Meu livro foi entregue na Transnístria

Captura de Tela 2019-09-08 às 09.19.08“Hoje [dia 7/9] na Transnístria (país que tecnicamente não existe), ao voltar da igreja, passei por uma praça. Uma mulher me pediu um cigarro. Eu disse: ‘Não fumo. O fumo é nocivo. Mas tenho algo para você…’ Abri minha mochila e entreguei para ela uma cópia em russo do livro O Poder da Esperança. Ela disse que gosta de ler, e o fará. Perguntei se poderíamos tirar uma foto para mostrar para um dos autores (Michelson Borges). Ela aceitou. Por favor, ore para que ela realmente o leia, pare de fumar e conheça Jesus de perto.”

Relato do Jean Silva

Pérolas teológicas newtonianas

newtonAlguns anos atrás, eu li As Profecias do Apocalipse e o Livro de Daniel, de Isaac Newton. É uma obra fascinante e indispensável na biblioteca de todo cristão e dos estudantes universitários, em particular. Apesar dos detalhes históricos exaustivos e dos vários trechos em latim não traduzidos, o livro revela a clareza do raciocínio do grande cientista inglês aplicado ao estudo da Bíblia. Os adventistas do sétimo dia ficarão especialmente impressionados ao perceber a semelhança do entendimento profético de Newton (um verdadeiro historicista) com a compreensão profética da igreja – com algumas divergências, naturalmente. Aqui e ali, espalhadas pelas 224 páginas da obra, há pérolas como estas:

“A autoridade dos imperadores, reis e príncipes é humana; a autoridade dos concílios, sínodos, bispos e presbíteros é humana. Mas a autoridade dos profetas é divina e compreende toda a religião” (p. 26).

“A predição de coisas futuras refere-se à situação da Igreja em todas as épocas: entre os velhos profetas, Daniel é o mais específico na questão de datas e o mais fácil de ser entendido. Por isso, no que diz respeito aos últimos tempos, deve ser tomado como a chave para os demais” (p. 26).

“Rejeitar suas [de Daniel] profecias é rejeitar a religião cristã, pois que essa religião está fundada nas profecias a respeito do Messias” (p. 33).

“Pela conversão dos dez reinos à religião romana, o Papa ampliou o seu domínio espiritual, mas não se destacava ainda como um chifre da besta. Foi o seu poder temporal que o transformou num dos chifres. Esse poder foi adquirido na segunda metade do século VIII pela conquista de três daqueles chifres (…) Então, alcançando o poder temporal e um domínio acima de qualquer judicatura humana, o seu aspecto se tornou mais majestoso do que o dos outros chifres. Daí por diante, os tempos e as leis foram entregues nas suas mãos por um tempo, e dois tempos e metade dum tempo, ou seja, três tempos e meio, isto é, por 1.260 anos, desde que se considere como um tempo o ano calendário de 360 dias, e um dia como um ano solar” (p. 88).

Nas páginas 99 e 100, Newton deixa claro o porquê de o “chifre pequeno” não poder ser Antíoco Epifânio, como querem alguns. E arremata: “O próprio Cristo nos diz que a abominação da desolação, a que se refere Daniel, se instalaria nos dias do Império Romano (Mt 24:15).”

Sobre a confiança que Newton tinha nos Evangelhos, ele escreveu: “Temos assim, comparando os Evangelhos de Mateus e de João, a história da ação de Jesus de modo contínuo, durante cinco Páscoas. João é mais preciso no começo e no fim; Mateus, no meio. Aquilo que um omite, o outro registra. (…) Temos assim, nos evangelhos de Mateus e de João, todas as coisas contadas na devida ordem, desde o começo da pregação de João até a morte de Cristo” (p. 119, 121).

Revelação interessante esta: “Deleitavam-se os pagãos com os festivais dos seus deuses e não estavam dispostos a renunciar àqueles deleites. Assim, no propósito de lhes facilitar a conversão, [o papa] Gregório instituiu festas anuais aos santos e aos mártires. Eis porque, para enfraquecer as festas pagãs, as principais festas cristãs tomaram o seu lugar. (…) Foi esse o primeiro passo da religião cristã [católica] em direção à veneração dos mártires. Embora ainda não fosse uma adoração ilegal, predispôs os cristãos à veneração dos mortos, o que em pouco tempo se transformou em invocação dos santos. (…) O passo seguinte nessa invocação foi atribuir ao corpo, aos ossos e a outras relíquias dos santos o poder de operar milagres por meio das suas almas, que supostamente sabem o que fazemos ou dizemos e podem nos fazer o bem e o mal” (p. 151, 153).

Sobre o Apocalipse, Newton escreveu: “Tendo assim estabelecido a época em que deve ter sido escrito o Apocalipse, não preciso falar muito da sua autenticidade, já que estava tão em voga nos primeiros tempos que muitos tentaram imitá-lo, forjando apocalipses sob o nome dos apóstolos. E os próprios apóstolos, como já mencionei, o estudaram e citavam as suas frases” (p. 178).

“Se a pregação geral do evangelho está se aproximando, é a nós e à nossa posteridade que as seguintes palavras pertencem: ‘…todos os maus ficarão sem compreender. Os que são esclarecidos, porém, compreenderão. Feliz o leitor e os ouvintes das palavras desta profecia, se observarem o que nela está escrito.’ (…) A realização de coisas preditas com grande antecedência será um argumento convincente de que o mundo é governado pela Providência” (p. 180).

Eu já era fã desse que é um dos maiores cientistas de todos os tempos. Depois de ler esse livro, minha admiração só aumentou. Newton era também grande teólogo.

Michelson Borges

Leia também: “Estão redescobrindo o Newton religioso”

Por que Chesterton escreveu Ortodoxia

ortodoxia.inddPessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira muitas vezes antes; é, na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: “Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo.”

Lembro-me de que, quando levantei a cabeça para escutar, meus olhos se fixaram num ônibus no qual estava escrito “Hanwell”.[1] Disse-lhe eu então: “Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos? Eu sei. Sei de homens que acreditam em si mesmos com uma confiança mais colossal do que a de Napoleão ou César. Sei onde arde a estrela fixa da certeza e do sucesso. Posso conduzi-lo aos tronos dos super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos.”

Ele disse calmamente que, no fim das contas, havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilos. “Sim, certamente”, retruquei, “e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmos; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote[2]: quem o faz traz o nome ‘Hanwell’ escrito no rosto com a mesma clareza com que ele está escrito naquele ônibus.”

A tudo isso meu amigo editor deu esta profunda e eficaz resposta: “Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em que vai acreditar?” Depois de uma longa pausa eu respondi: “Vou para casa escrever um livro em resposta a essa pergunta.” Este é o livro que escrevi para responder-lhe.

(G. K. Chesterton)

[1] Nome de um asilo para loucos.

[2] Joanna Southcote (1750-1814) se dizia virgem e grávida do novo Messias, e chegou a ter muitos seguidores.

Leia também: “Pérolas de Chesterton”

Magra (saudável) e poderosa

magraPara quem pensa que modelo só lê um livro na vida (geralmente o mesmo das misses, O Pequeno Príncipe), Magra & Poderosa (Editora Intrínseca) é uma feliz surpresa. Além de escreverem com leveza e muito bom humor, as ex-modelos Rory Freedman e Kim Barnouin, foram tremendamente espertas ao apelar para um tema que hoje incomoda quase todo mundo (principalmente no país delas, os EUA): a obesidade. Mas não pense que é um livro com aquelas dietas milagrosas e com dicas apenas para os gordinhos. Longe disso. E as autoras mesmas admitem isso na última página:

“Espere! Temos uma confissão a fazer. Na verdade, não damos a mínima para a magreza. Não se assuste nem se aborreça: você definitivamente vai emagrecer se adotar o estilo de vida Magra & Poderosa. Nossa esperança, porém, é que você se torne saudável. Não queremos que ninguém fique obcecada em emagrecer. Quando você se alimenta corretamente e se exercita, sente-se forte, saudável e confiante. Começa a gostar do próprio corpo – não porque emagrece – mas porque se sente bem. Você finalmente estará tratando seu corpo como o templo que ele é.”

Aí é que está a grande sacada das moças, uma das quais é mestre em nutrição: usam apelo de marketing baseado num problema atual (obesidade), mas propõem algo que vai além do emagrecimento puro e simples – a mudança do estilo de vida. E quer saber, deu certo.

Eu voltava de uma viagem e como ainda tinha algum tempo antes de tomar o ônibus para casa, visitei uma livraria em São Paulo. Me deparei com o Magra & Poderosa e, curioso (pois vi um splash amarelo na capa informando que o livro estava em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times), dei uma olhada no sumário. Foi aí que vi que a obra era mais do que a capa apresentava. Mas a capa fisga. Comprei o livro, embarquei no ônibus e tentei impedir que alguém me visse lendo a obra – afinal, poderia parecer estranho um marmanjo enfiado numa leitura como essa (magra e poderosa). Mesmo assim, em um momento de vacilo, uma senhora e uma jovem olharam de soslaio para o livro. A capa e o título realmente fisgam, pensei.

Rory e Kim trabalham muito bem temas como o vegetarianismo, os problemas envolvidos no consumo de leite e ovos e a necessidade de abandonar “porcarias” (elas chamam assim mesmo) como refrigerantes, álcool e café. O capítulo “Carne podre” impressiona quase tanto quanto o documentário “A Carne é Fraca”, do Instituto Nina Rosa. Além de apontarem as desvantagens de uma dieta carnívora para a saúde, as autoras descrevem em detalhes o processo bárbaro de abate dos animais e apresentam o testemunho de pessoas que trabalharam em matadouros. Se você queria mais um empurrãozinho para deixar de comer cadáveres, aqui está um.

Rory e Kim dizem que não pararam de comer carne apenas para emagrecer. “Nós duas nos tornamos vegetarianas depois que ficamos cientes do tratamento dado aos animais nas fazendas.”

Magra & Poderosa me fez pensar também: esse é o tipo de livro que algum de nós, adventistas vegetarianos, deveria ter escrito. Mas não o fizemos. Não do jeito que elas fizeram. E por isso as “pedras” continuam clamando. Pessoas sem muita (ou nenhuma) motivação religiosa estão acordando para as vantagens de uma vida temperante e que respeita a criação.

Tá certo que as autoras volta e meia se referem à “Mãe Natureza” e usam alguns termos um pouco fortes (mas sinceros) e até apimentados. Tirando isso, a obra é dez!

Michelson Borges

A batalha de todo homem

batalhaA advertência logo no início já mostra que o livro não traz meias verdades e usa de rara franqueza: “Este livro é sempre muito explícito no modo como os co-autores descrevem as lutas do passado – as deles e as dos outros – em relação à pureza sexual. Por causa da comunicação franca com os leitores que encaram lutas semelhantes, nosso objetivo tem sido o de alcançar a sinceridade sem causar nenhuma ofensa, tornando assim mais fácil para os homens encararem qualquer obscuridade e serem impulsionados pela graça e pelo poder de Deus a compartilhar de maneira ativa de Sua santidade.”

O livro em questão é A Batalha de Todo Homem, da editora Mundo Cristão (249 págs.), e os co-autores são Stephen Arterburn, palestrante e escritor de renome, e Fred Stoeker, conferencista e conselheiro de casais. E, de fato, a franqueza está presente em cada página, dando a impressão de se tratar de uma conversa “de homem para homem” (mas que também pode ser muito instrutiva e esclarecedora para as mulheres).

Na Introdução, os autores colocam o problema para o qual se propõem oferecer soluções: “Você [homem] está em uma posição difícil, vive em um mundo levado pela maré de imagens sensuais, disponíveis 24 horas por dia, em uma grande variedade de mídias: impressos, televisão, vídeos, internet – até mesmo telefones. Mas Deus lhe oferece a liberdade da escravidão do pecado através da cruz de Cristo, e foi Ele que criou os seus olhos e a sua mente com a capacidade de serem treinados e controlados. Basta permanecer firme e andar, pelo Seu poder, no caminho correto.” Essa é a batalha do título do livro – contra a sensualidade e a imoralidade – e o “caminho correto” é apontado pelos autores, por meio de seu próprio testemunho de queda e vitória.

Depois de falar de sua vida imoral e promíscua, Fred relata sua conversão, mas afirma que ainda havia “datalhes” para serem entregues a Jesus. E esses detalhes o impediam de crescer na fé. Ele diz: “Logo ficou claro que eu estava muito abaixo da santidade. Ainda havia os encartes de publicidade [com mulheres sensuais], as insinuações e os olhos sempre atentos que buscavam algo. Minha mente continuava a sonhar acordada e a fantasiar com as antigas namoradas. Isso era muito mais do que um sinal de imoralidade sexual. Eu estava pagando o preço, e as contas estavam se acumulando. Primeiro, nunca conseguia olhar Deus nos olhos. Nunca conseguia adorá-Lo completamente. Pelo fato de sonhar com outras mulheres e preferir me divertir mentalmente com as lembranças das conquistas sexuais do passado, eu sabia que era um hipócrita e continuava a me sentir distante de Deus. […] Minha vida de oração era débil. […] Meu casamento também passava por maus momentos. Por causa do meu pecado, eu não conseguia confiar totalmente em Brenda, sem deixar de temer que ela pudesse me abandonar mais tarde. […] Na igreja, eu era um engravatado oco. […] Finalmente eu estabeleci a conexão entre minha imoralidade sexual e minha distância de Deus. Eu estava pagando multas pesadas em todas as áreas da minha vida. Tendo eliminado os adultérios e a pornografia visível, eu parecia puro exteriormente, para as outras pessoas. Mas para Deus faltava muita coisa. Eu havia encontrado meramente um terreno intermediário, algum lugar entre o paganismo e a obediência às Leis de Deus.”

Você conhece algum homem assim? Fred era assim, mas pelo poder de Deus conseguiu tornar-se um homem puro e feliz em seu casamento. Como? É disso que o livro trata.

Na página 107, os autores acrescentam: “Admita: você ama sua euforia sexual, mas a escravidão o oprime. O amor é digno desta repugnância? Ser achado em falta com relação aos padrões de Deus está correto? Olhe-se no espelho. Você tem orgulho das suas fantasias sexuais? Ou você se sente rebaixado após olhar anúncios de lingerie ou cenas de sexo em filmes? Sexualmente falando, você tem uma febre de nível baixo. Isso não mutila ninguém, mas também não o deixa saudável. Você pode exercer vários tipos de funções normalmente, mas não pode pegar pesado. Em outras palavras, você sobrevive. E se essa febre não for embora, nunca poderá agir como um cristão. Assim como o filho pródigo, você precisa despertar e tomar uma decisão.”

Mas, afinal, o que o homem que enfrenta esse tipo de luta deve fazer? Os autores sugerem a construção de três “perímetros de defesa”:

1. Com os olhos
2. Em sua mente
3. Em seu coração

O objetivo é a pureza sexual, e o livro traz uma boa definição disso: “Você é sexualmente puro quando seu prazer sexual provém de ninguém ou nada além de sua esposa.”

No primeiro perímetro (o dos olhos), a proposta é fazer uma aliança com os olhos, exatamente como fez Jó: “Fiz uma aliança com meus olhos; como, pois, os fixaria eu numa donzela?” Jó 31:1. Para isso, são necessárias duas etapas:

1. Faça um estudo de si próprio. Como e onde você está sendo mais atacado?
2. Defina sua defesa para cada um dos maiores inimigos que você identificou.

Quais são as fontes mais óbvias e abundantes de imagens sensuais, além de sua esposa? Para onde você olha com mais frequência? Onde você é mais fraco?

No caso de Fred, seus maiores inimigos eram:

1. Anúncios de lingerie.
2. Corredoras em shorts agarrados de náilon.
3. Outdoors que mostram mulheres seminuas.
4. Comerciais de cerveja com mulheres de biquíni.
5. Filmes censurados.
6. Recepcionistas com blusas curtas ou agarradas.

Fred faz uma analogia para exemplificar o problema das revistas com capas sensuais que são permitidas na casa de quem luta para ter mente pura: “Se uma mulher de seios fartos vestida com um minibiquíni viesse até sua casa e se sentasse em sua mesa do café e dissesse: ‘Sentarei aqui apenas por um instante, mas prometo partir logo no fim do mês’, você a deixaria ficar para atrair seus olhos toda vez que entrasse na sala? Acho que não. Então por que você lhe permite ficar ali na forma de fotografia?”

Sobre imagens sensuais que aparecem em comerciais de cerveja, por exemplo, a recomendação é mudar de canal imediatamente. “Quando seus filhos o observarem mudar de canal, você servirá de exemplo vivo de santidade em sua casa, e isso lhes servirá de ótimo exemplo.” E sobre filmes? “Temos uma ótima regra em casa. Qualquer vídeo inapropriado para as crianças será provavelmente inapropriado para os adultos. Com essa regra em vigor, os filmes sensuais nunca foram um problema em nosso lar.”

Outra analogia interessante: “Considere a antiga série de TV Jornada nas Estrelas. O que o capitão Kirk fazia quando o perigo se aproximava? Ele gritava: ‘Alerta vermelho! Escudos preparados!’ Numa linha semelhante, quando uma mulher atraente se aproximar do seu curral [comparação feita no capítulo 15], seu perímetro de defesa deve responder imediatamente: Alerta vermelho! Escudos preparados! […] se seus escudos não estiverem levantados, e se você não reconhecer a ameaça ao seu casamento, você está brincando com o perigo.”

Com o segundo perímetro (a mente), “você não só bloqueia os objetos de luxúria, como também os avalia e os captura”, explicam os autores. “Um versículo-chave para apoiá-lo nesse estágio está em 2 Coríntios 10:5: ‘Levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.’” Segundo eles, a meta é privar os olhos de todas as coisas sensuais além da esposa. Para os solteiros, isso significa distanciar os olhos de todas as coisas sensuais. “Isso o ajudará a vencer o desejo pelo sexo antes do casamento com a mulher que namora”, garantem. “Se você privar seus olhos assim como os homens casados, verá sua companheira como uma pessoa, e não como um objeto.”

Os conselhos são muitos. As experiências e testemunhos, abundantes. É um livro que realmente vale a pena. Homem que é Homem, lê.

Michelson Borges

A Bíblia Sagrada é inerrante?

bibliaCom o claro objetivo de fazer frente às alegações dos defensores do liberalismo e da alta crítica, alguns teólogos evangélicos acabaram assumindo posição radical e reacionária em relação às Escrituras – posição que ficou conhecida como “inerrante”, isto é, que a Bíblia Sagrada não contém erros de quaisquer espécie e teria sido revelada de forma verbal. Essa postura influenciou muitos teólogos e, por outro lado, gerou reações contrárias radicalmente proporcionais. Vários livros foram publicados na intenção de popularizar a teoria da inerrância bíblica. Um desses é O Alicerce da Autoridade Bíblica (Vida Nova), organizado por James Montgomery Boice, e que reúne artigos de estudiosos do quilate de Francis A. Schaeffer, R. C. Sproul e Gleason L. Archer, para mencionar apenas três.

Ao longo das 196 páginas, os escritores tentam demonstrar que a inerrância foi ideia defendida pela igreja cristã em toda a sua história – desde os apóstolos e os “pais da igreja”, passando pela Reforma e chegando aos dias atuais, quando encontra os evangélicos que, para serem assim considerados, devem ser inerrantes (pelo menos essa é a sentença radical de alguns dos articulistas do livro).

No fim do prefácio, Boice faz uma afirmação auto-contraditória: “Aquilo que a Bíblia diz, é Deus quem diz – através de agentes humanos e sem erro.” Como é possível algo humano ser desprovido de erro? E na Introdução, Schaeffer sugere que a mentalidade “cartesiana, positivista e empirista” estaria influenciando a exegese bíblica, parecendo ignorar o fato de que estender a inerrância a assuntos “periféricos” – história, cosmologia, etc. – é, isso sim, uma tentativa de ler a Bíblia sob as lentes do método científico moderno, cujo contexto em muito se distancia da mentalidade semítica com a qual as Escrituras estão entrelaçadas. Na verdade, a própria Bíblia não se arroga inerrante, devendo os que advogam essa prerrogativa apelar para outras fontes – como o próprio racionalismo – a fim de sustentá-la.

Curiosamente, os mesmos que defendem a inerrância, sobem no barco da alegorização de relatos históricos como Gênesis 1, 2 e 3. James I. Packer diz o seguinte, em seu artigo: “…lê-se Gênesis 1 como se fosse uma resposta às mesmas perguntas que os manuais científicos visam a responder, e Gênesis 2 e 3 se leem como se fosse, a cada ponto, narrativas prosaicas de testemunhas oculares, daquilo que teríamos visto se tivéssemos estado lá, não fazendo caso das razões por que se pode pensar que nesses capítulos ‘eventos reais talvez sejam registrados de modo altamente simbólico’” (p. 92.)

Mais equilibrado em suas análises, Gleason Archer informa que “há muito mais apoio textual para o texto da Sagrada Escritura do que há para qualquer outro livro que foi transmitido a nós desde tempos antigos” (p. 102). Archer escreve também que como o texto bíblico tem caráter eminentemente salvífico, foi conservado numa forma “suficientemente exata para realizar o seu propósito”, com uma transmissão não “seriamente defeituosa”. Ao usar as palavras “suficientemente” e “seriamente”, ele parece não querer ir tão longe no conceito de inerrância quanto seus colegas articulistas. “A melhor explicação é supor que Deus o Espírito Santo exerceu uma influência orientadora na preservação do texto original”, prossegue Archer, “conservando-o de erros sérios ou enganadores de qualquer tipo”. Citando Lindsell (The Battle for the Bible), em seu artigo “A Bíblia e a inerrância”, o Dr. Amim Rodor explica que “os inerrantistas confundem ‘erro’ no sentido de precisão técnica com a noção bíblica de erro como engano intencional”. Em sua linguagem, portanto, Archer parece ser não tão inerrantista assim.

Na página 138, vê-se Sproul manifestando igualmente um espírito equilibrado e aberto: “Não lançamos dúvida sobre a real dedicação dos defensores da inerrância limitada. O que questionamos é a exatidão da sua doutrina da Escritura, assim como eles questionam a nossa. Mesmo assim, consideramos que este debate, por mais sério que seja, é um debate entre membros da família de Deus. Que o nosso Pai nos leve à união neste ponto, assim como tem feito em muitas afirmações gloriosas do Seu evangelho” (p. 138).

No capítulo “O pregador e a Palavra de Deus”, assinado pelo próprio Boice, o autor tenta relacionar o “declínio contemporâneo na pregação grandiosa” (expositiva) – nas palavras de Lloyd-Jones – com a perda de crença na autoridade bíblica. Mas seria apenas esse o motivo? E seria o real motivo? Na revista Veja do dia 12 de julho de 2006, a matéria de capa aborda a mudança de ênfase dos pregadores evangélicos modernos (embora o foco sejam os “novos pastores”, pós-neopentecostais). Segundo a reportagem, está havendo cada vez menos ênfase no sobrenatural e mais investimento em técnicas de autoajuda. Nas igrejas evangélicas tradicionais, estuda-se pouco a Palavra de Deus. Portanto, independentemente da ênfase inerrantista (ou da falta dela), o declínio na pregação ocorre por diversos fatores e Boice parece tentar conduzir a conclusão na direção de seu pensamento. Depois, ele tece alguns comentários oportunos a respeito da necessidade de mais sermões expositivos, com forte conteúdo bíblico.

Finalmente, o livro apresenta a Declaração de Inerrância Bíblica de Chicago. Entre declarações que podem ser facilmente consideradas extremadas, há uma que quase surpreende pelo equilíbrio:

“As diferenças entre as convenções literárias nos tempos bíblicos e as do nosso tempo não podem ser desprezadas: uma vez que, por exemplo, a narração não-cronológica e a citação imprecisa eram comuns e aceitáveis, e não frustravam expectativa de espécie alguma na época, não se deve tê-las como equívocos quando as encontramos na Bíblia. Quando não se espera uma precisão absoluta de tipo específico, não se incorre em erro se ela não é alcançada. A Escritura é inerrante, não no sentido de que é absolutamente precisa segundo os padrões modernos, e sim no sentido de que ela cumpre aquilo que afirma e atinge aquela medida de verdade específica que foi objeto dos autores.”

Michelson Borges

Legalismo e antinomismo: dois males com a mesma origem

sugelA mitologia grega nos fala de dois grandes monstros marinhos chamados Cila e Caríbdis, que se encontravam em margens opostas de um canal estreito. Quando os marinheiros tratavam de evitar Cila, era bem provável que se aproximassem demais de Caríbdis e vice-versa. Nenhum dos destinos era melhor que o outro, então era necessário ter muito cuidado para evitar o perigo que havia de ambos os lados. O mesmo acontece na vida cristã com o legalismo e o antinomismo, com a diferença de que não se trata de dois monstros mitológicos, mas de dois inimigos reais que devemos manter distantes se quisermos guardar a pureza do evangelho para a salvação dos perdidos e a edificação da Igreja.

De uma forma mais simples, podemos dizer que o legalismo consiste em tentar ganhar o favor de Deus através de nossa obediência a um conjunto de leis e normas. O legalismo coloca Deus na condição de um devedor que tem de nos abençoar se fizermos o que devemos fazer. Enquanto o evangelho nos move à obediência pelo fato de já termos sido aceitos por Deus sobre a base da obra redentora de Cristo, o legalismo diz que devemos obedecer para que sejamos aceitos. Tudo depende de nós: de nossa obediência, de nosso esforço pessoal, de nosso compromisso e de nossos méritos.

Quando partimos dessa premissa, cedo ou tarde começaremos a acrescentar algumas regras que não estão na Bíblia, porque queremos ter certeza de que estamos fazendo exatamente o que devemos fazer, e de que estamos apertamos os botões corretos. Quase certamente o que vai acontecer é que vamos voltar mais atenção ao aspecto externo do mandamento do que ao coração da Lei. Esse é um aspecto essencial do legalismo. O legalista está mais preocupado com a forma do que com aquilo que está no fundo, porque, no final das contas, é muito mais fácil conformar-se a uma regra externa do que tratar o coração. Essa é uma das razões pelas quais o legalista costuma acrescentar regras à lei de Deus: não para amplificá-la, mas para torná-la manuseável, porque é muito mais fácil apegar-se a um conjunto de regras externas do que obedecer à intenção da Lei.

Obviamente, tudo isso produz orgulho. Por isso o legalismo parece tão atraente, embora seja tão opressivo. O legalismo produz soberba e desprezo; os legalistas se orgulham de seu padrão e desprezam todos os que vivem segundo um padrão diferente. Transformam suas regras em uma lei universal, que querem impor a todo mundo, em qualquer situação ou circunstância. Suas regras, na prática, transformam-se na tábua de avaliação que determina a condição espiritual dos demais.

O antinomismo é o monstro que se encontra na outra margem do estreito canal da vida cristã. Esse é um vocábulo composto de anti, que significa “contra”, e nomos, que significa “lei”. O antinomismo assume que podemos relacionar-nos com Deus sem obedecer à sua Palavra, e desprezando sua Lei moral. Certamente, muitos antinomistas não veem a si mesmos desse modo, porque, com frequência, é muito mais uma atitude do que uma crença formal. É o pensamento: “Deus me aceita tal como sou, porque seu amor é incondicional.” […]

Apesar das diferentes manifestações externas, tanto o legalismo quanti o antinomismo surgem da mesma raiz, ou, como disse o teólogo Sinclair Ferguson, ambos são gêmeos não idênticos nascidos do mesmo ventre. Se não entendermos isso, de maneira instintiva trataremos de nos esquivar de um desses males, movendo-nos em direção ao outro.

(Sugel Michelén, Da Parte de Deus e na Presença de Deus: Um guia para a pregação expositiva)

Nota: Temos que nos manter longe dessas duas margens extremas, e como rios não têm uma terceira margem, precisamos ficar no meio, navegando seguros sob a proteção e orientação de Deus e de Sua Palavra. [MB]