O sexo das telas que destrói o da cama

computerO consumo crescente de pornografia tem trazido sérios problemas para a saúde sexual, emocional e física de homens e mulheres

Quando as pedras começam a gritar é porque passou da hora de dar atenção ao assunto. Por algum tempo, a mídia secular e terapeutas, digamos, mais liberais diziam que consumir pornografia não faz mal e poderia até ajudar a “apimentar” relacionamentos. Mas nada como um dia depois do outro e uma pesquisa depois da outra. Bem, para um cristão seria chover no molhado dizer que é pecado contemplar outras pessoas fazendo sexo, afinal, Jesus disse que é possível adulterar mesmo em pensamento. Mas, quando revistas que não se pautam pela moralidade ou que se caracterizam apenas pelo jornalismo começam a tratar dos malefícios do consumo do “sexo das telas”, isso significa que realmente as pedras estão gritando.

Uma dessas matérias foi publicada pela revista VIP, em julho de 2017, com o título “Pornografia: quando o hábito acaba prejudicando o sexo real”. Uma das entrevistadas, a terapeuta sexual Margareth dos Reis, diz que, “ao ver filmes com cenas explícitas de sexo, as pessoas podem ter a ilusão de que não serão afetadas por tantos estímulos. Mas não há dúvida de que as representações irrealistas em pornografia podem alterar as expectativas sexuais dos homens e causar problemas no sexo real”.

A outra matéria, com o título “O cérebro pornô: estamos diante de um novo vício?”, foi publicada pela revista Veja em 9 de outubro de 2017. A semanal explica que “as imagens [pornográficas] causam descargas de dopamina […]. Como um cérebro saudável não está habituado a tamanha saraivada de estímulos, sua reação é eliminar alguns receptores de dopamina […] e a pornografia que antes excitava torna-se sem graça. Há, portanto, a necessidade do aumento exponencial de dopamina para que se atinja o mesmo patamar de prazer experimentado anteriormente. […] Tem início um círculo vicioso, de compulsão e desespero, de picos e de insatisfação e insensibilidade.”

Levando em conta todo esse potencial viciante e destruidor da sexualidade sadia, os números se tornam ainda mais alarmantes. Em 1985, 92% dos garotos de 15 anos tinham acesso a conteúdo erótico pela primeira vez com a revista Playboy. Em 2008, 74% dos rapazes da mesma idade acessavam sites com sexo explícito (dados da Universidade de Arkansas, EUA). Os rendimentos anuais da indústria pornográfica chegam perto dos 15 bilhões de dólares, nos Estados Unidos, e quase 100 bilhões ao redor do mundo. Essa indústria é maior do que Microsoft, Google, Amazon, eBay, Yahoo!, Apple, Netflix e EarthLink juntas. Perto de 50 milhões de norte-americanos adultos visitam regularmente sites de sexo virtual. De acordo com o National Council on Sexual Addiction and Compulsivity (Conselho Nacional sobre o Vício e a Compulsividade Sexuais), existem mais de 20 milhões de viciados em sexo nos Estados Unidos, 70% dos quais afirmam ter problemas de comportamento sexual virtual.

De acordo com pesquisas do Barna Group, quase 40% dos adultos acreditam não haver qualquer imoralidade em ver material de sexo explícito. Além disso, aproximadamente um a cada quatro acredita que não deveria haver restrições quanto à pornografia ou ao seu acesso. “Infelizmente, 28% dos cristãos acreditam que, mesmo com o que está escrito em Mateus 5:28, não há nada de errado em ver pornografia”, diz Regis Nicholl, colunista do site BreakPoint. “O mais triste é descobrir que por volta de 50% dos cristãos e 40% de seus pastores admitem ter problemas com a pornografia”, revela.

Ilusão – A ex-atriz pornô Shelley Lubben, em seu livro Truth Behind the Fantasy of Porn (A Verdade por Trás da Fantasia da Pornografia), afirma que a pornografia é “a maior ilusão do mundo”. Segundo ela, muitas mulheres desse universo bebem e usam drogas para poder fingir que gostam do que fazem. Embora a indústria do sexo tente pintar outra realidade, Shelley revela que “as mulheres estão com uma dor indizível por ser espancadas, cuspidas e xingadas. […] Pornografia é nada mais do que sexo falso, contusões e mentiras em vídeo. Confie em mim, eu sei”. No livro, Shelley traz testemunhos de outras ex-atrizes, como o de Michelle Avanti, que em sua primeira cena tentou voltar atrás: “Um ator disse que eu não poderia voltar atrás porque havia assinado um contrato”, disse Michelle. “Fui ameaçada de que se não fizesse a cena seria processada em uma enorme quantia em dinheiro. Acabei tomando doses de vodca para fazer a cena. Como eu fazia mais e mais cenas, abusei da prescrição de pílulas que me eram dadas a qualquer momento por diversos médicos em San Fernando Valley.”

Shelley diz que muitas mulheres acabam nesse mundo por culpa da extrema erotização da sociedade. “Onde mais poderia uma criança que foi hipersexualizada ter tanta atenção? Os olheiros da pornografia ficam à espreita pesquisando online por anos os perfis e predando as desavisadas fêmeas sexualizadas. Fingindo ser adolescentes ou admiradores do sexo masculino, postam palavras lisonjeiras […] e as adolescentes emocionalmente carentes rapidamente caem na armadilha.”

Jennifer Case é outra atriz que deixou a indústria do sexo, segundo ela, “pela graça de Deus”. Hoje ela também milita contra a pornografia e diz aos homens: “Há uma pessoa real do outro lado das imagens que você está vendo, e você está destruindo a vida dela e a vida dos filhos dela.” Numa entrevista para o site The Porn Effect, Case testemunha de sua própria experiência sobre os malefícios que a indústria pornográfica provoca nas mulheres envolvidas. Ela diz que ficou traumatizada, oprimida e se sentindo abusada. Assim como outras atrizes desse segmento, ela também se tornou viciada em drogas e precisava do dinheiro da pornografia para continuar alimentando o vício. Além disso, ela teve que lidar com doenças sexualmente transmissíveis. “Tive muitas infecções diferentes o tempo inteiro. Deixei Hollywood porque fiquei muito doente por causa da clamídia. Meu abdome doía tanto que tive que voltar para casa”, disse ela.

Pornography Addiction CG

Efeitos – Grande número de jovens consumidores de pornografia na internet está sofrendo de ejaculação precoce, ereções poucos consistentes e dificuldades de sentir desejo com parceiras reais, é o que afirma reportagem publicada na revista Psychology Today. Pesquisa feita pela Universidade de Pádua, na Itália, indicou que 70% dos homens jovens que procuravam neurologistas por ter um desempenho sexual ruim admitiam o consumo frequente de pornografia na internet.

Outros estudos de comportamento sugerem que a perda da libido acontece porque esses grandes consumidores de pornografia estão abafando a reposta natural do cérebro ao prazer. Anos substituindo os limites naturais da libido por uma intensa estimulação acabariam prejudicando a resposta desses homens à dopamina. Esse neurotransmissor está por trás do desejo, da motivação – e dos vícios. Ele rege a busca por recompensas. Uma vez que o prazer está fortemente ligado à pornografia, o sexo real parece não oferecer recompensa. Então essa seria a causa da falta de desejo em muitos homens.

William Struthers, da Faculdade Wheaton, explica que “os homens parecem ter sido feitos de tal maneira que a pornografia sequestra o funcionamento adequado de seu cérebro e tem efeito de longo prazo em seus pensamentos e vida”. Struthers é psicólogo com formação em neurociência e especialidade de ensino nas bases biológicas da conduta humana. No livro Wired for Intimacy: How Pornography Hijacks the Male Brain (Programado Para a Intimidade: Como a pornografia sequestra o cérebro masculino), ele se vale da neurociência para explicar por que a pornografia é uma grande tentação para a mente masculina. “A explicação mais simples da razão por que os homens veem pornografia (ou procuram prostitutas) é que eles são levados a procurar intimidade”, explica ele. O impulso para obter intimidade sexual foi dado por Deus e é essencial para os homens, reconhece ele, mas é facilmente mal direcionado. Os homens são tentados a buscar “um atalho para o prazer sexual por meio da pornografia” e acham que dá para se acessar esse atalho com facilidade.

Num mundo de pecado, a pornografia se torna mais do que uma distração e uma distorção da intenção de Deus para a sexualidade humana. Torna-se um veneno viciante. Struthers explica: “Ver pornografia não é uma experiência emocional ou fisiologicamente neutra. É fundamentalmente diferente de olhar para fotos em preto e branco do Memorial Lincoln ou olhar um mapa colorido das províncias do Canadá. Os homens são reflexivamente atraídos para o conteúdo de material pornográfico. Como tal, a pornografia tem efeitos de grande repercussão para estimular um homem à intimidade. Não é um estímulo natural. Atrai-nos para dentro. A pornografia é indireta e voyeurística em sua essência, mas é também algo mais. A pornografia é uma promessa sussurrada. Promete mais sexo, melhor sexo, infinito sexo, sexo conforme os desejos, orgasmos mais intensos, experiências de transcendência. […] [A pornografia] atua como uma combinação de múltiplas drogas.”

Segundo Struthers, quando o homem vê imagens pornográficas, essa experiência cria novos padrões na programação do cérebro, e experiências repetidas formalizam a programação. “Se eu tomo a mesma dose de uma droga repetidas vezes e meu corpo começa a tolerá-la, precisarei tomar uma dose mais elevada da droga a fim de que tenha o mesmo efeito que tinha com uma dose mais baixa, na primeira vez”, explica o psicólogo.

Mas o problema não se restringe aos homens. Pesquisadores da Universidade da Califórnia e do Tennessee, nos Estados Unidos, recrutaram 308 universitárias heterossexuais, entre 18 e 29 anos, para completarem um questionário online. Elas responderam questões sobre a qualidade do namoro, satisfação sexual e autoestima. Segundo matéria publicada no site da revista Superinteressante, “o resultado mostrou uma relação entre felicidade, autoestima e filmes pornôs. Quanto mais pornografia os namorados ou maridos viam, maior era a chance de ter um relacionamento infeliz. Quem reclamou sobre o vício exagerado do namorado em assistir a vídeos pornôs mostrou autoestima mais baixa e insatisfação com o namoro e com a vida sexual. De tanto se compararem (ou serem comparadas) às moças dos filmes, elas ficam mais inseguras com o desempenho na cama ou com o próprio corpo”.

A verdade é que a pornografia traz um estresse enorme para o relacionamento, principalmente no casamento. “É comum que a esposa do usuário expresse sentimentos de traição, desconfiança e perda de autoestima. Com frequência, tais sentimentos levam à depressão clínica com feridas psicológicas e emocionais duradouras. Com o surgimento da desconfiança e da ferida, muitas mulheres decidem pelo divórcio”, diz Nicholl.

Para ter uma dimensão do problema em números: dois terços dos advogados presentes na reunião de 2003 da Academia Americana de Advogados Matrimoniais disseram que a pornografia virtual estava envolvida na metade dos casos que representaram. “Considerando as consequências negativas do divórcio, sentido principalmente pelas mulheres e crianças, a pornografia, contrariando o movimento do livre-arbítrio, é uma doença social grave”, compara Nicholl.

A socióloga americana Gail Dines é uma das fundadoras do movimento Stop Porn Culture, dá aulas de sociologia e gênero na Faculdade Wheelock, em Boston, e é uma grande crítica da indústria pornográfica. Em seu livro Pornland (Terra do Pornô), ela diz que a pornografia relaciona sexualidade ao menosprezo pelas mulheres. “É uma combinação muito ruim, especialmente quando pensamos que os meninos veem pornografia pela primeira vez por volta dos 13 anos. O que significa para um menino que ainda está desenvolvendo sua sexualidade ver esse tipo de pornografia? Quanto mais erotizamos essas imagens, mais dizemos aos homens que é dessa maneira que eles devem tratar as mulheres, que eles devem achar isso excitante. E os garotos vão construir sua identidade sexual em torno dessas imagens.”

Apelo de quem sabe o que diz – A ex-atriz Jennifer Case admite que os consumidores de pornografia têm parte da culpa pelas mazelas sofridas pelos envolvidos com esse mundo, mas ela diz que compreende que só com a ajuda de Deus os homens conseguem sair do vício, assim como foi com a ajuda de Deus que ela deixou essa indústria. “Homens, Deus ama vocês! Eu amo vocês também e sempre orarei por todos vocês, para que as cadeias sejam quebradas”, diz ela. “Você é escravo da pornografia tanto quanto qualquer atriz pornô. Se você está vendo pornografia ou está viciado em pornografia, você está tentando encher um vazio dentro de você que só Deus pode preencher. Toda vez que você vê pornografia, você está aumentando o vazio, e você destruirá sua vida.”

Ela diz ainda que a pornografia é “maligna” e “é uma droga, veneno e mentira”. “Se você pensa que poderá guardá-la no escuro, Deus a tirará para fora, para a luz, para deter você e curar você.”

Num apelo muito franco, Case diz que “essas mulheres [do mundo pornográfico] são preciosas e merecem ser amadas exatamente como vocês [homens] merecem. Há uma pessoa real do outro lado das imagens que você está vendo, e você está destruindo a vida dela e a vida dos filhos dela. Em toda pornografia existe a filha de alguém. E se fosse a sua filhinha? Você pode realmente estar ajudando na morte de alguém! Atores e atrizes pornôs morrem o tempo todo de aids, overdose de drogas, suicídio, etc. Por favor, parem de olhar pornografia.”

Impressionam os apelos sinceros de mulheres como Shelley Lubben e Jennifer Case. Elas sabem que, como qualquer vício, o da pornografia geralmente começa com o descuido e a curiosidade e vai se aprofundando, até que a pessoa se dá conta de estar escravizada pelo hábito destrutivo. O alcoólico deve ficar longe do álcool. O toxicômano deve passar longe das drogas. E o viciado em pornografia também deve tomar medidas preventivas. Se o problema é a internet, deve-se acessá-la sempre acompanhado de outras pessoas, limitar o tempo de navegação, ser muito focado e específico no uso (evitando navegar a esmo por aí) e colocar filtros no computador.

Finalmente, e mais importante: como disse Jennifer, só com a ajuda de Deus se pode conseguir a libertação do vício. Portanto, se você vive esse drama, intensifique sua comunhão com Deus por meio da oração sincera, do estudo devocional diário da Bíblia, das boas companhias e da frequência regular à igreja. Quando Jesus controla nossa mente, os pensamentos e desejos se tornam puros e corretos.

Michelson Borges é jornalista e mestre em Teologia

“Nos trens, fotografias de mulheres nuas são frequentemente oferecidas à venda. Esses quadros repugnantes são encontrados também em estúdios fotográficos, e são dependurados nas paredes dos que trabalham com gravuras em relevo. É esta uma época em que a corrupção prolifera por toda parte. A concupiscência dos olhos e as paixões corruptas são despertadas pela contemplação e a leitura. […] A mente tem prazer [dopamina] em contemplar cenas que despertam as paixões baixas, vis. Essas imagens depravadas, vistas por olhos de uma imaginação viciada, corrompem a moral e predispõem os iludidos e obcecados seres humanos a darem rédea solta às paixões libidinosas. Seguem-se então pecados e crimes que arrastam para baixo seres formados à imagem de Deus, nivelando-os aos irracionais, afundando-os afinal na perdição. Evitem ler e ver coisas que sugiram pensamentos impuros. Cultivem as capacidades morais e intelectuais” (Ellen G. White, Mente, Caráter e Personalidade, v. 1, p. 229).

 

 

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A ligação entre a poligamia e a guerra

Mohamamd Inaamulillah Bin Ashaari centre, Rohaiza Esa, Ummu Habibah Raihaw , Nurul Azwa Mohd Ani,  Ummu Ammarah Asmis[Artigo interessante publicado no The Economist e que ajuda a ilustrar os problemas, as distorções e o sofrimentos ocasionados pela desobediência à vontade de Deus. O casamento bíblico passa longe de tudo isso. – MB]

É uma verdade universalmente reconhecida, ou ao menos largamente aceita no Sudão do Sul, que um homem de posse de uma grande fortuna deve estar interessado em muitas esposas. Paul Malong, o ex-chefe de gabinete do Sudão do Sul, tem mais de 100 – ninguém sabe o número exato. Um site de notícias afirmou serem 112 em fevereiro, após uma das mais jovens fugir para se casar com um professor. Afirmou-se que o casal estava escondido. Para adaptar Jane Austen [romancista inglesa], somos todos tolos no amor, mas especialmente se trairmos um senhor da guerra em um dos países mais violentos do mundo.

Os homens no Sudão do Sul tipicamente se casam tão frequentemente quanto sua fortuna – geralmente medida em gado – permite. Talvez 40% dos casamentos sejam poligâmicos. “Em [nossa] cultura, quanto mais família você tem, mais as pessoas o respeitam”, afirma William, um jovem especialista de TI à procura de sua segunda esposa (seu nome, assim como outros neste artigo, foi mudado). Tendo estudado nos Estados Unidos e retornado a seu vilarejo natal, ele descobriu ser rico comparado aos padrões locais. Então por que se contentar com apenas uma noiva?

Poucos Sudaneses do Sul veem a conexão entre esses costumes matrimoniais e a assustadora guerra civil do país. Se forem questionados quanto ao motivo da violência, os residentes locais culparão o tribalismo, políticos gananciosos, instituições fracas e talvez a riqueza do petróleo, que dá aos senhores da guerra motivo para lutarem. Tudo verdade, mas não é a estória completa.

Onde quer que seja extensamente praticada, a poligamia (especificamente poliginia, a união de múltiplas esposas) desestabiliza a sociedade, por ser uma forma de desigualdade que cria uma imediata necessidade nos corações, e entranhas, de jovens homens. Se um homem rico tem uma Lamborghini, isso não significa que um homem pobre tenha que andar, já que a oferta de carros não é fixa. Em contraste, cada vez que um homem rico toma uma nova esposa, outro homem pobre deve permanecer solteiro. Se os 10% mais ricos e poderosos homens têm, digamos, quatro esposas cada, os 30% mais pobres não podem se casar. Homens pobres tomarão medidas desesperadas para evitar essa condição.

Essa é uma das razões pela qual a Primavera Árabe eclodiu, porque os jihadistas de Boko Haram e o Estado Islâmico foram capazes de conquistar faixas da Nigéria, Iraque e Síria, e porque as regiões poligâmicas da Indonésia e Haiti são tão turbulentas. Sociedades poligâmicas são mais sangrentas, mais propensas a invadirem seus vizinhos e mais fadadas a colapsar do que outras. Tomar múltiplas esposas é parte do cotidiano em todos os 20 países mais instáveis da Lista dos Estados Frágeis, compilado pela ONG Fundo para a Paz.

Uma vez que a poligamia é ilegal na maioria dos países ricos, muitos ocidentais subestimam o quão comum ela é. Mais de um terço das mulheres na África Ocidental são casadas com um homem que tem mais de uma esposa. Casamentos plurais são comuns no mundo Árabe, e não raros no Sudeste da Ásia e em algumas partes do Caribe. As culturas envolvidas são geralmente patrilineares, ou seja, a família é definida pela linhagem masculina. São também patrilocais: esposas se unem à família do marido e abandonam sua própria. Casamentos são geralmente selados pelo pagamento de um dote da família do noivo à família da noiva. Isso deve supostamente compensar a família da noiva pelo custo de sua criação.

Alguns homens atraem múltiplas esposas por serem excepcionalmente carismáticos, ou persuadindo outras de que eles são santos. “Deve haver exemplos de homens líderes de cultos que não fazem uso de suas posições para incrementar sua própria poliginia, mas eu não consigo pensar em nenhum”, diz David Barash, da Universidade de Washington em Fora do Eden: As Consequências Surpreendentes da Poligamia. No entanto, o mais importante facilitador da prática não é a distribuição desigual de charme, mas a distribuição desigual de riqueza. Sociedades baseadas em dotes, onde a riqueza é distribuída de forma irregular as leva à poligamia – que por sua vez inflaciona o preço das noivas, algumas vezes a níveis destruidores. No terrivelmente pobre Afeganistão, o custo de um casamento para um jovem homem gira entre 12 a 20 mil dólares.

Ao aumentar o preço das noivas, a poligamia tende a aumentar a idade na qual jovens homens se casam; leva um longo tempo para se guardar dinheiro suficiente. Ao mesmo tempo, diminui a idade na qual as mulheres se casam. Todos menos as famílias mais ricas precisam “vender” suas filhas antes que eles tenham condições de “comprar” esposas para seus filhos; eles também querem que as esposas que eles vendem sejam jovens e férteis. No Sudão do Sul, “uma garota é considerada uma velha senhora na idade de 20 anos porque ela não pode ter muitos filhos após isso”, disse um homem local a Marc Sommers, da Universidade de Boston, e Stephanie Schwartz, da Universidade de Columbia. Um ancião tribal descreveu a matemática da situação. “Quando você tem 10 filhas, cada uma lhe dará 30 vacas, e todas são destinadas [ao pai]. Então você tem 300 vacas.” Se um patriarca vende suas filhas aos 15 anos e não deixa seus filhos se casarem até que tenham 30 anos, ele tem 15 anos para desfrutar do retorno dos bens recebidos dos dotes. Há muito leite.

Valerie Hudson, da Universidade A&M do Texas, e Hilary Matfess, de Yale, descobriram que um dote inflacionado é um fator “crítico” “predispondo jovens homens a se envolverem em grupos organizados de violência por motivos políticos”. Grupos terroristas sabem disso, também. Muhammad Kasab, um terrorista Paquistanês enforcado por sua atuação nos ataques em Mumbai em 2008, afirmou ter-se juntado a Lashkar-e-Taiba, o agressor jihadista, por lhe ter sido prometido pagamento a seus irmãos para se casarem. Na Nigéria, Boko Haram organiza casamentos para seus recrutas. O chamado Estado Islâmico costumava oferecer a recrutas estrangeiros 1.500 dólares para uma moradia inicial e uma lua de mel grátis em Raqqa. Grupos radicais islâmicos no Egito também organizaram casamentos baratos para membros. Não é apenas na próxima vida que são prometidas virgens aos jihadistas.

A mais profunda depravação

No Sudão do Sul, dotes podem variar de 30 a 300 vacas. “Para jovens homens, a aquisição de tanto gado de formas legítimas é praticamente impossível”, escreve a Srta. Hudson e a Srta. Matfess. A alternativa é roubar um rebanho da tribo vizinha. Em um país inundado de armas, tais roubos de gado são tão sangrentos quanto são frequentes. “Sete mortos, outros 10 feridos em roubo de gado em Eastern Lakes”, diz uma típica notícia no This Day, um jornal Sudanês do Sul. O artigo descreve como que “jovens armados de comunidades vizinhas” roubaram 58 vacas, deixando sete pessoas – e 38 vacas – mortas a tiro “num trágico fogo cruzado”.

Milhares de sudaneses do Sul são mortos em roubos de gado todo ano. “Quando você tem vacas, a primeira coisa a fazer é adquirir uma arma. Se você não tem uma arma, pessoas tomarão suas vacas”, afirma Jok, um vaqueiro de 30 anos de idade em Wau, uma cidade sudanesa do Sul. Ele carrega apenas um facão, mas afirma que seus irmãos têm armas.

Jok ama vacas. “Elas te dão leite, você pode se casar com elas”, ele sorri. Ele afirma que irá se casar neste ano, apesar de não ter vacas suficientes e, a julgar por suas roupas rasgadas, ele não tem dinheiro para comprá-las também. Ele é vago em dizer como irá adquirir as ruminantes necessárias. Mas qualquer um pode notar que ele está pastando seu rebanho numa terra que foi recentemente limpada etnicamente. Os Dinkas, assim como Jok, andam livremente em Wau. Membros de outras tribos que costumavam viver na região agruparam-se em acampamentos para deslocados, guardados por tropas de paz das Nações Unidas.

Todas as pessoas nos acampamentos contam histórias similares. Os Dinkas vieram, vestidos de azul, e atacaram suas casas, matando os homens e roubando tudo que podiam carregar, incluindo gado e jovens mulheres. “Muitos da minha família foram mortos ou estuprados”, afirma Saida, uma comerciante do vilarejo. “Os atacantes cortam a cabeça das pessoas. Todos os jovens homens desapareceram de nosso vilarejo agora. Alguns se juntaram aos rebeldes. Alguns fugiram para o Sudão.” O marido de Saida escapou e está agora com sua outra esposa em Khartoum, a capital Sudanesa. Saida foi deixada cuidando de cinco filhos. Questionada do porquê tudo isso estar acontecendo, ela desaba em lágrimas.

“Se você tem uma arma, você consegue tudo o que quiser”, diz Abdullah, um fazendeiro expulso de sua terra para que saqueadores Dinka pudessem levar seu gado para pastar ali. “Se um homem com uma arma diz ‘Quero me casar com você’, você não pode dizer não”, diz Akech, uma ajudante. Por isso que garotos adolescentes andam ao redor de batalhas no Sudão do Sul. Quando um combatente é morto, eles correm e roubam sua arma para que possam se tornar combatentes também.

De forma geral, a poligamia está recuando. No entanto, seus apoiadores estão lutando para preservá-la e até mesmo estendê-la. Dois quintos dos cazaques querem relegalizar a prática (foi banida pelos bolcheviques). Em 2008 eles foram impedidos, ao menos temporariamente, quando uma parlamentar propôs um projeto de lei sugerindo que a poliandria – a tomada de múltiplos maridos – seria autorizada também; anciãos muçulmanos rejeitaram a proposta.

No Ocidente a poligamia é muito rara para ser socialmente desestabilizadora. Até certo ponto é porque é feito em série. Homens ricos e poderosos regularmente trocam esposas velhas por outras mais jovens, dessa forma monopolizando os primeiros anos reprodutivos de várias mulheres. Mas isso é feito com algumas mulheres, não algumas dezenas. Os enclaves poligâmicos nos Estados Unidos dirigidos por seitas mórmons dissidentes são altamente instáveis – os homens mais velhos no comando expulsam grandes quantidades de jovens homens por ofensas triviais para que eles possam se casar com várias jovens mulheres. No entanto, alguns candidatos argumentam que a poligamia paralela deveria se tornar legal. Se a constituição determina que o casamento gay é permitido (como o Supremo Tribunal aprovou em 2015), então certamente é inconstitucional proibir o casamento plural, eles argumentam. “Casamento em grupo é o próximo horizonte do liberalismo social”, escreve Fredrik deBoer, um acadêmico, no Politico, com base em que relacionamentos poliamorosos de longo prazo merecem tanta proteção legal quanto quaisquer outras uniões livres.

Proponentes de poligamia oferecem dois principais argumentos além da preferência pessoal. Um é que é abençoado no Alcorão, o que é verdade. O outro é que ela dá a mulheres uma melhor chance de evitar se tornarem velhas solteironas. Rania Hashem, uma candidata pró-poligamia no Egito, afirma que há uma quantidade reduzida de homens em seu país. (Não há, mas essa é uma concepção errônea entre os poligamistas.) Se mais egípcios ricos e educados tomarem múltiplas esposas, diz ela, isso tornará mais fácil para as mulheres exercitarem seu “direito de terem um marido”. Mona Abu Shanab, outra egípcia defensora da poligamia, argumenta que a poligamia é uma forma sensível de mitigar a frustração sexual masculina, causa comum de divórcio. “Mulheres após o casamento desprezam seus maridos [e] focam em seus filhos. Elas… sempre têm uma desculpa para não se envolverem em relações íntimas; elas estão sempre ‘cansadas’ ou ‘doentes’. Isso deixa os homens desconfortáveis e os leva a… terem uma namorada.”

Alguns homens veem a poligamia como uma resposta pragmática à infertilidade feminina. “Minha primeira esposa era estéril”, afirma Gurmeet, um senhor de terras de 65 anos em Lahore, Paquistão. Em certo momento “ela disse que nossa incapacidade de ter filhos era por causa de minha condição médica, não dela. Eu fiquei furioso. Eu me voltei para a religião e fui guiado [por Deus] a tomar uma segunda mulher”. Ele estava planejando tentar fertilização in vitro, mas o aviso de Deus pareceu um melhor investimento. Inicialmente, sua primeira esposa estava “indisposta a dividir minhas afeições com outra mulher”. Mas, com o passar do tempo, ela aceitou a situação, diz Gurmeet. Ele dividiu a casa em duas partes, assim suas esposas poderiam viver separadamente. Ele dividiu seu tempo igualmente entre elas. “Funcionou”, ele diz. A segunda esposa teve seis filhos. Mas Gurmeet resmunga que ela se vestia menos elegantemente do que sua esposa sem filhos e não mantinha seus cômodos tão organizados.

Poligenia é algo difícil para os homens, mas bom para as mulheres, diz Gurmeet, porque é “indesejável” para uma mulher ser solteira. Questionado sobre poliandria, Gurmeet diz: “Eu desaprovo veementemente. É contra a natureza uma mulher ter múltiplos parceiros.” Ele elabora: “Quando jovem eu tinha galinhas. O galo tem muitas galinhas, mas ele não permite às fêmeas acasalarem com mais de um parceiro. Então é contra a lei natural.”

Ruim para as noivas

 A poligamia “pode funcionar, desde que se faça justiça a [todas as esposas] igualmente”, diz Amar, um juiz Paquistanês com duas esposas. “Se você não der preferência a uma acima das outras, nenhum problema surge.” Ele admite que se duas esposas vivem juntas na mesma casa, “uma rivalidade natural” surge. Dividir uma propriedade também pode se tornar complicado e leva a muito litígio.

Mas Amar acha que ele fez dar certo. “Minha rotina é: eu passo uma noite com uma esposa e uma noite com a outra. Dessa forma, ninguém se sente maltratada. E eu dou a elas exatamente a mesma quantidade de dinheiro para gastar: cada uma tem um cartão de crédito. Como juiz, é [minha] obrigação primária promover justiça.” Uma de suas esposas entra na sala e oferece dar seu lado da história. Seu marido a expulsa, com irritação visível, antes que o correspondente possa fazer qualquer pergunta.

Apesar de as mulheres numa sociedade poligâmica acharem ser relativamente fácil se casar, a qualidade de seus casamentos talvez não seja alta. Como tais noivas são geralmente muito mais novas, sem mencionar o baixo índice de escolaridade, se torna difícil para elas confrontar seus maridos. E o dote não é favorável a um relacionamento de iguais.

No Sudão do Sul, aproximadamente 80% dos habitantes acham aceitável para um marido bater em sua esposa por coisas como recusar sexo, queimar o jantar e por aí vai. O divórcio requer que a família da noiva devolva o dote; eles insistem então que a mulher abusada fique com seu marido não importa o quão mau ele a trate.

A poligamia é também ruim para as crianças. Um estudo com 240 mil crianças em 29 países africanos identificou que, após eliminar outros fatores, aquelas em famílias poligâmicas eram mais propensas a morrer jovens. Um estudo entre os Dogon de Mali identificou que uma criança em uma família poligênica era sete a onze vezes mais propensa a morrer cedo que uma criança em uma família monogâmica. O pai gasta mais seu tempo procriando do que cuidando dos filhos que já possui, o Sr. Barash explica. Além disso, de acordo com os próprios Dogon, coesposas ciumentas muitas vezes envenenam os filhos das outras, assim seus filhos herdam mais.

Para Akech, a ajudante sul-sudanesa, crescer em uma família poligâmica “não foi fácil”. Seu pai, um antigo comandante rebelde, teve oito esposas e numerosas concubinas. Ela tem 41 irmãos, que ela tem conhecimento. Quando tinha seis anos, ela costumava ir buscar 20 litros de água todos os dias para sua mãe fazer siko, um tipo de bebida alcoólica. Algumas vezes seu pai chegava bêbado, batia na porta e pegava o dinheiro da sua mãe para gastar com outra mulher. Akech se lembra de seus pais discutindo muito. Isso posto, a família estendida podia se juntar em uma emergência. Quando seu pai foi baleado na perna, suas esposas se juntaram para limpá-lo, leva-lo ao hospital e pagar por suas despesas médicas.

Um dia, quando Akech estava na universidade, seu pai pediu a ela que viesse vê-lo. “Nós nunca tivemos uma relação de pai e filha, então eu fiquei animada”, ela se lembra. Quando ela chegou, ele apresentou a ela um amigo oficial e mandou ela se casar com ele. Ela ficou horrorizada. O amigo de seu pai tinha 65 anos. Akech tinha 19. Ela fingiu aceitar a proposta e disse que queria apenas retornar a sua faculdade, que ficava em um país vizinho, para pegar suas coisas. Seu pai concordou. Ela voltou à faculdade e ficou lá.

Isso foi há mais de uma década. Akech voltou para completar a universidade e encontrar um bom emprego. Ela recentemente comprou para seu agora idoso pai uma casa, em parte para mostrar a ele o valor de sua educação, mas também por um sentimento residual de culpa por tê-lo outrora desafiado. “Em minha cultura, nossos pais não nossos deuses terrenos. Eu tentei não desapontá-lo”, ela diz. Ele nunca pediu desculpas por tentar vendê-la.

(The Economist, com tradução de Leonardo Serafim)

A escolha mais importante da sua vida, de acordo com um neurocientista

coupleDe acordo com o neurocientista Moran Cerf, da Universidade Northwestern (EUA), a maneira mais fácil de maximizar a sua felicidade não tem nada a ver com experiências, bens materiais ou filosofia pessoal. Cerf estuda o processo de tomada de decisões há mais de uma década. De acordo com o pesquisador, a chave para fazer boas escolhas, e consequentemente ser feliz, é eleger com sabedoria com quem você passa mais tempo. Existem duas premissas que levam Cerf a acreditar que esse é o fator mais importante para a satisfação a longo prazo. A primeira é que a tomada de decisões é muito cansativa. Diversas pesquisas descobriram, por exemplo, que os seres humanos têm uma quantidade limitada de energia mental para dedicar ao ato de fazer escolhas.

Todos os dias precisamos fazer diversas deliberações: que roupa vestir, onde comer, o que comer quando chegamos lá, que música ouvir, entre milhões de outras coisas simples ou complexas que precisamos ponderar. Sim, é exaustivo.

A segunda premissa é que os humanos acreditam falsamente que estão no controle de sua felicidade ao fazer essas escolhas. Em outras palavras, nós pensamos que, se fizermos as escolhas corretas, ficaremos bem. Cerf não crê nisso. A verdade é que a tomada de decisões é repleta de preconceitos que atrapalham nosso julgamento. As pessoas confundem experiências ruins como boas, e vice-versa. Elas também deixam suas emoções transformarem uma escolha racional em uma irracional. Por fim, usam pistas sociais, mesmo inconscientemente, para fazer escolhas que de outra forma evitariam. Como escapar de todos esses obstáculos, e fazer boas escolhas inconscientemente?

A pesquisa de Cerf revelou que, quando duas pessoas estão na companhia uma da outra, suas ondas cerebrais começam a parecer quase idênticas. Um estudo em particular, com espectadores de cinema, mostrou que os trailers mais envolventes produziram padrões semelhantes no cérebro das pessoas. Ou seja, apenas estar ao lado de certas pessoas, realizando alguma atividade juntos, já pode alinhar seu cérebro com os delas. “Isso significa que as pessoas com quem você anda realmente têm um impacto no seu envolvimento com o cotidiano além do que você pode explicar”, afirma Cerf.

Você pode reparar nesse efeito por conta própria: quando um mal-humorado chega em um ambiente, o humor de todas as pessoas em volta piora; quando alguém que fala rápido entra em uma conversa, o ritmo da conversa aumenta; um comediante consegue fazer com que as pessoas ao seu redor se sintam mais leves ou engraçadas, e etc.

A partir dessas premissas, a conclusão de Cerf é que, se as pessoas querem maximizar sua felicidade e minimizar o estresse, elas devem fazer menos decisões ao se cercarem de pessoas que possuem as características que elas preferem. Ao longo do tempo, naturalmente, elas passarão a ter atitudes e comportamentos parecidos com os de suas companhias, que são os desejáveis. Ao mesmo tempo, podem evitar decisões triviais que prejudicam a energia necessária para escolhas mais importantes.

Em outras palavras, se você deseja se exercitar mais, aprender um instrumento musical ou tornar-se mais sociável, encontre pessoas que fazem o que você quer fazer e comece a andar com elas.

(Hypescience)

Nota: Em termos humanos, essa pesquisa nos faz pensar na importância da escolha do cônjuge e dos amigos mais chegados, já que essas pessoas próximas têm grande influência sobre nós. Em termos transcendentais, faz pensar na importância da escolha de andar com Jesus diariamente a fim de sermos mais semelhantes a Ele. [MB]

O silêncio engajado num mundo barulhento

rock in rio“Houve um tempo” em que o rock era considerado um estilo musical satânico. Raul Seixas afirmava que o diabo é pai do rock. Data venia. Alguém dirá que ele exagerou ou, talvez, tenha dito isso só mesmo para zoar, devido a seu sarcasmo e bom-humor, não como uma “verdade teológica” (tem gente que tem resposta para tudo!). No último Rock in Rio foi encontrada uma Bíblia entre os achados e perdidos, o que – se não foi mera coincidência (cabe essa possibilidade) – revela um possível uso do Livro sagrado como amuleto ou, talvez, seja um indício de que ao menos um cristão confesso tenha estado no festival (mundano). Cogita-se, inclusive, a eventual presença de cantoras e cantores cristãos naquele evento…

Tudo isso poderia (e pode!) nos levar a uma reflexão (pertinente) sobre testemunho, coerência, santidade e normatividade. Minha intenção aqui, porém, é outra. Suponhamos que não houvesse câmeras para me flagrar no show, nem pessoas a quem eu devesse prestar contas, nem uma placa de igreja à qual honrar, nem família cristã a envergonhar, nem anjos a me observarem e nem mesmo um Deus para me julgar (afinal, só Deus mesmo está autorizado a fazer isso, certo?). Então, nesse caso hipotético (e bote hipotético nisso!) ainda assim minha decisão de ir lá faria sentido? “Sim” – alguém diria prontamente. “Por que não?” (Tem gente que tem resposta para tudo mesmo!) Entendo. Captei a mensagem. Data venia. Permita-me discordar (com todo respeito!).

Se a única coisa que importa quando tomo “minhas” decisões é o que eu penso e sinto, então eu jamais deveria esperar ou desejar, por exemplo, fazer sexo com ninguém; afinal, isso me obrigaria a pensar “um pouquinho” no que o(a) outro(a) sente e pensa a respeito. Ou não? Se a resposta é “não”, então isso não é sexo; é estupro (sexo sem consentimento) ou pedofilia/zoofilia, ou seja, uma relação desigual e entre desiguais (dependendo, é claro, do que você entenda por igualdade!). Perdoe-me por apresentar esse exemplo tão grotesco e libidinoso, mas eu poderia dar outros, talvez mais adequados. Creio, porém, que nem é necessário. Você já captou a mensagem. A busca legítima pelo prazer, satisfação e autorrealização não precisa ser destrutiva, atrevida, anárquica nem polêmica, a menos que você queira que seja assim.

Se a única coisa que importa é quem sou e o que sinto, a vida em comunidade desaparece. Família, amigos, relacionamentos, instituições de todo tipo, tudo vai por água abaixo. Fico só eu, sozinho e solitário. É até difícil de imaginar! Se, por um lado, a vida coletiva tem vocação para oprimir e até apagar as individualidades das pessoas, o extremo oposto é igualmente problemático, pois o resultado é o solipsismo, a solidão, o egocentrismo, o inevitável aniquilamento (ou envilecimento) do eu.

Onde está o equilíbrio? Não sei. Nem mesmo sei se existe e se é desejável. Deixo as questões e dilemas mais difíceis para aqueles que sejam talvez mais sábios que eu. Contudo, não posso deixar de questionar o óbvio. Somos realmente o umbigo do mundo? O homem é, de fato, a medida de todas as coisas, como disse Protágoras? Como indivíduo, sou perfeito e infalível? Sou realmente a pessoa mais indicada para decidir se o rock é ou não do diabo ou se a igreja e os cristãos deveriam usá-lo como hino em seus cultos de adoração a Deus? Devo ter uma (velha/nova) opinião formada sobre tudo? Sou a pessoa mais preparada, preocupada e comprometida com o bem-estar daqueles a quem pretendo ensinar/mostrar o que quer que seja? A autoridade ou autorização que me permite fazer o que eu faço e dizer o que eu digo vem de alguém ou algo além de mim mesmo, ou o que sou/tenho/penso, para mim, é o bastante? Responda, se puder. E, se for honesto consigo mesmo, vai concluir que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

(Júlio Leal é pastor, doutor em Educação e editor da Casa Publicadora Brasileira)

Você vai querer saber o que este médico tem a dizer sobre ideologia de gênero

generoA identificação com o sexo oposto e o eventual desejo de uma pessoa em assumir uma nova identidade de gênero é uma questão ainda sem consenso. A ciência, porém, diz que embora cultura e ambiente tenham importância nessa discussão, a determinação é biológica. “Sexo é estabelecido, é a biologia propriamente dita”, diz Marcelo Lemos Ribeiro, médico brasileiro radicado nos Estados Unidos há dez anos. “Diria que o gênero é, principalmente, uma construção política”, completa. Em entrevista à Gazeta do Povo, Ribeiro fala sobre o papel da ciência e da comunidade científica nesse debate, além de sua relação com a sociedade. Confira:

Gênero é uma construção social ou é uma definição biológica? 

Sexo é estabelecido, é a biologia propriamente dita. Enquanto gênero é a forma como o indivíduo se comporta. É algo mais subjetivo, não é como o estereótipo homem e mulher, mas sim como a pessoa se enxerga. Diria que o gênero é, principalmente, uma construção política; o termo começou a ser usado no meio do século passado justamente por pessoas que tinham como intenção criar uma confusão entre gênero e sexo. E hoje em dia realmente conseguiram criar essa confusão.

O transtorno de disforia de gênero ainda é uma classificação correta? A medicina ainda a usa? 

Sim, essa é a classificação utilizada pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. A disforia de gênero ou o distúrbio de identidade de gênero são termos usados cientificamente tanto pela psiquiatria como pela psicologia.

É normal que crianças com 4, 5 ou mesmo 6 anos já estejam se identificando com o sexo oposto? 

É uma controvérsia que ainda é alvo de discussão em parte da comunidade cientifica; alguns setores corroboram, outros criticam. Não há um consenso, mas reitero que, na minha visão, isso é uma abordagem mais política e ideológica do que realmente cientifica, porque você está assumindo que uma criança de quatro ou cinco anos de idade teria a capacidade cognitiva ou desenvolvimento mental suficiente para tomar um tipo de decisão que, na verdade, ela não tem. Quando uma criança de quatro ou cinco anos se identifica com um cachorro ou com um super-herói, ninguém em sã consciência leva isso a sério.

Existe um limite etário para que a criança não possa ser exposta a nenhum tipo de injeção hormonal? 

Cientificamente, também não há consenso; esse tipo de tratamento de afirmação de gênero é algo novo e não existem estudos longos o suficiente e com a qualidade necessária para você fazer um tratamento baseado em evidências concretas. O que tem sido feito é dependente da legislação local: nos EUA, por exemplo, crianças começam a usar hormônio por volta dos 11 anos de idade, antes da adolescência, para prevenir que características secundárias dela se desenvolvam.

Por volta dos 11, quando começam a aparecer essas características – pelos pubianos, mamas –, elas começam a aplicar hormônios para atrasar esse desenvolvimento. Já por volta dos 16 anos, quando já se tornaram adolescentes, começam a tomar hormônios do sexo oposto. Dos 16 aos 18 anos, o indivíduo desenvolve características secundárias do sexo oposto e então, quando ele atinge a maioridade, tem a permissão para fazer a cirurgia de realinhamento de sexo no mesmo dia.

Em congressos é comum a troca de acusações de ambos os lados, que vão de “transfobia” a “homofobia”. Nesses encontros a comunidade científica tem um receio de ser mal interpretada ou sofrer algum tipo de represália, e por isso evita de se pronunciar de uma forma mais contundente contra a ideologia de gênero? 

Quando você começa a observar da parte de quem defende a ideologia de gênero um ataque pessoal contra o caráter daqueles que discordam, em todos os pontos e setores da sociedade, é inevitável que isso também atinja a parte científica. Você vê muitas pessoas ignorando evidências científicas e passando a se posicionar de uma forma que agrade determinado lado ou ainda que possa prevenir problemas. Existem exemplos de médicos famosos e especialistas no assunto que perderam seus empregos porque discordaram de determinada abordagem de tratamento.

Quais seriam essas abordagens? 

Basicamente, são duas: uma é de reafirmação, quando o médico e a sociedade passam a tratar o paciente como se ele fosse realmente do sexo oposto, enquanto a outra busca entender e tratar a causa; você vê o porquê de esse indivíduo estar tendo o problema de reconhecer o sexo que ele tem, e então tenta encontrar respostas.

Dentro de toda essa questão, como devemos abordar os banheiros transgêneros? 

Creio que se trata de uma questão extremamente pessoal, mas de minha parte não acho viável mesclar homens e mulheres no mesmo banheiro; você não troca de sexo, você continua sendo um homem que se identifica como mulher, mas não deixa em nenhum momento de ser homem biologicamente. Entendo as pessoas que têm preocupação de suas filhas ou esposas não serem expostas no vestiário ou no banheiro a pessoas de outro sexo biológico.

(Gazeta do Povo)

Maratonas de seriados fazem mal à mente e ao corpo

maratona-seriado-zumbiAs “maratonas de seriados” são muito comuns nos canais de TV por assinatura, onde uma temporada inteira de um seriado é apresentada em sequência, ao longo do mesmo dia/noite. Isso pode ser uma ótima forma para colocar a agenda em dia, mas essa imersão total pode ter um custo elevado. Segundo pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA) e da Escola de Pesquisas de Leuven (Bélgica), acompanhar uma maratona de seriados pode piorar a qualidade do sono, provocar fadiga e aumentar a insônia – algo que não ocorre quando se assiste TV de forma “normal”. Jan Van den Bulck e seus colegas acompanharam 423 adultos, com idades entre 18 e 25 anos, monitorando não apenas suas maratonas de seriados na TV, mas também o uso do computador.

A maior parte da amostra (81%) relatou que tinha assistido seriados. Desse grupo, cerca de 40%, fizeram uma maratona no mês anterior ao estudo, enquanto 28% disseram ter feito duas. Cerca de 7% tinham feito maratonas quase todos os dias durante o mês anterior. Os homens fizeram com menos frequência que as mulheres, mas cada maratona teve duração duas vezes mais longa que as delas. Os entrevistados, que dormiam em média 7 horas e 37 minutos por noite, relataram mais fadiga e má qualidade do sono do que aqueles que não fizeram nenhuma maratona.

O estudo mostrou que o aumento da estimulação cognitiva antes de dormir – ou seja, estar mentalmente alerta – é o mecanismo que explica os efeitos negativos sobre a qualidade do sono.

“As maratonas de seriados apresentam uma trama que mantém o espectador preso”, disse a pesquisadora Liese Exelmans. “Acreditamos que aqueles que veem esses programas se envolvem muito no conteúdo e podem continuar pensando sobre o assunto quando querem dormir.”

A aceleração do batimento cardíaco, ou sua irregularidade, e estar mentalmente alerta podem criar uma agitação quando a pessoa tenta dormir. Isso pode levar à má qualidade do sono após uma maratona de seriados. “Isso retarda o início do sono ou, em outras palavras, requer um longo tempo de desaceleração antes de ir dormir, afetando assim o período total de sono”, disse Exelmans.

Os pesquisadores observam que o consumo excessivo de televisão muitas vezes acontece de forma automática, com as pessoas sendo absorvidas pelos seus seriados, deixando de ir para a cama na hora mais adequada. “Pode ser que não tenhamos a intenção de assistir por muito tempo, mas acabamos fazendo isso de qualquer maneira”, disse Exelmans.

O sono insuficiente está ligado a consequências negativas para a saúde física e mental, incluindo a redução da memória e da capacidade de aprendizagem, e à obesidade, hipertensão e doenças cardiovasculares. “Basicamente, o sono é o combustível que seu corpo precisa para se manter funcionando corretamente”, disse Exelmans. “É muito importante documentar os fatores de risco para a falta de sono. Nossa pesquisa sugere que o consumo compulsivo da televisão pode ser um desses fatores de risco.”

Os resultados foram publicados no Journal of Clinical Sleep Medicine.

(Diário da Saúde)

Videogames podem até ajudar em algumas coisas, mas viciam

video-gameExistem milhares de estudos sobre como os videogames podem afetar nosso comportamento e, eventualmente, nosso cérebro, por meio da plasticidade cerebral. Para tentar resumir esse corpo de conhecimento, já que os diversos estudos nem sempre são diretamente comparáveis, uma equipe da Universidade Aberta da Catalunha (Espanha) decidiu fazer uma meta-análise, buscando similares e selecionando os estudos de melhor qualidade. Eles se concentraram nas pesquisas que estudaram as regiões cerebrais responsáveis pela atenção e pelas habilidades visuoespaciais, bem como aquelas associadas ao sistema de recompensas e como elas estão relacionadas ao vício de videogames. “Os jogos eletrônicos têm sido elogiados ou demonizados, muitas vezes sem dados reais apoiando essas alegações. Além disso, jogar é uma atividade popular, então todos parecem ter opiniões fortes sobre o tema”, ponderou o professor Marc Palaus, coordenador da análise.

Para checar se existe realmente alguma tendência sobre como os videogames afetam a estrutura e a atividade do cérebro humano, a equipe selecionou 116 estudos científicos, 22 dos quais analisaram as mudanças estruturais no cérebro e 100 dos quais analisaram mudanças na funcionalidade cerebral e/ou no comportamento. A conclusão geral é que jogar videogame pode de fato mudar nosso comportamento, a forma como nosso cérebro funciona e até mesmo sua estrutura.

Por exemplo, jogar videogame afeta nossa atenção, e alguns estudos constataram que os jogadores apresentam melhorias em vários tipos de atenção, como a atenção sustentada ou a atenção seletiva. As regiões cerebrais envolvidas na atenção também se tornam mais eficientes nos jogadores e exigem menos ativação para manter a atenção em tarefas mais exigentes.

Também há evidências de que os videogames podem aumentar o tamanho e a eficiência das regiões cerebrais relacionadas às habilidades visuoespaciais. Por exemplo, o hipocampo direito mostrou-se ampliado entre os gamers e voluntários que seguiram um programa de treinamento em videogames de longo prazo.

Por outro lado, os videojogos também podem ser viciantes. Os pesquisadores encontraram mudanças funcionais e estruturais no sistema neural de recompensas das pessoas viciados em jogos. Essas mudanças neurais são basicamente as mesmas que as observadas em outros transtornos de vícios.

“Nós nos concentramos em como o cérebro reage à exposição aos videogames, mas esses efeitos nem sempre se traduzem em mudanças na vida real”, analisou Palaus. “É provável que os videojogos tenham tanto efeitos positivos (na atenção e habilidades visuais e motoras) quanto aspectos negativos (risco de dependência), e é essencial que assimilemos essa complexidade.”

Os resultados da meta-análise foram publicados na revista Frontiers in Human Neuroscience.

(Diário da Saúde)

Nota: É como o café e o vinho: ambos contêm elementos que fazem bem à saúde, como os flavonoides, por exemplo. Mas os malefícios (sendo o pior deles o vício devido ao álcool e à cafeína) não compensam os eventuais benefícios. Além disso, é possível obter esses benefícios em outras bebidas e outras atividades que não ofereçam riscos para a saúde. As substâncias benéficas do vinho, por exemplo, podem ser encontradas no suco puro da uva. E a capacidade de concentração também pode ser exercitada de outras formas. É tudo uma questão de escolha. [MB]