Mais que médico, ajudante do Pastor

1– O senhor é pastor?

De repente, todos nós, que estávamos naquele momento compenetrados, paramos para olhar para o leito 2 da UTI. Lá estava o seu Roberto, de 49 anos, com a voz ainda rouca e embargada pelos dez dias que passou entubado na UTI do Hospital Adventista de São Paulo.

São dias estranhos e diferentes os que vivemos. Estava comigo o Dr. Elson, diretor clínico do CEVISA, que naquele momento de luta contra a pandemia mundial de coronavírus, acostumado a aplicar diariamente seus conhecimentos em Medicina do Estilo de Vida, estava, assim como eu, a enfermeira e a fisioterapeuta, revisando e pensando em tantos fatores diferentes, como dose de drogas vasoativas, critérios de ventilação mecânica, antibióticos e todas as questões relativas ao tratamento de pacientes graves.

– O senhor é pastor? – repetiu Roberto, desta vez com a voz um pouco mais forte, como tentando vencer a máscara de oxigênio que estava usando.

Naquele momento, algo mexeu dentro de mim. Médico? Coordenador da UTI? Cardiologista? Intensivista? Não. Não me pareceu o correto. Falei então:

– Não, seu Roberto. Não sou pastor. Sou ajudante do Pastor. Por quê?

– Eu ouço todos os dias… você orar… pelos pacientes… Poderia orar por mim?

A observação do Roberto me deixou impressionado. Todos os dias, antes de passar visita multiprofissional, fazemos uma oração pedindo a Deus pelos pacientes, e que Ele nos dê orientação e sabedoria ao tomarmos as decisões que melhorem a saúde deles. Mas confesso que me surpreendi pela observação do Sr. Roberto. Ele passou vários dias em sedação, o que chamamos de “coma induzido”, respirando por auxílio de aparelhos.

– Claro, Roberto, já vamos aí orar com você!

Terminamos as observações que tínhamos naquele instante. E, naquele momento, nos achegamos, médicos, enfermagem e fisioterapia. Éramos ajudantes do Pastor Jesus Cristo, intercedendo em oração por uma pessoa que tinha visivelmente mais sede de Deus do que do próprio ar de que tanto necessitava para respirar. Pedimos a Deus mais uma vez pelo Roberto, para que a Luz de Deus iluminasse sua vida e por todos os pacientes, não só deste hospital, mas de todos que estão em luta nas UTIs e enfermarias.

Em todo o mundo, várias homenagens estão sendo feitas aos trabalhadores da saúde e da segurança que estão arriscando a vida para atender a população. Neste momento, em que é lembrada a importância desses profissionais, podemos achar que somos o centro da solução para a saúde. Contudo, me permito relembrar de que nosso trabalho, por mais importante e essencial que seja, tem um propósito maior: ajudar as pessoas a enxergar a misericórdia e o amor do nosso Deus.

Diz Ellen White, no livro Evangelismo, página 513: “Coisa alguma abrirá portas à verdade como a obra missionária médico-evangelista. Esta achará acesso aos corações e espíritos, e será um meio de converter muitos à verdade. […] A obra médico-missionária é a mão direita, a mão auxiliadora do evangelho, para abrir as portas à proclamação da mensagem. […] Portas que foram fechadas para aquele que simplesmente prega o evangelho, abrir-se-ão ao inteligente missionário médico. Deus alcança os corações por meio do alívio ao sofrimento físico.”

Saí naquele momento profundamente emocionado, por mais uma vez lembrar que nossas atitudes profissionais têm um propósito maior que salvar o corpo. E me senti muito feliz e honrado em dizer que minha função, assim como a de tantos colegas da área de saúde, é a de ajudante do Pastor.

(Everton Padilha Gomes é médico cardiologista e doutor em Cardiologia pela USP)

Entre o mito e a pessoa: reflexões de um médico sobre a morte de um famoso

medico“Oremos pela família, ele faleceu.” Eram pouco mais de 17 horas quando recebi essa mensagem. E dessa maneira terminava um capítulo na história de uma das pessoas mais intrigantes e, talvez, para alguns, controvertidas dos últimos 50 anos. Foi pelo menos uma hora e meia antes de ser noticiado nos principais meios de comunicação e portais eletrônicos do País. Logo começaram as análises dos cinéfilos e até a de um biógrafo. Abri a página de um grande portal: “Provocador, niilista, gênio criativo, celebridade televisiva, ícone trash e, acima de tudo, um descrente obsessivo… Autor de mais de 40 filmes.” Em outro site, o perfil foi complementado: um “homem sem crenças, não acreditava em Deus nem no diabo, só acredita nele mesmo, acha que é o único que pode fazer justiça”.

As homenagens e os perfis trazem a descrição detalhada de um personagem criado, mas falham totalmente em descrever um ser humano, ou, pelo menos, o ser humano que acabei conhecendo.

Era madrugada de julho de 2014. Na unidade coronária, entre tantos pacientes, um nome chamou atenção. Infarto grave, coração e rins falhando. Comecei a pensar… Uma vida com tantas obras dedicadas a afrontar o que era sacro, a flertar com o terror, com o demoníaco… Lembrei-me do verso bíblico: “Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20). Orei em silêncio, de frente para aquele leito: “Senhor, tem piedade e misericórdia desse homem. Que ele possa ver o Teu Evangelho.”

O tempo passou. Certo dia, recebi a comunicação de que ele havia melhorado, e que ele e a esposa haviam começado a estudar a Bíblia. Mas não foi fácil. Os fãs (do personagem que ele havia criado) o assediavam e o perseguiam. Uma parte da família não entendia essas mudanças de vida que ele começou a ter. Falaram em opressão, lavagem cerebral. Uma vez tirou uma foto atendendo a um apelo para aceitar Jesus. Parecia que havia despertado a fúria do inferno em pessoa. Mais ridicularizações. Finalmente, chegou-se a um ponto em que uma parte da família passou a falar em nome do personagem para sites e jornais, para que a pessoa, o indivíduo de verdade, tivesse um pouco de privacidade e sossego.

Essa pessoa, não o personagem, aceitou Jesus como seu salvador pessoal e foi batizada com a esposa em junho de 2017. Tenho as fotos. Os irmãos da pequena igreja onde permaneceu pelo resto de seus dias foram testemunhas.

Disto tudo, gostaria de tirar quatro pequenas lições:

1) A mudança, a conversão incomoda e irá aborrecer um mundo não espiritualizado. Será contestada e considerada até como fraude. Veja, por exemplo, a conversão do rei Nabucodonosor em Daniel 4. Fora da religião hebraica, não existem registros de tal conversão, pois incomodaria um rei se converter ao Deus de outro país… E assim também são tratadas desde sempre pessoas simples, líderes, artistas, ao entregar o coração.

2) No momento da conversão, muitas pessoas ficam incomodadas ou interessadas. Fulano se converteu? Foi batizado? E muitos parecem querer mover sua vida espiritual em torno de quem seja o famoso que aceitou ou não a Jesus, quer seja ou não da sua religião. Devemos seguir a Jesus independentemente das pessoas ou dos famosos. “Disse-lhe Jesus: Se Eu quero que ele fique até que Eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu” (João 21:22).

3) Relembro mais uma vez do respeito pelo trabalho da igreja local, seja pequena ou grande, e pelos seus membros. Neste caso, do Wanderson, da Igreja Adventista de Vila Buarque, em São Paulo, que deu estudos e nutriu espiritualmente essa pessoa, fez amizade com a família, e segue neste momento dando conforto enquanto escrevo, no velório desse irmão, que agora descansa em Cristo. Algumas vezes Wanderson me pediu orações por causa dos assédios e das dificuldades que os novos conversos estavam sofrendo. Mas persistiu firme. Muitos necessitam de alguém que, assim como Jesus foi para Nicodemos, deem suporte, carinho e amor, conduzindo e reafirmando pessoas na fé.

4) Não despreze o valor da oração intercessória. Neste caso falo em especial a todos os colegas da área da saúde, sejam médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos, fisioterapeutas, ou até mesmo do servente de alimentação ou de limpeza de um hospital.  Lógico que eu sei que o propósito do Senhor foi muito maior que a minha oração naquela fria madrugada de julho. Mas o nosso Deus espera que todos juntos sejamos co-obreiros na salvação daqueles que nos cercam.

Muitas surpresas nos aguardam no Céu. Mas creio que não será surpresa ver esse irmão em Cristo, cujo personagem foi celebrado pelo seu antagonismo a Deus. E até imagino onde ele estará, pois está descrito no livro O Grande Conflito, página 665, que “mais próximo do trono estão os que já foram zelosos na causa de Satanás, mas que, arrancados como tições do fogo, seguiram seu Salvador com devoção profunda, intensa. Em seguida estão os que aperfeiçoaram um caráter cristão em meio de falsidade e incredulidade, os que honraram a lei de Deus quando o mundo cristão a declarava nula, e os milhões de todos os séculos que se tornaram mártires pela sua fé. E além está a ‘multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, […] trajando vestidos brancos e com palmas nas suas mãos’ (Ap 7:9). Terminou a sua luta, a vitória está ganha. Correram no estádio e alcançaram o prêmio. O ramo de palmas em suas mãos é um símbolo de seu triunfo, as vestes brancas, um emblema da imaculada justiça de Cristo, a qual agora possuem”.

Eu quero estar no meio daquela multidão. E você?

(Everton Padilha Gomes é médico e doutor em cardiologia pela USP)

Entre desenhos animados e sessões mediúnicas

leaoNa semana passada fomos invadidos pelos apelos da mídia referentes ao remake em computação gráfica ultrarrealística de “O Rei Leão”, sucesso da Disney de 1994, que angariou na época quase 1 bilhão de dólares e definiu o renascimento daquele estúdio para filmes de animação. Aproveitando o sucesso, vários produtos estão sendo lançados, ensejando o interesse do público no assunto. Parques temáticos, promoções em lanchonetes de fast-food e desenhos derivados – chamados de spin-offs – são idealizados para incrementar os lucros do estúdio de animação.

Desde o anúncio do novo “O Rei Leão”, já vinham sendo lançados alguns produtos, e alguns deles se tornaram mais evidentes durante a semana passada. Chamou a atenção a série intitulada “A Guarda do Leão”, exibida na plataforma digital Netflix e canais a cabo, pela sua premissa, em que mensagens de conteúdo não cristão são passadas às crianças.

A ideia básica é que Kion, filho mais novo de Simba, se torna detentor do “rugido do Leão”, uma capacidade na qual ele incorpora o rugido dos reis ancestrais do reino da pedra, juntamente com um forte vento. No céu, junto com essa incorporação, aparecem nas nuvens a imagem de quatro leões. Logicamente que o desenho é entremeado de mensagens positivas de inclusão e amizade. Ele escolhe cinco amigos para recompor a Guarda do Leão, que não são mais leões. Já no segundo episódio Kion fala com seu avô, Mufasa, ao mesmo estilo visto no Rei Leão, e tudo continua. Entretanto, a questão se torna muito aberta na segunda temporada. Ushari, uma serpente, convence as hienas de que elas precisam convocar o espírito de Scar, o leão morto no fim de “O Rei Leão” (pelas próprias hienas). E, assim, com uma trama que envolve médiuns (é deixado bem claro que Rafiki, o mandril que parece ser um ancião/conselheiro do reino é, na verdade, um médium, assim como sua aprendiz Maniki – que podem evocar espíritos dos bons e dos maus, finalmente Scar emerge, não dos céus, mas da lava da terra.

São inegáveis as semelhanças com outras histórias, desta vez de caráter bíblico. A serpente, Satanás, foi o primeiro a promover a mentira da imortalidade da alma (Gênesis 3:4). E a cena da invocação de Scar lembra de maneira muito próxima o relato da invocação da Pitonisa de Endor, em que um falso espírito aparentando ser Samuel, saindo da terra foi falar com Saul.

Talvez o pior de tudo nesse contexto é a reação de alguns cristãos, incluindo líderes religiosos, a toda a história expressa em “O Rei Leão”. Análises entusiasmadas, querendo tirar lições morais ou até fazendo paralelos entre os personagens do filme e a Bíblia e o plano da Redenção. Alguns comparam Mufasa a Jesus, Rafiki a um cristão inspirado, Scar ao diabo, e assim por diante. Tudo isto com a chancela subjacente ao filme, como uma fonte aprovada e instrutiva para todos. O que devemos levar em conta é que qualquer história deve ser analisada com base na sua premissa ou mitologia. Ou, em última análise, dentro do contexto da mensagem que os autores licenciados gostariam de passar. Neste caso, o que temos claro é que, embora o Rei Leão tenha realmente lições morais, elas são dadas dentro de um meio espiritualista, em que os espíritos podem ser os “guias” para os vivos ou, no caso de “A Guarda do Leão”, espíritos inferiores podem ser antagonistas. E esse relato, da maneira como é passado, se adequa perfeitamente à ideologia espírita.

Mas não conseguimos diferenciar uma coisa de outra? Ou pode ser possível apreciar “O Rei Leão” sem ser afetado pelos pontos negativos?

Entendo que temos o livre arbítrio. Mas, ao mesmo tempo, cada “recomendação” expõe todo pacote dessa mitologia aos espectadores mais incautos, que são crianças e adolescentes. Ou alguém acha que o juvenil que vir o filme sendo recomendado por religiosos ou pelos pais não achará automaticamente recomendada a mesma série de desenhos da mesma produtora em outras plataformas?

Nesses momentos, como pai, só posso apelar que devemos manter cuidado com aquilo que permitimos que entre em nossas casas. Analisar o que eles veem previamente, ou pelo menos ao lado deles. E pedir orientação de Deus para servir o melhor aos nossos filhos.

(Everton Padilha Gomes é médico e doutor em cardiologia pela USP)

Pena de morte e porte de armas: solução para o cristão?

arma1Tenho visto com apreensão um crescente entusiasmo com as teses relacionadas ao porte de armas (indo além da posse) e da pena de morte. Em 2008, 47% da população brasileira era favorável à pena de morte. Dez anos depois, esse número aumentou para 57% da população (confira). A sensação de aumento da violência, os diversos casos de crimes hediondos, tudo isso faz aumentar a demanda por uma ação mais enérgica a fim de coibir o mal. Não quero entrar aqui na enorme discussão política, na queda de braço entre esquerda e direita sobre a questão. Gostaria de fazer apenas uma breve meditação sobre o assunto.

Eu, do ponto de vista particular, teria várias razões para ser favorável à pena de morte e ao porte de armas. Em 2013, meu sogro foi covarde e brutalmente agredido, dentro de seu sítio, na frente da minha sogra, com pauladas na cabeça, por ladrões, enquanto minha sogra assistia a tudo desesperada com uma faca no pescoço. Ele, em dores agonizantes, levou 14 horas em transporte de barco e carro, desde a agressão até ser atendido na capital.

Viajei desesperadamente e passei uma semana ao lado dele em uma UTI no Amazonas. Foram dias de agonia. Ele acabou evoluindo para morte cerebral. Foi chocante ver tudo, inclusive conduzi-lo para a necrópsia. Naquele momento me ocorreram muitos pensamentos associados à profunda revolta e frustração que sentia (em menos de duas semanas ele conheceria pessoalmente meu filho mais novo, o que nunca aconteceu). Esses pensamentos poderiam ser considerados extremamente justos do ponto de vista humano. O mais simples seria relacionado a essas duas crenças sobre pena de morte e porte de armas. O suspeito foi preso após algum tempo, mas liberado por falta de provas (na verdade, uma ausência de condições da polícia local, à qual doamos até gasolina para as lanchas fazerem diligências). Enfim, meu ser em cada fibra teria razões de sobra para ser a favor da pena de morte e do porte de armas. Mas, como uma luta pessoal, minha mente e minha razão religiosa me falavam o contrário. É interpretativo? Pode ser.

No Israel antigo, o Autor da Vida tinha razões diretas para determinar se uma pessoa, família, cidade, nação deveriam viver ou morrer. O sistema legislativo havia sido ditado por Deus. Em alguns casos, dispunha-se da vontade sobrenatural expressa por uma ordem a um profeta, ou mesmo recorrendo ao Urim e Tumim, um sistema binário de resposta disponível ao sacerdote. Eu não tenho esse oráculo.

Para mim, como médico com formação como intensivista, seria muito mais fácil entender as razões de usar uma arma. Estou acostumado a ver pessoas no fim da vida por dezenas de razões. Mas, mesmo assim, minha formação me lembra dos riscos para a minha igreja relacionados com os dois pressupostos.

Decreto de morte é algo que nos últimos dias será imputado ao povo remanescente de Deus. É contraproducente estimular um arcabouço legal que justifique a tomada da vida, e que daqui a alguns anos poderá ser usado contra nós ou nossos filhos.

Muitos têm se entusiasmado, inclusive entre o povo adventista, com o “direito às armas”. Olham com empolgação o modo de pensar do conservador evangélico norte-americano. Mas se esquecem de um detalhe: o evangélico comum, dispensacionalista, é ensinado a ver que no pós-arrebatamento terá que pegar em armas pelo Armagedon. Que o anticristo vai ser o secretário geral da ONU. Que terão que se organizar em milícias. Por isso o norte-americano evangélico ama as suas armas e a Segunda Emenda da Constituição americana.

Um dos maiores exemplos diante da sociedade americana quanto à filosofia adventista sobre armamento foi o do soldado que não pegava em armas Desmond Doss. E o que você acha que tornou aquele moço um herói? Não foram as pessoas que poderia ter matado, mesmo que sob aparente propósito justo. Seu testemunho vivo e irrepreensível das 75 pessoas que salvou sem o uso de armas é uma lição da qual não podemos esquecer: somos um povo especial cuja guarda aos mandamentos de Deus não alude somente ao quarto, mas a todos os mandamentos, incluindo o sexto.

Você percebeu que até agora não falei de nenhuma razão política ou legal local? Mas vou acrescentar uma razão.

Nosso sistema político-legal, na prática, é oligárquico. A lei não se aplica igualmente a todos, quanto mais o atrito se destina aos extremos. Um filho de desembargador ou do empresário que cometa um crime hediondo tem menos chance de ir ao corredor da morte do que o filho da faxineira. Uma pessoa com certas “imunidades” práticas tem menos chance de receber justa sentença. Isso já é uma realidade para coisas tão “banais” quanto um “filhinho de papai” bêbado atropelar um trabalhador de bicicleta, decepando-lhe o braço e jogando no corrego, ou um delegado alcoolizado matar um advogado em uma boate.

Resumindo, se não considerarmos o ethos adventista (e friso que ele é diferente daquele de um evangélico tradicional), o porte de armas e a pena de morte seriam até uma necessidade, que são inviabilizados na prática pela ausência de uma rede de segurança social ou legal prática que coíba os excessos ou as injustiças pelo uso inadequado desses instrumentos.

Lembro, por fim, a instrução do apóstolo: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor” (Romanos 12:19).

Everton Padilha Gomes é médico cardiologista e doutor em Cardiologia pela USP

O Efeito Dunning-Kruger e a autoconfiança perigosa

Autoconfiança2Vivemos em uma época em que aparentemente as pessoas têm muita “certeza”. E é cada vez mais comum encontrar em redes sociais e em contato pessoal pessoas que conseguem dar opiniões cada vez mais incisivas sobre os mais diversos e complexos assuntos. As fontes virtuais, os mecanismos de busca fazem com que alguém sem formação necessária dê opiniões em situações tão diversas como política, tendência filosófica, indo a extremos como um tratamento médico ou até uma técnica de cirurgia.

O escritor americano Nicholas G. Carr descreveu em seu livro Geração Superficial: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros os efeitos cognitivos da exposição contínua ao mundo digital. Entre várias descrições e deduções, destaca-se uma geração que tem certeza de tudo, ao acessar as informações disponíveis na net, sem uma postura reflexiva sobre o que acessam, e ao mesmo tempo com dificuldades para se aprofundar em um assunto ou até mesmo ler um livro. É paradoxal, mas encontramos cada vez mais a situação de pessoas expressarem suas “verdades” sem nenhum embasamento científico, mas “apoiadas” por outras pessoas com a mesma vertente ou jeito de pensar sobre assuntos aparentemente tão diversos quanto o uso de inhame para “curar” dengue, zika e chikungunya; os antivacinação, com as mais diversas teorias sobre vacinas e câncer, ou vacinas e autismo; e mesmo os terraplanistas, pensamento quase inacreditável na entrada do século 21.

O mais interessante ao interagir com tais pessoas é a absoluta certeza de que estejam com a razão. E para elas, muitas vezes, não adianta pedir referências ou provas das ideias apresentadas, para não dizer das credenciais ou experiência da pessoa no assunto. Ideias superficiais alimentadas emocionalmente por pessoas sem embasamento profundo geram certezas artificiais, muitas vezes associadas até a extremos de agressividade, ao serem colocadas diante de ideias opostas.

O suco mágico da invisibilidade

Piadas e perplexidade foi a reação dos detetives de Pittsburg, pelo feito de McArthur Wheeler. Ele, com 45 anos, 1,67 m e 122 kg, roubou dois bancos na manhã de 6 de janeiro de 1996. O ladrão novato, que assaltou essas duas instituições sem o uso de disfarces nem máscaras, foi facilmente identificado no circuito de vídeo do banco. Ao ser preso, de maneira atônita, repetiu aos policiais: “Mas eu usei o suco de limão! Eu usei o suco de limão!”

Aos policiais, que não estavam entendendo nada, Wheeler relatou que um conhecido tinha lhe dado a “dica” de esfregar suco de limão no rosto, pois isso o tornaria invisível para as câmeras de segurança. Depois descobriram que o desastrado ladrão havia feito um “pré-teste” do efeito do limão na face e não havia aparecido nada. Pelo jeito ele era tão versado em técnicas de fotografia quanto de roubo…

O tal experimento, que parecia ser verdade absoluta na mente de McArthur, foi finalmente posto em terra quando mostraram os vídeos do sistema interno dos bancos, os quais mostravam perfeitamente o desajeitado ladrão anunciando o assalto, enquanto fazia caretas pela sensação de ardência que sentia ao ter suco de limão nos olhos.

Ao ver esse relato, dois psicólogos, David Alan Dunning e seu orientando de doutorado, Justin Kruger, elaboraram em 1999 o Efeito Dunning-Kruger. Esse é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados. Isso faz com que essas pessoas tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos, mas sua própria incompetência, falta de experiência ou aprofundamento em um assunto acaba restringindo esses indivíduos da habilidade de reconhecer os próprios erros. Essas pessoas sofrem de superioridade ilusória. Em outras palavras, quanto mais incompetente você é em alguma área, menos você percebe sua incompetência – e mais confiante você se sente no seu (pouquíssimo) conhecimento.

Em contrapartida, a competência real pode enfraquecer a autoconfiança. Pessoas experientes acabam achando que não são tão capacitadas assim e subestimam as próprias habilidades. Isso não é uma doença, mas um fato a que as pessoas em menor ou maior grau podem estar sujeitas. Eu mesmo, ao me formar na faculdade de Medicina, no dia seguinte ao receber meu diploma, pensava: “Olha, realmente eu sei bastante!” Hoje, passados 20 anos de formado, posso dizer que sabia muito pouco naquela época, e que, por sinal, cada dia necessito aprender mais.

Confiança em que ou em Quem?

Muito antes de Dunning e Kruger, a Bíblia já relatava os perigos da autoconfiança exacerbada: “O que confia no seu próprio coração é insensato; mas o que anda sabiamente será livre” (Provérbios 28:26). Nossa confiança, mais que experiências pessoais ou certezas tiradas de nossa ideia própria de certo ou errado (ou das centenas de fontes duvidosas existentes na internet), deve estar embasada na eterna Palavra de Deus. “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te apoies no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5).

 Em um mundo que parece ter tantas certezas, devemos buscar e permitir que somente convicções ajustadas pela comunhão espiritual verdadeira façam parte de nossas atitudes diárias.

A humildade é uma virtude cristã e nos permite contemplar os desafios da vida na certeza de que temos um guia maior. E teremos tanto mais tranquilidade quanto mais buscarmos essa verdadeira fonte da sabedoria. “Por fim, esforço-me para que eles sejam fortalecidos em seu coração, estejam unidos em amor e alcancem toda a riqueza do pleno entendimento, a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. NEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:2, 3).

Everton Padilha Gomes é médico cardiologista e doutor em Cardiologia pela USP

Referências

Carr, N. G. A Geração Superficial: o Que a Internet Está Fazendo Com Os Nossos Cérebros, WW Norton, 2010

Pittsburgh Post-Gazette, 21 mar. 1996, p. D-3

Kruger, J; Dunning D. Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology 77(6):1121-34

Por que abandonei os videogames violentos

videogameMinhas primeiras experiências com videogames datam da década de 1980. Já nos tempos do Atari, existiam jogos como Outlaw ou Combat; eram garantia de diversão por horas a fio. Nos anos 1990, entre o segundo grau e a época universitária, era famoso o jogo Castle Wolfenstein. Depois apareceram Doom e Hexen. Como cristão, eu dizia para mim mesmo que jogar esses jogos não passava de um divertimento inocente, sem maiores consequências. Na verdade, racionalizava com pensamentos associados à melhora dos reflexos, ou relaxar matando nazistas e depois monstros. É lógico, para quem conhece esses jogos, tive que começar a racionalizar um pouco mais com alguns videogames que usavam imagens de aparente magia ou monstros, que embora fossem chamados de alienígenas, eram seres muito semelhantes a demônios.

Logicamente que nunca me considerei um aficionado. Perdi muitas levas de jogos FPS, os First Person Shooter, ou jogos de Tiro em Primeira Pessoa. Também já tinha ouvido falar de matérias sobre o efeito dos jogos sobre a violência em crianças e adolescentes. Mas, para ser sincero, em muitos momentos achei até mesmo um exagero. “Sou um adulto normal, com empatia. Nunca pensei em matar ninguém. Isto não me afeta.”

Já casado, chegou um nova série chamada Bioshock. Um primor de jogo com crítica social ao trabalho de Ayn Rand. Mas uma bela desculpa para um jogo de tiro e esquartejamento. Até aí tudo aparentemente bem. Mas tinha um detalhe…

Meu filho Erick, na época com quatro anos, com a curiosidade que é peculiar a uma criança nessa idade, veio me perguntar justamente em um dia em que eu estava com um personagem principal, em um escafandro, com uma broca enorme, esquartejando inimigos que eram como se fossem semi-zumbis. “Papai, o que o senhor está fazendo com esse homem?” “Nada filho” – tentei despistá-lo… mas ao mesmo tempo comecei a sentir um estranhíssimo incômodo em fazer algo que sempre achei muito tranquilo e normal. “O senhor está fazendo um curativo nele?”

Até então, no imaginário do meu filho, ele só via o pai como um agente de saúde e cura. Sangue seria algo para ajudar a tratar ou curar alguém. Tentei ainda uma saída. “Filho, você não quer brincar no seu quarto?”, eu disse quase em um apelo. “O senhor está tirando sangue dele.” “Não, meu filho”, falei em voz baixa e encabulada, e dado por vencido. “Papai está saindo desse jogo aqui.” E assim foi a última vez que joguei um jogo de tiro.

A verdade é que ver a simplicidade das perguntas do meu filho me fez refletir que violência pode ser conteporizada, e até mesmo justificada. Mas a mente de uma criança trabalha de maneira muito direta com estímulos positivos de afeto ou negativos de violência. Ver a reação dele diante daquelas imagens que eu achava banais me fez enxergar o real impacto de tudo aquilo com que eu estava lidando e, principalmente, do exemplo que, como pai, eu tinha diante dele. O estímulo à violência em tenra idade, mesmo de forma lúdica, pode ter consequências para toda a vida.

Uma vida com videogames

Dados de Lenhart et.al., em 2008, e do NPD Group, em 2011, dão conta de que mais de 90% das crianças nos Estados Unidos brincam com algum tipo de videogame. Esse número aumenta para 97% na faixa etária entre 12-17 anos. Trabalho de 2013 (Rideout) dá conta de que uma criança de oito anos usa em média 69 minutos de console portátil, 57 minutos de jogos em computador e 45 minutos de jogos em celulares e tablets. Considerando esses números, fica clara a influência dos videogames na formação psicológica da criança. Logicamente uma das perguntas que surge é: Existe relação entre o surgimento de um comportamento violento na criança/adolescente e a exposição continuada a videogames de conteúdo violento?

A palavra dos especialistas

A American Psychological Association, em diretriz de agosto de 2015, declarou que as pesquisas demonstraram uma ligação “entre o uso violento de videogames e o aumento do comportamento agressivo […] e a diminuição do comportamento pró-social, da empatia e do comprometimento moral”.

Em sua diretriz de julho de 2016 sobre a violência na mídia, a Academia Americana de Pediatria alertou que a mídia violenta é um mau exemplo para as crianças. Os videogames – observou a academia – “não devem usar alvos humanos ou outros alvos vivos ou pontos de premiação para matar, porque isso ensina as crianças a associar prazer e sucesso à sua capacidade de causar dor e sofrimento aos outros”.

No geral, o resumo da academia dos resultados de mais de 400 estudos revelou uma ligação “significativa” entre a exposição à mídia violenta (em geral) e comportamento agressivo, pensamentos agressivos e sentimentos de raiva.

O exemplo da mídia

Temos uma “evolução” de conceitos do inimigo a ser subjugado em jogos ou aniquilado em filmes. Se antigamente o jogador enfrentava inimigos destituídos da forma humana, jogos como Grand Theft Auto, Manhunt, FreeFire ainda glamourizam um comportamento moralmente discutível. Alguns deles, com o intuito de atingir crianças com menor idade, substituem o sangue por rajadas de flores, glamourizando a morte, sem mostrar suas consequências.

Não são somente os games

Temos uma sociedade consumista na qual se descarta com facilidade o ser humano. O exemplo dado por filmes e séries de TV nutre e glamouriza a figura do “anti-herói”, aquela pessoa que antes de mais nada apresenta traços de narcisismo e egoísmo, ou que adota comportamentos moralmente deploráveis como aquele de matar ou ter um comportamento sacrílego ou abertamente do lado oculto (como vemos em séries como Constantine, Sabrina ou Lúcifer).

Somente o exemplo externo?

Temos que admitir que cada vez mais nossa sociedade contribui para os exemplos de disfuncionalidade ao os pais desistirem da educação dos filhos. Quando entregamos nossos filhos para que redes sociais, bandas de rock, séries de TV e videogames sejam os tutores morais de nossas crianças, resultados sombrios podem ocorrer, como aqueles que já têm se espalhado por aí.

Permanece como válido o conselho bíblico: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e mesmo quando for idoso não se desviará dele!” (Provérbios 22:6).

Everton Padilha Gomes é médico cardiologista e diretor do Estudo Advento

Referências

Lenhart, A., Kahne, J., Middaugh, E., MacGill, A., Evans, C., & Vitak, J. (2008). Teens, videogames and civics.Washington, DC: Pew Internet & American Life Project. http://www.pewinternet.org/files/old-media//Files/Reports/2008/PIP_Teens_Games_and_Civics_Report_FINAL.pdf.pdf.

NPD Group (2011). Kids and gaming, 2011. Port Washington, NY: The NPD Group, Inc.

Rideout, V. (2013). Zero to eight: Children’s media use in America 2013. San Francisco, CA: Common Sense Media.

American Psychological Association Resolution on Violent Games, Agosto 2015, pode ser acessado em https://www.apa.org/about/policy/violent-video-games

AAP Council on Communications and Media. Virtual Violence. Pediatrics. 2016;138(1):e20161298

Faz diferença saber exatamente quem são os 144 mil do Apocalipse?

144-milTem sido muito rica a experiência do estudo do Apocalipse neste trimestre. Destaco que esse é um conhecimento que não deve somente persistir dentro do aspecto de discussão racionalizada, mas, principalmente, entrar na questão pessoal e relacional com o nosso Deus. Grande multidão? Os 144 mil? Antes de adentrarmos propriamente nesse estudo, gostaria de colocar uma nota a mais no espírito que devemos nutrir ao estudar esse assunto.

Após a ressureição, nosso salvador Jesus estava pastoreando Seus discípulos. Era Sua terceira aparição a eles, relatada em João 21. Após uma nova experiência de milagre de pesca, e já desfrutando do resultado dessa pesca, há um diálogo entre Jesus e Pedro. Pedro, que havia traído o Mestre, estava naquele momento sendo reabilitado. Jesus disse que Pedro passaria por angústia e aflições, e que pelo seu martírio daria glória a Deus (verso 19). Naquele momento, compreendendo que veria a morte, uma curiosidade humana veio à mente de Pedro. Viu João, o discípulo amado, e perguntou: “Senhor, e quanto a ele?” Respondeu Jesus: “Se Eu quiser que ele permaneça vivo até que Eu volte, o que lhe importa? Siga-Me você” (João 21:20).

Quando adolescente, passei pelo temor de estar ou não entre os 144mil. Logicamente que temos a exortação: “Procuremos, com todo o poder que Deus nos tem dado, estar entre os 144 mil” (SDABC, v. 7, p. 1084). Essa é uma exortação, acima de tudo, de consagração ao nosso Deus. Mas devemos entender que não conhecemos os tempos nem a hora. Não sabemos se estaremos na grande tribulação final ou se estaremos vivos sem passar pela morte. Desse modo, embora seja interessante questionar quem estará ou não entre os 144 mil, a ênfase no nosso estudo deve ser: Senhor, estando ou não entre os 144 mil, eu Te seguirei.

Existe aqui um segundo ponto de discussão na Lição da Escola Sabatina desta semana: Em que sentido os 144 mil não se macularam com mulheres? Como a pureza de seu caráter se relaciona com o fato de que eles são redimidos da Terra como “primícias para Deus” (Ap 14:4). Vou começar de trás para a frente na pergunta, pois o primeiro ponto (serem castos ou virgens) talvez seja o de maior reflexão. Então, vejamos a questão das primícias.

Primícias eram os melhores frutos da colheita. Em Apocalipse são um grupo especial que foi trasladado sem experimentar a morte (1Co 15:50-52): “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” São os primeiros frutos da maior colheita de salvos (Ap 14:14-16).

E sobre a virgindade? Entendemos que esse grupo não participou da infidelidade de Babilônia. Agora, o que significa isso? Sabemos que os 144 mil não passarão pela morte. Mais ainda, Ellen White descreve em Eventos Finais, pagina 182, o seguinte: “Alguns tinham sido arrojados fora do caminho. Os descuidosos e indiferentes, que não se uniam com os que prezavam suficientemente a vitória e a salvação, para por elas lutar e angustiar-se com perseverança, não as alcançaram e foram deixados atrás, em trevas, e seu lugar foi imediatamente preenchido pelos que aceitavam a verdade e a ela se filiavam” (Primeiros Escritos, p. 271 [Eventos Finais, p. 182.1]).

“Os lugares vagos nas fileiras serão preenchidos pelos que foram representados por Cristo como tendo chegado na hora undécima. Há muitos com quem o Espírito de Deus está lutando. O tempo dos juízos destruidores da parte de Deus é o tempo de misericórdia para aqueles que [agora] não têm oportunidade de aprender o que é a verdade. O Senhor olhará para eles com ternura. Seu coração compassivo se enternece, e a mão do Senhor ainda está estendida para salvar, enquanto a porta é fechada para os que não querem entrar. Será admitido um grande número de pessoas que nestes últimos dias ouvirem a verdade pela primeira vez” (Carta 103, 1903 [Eventos Finais, p. 182.2]).

Entendo que virgindade aqui simboliza fidelidade dentro daquilo que Deus estabelece. E aqui cabe um adendo: existem pessoas que neste momento não fazem parte das fileiras da igreja, mas que agem com pureza de coração, sem reservas, diante da luz que receberam. Por outro lado, devemos vigiar e orar. Muitas vezes, mesmo tendo acesso a uma luz mais completa, permitimos que ideias do mundo – daquilo que é pensamento próprio, não exalado das Escrituras, ou o pensamento reinante do mundo – contamine nossas percepções ou convicções.

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

Perceba que se sua convicção religiosa não for maior que seus outros valores pessoais, esses valores acabarão por retirá-lo do caminho de Jesus. Já vi pessoas se desviarem completamente do caminho por questões em que a convicção pessoal dos valores atuais, do socialmente aceitável ou politicamente correto, em que os valores e amores deste mundo, sejam política (esquerda ou direita), bandeiras raciais, de gênero ou a mera ausência do prestígio social ou econômico que gostariam de ter advindo de sua participação religiosa na igreja, acabaram por dar entrada a valores, ideias e convicções que afastam definitivamente do são caminho.

Entendo que estamos em tempo de graça, e que a misericórdia de Deus está aberta para todos nós hoje. Entretanto, a descrição e o chamado de selamento aos 144 mil inclui implicitamente um apelo à santidade e consagração ao Senhor a cada dia. Que o Senhor nos abençoe e nos habilite a cada dia a viver de acordo com a guia do Espírito Santo e a disposição dos 144 mil descritos no livro do Apocalipse.

Quando eu era criança, a primeira vez que li o texto: “Estes são os que não se macularam com mulheres, porque são virgens. São os que seguem ao Cordeiro aonde quer que vá. Foram comprados dentre todos os seres humanos e foram os primeiros a ser oferecidos a Deus e ao Cordeiro” (Apocalipse 14:4), achei muito estranho. Alguma coisa passou pela minha cabeça, tipo: “Pobres coitados: além de não poderem casar, ainda nem vão poder ir para onde querem?” E essa incompreensão minha de garoto talvez seja a mais sem sentido e boba que você tenha ouvido falar, mas existem muitas outras sobre os 144 mil.

Seja qual for a sua dúvida sobre o assunto, eu gostaria de deixar uma certeza: acompanhar o Cordeiro por onde Ele vá não é uma consequência de fazer parte dos 144 mil, e sim a sua maior causa. Os 144 mil seguem o Cordeiro a cada dia. Em seus hábitos, pensamentos, suas prioridades enquanto ainda estão aqui na Terra.

Quantos hinos de batismo começam justamente com essa premissa? “A Jesus seguir eu quero, Tu morreste foi por mim. Mesmo que Te neguem todos, eu Te sigo até o fim.” “Minha cruz eu tomo e sigo, a Jesus eu sempre sigo; aonde for a Ele eu sigo; seguirei a meu Jesus.” Estão essas frases fazendo ainda sentido na sua vida? Lembre-se: seguir o Cordeiro pela fé é:

– Continuar confiando, mesmo quando o mundo diz que não vale a pena.

– Continuar seguindo, mesmo quando as pessoas ao redor lhe mostrem outro caminho.

– Seguir acreditando, mesmo quando as convicções de parentes, amigos, do professor ou orientador, ou da pessoa que você ama, dizem que não vale a pena.

– Seguir vivendo a vida cristã, até nos momentos em que você parece ir na contramão da sociedade.

Que Deus ilumine a todos e nos dê alento, forças e fé para continuar seguindo o Cordeiro.

Oremos: “Pai Eterno, obrigado pela redenção em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador. Queremos seguir Jesus, nosso Cordeiro, a cada dia, até a Sua volta. E mesmo lá no Céu continuar seguindo ao Autor e Consumador da nossa fé!”

Everton Padilha Gomes é médico e doutorando em Cardiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo