A oferta de Caim, a falsa adoração e a autojustificação

caim abelPor que Deus rejeitou a oferta de Caim, em Gênesis 4?

Em Gênesis capítulo 4, encontramos o triste relato do primeiro homicídio da história humana, quando Caim mata o irmão Abel. No livro Patriarcas e Profetas, Ellen White comenta: “Caim veio perante Deus com íntima murmuração e incredulidade, com respeito ao sacrifício prometido e necessidade de ofertas sacrificais. Sua dádiva não exprimia arrependimento de pecado. Achava, como muitos agora, que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus, confiando sua salvação inteiramente à expiação do Salvador prometido. Preferiu a conduta de dependência própria. Viria com seus próprios méritos. Não traria o cordeiro, nem misturaria seu sangue com a oferta, mas apresentaria seus frutos, produtos de seu trabalho. Apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina. Caim obedeceu ao construir um altar, obedeceu ao trazer um sacrifício, prestou, porém, apenas uma obediência parcial. A parte essencial, o reconhecimento da necessidade de um Redentor, ficou excluída.”

Escreveu também: “Esses irmãos foram provados, assim como o fora Adão antes deles, para mostrar se creriam na Palavra de Deus e a obedeceriam. Estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus. Sem derramamento de sangue não poderia haver remissão de pecado; e deviam eles mostrar sua fé no sangue de Cristo como a expiação prometida, oferecendo em sacrifício o primogênito do rebanho. Além disso, as primícias da terra deviam ser apresentadas diante do Senhor em ação de graças.

“Os dois irmãos de modo semelhante construíram seus altares, e cada qual trouxe uma oferta. Abel apresentou um sacrifício do rebanho, de acordo com as instruções do Senhor. ‘E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta’ (Gn 4:4). Lampejou o fogo do Céu, e consumiu o sacrifício. Mas Caim, desrespeitando o mandado direto e explícito do Senhor, apresentou apenas uma oferta de frutos.”

O assunto é bem claro: Caim procurou se autojustificar ao desprezar o sangue do Cordeiro. Para ele, Deus tinha que aceitar a oferta que ele trouxesse, do jeito dele. O que importava era a vontade e a disposição do adorador, não a vontade do Ser adorado. Para alguns leitores mais atentos da Bíblia, o verso 7 desse capítulo é o mais problemático. Por isso, procurando deixar tudo mais claro, o pastor e mestre em Teologia Eleazar Domini oferece a seguinte explicação/exegese com base no texto original hebraico:

“O texto diz: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo’ (Gn 4:7). De que ‘porta’ o texto está falando? Muitos interpretam esse texto da seguinte forma: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta [do coração]; o seu desejo [desejo do pecado] será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo [tem que dominar o pecado] (Gn 4:7), o que dá margem até mesmo para interpretações perfeccionistas. A questão toda é que chatat é uma palavra feminina, e os sufixos utilizados no verso são masculinos. Ou seja, há uma aparente contradição, se traduzirmos chatat por ‘pecado’. Vejamos como está no hebraico: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta [veremos que porta é essa]; o desejo dele será para ti, e sobre ele dominarás’ (Gn 4:7). No hebraico, está literalmente assim. Por isso, aqui cabe uma exegese bem-feita, para não errarmos no que o texto está dizendo:

“1. Não somos capazes de dominar o pecado sozinhos. Já há um grave erro teológico aqui. Isso é perfeccionismo puro. Vencer o pecado não cumpre a mim, cumpre a Cristo por mim e em mim.

“2. Uma análise mais acurada do texto demonstra que, como disse antes, o termo chatat pode ser, e é mais bem traduzido nesse texto por oferta pelo pecado e não ‘pecado’. Porque, se não, como responder a esta pergunta: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta; o desejo dele [Dele quem? Se chatat é feminina, quem é esse ele?) será para ti, e sobre ele [ele quem?] dominarás’ (Gn 4:7).

“Logo, há um erro gravíssimo de tradução que precisa ser revisto. Mas, se analisarmos o texto como ele está, precisaremos buscar o antecedente masculino mais próximo, que é Abel, no verso 4. Logo, o ele do texto não tem que ver com chatat, mas com Abel. E por que Abel? O que isso tem que ver com a história?

“Ao Deus aceitar Abel e rejeitar Caim, é como se Abel estivesse herdando o patriarcado, a herança, a primogenitura. Ninguém rejeitado por Deus seria escolhido para ser o próximo patriarca depois de Adão. Daí o ódio de Caim contra seu irmão.

“Agora vamos a uma tradução mais correta do texto: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que uma oferta pelo pecado [palavra feminina] jaz à porta [do jardim, não do coração; era na porta do jardim que Adão e Eva ofereciam seus holocaustos, segundo Ellen White]; o desejo dele [de Abel, que é o antecedente masculino mais próximo] será para ti, e sobre ele [Abel] dominarás’ (Gn 4:7).

“As expressões ‘desejo’ e ‘domínio’ têm as mesmas nuances de quando Deus diz a Eva que o desejo dela seria para o marido e ele dominaria (no sentido de ele ser o cabeça da casa, o cabeça da mulher). Nesse caso, se Caim voltasse e fizesse o que Deus mandou, o desejo de Abel seria para ele outra vez e ele dominaria sobre Abel de novo, ou seja, Caim voltaria a seu status de primogênito e seria o chefe da família, dominando sobre Abel. Mas ele não aceitou isso e matou o irmão. Detalhe: a Tradução Etíope traz essa mesma visão.

“Resumindo: o problema de Caim foi oferecer algo que Deus não havia pedido. Ofereceu algo diferente do que Deus solicitou. Aqui está um princípio básico para a adoração: adoração não é o que eu quero dar para Deus; adoração é o que Deus pede de mim. Nem sempre o que eu quero dar, mesmo que de coração, é o que Deus está solicitando. Caim entregou a oferta errada e por isso foi rejeitado. Não foi rejeitado por outro motivo, apenas por esse. É claro que foi um fruto de seu coração rebelde, e por isso Deus o rejeitou, e depois rejeitou a oferta dele. Mas a rejeição ocorreu por causa da oferta errada. Não se pode rejeitar o Cordeiro impunemente.”

(Se quiser aprofundar esse assunto, leia “At the door of Paradise: A contextual interpretation of Genesis 4:7”, publicado em Biblische Notizen 100 (2000): 45-59; Joaquim Azevedo, ex-professor do Salt-Iaene, é PhD em Religião pela Andrews University e diretor do Departamento de Religião da Southwestern Adventist university, Keene, Texas, USA)

Respostas a um antitrinitariano (parte 4 de 4)

2Pergunta: Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram antitrinitarianos. Em 1872, foi elaborado um documento contendo os Princípios Fundamentais da IASD e lá não consta a Trindade. Ellen White, falando desses princípios fundamentais, disse que não deveríamos mover os pilares da nossa fé que tinham sido estabelecidos nos últimos 50 anos. São os marcos antigos dos pioneiros. Mas hoje esses pilares, esses marcos foram abandonados pela liderança da IASD. Como vocês me explicam isso?

(As respostas a esses questionamentos têm como base estudos feitos por mim e materiais que li de outros autores e amigos, como Reginaldo Castro, Matheus Cardoso e o Demóstenes Neves.)

Resposta: Primeiro é necessário dizer que a abordagem inicial é falsa e tendenciosa. Dizer que “os pioneiros da IASD eram antitrinitarianos” não é de todo verdade. Havia pioneiros que tinham vindo de igrejas evangélicas tradicionais e que criam na Trindade. É verdade, também, que alguns não criam na Trindade e outros eram semiarianos, mas perceba que isso não se aplica a todos:

  1. S. Spears, em artigo de 1889, transformado em panfleto em 1892, defende “A doutrina bíblica da Trindade”.
  1. N. Downer, em artigo na Review, de 6 de abril de 1876, declara que “as três pessoas da Trindade tiveram parte na ressurreição de Cristo”.
  1. Lee S. Wheeler observa, citando Efésios 4:4, 5: “É digno de nota que nesta como em muitas outras partes da Escritura o Espírito como sendo um é mencionado como distinto do Pai e do Filho” (Lee S. Wheeler, “The Communion of the Holy Spirit”, Review and Herald, 21/4/1891, p. 244).
  1. D. Hildereth: “Tire o Espírito Santo da Bíblia e ‘nada’ que reste é digno de ser falado” (Review and Herald, 1/4/1862).
  1. R. F. Cotrell: “Onde houver adoração verdadeira aí o Espírito Santo está” (1873).
  1. Joseph Clark defendeu o Espírito Santo como uma realidade em Si mesmo e um agente de Deus (Review, 10/3/1874).
  1. P. Bollman, em 4/11/1889, na Signs of the Times, escreveu: “O Espírito Santo é divino e Criador de todas as coisas.”
  1. A. J. Morton, em 26/10/1891, na Signs of the Times, declarou: “A divindade do Espírito Santo e Cristo e a do Pai e Cristo não pode ser separada.”
  1. Alonzo T. Jones, então da Review and Herald por muitos anos, em sermão na Sessão da Conferência Geral de 27 de fevereiro de 1895, defendeu que “o Espírito Santo é um representante pessoal de Deus”. Também disse que há uma unidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho (General Conference Bulletin, 27/2/1895).
  1. Stephen N. Haskell, no artigo “O Espírito Santo”, declarou que “a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo é um mistério” (Review, 28/11/1899).
  1. G. C. Tenny, que em 1883 usara “it” para o Espírito Santo, declarou em 1896 que o Espírito Santo era inteligente, tinha existência independente e passou a usar o pronome pessoal “he” (Review, 9/6/1896).
  1. S. M. I. Henry (Sarepta Miranda Irish Henry), escritora e evangelista, era incentivada por Ellen G. White e produzia uma página semanal na Review chamada “Mulheres na Obra do Evangelho”. Ela declarou em 1898 que “os pronomes usados em conexão com o Espírito devem nos levar a concluir que Ele é uma pessoa – uma personalidade” (The Abindig Spirit, 271).
  1. R. A Underwood, que havia sido antitrinitariano a princípio, expôs, segundo ele mesmo declara, sua mudança de compreensão a partir do estudo da Bíblia. Na Review de 3 de maio de 1898, ele disse que o Espírito é uma pessoa e que não deveríamos permitir que Satanás destruísse nossa fé “na personalidade dessa pessoa da Divindade – O Espírito Santo”. Em relação à sua opinião anterior, Underwood declarou: “Mas nós queremos a verdade porque ela é a verdade, e nós rejeitamos o erro porque é o erro, apesar de qualquer ponto de vista que nós possamos anteriormente ter sustentado ou qualquer dificuldade que nós possamos ter tido ou possamos ter agora quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa” (Review, 3/5/1898).

Como você pôde observar, havia muitos pioneiros que criam na Trindade; portanto, afirmar que os pioneiros eram antitrinitarianos é, no mínimo, uma atitude irresponsável.

A segunda abordagem feita pelo antitrinitariano refere-se aos Princípios Fundamentais, elaborados em 1872 por Urias Smith. Segundo os que não creem na Trindade, o fato de não se falar da Trindade é uma clara evidência de que essa doutrina não seria verdadeira. Para melhor esclarecermos essa segunda parte, faremos três perguntas e as responderemos de forma que o leitor consiga compreender melhor a questão:

  1. Esses princípios fundamentais eram um documento oficial da igreja?
  2. Eles representam uma finalização no conhecimento e avanço doutrinário?
  3. Eles são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala?

Resposta à pergunta 1: Não. Os Princípios Fundamentais de 1872 escritos por Uriah Smith, de que tanto falam os antitrinitarianos, não são um documento oficial da Igreja Adventista. No parágrafo inicial do documento, o próprio autor informa que não se trata de algo oficial. Destinava-se a ser apenas uma resposta sobre alguns pontos de nossa fé, e não tinha autoridade alguma sobre a igreja como um credo imutável.

Leia com atenção, pois nossos objetores não enfatizam esse detalhe:

“Ao apresentar ao público esta sinopse de nossa fé, desejamos que seja distintamente compreendido que não temos nenhum artigo de fé, credo ou disciplina, além da Bíblia. Não apresentamos isto como tendo qualquer autoridade sobre nosso povo, nem é destinado a assegurar uniformidade entre ele, como um sistema de fé, mas é uma breve declaração do que é e tem sido, com grande unanimidade, mantida por ele. Com frequência achamos necessário responder a indagações sobre este assunto” (Urias Smith, “A Declaration of the Fundamental Principles Taught and Practiced by the Seventh-day Adventists”, Battle Creek, MI: Steam Press, 1872).

Urias Smith deixou claro que o documento em questão não deveria ser tomado como um credo fechado e que ele não tinha qualquer autoridade sobre a Igreja como um credo ou sistema de fé. Agora perceba o contraste: aqui Smith afirma que esses princípios não possuem nenhuma autoridade sobre a Igreja, mas quando Ellen White se referiu aos princípios fundamentais da fé, ela afirmou que Deus “nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208). E agora? Será que quando Ellen White fala dos principais pontos de nossa fé ela não tem em mente o documento de 1872? Veremos isso mais adiante, na resposta 3.

Além disso, se aceitamos a visão trinitária de que toda a nossa base doutrinária foi lançada em 1872, teremos sérias dificuldades com a ausência de várias doutrinas que se desenvolveram posteriormente:

  1. Modéstia Cristã – 1889.
  2. Conduta Cristã – 1889.
  3. Dízimos e Mordomia – 1889.
  4. Temperança – após 1863 (Ellen White). Obs.: Uriah Smith, ainda em 1883, negava a validade de Levítico 11 (Manuscript Releases, 852, in: Spirit of Prophecy Library, v. VI, Peace Press, Loma Linda, EUAM S/D, p. 1915).
  5. A própria Justificação pela Fé passou a ser mais discutida a partir de 1888.

Algo bastante interessante – e no mínimo curioso – é o fato de os antitrinitarianos não mencionarem este texto de Uriah Smith, escrito em 1896, numa seção de perguntas e respostas da Review and Herald, na qual ele comenta a resposta:

“Pergunta: As Escrituras ordenam o louvor ou a adoração ao Espírito Santo? Se não, a última linha da doxologia não contém um pensamento não bíblico?

“Resposta: Não conhecemos nenhum lugar na Bíblia onde somos ordenados a adorar o Espírito Santo, como foi ordenado no caso de Cristo (Hb 1:6), ou onde encontramos um exemplo da adoração do Espírito Santo, como no caso de Cristo (Lc 24:52). No entanto, na fórmula para o batismo, o nome ‘Espírito Santo’ está associado ao do Pai e ao Filho. Se o nome pode ser assim usado, por que não poderia ser apropriado como parte da mesma TRINDADE no hino de louvor: ‘Louve a Deus de quem é todo fluxo de bênção?’” (Uriah Smith, Review and Herald, 27/10/1896).

Não podemos dizer que Uriah Smith tenha se tornado plenamente trinitariano, mas que sua visão já estava muito melhorada; isso com certeza. Ele até usa o termo “Trinity”, algo incomum para ele anteriormente.

Resposta à pergunta 2: Os pioneiros nunca ficaram parados no tempo em relação ao crescimento na compreensão da doutrina. Eles não tinham um credo fechado. Ao contrário disso, estavam sempre crescendo no conhecimento da verdade. Veja o que disse Tiago White:

“Eu afirmo que os credos estão em direta oposição aos dons. Imaginemos a seguinte circunstância: Obtemos um credo, declarando exatamente em que deveremos acreditar sobre esse ponto e outro, e o que deveremos fazer em referência a isso ou aquilo, e afirmamos que creremos nos dons também. Mas suponha que o Senhor, por meio dos dons, nos conceda alguma nova luz que não se harmonize com nosso credo; então, se permanecermos fiéis aos dons, isso se chocará completamente com nosso credo. Fazer um credo é fixar estacas e impedir todo avanço futuro” (Tiago White, “Doings of the Battle Creek Conference, Acts 5:16, 1861”, Review and Herald, 8/10/1861, p. 148, 149).

“Temos conseguido regozijar-nos em verdades muito além do que então percebíamos. […] Mas não pensamos de modo algum que já sabemos tudo. Esperamos ainda progredir, de forma que nossa vereda se torne cada vez mais brilhante até ser dia perfeito. Que mantenhamos sempre um estado mental inquiridor, buscando mais luz e mais verdade” (Uriah Smith, Review, 30/4/1857).

“Nunca foram as Sagradas Escrituras tão valorizadas pelo remanescente como agora. Quando o testemunho da Bíblia para começar o dia ao pôr do sol foi apresentado em clara luz, assim como outros assuntos foram apresentados na Review, eles [os primeiros adventistas] de bom grado abraçaram esse testemunho. E nós acreditamos que eles mudariam outros pontos de sua fé se eles pudessem ver uma boa razão para fazê-lo a partir das Escrituras” (Tiago White, Review, 7/2/1856).

Será que Ellen White pensava diferente?

“Percepções nítidas e claras da verdade nunca serão a recompensa da indolência. A investigação de cada ponto que foi recebido como verdade irá ricamente recompensar o pesquisador: ele encontrará pedras preciosas. E, investigando de perto todo jota e til que achamos ser verdade estabelecida, comparando escritura com escritura, podemos descobrir erros em nossa interpretação das Escrituras. Cristo quer que o pesquisador de sua palavra cave fundo nas minas da verdade. Se a pesquisa for realizada corretamente, serão encontradas joias de valor inestimável. A Palavra de Deus é a mina das insondáveis riquezas de Cristo” (Review and Herald, 12/7/1898).

“Há homens entre nós que professam compreender a verdade para estes últimos dias, mas que não investigarão com calma a verdade mais recentemente estabelecida. Estão decididos a não avançar além das estacas que estabeleceram e não ouvirão aqueles que, dizem eles, não estão em defesa dos marcos antigos. São tão autossuficientes que tornam impossível que argumentemos com eles. […] Se forem apresentadas ideias que diferem em alguns pontos de nossas doutrinas anteriores, não devemos condená-las sem uma busca diligente da Bíblia para ver se elas são verdadeiras. Devemos jejuar e orar e pesquisar as Escrituras, como fizeram os nobres bereanos, para ver se essas coisas são assim. Precisamos aceitar todos os raios de luz que nos chegam. Por meio de fervorosa oração e diligente estudo da Palavra de Deus, as coisas sombrias serão esclarecidas para o entendimento” (Signs of the Times, 26/5/1890).

Respondendo à pergunta 3:

O que são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala? São os princípios fundamentais escritos por Smith em 1872? Não! Analisemos o contexto das declarações:

“Tenho estado a suplicar ao Senhor força e sabedoria para reproduzir os escritos das testemunhas que foram confirmadas na fé e NA PRIMITIVA HISTÓRIA DA MENSAGEM. DEPOIS DE PASSAR O TEMPO EM 1844, eles receberam a luz e andaram na luz, e quando os homens que pretendiam possuir novo esclarecimento vinham com suas maravilhosas mensagens acerca de vários pontos da Escritura, tínhamos, PELA ATUAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, TESTEMUNHOS BEM DEFINIDOS, que excluíam a influência de mensagens como as que o pastor G [A. F. Ballenger] tem devotado o tempo a apresentar. Esse pobre homem tem estado a trabalhar decididamente CONTRA A VERDADE CONFIRMADA PELO ESPÍRITO SANTO. QUANDO O PODER DE DEUS TESTIFICA DAQUILO QUE É VERDADE, ESSA VERDADE DEVE PERMANECER PARA SEMPRE COMO VERDADE. Não deve ser agasalhada nenhuma suposição posterior contrária ao esclarecimento que Deus proporcionou. Surgirão homens com interpretações das Escrituras que para eles são verdade, mas que não o são. Deu-nos Deus a verdade para este tempo como um fundamento para nossa fé. ELE PRÓPRIO NOS ENSINOU O QUE É A VERDADE. Aparecerá um, e ainda outro, com nova iluminação, que contradiz aquela QUE FOI DADA POR DEUS SOB A DEMONSTRAÇÃO DE SEU SANTO ESPÍRITO. Vivem ainda alguns que passaram pela experiência obtida QUANDO ESTA VERDADE FOI FIRMADA. Deus lhes tem benignamente poupado a vida para repetir, e repetir até ao fim da existência a experiência por que passaram da mesma maneira que o fez o apóstolo João até ao termo de sua vida. E os porta-bandeiras que tombaram na morte devem falar mediante a reimpressão de seus escritos. Estou instruída de que, assim, sua voz se deve fazer ouvir. Eles devem dar seu testemunho relativamente ao que constitui a verdade para este tempo. Não devemos receber as palavras dos que vêm com uma mensagem em contradição com os pontos especiais de nossa fé. Eles reúnem uma porção de passagens, e amontoam-na como prova em torno das teorias que afirmam. Isso tem sido repetidamente feito durante os cinquenta anos passados. E se bem que as Escrituras sejam a Palavra de Deus, e devam ser respeitadas, sua aplicação, uma vez que mova uma coluna do fundamento sustentado por Deus ESTES CINQUENTA ANOS, constitui grande erro. Aquele que faz tal aplicação ignora A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO QUE DEU PODER E FORÇA ÀS MENSAGENS PASSADAS, VINDAS AO POVO DE DEUS” (Ellen G. White, The Integrity of the Sanctuary Truth, p. 15-20).

Lendo o texto acima, CONSTATAMOS QUE O ASSUNTO DO QUAL A SERVA DO SENHOR ESTÁ FALANDO É ESPECIALMENTE O SANTUÁRIO. O título do documento é “A Integridade da Verdade do Santuário”. Nada de Divindade não trinitária. Observe a menção que ela faz ao pastor Albion Ballenger. Quem foi Ballenger? Foi um popular pregador adventista que trabalhou na Inglaterra, País de Gales e Irlanda. Ballenger concluiu que o entendimento adventista do ministério de Cristo no santuário era antibíblico. Foram as ideias de Ballenger CONTRA A DOUTRINA DO SANTUÁRIO QUE MOTIVARAM O TESTEMUNHO DE ELLEN WHITE ACIMA. Não deixe também de perceber que Ellen recorda os tempos depois de 1844, quando Deus, mediante o Espírito Santo, deu testemunhos bem definidos por meio de Sua serva para confirmar o que era a verdade e para não permitir que falsas ideias penetrassem na Igreja. Quando, no texto acima, ela menciona que foi o próprio Deus quem ensinou a verdade à Igreja, quando se refere ao esclarecimento que o próprio Deus proporcionou, da maravilhosa demonstração do Espírito Santo e de que quando o poder de Deus testifica daquilo que é a verdade essa verdade não deve mais ser alterada, ELA ESTÁ FALANDO DA DOUTRINA DO SANTUÁRIO NO CONTEXTO DO ATAQUE DE BALLENGER A ESSA DOUTRINA. Nos primeiros anos do Movimento, Deus de fato deu visões a Ellen orientando os pioneiros na interpretação correta da Escritura quando após muito estudo chegavam a um impasse. Isso ocorreu nos estudos sobre o Santuário nos primeiros anos após 1844. Veja como os antitrinitarianos pegam textos fora do contexto para criar um pretexto.

Os dois textos – do Manuscrito 135 (1903) e o de Mensagens Escolhidas, volume 1, p. 208 – geralmente usados pelos objetores da Trindade, de fato estão falando dos princípios fundamentais, dos marcos antigos, das doutrinas definidoras do adventismo, as quais foram resultado de muita oração, estudo da Bíblia e confirmação por meio das visões da mensageira do Senhor. O problema é que, ao analisar o contexto dessas duas passagens, constata-se que Ellen White de forma alguma está se referindo ao documento de 1872. Vamos ler o contexto (parágrafos precedentes) dos dois trechos, respectivamente:

“Meu marido, o pastor José Bates, o pai Pierce, o pastor Edson, um homem ávido, nobre e verdadeiro, e muitos outros cujos nomes não consigo recordar agora, estavam entre aqueles que, após a passagem do tempo em 1844, buscaram a verdade. Em nossas reuniões importantes, esses homens se reuniam e buscavam a verdade como a um tesouro escondido. Reunia-me com eles e estudávamos e orávamos fervorosamente, pois sentíamos que era nosso dever aprender a verdade de Deus. Muitas vezes ficávamos reunidos até alta noite e, às vezes, a noite toda, orando por luz e estudando a palavra. Quando jejuamos e oramos, um grande poder veio sobre nós. Mas eu não conseguia entender o raciocínio dos irmãos. Minha mente estava por assim dizer fechada e eu não conseguia compreender o que estávamos estudando. Então o Espírito de Deus vinha sobre mim, eu era arrebatada em visão, e era-me dada uma clara explicação das passagens que estávamos estudando, com instruções sobre a posição que deveríamos tomar em relação à verdade e ao dever. Foi-me tornada clara uma sequência de verdades que se estendia daquele tempo até ao tempo em que entraremos na cidade de Deus, e transmiti a meus irmãos e irmãs a instrução que o Senhor me deu. Eles sabiam que, quando eu não estava em visão, eu não conseguia entender esses assuntos e aceitavam como luz direta do céu as revelações dadas. Os principais pontos de nossa fé, como os mantemos hoje, foram firmemente estabelecidos. Ponto após ponto foi claramente definido, e todos os irmãos entraram em harmonia. Toda a companhia dos crentes estava unida na verdade. Houve aqueles que vieram com doutrinas estranhas, mas nunca tivemos medo de enfrentá-los. Nossa experiência foi maravilhosamente confirmada pela revelação do Espírito Santo” (Manuscrito 135 [1903]).

“Que influência essa, que desejaria levar os homens, neste período de nossa história, a trabalhar de modo enganador e poderoso, para solapar os alicerces de nossa fé – alicerces QUE FORAM LANÇADOS NO PRINCÍPIO DE NOSSA OBRA mediante DEVOTO ESTUDO DA PALAVRA E PELA REVELAÇÃO? Sobre esses alicerces temos estado a construir, nos últimos CINQUENTA ANOS. Admirai-vos de que, quando vejo o princípio de uma obra que pretende remover alguns dos pilares de nossa fé, tenha algo a dizer? Tenho de obedecer à ordem: ‘Enfrentai-o!’ Tenho de proclamar as mensagens de advertência que Deus me dá para divulgar, e então deixar com o Senhor os resultados. Tenho de agora apresentar o assunto em todos os seus aspectos, pois o povo de Deus não deve ser despojado. Somos o povo de Deus, observador dos mandamentos. Nos passados cinquenta anos tem-se feito pressão sobre nós com toda sorte de heresias, a fim de embotar-nos o espírito em relação aos ensinos da Palavra – especialmente quanto ao ministério de Cristo no santuário celestial e à mensagem do Céu para estes últimos dias, como foi dada pelos anjos do décimo quarto capítulo do Apocalipse. Mensagens de toda espécie e feitio têm feito pressão sobre os adventistas do sétimo dia, pretendendo substituir a verdade que, ponto por ponto, foi buscada com estudo e oração, e atestada pelo poder milagroso do Senhor. Mas OS MARCOS que nos tornaram o que somos devem ser preservados, e sê-lo-ão, conforme Deus o mostrou mediante Sua Palavra e o testemunho de Seu Espírito. Ele nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208).

Note-se que algumas expressões se repetem ou são equivalentes. “Após a passagem do tempo”, “Nos passados cinquenta anos” (o texto de ME é de 1904; os cinquenta anos são uma média que vai chegar lá nos primeiros anos do movimento; o próprio texto se refere ao “princípio de nossa obra”). Os dois textos mencionam o estudo dedicado da Bíblia e a Revelação do Espírito. É inegável que os dois textos estão se referindo à mesma época: os primeiros anos após a passagem de 1844, quando os primeiros adventistas se entregaram completamente à oração e se debruçaram intensamente sobre a Bíblia a fim de aprender o que é a verdade. Seus esforços foram recompensados pela atuação do Espírito de Deus por meio do dom profético de Ellen White. Durante esse período inicial, os pilares da fé adventista foram estabelecidos. Em outro texto, ela faz a mesma recordação. Note a semelhança nas expressões:

“Os cinquenta anos passados não apagaram um jota ou princípio de nossa fé ao recebermos as grandes e maravilhosas evidências que se tornaram certas para nós em 1844, após a passagem do tempo […] Aquilo que o Espírito Santo testificou como verdade após a passagem do tempo, em nosso grande desapontamento, é o sólido fundamento da verdade. Os pilares da verdade foram revelados e nós aceitamos os princípios fundamentais que nos tornaram o que somos – adventistas do sétimo dia, observando os mandamentos de Deus e tendo a fé de Jesus” (Carta 326, 1905).

De forma clara, Ellen White está se referindo aos primórdios da Igreja, quando as doutrinas distintivas foram estabelecidas pela oração, estudo da Palavra e revelação. Os princípios fundamentais de que Ellen White fala nesses textos NEM DE LONGE SE REFEREM AOS DE 1872, ESCRITOS POR URIAH SMITH. Por que os antitrinitarianos não mostram O CONTEXTO dos trechos que citam? Agora fica claro: OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EM ELLEN WHITE NÃO SÃO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE URIAS SMITH (de 1872). Encadear os textos de modo que passem a impressão de que Ellen White está se referindo ao documento de Uriah Smith induz a uma falsidade histórica!

Mas, para que não fique nenhuma dúvida, no próximo texto, Ellen White deixa bem claro que doutrinas são essas que foram fruto de muita oração, estudo da Palavra, e que o Espírito Santo, por meio de visões, confirmou a veracidade bíblica dessas doutrinas. Preste muita atenção no texto a seguir:

“Em Mineápolis, Deus concedeu preciosas gemas da verdade ao Seu povo. Essa luz do Céu enviada a algumas pessoas foi rejeitada com toda a resistência que os judeus manifestaram ao rejeitar a Cristo, havendo muita discussão em torno da defesa dos antigos marcos. Ficou evidente, porém, que quase nada sabiam sobre o que eram os antigos marcos. Ficou claro e foram feitos apelos diretos à consciência com base na Palavra de Deus; contudo, as mentes estavam cauterizadas, seladas contra a entrada da luz, porque decidiram que seria um perigoso erro remover os ‘marcos antigos’ quando não se estava removendo nada, além das ideias errôneas do que constituíam os antigos marcos. O PASSAR DO TEMPO EM 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a PURIFICAÇÃO DO SANTUÁRIO que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com AS MENSAGENS DO PRIMEIRO, DO SEGUNDO E DO TERCEIRO ANJOS, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: ‘OS MANDAMENTS DE DEUS E A FÉ DE JESUS.’ Um dos marcos dessa mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A LUZ DO SÁBADO DO QUARTO MANDAMENTO lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A NÃO IMORTALIDADE DOS ÍMPIOS É UM MARCO. NÃO CONSIGO LEMBRAR-ME DE ALGUMA OUTRA COISA QUE POSSA SER COLOCADA NA CATEGORIA DOS ANTIGOS MARCOS. Todo esse rumor sobre a mudança do que não deveria ser mudado é puramente imaginário” (O Outro Poder, p. 21 [Manuscrito 13, 1889]).

A QUAIS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EGW ESTAVA SE REFERINDO?

– A purificação do santuário celestial

– A tríplice mensagem angélica

– Os mandamentos de Deus

– A fé em Jesus

– O sábado

– A não imortalidade dos ímpios

Esses são, de acordo com a voz profética, os MARCOS ANTIGOS QUE NOS TORNAM O QUE SOMOS. Essas são as doutrinas chamadas de pilares de nossa fé, os principais pontos de nossa fé.

É válido ressaltar que a rejeição da Trindade por alguns pioneiros não se deu em si pela doutrina, mas pela forma como as igrejas romana e protestante a apresentavam na época, conforme bem expressa J. N. Loughborough: a doutrina “é contrária às Escrituras. Em quase qualquer texto do Novo Testamento que lermos, fala-se sobre o Pai e o Filho, apresentando-Os como duas pessoas distintas. […] O capítulo 17 de João já é suficiente para refutar a doutrina da Trindade. Mais de quarenta vezes em apenas um capítulo Cristo fala de Seu Pai como uma pessoa distinta de Si mesmo”. Numa análise simples, nota-se que J. N. Loughborough estava falando acerca da distorcida visão de que Jesus e o Pai eram um e o mesmo ser. Seria mais ou menos como mostram as ilustrações abaixo:

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Qualquer ser inteligente e conhecedor da Bíblia negaria esse conceito de Trindade. Reforçando a ideia de que o que os pioneiros combatiam era o conceito errôneo acerca da Trindade, segue-se a afirmação de Sarah Haselton: “A doutrina chamada Trindade afirma que Deus é sem forma ou partes; e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os três são apenas uma pessoa.” Esse conceito de Trindade os pioneiros realmente jamais deveriam ter aceitado, e não é assim que a Igreja Adventista creu ou crê. O comentário de A.C. Bourdeau confirma ainda mais isso:

“Que Deus é um Espírito infinito e eterno, sem pessoa, corpo, aparência ou partes; está presente em toda parte e em nenhum lugar; ou está em toda parte como um Espírito e em lugar algum como um ser tangível. Pergunto: isso não torna Deus quase um mero nada? Examinemos brevemente esses pontos à luz das Escrituras. É mostrado claramente: (1) Que Deus é uma inteligência material e organizada, possuindo corpo e partes. (2) Que Jesus é o Filho de Deus. Ele não é Seu próprio filho, nem Seu próprio pai, e é um ser distinto de Deus, o Pai.”

Veja como era ensinada a Trindade naquela época. Esse tipo de ensinamento eu também não aceitaria. O conceito de Trindade encontrado nos Escritos da senhora White jamais se assemelham ao conceito errôneo vigente em seu tempo. Ela diz: “Cumpre-nos cooperar com os três poderes mais alto no Céu – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – e esses poderes operarão por meio de nós, fazendo-nos coobreiros de Deus.”

Ela ainda afirma: “Aqui estão as três personalidades vivas do trio celestial, nas quais cada alma arrependida dos seus pecados recebe Cristo por fé viva, para aqueles que são batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”

É verdade, entretanto, que o conceito trinitário foi sendo compreendido com o tempo, como se nota na declaração de Waggoner na Review and Herald do ano de 1875: “Há uma questão que tem sido muito controvertida no mundo teológico sobre a qual nunca temos presumido entrar. É da personalidade do Espírito de Deus.”

Mesmo assim, eles seguiam a ordem do mestre batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (bem diferente dos antitrinitários de hoje, que negam o batismo trinitário). Na sessão da Review and Herald com o subtítulo “Church Manual” (Manual da Igreja) está assim: “Quando o momento adequado foi finalmente alcançado, o ministro deve levar o candidato devagar e solenemente para o local onde ele se propõe batizá-lo. […] Tendo chegado ao local desejado, o administrador deve ter uma firmeza do candidato, proferindo as seguintes palavras: meu irmão (ou irmã), agora eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Adequando a ação à palavra, ele deve lentamente mover o corpo do candidato em uma direção para trás até que a cabeça toque a água, em seguida, por um movimento súbito, o candidato deve ser mergulhado abaixo da superfície a uma profundidade suficiente para cobrir cada parte de sua pessoa com a água. Feito isso, ele deve ser levantado para a posição de pé novamente. Assim como ele emerge da água, é habitual para o administrador pronunciar a palavra ‘Amém’.”

Mais evidente e nítido se torna o crescimento da visão dos pioneiros quanto à Trindade nestas afirmações encontradas na Review and Herald de 1898 (mesmo ano em que Ellen White escreveu O Desejado de Todas as Nações), escritas por R. A. Underwood, com o título “The Holy Spirit a Person” (O Espírito Santo uma Pessoa):

“Espírito é o representante pessoal de Cristo no campo, e Ele é carregado com o trabalho de conhecer Satanás e derrotar esse inimigo pessoal de Deus e Seu governo. Parece estranho para mim, agora, que eu sempre acreditei que o Espírito Santo era apenas uma influência, tendo em vista o trabalho que ele faz. Mas nós queremos a verdade porque é verdade, e nós rejeitamos o erro porque ele é o erro, independentemente de quaisquer visões que mantivemos anteriormente, ou qualquer dificuldade que tivemos, ou podemos ter, quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa. A luz é semeada para o justo. O esquema de Satanás é destruir toda a fé na personalidade da Divindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo, – também em sua própria personalidade.”

É bem perceptível também que após uma compreensão mais aclarada acerca da Trindade esse assunto passou a ser bastante explorado nas literaturas da igreja. A seguir uma sequência de textos publicados por M. E. Steward no volume 87 da Review and Rehald, números 50, 51 e 52, que datam respectivamente de 15, 22 e 29 de dezembro de 1910. O primeiro artigo intitulado “The Divine Godhead: God, the Father” (A Divina Divindade: Deus, o Pai) começa com a declaração de 1 João 5:7: “Há três seres na Divindade: Deus, o Pai, Jesus Cristo, a Palavra e o Espírito Santo. Estes três são um.” Não é intenção desse artigo discutir a autenticidade dessa passagem, apenas mostrar que a compreensão dos pioneiros quanto a esse assunto foi gradual e crescente.

O segundo artigo é intitulado “The Second Person of the Godhead – Jesus Christ” (A Segunda Pessoa da Divindade – Jesus Cristo) e traz as seguintes afirmações: “Cristo tinha uma existência, antes de vir à Terra . (1) Ele tinha glória com o Pai ‘antes que o mundo existisse’ (João 17:5). (2) ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ‘O Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (João 1:1, 14). (3) Cristo estava com os israelitas no deserto (1 Coríntios 10:4, 9). Jesus Cristo uniu a humanidade à divindade. ‘Grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne’ (1 Timóteo 3:16).”

O terceiro artigo tem como título “The Third Person of the Godhead – the Holy Spirit” (A Terceira Pessoa da Divindade – O Espírito Santo). Nesse artigo é afirmado que o Espírito é “o representante de Cristo”, e “por isso o Espírito Santo é o direto agente no cumprimento de todos os propósitos e promessas divinos na obra da salvação do homem. E, como representante de Cristo, aquele que aceita a Cristo tem o dom do Espírito Santo”.

No ano de 1913, a Review publicou uma edição especial com relatos dos avanços do evangelho em todo o mundo. Entretanto, ao meio da revista com o subtítulo “Mensagem para hoje” há a seguinte declaração: “Para o benefício daqueles que podem desejar saber mais particularmente as características fundamentais da fé mantida por esta denominação, nós referiremos que os adventistas do sétimo dia creem… na Trindade divina. Essa Trindade consiste do eterno Pai, um ser espiritual pessoal, onipotente, onisciente, infinito em poder, sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, o Filho do eterno Pai, por quem todas as coisas foram criadas, e através de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o regenerador na obra da redenção” (grifo nosso).

É importante salientar que todos esses textos foram produzidos enquanto a senhora White estava viva e não houve da parte dela nenhum tipo de observação contrária. Alguns indivíduos já tiveram a ousadia de afirmar para mim que tais declarações passaram a ocorrer e não houve crítica da senhora White porque ela já estava bastante avançada em idade (morreu em 1915), e que, portanto, não estava mais acompanhando as supostas entradas de heresias na igreja. Ora, essa afirmação é no mínimo absurda. Prova disso é que nessa mesma revista apresentada acima (do ano de 1913) há um artigo escrito pela senhora White, e o curioso é que o artigo dela é imediatamente anterior ao artigo que traz a declaração mencionada anteriormente.

CONCLUSÃO

Pelo que se nota com clareza, o assunto da Trindade não foi introduzido na igreja a partir da década de 1940, como alguns advogam, nem na década de 1980. Mas a compreensão gradual dos pioneiros é evidenciada ao longo das edições das literaturas eclesiásticas, em especial (como mostrou este artigo), nas edições da Review and Herald. Portanto, qualquer tentativa contrária ao ensino da Trindade, tomando-se como base o argumento de que os pioneiros não aceitavam essa doutrina, carece de um estudo sério e abalizado, tanto na história da Igreja quanto em sua literatura. Proceder dessa maneira é evidenciar total ignorância e carência informacional acerca do assunto, o que torna os argumentos dos proponentes de tais alegações pueris e reducionistas.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” parte 1parte 2 e parte 3

Material complementar:

“Desenvolvimento do pensamento cristológico na IASD”

“Os pioneiros adventistas e a Trindade”

“Desenvolvimento gradual da doutrina da Trindade na Igreja Adventista do Sétimo Dia: uma análise nos registros iniciais da Review and Herald e da Revista Adventista”

Prezis:

“O adventistas e a Trindade”

“Mitos e fatos sobre a Trindade na IASD”

Respostas a um antitrinitariano (parte 3 de 4)

Christian dove with bright sun raysPergunta: Poderia ser o Espírito Santo uma pessoa distinta do Pai e do Filho, como ensinam os trinitarianos? Seria a terceira pessoa da Divindade ou Ele é o Espírito do Pai e do Filho? A Bíblia não mostra a palavra “espírito” como sendo outra pessoa? Por exemplo, em Gênesis 41:8; 45:27; Juízes 15:19; Salmo 51:10; Daniel 7:15, 2 Timóteo 4:22, fala-se do espírito de Faraó, de Jacó, de Sansão, de Davi, de Daniel e de Timóteo. Em todos os casos, quando é mencionado o espírito dessas pessoas citadas, não está falando de outra pessoa, mas dela mesma. Nesse sentido, está claro que o espírito é uma pessoa, a própria pessoa. Assim, também, quando falamos do Espírito de Deus, estamos falando do próprio Deus. E quando falamos do Espírito de Cristo, estamos falando dEle mesmo. Ellen White escreveu: “Ao dar-nos o Seu Espírito, Deus nos dá a Si mesmo, fazendo-Se uma fonte de divinas influências para proporcionar saúde e vida ao mundo” (Testimonies, v. 7, p. 273).

“O relato declara: ‘Soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo’ (João 20:22). Jesus está esperando para soprar sobre todos os Seus discípulos, dando-lhes a inspiração de Seu Espírito santificador e transfundindo a vital influência de Si mesmo a Seu povo” (E Recebereis Poder, p. 26).

“Impedido pela humanidade, Cristo não poderia estar em todos os lugares pessoalmente, então foi para vantagem deles [os discípulos] que Ele deveria deixá-los, ir para o Pai, e enviar o Espírito Santo para ser o Seu sucessor na terra. O Espírito Santo é Ele mesmo, despido da personalidade da humanidade e independente dela. Ele Se representaria como estando presente em todos os lugares pelo Seu Espírito, como o Onipresente. ‘Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em Meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito’ (João 14:26). ‘Mas Eu vos digo a verdade: convém-vos que Eu vá, porque, se Eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, Eu for, Eu vô-Lo enviarei’ (João 16:7; Manuscripts Releases, v. 14, p. 7).

Diante de tudo o que foi exposto acima, podemos mesmo crer que o Espírito Santo é a terceira pessoa na Divindade?

Resposta: Essas são as principais inquietações e esses os principais argumentos usados atualmente pelos antitrinitarianos. Naturalmente, existe uma grande fragilidade na linha argumentativa, pois ela claramente se desenvolve de forma unilateral, dispensando textos que clarificam bastante o assunto. Eles desconhecem ou ignoram o fato de a palavra “espírito” (ruach, no hebraico, ou pneuma, no grego) ser polissêmica, além de utilizarem antropomorfismos como argumento final para determinar a Divindade, desqualificando a pessoa do Espírito Santo a partir de um conceito meramente humano. Vamos aos fatos:

Da mesma forma como os antitrinitarianos pecam em sua abordagem antropomórfica quando falam da geração e filiação de Jesus – segundo eles, se os termos “gerar” e “filho” implicam literalmente em ter um pai biológico para nós humanos, da mesma forma, quando a Bíblia fala que Jesus é o “Filho de Deus” ou que Ele foi “gerado”, isso indica que Jesus é literalmente filho da primeira pessoa da Divindade (o Pai), ou seja, não possui eternidade pretérita, nasceu, foi gerado –, dessa mesma forma eles argumentam acerta da pessoa do Espírito Santo. É claro que se nós usássemos os critérios e a linguagem humanos para explicar detalhadamente a Divindade, teríamos, por exemplo, que encontrar uma mãe para Jesus, já que para ter um filho é necessária uma mãe (em termos humanos). Como sabemos ser isso impossível, é óbvio concluir que os termos humanos empregados para a Divindade devem ser analisados cuidadosamente. Na linha argumentativa antitrinitariana, pode-se notar o mesmo erro de interpretação e o uso irresponsável de uma linguagem antropomórfica como determinante para desqualificar o Espírito Santo como a terceira pessoa da Divindade. Vejamos:

“E aconteceu que pela manhã o seu espírito perturbou-se, e enviou e chamou todos os adivinhadores do Egito, e todos os seus sábios; e Faraó contou-lhes os seus sonhos, mas ninguém havia que lhos interpretasse.” Gênesis 41:8

“Porém, havendo-lhe eles contado todas as palavras de José, que ele lhes falara, e vendo ele os carros que José enviara para levá-lo, reviveu o espírito de Jacó seu pai.” Gênesis 45:27

“Então Deus fendeu uma cavidade que estava na queixada; e saiu dela água, e [Sansão] bebeu; e recobrou o seu espírito e reanimou-se; por isso chamou aquele lugar: A fonte do que clama, que está em Leí até ao dia de hoje.” Juízes 15:19

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito inabalável.” Salmo 51:10

Ao citar textos como esses, note a conclusão a que chegam (peguei a argumentação que um antitrinitariano desenvolveu recentemente num estudo):

“Vemos aqui a expressão ‘seu espírito’ escrita separadamente de faraó. Quer dizer então que são duas pessoas? Nesse texto diz que o espírito de Faraó perturbou-se. Quem você entende que se perturbou? Foi outra pessoa ou foi ele mesmo? O espírito de Jacó reviveu ao ouvir as palavras e ver os carros que José havia enviado. Quem foi que reviveu e se alegrou? Foi outra pessoa ou foi Jacó mesmo? A Bíblia mostra que ao Sansão beber a água que Deus providenciou para ele seu espírito foi recobrado. Foi ele mesmo que foi recobrado ou foi outro ser? Davi pediu para Deus renovar um espírito inabalável nele. Esse pedido tem o sentido de fazer outro ser se tornar inabalável ou ele mesmo ser inabalável?” E conclui: “Nesse sentido, claro está que o espírito é uma pessoa, a própria pessoa. Assim também, quando falamos do Espírito de Deus, estamos falando do próprio Deus. E quando estamos falando do Espírito de Cristo estamos falando dEle mesmo.”

Ora, tal antropomorfismo é inaceitável porque não podemos definir a Divindade a partir de conceitos e palavras humanos. Só para entendermos a que ponto podemos chegar utilizando esse princípio, veja:

“Então dirá também aos que estiverem à Sua esquerda: Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” Mateus 25:41

“E irão eles para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.” Mateus 25:46

“Assim, Sodoma e Gomorra […] havendo-se corrompido […] foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.” Judas 7

“Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé…” Romanos 16:26

Os imortalistas, numa simples comparação dos textos acima, como fazem os antitrinitarianos, concluem: “Se Deus é eterno, i.e., sem fim, logo o fogo e o tormento também são eternos, sem fim, uma vez que a palavra grega usada é a mesma. Portanto, existe um inferno que ficará queimando os ímpios por toda a eternidade.” Não podemos aceitar essa aplicação dada pelos nossos irmãos evangélicos ou católicos pelo simples fato de que uma mesma palavra, quando usada para definir coisas humanas e terrestres, pode ter uma aplicação completamente diferente quando utilizada em relação com a Divindade. Por exemplo, o termo aiónios (eterno), quando se refere a Deus, implica não somente não ter fim, mas ter toda eternidade, pretérita e futura. Quando esse mesmo termo é usado para coisas terrestres, não tem essa mesma significação (ou o tal fogo eterno existe desde sempre?). Sobre isso escreveu Arnaldo B. Christianini:

“Para qualquer pessoa isenta de preconceitos, as palavras que se traduzem por ‘eterno’ e ‘todo o sempre’ não significam necessariamente que nunca terão fim. No Novo Testamento, vem do grego aión, ou do adjetivo aiónios. É impossível forçar esse radical grego significar sempre um período que não tem fim. Quando aplicado a coisas terrenas tem sentido restrito de duração enquanto durar a coisa a que se liga; quando junto a Deus ou coisas derivadas de Deus, então, sim, exprime duração sem fim” (Subtilezas do Erro, p. 236, 237).

Percebe como é perigoso utilizar uma expressão, um conceito humano para definir o Divino? Além do mais, é sabido que o termo “espírito” é polissêmico, portanto, não podemos esperar um mesmo uso e/ou aplicação para ele. Veja:

“Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.” 2 Reis 2:9

Seguindo a linha que foi apresentada, em que o espírito da pessoa é a própria pessoa, seria coerente concluir que Eliseu estaria pedindo dois Elias sobre ele? Óbvio que não! Trata-se de linguagem figurada. Eliseu desejava que o mesmo Espírito Santo que atuou em Elias também atuasse nele. Mas vejamos outros usos do termo “espírito” na Bíblia:

– Espírito de ciúmes: Nm 5:14

– Espírito da impureza: Zc 13:2

– Espírito de profundo sono: Is 29:10

– Espírito do Egito: Is 19:3

– Espírito das prostituições: Os 5:4

– Espírito da luxúria: Os 4:12

– Espírito novo: Ez 11:19

– Espírito como referência ao entendimento: Is 29:24

– Espírito como referência às intenções do coração: Pv 16:2

– Espírito como referência a um ser maligno: Jó 4:15

– Espírito como referência ao fôlego de vida: Sm 146:4; Ec 12:7; Jr 10:14; Jr 51:17; Hc 2:19 e Jó 14:10

Note as várias formas como o termo “espírito” é empregado na Bíblia. Essa polissemia deve ser respeitada. Apesar de em alguns casos “espírito” ser uma referência à própria pessoa, como apontou o antitrinitariano, jamais encontramos frases do tipo: “E disse o espírito de Davi”, “Falou, pois, o espírito de faraó”, “Mentiste ao espírito de Daniel”, “Entristeceste o espírito de Jacó”, “O espírito de Moisés enviou a Arão”, etc., expressões comuns usadas tendo o Espírito Santo como referencial.

Usar o texto de João 20:22: “Soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”, para inferir que o Espírito Santo não pode ser uma pessoa, pois não se pode soprar uma pessoa, é também falta de honestidade com o estilo literário (uso figurado). Vemos na Bíblia situação similar: “Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” (Rm 13:14).

Como revestir-se de Cristo se Ele não é uma roupa? É óbvio que se trata de uma linguagem figurada. Portanto, não podemos usar a expressão “soprou sobre eles” referindo-se ao Espírito Santo para dizer que Ele não é um ser pessoal, assim como a frase “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” não tira de Cristo sua personalidade.

Quanto à última parte do questionamento (talvez a mais usada no meio antitrinitariano) em que foram citados os textos de Ellen White para inferir que o Espírito Santo é o próprio Cristo ou o Pai, analisemos:

“Ao dar-nos o Seu Espírito, Deus nos dá a Si mesmo, fazendo-Se uma fonte de divinas influências para proporcionar saúde e vida ao mundo” (Testimonies, v. 7, p. 273).

“Impedido pela humanidade, Cristo não poderia estar em todos os lugares pessoalmente, então foi para vantagem deles (os discípulos) que Ele deveria deixá-los, ir para o Pai, e enviar o Espírito Santo para ser o Seu sucessor na terra. O Espírito Santo é Ele mesmo, despido da personalidade da humanidade e independente dela” (Manuscripts Releases, v. 14, p. 7).

Segundo a Bíblia o Espírito Santo é “outro” (állos, outro da mesma espécie, outro semelhante) Consolador. Basta ler João 14, 15, 16. No entanto, considerando a representação de Jesus pelo Espírito Santo podemos dizer que a presença do Espírito é a de Jesus. Isso mesmo se pode dizer do Pai que era representado por Jesus quando do Seu ministério na Terra. Ora, Ellen White como profetisa do Senhor usou dos mesmos recursos literários que os profetas bíblicos, e vemos situações idênticas na Bíblia:

Quando Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”, Jesus respondeu: “Estou há tanto tempo convosco, e não Me tendes conhecido, Filipe? Quem Me vê a Mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (Jo 14:8, 9). Sabemos que Jesus não é o Pai, mas Ele diz: “Há quanto tempo estou convosco, e não Me tendes conhecido, Filipe?” Na sequência, o próprio Jesus explica que vê-Lo é como ver o Pai.

João usou a mesma linguagem no livro de Apocalipse ao dizer que Jezabel ensinava e seduzia os cristãos de Tiatira (Ap 2:20), quando, na verdade, Jezabel estava na sepultura, o que quer dizer que seus responsáveis eram como se fossem Jezabel em sua apostasia.

Há um texto, porém, exatamente igual, pois Cristo também usou a mesma forma de linguagem quando Se referiu a João. Ele disse: “E se o quereis reconhecer, ele mesmo [João Batista] é Elias” (Mt 11:14). A partir desse texto podemos dizer que João Batista é Elias? Não, João Batista é como se fosse Elias. Da mesma forma, Ellen White diz que o Espírito Santo é Ele mesmo (Jesus), i. e., é como se fosse o próprio Cristo. Se usarmos a literalidade para Ellen White nesse caso, devemos usar também no texto bíblico, o que acarretaria numa heresia: dizer que João era literalmente Elias.

Podemos crer que o Espírito Santo é uma pessoa distinta do Pai e do Filho, a Terceira Pessoa da Divindade? Sim, podemos! Abaixo os textos que nos habilitam a autorizam assim:

O Espírito Santo é UMA PESSOA, pois dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. […] O Espírito Santo tem PERSONALIDADE, do contrário não poderia testificar ao nosso espírito e com nosso espírito que somos filhos de Deus” (Ellen White, Manuscrito 20, 1906).

“[O Espírito Santo] Deve ser também UMA PESSOA DIVINA, do contrário não poderia perscrutar os segredos que jazem ocultos na mente de Deus” (Ellen White, Manuscrito 20, 1906).

O antitrinitariano diria: “Sim Ele é uma pessoa, mas é o próprio Cristo, não uma pessoa distinta. Será? Vejamos:

 Cristo, nosso Mediador, e o Espírito Santo estão constantemente intercedendo em favor do homem; mas o Espírito não roga por nós como faz Cristo, que apresenta Seu sangue derramado desde a fundação do mundo; o Espírito atua sobre nossos corações extraindo orações e arrependimento, louvor e agradecimento. A gratidão que flui de nossos lábios é o resultado do que o Espírito faz ressoar nas cordas da alma com santas recordações que despertam a música do coração” (Manuscrito 85, 1901).

“O Espírito Santo é o Confortador, em nome de Cristo. Ele personifica Cristo, contudo é uma personalidade DISTINTA” (Manuscrito 93, 1893; 20 MR, p. 324].

 Três agências DISTINTAS, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, trabalham juntas pelos seres humanos” (Manuscrito 27a, 1900).

O antitrinitariano argumenta (tentando desconstruir o sentido básico das palavras PERSONALIDADE e AGÊNCIAS, como se não fossem equivalentes a pessoa): “Mas o texto fala de personalidade, de agências e não de pessoas. Queria um texto que falasse de TRÊS PESSOAS.” Tudo bem, aí estão:

HÁ TRÊS PESSOAS VIVAS pertencentes à Divindade celeste. Em nome destes três grandes poderes – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – os que recebem a Cristo por fé viva são batizados […] e esses poderes cooperarão com os súditos obedientes do Céu em seus esforços para viver a nova vida em Cristo” (Special Testimonies, Série B, nº 7, p. 62, 63).

O texto acima é confiável?

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Manuscrito 21, 1906, p. 4 (note pela data do original que Ellen White estava viva).

O texto não diz que há duas pessoas e que a terceira seria a própria segunda pessoa ou a própria primeira pessoa. Diz que “HÁ TRÊS PESSOAS VIVAS pertencentes à Divindade celeste”.

“A obra está colocada diante de cada alma que reconhece sua fé em Jesus Cristo pelo batismo, e se tornou um recipiente da promessa das TRÊS PESSOAS – o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (Manuscrito 57, 1900; publicado em SDA Bible Commentary, 6:1074).

O antitrinitariano pode argumentar: “Mas esse texto foi adulterado, não é verdadeiro.” Será que foi adulterado? Veja as imagens abaixo:

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Trecho e rascunho escrito à mão do Manuscrito 57, 1900.

 Se o Espírito Santo fosse o próprio Jesus ou o próprio Pai, como pretendem equivocadamente os antitrinitarianos, como entender o texto acima que fala que há TRÊS PESSOAS?

“O poder do mal se estivera fortalecendo por séculos, e alarmante era a submissão dos homens a esse cativeiro satânico. Ao pecado só se poderia resistir e vencer por meio da poderosa operação da TERCEIRA PESSOA DA DIVINDADE, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder” (O Desejado de Todas as Nações, p. 671).

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Trecho da Review and Herald de 1906, citando Ellen White. Nessa edição ela também escreve um artigo.

Não pode haver terceira pessoa se não houver uma segunda e uma primeira.

Conclusão

Por tudo o que foi apresentado acima, a única conclusão a que chegamos é: o Espírito Santo é a terceira pessoa da Divindade; Ele não é o Pai, não é o Filho, é uma pessoa (ou personalidade, como queira) distinta, que age, intercede e está interessado em nossa salvação. Por que o diabo lança tanto descrédito sobre a pessoa do Espírito Santo? Porque “ao pecado só se poderia resistir e vencer por meio da poderosa operação da TERCEIRA PESSOA DA DIVINDADE, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder”. É do maior interesse do mal que os seres humanos não acreditem na TERCEIRA PESSOA DA DIVINDADE. E você, de que lado está?

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: Respostas a um antitrinitariano parte 1 e parte 2

 

Respostas a um antitrinitariano (parte 2 de 4)

jesusPergunta: Os trinitarianos negam que Cristo seja o Filho de Deus. Ele só se torna Filho quando vem à Terra. Mas a Bíblia diz que Cristo é o Filho de Deus, sendo lógico concluir que Ele nasceu de Deus, foi gerado de Deus, portanto, não tem a eternidade pretérita. 1 João 5:1 diz que Jesus foi gerado. A própria Ellen White chama Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação. Como entender isso?

Resposta: Nenhum trinitariano nega que Jesus é o Filho de Deus. A Bíblia afirma e o próprio Jesus Se autointitula o Filho de Deus. O problema está na compreensão equivocada que os antitrinitarianos têm dessa expressão. Algumas expressões usadas naquela época, se isoladas de seu contexto, não são bem compreendidas. Por exemplo: quando a Bíblia chama Jesus de Filho do homem, quer dizer que Ele é totalmente homem, ser humano; quando chama Jesus de Filho de Davi, quer dizer que Ele era o Messias, o Rei, o prometido que viria resgatar Israel (na visão do judeu), a humanidade; da mesma forma, quando a Bíblia chama Jesus de Filho de Deus, quer dizer que Ele era totalmente Divino, Deus.

Para mais informações sobre esse tema, leia isto, isto, isto, isto, isto, isto e isto.

O termo “gerado” usado, por exemplo, em Hebreus 1:5, quando visto em seu contexto, nota-se, pelo Salmo 2:7, que primariamente foi utilizado para Davi, quando ele foi entronizado. Por que o verbo “gerar” usado em Salmo referindo-se a Davi significa entronização e quando repetido em Hebreus para ser aplicado a Cristo significa nascer, vir a existência? Da mesma forma, observando o contexto de 1 João, será que no capítulo 5, verso 1 era propósito do autor descrever a suposta origem, o suposto nascimento de Jesus? Vejamos:

a) “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que O gerou também ama ao que dEle é nascido” (1Jo 5:1).

Πᾶς ὁ πιστεύων ὅτι Ἰησοῦς ἐστὶν ὁ χριστός, ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται· καὶ πᾶς ὁ ἀγαπῶν τὸν γεννήσαντα ἀγαπᾷ καὶ τὸν γεγεννημένον ἐξ αὐτοῦ.

No destaque acima está a palavra gennao (γεννάω), que significa nascido ou gerado. Apesar de o verso em português ser traduzido assim: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que O gerou também ama ao que dEle é nascido.” Note que há um intercâmbio entre os verbos “gerar” e “nascer”. No grego, entretanto, trata-se do mesmo verbo. A pergunta é: Em que consiste o nascimento ou geração de Cristo? Será que essa expressão, esse verbo só se refere a nascimento no sentido de vir à existência?

Analisemos outras ocorrências do verbo gennao em 1 João para saber o que ele significa, e depois em outras passagens no Novo Testamento:

b) “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1 João 4:7).

Ἀγαπητοί, ἀγαπῶμεν ἀλλήλους, ὅτι ἡ ἀγάπη ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶς ὁ ἀγαπῶν ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται καὶ γινώσκει τὸν θεόν.

c) “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 João 5:4).

ὅτι πᾶν τὸ γεγεννημένον ἐκ τοῦ θεοῦ νικᾷ τὸν κόσμον· καὶ αὕτη ἐστὶν ἡ νίκη ἡ νικήσασα τὸν κόσμον, ἡ πίστις ἡμῶν.

d) “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18).

Οἴδαμεν ὅτι πᾶς ὁ γεγεννημένος ἐκ τοῦ θεοῦ οὐχ ἁμαρτάνει, ἀλλ᾽ ὁ γεννηθεὶς ἐκ τοῦ θεοῦ τηρεῖ αὐτόν καὶ ὁ πονηρὸς οὐχ ἅπτεται αὐτοῦ.

Assim, notamos que o verbo γεννάω (gennao) em 1 João não traz necessariamente o sentido de nascimento físico, o que implica vir à existência. Em todo o livro não é essa a conotação do verbo. Por que seria apenas nessa passagem? Veja mais este exemplo fora da literatura joanina:

 e) “Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões” (Filemom 1:10).

Παρακαλῶ σε περὶ τοῦ ἐμοῦ τέκνου, ὃν ἐγέννησα ἐν τοῖς δεσμοῖς μου, Ὀνήσιμον.

Em todas as situações mostradas acima percebemos que o gerar não tem o significado de nascer literalmente, vir à existência (mesmo que esse também possa ser um significado possível ao termo). Por que, então, quando se refere a Jesus, sempre o termo gerar é imposto pelos antitrinitarianos como sendo algo literal, vir à existência, nascer fisicamente?

Os antitrinitarianos tentam fazer certas dicotomias entre os termos “gerar”, “nascer” e “criar”. A questão é: a palavra pode até ser diferente, mas o conceito é o mesmo – Cristo veio à existência de alguma forma; houve um momento na eternidade em que Ele não existia. O Pai O trouxe à existência, seja por geração ou criação, não importa. Aqui se encontra o primeiro grande erro: Deus não é um ser que pode ser criado ou gerado (no sentido de vir à existência). Esse é o conceito grego quando falavam de suas divindades. A Bíblia nega o conceito de uma divindade que não possui a eternidade. Ser Deus implica, necessariamente, ser eterno, tanto para frente quanto para trás. Se foi criado, não é Deus. Se nasceu, não é Deus, se foi gerado (no sentido de vir à existência e não no sentido bíblico de entronização), não é Deus. Deus é eterno.

Cristo é Deus? É eterno? Sim. A Bíblia diz que sim:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os Seus ombros, e Se chamará o Seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Como o Pai da Eternidade, aquele que cria a eternidade, não seria eterno?

Vejamos abaixo mais alguns textos inspirados sobre a divindade e rternidade de Cristo:

“Ao falar de Sua preexistência, Cristo faz o pensamento remontar aos séculos eternos. Ele nos assegura que nunca houve um tempo em que não estivesse em íntima ligação com o Deus eterno. Aquele cuja voz os judeus estavam então ouvindo estivera com Deus como Alguém que Se achava em Sua presença” (Ellen G. White, Signs of the Times, 29 de agosto de 1900).

“Antes de serem criados homens ou anjos, a Palavra [ou Verbo] estava com Deus, e era Deus. O mundo foi feito por Ele, ‘e sem Ele nada do que foi feito se fez’ (João 1:3). Se Cristo fez todas as coisas, existiu Ele antes de todas as coisas. As palavras faladas com respeito a isso são tão positivas que ninguém precisa deixar-se ficar em dúvida. Cristo era, essencialmente e no mais alto sentido, Deus. Estava Ele com Deus desde toda a eternidade, Deus sobre todos, bendito para todo o sempre. O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai. Era Ele a excelente glória do Céu. Era o Comandante dos seres celestes, e a homenagem e adoração dos anjos era por Ele recebida como de direito. Isto não era usurpação em relação a Deus” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 247, 248).

O que significa toda eternidade? Toda é toda. Ou seja, precisamos aceitar que:

a) Nunca houve um tempo em que Cristo não estivesse com o Pai. E nunca é nunca

b) Ele é Deus no mais alto sentido, portanto, não pode ter vindo à existência de alguma forma, porque Deus não nasce, Deus é.

c) Estava com o Pai desde toda a eternidade. Toda é toda. Se você pudesse viajar a qualquer ponto da eternidade, lá estaria Jesus. Se Ele não estivesse, Ellen White seria mentirosa, pois ela disse toda

A Bíblia diz que Deus existe de eternidade a eternidade. Claramente o texto está falando de eternidade pretérita e eternidade futura. Veja: “Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). De quem esse texto está falando? Quem é esse ser eterno para frente e para trás? Veja o que Ellen White escreveu:

“‘Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). ‘O povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou” (Mateus 4:16). Aqui se apresentam a preexistência de Cristo e o propósito de Sua manifestação ao mundo, como raios vivos de luz do trono eterno. ‘Agora ajunta-te em esquadrões, ó filha de esquadrões; pôr-se-á cerco contra nós: ferirão com a vara no queixo ao juiz de Israel. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti Me sairá O que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade’ (Miqueias 5:1, 2; Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 248).

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Portanto, qualquer tentativa de afirmar que Cristo não é Deus eterno, que Ele foi gerado e não existia desde sempre com o Pai é apenas um esforço maligno para distorcer essa verdade tão bela da plena divindade e eternidade de Jesus. Ele é Deus, sempre existiu, sempre foi um com o Pai, sempre esteve com Ele. Ele é o YHWH do Antigo Testamento. Como disse a serva do Senhor falando de Jeová, aquele que aparece no Antigo Testamento: “Jeová é o nome dado a Cristo” (Signs of the Times, 3/5/1899).

Leia mais sobre isso aqui, aqui e aqui.

Sobre Ellen White chamar Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação, essa é uma situação simples e muito comum. Trata-se de termos retroativos e proféticos. Por que Ellen White chama Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação? Pelo mesmo motivo que

a) a Bíblia chama Jesus de Filho do homem em Daniel, antes de Sua encarnação;

b) a Bíblia diz que Jesus é o cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo;

c) Ellen White chama Jesus de Jesus (nome dado pelo anjo quando apareceu a Maria): “Lúcifer estava invejoso e enciumado de Jesus Cristo” (História da Redenção, p. 14). Naquela época Jesus era chamado de Jesus Cristo? Claro que não!

Portanto, nota-se claramente que certos títulos atribuídos a Cristo são retroativos (termos conhecidos hoje) e proféticos. O fato de alguém dizer hoje que “o Filho de Deus lutou contra Lúcifer no Céu”, ou “Jesus venceu Lúcifer lá no Céu” não quer dizer necessariamente que Ele já era chamado com esses nomes lá no Céu naquela ocasião; são termos conhecidos hoje e que usamos comumente ao relatar histórias do passado, assim como Ellen White o fez. Nem seria lógico Ellen White contar o que houve no Céu falando sempre “a segunda pessoa da Divindade”, só porque naquela época Ele ainda não havia recebido o nome (título) de Jesus ou Filho de Deus ou ainda Filho do homem.

Leia mais aqui, aqui e aqui.

Pergunta: Jesus disse mesmo as palavras de Mateus 28:19 ou esse texto foi um acréscimo posterior ao livro de Mateus?

Resposta: Leia o texto “A fórmula batismal trinitária de Mateus 28:19 é autêntica?” e você encontrará a resposta para essa pergunta.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” (parte 1) 

A fórmula batismal trinitária de Mateus 28:19 é autêntica?

batismo3Críticos textuais denunciam o texto de Mateus 28:19 como sendo resultado de uma falsificação dos originais. E o fazem com base nas obras de Eusébio, em uma nota de rodapé na Bíblia de Jerusalém, bem como na quantidade superior de textos em Atos falando do batismo em nome de Jesus. Mateus 28:19 está no original?

Respondendo, não necessariamente na ordem, podemos iniciar afirmando que não é prudente formular uma doutrina ou a aceitação de um texto com base na quantidade de textos. Não podemos simplesmente colocar numa balança uma quantidade x de textos falando sobre o batismo em nome de Jesus, mencionado em Atos, versus a quantidade y de textos falando para batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e a partir de então definir: como há mais textos x do que y, ficamos com a visão x em detrimento de y.

Só para que o leitor entenda o perigo dessa forma equivocada de se fazer hermenêutica, darei o seguinte exemplo: alguém se levanta na igreja dizendo que não há necessidade de se fazer o lava-pés no momento da Ceia. Outro contra-argumenta que assim o fazemos com base em João 13, onde Cristo lava os pés dos discípulos e não somente isso: Ele nos incentiva a fazer o mesmo em memória dEle. O questionador então conclui: “Mas se você ler os textos da Ceia do Senhor em Mateus, Marcos e Lucas, verá que não há nenhuma menção ao tal lava-pés. Portanto, com base na quantidade, levando em conta que há mais textos nos quais não se fala do lava-pés e apenas um que menciona a necessidade de praticar o lava-pés, podemos dizer que o texto de João 13 não é fidedigno, foi alongado e por isso não devemos praticar o lava-pés.” Esdrúxula essa interpretação, não é mesmo?

Mas é exatamente isso que fazem os que negam Mateus 28:19 como autêntico. Eles comparam com Atos, veem que só fala do batismo em nome de Jesus e, ao invés de conciliar os textos, de ajustá-los, eles colocam um contra o outro, somam as quantidades de um lado e do outro e o melhor resultado numérico ganha. Já pensou se usássemos essa regra com as 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14 ou com as três mensagens angélicas de Apocalipse 14? Esses textos só aparecem uma única vez na Bíblia. Definitivamente, essa hermenêutica não é correta.

Outro argumento comumente utilizado é a forma como Eusébio usa Mateus 28:19. Citam Eusébio como autoridade máxima no assunto, como se não houvesse nada anterior a Eusébio que mencionasse a Trindade em Mateus 28:19. Podemos citar a Didaquê, Clemente, o Pastor de Hermas, Irineu, Tertuliano de Cartago, Hipólito de Roma e Orígenes de Alexandria (nenhum desses é nossa regra de fé ou parâmetro doutrinário; estão sendo citados apenas para mostrar que antes de Eusébio outros pais da igreja citaram Mateus 28:19 conforme está em nossa Bíblia). Todos esses escreveram antes de Eusébio e sabemos que quanto mais antiga a referência, i.e, quanto mais próxima do original, tanto mais confiável ela é. O pior de tudo é tentar fazer com que Eusébio seja contrário a Mateus 28:19. Por que não citam este texto de Eusébio?:

“Cremos que cada um deles é e existe, o Pai verdadeiramente Pai, e o Filho verdadeiramente Filho, e o Espírito Santo verdadeiramente Espírito Santo; como nosso Senhor, ao enviar Seus discípulos a pregar disse: ‘Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”[1]

Diante desse texto fica a indagação: Por que aqui Eusébio cita a Trindade em Mateus 28:19 e em sua outra obra não cita? Simples: segundo Benjamim J. Hubbard, “Eusébio tinha o hábito de citar as Escrituras de forma inexata”.[2] Isso os antitrinitarianos desconsideram completamente.

Talvez uma pergunta importante seja esta: “Quem foi Eusébio de Cesareia?” Em seu artigo “Resenha crítica do livro Eu e o Pai Somos Um”,[3] o Dr. Alberto Timm trata bem dessa questão. Você pode conferir aqui.

Eusébio, tão aclamado pelos antitrinitarianos como alguém digno de confiança para opinar sobre Mateus 28:19, é descrito por Ellen G. White como o “amigo íntimo e adulador de Constantino”, que “propôs a alegação de que Cristo transferira o sábado para o domingo”. Esse argumento, “infundado como era, serviu para incentivar os homens a desprezarem o sábado do Senhor”.[4] Eusébio chegou a escrever um livro no qual diz que “honrou a Constantino” e que ele era “um poderoso luzeiro e o mais eloquente arauto da genuína piedade”.[5] Essa é a fonte fidedigna dos antitrinitarianos.

Não bastasse isso, valem-se também de uma nota de rodapé, isso mesmo, uma nota de rodapé acrescentada pelos editores da Bíblia de Jerusalém para dizer que o texto não merece confiança. É, no mínimo intrigante que os antitrinitarianos vivam a falar mal da Igreja Católica e digam que a Trindade é um dogma pagão instituído por essa igreja, entretanto, não se constrangem nem um pouco com o fato de que a visão particular dos editores católicos (que via de regra seguem o método histórico-crítico) inserida em uma nota de rodapé lhes sirva de sustentáculo para a crença. Assim diz a nota:

“É possível que em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar ‘no nome de Jesus’ (cf. At 1,5+, 2,38+). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade.”[6] A própria nota de rodapé se mostra não confiável quando começa dizendo “é possível que”. Trata-se de uma possibilidade. Em nenhum momento é dito que é, de fato, assim. Os editores, por conta própria, disseram que havia a possibilidade. Os antitrinitarianos já fizeram da possibilidade uma certeza, e tudo com base em uma nota de rodapé.

Você pode ler mais sobre essa questão aqui e aqui.

A seguir, serão apresentadas fotos de manuscritos unciais nos quais a fórmula de Mateus 28:19 está presente:

 CÓDICE SINAÍTICUS

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CÓDICE WHASHINGTONIANO

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CÓDICE ALEXANDRINUS DO 5o SÉCULO E SEGUE O BIZANTINO DO SÉCULO 3.

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CÓDICE VATICANUS DO 4o SÉCULO E SEGUE O TEXTO ALEXANDRINO DO SÉCULO 2

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CÓDICE BEZAE DO 5o SÉCULO

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Dizer que Mateus 28:19 é fruto de adulterações da Igreja Católica é, no mínimo, falta de conhecimento histórico, teológico e de manuscritos antigos. Aproveito para deixar um desafio: algum antitrinitariano mostrar um, apenas um manuscrito anterior a esses que mostramos acima, e que não contenha a fórmula de Mateus 28:19. Vou aguardar esse manuscrito. Não podemos ser ingênuos para ficar presos a uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém.

Por fim, acerca de Mateus 28:19, trago o que considero mais importante nesse assunto: a visão profética, que geralmente é completamente ignorada pelos antitrinitarianos. Creio que o que apresentarei a seguir seja mais importante que a nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém.

Ellen White apresenta muitos textos em que cita Mateus 28:19 como também textos que mostram o Pai, o Filho e o Espírito Santo como seres distintos. Ela chega a citar Mateus 28:19, apenas nos livros em português, 168 vezes. Por que Deus permitiria que Sua serva cometesse tamanho erro? A seguir, apresentaremos esses textos:

“O sacrifício de Cristo em favor do homem foi amplo e completo. A condição da expiação tinha sido preenchida. A obra para que viera a este mundo tinha sido realizada. Ele conquistara o reino. Arrebatara-o de Satanás, e Se tornara herdeiro de todas as coisas. Estava a caminho do trono de Deus, para ser honrado pela hoste celestial. Revestido de autoridade ilimitada, deu a Seus discípulos sua comissão: ‘Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19, 20; Atos dos Apóstolos, p. 29, 30).

“Então o apóstolo expôs perante eles as grandes verdades que são o fundamento da esperança do cristão. Falou-lhes da vida de Cristo na Terra, e de Sua cruel morte de vergonha. Contou-lhes como o Senhor da vida quebrara os grilhões da tumba e ressurgira triunfante da morte. Repetiu as palavras da comissão do Salvador aos discípulos: ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto ide, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo’ (Mt 28:18, 19). Falou-lhes também da promessa de Cristo de enviar o Consolador, por cujo poder grandes sinais e maravilhas seriam feitos, e contou-lhes quão gloriosamente havia esta promessa sido cumprida no dia de Pentecoste” (Atos dos Apóstolos, p. 282, 283). (Será que Cristo iria enviar Ele mesmo?)

“Precisamos representar a Cristo procurando alcançar a outros. Devemos trabalhar sob a ordem que Cristo deu a Seus discípulos: ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19; 20; Beneficência Social, p. 193).

“Repousa sobre todos os que estão empenhados na obra do Senhor a responsabilidade do cumprimento da ordem: ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado’ (Mt 28:19, 20; Conselhos Sobre Saúde, p. 316).

“A obra médico-missionária que se requer agora é a esboçada na comissão dada por Cristo aos Seus discípulos precisamente antes de Sua ascensão. ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra’, disse Ele. ‘Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:18-20; Conselhos Sobre Saúde, p. 509).

As palavras de Cristo, na encosta da montanha, foram o anúncio de que Seu sacrifício em favor do homem era pleno, completo. As condições para a expiação haviam sido cumpridas; realizara-se a obra para que Ele viera a este mundo. Achava-Se a caminho para o trono de Deus, a fim de ser honrado pelos anjos, os principados e as potestades. Entrara em Sua obra mediadora. Revestido de ilimitada autoridade, dera aos discípulos a comissão: ‘Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19, 20; O Desejado de Todas as Nações, p. 819).

As últimas palavras de Cristo a Seus discípulos mostram a importância a ser dada à obra de disseminar a verdade. Pouco antes de Sua ascensão Ele deu-lhes a ordem: ‘Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’” (Mt 28:19, 20; Este Dia com Deus, MM 1980, p. 105).

Note nos textos acima que Ellen White diz que Mateus 28:19 foram as palavras de Cristo na encosta da montanha. Ela diz que Ele falou realmente isso.

“Não fora o poder recebido por meio de Cristo, e não teríamos força alguma. Mas Cristo tem todo o poder. Jesus, aproximando-Se, falou-lhes, dizendo: ‘Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’” (Mt 28:18-20; Este Dia com Deus, MM 1980, p. 327).

“Deve ser anexado mais território; o estandarte da verdade tem de ser fincado em novos lugares; devem ser estabelecidas igrejas; deve-se fazer tudo que pode ser feito para cumprir a incumbência: ‘Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’” (Mt 28:19, 20; Exaltai-o, MM 1992, p. 295).

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“Quão ampla e extensa é a ordem: ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’!” (Mt 28:19, 20; Fundamentos da Educação Cristã, p. 121).

“Diz o Salvador: ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’ (Mt 28:18-20; Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 166).

“Em lugar de dedicar vossas faculdades a formar teorias, Cristo vos deu uma obra a fazer. Sua comissão é: ‘Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo’” (Mt 28:19; Olhando para o Alto, MM 1993, p. 142).

O texto a seguir é muito importante, pois revela como os discípulos entenderam a ordem de Cristo e como eles faziam o batismo. Será que eles batizavam somente em nome de Jesus? Veja como os discípulos batizavam as pessoas no livro de Atos:

“Foi feita indagação a Deus com respeito a esses, e então, em harmonia com a mente da igreja e o Espírito Santo [note que o Espírito Santo possui mente], foram separados pela imposição das mãos. Havendo recebido sua comissão da parte de Deus e tendo a aprovação da igreja, saíram batizando no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e administrando as ordenanças da casa do Senhor” (Primeiros Escritos, p. 101).

Ellen White claramente afirma que os discípulos batizaram em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas os antitrinitarianos insistem que não. Eles preferem ficar com a nota de rodapé e com o adulador de Constantino.

“Depois de Sua ressurreição, Cristo encontrava-Se com os discípulos, e por quarenta dias instruiu-os a respeito de seu futuro trabalho. No dia de Sua ascensão, reuniu-Se com os discípulos numa montanha da Galiléia, no lugar que lhes havia designado. E Ele lhes disse: ‘Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século’ (Mt 28:18-20). Todo médico e todo sofredor tem o privilégio de crer nesta promessa; ela é vida para todos os que creem” (E Recebereis Poder, MM 1999, p. 200).

“Sobre nós está colocado um sagrado encargo. Foi-nos dada a comissão: ‘Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; instruindo-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado. Eis que Eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo’” (Mt 28:19, 20; Serviço Cristão, p. 24).

Para que não reste alguma dúvida de que as palavras de Mateus 28:19 tenham realmente saído dos lábios do Salvador, eis o seguinte texto:

“Pouco antes de deixá-los, Cristo deu aos discípulos a promessa: ‘Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-Me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da Terra’ (Atos 1:8). ‘Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’ (Mt 28:19, 20). ENQUANTO ESSAS PALAVRAS LHE ESTAVAM NOS LÁBIOS, ASCENDEU, RECEBENDO-O UMA NUVEM DE ANJOS E O ESCOLTANDO ATÉ À CIDADE DE DEUS” (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 65).

Por que, como pastor, eu batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Porque Jesus mandou, e eu sigo a orientação profética:

A palavra que o Senhor me deu para nossos pastores e igrejas é: ‘Ide avante.’ ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:18-20; Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 417).

Eu prefiro seguir o que a nossa profetisa diz. Mas há os que negam isso.

“A comissão dada por Cristo aos discípulos exatamente antes de ascender ao Céu, foi: ‘Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:19, 20; Testemunhos Seletos, v. 1, p. 531).

“Os que foram sepultados com Cristo no batismo devem erguer-se para novidade de vida, dando uma demonstração viva da vida de Cristo. Sobre nós está colocado um sagrado encargo. Foi-nos dada a comissão: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; instruindo-os a observar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” Mat. 28:19 e 20. T.S. vol. 3, 289.

“Os evangelistas de hoje devem ser coobreiros de Cristo. Tão certamente como os primeiros discípulos, têm eles a garantia: ‘É-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos’” (Mt 28:18-20; Testemunhos Seletos, v. 3, p. 313).

Diante de tantos textos afirmando claramente que Mateus 28:19 foi realmente dito por Jesus, surge naturalmente uma pergunta: Por que no livro de Atos só se fala do batismo em nome de Jesus? Deus é tão maravilhoso que até isso revelou a Ellen White (quem sabe não seria por que Ele já soubesse que alguns se levantariam insinuações antibíblicas?). Eis o texto:

Deviam os discípulos levar avante sua obra no nome de Cristo. Cada uma de suas palavras e atos devia atrair a atenção sobre Seu nome como possuindo esse poder vital pelo qual os pecadores podem ser salvos. Sua fé devia centralizar-se nAquele que é a fonte de misericórdia e poder. Em Seu nome deviam apresentar suas petições ao Pai, e receberiam resposta. Deviam batizar no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O nome de Cristo devia ser a senha, a insígnia, o laço de união, a autoridade para sua norma de prosseguimento e a fonte de seu sucesso. Nada devia ser reconhecido em Seu reino que não trouxesse Seu nome e inscrição” (Atos dos Apóstolos, p. 28).

É simplesmente por isso que só se fala no nome de Jesus em relação ao batismo no livro de Atos. Não que na hora do rito batismal não se fizesse menção dos nome das três pessoas da Divindade. O nome de Jesus era a “senha, a insígnia, o laço de união”, para provar que de fato agora eles eram cristãos e não judeus.

Será que um texto tão explícito em favor da Trindade, que tivesse sido adulterado pela Igreja Católica, teria sido citado tantas vezes por Ellen White sem que Deus a corrigisse? Será que Deus não estava vendo a “heresia” que ela estava escrevendo? Será que a IASD adulterou todos esses textos de Ellen White? Ou será que Mateus 28:19 realmente é fidedigno e saiu dos lábios do próprio Salvador?

Deve-se ter MUITO cuidado ao abordar um assunto e chegar a determinadas conclusões sem primeiro ter pesquisado a fundo, principalmente quando a Divindade é o foco do estudo. Não dá para concluir um assunto apenas com pesquisas superficiais em livros não inspirados, páginas da internet, sem ter um claro ASSIM DIZ O SENHOR. Não dá para negar Mateus 28:19 sem negar a inspiração de Ellen G. White.

Diante da exposição dos textos da Sra. White que abordam a questão da fórmula batismal em Mateus 28:19, resta apenas uma alternativa ao leitor que quer ter o pleno conhecimento da verdade: ACEITAR o que está revelado. Claramente, nota-se que é impossível crer no que o Senhor Deus revelou à Sua serva e ainda assim afirmar que o texto de Mateus 28:19 foi adulterado pela Igreja Católica.

(Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju)

  1. Philip Schaff, ed., The Creeds of Christendom (Grand Rapids, MI: Baker, 1990), 2:29-30
  2. Benjamin J. Hubbard, The Matthean Redaction of a Primitive Apostolic Commissioning: An Exegesis of Matthew 28:16-20, SBL Dissertation Series 19 (Missoula, MT: Scholars’ Press, 1974), 175.
  3. Alberto R. Timm, “Resenha crítica do livro ‘Eu e o Pai Somos Um’. Parousia, v. 4, n. 2, p. 69-93, 2005.
  4. Ellen G. White, O Grande Conflito entre Cristo e Satanás, 41ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001), 574.
  5. Eusébio de Cesaréia, A Vida de Constantino, I, IV. Tradução baseada em NPNF, 2ª série, 1:482.
  6. Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulus, 2002), p. 1.758.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano (parte 1 de 4)”

Respostas a um antitrinitariano (parte 1 de 4)

trindade[Nestes últimos dias o dragão (Satanás) está irado contra a mulher (igreja) e tem levantado as mais diversas heresias, ideias e variados movimentos dissidentes com o objetivo de causar dissensão e dividir para conquistar. Enquanto Jesus orou pela unidade da igreja, há indivíduos e grupos que fazem o trabalho contrário. Entre esses estão os antitrinitarianos, “pescadores de aquário” que têm se especializado em abalar a fé de membros da igreja menos preparados e não firmados na Palavra. Apresentam argumentos e textos descontextualizados, “documentos” parciais e distorção da história eclesiástica, afirmando que a Igreja Adventista teria abraçado um dogma pagão. Com o objetivo de munir os interessados com argumentos consistentes e, mais importante, verdadeiros, convidei meu amigo pastor Eleazar Domini, criador do blog Adventistas Trinitarianos, a escrever uma série de três posts intitulada “Respostas a um Antitrinitariano”, organizada em quatro partes: (1) a Trindade na Bíblia e na História; (2) a divindade e a eternidade de Jesus; (3) a divindade e a personalidade do Espírito Santo; e (4) a Trindade na história do adventismo. Para que os textos não sejam excessivamente longos e pensando nos leitores que queiram se aprofundar no assunto, foram colocados links para conteúdos extras. O pastor Eleazar, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju. – MB]

Ao longo da minha trajetória nestes dez anos como pastor adventista do sétimo dia, já passei por diversas experiências desconfortáveis com variados grupos dissidentes. Os antitrinitarianos vez ou outra nos interpelam com seus questionamentos, querendo nos colocar “contra a parede”, assim como os fariseus faziam com Cristo. Abaixo estão algumas das perguntas mais recorrentes a respeito da Trindade e as repostas que eu costumo oferecer:

PERGUNTA 1: Nos dias em que o Messias esteve neste mundo qual era a crença predominante entre os professores ou mestres em Israel? (1) Unicismo: modalismo, que advoga que existe um Deus, o qual Se manifesta em três essências ou modos (Pai, Filho e Espírito Santo)? (2) Trindade, que defende que o Eterno é três pessoas distintas que compartilham a mesma natureza? (3) Monoteísmo, que advoga que o Eterno é um ser indivisível, um só, único, ímpar, singular e incomparável? Lembrando que estamos falando de um povo estritamente imerso em uma tradição milenar de forte tendência à oralidade. No relato de Marcos, capítulo 12, Jesus profere o Shemá Israel como resposta à pergunta de um mestre da Torá de qual seria a maior Mitzvah (instrução, mandamentos), conforme consta nos versos 28 (pergunta) e 29 (resposta de Jesus). Ao responder com o Shemá Israel logo em seguida, o mestre disse que Jesus dera uma boa resposta. A pergunta que eu faço é: Se a crença verdadeira é o monoteísmo unicista ou monoteísmo trinitariano, não era uma boa oportunidade para Jesus corrigir aquele mestre? Obs.: O teólogo José Carlos Ramos diz que “o termo Trindade foi usado pela primeira vez por Teófilo de Antioquia no 2o século.

RESPOSTA: Talvez o maior problema de quem advoga o antitrinitarianismo seja a descontextualização, i.e., a análise de apenas parte do texto esquecendo o restante. Veremos abaixo o restante do texto esquecido pelo amigo, como também as correlações existentes entre ele e os livros de Salmos e Hebreus.

O primeiro aspecto frágil a ser analisado nessa proposta levantada pelo amigo (mesmo ele não tendo mencionado, mas está subtendido em sua fala) é a crença de que o termo echad tem apenas um sentido, um significado: “único”. Não obstante, em vários outros textos da Torah (Pentateuco), Neviim (Profetas) e Ketuvim (Escritos) extrai-se também o conceito de pluralidade para a termo. Os exemplos são os mais diversos:

  1. A junção de duas partes – tarde e manhã – na formação de um echad, dia (Gn 1:5).
  2. A união matrimonial entre o homem e a mulher, quando os dois são chamados “uma (echad) só carne” (Gn 2:24).
  3. O povo era um echad e ao mesmo tempo muitos (Gn 11:6); um echad coração, mas era uma multidão (2Cr 30:12).
  4. No novo concerto, Deus deu a todos os crentes, seu povo, um echad coração (Jr 32:39), mas eles são muitos.

É importante ressaltar que o termo echad não tem a significação apenas de uma unidade composta; ele pode ser traduzido por “um” como uma unidade simples e básica. Entretanto, é um termo que permite a dupla tradução, i.e., pode ser usado das duas formas. Contudo, há outro termo hebraico que não permite a tradução de uma unidade composta: yachid. Esse termo só é traduzido por “um” no sentido de “único”, ele não permite o uso para uma unidade composta. Sendo assim, fica o questionamento: se Moisés quisesse enfatizar um Deus único no sentido de ser apenas uma pessoa, o melhor termo a ser empregado não seria yachid? Por que usou o termo echad que permite uma segunda tradução? Isso é, no mínimo, curioso.

Alguns tentam apelar para o texto em que Deus diz “toma agora o teu filho, o teu único (yachid) filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu Te direi” (Gênesis 22:2), para tentar mostrar que também teria um sentido composto, uma vez que Abraão também tinha Ismael como filho. É necessário dizer que qualquer estudante da língua hebraica sabe que isso não é verdade. Quando o texto menciona Isaque como único (yachid) filho, é literal no sentido de ser o único legítimo, o único filho da promessa. Não havia outro filho legítimo de Abraão com Sara; não havia dois filhos da promessa. É nesse sentido que yachid é usado em Gênesis 22:2. [Sobre echad e yachid, leia mais aqui, aqui, aqui e aqui.]

Dito isso, entendemos que Cristo afirmou o que todo cristão deve dizer, e não há erro nenhum nisso nem nas palavras do escriba: “Há um (echad) só Deus, e não há outro além dEle.” Todo cristão trinitariano crê nisso. Há apenas um Deus, manifesto em três pessoas. Entretanto, nota-se que o amigo desconsiderou os versos subsequentes da narrativa de Marcos. Se propositalmente, não se sabe, mas segue-se abaixo a análise que vai dos versos 35 a 37:

“E, falando Jesus, dizia, ensinando no templo: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi? O próprio Davi disse pelo Espírito Santo: “O Senhor disse ao Meu Senhor: Assenta-Te à Minha direita até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés. Pois, se Davi mesmo lhe chama Senhor, como é logo seu filho? E a grande multidão O ouvia de boa vontade.”

Nesse relato Cristo reivindica Sua autoridade como Senhor no Antigo Testamento. Ele faz uma referência ao Salmo (Tehilim) 110:1. Ali aparecem dois Senhores. Um deles é Cristo. Confirmando essa teologia linda que permeia toda a Bíblia, Paulo, ao escrever em Hebreus, diz: “E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à Minha destra, até que ponha a Teus inimigos por escabelo de Teus pés?” (1:13). Aqui Paulo faz referência a Cristo como o Senhor que aparece no Salmo (Tehilim) 110:1. Ou seja, além de o próprio Cristo Se identificar como o Senhor do Salmo 110, Paulo ratifica as palavras de Cristo. O mais interessante é que nos versos anteriores o autor de Hebreus usa ainda outro Salmo, o 45:6 e 7, em que apresenta Cristo como Deus:

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o Teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; cetro de equidade é o cetro do Teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o Teu Deus, Te ungiu com óleo de alegria mais do que a Teus companheiros” (Hb 1:8, 9).

Claramente Cristo é identificado como Deus no livro de Hebreus, pois o verso 8 inicia dizendo que “do Filho diz: Ó, Deus”. No texto hebraico temos a expressão Elohim duas vezes. Uma provável referência a Cristo e ao Pai, como se vê abaixo:

אָהַבְתָּ צֶּדֶק וַתִּשְׂנָא רֶשַׁע עַל־כֵּן מְשָׁחֲךָ אֱלֹהִים אֱלֹהֶיךָ שֶׁמֶן שָׂשׂוֹן מֵחֲבֵרֶיךָ

Portanto, o relato de Marcos não retira de Cristo Sua divindade, ao contrário, o correto entendimento dos termos e a análise contextual dos versos correlatos permitem claramente a identificação de Cristo como o ser divino, o Deus do Tehilim, identificado e interpretado pelo autor inspirado de Hebreus.

O amigo expressa o contexto cultural judaico como sendo de extrema valia teológica. Não obstante, esquece que esse mesmo contexto cultural judaico estava tão distante da verdadeira teologia que rejeitaram o Messias. A Mitzvah é uma amostra de quanto a tradição estava impregnada na mentalidade judaica, que praticamente havia suplantado a teologia do Antigo Testamento. Não se pode afirmar categoricamente que havia um claro ensino defendido pelos judeus acerca da Trindade (apesar de fortes evidências serem encontradas no Antigo Testamento a respeito dessa doutrina).

Da mesma forma muitas outras doutrinas não eram ensinadas por eles e também não têm tanta ou mesmo nenhuma ênfase no Antigo Testamento, mas foram estabelecidas ao longo da era neotestamentária. Poderíamos citar o batismo, a santa ceia; havia fortes discrepâncias também entre a crença da ressurreição defendida pelos fariseus e atacada pelos saduceus, bem como grandes discrepâncias entre as principais escolas rabínicas da época (Hillel e Shamai) acerca da questão do divórcio e novo casamento. A lista é grande das doutrinas e crenças não abordadas no Antigo Testamento de maneira clara, e muitas delas não são defendidas pela comunidade judaica em sua inteireza.

Cristo cita Deuteronômio da forma como está, e provavelmente na língua hebraica (forma comum como um judeu citava as Escrituras). Não há dificuldade em citar o texto tal como ele está (o termo echad não oferece dificuldade à doutrina). O fato de Cristo citá-lo e não explicá-lo, como o amigo gostaria que Ele tivesse feito, e talvez o amigo considere que Cristo tenha perdido uma grande oportunidade de ensinar a Trindade, eu credito à grande sabedoria do Mestre. Jesus sempre soube o momento certo de falar. Não podemos fundamentar uma doutrina ou destruí-la com base no silêncio de Cristo. Uma doutrina não se baseia no silêncio.

Há outras ocasiões em que Cristo silenciou e não deu explicações que talvez considerássemos cruciais que Ele o tivesse feito. Mas Ele sabia e sabe melhor do que nós. Nunca Se calou quando considerou prudente falar e nunca falou quando considerou prudente Se calar. Portanto, não desacredito na doutrina bíblica da Trindade tão somente porque Cristo Se calou quando acho que Ele deveria ter falado. Minha crença também não se fundamenta no que a comunidade judaica da época de Cristo acreditava ou não (eles não eram parâmetro doutrinário em tudo). Minha crença se baseia nas inúmeras provas bíblicas (AT e NT) que, de forma contundente, abordam o conceito trinitário, independentemente da mentalidade judaica contemporânea de Cristo.

Quanto à última parte de seu questionamento, em que você usa a fala do Dr. José Carlos Ramos para mostrar que o termo Trindade foi usado pela primeira vez no século II, isso não diminui em nada a crença nessa doutrina bíblica. O termo “cristãos” foi utilizado pela primeira vez só em Atos 11:26, quando, depois das muitas perseguições, eles foram para a região de Antioquia. Lá, depois de algum tempo ensinando as pessoas, eles foram chamados “cristãos” pela primeira vez. Pergunta: Será que antes eles não eram cristãos? Não eram seguidores de Cristo só porque foram assim denominados posteriormente? Poderíamos afirmar, então, que todos aqueles que viveram antes da nomeação em Antioquia não eram cristãos? Só podemos considerar cristãos os que viveram após o reconhecimento que os moradores de Antioquia fizeram? Claro que não! Apesar de o nome surgir depois, o conceito e as evidências dos seguidores de Cristo já eram uma realidade. Da mesma forma, mesmo que o vocábulo Trindade tenha aparecido apenas no século II, isso não invalida o conceito de um Deus trinitário, presente em todo o cânon bíblico.

PERGUNTA 2: Se a Trindade existe, por que na Bíblia não existe a palavra Trindade? Desafio você a me mostrar a palavra Trindade uma só vez na Bíblia; aí eu crerei na Trindade.

RESPOSTA: Há muitas palavras que não estão na Bíblia e que foram criadas a posteriori, mas que carregam os conceitos que levaram a sua criação, por exemplo: as expressões “milênio”, “encarnação de Cristo”, a própria “Bíblia”, “soteriologia”, etc. Se quisermos aceitar as doutrinas bíblicas apenas se forem acompanhadas de nomes, então não acreditaremos na soteriologia (doutrina da salvação), não acreditaremos na encarnação de Cristo, no milênio, e rejeitaremos a própria Bíblia, porque na Bíblia não tem a palavra “Bíblia”! O mais importante é saber que para todas as expressões acima há um claro conceito bíblico que as sustenta. Da mesma forma, o termo “Trindade” carrega um conceito bíblico da existência da Divindade em três pessoas.

A palavra Trindade vem do latim Trinitas, cunhada por Tertuliano no segundo século d.C. Ainda que não seja um termo bíblico, ele representa bem a solidificação do ensino da Bíblia que nos esclarece acerca dos membros da Divindade – Pai, Filho e Espírito Santo. [Para mais informações sobre esse tema, leia aqui, aqui e aqui.]

PERGUNTA 3: A Trindade é um dogma católico e surgiu no concílio de Niceia. Por que dar crédito a um dogma pagão?

RESPOSTA: Em primeiro lugar, a doutrina da Trindade em que nós cremos como adventistas do sétimo dia não se baseia na Igreja Católica ou no Concílio de Niceia. Todo corpo doutrinário da Igreja Adventista foi extraído da Bíblia, nossa única regra de fé. Em segundo lugar, dizer que a doutrina da Trindade surge em Niceia é uma demonstração clara de ignorância nesse assunto. Como já mencionado na resposta à pergunta 2, o termo “Trindade” foi cunhado por Tertuliano na última década do segundo século d.C., isso cerca de 113 anos antes do concílio de Niceia. Além do mais, a expressão e o conceito trinitário já eram ensinados por vários “pais pré-nicenos”, como Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, o próprio Tertuliano, Hipólito e Orígenes. Portanto, a alegação de que a doutrina da Trindade surgiu no concílio de Niceia demonstra ser apenas mais uma falácia antitrinitariana. [Sobre essa questão, leia mais aqui, aqui e aqui.]

Jesus é realmente Deus eterno?

Jesus“E a vida eterna é esta: que Te conheçam, a Ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” João 17:3

Que o Jesus histórico realmente existiu é praticamente indiscutível (confira aqui), já a divindade e eternidade dEle é tema de debates inclusive no meio cristão. Na verdade, a doutrina bíblica da Trindade tem sido atacada há muito tempo. Satanás usa duas frentes principais em seu ataque à Divindade: (1) como não pode negar a personalidade de Jesus, ele desqualifica a divindade dEle; (2) como não pode negar a divindade do Espírito Santo, ele desqualifica a personalidade dEle (mas este ponto dois ficará para outra ocasião). As pessoas que negam a Trindade dizem que Jesus não é Deus eterno, que veio à existência em algum momento; e o Espírito Santo é apenas a força de Deus, o poder de Deus. Alguns dizem que o Espírito Santo é o próprio Pai, outros que é Jesus, outros ainda sustentam que o Espírito Santo é o Espírito compartilhado pelo Pai e pelo Filho.

Em sua tentativa de provar que Cristo não é Deus em Sua plenitude, alguns dizem que Jesus é Deus por geração. Na verdade, esse é um termo que usam para dizer que Cristo não foi criado, mas gerado. A questão é: a palavra pode até ser diferente, mas o conceito é o mesmo – Cristo veio à existência de alguma forma e houve um momento na eternidade em que Ele não existia. O Pai O trouxe à existência, seja por geração ou criação, não importa. Aqui está o primeiro grande erro: Deus não é um ser que pode ser criado ou gerado. Esse é o conceito grego, quando falavam de suas divindades. A Bíblia nega o conceito de uma divindade que não possui a eternidade. Ser Deus implica necessariamente ser eterno, tanto para frente quanto para trás. Se foi criado, não é Deus. Se foi gerado (no sentido de vir à existência e não no sentido bíblico de entronização), não é Deus. Deus é eterno.

Quando a Bíblia diz “Tu és meu filho, Eu hoje Te gerei”, em Hebreus, está fazendo alusão ao Salmo 2:7, onde se fala da entronização de Davi. Davi não foi gerado naquele dia em que escreveu o Salmo 2 (no sentido de ter nascido ou vindo à existência), assim como Jesus, em Hebreus. Portanto, o verbo “gerar” não pode implicar em vir à existência, mas o contexto é claro em mostrar que se trata da entronização.

Cristo é Deus? É eterno? Sim, a Bíblia diz que sim:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os Seus ombros, e Se chamará o Seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Como o Pai da Eternidade, aquele que cria a eternidade, não seria eterno?

Vejamos a seguir alguns textos de Ellen White sobre a divindade e eternidade de Cristo:

“Ao falar de Sua preexistência, Cristo faz o pensamento remontar aos séculos eternos. Ele nos assegura que nunca houve um tempo em que não estivesse em íntima ligação com o Deus eterno. Aquele cuja voz os judeus estavam então ouvindo estivera com Deus como Alguém que Se achava em Sua presença” (Signs of the Times, 29 de agosto de 1900).

“Antes de serem criados homens ou anjos, a Palavra [ou Verbo] estava com Deus, e era Deus. O mundo foi feito por Ele, ‘e sem Ele nada do que foi feito se fez’ (João 1:3). Se Cristo fez todas as coisas, existiu Ele antes de todas as coisas. As palavras faladas com respeito a isso são tão positivas que ninguém precisa deixar-se ficar em dúvida. Cristo era, essencialmente e no mais alto sentido, Deus. Estava Ele com Deus desde toda a eternidade, Deus sobre todos, bendito para todo o sempre. O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai. Era Ele a excelente glória do Céu. Era o Comandante dos seres celestes, e a homenagem e adoração dos anjos era por Ele recebida como de direito. Isto não era usurpação em relação a Deus” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 247, 248).

O que significa toda eternidade? Toda é toda! Ou seja, precisamos aceitar que:

  1. Nunca houve um tempo em que Cristo não estivesse com o Pai. E nunca é nunca mesmo.
  2. Ele é Deus no mais alto sentido, portanto não pode ter vindo à existência de alguma forma, porque Deus não nasce, Deus é.
  3. Estava com o Pai desde toda eternidade. Toda é toda. Se você pudesse viajar a qualquer ponto da eternidade, lá estaria Jesus. Se Ele não estivesse, Ellen White seria mentirosa, pois ela disse toda eternidade.

A Bíblia diz que Deus existe de eternidade a eternidade. Claramente o texto está falando de eternidade pretérita e eternidade futura. Veja: “Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). De quem esse texto está falando? Quem é esse ser eterno para frente e para trás? Veja o que diz Ellen White:

“‘Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus’ (Salmo 90:2). ‘O povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou’ (Mateus 4:16). Aqui se apresentam a preexistência de Cristo e o propósito de Sua manifestação ao mundo, como raios vivos de luz do trono eterno. ‘Agora ajunta-te em esquadrões, ó filha de esquadrões; pôr-se-á cerco contra nós: ferirão com a vara no queixo ao juiz de Israel. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade’ (Miqueias 5:1, 2)” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 248).

Portanto, qualquer tentativa de mostrar que Cristo não é Deus eterno, que Ele foi gerado e que não existia desde sempre com o Pai é apenas um esforço maligno para distorcer essa verdade tão bela da plena divindade e eternidade de Jesus. Ele é Deus, sempre existiu, sempre foi um com o Pai, sempre esteve com Ele. Ele é o YHWH do Antigo Testamento. Como disse a serva do Senhor falando de Jeová, aquele que aparece no Antigo Testamento: “Jeová é o nome dado a Cristo” (Signs of the Times, 3/5/1899).

(Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica e criador do blog Adventistas Trinitarianos. Atualmente é pastor distrital em Aracaju)

Veja também: Mitos e fatos sobre a Trindade na Igreja Adventista” e Os adventistas e a Trindade”