O texto mais mal traduzido da Bíblia e o feminismo

As palavras de Deus, proferidas em Gênesis 3:16, não podem ser compreendidas de maneira irresponsável, como se fosse uma declaração machista que colocou a mulher numa posição inferior ao homem

Traduttore, traditore. Este é um provérbio italiano que, literalmente, significa que o tradutor é traidor. E por quê? Porque é impossível ao tradutor, no desempenhar de sua função, despojar-se de seus conceitos, de sua cosmovisão particular. Além do mais, há muitas variáveis tais como limitação da língua de origem ou de destino, intervalo temporal entre o original e a tradução, termos de difícil compreensão do original, estruturas sintáticas que se diferenciam, entre outros elementos. Assim, nem sempre uma tradução vai representar exatamente aquilo que foi pretendido pelo autor do texto original.

As traduções bíblicas não estão isentas desse problema. É por isso que, numa esfera mais elevada, destaca-se a ecdótica ou crítica textual, que é o trabalho cuja finalidade é se aproximar tanto quanto possível da forma original de um texto, isto é, da forma pretendida pelo autor. Numa esfera menor, pode-se destacar a exegese e a hermenêutica, sendo a exegese – palavra de origem grega ἐξήγησις que significa literalmente “levar para fora” – uma interpretação ou elucidação crítica de um texto, em particular de um texto religioso, levando-se em consideração os originais. E a hermenêutica que, em síntese, é a arte de interpretar os textos.

Gênesis 4

O episódio de Caim Abel descrito em Gênesis 4 é comumente reconhecido como um dos relatos mais difíceis do Antigo Testamento. O ápice da dificuldade textual encontra-se no verso 7, que diz: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo.” Neste verso há um jogo de palavras masculinas e femininas que causam certa confusão. Há também sufixos pronominais masculinos que, aparentemente, não combinam com o contexto imediato da passagem.

Numa leitura rápida, desconsiderando-se os sufixos pronominais masculinos e a possibilidade de que uma palavra hebraica pode ter mais de um significado, chega-se a seguinte tradução interpretativa: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta (porta do coração, como um leão para devorar), o seu desejo (desejo do pecado) será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo (dominar o pecado).” Além de sérias implicações no que tange ao perfeccionismo, essa tradução não respeita absolutamente os sufixos pronominais ali presentes, sendo mais uma interpretação do tradutor que uma tradução real do texto.

Entendendo a passagem

Veja abaixo uma análise da segunda parte do verso 7 (o hebraico lê-se de trás para frente):

(Da direita para a esquerda) וְאִם֙  לֹ֣א     תֵיטִ֔יב   לַפֶּ֖תַח    חַטָּ֣את    רֹבֵ֑ץ וְאֵלֶ֙יךָ֙

 (Da esquerda para a direita) e se | não | procederes bem, | à porta | transgressão | jaz | e para ti

תְּשׁ֣וּקָת֔וֹ       וְאַתָּ֖ה    תִּמְשָׁל־בּֽוֹ׃

o desejo dele | e tu | dominarás a ele

A dificuldade encontra-se na palavra hattat, que é traduzida por pecado ou transgressão, mas também pode significar oferta pelo pecado, sacrifício. Em hebraico, essa palavra é feminina. Portanto os sufixos que a ela se referem devem estar no feminino. Sendo assim, se a intenção do texto fosse dizer que “o desejo da transgressão” seria contra Caim e que ele deveria dominar a transgressão, o texto deveria estar assim: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, a transgressão jaz à porta (porta do coração), o desejo dela (desejo da transgressão) será para ti, e a ela dominarás (dominar a transgressão).” Mas não é isso que acontece. A palavra é feminina, mas os sufixos são masculinos. Ficando literalmente assim: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, a transgressão jaz à porta (que porta?), o desejo dele (ele quem?) será para ti, e sobre ele dominarás (dominar quem?).”

Um outro problema é que a palavra rovets é um particípio masculino. Como harmonizar esse particípio masculino com hattat que é feminina?  Na tentativa de harmonização entre a palavra feminina hattat com a expressão rovets, que significa jazendo, repousando, descansando, alguns eruditos alegam que esta expressão teria sua origem no acadiano, rabishum, que é traduzida por “demônio”:

“E. A. Speiser destaca que o acádio, uma das origens do hebraico bíblico, tem basicamente a mesma palavra, rabishum (note que as primeiras três consoantes são as mesmas), que significa “demônio”. Esta história bíblica vem do mesmo local geográfico; assim, se considerarmos que robesh é um empréstimo do acádio, a solução está à mão. O texto descreve o pecado como um demônio malévolo, pronto para se lançar sobre Caim se este sair da presença de Deus sem se arrepender. Deus graciosamente ofereceu a Caim o poder de vencer o pecado: Sobre ele dominarás.” (LIVINGSTON, COX, KINLAW et al., 2012)

O Dr. Joaquim Azevedo, no entanto, demonstra que tal empréstimo do acadiano inferindo que rovets fosse uma personificação do mal à espreita para atacar não condiz com o contexto da passagem.

O particípio masculino de #bero (rovets),significa “jazendo, repousando, descansando”. É uma evidência extra para considerar taJ’x; (hattat) como sacrifício. Ela é uma forma cognata da palavra acadiana “jazer, deitar”, da palavra ugarítica trbṣ- “estábulo, cocheira, aprisco de ovelhas”. Alguns eruditos, porém, têm identificado este particípio como o “croucher” ou “demônio”, baseado no particípio acadiano rābiṣu. No uso deste particípio no Pentateuco não cabe a interpretação como “demônio” (Gn 49:14; Ex 23:5; Dt 22:6). O particípio #bero é usado em relação à ovelha (Gn 29:2), leopardo e cabra vivendo juntos pacificamente (Is 11:6), e usado como para referir-se figuradamente para uma pessoa sendo comparada com uma ovelha (S1 23:2); ou ao povo como ovelha (Ez 34:14); em outro caso aplicado é a um rebanho ou aprisco de ovelhas (Is 13:20). Somente uma vez fora das trinta passagens no AT, esta palavra é usada no sentido de besta feroz (Gn 49:9). Isto pode significar um sacrifício-purificação; quer um carneiro, cabra, ou algum animal macho for empregado para sacrifício estava jazendo ou descansando à porta do Paraíso. Assim, o gênero masculino do particípio #bero, se refere diretamente ao gênero do animal macho para o sacrifício-purificação ao invés do substantivo feminino taJ’x; (Lv 4:4; 4:23). Isto pode resolver o problema da discordância de gênero. (NETO, 2003)

Conforme mencionado acima, a palavra hattat pode significar tanto pecado ou transgressão como oferta pelo pecado, sacrifício. “A porta” a que o texto se refere não parece indicar a porta do coração como alguns tem suposto, mas o local onde os sacrifícios eram realizados: à porta do Paraíso, do Éden; local onde estavam os querubins. Segundo o Dr. Joaquim, é provável que os sacrifícios fossem oferecidos à porta do Éden “porque a entrada do jardim é imaginada no enredo literário como a fronteira entre o mundo sem pecado e o mundo pecaminoso.” Para ele “este era o lugar de separação entre Yahweh e suas criaturas, o lugar mais perto da árvore da vida onde às criaturas caídas era permitido se aproximar (Gn 3:21-24)”. (NETO, 2003). Esta posição é defendida por vários outros eruditos, conforme apresenta o Dr. Azevedo na nota de rodapé de seu artigo:

The Book of Jubilees identifica o jardim do Éden com o lugar do templo, a casa de Deus (Jz 8:19); Gordon J. Wenham, “Sanctuary Symbolism in the Garden o Eden Story, em Studied Inscriptions from Before the Flood, Ancient Near Eastern, Literary, and Linguistic Approaches to Genesis 1-11, eds. Richard S. Hess and David Toshio Tsumura (Winona Lake: Eisenbrauns, 1994): De acordo com Wenham “o jardim do Éden não é visto pelo autor de Gênesis simplesmente como um lugar da terra cultivável da Mesopotâmia, mas um arquétipo do santuário, isto é, um lugar onde Deus habita e onde o homem deveria adorá-Lo. Muitas das características do jardim do Éden podem também ser encontradas em santuários posteriores, particularmente no Tabernáculo ou no Templo de Jerusalém. Estas comparações sugerem que o próprio jardim é tido como um tipo de santuário”, p. 399: Para posterior comparação do jardim com o santuário, veja Gary Anderson, “Celibacy or Consummation in the Garden? Reflection on Early Jewish and Christian Interpretations of the Garden of Eden, HTR 82:2 (1989)121-148; and Phyllis Trible, God and the Rhetoric of Sexuality (Philadelphia: Fortress Press, 1978)144-164. (NETO, 2003)

Visto que a melhor tradução para hattat no contexto de Gên. 4 seja oferta pelo pecado ou sacrifício, e que a porta não seria uma referência ao coração, mas ao jardim do Éden, resta identificar o sujeito masculino da passagem de quem o texto hebraico diz: “o seu desejo” ou “o desejo dele será para ti e sobre ele dominarás”. Já está claro que não pode ser hattat por ser uma palavra feminina. Sobre isso, o Dr. Joaquim diz:

O lugar mais provável para se encontrar o antecedente dos sufixos pronominais é no contexto de Gênesis 4. Uma avaliação da primeira parte deste capítulo (vv. 1-7) mostra que Caim era o primogênito. Ele supostamente deveria ser o sacerdote, líder e o futuro patriarca, por assim dizer, do clã de Adão. Por não efetivar o ritual do sacrifício, ele pode ter perdido seu direito de primogenitura, causando nele ira para com seu irmão Abel. Portanto, o antecedente mais provável para ambos os sufixos, o e seu, seria o único substantivo masculino que se encaixa no fluxo literário do tópico de Gênesis 4:1-16, a saber, “Abel”. (NETO, 2003)

A conclusão que se chega de maneira responsável e analisando o texto tal como ele está não pode ser outra a não ser a de que os sufixos pronominais masculinos sejam uma referência a Abel e não ao pecado. Fica assim, portanto, a tradução mais próxima ao original hebraico:

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, uma oferta pelo pecado [um sacrifício de animal macho] jaz à porta [do Paraíso, do Éden], e para ti será o seu [de Abel] desejo e dominarás [novamente como o primogênito] sobre ele [seu irmão]”. (NETO, 2003)

Feminismo e Gênesis 3

E o que tudo isso que foi dito até o momento tem a ver com o feminismo? De acordo com o pensamento feminista, Gênesis 3:16 seria uma tragédia para a mulher, pois ali ela é colocada em sujeição ao homem: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” De maneira muito interessante, talvez não aleatória, as mesmas palavras, isto é, desejo e domínio, que aparecem em Gênesis 3, aparecem igualmente e na mesma ordem em Gênesis 4 e, juntas assim, não ocorrem mais em nenhuma porção do Antigo Testamento. O paralelismo é inegável:

  וְאֶל־אִישֵׁךְ֙         תְּשׁ֣וּקָתֵ֔ךְ      וְה֖וּא     יִמְשָׁל־בָּֽךְ׃

  e para teu marido | o teu desejo | e ele | dominará a ti

וְאֵלֶ֙יךָ֙       תְּשׁ֣וּקָת֔וֹ       וְאַתָּ֖ה    תִּמְשָׁל־בּֽוֹ׃

e para ti | o desejo dele | e tu | dominarás a ele

O termo desejo תְּשׁוּקָה (teshuqá) ocorre apenas três vezes em todo o Antigo Testamento. Além das ocorrências em Gênesis 3 e 4, ele aparece novamente apenas em Cantares 7:10 que diz: “Eu sou do meu amado, e ele me tem afeição.” Numa tradução mais literal desse texto, a leitura seria assim:

 אֲנִ֣י      לְדוֹדִ֔י            וְעָלַ֖י       תְּשׁוּקָתֽוֹ׃

eu | para meu amado | e para mim | o desejo dele 

Note que a ordem em Cantares está invertida. Se em Gênesis o desejo da mulher é para seu marido, em Cantares o desejo do marido é para a mulher, evidenciando claramente que o que foi prescrito em Gênesis 3 não rebaixa a mulher, caso assim fosse, o homem estaria sendo rebaixado em Cantares. Portanto, a expressão desejo em Gênesis 3 não tem por objetivo colocar a mulher em uma posição inferior à do homem. Mas, talvez a expressão que cause maior dificuldade não seja desejo e sim domínio.

A primeira análise a ser feita dentro do texto é: Quem pronuncia as palavras de Gênesis 3:16? Deus! Ora, se o interlocutor da sentença é Deus, não se pode fazer a análise do texto usando as lentes da cosmovisão feminista atual, seja ela de que vertente for. As lentes para a compreensão do texto devem ser extraídas da própria Bíblia. É a cosmovisão bíblica, divina, que vai guiar a interpretação do texto e não conceitos de dicionários modernos ou literaturas carregadas de ideologias. Por isso, cabem os questionamentos: De acordo com a cosmovisão bíblica, quais as implicações do termo domínio expressas em Gênesis 3:16? O que Deus quis dizer quando falou que o homem dominaria sobre a mulher? De que tipo de domínio o texto está falando? Esse texto expressa uma visão machista por parte de Deus?

Naturalmente, afirmar que Gênesis 3:16 traz uma visão machista e preconceituosa contra a mulher, coloca Deus em uma situação indevida, contrária a Seu caráter e Sua forma de agir. Talvez, um olhar ao capítulo 4 e o que representava o domínio da primogenitura ajude na compreensão inicial do assunto. Ser o primogênito não colocava o primeiro filho numa posição em que pudesse humilhar, violentar, desmerecer os seus demais irmãos. A primogenitura dizia respeito, principalmente, a funções de liderança, respeito, proteção e cuidado do clã quando o então líder/patriarca partisse. O primogênito seria o responsável, o cabeça, o próximo líder da família. Portanto, a ideia de domínio expressa tanto em Gênesis 3, quanto em Gênesis 4 nada tem que ver com dominação pessoal, violência, conduta arbitrária e desrespeito por parte do que exerce o domínio, é exatamente o contrário disso. O domínio ordenado por Deus em Gênesis 3:16 a ser exercido pelo homem deveria ser, então, uma bênção, conforme verificar-se-á mais adiante.

Ao longo de toda a Bíblia, nota-se o nítido contraste entre o מָשַׁל (mashal) domínio do justo e sábio e o מָשַׁל (mashal) domínio daquele que é tolo e injusto. Por exemplo: Quando o livro de Gênesis fala dos sonhos de José, diz que seus irmãos lhe questionaram: “Tu, pois, deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio sobre nós?” (Gn 37:8) O verbo aqui usado foi mashal. Anos depois, José se torna o governador do Egito e tem em seu poder a possibilidade de fazer o que quisesse com seus irmãos, que tanto mal lhe fizeram. Ao invés disso, suas palavras no momento em que se revela a seus irmão, foram: “Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como dominador em toda a terra do Egito” (Gn 45:8). Novamente a palavra usada aqui foi mashal. Nitidamente se nota que tipo de domínio foi exercido por aquele que era fiel a Deus, que, podendo usar da força e do poder para castigar, violentar, não retribuiu de forma vingativa os males sofridos. É por isso que Davi, no fim de sua vida declarou:

“Aquele que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor de Deus, é como a luz da manhã, quando sai o sol, como manhã sem nuvens, cujo esplendor, depois da chuva, faz brotar da terra a erva” (2Sm 23:3, 4).

O contrário do domínio do justo também é expresso na Bíblia quando em Provérbios se diz: “Como leão rugidor, e urso faminto, assim é o ímpio que domina sobre um povo pobre”(Pv 28:15). Ainda em Provérbios o contraste torna-se bastante claro pela própria estrutura poética de antítese ao afirmar que “quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme” (Pv 29:2) Verifica-se, portanto, que o problema não está na palavra domínio, mas em quem exerce a ação deste verbo.

É indispensável atentar para o texto de Miqueias 5:2, porque ali está expresso a ação de domínio do Messias: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará (dominará – mashal) em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5:2). Esse texto é importante porque no Novo Testamento Paulo retoma a ideia de submissão e domínio entre a mulher e o homem fazendo alusão comparativa da relação entre Cristo e Sua igreja. Cristo é o dominador por excelência e Ele é o modelo a ser seguido. Ao discursar sobre o tema, Paulo afirma:

“Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus. Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo Ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” (Ef 5:21-24).

No primeiro momento do texto, Paulo sugere que a sujeição deve ser mútua entre os irmãos no temor de Deus, indo além das questões maritais. Em seguida, ele vai expressar a ideia do homem como cabeça, isto é, o líder, protetor, cuidador da mulher e deve ele exercer esse domínio da mesma forma como Cristo, que é o cabeça da igreja, exerce Seu domínio. Na sequência, Paulo diz:

“Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela. […] Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos” (Ef 5:25-30).

Claramente, fica evidenciado que o tipo de domínio a que Paulo faz referência não tem que ver com atitudes ríspidas, autoritárias, violentas, desrespeitosas, mas, um domínio de amor, amor este, capaz de dar a vida pela esposa. Não é um domínio machista, mas, de cuidadoso zelo. Esta é a cosmovisão bíblica de domínio. Foi este tipo de domínio (mashal) que Deus estabeleceu no Gênesis. Qualquer que seja a visão antropocêntrica que desvirtue o sentido bíblico apresentado em Gênesis 3:16 deve ser desconsiderada. O domínio estabelecido por Deus, não era para ser uma maldição, mas uma bênção. Se em algum momento não foi benéfico, a culpa não está nas palavras de Deus, mas na maldade do coração humano e na má compreensão das Escrituras. A este respeito diz Ellen White:

Referiram-se a Eva a tristeza e a dor que deveriam dali em diante ser o seu quinhão. E disse o Senhor: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gn 3:16). Na criação Deus a fizera igual a Adão. Se houvessem eles permanecido obedientes a Deus – em harmonia com Sua grande lei de amor – sempre estariam em harmonia um com o outro; mas o pecado trouxera a discórdia, e agora poderia manter-se a sua união e conservar-se a harmonia unicamente pela submissão por parte de um ou de outro. Eva fora a primeira a transgredir; e caíra em tentação afastando-se de seu companheiro, contrariamente à instrução divina. Foi à sua solicitação que Adão pecou, e agora foi posta sob a sujeição de seu marido. Se os princípios ordenados na lei de Deus tivessem sido acariciados pela raça decaída, esta sentença, se bem que proveniente dos resultados do pecado, ter-se-ia mostrado ser uma bênção para o gênero humano; mas o abuso da supremacia assim dada ao homem tem tornado a sorte da mulher mui frequentemente bastante amargurada, fazendo de sua vida um fardo. (WHITE, 1997)

Não há dúvidas que a submissão por parte de um ou de outro foi resultado do pecado. Mas, esta é a única forma de se manter a harmonia, conforme relata a pena inspirada. O problema não está na submissão, pois claramente o texto declara que esta deveria ser uma bênção para a o gênero humano. O problema está no “abuso da supremacia” do homem que “tem tornado a sorte da mulher mui frequentemente bastante amargurada, fazendo de sua vida um fardo”. Qual a solução para isso? Recorrer às ideias feministas (seja ela de que vertente for)? Ou buscar o padrão bíblico de domínio, entendendo o que a Bíblia ensina sobre isso? Ainda falando sobre a busca por um domínio arbitrário, diz Ellen White:

Nem o marido nem a esposa devem pensar em exercer governo arbitrário um sobre o outro. Não intentem impor um ao outro os seus desejos. Não é possível fazer isso e ao mesmo tempo reter o amor mútuo. Sede bondosos, pacientes, longânimos, corteses e cheios de consideração mútua. Pela graça de Deus podeis ter êxito em vos fazerdes mutuamente felizes, como prometestes no voto matrimonial. (WHITE, 2004a, 361)

E ao marido que, não compreendendo o verdadeiro sentido bíblico, busca no texto inspirado respaldo para suas atitudes equivocadas de domínio, Ellen White alerta:

Não é evidência de varonilidade demorar-se o esposo constantemente no fato de ser a cabeça da família. Não se lhe acrescenta respeito ser ouvido a citar as Escrituras a fim de sustentar seus reclamos de autoridade. Ele não se faz mais varonil por exigir de sua esposa, a mãe de seus filhos, que aceite os seus planos como se eles fossem infalíveis. O Senhor constituiu o marido como a cabeça da mulher, para ser-lhe protetor, o laço de união da família, unindo os membros entre si, da mesma forma que Cristo é a cabeça da igreja, e o Salvador do corpo místico. Que cada esposo que alega amar a Deus estude cuidadosamente os reclamos de Deus no que respeita a sua posição. A autoridade de Cristo é exercida com sabedoria, com toda a bondade e mansidão; assim exerça o esposo seu poder e imite a grande Cabeça da igreja. (WHITE, 2004b, 215)

E por fim, aqui se expressa de forma clara e perfeita o que é domínio por parte do marido e o que é sujeição por parte da esposa:

Nem o marido nem a mulher deve buscar dominar. O Senhor expressou o princípio que guiará este assunto. O marido deve amar a mulher como Cristo à igreja. E a mulher deve respeitar e amar o marido. Ambos devem cultivar espírito de bondade, resolvidos a nunca ofender ou prejudicar o outro. (WHITE, 1998, 97)

CONCLUSÃO

Conclui-se, após este estudo, que as palavras de Deus, proferidas em Gênesis 3:16, não podem ser compreendidas de maneira irresponsável, a saber, que esta seria uma declaração machista que colocou a mulher numa posição inferior ao homem devendo, portanto, ser combatida com ideias feministas. A própria Bíblia se interpreta, e Gênesis 4, ao falar do domínio do filho primogênito em relação aos demais irmãos, num claro paralelismo com Gênesis 3 com o uso dos termos desejo e domínio, começa a abrir o caminho para uma compreensão mais clara desses termos, em especial, “domínio”, que ganha sua amplitude e significado máximos na relação entre Cristo e Sua igreja. Assim, portanto, o termo domínio em Gênesis 3 nada tem que ver com menosprezo a mulher, não a coloca em uma posição inferior em relação ao homem, tampouco sanciona a violência, o desrespeito e atitudes arbitrárias do homem em relação à mulher. A compreensão correta desse assunto à luz da Bíblia, não permitirá que o leitor esteja a vaguear por filosofias humanas, pretendendo mesclar com a teologia aspectos filosóficos que mais buscam a militância que a aprovação divina. Como último alerta, diz Ellen White:

Aqueles que se sentem chamados a se unir ao movimento em favor dos direitos da mulher e do vestuário reformado, podem igualmente romper toda conexão com a mensagem do terceiro anjo. O espírito que assiste a um não pode estar em harmonia com o outro. As Escrituras são claras sobre as relações e direitos de homens e mulheres. (WHITE, 1999, 421)

(Eleazar Domini é pastor adventista e mestre em Teologia)

Referências:

LIVINGSTON, G. H. et al. Comentário bíblico Beacon: Gênesis a Deuteronômio. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. v.1. 510.

NETO, J. A. À porta do paraíso. Uma interpretação contextual de Gên. 4:7. Revista Hermenêutica, v. 3, n. 1, p. 3-21, 2003.

WHITE, E. G. Patriarcas e profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997. 755.

______. Testemunhos Seletos: Obras de Ellen G. White Versão 2.0. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1998. v.3 443.

______. Testemunhos para igreja. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1999. v.1 700.

______. A Ciência do Bom Viver. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004a. 532.

______. O Lar Adventista. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004b.

Inauguração do Santuário Celestial: como criam os pioneiros?

Algumas pessoas acreditam que a ida de Cristo ao lugar Santíssimo por ocasião de Sua ascensão para ungir/inaugurar o Santuário, inclusive o Santíssimo, é algo novo e, por desconhecimento, até associam às ideias de Desmond Ford. Mas seria isso mesmo? Seria um pensamento novo? Como criam nossos pioneiros? Como eles interpretavam Daniel 9:24?

Em Gênesis 1, a expressão raquía significa EXPANSÃO ou DOMO?

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Domingo: dia do Senhor? Uma resposta respeitosa aos padres Guido e Wander

Nesse vídeo, o pastor Eleazar faz uma análise respeitosa de um diálogo entre os padres Guido e Wander acerca do domingo como dia do Senhor. Eles mencionam a Igreja Adventista e por isso estão sendo respondidos.

Além da resposta dada, ele aproveitou para analisar a expressão Kuriaque hemera, que aparece em Apocalipse 1:10 (o dia do Senhor), e demonstrou a falácia de tentar inferir que seria um referência ao domingo. Além disso, ele faz uma busca histórica mostrando, desde o primeiro século até os dias atuais (passando século por século), que sempre houve cristãos guardando o sábado, e quando o domingo foi imposto como dia de guarda.

Trata-se de um material rico que vai lhe ajudar muito na compreensão desse tema tão importante.

O domingo é o dia do Senhor? Resposta respeitosa ao pastor Ageu Magalhães

Em um programa de TV chamado “Vejam Só”, o entrevistado, pastor Ageu Magalhães, defendeu o domingo como dia do Senhor. Chegou a dizer, inclusive, que uma das razões para a pandemia do coronavírus seria a desobediência aos mandamentos de Deus, incluindo o domingo, segundo ele, “o mandamento esquecido”. Mas será isso o que a Bíblia ensina? A Bíblia, em algum lugar, defende a mudança do sábado para o domingo? Cristo ou os apóstolos fizeram ou autorizaram tal mudança? Assista ao vídeo e acompanhe a resposta dada.

Ellen G. White: acréscimos à Bíblia?

Há poucos dias, o canal Teologar postou um vídeo em que o apresentador insinua que para nós, adventistas, Ellen G. White seria um acréscimo à Bíblia. Naturalmente que discordamos disso veementemente, pois essa não é a nossa crença. Por isso, resolvemos trazer uma pequena resposta (não exaustiva, naturalmente) que poderá ajudá-lo a entender como cremos.

Metá tauta e a impossibilidade futurista

johnEstudar o livro do Apocalipse é sempre uma tarefa desafiadora e, ao mesmo tempo, gratificante. Sua estrutura literária profético-simbólica estabelece critérios hermenêuticos que, se não forem devidamente aplicados, podem resultar numa interpretação equivocada. O contrário, entretanto, é verdadeiro, isto é, quando as regras hermenêuticas são utilizadas corretamente, quando o texto é analisado dentro de sua estrutura literária e os parâmetros historicistas são devidamente aplicados, o resultado é hermeneuticamente mais confiável.

Recentemente, algumas teorias, que vão numa linha diferente da ortodoxia há tanto defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, têm se levantado e causado certa confusão entre os irmãos. Dentre elas, há uma afirmando que a leitura do Apocalipse deve ser feita de forma sequencial e linear, baseando-se na utilização da expressão metá tauta (“depois destas coisas”, ou “depois disto”). Este artigo pretende analisar a fragilidade do uso dessa expressão grega (metá tauta) como marcador de tempo da sequência cronológica dos acontecimentos descritos a partir do capítulo 4. [No fim deste artigo você encontrará uma tabela explicando sucintamente as nove ocorrências dessa expressão em Apocalipse.]

Como sugere essa teoria, Apocalipse capítulos 1 a 3, que trazem uma introdução geral ao livro, bem como seu objetivo e destinatário, devem ser compreendidos dentro de uma visão historicista, na qual o cumprimento profético das igrejas ocorre ao longo da história, e o tempo presente está enquadrado no período de Laodiceia. Nesse sentido, não há discordância entre o pensamento histórico adventista e o que sugere essa teoria. O que se segue, entretanto, sai completamente do escopo historicista, alinhando-se a uma perspectiva futurista de interpretação. Para os proponentes dessa visão, o início do capítulo 4 sugere uma progressão linear dos eventos descritos com a introdução do que eles entendem ser uma cena de juízo, ou seja, o que ocorre nos capítulos 4 e 5 necessariamente acontece depois do período das sete igrejas:

Depois destas coisas (metá tauta), olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz que, como de trombeta, ouvira falar comigo, disse: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas (metá tauta)” (Ap 4:1).

A pergunta que se faz é: A expressão “depois destas coisas” (metá tauta) está funcionando como um marcador de tempo estabelecendo uma ordem cronológica dos acontecimentos ou apenas a cronologia das visões? Para responder a essa pergunta de maneira satisfatória, é necessário observar as demais aparições dela no livro de Apocalipse.

A expressão em estudo ocorre cerca de nove vezes no livro do Apocalipse. Em pelo menos duas delas, nota-se claramente que serve como marcador de eventos sequenciais, ou seja, indica que os acontecimentos são cronologicamente posteriores aos que foram citados:

  1. “Passou o primeiro ai; eis que depois destas coisas (metá tauta) vêm ainda dois ais” (Ap 9:12).
  2. “E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois disso (metá tauta) importa que seja solto por um pouco de tempo” (Ap 20:3).

Como se pode observar, a expressão “depois disto” ou “depois destas coisas”, nos versos acima, indica eventos que aconteceriam depois dos mencionados: os dois “ais” ocorreriam cronologicamente após o primeiro “ai”, isto é, “depois destas coisas”. Da mesma forma, a expressão “depois destas coisas” em Apocalipse 20:3 indica que Satanás deverá ser solto cronologicamente após o evento do milênio.

As demais aparições de metá tauta no Apocalipse sempre estarão acompanhadas do verbo “ver”, com exceção de Apocalipse 19:1, verso em que a expressão está acompanhada do verbo “ouvir”. Note este padrão muitíssimo interessante que acontece nas demais ocorrências: “depois destas coisas, vi” (μετὰ ταῦτα εἶδον – metá tauta éidon). Esse padrão chama a atenção, pois o verbo “ver” associado à expressão “depois destas coisas” sempre indica o início de uma nova visão. É como se o texto estivesse informando: “depois destas coisas”, ou seja, depois das coisas apresentadas nesta visão que acabou de ser mencionada, “vi”, isto é, João passa a ter outra visão. Sendo assim, a expressão “depois destas coisas” não estaria enfatizando que os eventos a serem descritos a partir dessa sentença são cronologicamente posteriores aos eventos da visão anterior, mas que João entra numa nova visão depois das coisas que viu na visão anterior.

A teoria que propõe o uso da expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) como indicativo de que os eventos descritos a partir do capítulo 4 são cronologicamente posteriores aos eventos descritos nos capítulos 1-3, isto é, devem ser interpretados como eventos a ocorrerem após o período das sete igrejas, torna-se extremamente frágil e perigosa. Veja, por exemplo, Apocalipse 15:1-6:

“E vi outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus [visão dos sete anjos com as taças]. E vi um como mar de vidro misturado com fogo; e também os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número do seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos” [visão dos salvos diante do mar de vidro]. E depois disto olhei (metá tauta éidon), e eis que o templo do tabernáculo do testemunho se abriu no céu. E os sete anjos que tinham as sete pragas saíram do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro pelos peitos” [retorno à visão do v. 1].

 Seguindo a linha de interpretação em que a expressão “depois destas coisas” significaria que os eventos que seguem são cronologicamente posteriores aos descritos na visão anterior, chega-se à conclusão equivocada de que as pragas são derramadas após os salvos estarem no Céu. Note que dos versos 2 ao 4 são apresentados os salvos diante do mar de vidro e, “depois destas coisas”, João vê os sete anjos com as taças da ira de Deus para serem derramadas sobre o mundo, como, de fato, ocorre a partir do início do capítulo 16. Será esse o entendimento correto para tais eventos? Seriam as pragas derramadas após os salvos estarem no Céu diante do mar de vidro e do trono de Deus? Claro que não! Como entender a passagem de Apocalipse 15? Veja abaixo:

  1. O verso 1 inicia a visão dos anjos com as sete taças da ira de Deus que seriam derramadas sobre a Terra: “E vi outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus” [visão dos sete anjos com as taças].
  2. O verso 2 inicia outra visão que se estende até o verso 4. Na realidade, essa visão é um complemento daquilo que estava sendo apresentado no capítulo 14, a partir do verso 14, onde João vê a cena da seara e da colheita, bem como a colheita das uvas para preparar o vinho que seria derramado sobre a Terra, isto é, as pragas. O capítulo 14:14-20 é um preâmbulo para o que ocorre no capítulo 15. Há duas cenas no capítulo 14 que são retomadas no capítulo 15: a primeira é da seara dos justos (v. 14 a 16) e a segunda, o preparo do vinho que seria derramado sobre a Terra como pragas de Deus sobre os ímpios (v. 17-20). Lembre-se de que, originalmente, o Apocalipse não foi escrito com divisões de capítulos e versículos. Era um texto único. Portanto, a visão iniciada no capítulo 14:14 é retomada nos versos 2 a 4 do capítulo 15. Observe:

“E vi um como mar de vidro misturado com fogo; e também os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número do seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as Tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos. Quem Te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o Teu nome? Porque só Tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os Teus juízos são manifestos” [visão dos salvos diante do mar de vidro].

Esses versos fazem referência aos versos 14 a 16 do capítulo 14; são uma continuidade. A visão demonstra o resultado da ceifa dos justos feita por Jesus no capítulo 14.

  1. O verso 5 do capítulo 15 retoma a visão do verso 1, que, conforme foi demonstrado, é na verdade a continuação daquilo que se apresentou inicialmente na segunda parte da visão do capítulo 14, mais especificamente dos versos 17 a 20: “E depois disto olhei (metá tauta éidon), e eis que o templo do tabernáculo do testemunho se abriu no Céu. E os sete anjos que tinham as sete pragas saíram do templo, vestidos de linho puro e resplandecente, e cingidos com cintos de ouro pelos peitos” [retorno à visão do v. 1 do capítulo 15, iniciada no capítulo 14].

 Se for aceito o entendimento de que a expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) se refere a eventos que ocorrem cronologicamente posteriores à visão precedente numa sequência linear de acontecimentos, comete-se o erro de colocar os salvos no Céu antes de as pragas caírem sobre a terra. O mesmo pode ser dito do início do capítulo 4 quanto à expressão em questão: caso metá tauta éidon se refira a eventos que ocorrem cronologicamente posteriores às sete igrejas, a compreensão será futurista e com sérias implicações hermenêuticas.

Como apresentado na parte inicial deste artigo, a abertura do capítulo 4 de Apocalipse apresenta a sentença metá tauta éidon (depois destas coisas, vi). O que vinha sendo apresentado nos capítulos anteriores, 2 e 3, era a visão das sete igrejas. Logo, alguns sugerem que os eventos da visão do capítulo 4 e dos capítulos posteriores incluindo os sete selos e as sete trombetas seriam eventos que se dariam após o período das sete igrejas. Para tanto, propõe-se que os capítulos 4 e 5 estariam retratando uma cena de juízo, a saber, o juízo investigativo que ocorre a partir de 1844. A visão do capítulo 4 de Apocalipse seria, portanto, similar à visão dada a Daniel no capítulo 7. Não obstante, apesar de existirem elementos de similaridade nessas visões, as diferenças são gritantes e maiores que as semelhanças, a ponto de ser completamente imprudente a associação entre elas. Falando acerca desse ponto, o Dr. Jon Paulien diz:

“Especialmente impressionantes são as acentuadas diferenças entre Apocalipse 4–5 e Daniel 7. Em Daniel são postos uns tronos (7:9); em Apocalipse os tronos já estão lá (4:2-4). Em Daniel muitos livros são abertos (7:10); em Apocalipse um livro está selado (Ap 5:1). Em Daniel a figura central é “o filho do homem” (7:13; expressão com a qual o Apocalipse certamente está familiarizado – 1:13); em Apocalipse ele é o Cordeiro (Ap 5:6; um termo mais apropriado para o serviço diário do que para o Dia da Expiação em qualquer caso).”

Para o Dr. Paulien, uma linguagem de juízo não é encontrada nos capítulos 4 e 5. Uma expressão que denote juízo vai ocorrer apenas em Apocalipse 6:10, o que deixa claro não haver ainda começado o juízo como pretende a teoria futurista. Dr. Paulien ainda argumenta que mesmo havendo algumas alusões ao santuário nos capítulos 4 e 5 que poderiam ser entendidas como sendo referência ao Yom Kippur (dia da expiação), “a impressão geral dada por essa passagem não pertence a qualquer compartimento ou serviço, mas sugere uma lista abrangente de quase todos os aspectos do antigo ministério.”[1] Para ele, as cenas observadas nos capítulos 4 e 5 de Apocalipse mais se aproximam de “uma descrição simbólica do serviço de inauguração no santuário celestial que ocorreu em 31 d.C. O que segue à cena de inauguração tem que ver com toda a Era Cristã, não apenas com o seu fim.”[2]

Segundo a ideia futurista, as cenas do capítulo 4 se dão no primeiro compartimento do santuário celestial, e as cenas do capítulo 5 no segundo compartimento. Entretanto, tais inferências são “refutadas com base na absoluta falta de evidência no texto para qualquer movimento do trono entre os dois capítulos. Os dois capítulos retratam uma simples localização visionária.”[3]

Como se pode observar, não há como traçar um paralelismo entre as visões de Apocalipse 4 e 5 com a visão de Daniel 7. Segundo o Dr. Paulien, os capítulos 4 e 5 estariam falando da entronização de Cristo por ocasião de seu retorno ao Céu. Mas, para que não fique “na palavra apenas de homens” (mesmo sendo de pessoas com autoridade para fazê-lo), note como Ellen White identificou as visões de Apocalipse 4 e 5 (para responder àqueles que sempre dizem: “ele é doutor, mas não é inspirado”):

“Ali está o trono, e ao seu redor, o arco-íris da promessa. Ali estão querubins e serafins. Os comandantes das hostes celestiais, os filhos de Deus, os representantes dos mundos não caídos, acham-se congregados. O conselho celestial, perante o qual Lúcifer acusara a Deus e a Seu Filho, os representantes daqueles reinos imaculados sobre os quais Satanás pensara estabelecer seu domínio – todos ali estão para dar as boas-vindas ao Redentor. Estão ansiosos por celebrar-Lhe o triunfo e glorificar seu Rei.

“Mas Ele os detém com um gesto. Ainda não. Não pode receber a coroa de glória e as vestes reais. Entra à presença do Pai. Mostra a fronte ferida, o atingido flanco, os dilacerados pés; ergue as mãos que apresentam os vestígios dos cravos. Aponta para os sinais de Seu triunfo; apresenta a Deus o molho movido, aqueles ressuscitados com Ele como representantes da grande multidão que há de sair do sepulcro por ocasião de Sua segunda vinda. […]

“Ouve-se a voz de Deus proclamando que a justiça está satisfeita. Está vencido Satanás. Os filhos de Cristo, que lutam e se afadigam na Terra, são ‘agradáveis… no Amado’ (Ef 1:6). Perante os anjos celestiais e os representantes dos mundos não caídos, são declarados justificados. Onde Ele está, ali estará a Sua igreja. ‘A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram’ (Sl 85:10). Os braços do Pai circundam o Filho, e é dada a ordem: ‘E todos os anjos de Deus O adorem’ (Hb 1:6).

“Com inexprimível alegria, governadores, principados e potestades reconhecem a supremacia do Príncipe da Vida. A hoste dos anjos prostra-se perante Ele, ao passo que enche todas as cortes celestiais a alegre aclamação: ‘Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças’! (Ap 5:12).

 “Hinos de triunfo misturam-se com a música das harpas angélicas, de maneira que o Céu parece transbordar de júbilo e louvor. O amor venceu. Achou-se a perdida. O Céu ressoa com altissonantes vozes que proclamam: ‘Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre’ (Ap 5:13).”[4]

 Note que Ellen White claramente faz inteira associação entre a entronização de Cristo por ocasião de Sua ascensão após a ressurreição e o capítulo 5 de Apocalipse. Os detalhes expressos nesse texto são claros o suficiente para descartar qualquer visão futurista que projete os capítulos 4 e 5 para o ano 1844, como se estivessem fazendo menção do juízo investigativo descrito no capítulo 7 de Daniel. Ademais, a expressão metá tauta, quando associada ao verbo “ver” (éidon), indica o início de uma nova série de cenas apresentadas em uma nova visão e não uma série de eventos cronologicamente posteriores às cenas anteriormente apresentadas. Sendo assim, as cenas descritas em Apocalipse 4 e 5, por se tratarem da entronização de Cristo, estão mais bem situadas, cronologicamente falando, com as cenas do capítulo 1 ou antes delas, e não após os períodos das sete igrejas.

Conclusão

 Podemos concluir que as tentativas de se fazer uma interpretação cronologicamente linear dos eventos descritos nos capítulos 1 a 3 com o capítulo 4 são completamente equivocadas, futuristas, tendenciosas e carecem de uma melhor avaliação da estrutura do texto. A expressão μετὰ ταῦτα (“depois destas coisas” ou “depois disto”), quando associada ao verbo “ver” (éidon), indica o início de uma nova série de cenas apresentadas em uma nova visão e não uma série de eventos cronologicamente posteriores às cenas anteriormente apresentadas na visão precedente. Tal evidência pode ser confirmada na leitura de Apocalipse 15:5, onde, se feita a leitura da expressão metá tauta éidon (“depois destas coisas, vi”) como sendo uma sequência cronológica de eventos, cai-se no equívoco de afirmar que os salvos estariam no Céu diante do trono de Deus por ocasião do derramamento das pragas no mundo, o que é inadmissível. A leitura correta do texto, portanto, é feita quando se aceita que a expressão metá tauta éidon indica o início de uma nova visão e não uma sequência dos eventos da visão anterior.

Concluiu-se, também, com base na literatura acadêmica, por meio do estudo do Dr. Jon Paulien, que a tentativa de associação dos capítulos 4 e 5 com o juízo investigativo descrito em Daniel 7 é completamente equivocada, dada a quantidade de dessemelhanças entre as visões. As cenas apresentadas nos capítulos 4 e 5 têm que ver, portanto, com a entronização de Cristo, segundo ele. Tal abordagem recebe apoio da palavra profética dada a Ellen White, confirmando, por meio de citações diretas, que as cenas dos capítulos 4 e 5 não podem ser outra coisa senão a entronização de Cristo por ocasião de Sua ascensão após a ressurreição.

(Eleazar Domini é formado em Teologia e mestre em Teologia e Ensino da Bíblia)

“META TAUTA” EM APOCALIPSE*
Passagem bíblica Texto bíblico Interpretação bíblica
1:19 “Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto as presentes como as que estão por vir.” Neste verso, a expressão meta tauta se refere ao conteúdo da visão que João está descrevendo. Aliás, no texto, essa expressão sai da boca do ser com quem João interage dentro da visão. Assim, meta tauta aponta para uma sucessão de atos que ocorrem dentro da visão e não uma sucessão de eventos que ocorrem na história.
4:1 (2x) Depois dessas coisas olhei, e diante de mim estava uma porta aberta no Céu. A voz que eu tinha ouvido no princípio, falando comigo como trombeta, disse: ‘Suba para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas.'” Aqui, a primeira ocorrência de meta tauta sendo dita pelo próprio João aponta para o conteúdo daquilo que ele viu e ouviu desde 1:11 até 3:22. Cada uma das sete cartas para as sete igrejas começa com a fórmula introdutória – “ao anjo da igreja em […] escreve” – mostrando que o conteúdo das cartas fazia parte do discurso daquele com quem João dialogava em visão. Logo, essa primeira ocorrência de meta tauta tem relação com o conteúdo da visão e não com eventos históricos a acontecer no futuro. A segunda ocorrência, agora dita pelo mesmo ente celestial que fora visto no começo, repete as palavras do apóstolo. Ou seja, ela também indica o conteúdo da visão.
7:9 Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas.” Todo o capítulo 6 de Apocalipse fala da abertura de seis dos sete selos. O capítulo 7 começa com a expressão meta tauta. Assim, ela não se refere a eventos que acontecerão depois dos seis selos abertos, mas às coisas que João contemplou no capítulo 6, a abertura dos seis selos.
9:12 “O primeiro ai passou; dois outros ais ainda estão por vir.” Aqui, ao que parece, de fato, meta tauta indica uma sucessão de eventos cronológicos, especificamente a ocorrência dos “ais”. Primeiro um “ai” e, depois disso, outro “ai”.
15:5 Depois disso olhei, e vi que se abriu no Céu o santuário, o tabernáculo da aliança.” Aqui não é possível conceber que meta tauta designe uma sucessão de eventos cronológicos, porque isso implicaria na conclusão de que as pragas que deverão cair sobre a terra (15:5-16:21) só cairão após a ascensão dos salvos para o Céu (15:2-4). Logo, meta tauta só pode designar a sucessão de coisas na visão. Aliás, o verso 5 nada mais é do que uma retomada daquilo que foi dito no verso 1.
18:1 Depois disso vi outro anjo que descia do céu. Tinha grande autoridade, e a terra foi iluminada por seu esplendor.” Neste verso, também não é possível conceber que a expressão meta tauta indique uma sucessão de eventos cronológicos. O capítulo 17 descreve uma “grande meretriz” sentada sobre uma besta escarlata. Esta mulher é chamada de “Babilônia”. O capítulo 18, que fala sobre a queda de Babilônia, é uma explicação de como a mulher do capítulo anterior (Babilônia) será destruída. Assim, meta tauta, ao introduzir o capítulo 18, está introduzindo uma visão que descreve a queda da Babilônia do capítulo 17 e não algo que acontece depois desse capítulo.
19:1 Depois disso ouvi no céu algo semelhante à voz de uma grande multidão, que exclamava: “Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus” O capítulo 19 tem como assunto central o júbilo no Céu por parte daqueles que enfrentaram as crises terrestres finais e a honraria que Cristo recebe por ter vencido a besta e o falso profeta. Todo esse assunto é um desdobramento das coisas relatadas no capítulo anterior. Desse modo, meta tauta, neste caso, descreve tanto uma sequência de coisas dentro da visão quanto eventos que se sucedem na história.
20:3 “…lançou-o no abismo, fechou-o e pôs um selo sobre ele, para assim impedi-lo de enganar as nações até que terminassem os mil anos. Depois disso, é necessário que ele seja solto por um pouco de tempo.” Aqui o contexto favorece a interpretação que entende meta tauta como tendo sentido histórico (eventos que acontecem na história), antes de sentido literário (coisas que se sucedem na visão descrita pelo texto).

* Todos os textos dessa tabela foram extraídos da Bíblia Nova Versal Internacional (NVI).

Nota: A tabela foi criada por Elton Queiroz. 

  1. PAULIEN, Jon. Selos e trombetas: algumas discussões atuais. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.) Estudos sobre Apocalipse: Temas introdutórios. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2010 (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 6).
  2. Ibid.
  3. PAULIEN, Jon. Selos e trombetas: algumas discussões atuais. In: HOLBROOK, F. B. (Ed.) Estudos sobre Apocalipse: Temas introdutórios. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2010 (Série Santuário e Profecias Apocalípticas, 6).
  4. WHITE, E. G.O desejado de todas as nações. São Paulo, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2007. 835.

Meu sobrinho entrevistou o pastor Eleazar Domini

Os pioneiros adventistas eram antitrinitarianos?

Algumas pessoas desinformadas e outras mal-intencionadas têm espalhado por aí que os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram antitrinitarianos no sentido pleno da palavra e que a doutrina da Trindade só teria sido aceita pela Igreja Adventista na década de 1980.  Tais alegações merecem algumas considerações:

1. Qual tipo de Trindade era rejeitada pelos pioneiros?
2. Todos os pioneiros eram contrários a essa doutrina?
3. Houve um crescimento acerca do assunto no seio da igreja?
4. Houve declarações trinitarianas em publicações oficiais da igreja?
5. Ellen White criticou alguma declaração trinitariana feita em publicações oficiais?

As respostas a essas perguntas você encontrará no vídeo acima e perceberá que Deus, em Sua sabedoria infinita, guiou e continua guiando Sua igreja rumo ao porto celestial.