Progressista ou conservador? Depende

Há um problema com os rótulos que usamos para classificar ideias. Especialmente quando usamos categorias da teologia para classificar fenômenos políticos. De maneira descuidada e equivocada aplicamos “liberal”, “progressista” e “conservador” em contextos em que não cabem. E a confusão é ampliada quando confundimos a visão teológica com a social/política. Por exemplo, quando descrevemos um “cristão progressista” como alguém que é progressista nos dois sentidos (teologicamente e política/socialmente), cometemos um erro, pois existem cristãos teologicamente conservadores que se identificam politicamente com o progressismo.[1] Portanto, vamos dividir o assunto em dois tópicos: teologia e política, e vamos começar falando de teologia.

O que é a Teologia Progressista[2]

A atual Teologia Progressista é descendente da antiga Teologia Liberal.[3] Apesar de não serem sinônimas, há muitas semelhanças entre elas. O liberalismo teológico é um fenômeno dos séculos 18 e 19, e alguns pontos que o caracterizam são: ênfase antropocêntrica, crença no progresso humano, crítica ao dogmatismo e à “bibliolatria”. Mas a principal característica da teologia liberal é não ver a Bíblia como Palavra de Deus (ela apenas contém as palavras de Deus). A Bíblia seria apenas o registro das experiências religiosas de pessoas.[4]

A Teologia Progressista herdou essa característica liberal, e afirma que “a Bíblia não é a Palavra de Deus”, mas é o leitor quem define o que pode ser considerado Palavra de Deus na Bíblia. Por isso, ela pode ser colocada ao lado de “todos os outros livros interessantes que procuramos para obter insight, prazer e desafio”, e a vida ética não depende da Bíblia para ser definida.[5] A Bíblia é fruto de manobras políticas e infectada pelo patriarcado,[6] por isso ela é “perigosa para a nossa saúde”.[7] Portanto, a Bíblia deve ser lida com suspeita. De acordo com uma teóloga progressista: “Meu trabalho é desconstruir […] a Bíblia como a palavra de Deus. Eu digo: não é a palavra, é uma palavra humana.” A Bíblia deve ser vista como “a produção literária de uma época”, “e não como ‘palavra de Deus’”, nem como “a voz de Deus”. É um amontoado de textos contraditórios sem nenhuma meta-narrativa como moldura.[8]

O liberalismo e o progressismo evitam referências ao elemento divino da Bíblia, e tendem a negar a veracidade dos milagres e relatos sobrenaturais, explicando-os “cientificamente”, ou encarando-os como mitos, metáforas, alucinações. Essa abordagem ficou conhecida como “Método Histórico-Crítico” (ou “Alta Crítica”). A postura hermenêutica progressista pode ser resumida assim: “Há mais valor em questionar com a mente aberta e o coração aberto do que em absolutos ou dogmas.” O progressismo “leva a Bíblia a sério, mas não necessariamente literalmente, adotando um entendimento mais interpretativo e metafórico”.[9]

O liberalismo e o progressismo consideram o pecado apenas como fraqueza moral, e são otimistas com relação ao ser humano, crendo que “a transformação do caráter vem por meio de alguma bondade natural que só precisa ser afirmada e liberada”.[10] A redenção vem por meio de revoluções culturais, e o futuro juízo divino perde importância. Por isso alguns progressistas são universalistas (a crença de que todos serão salvos), colocando o conceito de “amor” como uma norma superior à Bíblia.[11] Um subproduto do liberalismo foi o “evangelho social”, a crença de que o engajamento em questões sociais, em vez de credos e doutrinas, é o que provocaria a transformação radical da sociedade, e abriria caminho para o reino vindouro.[12] E essa é uma característica marcante do progressismo teológico também.

Na visão teológica progressista, as várias representações de Deus na Bíblia refletem as opiniões particulares dos autores bíblicos. Por isso a doutrina da propiciação é rejeitada, e a doutrina da expiação é alterada: “Não há poder no sangue de Jesus”, e “a ideia de que Jesus foi enviado por Deus como sacrifício não vem dos Evangelhos, mas de São Paulo”. Atribui a Paulo a ideia de que “só podemos nos tornar justos diante de Deus especificamente por causa da morte de Jesus”, e conclui que “isso coloca Deus como um sádico, que enviou seu amado Filho à morte”. A doutrina da expiação “é repugnante porque se baseia na vitória através da morte violenta”.[13] A centralidade da cruz é criticada, porque promove a violência e o abuso, um “abuso infantil cósmico” em que o “pai permite, ou mesmo inflige a morte de seu único filho perfeito”.[14]

Também são fruto do liberalismo a ênfase no “Jesus histórico”, um grande homem, crucificado apenas por desafiar o sistema, como um martírio histórico de um revolucionário. Jesus não é um salvador que morre para salvar, mas um professor de justiça social e compaixão. E Jesus não é mais “a única maneira válida ou viável de se conectar a Deus”.[15] A morte de Jesus é interpretada livremente à luz das atuais disputas ideológicas. Na cristologia progressista, Jesus não revela um “Deus teísta”, mas um Deus que “é a experiência da vida, do amor e do ser”.[16] Algumas versões do progressismo questionam a doutrina da Divindade em três pessoas, e outras adotam o Teísmo Aberto.

O progressismo teológico também apela para a “ciência” a fim de questionar, relativizar ou negar “as alegações clássicas do cristianismo”,[17] mantendo o mito do conflito entre ciência e religião (alimentado por uma visão progressista da História). A Teologia Progressista conserva os pressupostos científicos críticos da Teologia Liberal e do Método Crítico-Histórico, também mantidos pela Teologia da Libertação, e pelas Teologias Contextuais engajadas (Feminista, Indígena, Negra, Mulherista, Queer, etc). Leonardo Boff, nome importante da Teologia da Libertação, afirma que “a Bíblia não é a Palavra de Deus num sentido objetivo, nem o sistema de uma doutrina de fé. É o resultado da história e da pregação da cristandade primitiva”.[18] Essas teologias têm basicamente as mesmas pressuposições sobre a Bíblia, e diferem entre si apenas em seus objetivos e ênfases. De maneiras diferentes, enfatizam que o cristianismo precisa ser revisto doutrinariamente, e sua nova versão precisa admitir que a Bíblia é “um documento humano”; Deus é “um conceito humano”; e Jesus é “um ser humano”.[19]

Gretta Vosper, pastora e fundadora do Centro Canadense de Cristianismo Progressista, afirma que, para sobreviver, a igreja cristã deve modificar radicalmente suas doutrinas. Ela escreveu um livro intitulado Com ou Sem Deus: Por que a maneira como vivemos é mais importante do que aquilo em que acreditamos?, no qual escreve que “deus é o que existe entre duas pessoas”, “deus é tudo o que há de bom no mundo”, “um ser cósmico que não existe”. O Cristianismo Progressista mais radical “inclina-se mais para o panenteísmo do que para o teísmo sobrenatural”.[20] Gretta acabou se declarando ateísta, e continuou pastoreando a Igreja Unida do Canadá.

Levados seriamente às últimas consequências, os argumentos da Teologia Progressista são semelhantes aos da “espiritualidade ateísta”, ou da “espiritualidade humanista”, pois trata-se de uma espiritualidade centrada no homem. Por isso, o ateísmo é visto como a consequência natural de se levar a sério a Teologia Progressista, mesmo na opinião de ateus.[21]

O que é a teologia conservadora

Basicamente, é conservadorismo teológico acreditar na Bíblia como Palavra de Deus, inspirada e infalível, na literalidade histórica da Criação, dos milagres registrados na Bíblia, do nascimento virginal, da ressurreição e da volta literal de Jesus no futuro, acompanhada pela ressurreição e pelo arrebatamento dos salvos.[22]

O método histórico-gramatical da Reforma Protestante, e não o histórico-crítico da Teologia Liberal, é a abordagem usada pela “erudição evangélica conservadora”.[23] Em 1986 a Igreja Adventista do Sétimo Dia rejeitou oficialmente o método histórico-crítico, no documento Métodos de Estudo da Bíblia. Ellen White condenou o método crítico-histórico (ela chama de “alta crítica”): “A obra da alta crítica, dissecando, conjeturando, reconstruindo, estava destruindo a fé na Bíblia como uma revelação divina; estava despojando a Palavra de Deus do poder de dirigir, enobrecer e inspirar as vidas humanas.”[24]

É nesse sentido que os adventistas são “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”. Por isso, o cerne do conservadorismo adventista é o princípio protestante radical Sola Scriptura, e não o tradicionalismo nem a experiência cristã. Teologicamente, conservadorismo não é tradicionalismo. O tradicionalismo pode até representar um distanciamento da ortodoxia doutrinária: “O erro tira sua vida da verdade de Deus. As tradições dos homens, como micro-organismos que pairam no ar, agarram-se à verdade de Deus, e os homens as consideram como parte da verdade.”[25] O tradicionalismo e o liberalismo teológico podem igualmente “destruir a fé nas Escrituras” e “levar as pessoas para caminhos proibidos”.[26] Ellen White sugere que “a fé na Bíblia hoje [é] destruída tão eficazmente pela alta crítica e as especulações, como o era pela tradição […] dos dias de Jesus”.[27]

O princípio Sola Scriptura coloca a Bíblia acima da tradição: “Os discípulos deviam ensinar o que Cristo ensinara. O que Ele falara, não só em pessoa, mas através de todos os profetas e mestres do Antigo Testamento, aí se inclui. É excluído o ensino humano. Não há lugar para a tradição, para as teorias e conclusões dos homens, nem para a legislação da igreja. Nenhuma das leis ordenadas por autoridade eclesiástica se acha incluída na comissão.”[28] Assim, é possível alguém se declarar teologicamente “conservador”, mas ser de fato apenas tradicionalista, e viver exatamente como um liberal, desprezando a autoridade das Escrituras.

A IASD é teologicamente conservadora

O Tratado de Teologia (CPB) afirma que os adventistas são “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”, cuja fé está “embasada na Bíblia e centralizada em Cristo”.[29] George Reid descreve como “conservadora” a posição teológica protestante que mantém a Bíblia como a autorizada Palavra de Deus. O livro A Symposium on Biblical Hermeneutics, publicado pela IASD, afirma que, teologicamente, “denominações inteiras podem estar dentro da estrutura conservadora – como é o caso, por exemplo, dos adventistas do sétimo dia”.[30] O livro Interpretando as Escrituras expõe a compreensão adventista de alguns temas bíblicos, e argumenta sob uma perspectiva teológica conservadora,[31] rejeitando a visão liberal.[32]

Apesar da ambiguidade e da má compreensão, os termos técnicos “liberal” e “conservador” ainda são úteis, e não precisam ser usados em tom pejorativo. No sentido técnico, são termos usados na literatura teológica porque conseguem descrever razoavelmente algo que temos dificuldade de descrever de outra forma.[33] Teologicamente, liberal ou conservador não têm necessariamente que ver com costumes, comportamentos, etc., mas têm que ver, principalmente, com a opinião que se tem a respeito da Bíblia como Palavra de Deus inspirada e infalível. Por isso, apesar de manterem crenças peculiares, os adventistas são teologicamente conservadores.[34]

Entre os adventistas, há o chamado “Adventismo Progressista” (Progressive Adventism), uma forma particular de progressismo teológico, que não defende necessariamente todas as pautas teológicas do Progressismo descrito aqui. O Adventismo Progressista, em geral, é definido mais por suas crenças doutrinárias alternativas dentro do adventismo: a negação do “juízo investigativo” (ou “juízo pré-advento”), um conceito diferente do que seria o “remanescente”, a relativização (e até mesmo negação) do dom profético de Ellen White, a rejeição do sábado como selo de Deus (apesar de reconhecer benefícios em sua observância). Ou seja, mesmo nesse sentido particular, o “Adventismo Progressista” também pode alterar ou negar crenças fundamentais do adventismo.

Como teologia e política são áreas distintas, ser teologicamente progressista não é necessariamente ser social/politicamente progressista. Essa distinção é importante, pois muitas discussões perdem o sentido quando teologia e política são avaliadas em conjunto, como se fossem a mesma coisa. Agora vamos falar de “progressismo” e “conservadorismo” no sentido político/social.

Progressismo e conservadorismo político/social

Politicamente, o progressismo é uma visão originada no Iluminismo, que acredita na melhoria da condição humana por meio de medidas econômicas, da educação, e também da ruptura de padrões sociais tradicionais considerados prejudiciais. Em comparação com o conservadorismo, o progressismo prefere mudanças sociais mais rápidas (por isso, o pensamento revolucionário geralmente se identifica com o progressismo), e, em geral, vê o Estado como um dos principais agentes dessas mudanças. O conservadorismo preza pelas mudanças graduais do que é ruim, e a manutenção do que é bom, do que resistiu ao teste do tempo. Apesar de frequentemente associado à esquerda política, o progressismo também pode ser encontrado entre politicamente liberais de direita, especialmente na pauta de costumes.[35]

Por sua vez, o conservadorismo é uma política de prudência,[35] uma mentalidade representada por autores como Russell Kirk, Edmund Burke, Michael Oakeshott e Roger Scruton. David Koyzis avalia várias ideologias e posicionamentos (liberalismo, conservadorismo, nacionalismo, democracia, socialismo), e afirma que, teoricamente, o conservadorismo não possui ligação com qualquer religião em particular, mas reconhece que a maioria dos conservadores do mundo ocidental é cristã.

Koyzis alerta para o risco de se confundir cristianismo com conservadorismo político, como se fossem sinônimos. O conservadorismo, como teoria política, não tem nada de intrinsecamente cristão: ser cristão não é algo exigido pelo pensamento conservador, e por isso existem ateus conservadores. Num sentido político, o conservadorismo cristão pode se transformar “numa forma irracional de nacionalismo ‘por Deus e pela pátria’”.[36]

Ao confundir “conservadorismo teológico” com “conservadorismo político”, ou, pior, com “tradicionalismo religioso”, corremos o risco de rebaixar a Bíblia, assim como a teologia liberal o faz. Existem “conservadores políticos” e “tradicionalistas religiosos” promovendo profundas revisões teológicas e doutrinárias, mas recebendo erradamente o rótulo de “teologicamente conservador”. Não importa o nome que se dê ou a aparência que tenha – se diminui, relativiza, despreza ou combate a Bíblia, está do lado errado, mesmo que tenha aparência ortodoxa.

Portanto, a visão teológica não está necessariamente ou totalmente vinculada à visão política, e é possível um cristão ser teologicamente conservador e manter visões progressistas a respeito de temas sociais que não firam princípios bíblicos. Por outro lado, é possível alguém ter uma visão política conservadora e, ao mesmo tempo, ter uma visão liberal/progressista da Bíblia, ou até mesmo ser um descrente (existem conservadores ateus).

Visões teológicas e políticas podem ser diferentes

Existem aqueles que são conservadores ou progressistas, tanto no sentido teológico quanto no sentido social/político. No Brasil, é crescente o fenômeno do “evangélico progressista” (tanto teológica quanto politicamente).[37] Mas é necessário reconhecer que a defesa da autoridade das Escrituras não está atrelada a nenhuma visão política/social específica. Como afirma Augustus Nicodemus, “há quem seja de esquerda na política, mas com posições conservadoras em pontos éticos, repudiando a teologia liberal”.[38]

 Como vimos, há um largo espectro de crenças debaixo do guarda-chuva que se chama “progressismo teológico”, e é quase certo que nenhum progressista mantenha todas as crenças teológicas descritas aqui. Esse é um ponto importante: não basta olhar o rótulo, precisamos conversar com as pessoas para descobrir quais são de fato suas crenças.

Enquanto na teologia a classificação é mais clara e estática, o discurso político não é inflexível: há progressistas que não se identificam com a esquerda política, e existe até mesmo o “conservadorismo progressista”. Além disso, os rótulos mudam de sentido com o tempo. Por exemplo, no século 19, muitas pautas defendidas pelos pioneiros adventistas eram vistas como socialmente progressistas (a reforma educacional, o abolicionismo, liberdade religiosa, etc). Algumas igrejas socialmente conservadoras proibiam mulheres de falar em público. Ou seja, ao falar em público, Ellen White estava assumindo uma postura considerada socialmente progressista na sua época. Ao defender a desobediência civil no caso da Lei do Escravo Fugitivo, ela também adotou uma postura considerada socialmente progressista para sua época. Por outro lado, a avaliação negativa que Ellen White faz da Revolução Francesa em O Grande Conflito parece refletir o ponto de vista do conservadorismo político em alguns pontos.

Como diz George Knight, o adventismo pode desempenhar, ao mesmo tempo, funções conservadoras e revolucionárias: “[…] deve ser conservadora ao transmitir as verdades imutáveis da Bíblia ao longo do tempo, mas assumir o papel revolucionário ao desempenhar a função de agente de mudanças a serviço de um Deus justo em um mundo de pecado.”[39] Ou seja, teologicamente conservadora e socialmente “revolucionária”.

Uma pesquisa de 2015 mostrou que os adventistas dos Estados Unidos continuam majoritariamente conservadores em teologia, mas progressistas em muitos temas políticos e sociais – uma comprovação de que a visão teológica nem sempre coincide com a visão social/política.

Em resumo: fique atento à teologia, e não confunda os conceitos. Apesar de conservadorismo e progressismo serem dois extremos, Koyzis afirma que, “para o cristão dotado de discernimento, o progresso e a preservação andam lado a lado” e “não são escolhas mutuamente exclusivas”.[40] É possível ser teologicamente conservador e socialmente progressista. Assim como é possível alguém ser socialmente conservador e economicamente liberal.

Mas será que é prudente um cristão se identificar politicamente como “conservador” ou “progressista”? Diante de tanta confusão, vale a pena correr o risco de ser associado a pautas e posturas que não resistem ao exame bíblico? Se a resposta for positiva, então o cristão genuíno precisa deixar sua posição teológica clara, visto que nem sempre as pessoas sabem distinguir posições políticas de posições teológicas. Sabendo do potencial divisivo dos debates políticos, Ellen White diz ao cristão adventista: “Enterre as questões políticas” e busque “unidade nos puros princípios evangélicos que são positivamente revelados na Palavra de Deus”.[41] A teologia tem primazia.

Nenhum dos grandes “pacotes ideológicos” que disputam o controle do país hoje parece representar os valores bíblicos. Assim, a avaliação teológica deve ser constante e rigorosa. Precisamos desenvolver uma mente cristã, ao invés de continuar ingenuamente “batizando” sistemas seculares. A diversidade de pensamento é sempre bem-vinda, mas, quando se trata de teologia, temos uma posição clara e definida: a Bíblia é (não apenas contém) a Palavra de Deus, inspirada, infalível, nossa única regra de fé e prática.

Teologicamente, o progressismo representa um ataque aberto contra muitas das verdades bíblicas que fomos chamados a proclamar. Nesse ponto, mesmo com o risco das ambiguidades, a IASD faz bem em continuar se descrevendo teologicamente como “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”, cuja fé está “embasada na Bíblia e centralizada em Cristo”.[42]

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia [Novo Testamento], mestre em Teologia [estudos de texto e contexto bíblicos] e especialista em Ensino Religioso e Teologia Comparada)

Referências:

  1. “Há quem seja de esquerda na política, mas com posições conservadoras em pontos éticos, repudiando a teologia liberal” (Augustus Nicodemus, O que Estão Fazendo com a Igreja).
  2. Como não existe uma fonte oficial que defina o que é o Cristianismo Progressista, o que fizemos neste texto foi um apanhado de autodescrições de autores assumidamente progressistas e representativos.
  3. O liberalismo teológico está na matriz de muitas teologias ao longo da História: o Evangelho Social, a Teologia da Libertação, e as teologias contextuais engajadas (negra, feminista, queer, etc.)
  4. Tratado de Teologia, p. 58.
  5. Gretta Vosper, With or Without God, p. 221, 222.
  6. Kathryn Greene-McCreight, Feminist Reconstructions of Christian Doctrine, p. 39.
  7. Elisabeth Schüssler-Fiorenza, The Will to Choose or to Reject, p. 130.
  8. Alicia Ostriker, Feminist Revision and the Bible, p. 86.
  9. Roger Wolsey, Kissing Fish: Christianity for people who don’t like christianity, p. 64.
  10. Tratado de Teologia, p. 757, 758.
  11. Tratado de Teologia, p. 941.
  12. Tratado de Teologia, p. 637.
  13. Mary Grey, Redeeming the Dream, p. 124, 125.
  14. Rita Nakashima, Journeys by Heart, p. 56.
  15. Kissing Fish, p. 64.
  16. John Shelby Spong, Jesus for the Non-Religious, p. 248.
  17. With or Without God, p. 37.
  18. Leonardo Boff, Igreja, Carisma e Poder, p. 128.
  19. With or Without God, p. 217-244.
  20. Kissing Fish, p. 64.
  21. Alex McCullie, “Progressive Christianity: A Secular Response”, in Warren Bonett (ed), The Australian Book of Atheism (Melbourne: Scribe, 2010), 211.
  22. Tratado de Teologia, p. 414.
  23. Tratado de Teologia, p. 103.
  24. Educação, p. 227.
  25. Evangelismo, p. 589.
  26. Atos dos Apóstolos, p. 265.
  27. Ciência do Bom Viver, p. 142.
  28. Evangelismo, p. 15.
  29. Tratado de Teologia, p. 1.
  30. A Symposium of Biblical Hermeneutics, p. 90.
  31. Interpretando as Escrituras, p. 22, 40, 192.
  32. Interpretando as Escrituras, p. 50.
  33. Hoje, por exemplo, já se fala em “pós-liberalismo” e “pós-conservadorismo”.
  34. Existem classificações alternativas. Por ex.: Kwabena Donkor classifica a teologia adventista como “biblico-historical realism”. Mas, no geral, o adventismo é considerado teologicamente conservador <https://bit.ly/2CPKhk4>
  35. Norberto Bobbio, Dicionário de Política, p. 243.
  36. Russell Kirk, The Politics of Prudence, p. 1-14.
  37. David Koyzis, Visões e Ilusões Políticas, p. 110.
  38. Como, por exemplo: < https://bit.ly/3jiZMlp>; <https://bit.ly/3eGVvot>; <https://bit.ly/2OzSFa6>; <https://bit.ly/2DRe78o>.
  39. Augustus Nicodemus, O que Estão Fazendo com a Igreja.
  40. George Knight, Educando para a Eternidade, p. 143.
  41. Visões e Ilusões Políticas, p. 112.
  42. Obreiros Evangélicos, p. 391.
  43. Tratado de Teologia, p. 1.

Não seja fã nem despreze: analise ideias

“Há […] um argumento mais genérico contra a reverência, dirija-se ela aos gregos ou a outrem. Quando se estuda um filósofo em particular, a postura correta a ser adotada não é nem de reverência, nem de desprezo. [1] Deve-se iniciar com uma espécie de simpatia hipotética, até que seja possível descobrir como é acreditar em suas teorias; somente então é que renascerá a [2] atitude crítica, uma atitude que deve se assemelhar, na medida do possível, ao estado de espírito de alguém que abandona as opiniões até então defendidas. O desprezo prejudica a primeira parte desse processo; a reverência, a segunda.

“Duas coisas devemos ter em mente: que aquele cujas opiniões e teorias são dignas de estudo supostamente foi homem de certa inteligência; e que é improvável que alguém tenha chegado à verdade definitiva e integral de algum assunto. Quando alguém inteligente nos expressa uma visão que nos parece obviamente absurda, não devemos tentar demonstrar que essa visão é de alguma forma verdadeira, e sim compreender de que modo ela passou a parecer veraz. Esse exercício de imaginação histórica e psicológica amplia o escopo de nosso pensamento e nos ajuda a perceber quão tolos muitos dos preconceitos que nos são caros parecerão a uma época de diferente temperamento.”

(Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, v. 1)

Nota: Aplique esse raciocínio não apenas a filósofos, mas também a políticos, pregadores, videopregadores, professores, teólogos, líderes religiosos e outros. Endeusar pessoas só prejudica a análise racional das ideias que elas defendem. Seja sempre um bereano e saiba que a verdade sempre prevalece. [MB]

Videoaulas sobre o engano das falácias

Isaac & Charles: O mal é uma construção humana?

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Marxismo e cristianismo são incompatíveis

Captura de Tela 2018-06-20 às 13.08.06O mês de maio deste ano marcou os 200 anos do nascimento, na antiga Prússia, do filósofo Karl Marx (1818-1883), considerado o idealizador do que se conhece hoje como marxismo. Marx foi autor de duas obras muito conhecidas, O Manifesto Comunista (1848) e O Capital (1867-1894), que dão sustentação teórica para suas ideias. Para entender qual a relação dessa cosmovisão com a narrativa bíblica, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com o doutor em Sociologia Thadeu Silva.

Historicamente, Karl Marx teorizou sobre a Economia (na famosa obra O Capital) e advogou a ideia de que o progresso da sociedade se dá essencialmente por meio da luta de classes e que há sempre a figura de quem domina e quem é dominado nesse contexto. A que se deve o fato de suas obras ainda terem tanta repercussão, inclusive fora da Economia?

Sem dúvida nenhuma, deve-se a uma combinação de temas que tocam a emancipação do homem, teorias aparentemente verdadeiras e acessíveis a pessoas não especialistas, escritas em linguagem simples e difundidas por pessoas influentes, principalmente professores universitários.

Os temas de Marx tocam vários campos do conhecimento além da Economia. Um apanhado exemplar é o primeiro capítulo de O Capital, intitulado A Mercadoria, em que abre sua maior obra com quatro pilares do seu pensamento: diz que a unidade básica do mercado (a mercadoria) é, na verdade, a concretização das relações sociais injustas do capitalismo; diz que o valor de uma mercadoria é definido pelo trabalho; afirma que o trabalho foi explorado e subordinado pelo capital a ponto de reduzir o homem à condição de coisa e  argumenta que o mundo religioso é somente um reflexo do que é o mundo real.

[Continue lendo.]

“Nem à esquerda, nem à direita”, explica doutor em Sociologia

thadeuA crescente discussão, amplificada pelas mídias sociais, sobre direita e esquerda, é intensa nos meios cristãos e tem gerado uma imediata polarização. De um lado, os que defendem determinada ideologia considerada de esquerda e, de outro, os que defendem ideais atribuídos a um conceito de direita. A Agência Adventista Sul-Americana (ASN) resolveu conversar sobre essa temática com Thadeu de Jesus e Silva Filho, bacharel, mestre e doutor em Sociologia e atual diretor de Arquivo, Estatística e Pesquisa da sede sul-americana adventista.

Hoje se discute muito no mundo inteiro a polarização entre os que defendem ideologias ditas de esquerda e de direita. Sob o ponto de vista sociológico, o que essa polarização significa e mesmo esses dois lados como podem ser compreendidos?

O início do debate político “direita x esquerda” tem data, lugar e cenário conhecidos: fim do século XVIII na França, momento conhecido como Revolução Francesa. Tão logo foi instaurada a assembleia constituinte de 1789, os favoráveis à manutenção do poder do rei sentaram do lado direito do presidente para não se misturarem aos adeptos à revolução, fazendo com que o lado esquerdo do parlamento passasse a ser o lugar da causa dos menos favorecidos e que precisam quase que completamente do atendimento do Estado, e o direito, o de manutenção da situação de elitismo.

[Continue lendo e compreenda as implicações dessas ideias na igreja.]

Cristãos são cada vez mais influenciados por ideias não bíblicas

marxUma nova pesquisa revela o aumento da influência de crenças não cristãs na mentalidade dos cristãos praticantes, com grandes porcentagens deles concordando com ideias que contrariam as Escrituras. O levantamento realizado pelo Instituto Barna, em cooperação com Summit Ministries, foi divulgado nesta semana. Ele mediu o quanto as crenças centrais de outras visões de mundo, como nova era, secularismo, pós-modernismo e marxismo, afetaram a maneira com que os cristãos veem o mundo. “Sua influência generalizada sobre o pensamento cristão é evidente, incluindo ideias de religiões concorrentes”, afirma o relatório. Ao todo, 1.456 cristãos praticantes foram confrontados com uma série de afirmações e precisavam dizer se concordavam ou não com elas. Por exemplo, 61% dos entrevistados concordavam com pelo menos um dos ensinamentos da nova era. Quase 30% concordaram que “todas as pessoas rezam/oram ao mesmo deus ou espírito, não importa o nome que deem a ele”. Cerca de um terço das pessoas também disse acreditar que “o significado e o propósito da vida é se tornarem um com o universo”.

A influência dessas filosofias pagãs também está presente nas questões éticas apresentadas aos cristãos, sendo que 32% acreditam em alguma forma de “reciprocidade ou karma”. Eles disseram concordar com a afirmação “se você fizer o bem nesta vida, receberá o bem, e se você fizer algo ruim, receberá algo ruim”. Embora apele para um senso de justiça, isso não é ensinado nas Escrituras.

A pesquisa também apresentou frases que afirmam o pós-modernismo, o secularismo e o marxismo. Quando perguntados, os cristãos mostraram concordar com muitas delas. Em geral, 54% concordaram com alguns pontos de vista pós-modernistas, 36% aceitaram ideias apregoadas pelo marxismo e 29% disseram acreditar no que ensina o secularismo. Por exemplo, 10% dos cristãos disseram acreditar na percepção secular de que “toda crença precisa ser comprovada pela ciência para determinar que ela é verdadeira”. Já a afirmação pós-moderna “o que é moralmente certo ou errado depende do que cada indivíduo acredita” é compartilhada por 23% dos cristãos entrevistados. Ao mesmo tempo, 19% dizem que “ninguém sabe ao certo qual é o sentido da vida”.

Outros 11% concordaram com a declaração marxista: “A propriedade privada encoraja a ganância e a inveja”, e outros 14% dizem crer que “o governo e não os indivíduos deveria controlar os meios de produção e os recursos”. Apenas 17% dos cristãos mostraram ter uma visão bíblica sobre a vida, de acordo com o que ensina a Bíblia.

Brooke Hempell, vice-presidente de pesquisas do Instituto Barna, revela que há tempos eles vêm detectando uma tendência que agora se confirma. “Essa pesquisa cristaliza o que já era percebido, incluindo um aumento do pluralismo, do relativismo e do declínio moral, até mesmo entre os membros das igrejas. No entanto, não deixa de ser surpreendente como essas crenças estão enraizadas.”

“As pessoas podem se agarrar e até defender essas ideias sem perceber que elas são distorções das verdades bíblicas”, observou Hempell. “O desafio para a igreja, em especial os líderes e mestres, é ajudar os cristãos a perceber que essas crenças populares não deveriam substituir o que as Escrituras dizem.”

A tendência de que esse tipo de influência continuará crescendo pode ser vista pelo fato de que os mais jovens – menos de 25 anos – são oito vezes mais propensos a concordar com essas ideias que seus pais.

(Gospel Prime)

Nota: O texto de Oseias 4:6 é mais verdadeiro do que nunca: “O Meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento.” Os cristãos caem nos engodos gestados pelo inimigo de Deus justamente porque não mais estudam a Bíblia como deveriam. Vivem uma religião emocionalista, quase mística, sem lastro nas Escrituras Sagradas. Apenas usam a Bíblia como uma espécie de amuleto ou a carregam para a igreja, levando-a de volta para casa, onde fica estacionada na estante ou sobre o criado mudo – tão muda quanto esse criado. É uma armadilha satânica: enquanto essas pessoas se sentem bem por crerem que são cristãs, vivem como se não fossem e carecem de uma visão bíblica que as ajudaria a identificar as armadilhas ideológicas espalhadas por aí. Evolucionismo, espiritualismo e marxismo são incompatíveis com a Bíblia. Na verdade, o que há de bom nessas filosofias é exatamente o que há de bom no cristianismo, como a pregação do amor ao próximo e a ideia de que todos, embora sejam diferentes, têm direitos iguais perante Deus, por exemplo – especialmente o direito à salvação. O fato é que evolucionismo, espiritismo e marxismo estão interligados e atentam contra a cosmovisão bíblico-criacionismo. Por favor, tome algum tempo para assistir ao vídeo abaixo e perceberá isso. [MB]

O argumento ontológico (parte 1)

proslogionVamos a mais um argumento estudado na filosofia da religião a fim de dar evidências da existência de Deus. Só relembrando algo que escrevi no post sobre o argumento cosmológico: você terá muita dificuldade em encontrar um filósofo da religião (monoteísta) que creia que um argumento sozinho sirva como evidência suficiente. Existem, de forma bem generalizada, dois grandes grupos: aqueles que acreditam que nenhuma evidência funcione (esses não são apenas ateus; muitos teístas apoiam essa ideia) e aqueles que acreditam que apenas todos os argumentos juntos conseguem formar uma defesa cumulativa para a existência justificada em Deus.

Os argumentos ontológicos são fascinantes, pois são argumentos que dizem ter premissas elaboradas da razão apenas, sem ajuda de qualquer informação do mundo “lá fora”. Diferente, por exemplo, do argumento cosmológico, que observa que tudo o que existe tem um início, o ontológico não precisa de “fatos do mundo” para funcionar. Isso se conhece na filosofia como premissas a priori, ou seja, que vêm antes do nosso contato com o mundo (a posteriori).

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Filósofo ateu diz que Lúcifer foi o primeiro empreendedor

O filósofo Leandro Karnal, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem quase um milhão de seguidores e ganhou fama por abordar de forma clara temas complexos da filosofia. Entre seus livros está o Pecar e Perdoar, publicado em 2014 e que acaba de ser relançado, no qual ele propõe uma reflexão sobre o julgamento tendo como fio condutor a Bíblia. Em entrevista ao jornal O Globo, Karnal é provocativo ao analisar o Antigo e o Novo Testamentos, busca associar com nossos dias personagens como Lúcifer, o anjo caído, e toca em outros assuntos. Detalhe: Karnal é ateu declarado e por isso fiquei curioso pelo fato de ele dedicar tanta atenção a um ser que, se Deus não existir, é ele também mitológico. Em nenhum momento o filósofo se refere a Satanás como mito. Pior, menciona a postura do anjo rebelde como digna de elogio. Quero adiantar que respeito Karnal e admiro sua inteligência e capacidade. As críticas que faço aqui são pontuais e não pessoais, evidentemente. Leia a seguir alguns trechos da entrevista, com meus comentários entre colchetes [MB]:

Pecar e Perdoar é um livro sobre julgamento. Julgar é humano? Ou foram as religiões que nos tornaram julgadores?

As religiões, apesar de darem a base moral para os julgamentos, sempre insistem em não julgar os outros. As religiões, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, fornecem a base material para inventar o pecado, mas também recomendam quase universalmente a misericórdia, a compaixão, o perdão, o não julgamento. Faz parte de um jogo complexo. Nós gostamos de julgar. Se fosse apenas por causa da religião, em regimes ateus como a União Soviética ou a China de Mao-Tsé-Tung não teriam ocorrido julgamentos. Então eu diria que, apesar de a religião dar o vocabulário, o julgamento é humano, não é exatamente religioso. […] [Típico discurso ateísta de que pecado é uma invenção humana. Para alguns, o próprio mal é uma invenção. Aí se criam contradições como esta: o mal não existe, mas Deus é mau. Pecado, segundo a Bíblia, é a transgressão da lei de Deus. Por causa de Adão e Eva, herdamos a tendência para pecar, e por isso precisamos da graça habilitadora de Cristo para vencer. Mas, se Adão e Eva não existiram, o pecado realmente não existe. Se não existe pecado, não precisamos de Jesus e a lei de Deus se torna desnecessária. Sem saber, ateus que defendem esse ponto de vista acabam ajudando Satanás em sua luta contra a lei de Deus e em seu esforço para manter os seres humanos no pecado, longe da graça. Se o pecado e o conceito de mal são invenções humanas, quem define o que é mal? A mutável ética humana?]

Por que o erro, o pecado, é tão sedutor?

Nós temos uma sedução profunda pelo mal [sim, porque temos uma natureza caída]. De longe o demônio é o anjo mais interessante. Compare a biografia de Lúcifer com a do arcanjo [sic] Gabriel, que faz o anúncio a Maria [na verdade, Arcanjo só existe um: Miguel = Jesus]. De longe o demônio, o erro e o desvio são muito mais sedutores para nós. Você vai lembrar para sempre de Odete Roitman, ou de Nazaré Tedesco, mas não vai lembrar a personagem boa, pura. Nós gostamos dos rebeldes. Nós gostamos de quem quebra a regra. A liderança numa sala quase sempre está naquele que infringe as regras, e não no nerd. O nerd exerce pouca liderança numa sala. Nós gostamos do pecador. E, aliás, Deus também no cristianismo parece ter uma predileção pelo pecador. [Por que termos essa predileção pelo pecado? Qual a explicação naturalista para isso e qual a vantagem evolutiva dessa propensão para fazer o que é errado? O pecado é uma invenção humana, mas gostamos de pecar. Deus tem “predileção pelo pecador” porque é o pecador quem precisa de ajuda para se levantar. Simples assim. É só ler a parábola do filho pródigo. Faltou Karnal dizer que Deus ama o pecador, mas odeia o pecado. Isso está muito claro na Bíblia.]

No livro, você lança um olhar positivo sobre Lúcifer, o anjo caído. Por que viveríamos “tempos luciferinos”, como você diz?

Essa visão positiva de Lúcifer aparece na literatura quando John Milton, em Paraíso Perdido, põe na boca do demônio a seguinte frase: “É melhor reinar no inferno do que ser escravo no céu.” [Diz isso quem não conhece o reino das trevas de Lúcifer; quem não sabe o que significa a pobreza, a miséria e a morte. Será que Milton manteve essa mesma opinião quando foi confrontado pela dor e pela morte de pessoas queridas? Quem conhece a Deus sabe que ser “escravo” dEle é ser livre. O conceito de reinado de Milton tem que ver com poder e autoridade, por isso ele preferia isso. No reino de Deus, reinar significa servir. Como não querer ser “escravo”, súdito de um Rei que deixou Seu trono para morrer por mim?] Essa é uma noção de empreendedor. Prefiro o meu pequeno negócio do que ser empregado numa grande instituição [só que o “negócio” de Lúcifer arruinou este planeta]. O empreendedor clássico sempre se orgulha do ilícito. Steve Jobs, na sua biografia, conta que criou uma máquina para roubar o sinal interurbano da AT&T. Napoleão começou sua carreira como político em 1799, dando um golpe no regime que jurou defender. O empreendedor, o grande líder é louvado porque é alguém que quebra as regras, inclusive as leis, aceitas pelo grupo [lamentável isso. Nosso país já é o que é por causa das transgressões de regras e da quebra das leis. Imagine se cada brasileiro levar a sério esse tipo de empreendedorismo… Bem, é isso o que dá quando se relativiza o pecado: roubar, mentir, trair, desobedecer passam a ser virtudes]. Lúcifer é o primeiro empreendedor de todos os tempos porque saiu da caixinha. Lúcifer é o sonho do RH, né? (risos) [a “caixinha” era um reino de paz e harmonia em que todos serviam ao Criador por amor; Lúcifer não saiu da “caixinha”, foi expulso dela por não mais haver lugar para sua rebeldia insubmissa ali. Karnal louva justamente o que deu origem ao grande conflito e a todas as mazelas da humanidade]. Sem a infração de Lúcifer, assim como a de Adão e Eva, não haveria História [não haveria história do pecado; mas haveria a eternidade de paz e alegria]. O mundo seria perfeito, com anjos no paraíso. O que criou a História do mundo foi a rebeldia, as quebras do padrão e das estruturas. Todas as vanguardas, sem exceção, são assim. […] [Sim, o que criou o “mundo” foi a rebeldia, e será a rebeldia que porá fim a este mundo. Graças a Deus. Se Karnal queria falar de empreendedorismo, creio que escolheu um péssimo exemplo. Um indivíduo empreendedor como Satanás destruiria rapidamente tudo o que você construiu, e um dia vai destruir até mesmo o que ele construiu. – MB]