Respostas a um antitrinitariano (parte 2 de 4)

jesusPergunta: Os trinitarianos negam que Cristo seja o Filho de Deus. Ele só se torna Filho quando vem à Terra. Mas a Bíblia diz que Cristo é o Filho de Deus, sendo lógico concluir que Ele nasceu de Deus, foi gerado de Deus, portanto, não tem a eternidade pretérita. 1 João 5:1 diz que Jesus foi gerado. A própria Ellen White chama Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação. Como entender isso?

Resposta: Nenhum trinitariano nega que Jesus é o Filho de Deus. A Bíblia afirma e o próprio Jesus Se autointitula o Filho de Deus. O problema está na compreensão equivocada que os antitrinitarianos têm dessa expressão. Algumas expressões usadas naquela época, se isoladas de seu contexto, não são bem compreendidas. Por exemplo: quando a Bíblia chama Jesus de Filho do homem, quer dizer que Ele é totalmente homem, ser humano; quando chama Jesus de Filho de Davi, quer dizer que Ele era o Messias, o Rei, o prometido que viria resgatar Israel (na visão do judeu), a humanidade; da mesma forma, quando a Bíblia chama Jesus de Filho de Deus, quer dizer que Ele era totalmente Divino, Deus.

Para mais informações sobre esse tema, leia isto, isto, isto, isto, isto, isto e isto.

O termo “gerado” usado, por exemplo, em Hebreus 1:5, quando visto em seu contexto, nota-se, pelo Salmo 2:7, que primariamente foi utilizado para Davi, quando ele foi entronizado. Por que o verbo “gerar” usado em Salmo referindo-se a Davi significa entronização e quando repetido em Hebreus para ser aplicado a Cristo significa nascer, vir a existência? Da mesma forma, observando o contexto de 1 João, será que no capítulo 5, verso 1 era propósito do autor descrever a suposta origem, o suposto nascimento de Jesus? Vejamos:

a) “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que O gerou também ama ao que dEle é nascido” (1Jo 5:1).

Πᾶς ὁ πιστεύων ὅτι Ἰησοῦς ἐστὶν ὁ χριστός, ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται· καὶ πᾶς ὁ ἀγαπῶν τὸν γεννήσαντα ἀγαπᾷ καὶ τὸν γεγεννημένον ἐξ αὐτοῦ.

No destaque acima está a palavra gennao (γεννάω), que significa nascido ou gerado. Apesar de o verso em português ser traduzido assim: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que O gerou também ama ao que dEle é nascido.” Note que há um intercâmbio entre os verbos “gerar” e “nascer”. No grego, entretanto, trata-se do mesmo verbo. A pergunta é: Em que consiste o nascimento ou geração de Cristo? Será que essa expressão, esse verbo só se refere a nascimento no sentido de vir à existência?

Analisemos outras ocorrências do verbo gennao em 1 João para saber o que ele significa, e depois em outras passagens no Novo Testamento:

b) “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1 João 4:7).

Ἀγαπητοί, ἀγαπῶμεν ἀλλήλους, ὅτι ἡ ἀγάπη ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶς ὁ ἀγαπῶν ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται καὶ γινώσκει τὸν θεόν.

c) “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 João 5:4).

ὅτι πᾶν τὸ γεγεννημένον ἐκ τοῦ θεοῦ νικᾷ τὸν κόσμον· καὶ αὕτη ἐστὶν ἡ νίκη ἡ νικήσασα τὸν κόσμον, ἡ πίστις ἡμῶν.

d) “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18).

Οἴδαμεν ὅτι πᾶς ὁ γεγεννημένος ἐκ τοῦ θεοῦ οὐχ ἁμαρτάνει, ἀλλ᾽ ὁ γεννηθεὶς ἐκ τοῦ θεοῦ τηρεῖ αὐτόν καὶ ὁ πονηρὸς οὐχ ἅπτεται αὐτοῦ.

Assim, notamos que o verbo γεννάω (gennao) em 1 João não traz necessariamente o sentido de nascimento físico, o que implica vir à existência. Em todo o livro não é essa a conotação do verbo. Por que seria apenas nessa passagem? Veja mais este exemplo fora da literatura joanina:

 e) “Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões” (Filemom 1:10).

Παρακαλῶ σε περὶ τοῦ ἐμοῦ τέκνου, ὃν ἐγέννησα ἐν τοῖς δεσμοῖς μου, Ὀνήσιμον.

Em todas as situações mostradas acima percebemos que o gerar não tem o significado de nascer literalmente, vir à existência (mesmo que esse também possa ser um significado possível ao termo). Por que, então, quando se refere a Jesus, sempre o termo gerar é imposto pelos antitrinitarianos como sendo algo literal, vir à existência, nascer fisicamente?

Os antitrinitarianos tentam fazer certas dicotomias entre os termos “gerar”, “nascer” e “criar”. A questão é: a palavra pode até ser diferente, mas o conceito é o mesmo – Cristo veio à existência de alguma forma; houve um momento na eternidade em que Ele não existia. O Pai O trouxe à existência, seja por geração ou criação, não importa. Aqui se encontra o primeiro grande erro: Deus não é um ser que pode ser criado ou gerado (no sentido de vir à existência). Esse é o conceito grego quando falavam de suas divindades. A Bíblia nega o conceito de uma divindade que não possui a eternidade. Ser Deus implica, necessariamente, ser eterno, tanto para frente quanto para trás. Se foi criado, não é Deus. Se nasceu, não é Deus, se foi gerado (no sentido de vir à existência e não no sentido bíblico de entronização), não é Deus. Deus é eterno.

Cristo é Deus? É eterno? Sim. A Bíblia diz que sim:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os Seus ombros, e Se chamará o Seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Como o Pai da Eternidade, aquele que cria a eternidade, não seria eterno?

Vejamos abaixo mais alguns textos inspirados sobre a divindade e rternidade de Cristo:

“Ao falar de Sua preexistência, Cristo faz o pensamento remontar aos séculos eternos. Ele nos assegura que nunca houve um tempo em que não estivesse em íntima ligação com o Deus eterno. Aquele cuja voz os judeus estavam então ouvindo estivera com Deus como Alguém que Se achava em Sua presença” (Ellen G. White, Signs of the Times, 29 de agosto de 1900).

“Antes de serem criados homens ou anjos, a Palavra [ou Verbo] estava com Deus, e era Deus. O mundo foi feito por Ele, ‘e sem Ele nada do que foi feito se fez’ (João 1:3). Se Cristo fez todas as coisas, existiu Ele antes de todas as coisas. As palavras faladas com respeito a isso são tão positivas que ninguém precisa deixar-se ficar em dúvida. Cristo era, essencialmente e no mais alto sentido, Deus. Estava Ele com Deus desde toda a eternidade, Deus sobre todos, bendito para todo o sempre. O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai. Era Ele a excelente glória do Céu. Era o Comandante dos seres celestes, e a homenagem e adoração dos anjos era por Ele recebida como de direito. Isto não era usurpação em relação a Deus” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 247, 248).

O que significa toda eternidade? Toda é toda. Ou seja, precisamos aceitar que:

a) Nunca houve um tempo em que Cristo não estivesse com o Pai. E nunca é nunca

b) Ele é Deus no mais alto sentido, portanto, não pode ter vindo à existência de alguma forma, porque Deus não nasce, Deus é.

c) Estava com o Pai desde toda a eternidade. Toda é toda. Se você pudesse viajar a qualquer ponto da eternidade, lá estaria Jesus. Se Ele não estivesse, Ellen White seria mentirosa, pois ela disse toda

A Bíblia diz que Deus existe de eternidade a eternidade. Claramente o texto está falando de eternidade pretérita e eternidade futura. Veja: “Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). De quem esse texto está falando? Quem é esse ser eterno para frente e para trás? Veja o que Ellen White escreveu:

“‘Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). ‘O povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou” (Mateus 4:16). Aqui se apresentam a preexistência de Cristo e o propósito de Sua manifestação ao mundo, como raios vivos de luz do trono eterno. ‘Agora ajunta-te em esquadrões, ó filha de esquadrões; pôr-se-á cerco contra nós: ferirão com a vara no queixo ao juiz de Israel. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti Me sairá O que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade’ (Miqueias 5:1, 2; Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 248).

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Portanto, qualquer tentativa de afirmar que Cristo não é Deus eterno, que Ele foi gerado e não existia desde sempre com o Pai é apenas um esforço maligno para distorcer essa verdade tão bela da plena divindade e eternidade de Jesus. Ele é Deus, sempre existiu, sempre foi um com o Pai, sempre esteve com Ele. Ele é o YHWH do Antigo Testamento. Como disse a serva do Senhor falando de Jeová, aquele que aparece no Antigo Testamento: “Jeová é o nome dado a Cristo” (Signs of the Times, 3/5/1899).

Leia mais sobre isso aqui, aqui e aqui.

Sobre Ellen White chamar Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação, essa é uma situação simples e muito comum. Trata-se de termos retroativos e proféticos. Por que Ellen White chama Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação? Pelo mesmo motivo que

a) a Bíblia chama Jesus de Filho do homem em Daniel, antes de Sua encarnação;

b) a Bíblia diz que Jesus é o cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo;

c) Ellen White chama Jesus de Jesus (nome dado pelo anjo quando apareceu a Maria): “Lúcifer estava invejoso e enciumado de Jesus Cristo” (História da Redenção, p. 14). Naquela época Jesus era chamado de Jesus Cristo? Claro que não!

Portanto, nota-se claramente que certos títulos atribuídos a Cristo são retroativos (termos conhecidos hoje) e proféticos. O fato de alguém dizer hoje que “o Filho de Deus lutou contra Lúcifer no Céu”, ou “Jesus venceu Lúcifer lá no Céu” não quer dizer necessariamente que Ele já era chamado com esses nomes lá no Céu naquela ocasião; são termos conhecidos hoje e que usamos comumente ao relatar histórias do passado, assim como Ellen White o fez. Nem seria lógico Ellen White contar o que houve no Céu falando sempre “a segunda pessoa da Divindade”, só porque naquela época Ele ainda não havia recebido o nome (título) de Jesus ou Filho de Deus ou ainda Filho do homem.

Leia mais aqui, aqui e aqui.

Pergunta: Jesus disse mesmo as palavras de Mateus 28:19 ou esse texto foi um acréscimo posterior ao livro de Mateus?

Resposta: Leia o texto “A fórmula batismal trinitária de Mateus 28:19 é autêntica?” e você encontrará a resposta para essa pergunta.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” (parte 1) 

A Bíblia Sagrada é inerrante?

bibliaCom o claro objetivo de fazer frente às alegações dos defensores do liberalismo e da alta crítica, alguns teólogos evangélicos acabaram assumindo posição radical e reacionária em relação às Escrituras – posição que ficou conhecida como “inerrante”, isto é, que a Bíblia Sagrada não contém erros de quaisquer espécie e teria sido revelada de forma verbal. Essa postura influenciou muitos teólogos e, por outro lado, gerou reações contrárias radicalmente proporcionais. Vários livros foram publicados na intenção de popularizar a teoria da inerrância bíblica. Um desses é O Alicerce da Autoridade Bíblica (Vida Nova), organizado por James Montgomery Boice, e que reúne artigos de estudiosos do quilate de Francis A. Schaeffer, R. C. Sproul e Gleason L. Archer, para mencionar apenas três.

Ao longo das 196 páginas, os escritores tentam demonstrar que a inerrância foi ideia defendida pela igreja cristã em toda a sua história – desde os apóstolos e os “pais da igreja”, passando pela Reforma e chegando aos dias atuais, quando encontra os evangélicos que, para serem assim considerados, devem ser inerrantes (pelo menos essa é a sentença radical de alguns dos articulistas do livro).

No fim do prefácio, Boice faz uma afirmação auto-contraditória: “Aquilo que a Bíblia diz, é Deus quem diz – através de agentes humanos e sem erro.” Como é possível algo humano ser desprovido de erro? E na Introdução, Schaeffer sugere que a mentalidade “cartesiana, positivista e empirista” estaria influenciando a exegese bíblica, parecendo ignorar o fato de que estender a inerrância a assuntos “periféricos” – história, cosmologia, etc. – é, isso sim, uma tentativa de ler a Bíblia sob as lentes do método científico moderno, cujo contexto em muito se distancia da mentalidade semítica com a qual as Escrituras estão entrelaçadas. Na verdade, a própria Bíblia não se arroga inerrante, devendo os que advogam essa prerrogativa apelar para outras fontes – como o próprio racionalismo – a fim de sustentá-la.

Curiosamente, os mesmos que defendem a inerrância, sobem no barco da alegorização de relatos históricos como Gênesis 1, 2 e 3. James I. Packer diz o seguinte, em seu artigo: “…lê-se Gênesis 1 como se fosse uma resposta às mesmas perguntas que os manuais científicos visam a responder, e Gênesis 2 e 3 se leem como se fosse, a cada ponto, narrativas prosaicas de testemunhas oculares, daquilo que teríamos visto se tivéssemos estado lá, não fazendo caso das razões por que se pode pensar que nesses capítulos ‘eventos reais talvez sejam registrados de modo altamente simbólico’” (p. 92.)

Mais equilibrado em suas análises, Gleason Archer informa que “há muito mais apoio textual para o texto da Sagrada Escritura do que há para qualquer outro livro que foi transmitido a nós desde tempos antigos” (p. 102). Archer escreve também que como o texto bíblico tem caráter eminentemente salvífico, foi conservado numa forma “suficientemente exata para realizar o seu propósito”, com uma transmissão não “seriamente defeituosa”. Ao usar as palavras “suficientemente” e “seriamente”, ele parece não querer ir tão longe no conceito de inerrância quanto seus colegas articulistas. “A melhor explicação é supor que Deus o Espírito Santo exerceu uma influência orientadora na preservação do texto original”, prossegue Archer, “conservando-o de erros sérios ou enganadores de qualquer tipo”. Citando Lindsell (The Battle for the Bible), em seu artigo “A Bíblia e a inerrância”, o Dr. Amim Rodor explica que “os inerrantistas confundem ‘erro’ no sentido de precisão técnica com a noção bíblica de erro como engano intencional”. Em sua linguagem, portanto, Archer parece ser não tão inerrantista assim.

Na página 138, vê-se Sproul manifestando igualmente um espírito equilibrado e aberto: “Não lançamos dúvida sobre a real dedicação dos defensores da inerrância limitada. O que questionamos é a exatidão da sua doutrina da Escritura, assim como eles questionam a nossa. Mesmo assim, consideramos que este debate, por mais sério que seja, é um debate entre membros da família de Deus. Que o nosso Pai nos leve à união neste ponto, assim como tem feito em muitas afirmações gloriosas do Seu evangelho” (p. 138).

No capítulo “O pregador e a Palavra de Deus”, assinado pelo próprio Boice, o autor tenta relacionar o “declínio contemporâneo na pregação grandiosa” (expositiva) – nas palavras de Lloyd-Jones – com a perda de crença na autoridade bíblica. Mas seria apenas esse o motivo? E seria o real motivo? Na revista Veja do dia 12 de julho de 2006, a matéria de capa aborda a mudança de ênfase dos pregadores evangélicos modernos (embora o foco sejam os “novos pastores”, pós-neopentecostais). Segundo a reportagem, está havendo cada vez menos ênfase no sobrenatural e mais investimento em técnicas de autoajuda. Nas igrejas evangélicas tradicionais, estuda-se pouco a Palavra de Deus. Portanto, independentemente da ênfase inerrantista (ou da falta dela), o declínio na pregação ocorre por diversos fatores e Boice parece tentar conduzir a conclusão na direção de seu pensamento. Depois, ele tece alguns comentários oportunos a respeito da necessidade de mais sermões expositivos, com forte conteúdo bíblico.

Finalmente, o livro apresenta a Declaração de Inerrância Bíblica de Chicago. Entre declarações que podem ser facilmente consideradas extremadas, há uma que quase surpreende pelo equilíbrio:

“As diferenças entre as convenções literárias nos tempos bíblicos e as do nosso tempo não podem ser desprezadas: uma vez que, por exemplo, a narração não-cronológica e a citação imprecisa eram comuns e aceitáveis, e não frustravam expectativa de espécie alguma na época, não se deve tê-las como equívocos quando as encontramos na Bíblia. Quando não se espera uma precisão absoluta de tipo específico, não se incorre em erro se ela não é alcançada. A Escritura é inerrante, não no sentido de que é absolutamente precisa segundo os padrões modernos, e sim no sentido de que ela cumpre aquilo que afirma e atinge aquela medida de verdade específica que foi objeto dos autores.”

Michelson Borges

A fórmula batismal trinitária de Mateus 28:19 é autêntica?

batismo3Críticos textuais denunciam o texto de Mateus 28:19 como sendo resultado de uma falsificação dos originais. E o fazem com base nas obras de Eusébio, em uma nota de rodapé na Bíblia de Jerusalém, bem como na quantidade superior de textos em Atos falando do batismo em nome de Jesus. Mateus 28:19 está no original?

Respondendo, não necessariamente na ordem, podemos iniciar afirmando que não é prudente formular uma doutrina ou a aceitação de um texto com base na quantidade de textos. Não podemos simplesmente colocar numa balança uma quantidade x de textos falando sobre o batismo em nome de Jesus, mencionado em Atos, versus a quantidade y de textos falando para batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e a partir de então definir: como há mais textos x do que y, ficamos com a visão x em detrimento de y.

Só para que o leitor entenda o perigo dessa forma equivocada de se fazer hermenêutica, darei o seguinte exemplo: alguém se levanta na igreja dizendo que não há necessidade de se fazer o lava-pés no momento da Ceia. Outro contra-argumenta que assim o fazemos com base em João 13, onde Cristo lava os pés dos discípulos e não somente isso: Ele nos incentiva a fazer o mesmo em memória dEle. O questionador então conclui: “Mas se você ler os textos da Ceia do Senhor em Mateus, Marcos e Lucas, verá que não há nenhuma menção ao tal lava-pés. Portanto, com base na quantidade, levando em conta que há mais textos nos quais não se fala do lava-pés e apenas um que menciona a necessidade de praticar o lava-pés, podemos dizer que o texto de João 13 não é fidedigno, foi alongado e por isso não devemos praticar o lava-pés.” Esdrúxula essa interpretação, não é mesmo?

Mas é exatamente isso que fazem os que negam Mateus 28:19 como autêntico. Eles comparam com Atos, veem que só fala do batismo em nome de Jesus e, ao invés de conciliar os textos, de ajustá-los, eles colocam um contra o outro, somam as quantidades de um lado e do outro e o melhor resultado numérico ganha. Já pensou se usássemos essa regra com as 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14 ou com as três mensagens angélicas de Apocalipse 14? Esses textos só aparecem uma única vez na Bíblia. Definitivamente, essa hermenêutica não é correta.

Outro argumento comumente utilizado é a forma como Eusébio usa Mateus 28:19. Citam Eusébio como autoridade máxima no assunto, como se não houvesse nada anterior a Eusébio que mencionasse a Trindade em Mateus 28:19. Podemos citar a Didaquê, Clemente, o Pastor de Hermas, Irineu, Tertuliano de Cartago, Hipólito de Roma e Orígenes de Alexandria (nenhum desses é nossa regra de fé ou parâmetro doutrinário; estão sendo citados apenas para mostrar que antes de Eusébio outros pais da igreja citaram Mateus 28:19 conforme está em nossa Bíblia). Todos esses escreveram antes de Eusébio e sabemos que quanto mais antiga a referência, i.e, quanto mais próxima do original, tanto mais confiável ela é. O pior de tudo é tentar fazer com que Eusébio seja contrário a Mateus 28:19. Por que não citam este texto de Eusébio?:

“Cremos que cada um deles é e existe, o Pai verdadeiramente Pai, e o Filho verdadeiramente Filho, e o Espírito Santo verdadeiramente Espírito Santo; como nosso Senhor, ao enviar Seus discípulos a pregar disse: ‘Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”[1]

Diante desse texto fica a indagação: Por que aqui Eusébio cita a Trindade em Mateus 28:19 e em sua outra obra não cita? Simples: segundo Benjamim J. Hubbard, “Eusébio tinha o hábito de citar as Escrituras de forma inexata”.[2] Isso os antitrinitarianos desconsideram completamente.

Talvez uma pergunta importante seja esta: “Quem foi Eusébio de Cesareia?” Em seu artigo “Resenha crítica do livro Eu e o Pai Somos Um”,[3] o Dr. Alberto Timm trata bem dessa questão. Você pode conferir aqui.

Eusébio, tão aclamado pelos antitrinitarianos como alguém digno de confiança para opinar sobre Mateus 28:19, é descrito por Ellen G. White como o “amigo íntimo e adulador de Constantino”, que “propôs a alegação de que Cristo transferira o sábado para o domingo”. Esse argumento, “infundado como era, serviu para incentivar os homens a desprezarem o sábado do Senhor”.[4] Eusébio chegou a escrever um livro no qual diz que “honrou a Constantino” e que ele era “um poderoso luzeiro e o mais eloquente arauto da genuína piedade”.[5] Essa é a fonte fidedigna dos antitrinitarianos.

Não bastasse isso, valem-se também de uma nota de rodapé, isso mesmo, uma nota de rodapé acrescentada pelos editores da Bíblia de Jerusalém para dizer que o texto não merece confiança. É, no mínimo intrigante que os antitrinitarianos vivam a falar mal da Igreja Católica e digam que a Trindade é um dogma pagão instituído por essa igreja, entretanto, não se constrangem nem um pouco com o fato de que a visão particular dos editores católicos (que via de regra seguem o método histórico-crítico) inserida em uma nota de rodapé lhes sirva de sustentáculo para a crença. Assim diz a nota:

“É possível que em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar ‘no nome de Jesus’ (cf. At 1,5+, 2,38+). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade.”[6] A própria nota de rodapé se mostra não confiável quando começa dizendo “é possível que”. Trata-se de uma possibilidade. Em nenhum momento é dito que é, de fato, assim. Os editores, por conta própria, disseram que havia a possibilidade. Os antitrinitarianos já fizeram da possibilidade uma certeza, e tudo com base em uma nota de rodapé.

Você pode ler mais sobre essa questão aqui e aqui.

A seguir, serão apresentadas fotos de manuscritos unciais nos quais a fórmula de Mateus 28:19 está presente:

 CÓDICE SINAÍTICUS

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CÓDICE WHASHINGTONIANO

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CÓDICE ALEXANDRINUS DO 5o SÉCULO E SEGUE O BIZANTINO DO SÉCULO 3.

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CÓDICE VATICANUS DO 4o SÉCULO E SEGUE O TEXTO ALEXANDRINO DO SÉCULO 2

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CÓDICE BEZAE DO 5o SÉCULO

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Dizer que Mateus 28:19 é fruto de adulterações da Igreja Católica é, no mínimo, falta de conhecimento histórico, teológico e de manuscritos antigos. Aproveito para deixar um desafio: algum antitrinitariano mostrar um, apenas um manuscrito anterior a esses que mostramos acima, e que não contenha a fórmula de Mateus 28:19. Vou aguardar esse manuscrito. Não podemos ser ingênuos para ficar presos a uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém.

Por fim, acerca de Mateus 28:19, trago o que considero mais importante nesse assunto: a visão profética, que geralmente é completamente ignorada pelos antitrinitarianos. Creio que o que apresentarei a seguir seja mais importante que a nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém.

Ellen White apresenta muitos textos em que cita Mateus 28:19 como também textos que mostram o Pai, o Filho e o Espírito Santo como seres distintos. Ela chega a citar Mateus 28:19, apenas nos livros em português, 168 vezes. Por que Deus permitiria que Sua serva cometesse tamanho erro? A seguir, apresentaremos esses textos:

“O sacrifício de Cristo em favor do homem foi amplo e completo. A condição da expiação tinha sido preenchida. A obra para que viera a este mundo tinha sido realizada. Ele conquistara o reino. Arrebatara-o de Satanás, e Se tornara herdeiro de todas as coisas. Estava a caminho do trono de Deus, para ser honrado pela hoste celestial. Revestido de autoridade ilimitada, deu a Seus discípulos sua comissão: ‘Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19, 20; Atos dos Apóstolos, p. 29, 30).

“Então o apóstolo expôs perante eles as grandes verdades que são o fundamento da esperança do cristão. Falou-lhes da vida de Cristo na Terra, e de Sua cruel morte de vergonha. Contou-lhes como o Senhor da vida quebrara os grilhões da tumba e ressurgira triunfante da morte. Repetiu as palavras da comissão do Salvador aos discípulos: ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto ide, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo’ (Mt 28:18, 19). Falou-lhes também da promessa de Cristo de enviar o Consolador, por cujo poder grandes sinais e maravilhas seriam feitos, e contou-lhes quão gloriosamente havia esta promessa sido cumprida no dia de Pentecoste” (Atos dos Apóstolos, p. 282, 283). (Será que Cristo iria enviar Ele mesmo?)

“Precisamos representar a Cristo procurando alcançar a outros. Devemos trabalhar sob a ordem que Cristo deu a Seus discípulos: ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19; 20; Beneficência Social, p. 193).

“Repousa sobre todos os que estão empenhados na obra do Senhor a responsabilidade do cumprimento da ordem: ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado’ (Mt 28:19, 20; Conselhos Sobre Saúde, p. 316).

“A obra médico-missionária que se requer agora é a esboçada na comissão dada por Cristo aos Seus discípulos precisamente antes de Sua ascensão. ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra’, disse Ele. ‘Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:18-20; Conselhos Sobre Saúde, p. 509).

As palavras de Cristo, na encosta da montanha, foram o anúncio de que Seu sacrifício em favor do homem era pleno, completo. As condições para a expiação haviam sido cumpridas; realizara-se a obra para que Ele viera a este mundo. Achava-Se a caminho para o trono de Deus, a fim de ser honrado pelos anjos, os principados e as potestades. Entrara em Sua obra mediadora. Revestido de ilimitada autoridade, dera aos discípulos a comissão: ‘Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19, 20; O Desejado de Todas as Nações, p. 819).

As últimas palavras de Cristo a Seus discípulos mostram a importância a ser dada à obra de disseminar a verdade. Pouco antes de Sua ascensão Ele deu-lhes a ordem: ‘Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’” (Mt 28:19, 20; Este Dia com Deus, MM 1980, p. 105).

Note nos textos acima que Ellen White diz que Mateus 28:19 foram as palavras de Cristo na encosta da montanha. Ela diz que Ele falou realmente isso.

“Não fora o poder recebido por meio de Cristo, e não teríamos força alguma. Mas Cristo tem todo o poder. Jesus, aproximando-Se, falou-lhes, dizendo: ‘Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’” (Mt 28:18-20; Este Dia com Deus, MM 1980, p. 327).

“Deve ser anexado mais território; o estandarte da verdade tem de ser fincado em novos lugares; devem ser estabelecidas igrejas; deve-se fazer tudo que pode ser feito para cumprir a incumbência: ‘Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’” (Mt 28:19, 20; Exaltai-o, MM 1992, p. 295).

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“Quão ampla e extensa é a ordem: ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’!” (Mt 28:19, 20; Fundamentos da Educação Cristã, p. 121).

“Diz o Salvador: ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’ (Mt 28:18-20; Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 166).

“Em lugar de dedicar vossas faculdades a formar teorias, Cristo vos deu uma obra a fazer. Sua comissão é: ‘Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’” (Mt 28:19; Olhando para o Alto, MM 1993, p. 142).

O texto a seguir é muito importante, pois revela como os discípulos entenderam a ordem de Cristo e como eles faziam o batismo. Será que eles batizavam somente em nome de Jesus? Veja como os discípulos batizavam as pessoas no livro de Atos:

“Foi feita indagação a Deus com respeito a esses, e então, em harmonia com a mente da igreja e o Espírito Santo [note que o Espírito Santo possui mente], foram separados pela imposição das mãos. Havendo recebido sua comissão da parte de Deus e tendo a aprovação da igreja, saíram batizando no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e administrando as ordenanças da casa do Senhor” (Primeiros Escritos, p. 101).

Ellen White claramente afirma que os discípulos batizaram em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas os antitrinitarianos insistem que não. Eles preferem ficar com a nota de rodapé e com o adulador de Constantino.

“Depois de Sua ressurreição, Cristo encontrava-Se com os discípulos, e por quarenta dias instruiu-os a respeito de seu futuro trabalho. No dia de Sua ascensão, reuniu-Se com os discípulos numa montanha da Galiléia, no lugar que lhes havia designado. E Ele lhes disse: ‘Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’ (Mt 28:18-20). Todo médico e todo sofredor tem o privilégio de crer nesta promessa; ela é vida para todos os que creem” (E Recebereis Poder, MM 1999, p. 200).

“Sobre nós está colocado um sagrado encargo. Foi-nos dada a comissão: ‘Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; instruindo-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eis que Eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo’” (Mt 28:19, 20; Serviço Cristão, p. 24).

Para que não reste alguma dúvida de que as palavras de Mateus 28:19 tenham realmente saído dos lábios do Salvador, eis o seguinte texto:

“Pouco antes de deixá-los, Cristo deu aos discípulos a promessa: ‘Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-Me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da Terra’ (Atos 1:8). ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’ (Mt 28:19, 20). ENQUANTO ESSAS PALAVRAS LHE ESTAVAM NOS LÁBIOS, ASCENDEU, RECEBENDO-O UMA NUVEM DE ANJOS E O ESCOLTANDO ATÉ À CIDADE DE DEUS” (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 65).

Por que, como pastor, eu batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Porque Jesus mandou, e eu sigo a orientação profética:

A palavra que o Senhor me deu para nossos pastores e igrejas é: ‘Ide avante.’ ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:18-20; Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 417).

Eu prefiro seguir o que a nossa profetisa diz. Mas há os que negam isso.

“A comissão dada por Cristo aos discípulos exatamente antes de ascender ao Céu, foi: ‘Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19, 20; Testemunhos Seletos, v. 1, p. 531).

“Os que foram sepultados com Cristo no batismo devem erguer-se para novidade de vida, dando uma demonstração viva da vida de Cristo. Sobre nós está colocado um sagrado encargo. Foi-nos dada a comissão: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; instruindo-os a observar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” Mat. 28:19 e 20. T.S. vol. 3, 289.

“Os evangelistas de hoje devem ser coobreiros de Cristo. Tão certamente como os primeiros discípulos, têm eles a garantia: ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:18-20; Testemunhos Seletos, v. 3, p. 313).

Diante de tantos textos afirmando claramente que Mateus 28:19 foi realmente dito por Jesus, surge naturalmente uma pergunta: Por que no livro de Atos só se fala do batismo em nome de Jesus? Deus é tão maravilhoso que até isso revelou a Ellen White (quem sabe não seria por que Ele já soubesse que alguns se levantariam insinuações antibíblicas?). Eis o texto:

Deviam os discípulos levar avante sua obra no nome de Cristo. Cada uma de suas palavras e atos devia atrair a atenção sobre Seu nome como possuindo esse poder vital pelo qual os pecadores podem ser salvos. Sua fé devia centralizar-se nAquele que é a fonte de misericórdia e poder. Em Seu nome deviam apresentar suas petições ao Pai, e receberiam resposta. Deviam batizar no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O nome de Cristo devia ser a senha, a insígnia, o laço de união, a autoridade para sua norma de prosseguimento e a fonte de seu sucesso. Nada devia ser reconhecido em Seu reino que não trouxesse Seu nome e inscrição” (Atos dos Apóstolos, p. 28).

É simplesmente por isso que só se fala no nome de Jesus em relação ao batismo no livro de Atos. Não que na hora do rito batismal não se fizesse menção dos nome das três pessoas da Divindade. O nome de Jesus era a “senha, a insígnia, o laço de união”, para provar que de fato agora eles eram cristãos e não judeus.

Será que um texto tão explícito em favor da Trindade, que tivesse sido adulterado pela Igreja Católica, teria sido citado tantas vezes por Ellen White sem que Deus a corrigisse? Será que Deus não estava vendo a “heresia” que ela estava escrevendo? Será que a IASD adulterou todos esses textos de Ellen White? Ou será que Mateus 28:19 realmente é fidedigno e saiu dos lábios do próprio Salvador?

Deve-se ter MUITO cuidado ao abordar um assunto e chegar a determinadas conclusões sem primeiro ter pesquisado a fundo, principalmente quando a Divindade é o foco do estudo. Não dá para concluir um assunto apenas com pesquisas superficiais em livros não inspirados, páginas da internet, sem ter um claro ASSIM DIZ O SENHOR. Não dá para negar Mateus 28:19 sem negar a inspiração de Ellen G. White.

Diante da exposição dos textos da Sra. White que abordam a questão da fórmula batismal em Mateus 28:19, resta apenas uma alternativa ao leitor que quer ter o pleno conhecimento da verdade: ACEITAR o que está revelado. Claramente, nota-se que é impossível crer no que o Senhor Deus revelou à Sua serva e ainda assim afirmar que o texto de Mateus 28:19 foi adulterado pela Igreja Católica.

(Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju)

  1. Philip Schaff, ed., The Creeds of Christendom (Grand Rapids, MI: Baker, 1990), 2:29-30
  2. Benjamin J. Hubbard, The Matthean Redaction of a Primitive Apostolic Commissioning: An Exegesis of Matthew 28:16-20, SBL Dissertation Series 19 (Missoula, MT: Scholars’ Press, 1974), 175.
  3. Alberto R. Timm, “Resenha crítica do livro ‘Eu e o Pai Somos Um’. Parousia, v. 4, n. 2, p. 69-93, 2005.
  4. Ellen G. White, O Grande Conflito entre Cristo e Satanás, 41ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001), 574.
  5. Eusébio de Cesaréia, A Vida de Constantino, I, IV. Tradução baseada em NPNF, 2ª série, 1:482.
  6. Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus, 2002), p. 1.758.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano (parte 1 de 4)”

Respostas a um antitrinitariano (parte 1 de 4)

trindade[Nestes últimos dias o dragão (Satanás) está irado contra a mulher (igreja) e tem levantado as mais diversas heresias, ideias e variados movimentos dissidentes com o objetivo de causar dissensão e dividir para conquistar. Enquanto Jesus orou pela unidade da igreja, há indivíduos e grupos que fazem o trabalho contrário. Entre esses estão os antitrinitarianos, “pescadores de aquário” que têm se especializado em abalar a fé de membros da igreja menos preparados e não firmados na Palavra. Apresentam argumentos e textos descontextualizados, “documentos” parciais e distorção da história eclesiástica, afirmando que a Igreja Adventista teria abraçado um dogma pagão. Com o objetivo de munir os interessados com argumentos consistentes e, mais importante, verdadeiros, convidei meu amigo pastor Eleazar Domini, criador do blog Adventistas Trinitarianos, a escrever uma série de três posts intitulada “Respostas a um Antitrinitariano”, organizada em quatro partes: (1) a Trindade na Bíblia e na História; (2) a divindade e a eternidade de Jesus; (3) a divindade e a personalidade do Espírito Santo; e (4) a Trindade na história do adventismo. Para que os textos não sejam excessivamente longos e pensando nos leitores que queiram se aprofundar no assunto, foram colocados links para conteúdos extras. O pastor Eleazar, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju. – MB]

Ao longo da minha trajetória nestes dez anos como pastor adventista do sétimo dia, já passei por diversas experiências desconfortáveis com variados grupos dissidentes. Os antitrinitarianos vez ou outra nos interpelam com seus questionamentos, querendo nos colocar “contra a parede”, assim como os fariseus faziam com Cristo. Abaixo estão algumas das perguntas mais recorrentes a respeito da Trindade e as repostas que eu costumo oferecer:

PERGUNTA 1: Nos dias em que o Messias esteve neste mundo qual era a crença predominante entre os professores ou mestres em Israel? (1) Unicismo: modalismo, que advoga que existe um Deus, o qual Se manifesta em três essências ou modos (Pai, Filho e Espírito Santo)? (2) Trindade, que defende que o Eterno é três pessoas distintas que compartilham a mesma natureza? (3) Monoteísmo, que advoga que o Eterno é um ser indivisível, um só, único, ímpar, singular e incomparável? Lembrando que estamos falando de um povo estritamente imerso em uma tradição milenar de forte tendência à oralidade. No relato de Marcos, capítulo 12, Jesus profere o Shemá Israel como resposta à pergunta de um mestre da Torá de qual seria a maior Mitzvah (instrução, mandamentos), conforme consta nos versos 28 (pergunta) e 29 (resposta de Jesus). Ao responder com o Shemá Israel logo em seguida, o mestre disse que Jesus dera uma boa resposta. A pergunta que eu faço é: Se a crença verdadeira é o monoteísmo unicista ou monoteísmo trinitariano, não era uma boa oportunidade para Jesus corrigir aquele mestre? Obs.: O teólogo José Carlos Ramos diz que “o termo Trindade foi usado pela primeira vez por Teófilo de Antioquia no 2o século.

RESPOSTA: Talvez o maior problema de quem advoga o antitrinitarianismo seja a descontextualização, i.e., a análise de apenas parte do texto esquecendo o restante. Veremos abaixo o restante do texto esquecido pelo amigo, como também as correlações existentes entre ele e os livros de Salmos e Hebreus.

O primeiro aspecto frágil a ser analisado nessa proposta levantada pelo amigo (mesmo ele não tendo mencionado, mas está subtendido em sua fala) é a crença de que o termo echad tem apenas um sentido, um significado: “único”. Não obstante, em vários outros textos da Torah (Pentateuco), Neviim (Profetas) e Ketuvim (Escritos) extrai-se também o conceito de pluralidade para a termo. Os exemplos são os mais diversos:

  1. A junção de duas partes – tarde e manhã – na formação de um echad, dia (Gn 1:5).
  2. A união matrimonial entre o homem e a mulher, quando os dois são chamados “uma (echad) só carne” (Gn 2:24).
  3. O povo era um echad e ao mesmo tempo muitos (Gn 11:6); um echad coração, mas era uma multidão (2Cr 30:12).
  4. No novo concerto, Deus deu a todos os crentes, seu povo, um echad coração (Jr 32:39), mas eles são muitos.

É importante ressaltar que o termo echad não tem a significação apenas de uma unidade composta; ele pode ser traduzido por “um” como uma unidade simples e básica. Entretanto, é um termo que permite a dupla tradução, i.e., pode ser usado das duas formas. Contudo, há outro termo hebraico que não permite a tradução de uma unidade composta: yachid. Esse termo só é traduzido por “um” no sentido de “único”, ele não permite o uso para uma unidade composta. Sendo assim, fica o questionamento: se Moisés quisesse enfatizar um Deus único no sentido de ser apenas uma pessoa, o melhor termo a ser empregado não seria yachid? Por que usou o termo echad que permite uma segunda tradução? Isso é, no mínimo, curioso.

Alguns tentam apelar para o texto em que Deus diz “toma agora o teu filho, o teu único (yachid) filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu Te direi” (Gênesis 22:2), para tentar mostrar que também teria um sentido composto, uma vez que Abraão também tinha Ismael como filho. É necessário dizer que qualquer estudante da língua hebraica sabe que isso não é verdade. Quando o texto menciona Isaque como único (yachid) filho, é literal no sentido de ser o único legítimo, o único filho da promessa. Não havia outro filho legítimo de Abraão com Sara; não havia dois filhos da promessa. É nesse sentido que yachid é usado em Gênesis 22:2. [Sobre echad e yachid, leia mais aqui, aqui, aqui e aqui.]

Dito isso, entendemos que Cristo afirmou o que todo cristão deve dizer, e não há erro nenhum nisso nem nas palavras do escriba: “Há um (echad) só Deus, e não há outro além dEle.” Todo cristão trinitariano crê nisso. Há apenas um Deus, manifesto em três pessoas. Entretanto, nota-se que o amigo desconsiderou os versos subsequentes da narrativa de Marcos. Se propositalmente, não se sabe, mas segue-se abaixo a análise que vai dos versos 35 a 37:

“E, falando Jesus, dizia, ensinando no templo: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi? O próprio Davi disse pelo Espírito Santo: “O Senhor disse ao Meu Senhor: Assenta-Te à Minha direita até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés. Pois, se Davi mesmo lhe chama Senhor, como é logo seu filho? E a grande multidão O ouvia de boa vontade.”

Nesse relato Cristo reivindica Sua autoridade como Senhor no Antigo Testamento. Ele faz uma referência ao Salmo (Tehilim) 110:1. Ali aparecem dois Senhores. Um deles é Cristo. Confirmando essa teologia linda que permeia toda a Bíblia, Paulo, ao escrever em Hebreus, diz: “E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à Minha destra, até que ponha a Teus inimigos por escabelo de Teus pés?” (1:13). Aqui Paulo faz referência a Cristo como o Senhor que aparece no Salmo (Tehilim) 110:1. Ou seja, além de o próprio Cristo Se identificar como o Senhor do Salmo 110, Paulo ratifica as palavras de Cristo. O mais interessante é que nos versos anteriores o autor de Hebreus usa ainda outro Salmo, o 45:6 e 7, em que apresenta Cristo como Deus:

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o Teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; cetro de equidade é o cetro do Teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o Teu Deus, Te ungiu com óleo de alegria mais do que a Teus companheiros” (Hb 1:8, 9).

Claramente Cristo é identificado como Deus no livro de Hebreus, pois o verso 8 inicia dizendo que “do Filho diz: Ó, Deus”. No texto hebraico temos a expressão Elohim duas vezes. Uma provável referência a Cristo e ao Pai, como se vê abaixo:

אָהַבְתָּ צֶּדֶק וַתִּשְׂנָא רֶשַׁע עַל־כֵּן מְשָׁחֲךָ אֱלֹהִים אֱלֹהֶיךָ שֶׁמֶן שָׂשׂוֹן מֵחֲבֵרֶיךָ

Portanto, o relato de Marcos não retira de Cristo Sua divindade, ao contrário, o correto entendimento dos termos e a análise contextual dos versos correlatos permitem claramente a identificação de Cristo como o ser divino, o Deus do Tehilim, identificado e interpretado pelo autor inspirado de Hebreus.

O amigo expressa o contexto cultural judaico como sendo de extrema valia teológica. Não obstante, esquece que esse mesmo contexto cultural judaico estava tão distante da verdadeira teologia que rejeitaram o Messias. A Mitzvah é uma amostra de quanto a tradição estava impregnada na mentalidade judaica, que praticamente havia suplantado a teologia do Antigo Testamento. Não se pode afirmar categoricamente que havia um claro ensino defendido pelos judeus acerca da Trindade (apesar de fortes evidências serem encontradas no Antigo Testamento a respeito dessa doutrina).

Da mesma forma muitas outras doutrinas não eram ensinadas por eles e também não têm tanta ou mesmo nenhuma ênfase no Antigo Testamento, mas foram estabelecidas ao longo da era neotestamentária. Poderíamos citar o batismo, a santa ceia; havia fortes discrepâncias também entre a crença da ressurreição defendida pelos fariseus e atacada pelos saduceus, bem como grandes discrepâncias entre as principais escolas rabínicas da época (Hillel e Shamai) acerca da questão do divórcio e novo casamento. A lista é grande das doutrinas e crenças não abordadas no Antigo Testamento de maneira clara, e muitas delas não são defendidas pela comunidade judaica em sua inteireza.

Cristo cita Deuteronômio da forma como está, e provavelmente na língua hebraica (forma comum como um judeu citava as Escrituras). Não há dificuldade em citar o texto tal como ele está (o termo echad não oferece dificuldade à doutrina). O fato de Cristo citá-lo e não explicá-lo, como o amigo gostaria que Ele tivesse feito, e talvez o amigo considere que Cristo tenha perdido uma grande oportunidade de ensinar a Trindade, eu credito à grande sabedoria do Mestre. Jesus sempre soube o momento certo de falar. Não podemos fundamentar uma doutrina ou destruí-la com base no silêncio de Cristo. Uma doutrina não se baseia no silêncio.

Há outras ocasiões em que Cristo silenciou e não deu explicações que talvez considerássemos cruciais que Ele o tivesse feito. Mas Ele sabia e sabe melhor do que nós. Nunca Se calou quando considerou prudente falar e nunca falou quando considerou prudente Se calar. Portanto, não desacredito na doutrina bíblica da Trindade tão somente porque Cristo Se calou quando acho que Ele deveria ter falado. Minha crença também não se fundamenta no que a comunidade judaica da época de Cristo acreditava ou não (eles não eram parâmetro doutrinário em tudo). Minha crença se baseia nas inúmeras provas bíblicas (AT e NT) que, de forma contundente, abordam o conceito trinitário, independentemente da mentalidade judaica contemporânea de Cristo.

Quanto à última parte de seu questionamento, em que você usa a fala do Dr. José Carlos Ramos para mostrar que o termo Trindade foi usado pela primeira vez no século II, isso não diminui em nada a crença nessa doutrina bíblica. O termo “cristãos” foi utilizado pela primeira vez só em Atos 11:26, quando, depois das muitas perseguições, eles foram para a região de Antioquia. Lá, depois de algum tempo ensinando as pessoas, eles foram chamados “cristãos” pela primeira vez. Pergunta: Será que antes eles não eram cristãos? Não eram seguidores de Cristo só porque foram assim denominados posteriormente? Poderíamos afirmar, então, que todos aqueles que viveram antes da nomeação em Antioquia não eram cristãos? Só podemos considerar cristãos os que viveram após o reconhecimento que os moradores de Antioquia fizeram? Claro que não! Apesar de o nome surgir depois, o conceito e as evidências dos seguidores de Cristo já eram uma realidade. Da mesma forma, mesmo que o vocábulo Trindade tenha aparecido apenas no século II, isso não invalida o conceito de um Deus trinitário, presente em todo o cânon bíblico.

PERGUNTA 2: Se a Trindade existe, por que na Bíblia não existe a palavra Trindade? Desafio você a me mostrar a palavra Trindade uma só vez na Bíblia; aí eu crerei na Trindade.

RESPOSTA: Há muitas palavras que não estão na Bíblia e que foram criadas a posteriori, mas que carregam os conceitos que levaram a sua criação, por exemplo: as expressões “milênio”, “encarnação de Cristo”, a própria “Bíblia”, “soteriologia”, etc. Se quisermos aceitar as doutrinas bíblicas apenas se forem acompanhadas de nomes, então não acreditaremos na soteriologia (doutrina da salvação), não acreditaremos na encarnação de Cristo, no milênio, e rejeitaremos a própria Bíblia, porque na Bíblia não tem a palavra “Bíblia”! O mais importante é saber que para todas as expressões acima há um claro conceito bíblico que as sustenta. Da mesma forma, o termo “Trindade” carrega um conceito bíblico da existência da Divindade em três pessoas.

A palavra Trindade vem do latim Trinitas, cunhada por Tertuliano no segundo século d.C. Ainda que não seja um termo bíblico, ele representa bem a solidificação do ensino da Bíblia que nos esclarece acerca dos membros da Divindade – Pai, Filho e Espírito Santo. [Para mais informações sobre esse tema, leia aqui, aqui e aqui.]

PERGUNTA 3: A Trindade é um dogma católico e surgiu no concílio de Niceia. Por que dar crédito a um dogma pagão?

RESPOSTA: Em primeiro lugar, a doutrina da Trindade em que nós cremos como adventistas do sétimo dia não se baseia na Igreja Católica ou no Concílio de Niceia. Todo corpo doutrinário da Igreja Adventista foi extraído da Bíblia, nossa única regra de fé. Em segundo lugar, dizer que a doutrina da Trindade surge em Niceia é uma demonstração clara de ignorância nesse assunto. Como já mencionado na resposta à pergunta 2, o termo “Trindade” foi cunhado por Tertuliano na última década do segundo século d.C., isso cerca de 113 anos antes do concílio de Niceia. Além do mais, a expressão e o conceito trinitário já eram ensinados por vários “pais pré-nicenos”, como Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, o próprio Tertuliano, Hipólito e Orígenes. Portanto, a alegação de que a doutrina da Trindade surgiu no concílio de Niceia demonstra ser apenas mais uma falácia antitrinitariana. [Sobre essa questão, leia mais aqui, aqui e aqui.]

Jesus é realmente Deus eterno?

Jesus“E a vida eterna é esta: que Te conheçam, a Ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” João 17:3

Que o Jesus histórico realmente existiu é praticamente indiscutível (confira aqui), já a divindade e eternidade dEle é tema de debates inclusive no meio cristão. Na verdade, a doutrina bíblica da Trindade tem sido atacada há muito tempo. Satanás usa duas frentes principais em seu ataque à Divindade: (1) como não pode negar a personalidade de Jesus, ele desqualifica a divindade dEle; (2) como não pode negar a divindade do Espírito Santo, ele desqualifica a personalidade dEle (mas este ponto dois ficará para outra ocasião). As pessoas que negam a Trindade dizem que Jesus não é Deus eterno, que veio à existência em algum momento; e o Espírito Santo é apenas a força de Deus, o poder de Deus. Alguns dizem que o Espírito Santo é o próprio Pai, outros que é Jesus, outros ainda sustentam que o Espírito Santo é o Espírito compartilhado pelo Pai e pelo Filho.

Em sua tentativa de provar que Cristo não é Deus em Sua plenitude, alguns dizem que Jesus é Deus por geração. Na verdade, esse é um termo que usam para dizer que Cristo não foi criado, mas gerado. A questão é: a palavra pode até ser diferente, mas o conceito é o mesmo – Cristo veio à existência de alguma forma e houve um momento na eternidade em que Ele não existia. O Pai O trouxe à existência, seja por geração ou criação, não importa. Aqui está o primeiro grande erro: Deus não é um ser que pode ser criado ou gerado. Esse é o conceito grego, quando falavam de suas divindades. A Bíblia nega o conceito de uma divindade que não possui a eternidade. Ser Deus implica necessariamente ser eterno, tanto para frente quanto para trás. Se foi criado, não é Deus. Se foi gerado (no sentido de vir à existência e não no sentido bíblico de entronização), não é Deus. Deus é eterno.

Quando a Bíblia diz “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”, em Hebreus, está fazendo alusão ao Salmo 2:7, onde se fala da entronização de Davi. Davi não foi gerado naquele dia em que escreveu o Salmo 2 (no sentido de ter nascido ou vindo à existência), assim como Jesus, em Hebreus. Portanto, o verbo “gerar” não pode implicar em vir à existência, mas o contexto é claro em mostrar que se trata da entronização.

Cristo é Deus? É eterno? Sim, a Bíblia diz que sim:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os Seus ombros, e Se chamará o Seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Como o Pai da Eternidade, aquele que cria a eternidade, não seria eterno?

Vejamos a seguir alguns textos de Ellen White sobre a divindade e eternidade de Cristo:

“Ao falar de Sua preexistência, Cristo faz o pensamento remontar aos séculos eternos. Ele nos assegura que nunca houve um tempo em que não estivesse em íntima ligação com o Deus eterno. Aquele cuja voz os judeus estavam então ouvindo estivera com Deus como Alguém que Se achava em Sua presença” (Signs of the Times, 29 de agosto de 1900).

“Antes de serem criados homens ou anjos, a Palavra [ou Verbo] estava com Deus, e era Deus. O mundo foi feito por Ele, ‘e sem Ele nada do que foi feito se fez’ (João 1:3). Se Cristo fez todas as coisas, existiu Ele antes de todas as coisas. As palavras faladas com respeito a isso são tão positivas que ninguém precisa deixar-se ficar em dúvida. Cristo era, essencialmente e no mais alto sentido, Deus. Estava Ele com Deus desde toda a eternidade, Deus sobre todos, bendito para todo o sempre. O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai. Era Ele a excelente glória do Céu. Era o Comandante dos seres celestes, e a homenagem e adoração dos anjos era por Ele recebida como de direito. Isto não era usurpação em relação a Deus” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 247, 248).

O que significa toda eternidade? Toda é toda! Ou seja, precisamos aceitar que:

  1. Nunca houve um tempo em que Cristo não estivesse com o Pai. E nunca é nunca mesmo.
  2. Ele é Deus no mais alto sentido, portanto não pode ter vindo à existência de alguma forma, porque Deus não nasce, Deus é.
  3. Estava com o Pai desde toda eternidade. Toda é toda. Se você pudesse viajar a qualquer ponto da eternidade, lá estaria Jesus. Se Ele não estivesse, Ellen White seria mentirosa, pois ela disse toda eternidade.

A Bíblia diz que Deus existe de eternidade a eternidade. Claramente o texto está falando de eternidade pretérita e eternidade futura. Veja: “Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). De quem esse texto está falando? Quem é esse ser eterno para frente e para trás? Veja o que diz Ellen White:

“‘Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus’ (Salmo 90:2). ‘O povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou’ (Mateus 4:16). Aqui se apresentam a preexistência de Cristo e o propósito de Sua manifestação ao mundo, como raios vivos de luz do trono eterno. ‘Agora ajunta-te em esquadrões, ó filha de esquadrões; pôr-se-á cerco contra nós: ferirão com a vara no queixo ao juiz de Israel. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade’ (Miqueias 5:1, 2)” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 248).

Portanto, qualquer tentativa de mostrar que Cristo não é Deus eterno, que Ele foi gerado e que não existia desde sempre com o Pai é apenas um esforço maligno para distorcer essa verdade tão bela da plena divindade e eternidade de Jesus. Ele é Deus, sempre existiu, sempre foi um com o Pai, sempre esteve com Ele. Ele é o YHWH do Antigo Testamento. Como disse a serva do Senhor falando de Jeová, aquele que aparece no Antigo Testamento: “Jeová é o nome dado a Cristo” (Signs of the Times, 3/5/1899).

(Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica e criador do blog Adventistas Trinitarianos. Atualmente é pastor distrital em Aracaju)

Veja também: Mitos e fatos sobre a Trindade na Igreja Adventista” e Os adventistas e a Trindade”

Ele vive! Evidências da ressurreição de Cristo

A polêmica “Bíblia White”

BibliaWhite[Muitas pessoas têm perguntado nas redes sociais se a recém-lançada “Bíblia White” se trata de uma produção oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, uma espécie de tradução particular como a Novo Mundo, das Testemunhas de Jeová. A resposta é “não”, e quem explica tudo aqui é o jornalista e estudante de Direito Davi Boechat, que investigou o assunto. Esta é uma análise meramente editorial e acadêmica, feita por um estudioso, como se poderia fazer com qualquer outra publicação, e nada tem que ver com a vida pessoal das pessoas citadas. O próprio organizador da “Bíblia White” fez críticas à “Bíblia de Estudos Andrews”, essa, sim, distribuída oficialmente pela Igreja Adventista.]

Meses atrás, uma parceria entre movimentos dissidentes da Igreja Adventista do Sétimo Dia resultou no lançamento de um projeto audacioso: a publicação de uma Bíblia de estudos com notas de Ellen G. White, algo inédito em língua portuguesa. A obra foi nomeada de “Bíblia White” e é resultado de uma parceria firmada entre o Instituto Bíblico de Capitólio (IBC) e do Instituto de Agricultura de Evangelismo (IAGE), ambos sediados no interior de Minas Gerais. As entidades, que andam de mãos dadas também em outros projetos, têm em comum a defesa enfática da Teologia da Última Geração (TUG), que sustenta ideias heterodoxas sobre os conceitos de pecado, salvação e perfeição cristã, dentre outros temas teológicos de pouca flexibilidade para discussão.

A “Bíblia White” é um similar nacional da “Remnant Study Bible”, editada por norte-americanos alinhados com a TUG e vendida nos Estados Unidos com edições em inglês e espanhol desde 2012. Como Bíblias de estudo, ambas reúnem breves textos explicativos (nesse caso, citações de EGW) que correspondem a versos bíblicos presentes na mesma página. O projeto brasileiro, entretanto, conta com uma considerável distinção. Além das notas de White, a obra traz ainda uma tradução inédita da Bíblia em língua portuguesa.[1] Nomeada Almeida Antiga (AA), a versão também foi preparada pela coalização IAGE/MV, algo pouco comum quando o assunto são Bíblias de estudo.[2]

O lançamento da “Bíblia White” aconteceu em 2018, durante o Congresso MV, evento itinerante que reúne seguidores da TUG no Brasil. A apresentação da novidade, que levou dois anos para ser preparada, foi feita por Daniel Silveira, organizador do MV, fundador do IBC e um dos responsáveis pela preparação da “Bíblia White”.

O processo de impressão, realizado em uma gráfica no Paraná, foi narrado ao vivo através das redes sociais por Silveira. No vídeo, ele chegou a afirmar: “Aulas de homilética, hermenêutica, exegese […] toda essa sabedoria humana nos impede de encontrar as preciosas gemas da verdade”, uma indiscutível demonstração de desprezo para com alguns dos conhecimentos envolvidos na tradução de uma Bíblia.

Com essa frase, Silveira fez uma declaração preocupante para alguém que encabeçou uma equipe editorial. Em certo sentido, ele parece crer que a ignorância impulsiona a busca pela verdade. Talvez por essa razão sinta-se habilitado para tal serviço. Para Silveira, o chamado para a reforma não acontece apesar da incapacidade, mas por causa dela. A falta de conhecimento, para Silveira, é vantagem. Seguindo essa lógica, o que diríamos de Lutero, um doutor em línguas bíblicas? Assim, proponho um bom lema para a Almeida Antiga: “E não conhecereis as técnicas, a ignorância os libertará.”

A citação de Silveira, transcrita acima, me parece suficiente para que sejam levantadas dúvidas a respeito da lisura e precisão da tradução Almeida Recebida, bem como de toda a “Bíblia White”. E é pela análise de tal tradução que começo minhas avaliações dessa obra.

TRADUÇÃO PRECÁRIA. O maior problema da “Bíblia White” está na tradução, produto de um trabalho extremamente amador. Como visto acima, Silveira, um dos responsáveis pela obra, desdenha de métodos e conhecimentos acadêmicos necessários para a tradução de uma Bíblia. Silverino Kull, diretor do IAGE, segue a mesma linha do parceiro e rejeita também a validade dos estudos, especialmente os da área de crítica textual, ciência que visa a reconstruir com o ajuntamento de evidências textos antigos que tiveram os originais perdidos, caso da Bíblia. Em resposta às objeções levantadas na primeira versão deste texto – que, para minha surpresa, circulou por todo o Brasil, apesar de inicialmente ter sido publicado em um grupo fechado –, disse Kull: “Não importa o que a alta crítica ou os estudiosos e linguistas falem, o que prevalece é a inspiração, e Ellen White disse que a King James foi sim a melhor tradução.”[3]

A afirmação de Kull, entretanto, encontra conflitos com uma declaração do Centro White a respeito das traduções bíblicas utilizadas por Ellen: “Mesmo sendo costume de Ellen White usar a King James Version, ela fez uso ocasional de outras traduções inglesas que estavam se tornando disponíveis em seus dias. Contudo, ela não comenta diretamente sobre os méritos dessa ou daquela versão, mas fica claro pela sua prática que ela achava desejável que se fizesse uso da melhor versão disponível da Bíblia. Por exemplo, em seu livro A Ciência do Bom Viver, Ellen White empregou oito textos da English Revised Version (ERV), 55 da American Revised Version (ARV), dois da tradução de Leeser, e quatro de Noyes, além de sete variantes marginais. Entretanto, em suas pregações, Ellen White preferia usar a linguagem da King James Version porque era a mais familiar para os seus ouvintes.”[4] Cabe dizer que a ERV e ARV não são baseadas no Textus Receptus, ardorosamente defendido por Kull e Silveira, e foram, sim, utilizados por Ellen White. Mais do que isso, diz o Centro White, a preferência de Ellen pela KJV seria por conta da familiaridade do público, não de sua superioridade.

Kull e Silveira, que admitem não ter domínio ou familiaridade com as línguas bíblicas – e talvez por isso desdenhem dos conhecimentos técnicos –, exaltam a suposta superioridade de sua Almeida Antiga (AA) defendendo uma pretensa fidelidade superior, baseada no Textus Receptus, em detrimento das demais traduções atualmente disponíveis em português. Silveira, aliás, citou nominalmente em vídeo as versões publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) como não sendo confiáveis. Se considerado o Textus Receptus como balizador para a qualidade, dentro do catálogo de versões disponibilizadas pela SBB, a Almeida Revista e Corrigida, seria a mais próxima do ideal. Entretanto, mesmo tendo sido baseada no Textus Receptus, utiliza-se de outros manuscritos em alguns trechos. Apesar disso, outras opções em língua portuguesa preenchem tais requisitos. Feita inteira e exclusivamente a partir do Textus Receptus, a Almeida Corrigida Fiel, da Sociedade Bíblica Trinitariana, seria uma boa opção. Outra possibilidade seria a tradução King James 1611, da BV Books. Ambas são traduções em nosso idioma que prezam pelo uso exclusivo do Textus Receptus. Se esse fosse o critério, elas deveriam ser consideradas opções válidas para a “Bíblia White”. Entretanto, em nenhuma delas poderia haver qualquer modificação, por mínima que fosse. Assim, as “correções” criativas de Silveira (como em João 5:32) não seriam admitidas no texto. O uso irrestrito do Textus Receptus, conforme exposto, não pode ser colocado como uma novidade trazida pela Almeida Antiga.

Cabe dizer ainda que a AA é resultado de uma comparação entre a tradução de Almeida (1848) e a King James Version (1611), conforme dito pelo próprio Silveira na apresentação da Bíblia White, com algumas correções ortográficas e mudanças realizadas por conveniência teológica, conforme será exposto mais adiante. É possível dizer que a AA se trata de uma paráfrase, um arremedo de traduções. Não se trata de uma versão proveniente do tão exaltado Textus Receptus, mas de traduções dele derivadas.

Outra afirmação questionável é a de que o Textus Receptus é o mais confiável de todos os manuscritos disponíveis. Essa informação contraria eruditos da área. Michael J. Gorman, por exemplo, avalia que a KJV foi baseada em manuscritos sabidamente menos confiáveis nos dias de hoje: “Desde 1611, muitos manuscritos mais antigos e melhores da Bíblia foram descobertos, e a pesquisa moderna na área de crítica textual […] nos deu uma base diferente de textos originais para traduzir do que a usada pelos tradutores da KJV. Isso significa que uma exegese baseada nessa versão poderá, por vezes, analisar uma ou mais palavras, frases ou versículos que não aparecem no texto original bíblico.”[5]

O erudito adventista Johannes Kovar, em artigo para o Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral, destaca a história do Textus Receptus para questionar o valor superestimado que lhe é atribuído. “Para a publicação de seu texto, Erasmo [de Roterdã (1467-1536)] confiou em [apenas] seis manuscritos datados dentre os séculos XI e XV [ou seja, cópias com afastamento superior a mil anos desde que o texto foi escrito], estando bem ciente de sua qualidade inferior. Nenhum desses manuscritos era completo, e Erasmo mudou o texto grego aqui e ali, frequentemente de acordo com a Vulgata Latina. Os manuscritos que Erasmo usou, incluindo as anotações que fez neles, ainda existem, de forma que seu trabalho pode ser analisado de maneira relativamente fácil.”[6]

Também adventista, o brasileiro Wilson Paroschi afirma que com a descoberta de manuscritos mais antigos, o trabalho de Erasmo em seu Textus Receptus perdeu espaço: “Apesar de os críticos ainda divergirem com relação a algumas das teorias textuais, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, sob os mais violentos protestos, romperam definitivamente com o Texto Recebido.”[7]

Em seu livro, Paroshi desmonta ainda algumas das argumentações de Silveira a respeito das diferenças entre o texto da Almeida Antiga e traduções contemporâneas, tecnicamente chamadas de variantes textuais. Silveira afirma que as novas traduções estão retirando trechos bíblicos inteiros e reage dizendo, também em vídeo: “Nós queremos a Bíblia inteira, não adulterada, não cropada.” Ele dá Mateus 6:13 como exemplo de texto bíblico “depenado” em versões modernas, mas que se encontra intacto na Almeida Antiga, dizendo que o trecho “Porque Teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre, Amém” desapareceu.

Sobre o verso, entretanto, crítico textual afirma: “Na tradição protestante, a oração termina com a doxologia ‘pois Teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém’, que está ausente na tradição católica. E parece que esta é a que está correta, tanto que as modernas edições evangélicas da Bíblia já estão omitindo essa leitura. […] As evidências documentais, portanto, sugerem que a doxologia do Pai-nosso consiste num acréscimo posterior.[8] Em outras palavras, o trecho que Silveira reivindica, na realidade, não estava presente nos originais bíblicos. A retirada consiste, portanto, em um texto mais fiel, e não menos, como defendido por ele.

INTERPRETAÇÕES DENOMINACIONAIS. Outro problema sério da tradução são os trechos editados de modo a facilitar a utilização de textos-prova.[9] João 5:39 é um bom exemplo da criatividade mostrada na AA. Nesse verso, houve uma mudança arbitrária no tempo verbal para favorecer a interpretação de que Jesus teria recomendado o estudo da Bíblia, quando, na verdade, condenava a deturpação que era feita por intérpretes que, mesmo estudando, não encontravam a Cristo. Na AA é grafado: “Examinai as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de Mim.” No vídeo de apresentação da Bíblia, Silveira chama atenção para a mudança que fez no texto dizendo que sua mudança discorda até mesmo das edições que ele usou como prova. Entretanto, mais uma vez Silveira errou. No grego, o verbo se encontra na segunda pessoa do plural do presente do indicativo, não no imperativo. Jesus chamou Seus ouvintes a constatar seus estudos nEle e não para que eles se aprofundassem em seus estudos. A fala de Jesus tem que ver com a cegueira e não com a falta de conhecimento.

Outra mudança lamentável é a de Mateus 28:19. A ordem de Jesus com “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações” (NVI) é traduzida por “Ide, portanto, ensinai todas as nações”. Silveira justifica tal mudança dizendo que discipulado “tem a ver com coaching”, e que a tradução correta é “ensinai”, uma vez que é assim que está na KJV. Mais uma vez Silveira pisa no Textus Receptus, no qual o verbo grego encontrado aponta para o equivalente em português a “discípulos” e não “ensino”.

Com os exemplos supramencionados, pode-se ver que tais adaptações de conveniência adotadas nos textos lembram muito a tradução Novo Mundo, das Testemunhas de Jeová. Temos, portanto, elementos abundantes para reprovar essa tradução da “Bíblia White” com veemência.

PODERIA SER DIFERENTE. Acredito que uma alternativa que daria algum ar de legitimidade ao trabalho do IAGE/MV com a “Bíblia White” seria a publicação de um volume de comentários separados dessa tradução trágica, como já foi feito no passado pela extinta Review and Herald (se bem que a publicação de textos de Ellen White em novos volumes deve contar sempre com a aprovação dos Depositários do Patrimônio Literário White). Ainda hoje esse material é vendido nos Estados Unidos.[10] Isso não daria margem para interpretações incorretas no que diz respeito à falsa equidade entre os escritos de White e a Bíblia.

Por fim, a Bíblia White apresenta-se com falhas graves provenientes de um trabalho editorial ineficaz. Lamentavelmente, essa obra será recebida com tapete vermelho por alguns adventistas desavisados. Mal sabem que se trata de um “cavalo de Troia”. Se não podemos confiar na tradução, o que dizer da compilação dos Testemunhos realizada? Mas isso é assunto para outra oportunidade.

Davi Boechat trabalhou no Correio da Lavoura, Jornal de Hoje e Conecta Baixada, veículos da Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio de Janeiro; atualmente cursa Direito na Universidade Iguaçu (UNIG)

Referências:

  1. “Daniel Silveira, agricultor em Capitólio MG, começou seus trabalhos na “Bíblia White” em 2016, partindo da versão Almeida Recebida, de domínio público. […] Em seguida foi feito um trabalho de comparação e igualação à versão em inglês King James (KJV) de 1611 em grandes extensões do texto bíblico, especialmente nos profetas do Antigo Testamento, por Daniel Silveira. Onde EGW lança luz sobre um texto em que mesmo na King James de 1611 está errado, também foi efetuada a correção.” Disponível em: http://bibliawhite.org/sobre
  1. Em geral, editoras que lançam Bíblias para estudo optam por traduções consagradas e conhecidas no mercado editorial, geralmente com o reconhecimento de sociedades bíblicas. A “Bíblia de Estudos Andrews”, publicada pela Casa Publicadora Brasileira, por exemplo, utiliza a versão Almeida Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil. A própria “Remnant Study Bible” é disponibilizada em duas versões: além da clássica King James Version, que está em domínio público, conta ainda com uma edição que utiliza a New King James Version, licenciada pela Thomas Nelson Publishers.
  1. Esse texto é parte de uma mensagem enviada por Kull a Reginaldo Castro.
  1. Centro White. “Ellen White usou outras traduções de Bíblia além da King James Version?” <disponível em: http://www.centrowhite.org.br/perguntas/perguntas-sobre-ellen-g-white/os-ensinos-de-ellen-g-white/>
  1. Introdução à Exegese Bíblica, p. 71, Thomas Nelson Brasil.
  1. “O ‘Textus Receptus’ e as traduções modernas da Bíblia.” <Disponível em: https://adventistbiblicalresearch.org/pt-br/materials/bible-canon-and-versions/o-%E2%80%9Ctextus-receptus%E2%80%9D-e-tradu%C3%A7%C3%B5es-modernas-da-b%C3%ADblia>
  1. Crítica Textual do Novo Testamento, p. 123, 124, Edições Vida Nova.
  1. Para uma definição de hermenêutica texto-prova e sua influência no meio adventista, consulte o artigo de Isaac Malheiros “Dicta Probantia: Uma Reflexão sobre o uso de ‘textos-prova’ na hermenêutica adventista” <Disponível em: http://www.seer-adventista.com.br/ojs/index.php/hermeneutica/article/view/495>
  1. Ellen G. White Comments from the Seventh-day Adventist Bible Commentary <Disponível em: https://www.adventistbookcenter.com/ellen-g-white-comments-from-the-seventh-day-adventist-bible-commentary.html>
  2. https://www.adventistbookcenter.com/ellen-g-white-comments-from-the-seventh-day-adventist-bible-commentary.html