Usar joias, maquiagem e roupas curtas é pecado?

Pecado contra o Espírito Santo

Quando juvenil e adolescente, eu ouvia pregadores falar acerca do pecado contra o Espírito Santo. Eles repetiam as palavras de Cristo enfatizando que todos os pecados teriam perdão, menos o pecado contra o Espírito Santo. Aquilo me consumia… Eu ficava realmente preocupado: “Será que eu já pequei contra o Espírito Santo? Será que ainda existe salvação para mim? Como saber se pequei ou não contra o Espírito Santo?” Essas perguntas estavam sempre voltando à minha mente.

O tempo passou e eu obtive maior aprofundamento nesse assunto. Se o pecado é contra o Espírito Santo, antes de saber como esse pecado se configura, é necessário saber quem é o Espírito Santo e qual o trabalho dEle, sua obra; assim, é possível saber como se pode ofendê-Lo a tal ponto de não mais receber o perdão.

A Bíblia diz que a obra do Espírito Santo é nos convencer do “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16:8). É Ele o responsável por aquele incômodo mental quando se faz algo errado; é Ele quem fala à mente dizendo: “Este é o caminho, andai por ele” (Isaías 30:21). O Espírito Santo trabalha em nosso coração com o objetivo de nos fazer aceitar a Cristo e rejeitar o pecado. Ele nos conduz ao nosso Salvador e “intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8:26).

Em que consiste então o pecado contra o Espírito Santo? O que seria esse pecado tão terrível? A rejeição firme contínua aos diversos apelos feitos pelo Espírito Santo a ponto de as impressões mentais pelas quais Ele é responsável serem completamente extintas e o ser humano ficar entregue à sua maldade e à disposição do mal. É um nível tão distante que se torna impossível ao Espírito de Deus ter qualquer acesso à mente do que rejeita, tornando impossível sua salvação.

Então, se você em algum momento pensou: “Será que já pequei contra o Espírito Santo? Será que estou perdido?”, eu lhe respondo: Não! Essa não é a preocupação de quem pecou contra o Espírito Santo. Quem já cometeu esse pecado não está preocupado se pecou ou não; está tão distante de Deus que essa não é mais uma preocupação.

É claro que você não deve brincar com a salvação, afinal, não é só o pecado contra o Espírito Santo que tirará as pessoas do Céu. Há muitos que ficam confortados sabendo que não pecaram contra o Espírito Santo e, em lugar de buscar um verdadeiro arrependimento e mudança de vida, continuam na prática pecaminosa, tranquilos, porque imaginam que, como não cometeram o pecado contra o Espírito Santo, está tudo bem. Assim, caminham enfraquecendo as impressões do Espírito em sua mente e, mesmo não tendo cometido o pecado contra o Espírito Santo, correm sério risco de morrer nessa condição ou ser pegos de surpresa com a volta de Cristo e estar completamente perdidos. Muitos perdidos não estarão nessa condição porque cometeram o pecado contra Espírito Santo, mas por pecados simples, os quais não foram confessados.

Que o Senhor Deus lhe ajude a ser obediente à voz do Seu Espírito e confirme o desejo em seu coração de se afastar cada vez mais do pecado.

Comemorar o Natal é pecado?

Verme e fogo eternos?

Indiana, o retorno

culto“As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo” (Ellen White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 36).

O que ocorreu em Indiana? Que eventos são esses que voltariam a assolar o povo de Deus imediatamente “antes da terminação da graça”? Voltemos no tempo. Estamos no ano de 1900, numa reunião campal em Muncie, Indiana. Há gritos e muita confusão; a música é alta e provoca alteração dos sentidos; tambores, tamborins e outros instrumentos são usados com grande efeito psicológico sobre os presentes; pessoas caem no chão inconscientes e são carregadas ao púlpito, onde mais gritos e momentos de grande euforia têm lugar. Ao recobrar a consciência, são consideradas aptas para ser trasladadas como Enoque e Elias; têm a “carne santa”, pois passaram pela “experiência do jardim”. Em que consistia a experiência do jardim? Há algum tipo de argumento teológico para tais comportamentos?

No sermão pregado por Arthur L. White, neto de Ellen, no dia 22 de junho de 1985, ele disse: “Durante os anos de 1899 e 1900, o presidente da Associação Indiana e alguns dos ministros estavam defendendo a doutrina da ‘carne santa’. Eles ensinavam que aqueles que seguissem Cristo na experiência do Getsêmani conseguiriam essa ‘carne santa’. Tendo carne santa eles seriam livres de toda tendência para pecar e não experimentariam a corrupção; assim nunca morreriam, e viveriam para ver Jesus voltar. Essa fé proclamada era similar àquela que levou Enoque e Elias à transladação.”

O comportamento histérico e mundanizado do grupo de Indiana tinha uma argumentação teológica para fundamentar suas práticas: “Eles sustentavam que aqueles que foram santificados não podem pecar. E isso naturalmente leva a crer que as afeições e desejos dos santificados eram sempre retos, e não corriam o risco de conduzi-los ao pecado. De acordo com esses enganos, praticavam os piores pecados sob o manto da santificação, e através de sua influência enganadora e hipnótica estavam obtendo um estranho poder sobre alguns de seus adeptos, que não viam o mal dessas teorias aparentemente belas e sedutoras. […] Os enganos desses falsos mestres foram nitidamente abertos perante mim, e vi o terrível juízo que se levantava contra eles no livro de registros, e a culpa horrível que os cobria, por professarem completa santidade enquanto seus atos diários eram ofensivos aos olhos de Deus” (Life Sketches, p. 83, 84 [grifo nosso]).[1]

Em síntese, podemos definir o grupo de Indiana com dois problemas básicos: um teológico e outro comportamental.

Teológico: possuíam uma teologia equivocada, na qual havia uma defesa clara da possibilidade de não mais pecar, pois teriam adquirido uma “carne santa”; portanto, eram perfeitos. Daí surge o termo “perfeccionismo” como uma referência a esse grupo que pregava a possibilidade de não mais pecar.

Comportamental: tinham práticas mundanas. Tais práticas, como apontado acima, eram resultado de sua teologia equivocada. Uma vez santos e sem pecados, poderiam fazer qualquer coisa que não afetaria o corpo.

O que ocorreu em Indiana, na verdade, foi uma reprise do que aconteceu pouco depois do desapontamento de 1844. Note que a teologia equivocada da “carne santa” chegou a desencadear comportamentos tão nocivos a ponto de envolver questões sexuais:

“Nenhuma animação deve ser dada a tal espécie de culto [falando de Indiana]. A mesma espécie de influência se introduziu depois da passagem do tempo em 1844. Fizeram-se as mesmas espécies de representações. Os homens ficaram agitados, e eram trabalhados por um poder que pensavam ser o poder de Deus. Viravam e reviravam o corpo, como se fosse uma roda de carro, afirmando que não seriam capazes de fazer isso a não ser por poder sobrenatural. Havia a crença de que os mortos haviam ressuscitado e tinham ascendido ao Céu. O Senhor deu-me uma mensagem para esse fanatismo, pois estavam sendo eclipsados os belos princípios da verdade bíblica.

Homens e mulheres, que supunham ser guiados pelo Espírito Santo realizavam reuniões em estado de nudez. Falavam acerca de carne santa. Diziam estar para além do poder da tentação, e cantavam, e gritavam, e faziam toda sorte de demonstrações ruidosas. Esses homens e mulheres não eram maus, mas estavam enganados e iludidos. […] Satanás estava moldando a obra, e sensualidade era o resultado. A causa de Deus foi desonrada. A verdade, a sagrada verdade, era nivelada ao pó por agentes humanos” (Reavivamento e Seus Resultados, p. 52, 53 [grifo nosso]).

O que ocorreu em Indiana não progrediu, principalmente depois da reunião da Conferência Geral de 1901, quando a senhora Ellen White apelou e trouxe severas repreensões ao grupo. Arthur White em seu sermão contou como foi esse momento:

“Ellen White tinha vindo a Battle Creek com pleno conhecimento do que iria acontecer em Indiana, tanto por cartas que ela havia recebido como das visões que Deus lhe dera. Sabia que para salvar a igreja ela devia enfrentar esse ensino estranho. Escolheu então fazê-lo na reunião de obreiros às 5h30 da manhã de quarta-feira, 17 de abril. Contou ao auditório que uma das razões por que ela viera tão repentina e rapidamente da Austrália para os Estados Unidos fora para tratar desse fanatismo. A situação que se lhe deparava naquela manhã tinha-lhe sido revelada na Austrália em janeiro de 1900. ‘Se isso não tivesse sido apresentado a mim, eu não estaria aqui hoje, mas estou aqui em obediência à palavra do Senhor’ (GCB 1901, p. 426).

“Em linguagem clara e corajosa ela expôs a situação: ‘Foi-me dada instrução relativa à última experiência dos irmãos de Indiana e o ensino que deram às igrejas. Mediante esse movimento e ensino o inimigo tem estado operando para desencaminhar almas.

O ensino dado com relação ao que é denominado ‘carne santa’ é um erro. Todos podem obter agora corações puros, mas não é correto pretender nesta vida possuir carne santa. O apóstolo Paulo declara: ‘Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum’ (Romanos 7:18).

“‘Aos que têm procurado tão afanosamente obter pela fé a chamada carne santa, quero dizer: Não a podeis ter. Nem uma alma dentre vós tem agora carne santa. Ser humano algum na Terra tem carne santa. É uma impossibilidade. Se aqueles que falam tão francamente de perfeição na carne pudessem ver as coisas sob seu verdadeiro aspecto, recolher-se-iam com horror de suas ideias presunçosas’ (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 31, 32 [grifo nosso]).”[2]

Veja que nos textos acima Ellen White apresenta o “ensino”, dando a entender que o movimento da “carne santa” não era apenas um movimento que tinha aspectos unicamente comportamentais, mas havia também o aspecto teológico, que era repassado para o povo na forma do ensino. É necessário dizer que não temos em nossos dias um movimento semelhante ao de Indiana, que defenda a possibilidade de não pecar (equívoco na teologia) somado a comportamento mundano; um movimento que venha a fundir esses dois elementos: teológico e comportamental. Mas a profetisa do Senhor advertiu: “As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça.”

Apesar de não termos hoje um grupo que cumpra exatamente o que houve em Muncie, podemos ver claramente que têm se levantado em nosso meio dois grupos distintos que, combinados, formam exatamente o que ocorreu em Indiana:

  1. Os atualmente denominados “perfeccnionistas” ou ultraconservadores, que defendem a possibilidade de viver aqui na Terra sem pecar (como os de Indiana), apesar de quase nenhum deles ter a coragem de admitir essa impecabilidade. É claro que para admitir tal teologia equivocada eles usam textos da Bíblia e do Espírito de Profecia de maneira descontextualizada.
  1. Os “mundanizados” ou ultraliberais, que trazem práticas e comportamentos mundanos para a igreja, como a música profana, por exemplo (assim como a música e os comportamentos dos de Indiana), sob a alegação de que a graça de Cristo é suficiente e não precisam de mudanças comportamentais, pois já têm o Espírito Santo.

É importante observar que esses grupos hoje estão em completo antagonismo. Os chamados perfeccionistas não admitem comportamentos mundanos nem músicas profanas, como ocorreu em Indiana. Por isso alegam não serem “perfeccionistas” (não tomam o termo para si) nem aceitam a comparação com o movimento da “carne santa”. Referem-se aos que têm comportamentos e práticas mundanos como sendo os que cumprem exatamente a profecia, referindo-se ao que ocorrerá no tempo do fim como uma repetição de Indiana, uma vez que Ellen White diz que “haverá gritos com tambores, música e dança”. Como eles não têm tais práticas, não podem cumprir a profecia. Será? Será que a profecia de Ellen White está relacionada apenas à parte comportamental, ou envolverá também o aspecto teológico?

Já os ultraliberais de igual forma argumentam que o que ocorreu em Indiana nada tem que ver com a música profana ou aspectos relacionados à adoração equivocada que estavam oferecendo por meio de seus comportamentos mundanos, mas com a ideia do perfeccionismo, como disse certo liberal em um artigo: “Em nenhum momento ela [Ellen White] condenou a música da campal ou os tambores porque estavam sendo abusados musicalmente. A música do movimento era um ‘laço’ ou ‘armadilha’ porque disfarçava o perfeccionismo emocionalista e o culto ruidoso” (grifo nosso).[3]

Como podemos perceber, os liberais jogam para os perfeccionistas o episódio de Indiana, e de modo semelhante se esquivam de que aquela ocorrência tenha algo a ver com eles hoje, uma vez que, conforme eles alegam, não havia mundanismo em Indiana, nem mesmo na música (o que contraria claramente o que foi escrito por Ellen White), e quem cumpre hoje o que ocorreu em Indiana seriam os perfeccionistas atuais.

Como percebemos, nenhum dos grupos assume os fatos de Indiana como sendo repetidos hoje através de seus grupos. O que existe atualmente é um “jogo de empurra” entre os perfeccionistas e os liberais. Nenhum quer ser identificado com o episódio de Indiana. Mas será isso verdade?

Parece que com o pouco êxito obtido com o movimento da “carne santa” nos anos de 1899 a 1901, Satanás resolveu mudar a tática. Não foi avante a ideia de uma teologia perfeccionista com a prática mundana. Então o inimigo como que “dividiu” o movimento da “carne santa” em dois grupos modernos, exatamente nos dois pontos que definiam o grupo de Indiana: teológico e comportamental, ou, diríamos atualmente, “perfeccionistas e liberais” que, combinados, seriam quase uma expressão exata do que ocorreu na campal de Indiana. Eles não sabem, mas cada um desempenha uma parte no processo de retorno de Indiana aos nossos dias: um com o aspecto teológico e outro com o aspecto comportamental, complementando-se.

Analisemos estes textos:

 Os que têm muita confiança em si mesmos pôr-se-iam em ação, como fizeram alguns em ______, que tinham muito a dizer acerca de carne santa. Esses foram arrastados por um engano espírita. […] Hão de introduzir-se erros, e advogar-se-ão doutrinas estranhas. Alguns se apartarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios. Já nos tempos da fundação do primeiro hospital, começaram a aparecer essas coisas. Eram semelhantes aos erros que se manifestaram pouco depois da decepção de 1844. Apareceu um forte aspecto de fanatismo, denominando-se o testemunho do Espírito Santo (carne santa). Foi-me dada uma mensagem de reprovação a essa má obra” (Carta 79, 1905).

“Entre outros pontos de vista, eles afirmavam que os que eram uma vez santificados não podiam mais pecar [note que eles não se achavam glorificados aqui na Terra, mas santificados], e isto eles apresentavam como alimento evangélico. Suas falsas teorias, com o peso da enganosa influência de que eram portadoras, estavam causando grande dano a eles próprios e aos outros. […] Futuramente, a verdade será falsificada pelos preceitos dos homens. Teorias enganosas serão apresentadas como doutrinas certas. A falsa ciência é um dos instrumentos que Satanás empregou nas cortes celestes, e é por ele usada hoje” (Evangelismo, p. 600).

“As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 36).

Note que Ellen White claramente aponta como algo a ser repetido no futuro, não apenas os aspectos comportamentais, mas, de igual forma, aspectos teológicos. E é exatamente o que temos visto atualmente: um grupo introduzindo o mundanismo na igreja e trazendo músicas com expressões mundanas, semelhantemente ao ocorrido em Indiana, e um grupo perfeccionista defendendo a ideia de que é possível viver aqui sem pecar, pois estão vivendo a “santificação”. Diríamos que esses dois grupos representam as duas faces de uma mesma moeda. Cada grupo nega e até repudia o que ocorreu em Indiana, mas, quando nos aprofundamos no cerne do que de fato ocorreu lá, percebemos que os dois extremos atuais nada mais são do que uma versão moderna do movimento da “carne santa”. Um grupo responsável pela parte teológica e outro responsável pela parte comportamental. São rivais que se completam, antagônicos que se harmonizam, diferentes que se atraem num único objetivo: cumprir a profecia de fazer com que o que houve em Indiana tenha novamente lugar no meio do povo de Deus pouco antes da vinda de Cristo.

Apelo aos dois grupos a que tenham o mesmo comportamento de um dos líderes do movimento da “carne santa”, quando confrontado por Ellen White em 1901, na reunião da Conferência Geral:

“Ellen White tinha mais para dizer como advertência, muito mais. Foi com faces solenes que os ministros saíram da reunião naquela manhã. Eles pouco sabiam do que estava reservado para eles na reunião de obreiros no dia seguinte. Logo após a abertura da reunião, R. S. Donnell, presidente da Associação Indiana, levantou-se e perguntou se ele podia fazer uma declaração. Com palavras medidas ele derramou uma confissão sincera, em cujo trecho ele disse: ‘Sinto-me indigno de estar em pé perante esta grande assembleia de meus irmãos nesta manhã… Quando eu encontrei este povo, fiquei mais que satisfeito em saber que havia um profeta no meio dele e desde o princípio tenho sido um crente firme e um ardente defensor dos Testemunhos e do Espírito de Profecia. Foi-me sugerido tempos atrás que a prova sobre esse ponto de fé vem quando o testemunho chega diretamente a nós. Como quase todos vocês sabem, no testemunho de ontem de manhã a prova veio a mim. Porém, irmãos, eu posso agradecer a Deus nesta manhã porque a minha fé no Espírito de Profecia permanece inabalável. Deus falou. Ele disse que eu estava errado, e eu respondo que Deus está certo e eu estou errado. Eu sinto muito, muitíssimo pelo que eu fiz que poderia arruinar a causa de Deus e levar qualquer um ao caminho do erro” (GCB 1901, p. 422).[4]

(Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju)

Referências:

[1] http://www.centrowhite.org.br/downloads/sermoes/sermoes-em-texto/orientacao-especial-para-as-assembleias-da-associacao-geral/

[2] http://www.centrowhite.org.br/downloads/sermoes/sermoes-em-texto/orientacao-especial-para-as-assembleias-da-associacao-geral/

[3] http://www.adoracaoadventista.org/2012/11/o-que-aconteceu-realmente-na-campal-de.html

[4] http://www.centrowhite.org.br/downloads/sermoes/sermoes-em-texto/orientacao-especial-para-as-assembleias-da-associacao-geral/

A oferta de Caim, a falsa adoração e a autojustificação

caim abelPor que Deus rejeitou a oferta de Caim, em Gênesis 4?

Em Gênesis capítulo 4, encontramos o triste relato do primeiro homicídio da história humana, quando Caim mata o irmão Abel. No livro Patriarcas e Profetas, Ellen White comenta: “Caim veio perante Deus com íntima murmuração e incredulidade, com respeito ao sacrifício prometido e necessidade de ofertas sacrificais. Sua dádiva não exprimia arrependimento de pecado. Achava, como muitos agora, que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus, confiando sua salvação inteiramente à expiação do Salvador prometido. Preferiu a conduta de dependência própria. Viria com seus próprios méritos. Não traria o cordeiro, nem misturaria seu sangue com a oferta, mas apresentaria seus frutos, produtos de seu trabalho. Apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina. Caim obedeceu ao construir um altar, obedeceu ao trazer um sacrifício, prestou, porém, apenas uma obediência parcial. A parte essencial, o reconhecimento da necessidade de um Redentor, ficou excluída.”

Escreveu também: “Esses irmãos foram provados, assim como o fora Adão antes deles, para mostrar se creriam na Palavra de Deus e a obedeceriam. Estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus. Sem derramamento de sangue não poderia haver remissão de pecado; e deviam eles mostrar sua fé no sangue de Cristo como a expiação prometida, oferecendo em sacrifício o primogênito do rebanho. Além disso, as primícias da terra deviam ser apresentadas diante do Senhor em ação de graças.

“Os dois irmãos de modo semelhante construíram seus altares, e cada qual trouxe uma oferta. Abel apresentou um sacrifício do rebanho, de acordo com as instruções do Senhor. ‘E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta’ (Gn 4:4). Lampejou o fogo do Céu, e consumiu o sacrifício. Mas Caim, desrespeitando o mandado direto e explícito do Senhor, apresentou apenas uma oferta de frutos.”

O assunto é bem claro: Caim procurou se autojustificar ao desprezar o sangue do Cordeiro. Para ele, Deus tinha que aceitar a oferta que ele trouxesse, do jeito dele. O que importava era a vontade e a disposição do adorador, não a vontade do Ser adorado. Para alguns leitores mais atentos da Bíblia, o verso 7 desse capítulo é o mais problemático. Por isso, procurando deixar tudo mais claro, o pastor e mestre em Teologia Eleazar Domini oferece a seguinte explicação/exegese com base no texto original hebraico:

“O texto diz: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo’ (Gn 4:7). De que ‘porta’ o texto está falando? Muitos interpretam esse texto da seguinte forma: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta [do coração]; o seu desejo [desejo do pecado] será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo [tem que dominar o pecado] (Gn 4:7), o que dá margem até mesmo para interpretações perfeccionistas. A questão toda é que chatat é uma palavra feminina, e os sufixos utilizados no verso são masculinos. Ou seja, há uma aparente contradição, se traduzirmos chatat por ‘pecado’. Vejamos como está no hebraico: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta [veremos que porta é essa]; o desejo dele será para ti, e sobre ele dominarás’ (Gn 4:7). No hebraico, está literalmente assim. Por isso, aqui cabe uma exegese bem-feita, para não errarmos no que o texto está dizendo:

“1. Não somos capazes de dominar o pecado sozinhos. Já há um grave erro teológico aqui. Isso é perfeccionismo puro. Vencer o pecado não cumpre a mim, cumpre a Cristo por mim e em mim.

“2. Uma análise mais acurada do texto demonstra que, como disse antes, o termo chatat pode ser, e é mais bem traduzido nesse texto por oferta pelo pecado e não ‘pecado’. Porque, se não, como responder a esta pergunta: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta; o desejo dele [Dele quem? Se chatat é feminina, quem é esse ele?) será para ti, e sobre ele [ele quem?] dominarás’ (Gn 4:7).

“Logo, há um erro gravíssimo de tradução que precisa ser revisto. Mas, se analisarmos o texto como ele está, precisaremos buscar o antecedente masculino mais próximo, que é Abel, no verso 4. Logo, o ele do texto não tem que ver com chatat, mas com Abel. E por que Abel? O que isso tem que ver com a história?

“Ao Deus aceitar Abel e rejeitar Caim, é como se Abel estivesse herdando o patriarcado, a herança, a primogenitura. Ninguém rejeitado por Deus seria escolhido para ser o próximo patriarca depois de Adão. Daí o ódio de Caim contra seu irmão.

“Agora vamos a uma tradução mais correta do texto: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que uma oferta pelo pecado [palavra feminina] jaz à porta [do jardim, não do coração; era na porta do jardim que Adão e Eva ofereciam seus holocaustos, segundo Ellen White]; o desejo dele [de Abel, que é o antecedente masculino mais próximo] será para ti, e sobre ele [Abel] dominarás’ (Gn 4:7).

“As expressões ‘desejo’ e ‘domínio’ têm as mesmas nuances de quando Deus diz a Eva que o desejo dela seria para o marido e ele dominaria (no sentido de ele ser o cabeça da casa, o cabeça da mulher). Nesse caso, se Caim voltasse e fizesse o que Deus mandou, o desejo de Abel seria para ele outra vez e ele dominaria sobre Abel de novo, ou seja, Caim voltaria a seu status de primogênito e seria o chefe da família, dominando sobre Abel. Mas ele não aceitou isso e matou o irmão. Detalhe: a Tradução Etíope traz essa mesma visão.

“Resumindo: o problema de Caim foi oferecer algo que Deus não havia pedido. Ofereceu algo diferente do que Deus solicitou. Aqui está um princípio básico para a adoração: adoração não é o que eu quero dar para Deus; adoração é o que Deus pede de mim. Nem sempre o que eu quero dar, mesmo que de coração, é o que Deus está solicitando. Caim entregou a oferta errada e por isso foi rejeitado. Não foi rejeitado por outro motivo, apenas por esse. É claro que foi um fruto de seu coração rebelde, e por isso Deus o rejeitou, e depois rejeitou a oferta dele. Mas a rejeição ocorreu por causa da oferta errada. Não se pode rejeitar o Cordeiro impunemente.”

(Se quiser aprofundar esse assunto, leia “At the door of Paradise: A contextual interpretation of Genesis 4:7”, publicado em Biblische Notizen 100 (2000): 45-59; Joaquim Azevedo, ex-professor do Salt-Iaene, é PhD em Religião pela Andrews University e diretor do Departamento de Religião da Southwestern Adventist university, Keene, Texas, USA)

Respostas a um antitrinitariano (parte 4 de 4)

2Pergunta: Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram antitrinitarianos. Em 1872, foi elaborado um documento contendo os Princípios Fundamentais da IASD e lá não consta a Trindade. Ellen White, falando desses princípios fundamentais, disse que não deveríamos mover os pilares da nossa fé que tinham sido estabelecidos nos últimos 50 anos. São os marcos antigos dos pioneiros. Mas hoje esses pilares, esses marcos foram abandonados pela liderança da IASD. Como vocês me explicam isso?

(As respostas a esses questionamentos têm como base estudos feitos por mim e materiais que li de outros autores e amigos, como Reginaldo Castro, Matheus Cardoso e o Demóstenes Neves.)

Resposta: Primeiro é necessário dizer que a abordagem inicial é falsa e tendenciosa. Dizer que “os pioneiros da IASD eram antitrinitarianos” não é de todo verdade. Havia pioneiros que tinham vindo de igrejas evangélicas tradicionais e que criam na Trindade. É verdade, também, que alguns não criam na Trindade e outros eram semiarianos, mas perceba que isso não se aplica a todos:

  1. S. Spears, em artigo de 1889, transformado em panfleto em 1892, defende “A doutrina bíblica da Trindade”.
  1. N. Downer, em artigo na Review, de 6 de abril de 1876, declara que “as três pessoas da Trindade tiveram parte na ressurreição de Cristo”.
  1. Lee S. Wheeler observa, citando Efésios 4:4, 5: “É digno de nota que nesta como em muitas outras partes da Escritura o Espírito como sendo um é mencionado como distinto do Pai e do Filho” (Lee S. Wheeler, “The Communion of the Holy Spirit”, Review and Herald, 21/4/1891, p. 244).
  1. D. Hildereth: “Tire o Espírito Santo da Bíblia e ‘nada’ que reste é digno de ser falado” (Review and Herald, 1/4/1862).
  1. R. F. Cotrell: “Onde houver adoração verdadeira aí o Espírito Santo está” (1873).
  1. Joseph Clark defendeu o Espírito Santo como uma realidade em Si mesmo e um agente de Deus (Review, 10/3/1874).
  1. P. Bollman, em 4/11/1889, na Signs of the Times, escreveu: “O Espírito Santo é divino e Criador de todas as coisas.”
  1. A. J. Morton, em 26/10/1891, na Signs of the Times, declarou: “A divindade do Espírito Santo e Cristo e a do Pai e Cristo não pode ser separada.”
  1. Alonzo T. Jones, então da Review and Herald por muitos anos, em sermão na Sessão da Conferência Geral de 27 de fevereiro de 1895, defendeu que “o Espírito Santo é um representante pessoal de Deus”. Também disse que há uma unidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho (General Conference Bulletin, 27/2/1895).
  1. Stephen N. Haskell, no artigo “O Espírito Santo”, declarou que “a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo é um mistério” (Review, 28/11/1899).
  1. G. C. Tenny, que em 1883 usara “it” para o Espírito Santo, declarou em 1896 que o Espírito Santo era inteligente, tinha existência independente e passou a usar o pronome pessoal “he” (Review, 9/6/1896).
  1. S. M. I. Henry (Sarepta Miranda Irish Henry), escritora e evangelista, era incentivada por Ellen G. White e produzia uma página semanal na Review chamada “Mulheres na Obra do Evangelho”. Ela declarou em 1898 que “os pronomes usados em conexão com o Espírito devem nos levar a concluir que Ele é uma pessoa – uma personalidade” (The Abindig Spirit, 271).
  1. R. A Underwood, que havia sido antitrinitariano a princípio, expôs, segundo ele mesmo declara, sua mudança de compreensão a partir do estudo da Bíblia. Na Review de 3 de maio de 1898, ele disse que o Espírito é uma pessoa e que não deveríamos permitir que Satanás destruísse nossa fé “na personalidade dessa pessoa da Divindade – O Espírito Santo”. Em relação à sua opinião anterior, Underwood declarou: “Mas nós queremos a verdade porque ela é a verdade, e nós rejeitamos o erro porque é o erro, apesar de qualquer ponto de vista que nós possamos anteriormente ter sustentado ou qualquer dificuldade que nós possamos ter tido ou possamos ter agora quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa” (Review, 3/5/1898).

Como você pôde observar, havia muitos pioneiros que criam na Trindade; portanto, afirmar que os pioneiros eram antitrinitarianos é, no mínimo, uma atitude irresponsável.

A segunda abordagem feita pelo antitrinitariano refere-se aos Princípios Fundamentais, elaborados em 1872 por Urias Smith. Segundo os que não creem na Trindade, o fato de não se falar da Trindade é uma clara evidência de que essa doutrina não seria verdadeira. Para melhor esclarecermos essa segunda parte, faremos três perguntas e as responderemos de forma que o leitor consiga compreender melhor a questão:

  1. Esses princípios fundamentais eram um documento oficial da igreja?
  2. Eles representam uma finalização no conhecimento e avanço doutrinário?
  3. Eles são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala?

Resposta à pergunta 1: Não. Os Princípios Fundamentais de 1872 escritos por Uriah Smith, de que tanto falam os antitrinitarianos, não são um documento oficial da Igreja Adventista. No parágrafo inicial do documento, o próprio autor informa que não se trata de algo oficial. Destinava-se a ser apenas uma resposta sobre alguns pontos de nossa fé, e não tinha autoridade alguma sobre a igreja como um credo imutável.

Leia com atenção, pois nossos objetores não enfatizam esse detalhe:

“Ao apresentar ao público esta sinopse de nossa fé, desejamos que seja distintamente compreendido que não temos nenhum artigo de fé, credo ou disciplina, além da Bíblia. Não apresentamos isto como tendo qualquer autoridade sobre nosso povo, nem é destinado a assegurar uniformidade entre ele, como um sistema de fé, mas é uma breve declaração do que é e tem sido, com grande unanimidade, mantida por ele. Com frequência achamos necessário responder a indagações sobre este assunto” (Urias Smith, “A Declaration of the Fundamental Principles Taught and Practiced by the Seventh-day Adventists”, Battle Creek, MI: Steam Press, 1872).

Urias Smith deixou claro que o documento em questão não deveria ser tomado como um credo fechado e que ele não tinha qualquer autoridade sobre a Igreja como um credo ou sistema de fé. Agora perceba o contraste: aqui Smith afirma que esses princípios não possuem nenhuma autoridade sobre a Igreja, mas quando Ellen White se referiu aos princípios fundamentais da fé, ela afirmou que Deus “nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208). E agora? Será que quando Ellen White fala dos principais pontos de nossa fé ela não tem em mente o documento de 1872? Veremos isso mais adiante, na resposta 3.

Além disso, se aceitamos a visão trinitária de que toda a nossa base doutrinária foi lançada em 1872, teremos sérias dificuldades com a ausência de várias doutrinas que se desenvolveram posteriormente:

  1. Modéstia Cristã – 1889.
  2. Conduta Cristã – 1889.
  3. Dízimos e Mordomia – 1889.
  4. Temperança – após 1863 (Ellen White). Obs.: Uriah Smith, ainda em 1883, negava a validade de Levítico 11 (Manuscript Releases, 852, in: Spirit of Prophecy Library, v. VI, Peace Press, Loma Linda, EUAM S/D, p. 1915).
  5. A própria Justificação pela Fé passou a ser mais discutida a partir de 1888.

Algo bastante interessante – e no mínimo curioso – é o fato de os antitrinitarianos não mencionarem este texto de Uriah Smith, escrito em 1896, numa seção de perguntas e respostas da Review and Herald, na qual ele comenta a resposta:

“Pergunta: As Escrituras ordenam o louvor ou a adoração ao Espírito Santo? Se não, a última linha da doxologia não contém um pensamento não bíblico?

“Resposta: Não conhecemos nenhum lugar na Bíblia onde somos ordenados a adorar o Espírito Santo, como foi ordenado no caso de Cristo (Hb 1:6), ou onde encontramos um exemplo da adoração do Espírito Santo, como no caso de Cristo (Lc 24:52). No entanto, na fórmula para o batismo, o nome ‘Espírito Santo’ está associado ao do Pai e ao Filho. Se o nome pode ser assim usado, por que não poderia ser apropriado como parte da mesma TRINDADE no hino de louvor: ‘Louve a Deus de quem é todo fluxo de bênção?’” (Uriah Smith, Review and Herald, 27/10/1896).

Não podemos dizer que Uriah Smith tenha se tornado plenamente trinitariano, mas que sua visão já estava muito melhorada; isso com certeza. Ele até usa o termo “Trinity”, algo incomum para ele anteriormente.

Resposta à pergunta 2: Os pioneiros nunca ficaram parados no tempo em relação ao crescimento na compreensão da doutrina. Eles não tinham um credo fechado. Ao contrário disso, estavam sempre crescendo no conhecimento da verdade. Veja o que disse Tiago White:

“Eu afirmo que os credos estão em direta oposição aos dons. Imaginemos a seguinte circunstância: Obtemos um credo, declarando exatamente em que deveremos acreditar sobre esse ponto e outro, e o que deveremos fazer em referência a isso ou aquilo, e afirmamos que creremos nos dons também. Mas suponha que o Senhor, por meio dos dons, nos conceda alguma nova luz que não se harmonize com nosso credo; então, se permanecermos fiéis aos dons, isso se chocará completamente com nosso credo. Fazer um credo é fixar estacas e impedir todo avanço futuro” (Tiago White, “Doings of the Battle Creek Conference, Acts 5:16, 1861”, Review and Herald, 8/10/1861, p. 148, 149).

“Temos conseguido regozijar-nos em verdades muito além do que então percebíamos. […] Mas não pensamos de modo algum que já sabemos tudo. Esperamos ainda progredir, de forma que nossa vereda se torne cada vez mais brilhante até ser dia perfeito. Que mantenhamos sempre um estado mental inquiridor, buscando mais luz e mais verdade” (Uriah Smith, Review, 30/4/1857).

“Nunca foram as Sagradas Escrituras tão valorizadas pelo remanescente como agora. Quando o testemunho da Bíblia para começar o dia ao pôr do sol foi apresentado em clara luz, assim como outros assuntos foram apresentados na Review, eles [os primeiros adventistas] de bom grado abraçaram esse testemunho. E nós acreditamos que eles mudariam outros pontos de sua fé se eles pudessem ver uma boa razão para fazê-lo a partir das Escrituras” (Tiago White, Review, 7/2/1856).

Será que Ellen White pensava diferente?

“Percepções nítidas e claras da verdade nunca serão a recompensa da indolência. A investigação de cada ponto que foi recebido como verdade irá ricamente recompensar o pesquisador: ele encontrará pedras preciosas. E, investigando de perto todo jota e til que achamos ser verdade estabelecida, comparando escritura com escritura, podemos descobrir erros em nossa interpretação das Escrituras. Cristo quer que o pesquisador de sua palavra cave fundo nas minas da verdade. Se a pesquisa for realizada corretamente, serão encontradas joias de valor inestimável. A Palavra de Deus é a mina das insondáveis riquezas de Cristo” (Review and Herald, 12/7/1898).

“Há homens entre nós que professam compreender a verdade para estes últimos dias, mas que não investigarão com calma a verdade mais recentemente estabelecida. Estão decididos a não avançar além das estacas que estabeleceram e não ouvirão aqueles que, dizem eles, não estão em defesa dos marcos antigos. São tão autossuficientes que tornam impossível que argumentemos com eles. […] Se forem apresentadas ideias que diferem em alguns pontos de nossas doutrinas anteriores, não devemos condená-las sem uma busca diligente da Bíblia para ver se elas são verdadeiras. Devemos jejuar e orar e pesquisar as Escrituras, como fizeram os nobres bereanos, para ver se essas coisas são assim. Precisamos aceitar todos os raios de luz que nos chegam. Por meio de fervorosa oração e diligente estudo da Palavra de Deus, as coisas sombrias serão esclarecidas para o entendimento” (Signs of the Times, 26/5/1890).

Respondendo à pergunta 3:

O que são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala? São os princípios fundamentais escritos por Smith em 1872? Não! Analisemos o contexto das declarações:

“Tenho estado a suplicar ao Senhor força e sabedoria para reproduzir os escritos das testemunhas que foram confirmadas na fé e NA PRIMITIVA HISTÓRIA DA MENSAGEM. DEPOIS DE PASSAR O TEMPO EM 1844, eles receberam a luz e andaram na luz, e quando os homens que pretendiam possuir novo esclarecimento vinham com suas maravilhosas mensagens acerca de vários pontos da Escritura, tínhamos, PELA ATUAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, TESTEMUNHOS BEM DEFINIDOS, que excluíam a influência de mensagens como as que o pastor G [A. F. Ballenger] tem devotado o tempo a apresentar. Esse pobre homem tem estado a trabalhar decididamente CONTRA A VERDADE CONFIRMADA PELO ESPÍRITO SANTO. QUANDO O PODER DE DEUS TESTIFICA DAQUILO QUE É VERDADE, ESSA VERDADE DEVE PERMANECER PARA SEMPRE COMO VERDADE. Não deve ser agasalhada nenhuma suposição posterior contrária ao esclarecimento que Deus proporcionou. Surgirão homens com interpretações das Escrituras que para eles são verdade, mas que não o são. Deu-nos Deus a verdade para este tempo como um fundamento para nossa fé. ELE PRÓPRIO NOS ENSINOU O QUE É A VERDADE. Aparecerá um, e ainda outro, com nova iluminação, que contradiz aquela QUE FOI DADA POR DEUS SOB A DEMONSTRAÇÃO DE SEU SANTO ESPÍRITO. Vivem ainda alguns que passaram pela experiência obtida QUANDO ESTA VERDADE FOI FIRMADA. Deus lhes tem benignamente poupado a vida para repetir, e repetir até ao fim da existência a experiência por que passaram da mesma maneira que o fez o apóstolo João até ao termo de sua vida. E os porta-bandeiras que tombaram na morte devem falar mediante a reimpressão de seus escritos. Estou instruída de que, assim, sua voz se deve fazer ouvir. Eles devem dar seu testemunho relativamente ao que constitui a verdade para este tempo. Não devemos receber as palavras dos que vêm com uma mensagem em contradição com os pontos especiais de nossa fé. Eles reúnem uma porção de passagens, e amontoam-na como prova em torno das teorias que afirmam. Isso tem sido repetidamente feito durante os cinquenta anos passados. E se bem que as Escrituras sejam a Palavra de Deus, e devam ser respeitadas, sua aplicação, uma vez que mova uma coluna do fundamento sustentado por Deus ESTES CINQUENTA ANOS, constitui grande erro. Aquele que faz tal aplicação ignora A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO QUE DEU PODER E FORÇA ÀS MENSAGENS PASSADAS, VINDAS AO POVO DE DEUS” (Ellen G. White, The Integrity of the Sanctuary Truth, p. 15-20).

Lendo o texto acima, CONSTATAMOS QUE O ASSUNTO DO QUAL A SERVA DO SENHOR ESTÁ FALANDO É ESPECIALMENTE O SANTUÁRIO. O título do documento é “A Integridade da Verdade do Santuário”. Nada de Divindade não trinitária. Observe a menção que ela faz ao pastor Albion Ballenger. Quem foi Ballenger? Foi um popular pregador adventista que trabalhou na Inglaterra, País de Gales e Irlanda. Ballenger concluiu que o entendimento adventista do ministério de Cristo no santuário era antibíblico. Foram as ideias de Ballenger CONTRA A DOUTRINA DO SANTUÁRIO QUE MOTIVARAM O TESTEMUNHO DE ELLEN WHITE ACIMA. Não deixe também de perceber que Ellen recorda os tempos depois de 1844, quando Deus, mediante o Espírito Santo, deu testemunhos bem definidos por meio de Sua serva para confirmar o que era a verdade e para não permitir que falsas ideias penetrassem na Igreja. Quando, no texto acima, ela menciona que foi o próprio Deus quem ensinou a verdade à Igreja, quando se refere ao esclarecimento que o próprio Deus proporcionou, da maravilhosa demonstração do Espírito Santo e de que quando o poder de Deus testifica daquilo que é a verdade essa verdade não deve mais ser alterada, ELA ESTÁ FALANDO DA DOUTRINA DO SANTUÁRIO NO CONTEXTO DO ATAQUE DE BALLENGER A ESSA DOUTRINA. Nos primeiros anos do Movimento, Deus de fato deu visões a Ellen orientando os pioneiros na interpretação correta da Escritura quando após muito estudo chegavam a um impasse. Isso ocorreu nos estudos sobre o Santuário nos primeiros anos após 1844. Veja como os antitrinitarianos pegam textos fora do contexto para criar um pretexto.

Os dois textos – do Manuscrito 135 (1903) e o de Mensagens Escolhidas, volume 1, p. 208 – geralmente usados pelos objetores da Trindade, de fato estão falando dos princípios fundamentais, dos marcos antigos, das doutrinas definidoras do adventismo, as quais foram resultado de muita oração, estudo da Bíblia e confirmação por meio das visões da mensageira do Senhor. O problema é que, ao analisar o contexto dessas duas passagens, constata-se que Ellen White de forma alguma está se referindo ao documento de 1872. Vamos ler o contexto (parágrafos precedentes) dos dois trechos, respectivamente:

“Meu marido, o pastor José Bates, o pai Pierce, o pastor Edson, um homem ávido, nobre e verdadeiro, e muitos outros cujos nomes não consigo recordar agora, estavam entre aqueles que, após a passagem do tempo em 1844, buscaram a verdade. Em nossas reuniões importantes, esses homens se reuniam e buscavam a verdade como a um tesouro escondido. Reunia-me com eles e estudávamos e orávamos fervorosamente, pois sentíamos que era nosso dever aprender a verdade de Deus. Muitas vezes ficávamos reunidos até alta noite e, às vezes, a noite toda, orando por luz e estudando a palavra. Quando jejuamos e oramos, um grande poder veio sobre nós. Mas eu não conseguia entender o raciocínio dos irmãos. Minha mente estava por assim dizer fechada e eu não conseguia compreender o que estávamos estudando. Então o Espírito de Deus vinha sobre mim, eu era arrebatada em visão, e era-me dada uma clara explicação das passagens que estávamos estudando, com instruções sobre a posição que deveríamos tomar em relação à verdade e ao dever. Foi-me tornada clara uma sequência de verdades que se estendia daquele tempo até ao tempo em que entraremos na cidade de Deus, e transmiti a meus irmãos e irmãs a instrução que o Senhor me deu. Eles sabiam que, quando eu não estava em visão, eu não conseguia entender esses assuntos e aceitavam como luz direta do céu as revelações dadas. Os principais pontos de nossa fé, como os mantemos hoje, foram firmemente estabelecidos. Ponto após ponto foi claramente definido, e todos os irmãos entraram em harmonia. Toda a companhia dos crentes estava unida na verdade. Houve aqueles que vieram com doutrinas estranhas, mas nunca tivemos medo de enfrentá-los. Nossa experiência foi maravilhosamente confirmada pela revelação do Espírito Santo” (Manuscrito 135 [1903]).

“Que influência essa, que desejaria levar os homens, neste período de nossa história, a trabalhar de modo enganador e poderoso, para solapar os alicerces de nossa fé – alicerces QUE FORAM LANÇADOS NO PRINCÍPIO DE NOSSA OBRA mediante DEVOTO ESTUDO DA PALAVRA E PELA REVELAÇÃO? Sobre esses alicerces temos estado a construir, nos últimos CINQUENTA ANOS. Admirai-vos de que, quando vejo o princípio de uma obra que pretende remover alguns dos pilares de nossa fé, tenha algo a dizer? Tenho de obedecer à ordem: ‘Enfrentai-o!’ Tenho de proclamar as mensagens de advertência que Deus me dá para divulgar, e então deixar com o Senhor os resultados. Tenho de agora apresentar o assunto em todos os seus aspectos, pois o povo de Deus não deve ser despojado. Somos o povo de Deus, observador dos mandamentos. Nos passados cinquenta anos tem-se feito pressão sobre nós com toda sorte de heresias, a fim de embotar-nos o espírito em relação aos ensinos da Palavra – especialmente quanto ao ministério de Cristo no santuário celestial e à mensagem do Céu para estes últimos dias, como foi dada pelos anjos do décimo quarto capítulo do Apocalipse. Mensagens de toda espécie e feitio têm feito pressão sobre os adventistas do sétimo dia, pretendendo substituir a verdade que, ponto por ponto, foi buscada com estudo e oração, e atestada pelo poder milagroso do Senhor. Mas OS MARCOS que nos tornaram o que somos devem ser preservados, e sê-lo-ão, conforme Deus o mostrou mediante Sua Palavra e o testemunho de Seu Espírito. Ele nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208).

Note-se que algumas expressões se repetem ou são equivalentes. “Após a passagem do tempo”, “Nos passados cinquenta anos” (o texto de ME é de 1904; os cinquenta anos são uma média que vai chegar lá nos primeiros anos do movimento; o próprio texto se refere ao “princípio de nossa obra”). Os dois textos mencionam o estudo dedicado da Bíblia e a Revelação do Espírito. É inegável que os dois textos estão se referindo à mesma época: os primeiros anos após a passagem de 1844, quando os primeiros adventistas se entregaram completamente à oração e se debruçaram intensamente sobre a Bíblia a fim de aprender o que é a verdade. Seus esforços foram recompensados pela atuação do Espírito de Deus por meio do dom profético de Ellen White. Durante esse período inicial, os pilares da fé adventista foram estabelecidos. Em outro texto, ela faz a mesma recordação. Note a semelhança nas expressões:

“Os cinquenta anos passados não apagaram um jota ou princípio de nossa fé ao recebermos as grandes e maravilhosas evidências que se tornaram certas para nós em 1844, após a passagem do tempo […] Aquilo que o Espírito Santo testificou como verdade após a passagem do tempo, em nosso grande desapontamento, é o sólido fundamento da verdade. Os pilares da verdade foram revelados e nós aceitamos os princípios fundamentais que nos tornaram o que somos – adventistas do sétimo dia, observando os mandamentos de Deus e tendo a fé de Jesus” (Carta 326, 1905).

De forma clara, Ellen White está se referindo aos primórdios da Igreja, quando as doutrinas distintivas foram estabelecidas pela oração, estudo da Palavra e revelação. Os princípios fundamentais de que Ellen White fala nesses textos NEM DE LONGE SE REFEREM AOS DE 1872, ESCRITOS POR URIAH SMITH. Por que os antitrinitarianos não mostram O CONTEXTO dos trechos que citam? Agora fica claro: OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EM ELLEN WHITE NÃO SÃO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE URIAS SMITH (de 1872). Encadear os textos de modo que passem a impressão de que Ellen White está se referindo ao documento de Uriah Smith induz a uma falsidade histórica!

Mas, para que não fique nenhuma dúvida, no próximo texto, Ellen White deixa bem claro que doutrinas são essas que foram fruto de muita oração, estudo da Palavra, e que o Espírito Santo, por meio de visões, confirmou a veracidade bíblica dessas doutrinas. Preste muita atenção no texto a seguir:

“Em Mineápolis, Deus concedeu preciosas gemas da verdade ao Seu povo. Essa luz do Céu enviada a algumas pessoas foi rejeitada com toda a resistência que os judeus manifestaram ao rejeitar a Cristo, havendo muita discussão em torno da defesa dos antigos marcos. Ficou evidente, porém, que quase nada sabiam sobre o que eram os antigos marcos. Ficou claro e foram feitos apelos diretos à consciência com base na Palavra de Deus; contudo, as mentes estavam cauterizadas, seladas contra a entrada da luz, porque decidiram que seria um perigoso erro remover os ‘marcos antigos’ quando não se estava removendo nada, além das ideias errôneas do que constituíam os antigos marcos. O PASSAR DO TEMPO EM 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a PURIFICAÇÃO DO SANTUÁRIO que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com AS MENSAGENS DO PRIMEIRO, DO SEGUNDO E DO TERCEIRO ANJOS, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: ‘OS MANDAMENTS DE DEUS E A FÉ DE JESUS.’ Um dos marcos dessa mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A LUZ DO SÁBADO DO QUARTO MANDAMENTO lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A NÃO IMORTALIDADE DOS ÍMPIOS É UM MARCO. NÃO CONSIGO LEMBRAR-ME DE ALGUMA OUTRA COISA QUE POSSA SER COLOCADA NA CATEGORIA DOS ANTIGOS MARCOS. Todo esse rumor sobre a mudança do que não deveria ser mudado é puramente imaginário” (O Outro Poder, p. 21 [Manuscrito 13, 1889]).

A QUAIS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EGW ESTAVA SE REFERINDO?

– A purificação do santuário celestial

– A tríplice mensagem angélica

– Os mandamentos de Deus

– A fé em Jesus

– O sábado

– A não imortalidade dos ímpios

Esses são, de acordo com a voz profética, os MARCOS ANTIGOS QUE NOS TORNAM O QUE SOMOS. Essas são as doutrinas chamadas de pilares de nossa fé, os principais pontos de nossa fé.

É válido ressaltar que a rejeição da Trindade por alguns pioneiros não se deu em si pela doutrina, mas pela forma como as igrejas romana e protestante a apresentavam na época, conforme bem expressa J. N. Loughborough: a doutrina “é contrária às Escrituras. Em quase qualquer texto do Novo Testamento que lermos, fala-se sobre o Pai e o Filho, apresentando-Os como duas pessoas distintas. […] O capítulo 17 de João já é suficiente para refutar a doutrina da Trindade. Mais de quarenta vezes em apenas um capítulo Cristo fala de Seu Pai como uma pessoa distinta de Si mesmo”. Numa análise simples, nota-se que J. N. Loughborough estava falando acerca da distorcida visão de que Jesus e o Pai eram um e o mesmo ser. Seria mais ou menos como mostram as ilustrações abaixo:

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Qualquer ser inteligente e conhecedor da Bíblia negaria esse conceito de Trindade. Reforçando a ideia de que o que os pioneiros combatiam era o conceito errôneo acerca da Trindade, segue-se a afirmação de Sarah Haselton: “A doutrina chamada Trindade afirma que Deus é sem forma ou partes; e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os três são apenas uma pessoa.” Esse conceito de Trindade os pioneiros realmente jamais deveriam ter aceitado, e não é assim que a Igreja Adventista creu ou crê. O comentário de A.C. Bourdeau confirma ainda mais isso:

“Que Deus é um Espírito infinito e eterno, sem pessoa, corpo, aparência ou partes; está presente em toda parte e em nenhum lugar; ou está em toda parte como um Espírito e em lugar algum como um ser tangível. Pergunto: isso não torna Deus quase um mero nada? Examinemos brevemente esses pontos à luz das Escrituras. É mostrado claramente: (1) Que Deus é uma inteligência material e organizada, possuindo corpo e partes. (2) Que Jesus é o Filho de Deus. Ele não é Seu próprio filho, nem Seu próprio pai, e é um ser distinto de Deus, o Pai.”

Veja como era ensinada a Trindade naquela época. Esse tipo de ensinamento eu também não aceitaria. O conceito de Trindade encontrado nos Escritos da senhora White jamais se assemelham ao conceito errôneo vigente em seu tempo. Ela diz: “Cumpre-nos cooperar com os três poderes mais alto no Céu – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – e esses poderes operarão por meio de nós, fazendo-nos coobreiros de Deus.”

Ela ainda afirma: “Aqui estão as três personalidades vivas do trio celestial, nas quais cada alma arrependida dos seus pecados recebe Cristo por fé viva, para aqueles que são batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”

É verdade, entretanto, que o conceito trinitário foi sendo compreendido com o tempo, como se nota na declaração de Waggoner na Review and Herald do ano de 1875: “Há uma questão que tem sido muito controvertida no mundo teológico sobre a qual nunca temos presumido entrar. É da personalidade do Espírito de Deus.”

Mesmo assim, eles seguiam a ordem do mestre batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (bem diferente dos antitrinitários de hoje, que negam o batismo trinitário). Na sessão da Review and Herald com o subtítulo “Church Manual” (Manual da Igreja) está assim: “Quando o momento adequado foi finalmente alcançado, o ministro deve levar o candidato devagar e solenemente para o local onde ele se propõe batizá-lo. […] Tendo chegado ao local desejado, o administrador deve ter uma firmeza do candidato, proferindo as seguintes palavras: meu irmão (ou irmã), agora eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Adequando a ação à palavra, ele deve lentamente mover o corpo do candidato em uma direção para trás até que a cabeça toque a água, em seguida, por um movimento súbito, o candidato deve ser mergulhado abaixo da superfície a uma profundidade suficiente para cobrir cada parte de sua pessoa com a água. Feito isso, ele deve ser levantado para a posição de pé novamente. Assim como ele emerge da água, é habitual para o administrador pronunciar a palavra ‘Amém’.”

Mais evidente e nítido se torna o crescimento da visão dos pioneiros quanto à Trindade nestas afirmações encontradas na Review and Herald de 1898 (mesmo ano em que Ellen White escreveu O Desejado de Todas as Nações), escritas por R. A. Underwood, com o título “The Holy Spirit a Person” (O Espírito Santo uma Pessoa):

“Espírito é o representante pessoal de Cristo no campo, e Ele é carregado com o trabalho de conhecer Satanás e derrotar esse inimigo pessoal de Deus e Seu governo. Parece estranho para mim, agora, que eu sempre acreditei que o Espírito Santo era apenas uma influência, tendo em vista o trabalho que ele faz. Mas nós queremos a verdade porque é verdade, e nós rejeitamos o erro porque ele é o erro, independentemente de quaisquer visões que mantivemos anteriormente, ou qualquer dificuldade que tivemos, ou podemos ter, quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa. A luz é semeada para o justo. O esquema de Satanás é destruir toda a fé na personalidade da Divindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo, – também em sua própria personalidade.”

É bem perceptível também que após uma compreensão mais aclarada acerca da Trindade esse assunto passou a ser bastante explorado nas literaturas da igreja. A seguir uma sequência de textos publicados por M. E. Steward no volume 87 da Review and Rehald, números 50, 51 e 52, que datam respectivamente de 15, 22 e 29 de dezembro de 1910. O primeiro artigo intitulado “The Divine Godhead: God, the Father” (A Divina Divindade: Deus, o Pai) começa com a declaração de 1 João 5:7: “Há três seres na Divindade: Deus, o Pai, Jesus Cristo, a Palavra e o Espírito Santo. Estes três são um.” Não é intenção desse artigo discutir a autenticidade dessa passagem, apenas mostrar que a compreensão dos pioneiros quanto a esse assunto foi gradual e crescente.

O segundo artigo é intitulado “The Second Person of the Godhead – Jesus Christ” (A Segunda Pessoa da Divindade – Jesus Cristo) e traz as seguintes afirmações: “Cristo tinha uma existência, antes de vir à Terra . (1) Ele tinha glória com o Pai ‘antes que o mundo existisse’ (João 17:5). (2) ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ‘O Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (João 1:1, 14). (3) Cristo estava com os israelitas no deserto (1 Coríntios 10:4, 9). Jesus Cristo uniu a humanidade à divindade. ‘Grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne’ (1 Timóteo 3:16).”

O terceiro artigo tem como título “The Third Person of the Godhead – the Holy Spirit” (A Terceira Pessoa da Divindade – O Espírito Santo). Nesse artigo é afirmado que o Espírito é “o representante de Cristo”, e “por isso o Espírito Santo é o direto agente no cumprimento de todos os propósitos e promessas divinos na obra da salvação do homem. E, como representante de Cristo, aquele que aceita a Cristo tem o dom do Espírito Santo”.

No ano de 1913, a Review publicou uma edição especial com relatos dos avanços do evangelho em todo o mundo. Entretanto, ao meio da revista com o subtítulo “Mensagem para hoje” há a seguinte declaração: “Para o benefício daqueles que podem desejar saber mais particularmente as características fundamentais da fé mantida por esta denominação, nós referiremos que os adventistas do sétimo dia creem… na Trindade divina. Essa Trindade consiste do eterno Pai, um ser espiritual pessoal, onipotente, onisciente, infinito em poder, sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, o Filho do eterno Pai, por quem todas as coisas foram criadas, e através de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o regenerador na obra da redenção” (grifo nosso).

É importante salientar que todos esses textos foram produzidos enquanto a senhora White estava viva e não houve da parte dela nenhum tipo de observação contrária. Alguns indivíduos já tiveram a ousadia de afirmar para mim que tais declarações passaram a ocorrer e não houve crítica da senhora White porque ela já estava bastante avançada em idade (morreu em 1915), e que, portanto, não estava mais acompanhando as supostas entradas de heresias na igreja. Ora, essa afirmação é no mínimo absurda. Prova disso é que nessa mesma revista apresentada acima (do ano de 1913) há um artigo escrito pela senhora White, e o curioso é que o artigo dela é imediatamente anterior ao artigo que traz a declaração mencionada anteriormente.

CONCLUSÃO

Pelo que se nota com clareza, o assunto da Trindade não foi introduzido na igreja a partir da década de 1940, como alguns advogam, nem na década de 1980. Mas a compreensão gradual dos pioneiros é evidenciada ao longo das edições das literaturas eclesiásticas, em especial (como mostrou este artigo), nas edições da Review and Herald. Portanto, qualquer tentativa contrária ao ensino da Trindade, tomando-se como base o argumento de que os pioneiros não aceitavam essa doutrina, carece de um estudo sério e abalizado, tanto na história da Igreja quanto em sua literatura. Proceder dessa maneira é evidenciar total ignorância e carência informacional acerca do assunto, o que torna os argumentos dos proponentes de tais alegações pueris e reducionistas.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” parte 1parte 2 e parte 3

Material complementar:

“Desenvolvimento do pensamento cristológico na IASD”

“Os pioneiros adventistas e a Trindade”

“Desenvolvimento gradual da doutrina da Trindade na Igreja Adventista do Sétimo Dia: uma análise nos registros iniciais da Review and Herald e da Revista Adventista”

Prezis:

“O adventistas e a Trindade”

“Mitos e fatos sobre a Trindade na IASD”