lamentável isso. Nosso país já é o que é por causa das transgressões de regras e da quebra das leis. Imagine se cada brasileiro levar a sério esse tipo de empreendedorismo… Bem, é isso o que dá quando se relativiza o pecado: roubar, mentir, trair, desobedecer passam a ser virtudes]. Lúcifer é o primeiro empreendedor de todos os tempos porque saiu da caixinha. Lúcifer é o sonho do RH, né? (risos) [a “caixinha” era um reino de paz e harmonia em que todos serviam ao Criador por amor; Lúcifer não saiu da “caixinha”, foi expulso dela por não mais haver lugar para sua rebeldia insubmissa ali. Karnal louva justamente o que deu origem ao grande conflito e a todas as mazelas da humanidade]. Sem a infração de Lúcifer, assim como a de Adão e Eva, não haveria História [não haveria história do pecado; mas haveria a eternidade de paz e alegria]. O mundo seria perfeito, com anjos no paraíso. O que criou a História do mundo foi a rebeldia, as quebras do padrão e das estruturas. Todas as vanguardas, sem exceção, são assim. […] [Sim, o que criou o “mundo” foi a rebeldia, e será a rebeldia que porá fim a este mundo. Graças a Deus. Se Karnal queria falar de empreendedorismo, creio que escolheu um péssimo exemplo. Um indivíduo empreendedor como Satanás destruiria rapidamente tudo o que você construiu, e um dia vai destruir até mesmo o que ele construiu. – MB]

As cartas que Freud tentou destruir

freud“Tenho de contar-te o lindo sonho que tive após o enterro”, escreveu Sigmund Freud a um amigo dias após a morte do pai. Encontrava-se no barbeiro e lia numa tabuleta: “É obrigatório fechar os olhos.” Em A Interpretação dos Sonhos, seu primeiro livro, desvendará ao público o sentido da frase: sentia-se obrigado a ser indulgente para com os erros do pai. A ternura para com Jakob Freud, patente nos escritos de Sigmund, ficou manchada por uma acusação. Ele teria abusado sexualmente de alguns dos filhos quando crianças. “Infelizmente, era um desses perversos”, confessou Freud a Wilhelm Fliess. “É a causa da histeria do meu irmão mais novo e de algumas das minhas irmãs.” Escrita a 11 de fevereiro de 1897, a carta é uma das muitas que o então obscuro médico de Viena enviara regularmente ao amigo, otorrinolaringologista em Berlim. Por essa altura, não formulara ainda a teoria do complexo de Édipo. Defendia que os abusos sexuais na infância eram a causa das neuroses. A partir dos relatos recorrentes das pacientes, julgava ser essa a causa da histeria. O misterioso mal, tão espalhado naquela Viena fim de século 19, remontava a esses acontecimentos traumáticos ocorridos na infância. Normalmente, eram infligidos às meninas pelo pai ou um irmão mais velho. Como acontecera com aquela paciente que um dia lhe entrou no consultório.

Ela sentia angústia quando andava de carruagem, escreveu Freud ao amigo. Uma vez, lançara-se mesmo para a estrada com o veículo em andamento. Entre os oito e os doze anos, contou ela depois, o pai costumava levá-la para a cama. Uma irmã, seis anos mais velha, confessara-lhe ter tido as mesmas experiências. Freud disse-lhe que “coisas semelhantes e muito piores deveriam ter acontecido com ela na primeira infância”. Na carta a Fliess, concluiu que se trata de mais “uma confirmação da etiologia paterna”. Renunciaria um ano depois à sua hipótese explicativa das neuroses. Entre outras razões, porque “seria sempre preciso acusar o pai de perversão, nomeadamente o meu”, escreveu ao amigo, a 11 de setembro. Não deixou de lamentar, porém, ter de abandonar uma teoria de que esperava tanto. “Uma celebridade eterna, a fortuna assegurada, a independência total, as viagens, a certeza de evitar aos filhos todos os problemas que tivera na juventude.”

A teoria do complexo de Édipo surgiu em embrião três semanas depois dessa carta. A 15 de outubro de 1897, Freud escreveu a Fliess que sempre encontrara em si algo que julgava comum aos seres humanos. “Descobri, também no meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar pela mãe e ter ciúmes do pai e agora considero-o um acontecimento universal do início da infância.” O poderoso efeito de “Rei Édipo”, mito em que o herói mata o pai, tão inadvertidamente como depois se casa com a mãe, talvez se devesse ao fato de essa tragédia evocar um sentimento tão universal. “Passou-me fugazmente pela cabeça”, acrescenta Freud, “a ideia de que o mesmo estaria também na base do ‘Hamlet’.”

O primeiro objeto de amor para qualquer criança seria a mãe. Embora amando o pai, o pequeno desejaria mesmo a sua morte para o eliminar como rival. No caso da garota, ao descobrir a diferença dos sexos, e que não possui um pênis, ela experimenta um profundo despeito contra a mãe e uma profunda atração pelo pai. A fixação do rapaz pela mãe conduziria à homossexualidade ou à neurose obsessiva. Na origem da histeria e frigidez estaria a fixação da garota pelo pai.

Com o complexo de Édipo, Freud teria preferido mascarar a verdade, defendeu Jeffrey Moussaieff Masson, o então psicanalista, hoje etnólogo reputado, que fez publicar em 1981 a correspondência completa de Freud a Fliess. Às pacientes que se lembravam de terem sido violadas pelos pais em criança, a nova teoria teria permitido a Freud argumentar que a recordação nada tinha de real. Era produto da imaginação e dos desejos inconscientes pelo pai.

Os relatos da violência sexual que tanto afetara a vida das suas pacientes poderiam, assim, ser atribuídos à fantasia e à libido infantil, sustenta Masson em seu livro The Assault on Truth. “Os terapeutas permaneciam do lado dos poderosos e dos triunfadores e não das infelizes vítimas da violência familiar.” Para os defensores da teoria psicanalítica, a interpretação é de uma evidente má-fé. Freud, quando formulou a teoria do complexo de Édipo, deixara apenas de acreditar que todas as neuroses tinham por origem os abusos sexuais na infância. Não se tratou de covardia face à moral da época.

É uma correspondência repleta de “sinais de alguém apaixonado”, refere o biógrafo de Freud, Louis Breger, a propósito das cartas a Wilhelm Fliess. Nessa correspondência, Freud demonstra uma constante necessidade de contato com o amigo. Sofre quando ele não está disponível. Faz depender da sua aprovação a confiança que deposita em si próprio. “Devo-te tudo. Conforto, compreensão, estímulo na minha solidão, um sentido para a minha vida”, escreveu em janeiro de 1895. “Sei que precisas de mim tanto quanto eu de ti, mas também sei que tenho um lugar no teu coração.”

Os exemplos são na verdade inúmeros. “Fazes-me muita falta. Sou ainda realmente a mesma pessoa que transborda de projetos enquanto estiveste por perto?” Após um dos seus encontros a sós com Wilhelm Fliess, a que os dois chamavam “congressos”, confessou: “Desde então, tenho vivido numa euforia contínua e trabalhado como um jovem.” Dias antes de um outro encontro, confessou: “Antecipo o nosso congresso como o saciar da fome e da sede.”

Na Correspondência Completa a Wilhelm Fliess, Masson incluiu, sob a forma de notas de rodapé, cartas inéditas de Freud a outras pessoas. Em algumas, ele reconhece o carácter homossexual da sua extinta amizade. Em 1910, recorda-a como um impulso amoroso que poderia ter provocado algum tipo de psicose. “Desde o caso com Fliess, em cuja superação me vi ocupado recentemente, essa necessidade extinguiu-se. A investida homossexual foi repelida e utilizada para engrandecimento do meu próprio ego. Obtive sucesso onde o paranoico falharia.” Ainda a Sándor Ferenczi, um discípulo, escreveu a propósito, anos mais tarde: “Crê que eu esteja ligado a algum desgosto particular. Na verdade, sinto-me capaz de lidar com todas as coisas e eternamente satisfeito da independência decorrente da superação da minha homossexualidade.”

Freud conhecera Wilhelm Fliess um ano após ter casado. Nessa época, tinha 41 anos, sofria de grave ansiedade depressiva, medo intenso de morrer e fobia a viagens. Decidira submeter-se ao método que começava a aplicar aos pacientes. As cartas ao amigo cedo começam a funcionar como a caixa de ressonância da sua autoanálise. “O meu principal paciente sou eu”, escreveu numa delas. Para confidente, escolhera alguém que hoje passaria por um charlatão. Fliess estava convencido da estreita relação entre o nariz e a sexualidade. Acreditava também ter descoberto, à semelhança do ciclo menstrual feminino, um ciclo biológico no homem, mas de 23 dias.

A convicção de Freud na pseudoteoria científica é inabalável. Fez-se mesmo operar ao nariz, pelo amigo, juntamente com Emma Eckstein, uma das suas pacientes “histéricas”. Quinze dias depois, os médicos descobriram que Fliess esquecera na cavidade nasal de Emma uma compressa. “De repente, ele puxou algo como um fio”, escreveu Freud a Wilhelm, “e continuando a puxar, antes que tivéssemos tempo de perceber, no mínimo meio metro de gaze foi removido.” Emma ficaria com uma deformação no rosto e um ano depois não estava completamente restabelecida. A incúria de Fliess não beliscara, no entanto, a crença de Freud no amigo. Os sangramentos deviam-se aos “veementes desejos” de Emma, defenderia ainda meses depois.

Como o esmiuçar das experiências sexuais das pacientes não era bem recebido pelos seus colegas de medicina, Wilhelm funcionava também como a única plateia de Freud. O que explica a frequência crescente da correspondência, considera Jeffrey Moussaieff Masson. Detalhes do cotidiano familiar e profissional, problemas de saúde, descrição de sonhos, avanços e recuos nas investigações – de tudo um pouco fala Freud. As cartas são trocadas a um ritmo torrencial, que abranda bruscamente em 1900.

Encontraram-se pela última vez nesse ano. O único testemunho sobre o que se passou foi escrito por Wilhelm. “Percebi em Freud uma animosidade pessoal contra mim que provinha da inveja.” Depois de tantos anos de deferência, quase bajulação, Fliess ficou chocado. “Afastei-me dele discretamente e abandonei nossa correspondência regular. Desde então nada mais ele soube de mim.”

A 7 de agosto de 1901, Freud acusou um ex-amigo e a mulher de Fliess pelo esfriar da relação. “O que está fazendo a sua esposa senão pôr em prática, numa compulsão atroz, uma ideia que Breuer lhe plantou na mente, certa vez, quando lhe disse como era grande a sorte dela por eu não morar em Berlim e não poder interferir no vosso casamento?” Freud não deixou de nutrir por Ida Fliess uma intensa aversão. Em 1910, advertiu um discípulo, Karl Abraham, contra os perigos “dessa mulher estúpida, astuciosa, malévola, positivamente histérica; em suma: perversão e não neurose”, concluiu.

Ida escreveu a Freud, pouco após a morte do marido, em 1926. Pedia-lhe que lhe devolvesse as cartas que Wilhelm enviara antes de a relação se ter “turvado”. Havia muitos anos que as queimara, respondeu Freud. Mas se acaso ela tivesse algumas que ele escrevera, pedia-lhe que “as protegesse contra qualquer utilização pública”. Ida Fliess vendeu-as poucos anos depois a um colecionador.

Foi uma “correspondência das mais íntimas que se possa imaginar”, recordava o fundador da psicanálise, em 1936, dois anos antes de morrer. “Seria altamente comprometedor se viesse a cair nas mãos de estranhos”, advertia a Maria Bonaparte, a discípula e ex-paciente que conseguira impedir que as cartas fossem vendidas nos Estados Unidos. “Lamentaria ver tudo exposto perante o mundo em geral”, justificaria no seu “Caderno de Notas”, também inédito até ser divulgado por Jeffrey Moussaieff Masson. Não era a primeira vez que intercedia a favor do amigo. Seu estatuto de princesa da Grécia e Dinamarca permitira-lhe já obter para Freud o visto para o Reino Unido pouco antes de o exército nazi entrar em Viena.

Freud pediu a Maria Bonaparte que não lesse as cartas. Não pensasse, porém, que continham apenas graves indiscrições. Em muitos aspectos, diziam respeito “a palpites e pistas falsas ligadas ao nascimento da psicanálise”. Insistiu depois para que ela as queimasse. Por fim, pediu-lhe mesmo que as lesse para que se convencesse de que deviam ser destruídas. Maria Bonaparte recusou. Poucas vezes o criador de uma nova teoria revelava os raciocínios que o tinham conduzido à sua descoberta, como Freud fazia naquelas cartas.

Até que chegassem à Inglaterra, os papéis tiveram que desafiar um último obstáculo durante a 2ª Guerra Mundial. Antes de serem entregues a Freud em Londres, seguiram de barco, através do Canal da Mancha, minado pelo exército alemão, embrulhadas num material impermeável capaz de flutuar. Tudo para que tivessem uma hipótese de serem resgatadas, em caso de naufrágio.

Em 1950, Maria Bonaparte e Anna Freud publicaram 168 das 284 cartas disponíveis. Suprimiram trechos sem que fossem indicadas essas omissões. O princípio utilizado, justificaram, foi o de “omitir ou abreviar tudo aquilo cuja publicação fosse incompatível com o sigilo profissional ou pessoal”. Na edição de Masson, as cartas foram publicadas na íntegra juntamente com outras 133, encontradas em diversas bibliotecas e arquivos e tornadas públicas pela primeiríssima vez.

“Passei grande parte do tempo em sua casa de Maresfield Gardens, Londres (casa do pai de Anna no último ano de vida), lendo na biblioteca de Freud e vasculhando gavetas e armários”, escreveu no prefácio à Correspondência Completa.” Anna arrependeu-se, depois, ter-lhe aberto as portas de casa. Segundo o seu biógrafo, Michael Ignatieff, nos últimos anos de vida, estava atormentada pelo “parricídio editorial” a que, achava, o seu gesto dera azo.

(José Manuel Ferreira, NetProf)

Nota: A despeito de todas as revelações interessantes dessas cartas privadas, um detalhe em especial me chama atenção: os abusos sexuais a que Freud esteve sujeito. O pai dele era um judeu religioso, portanto, é possível imaginar que a aversão que o pai da psicanálise manifestou contra Deus em alguns episódios possa se dever, na verdade, à aversão que ele nutria pelo próprio pai. Vários estudos, corroborados pelos escritos de Ellen White, mostram que a visão que uma pessoa desenvolve a respeito de Deus tem muito que ver com a visão que ela teve do pai nos primeiros anos de vida. Se o pai era permissivo, a pessoa tenderá a ver Deus da mesma forma. Se era ausente ou repressor, idem. Assim, é possível entender certas declarações de Freud em relação a Deus. Um autor que explora bem essa realidade é Armand Nicholi Jr., no livro Deus em Questão, em que ele analisa a vida e o ateísmo de Freud e de C. S. Lewis. [MB]

Leia também: “Ateísmo e complexo de Édipo”, “Freud e Lewis diante da morte”, “Com pais assim, dá para entender algumas coisas” e “Dawkins minimiza abuso que sofreu na infância”