Jesus como chave hermenêutica? De que Jesus estamos falando? Não é do Jesus da Bíblia!

Jesus e as Escrituras

Não há o menor indício de que Jesus ficasse apontando possíveis inconsistências nas Escrituras ou tentasse diminuir a importância ou autoridade delas

Jesus-Synagogue

No deserto, Jesus venceu a tentação por meio do “Está escrito!” (Mt 4:4, 7, 10). No sermão inaugural em Nazaré, Ele usou Isaías para apresentar Suas credenciais messiânicas (Lc 4:17-21). No Sermão do Monte, deixou claro que viera não para anular a Lei e os Profetas, mas para obedecer-lhes (Mt 5:17); segundo Ele, enquanto durassem os céus e a terra, as Escrituras permaneceriam (v. 18). Ao saber da prisão de João Batista, Jesus novamente utilizou Isaías (Mt 11:10), além de Malaquias (v. 14), para exaltar o ministério de Seu precursor. Nas disputas com os escribas e fariseus, Ele os repreendia por violarem os mandamentos de Deus (Mc 7:6-8), reafirmava o conteúdo das Escrituras (Mt 19:3-9) e por meio delas justificava Suas ações (Mt 21:12-16, 42; Mc 2:24-28). Quando testado por um mestre da Lei, Jesus mais uma vez recorreu às Escrituras (Lc 10:26), deixando claro que o que “está escrito” continuava válido (v. 28).

O mesmo acontecia nos debates com os saduceus (Mt 22:23-32). Jesus sempre defendeu os mandamentos de Deus (Mt 19:16-22) e esclareceu, recorrendo a Moisés, que o princípio da obediência é o amor (22:34-40). Ao aproximar-Se de Jerusalém, onde em breve seria crucificado, disse que as profecias messiânicas referentes à Sua morte seriam todas cumpridas (Lc 18:31).

Na última semana antes da cruz, Ele continuava apelando às Escrituras para legitimar Suas ações (Mt 21:13). Na última ceia com os discípulos, voltou a reconhecer a autoridade das Escrituras ao Se submeter ao Seu destino profético (Mt 26:24). Pouco antes de deixarem o cénaculo, citou o profeta Zacarias para explicar o que os aguardava (v. 31). Na cruz, usou os Salmos para expressar o temor da eterna separação do Pai (Mt 27:46). Após a ressurreição, repreendeu os discípulos por não crerem “em tudo” o que estava escrito a Seu respeito na Lei e nos Profetas (Lc 24:25-27). E pouco antes de ascender aos céus, uma vez mais ressaltou a importância das profecias (vv. 44-47), dizendo que elas deveriam ser a base da pregação e do testemunho apostólico (v. 48).

Não há o menor indício de que Jesus ficasse apontando possíveis inconsistências nas Escrituras ou tentasse diminuir a importância ou autoridade delas.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

Cristocentricidade ideológica

Cristo é o Centro do Texto e de nossa vida; ler e estudar TODO o cânon fortalece nosso conhecimento pleno Dele

Jesus

Infelizmente, a mercantilização e ideologização da religião tem colocado Cristo como mais um produto em exposição na prateleira do self-service religioso. Wayne Meeks afirmou: “Como uma marca de xampu promete uma solução para o cabelo crespo, uma marca de detergente a solução para uma roupa amarelada, um novo modelo de carro a resposta para a solidão e (indiretamente) desejo sexual, então Jesus é a resposta para qualquer coisa que você deseje. Sem dúvida, Jesus Se transformou no que quer que você deseje, uma marca que serve para tudo, uma resposta para todas as necessidades, desejos, fantasias e especulações” (2007, p. 10).

Nesse sentido, quando se fala em “cristocentricidade”, é fundamental explicar o que se quer dizer com esse termo, o que se pretende com esse conceito. Não podemos negar que Cristo é o centro do Texto, sendo seu Significado e Significante. Todavia, George Gunn (2013, p. 1) nos alerta para o fato de que a prática excessiva e descuidada de interpretação cristocêntrica entre os reformadores levou-os, por exemplo, a extremos verificados nas interpretações tipológica e alegórica. Nesses surtos teológicos, o símbolo superou a Essência; a foto superou a Pessoa.

O que fazer?

É verdade que “a enormidade da vida de Jesus fala-nos ainda hoje” (Flusser, 1997, p. 23). Mas é também verdade que desvincular Sua vida e Suas obras de toda a Escritura é um enorme perigo. Afinal, toda a Escritura (AT e NT) testifica de Jesus; mas isso parece ser frequentemente negligenciado (Williams, 2012, p. 9).

Cristo é o Centro do Texto e de nossa vida; ler e estudar TODO o cânon fortalece nosso conhecimento pleno Dele.

(Adolfo Suarez, Instagram)


Bibliografia:

FLUSSER, D.; NOTLEY, R. S. Jesus. Jerusalem: Magnes Press, 1997.

GUNN, G. The Christocentric Principle of Hermeneutics and Luke 24:27. 2013.

MEEKS, W. A. Cristo É a Questão. São Paulo: Paulus, 2007.

WILLIAMS, M. How to read the Bible through the Jesus lens: a guide to christ- focused reading of scripture. Grand Rapids: Zondervan, 2012.

“Vá e não peque mais” ou “Vá embora”?

A história ainda fala de nossos pecados, e do mesmo e único jeito para resolver seus problemas: e não é refazer a definição divina de pecado, mas ir e não pecar mais

Jesus-e-a-mulher-adúltera

Admira-me a facilidade com que informações equivocadas são propagadas hoje em dia nas mídias sociais, às vezes justamente por aqueles que deveriam saber. Nesse caso, desconhecimento não é desculpa. A história da mulher flagrada em adultério (Jo 8:1-11) é um dos mais sublimes exemplos do amor perdoador de Jesus. Por ser sem pecado (v. 48), Jesus era o único que poderia haver atirado alguma pedra nela. Em vez, disso Ele a perdoou. Mas a história não termina aqui, em que pesem os esforços de alguns em dizer que a frase “vá e não peque mais” não é original. O que se alega é que essa frase teria sido acrescentada posteriormente por moralistas cristãos insatisfeitos com o tratamento que Jesus deu à pobre mulher.

A informação simplesmente não é verdadeira. Não há um único manuscrito grego (ou latino) que tenha a história e que omita a frase final de Jesus. Além disso, essa não teria sido a única vez em que Jesus mostraria compaixão por alguém e recomendasse que ele não pecasse mais (Jo 5:14).

Dois pontos aqui são importantes. O primeiro é que a tentativa de “açucarar” o evangelho como se ele não exigisse nenhuma resposta de nossa parte é uma grave distorção. Quando Deus salva, Ele salva “do pecado”, não “no pecado”. A Bíblia é clara: o perdão é um dom de Deus, mas ele deve ser aceito mediante uma atitude de arrependimento e conversão (At 3:19). Isso significa que o perdão deve provocar mudanças (Rm 6:15; Ef 2:8-10; Tg 2:11, 12), levar a uma vida de obediência e santidade (Rm 6:16-22).

O segundo ponto é que a vitória sobre o pecado não é uma realização humana. É divina (Fp 2:13; 1Ts 5:23). Mas somos nós que escolhemos o que queremos para nossa vida. Sem nossa vontade e nosso comprometimento (1Co 9:27; Fp 2:12), Deus nada poderá fazer – e que ninguém diga que é fácil tomar tempo para a oração e o estudo da Bíblia. Nesta vida, jamais seremos perfeitos, mas estaremos cada dia exercitando nossa vontade, escolhendo e fazendo aquilo que permita que Deus continue Sua obra em nós (Rm 12:1, 2; 1Co 16:13). Ou seja, “vá e não peque mais” é tanto parte do evangelho quanto “também eu não a condeno”.

(Dr. Wilson Paroschi, Instagram)

O Cristo que conheci nas páginas das Escrituras disse a uma mulher pecadora: “Vá e não peque mais.” Palavras poderosas que contêm tanto libertação quanto compromisso: “vá” indica liberdade, movimento e vida. Ela não estava mais presa nas mãos de captores, nem condenada à morte. Ela podia ir. “Não peques”, exigindo compromisso, comprometimento e mudança de caminho e vida. Sua direção do caminhar e a direção de sua vida não podiam ser as mesmas de onde vinha. Ela não poderia incluir o pecado que até ali tinha sido seu principal escravizador. Eram palavras de compromisso que levavam à Vida.

Mas alguns, não podendo suportar o peso do compromisso e a responsabilidade existentes e exigidos nessas palavras, acrescentaram “eu também não te condeno”. Acrescentaram porque para eles Jesus NÃO pode ser tão desumano a ponto de condenar alguém por pecados, ou mesmo exigir que eles sejam abandonados. Acrescentaram às palavras do Legislador que liberta palavras que eximem. Eximem de uma realidade que, de fato, nem mesmo existe, porque pecado é apenas um conceito fluído, vazio, uma oportunidade de Deus demonstrar todo o Seu poder e toda a inutilidade daquele monte de palavras de condenação da aliança levítica e do reino imprestável da Lei. Afinal, o que vale não é o que está escrito, mas o que eu penso que deveria estar escrito.

Não amigos, nenhuma palavra foi acrescentada nesse relato de João 8. É fato que não foi o apóstolo João quem o escreveu, mas a história ali contada é verdadeira, veraz e verídica (pleonasticamente proposital). Cristo SIM perdoou aquela mulher. E isso é graça que alcança. Mas também exigiu dela esforços para não mais pecar. E isso é resposta. Aliás, toda a Escritura é construída em torno desse maravilhoso binômio: ação divina => resposta humana. Nessa ordem. A cada ação divina deve corresponder uma resposta humana, fundamentada na compreensão de nossa pecaminosidade e da graça salvadora de Deus. A disparidade da ação divina é, então, apreciada e a única resposta é a fidelidade a essa ação, cuja existência se baseia na normatividade da aliança (Dt 31:15ss; Jo 14:15ss).

As Escrituras apresentam de forma clara, indelével e absoluta a realidade do pecado. Não há relativização. O que foi outrora pecado, como adultério, homossexualidade, assassinato, idolatria, hipocrisia, é ainda pecado hoje. E não adianta a lógica de uma exegese estrábica tentar desfazer essa realidade. Você pode até não aceitar que seja pecado, mas precisa declarar então que não crê na Bíblia como Palavra de Deus, ou não crê em Deus. Não tente usar o amor de Deus para diminuir o ódio dEle pelo pecado. Ele amou o povo de Israel, mas em nenhum momento redefiniu o que era pecado, para poder eximir Seu povo de seus erros. Eles estavam errados, eram pecadores, mas continuavam sendo amados por Deus. Eles foram mandados para o exílio, entregues a um povo estranho, mas eram ainda objeto do amor de Deus, que não os eximia, nem reduzia o pecado e o extinguia ou redefinia, mas apresentava o perdão como meio para escapar da condenação e a graça para viver longe do pecados e de seus efeitos.

Deus não mudou! Sua palavra não mudou! Sua vontade não mudou! O que Ele disse ser pecado segue sendo pecado! O que o desagradava e Ele abominava segue ainda sendo de Seu desagrado e também abominável, quer a sociedade moderna aceite quer não. A história ainda fala de nossos pecados, e do mesmo e único jeito para resolver seus problemas: e não é refazer a definição divina de pecado, mas ir e não pecar mais.

(Pr. Sérgio Monteiro; Facebook)

Cristo verdadeiro vs. Cristo ideologizado

Há cerca de dois mil anos, uma perspectiva equivocada a respeito do Messias praticamente desabilitou toda uma nação a recebê-Lo. Séculos depois, em prol de uma “nova e humana visão” de evangelho, essa perspectiva ressurgiu praticamente nos mesmos termos anteriores, a de um Messias fundamentalmente revolucionário, sócio-libertador, cuja própria teologia se define primariamente como libertária. O transcendente, o sobrenatural, o divino, a revelação profética e a própria parousia, tudo isso precisa ser contextualizado, atualizado e recolocado em seu “devido lugar”, ou seja, em uma espécie de segundo plano.

A pobreza social ou os desafortunados da sociedade não devem ser vistos como objeto da verdadeira caridade cristã, mas como agentes de sua própria libertação. A partir desse pressuposto, a pregação dá lugar à militância (destra ou canhota, tanto faz…), os evangelhos dão lugar aos tratados sociológicos, e Cristo é retirado de Seu trono para ocupar uma cadeira no Congresso ou no Senado.

Fato é que no Salvador encontram-se todas as respostas; fato é que repousa sobre Sua igreja a solene e obrigatória responsabilidade de atenuar o sofrimento de todos quantos lhes for possível alcançar. Fato é que, como instituição divina, Seu povo deve, sim, se levantar contra tudo o que promova desigualdade ou atente contra a vida humana, em todos os seus aspectos. Mas triste fato (atestado pelo próprio Cristo) é que a injustiça social, a fome e a miséria invariavelmente serão companheiras de jornada em um mundo corrompido pelo pecado e pela rebelião contra Deus. O Messias que libertaria o povo do jugo romano não cumpriu as expectativas, foi além. Potencializou um reino de paz, uma eternidade que, para ser definitivamente estabelecida, precisa promover não uma simples reestruturação social, mas uma restauração global.

A esperança que transcende, a fé que sustenta, o amor que transforma… tudo isso deve ser fundamentado em uma visão sóbria e um entendimento claro a respeito das promessas de Jesus. Ele voltará em breve, não para ocupar um palanque na ONU, mas Seu verdadeiro lugar. Até lá, que esse reinado seja construído e acariciado em cada coração.

(Matheus Amaral)

Estaria o nome de Jesus relacionado ao porco?

Uma hipótese falaciosa afirma que o nome de Jesus é uma fabricação posterior para ridicularizá-Lo.

jesus

Com o avanço da (des)informação através da internet as pessoas têm acreditado em praticamente qualquer coisa que leem em suas telas, por mais absurda que seja – especialmente quando se trata de teorias de conspiração. Frequentemente, pessoas mal-intencionadas inventam essas coisas para que pessoas bem-intencionadas as divulguem. Sempre foi assim. Por isso Deus já advertia no tempo de Moisés: “Não espalharás notícias falsas” (Êx 23:1).

Uma dessas desinformações falaciosas afirma que o nome de Jesus é uma fabricação posterior para ridicularizá-Lo ao associá-Lo ao porco e ao cavalo. Dizem que o nome original deveria ser conforme o hebraico Yehoshua e que “Jesus” seria a junção intencional de duas palavras: “Je”, que em grego teria o significado de “terra”; e “sus”, que em latim significa “porco”, e, em hebraico, “cavalo”; tal junção resultaria em algo como “o porco da terra” ou “o cavalo da terra”.

Essa ideia é completamente absurda! Não é porque há coincidência entre a sílaba de um idioma e uma palavra de outro que exista também uma relação de significados. Essa ideia é tão insana como dizer que o nome Manoel tem intencionalmente um significado obscuro: “man”, que significa “homem” em inglês; “o”, que é um artigo definido masculino em português; e “el”, que significa Deus em hebraico. Daí, Manoel supostamente significaria “Homem, o Deus”, o que revelaria uma afronta ao Deus do Céu. Sim, esse é o resultado de uma criatividade ilógica e até “maluca”. Equivale a dizer que o nome Elmar necessariamente seja uma alusão intencional ao mar, pois é esse o significado em espanhol (el mar). Ou ainda que o nome Mauro esteja ligado semanticamente ao adjetivo “mau”, pois “faz parte” do nome. Isso para não falar do nome russo Sergei (lê-se “Serguei”), que na língua original não tem nada a ver com o que parece soar em nosso idioma e talvez em outros. Da mesma forma, o nome de Jesus não tem nenhuma ligação com o significado de sus em hebraico (“cavalo”), nem em latim (“porco”).

Essa teoria de conspiração também usa o seguinte argumento: como a letra “J” só foi criada no século 16, o nome Jesus não poderia existir, pois Ele viveu mais de 1.500 anos antes disso. Como em toda boa mentira, sempre se faz uso de alguma verdade para dar credibilidade ao erro. Nesse caso, é fato que a letra “J” só foi inventada em 1524 por um gramático chamado Gian Giorgio Trissino. Mas isso não significa que o som representado por essa letra não existisse antes. De fato, a letra grega inicial usada no nome Iesous é chamada de “iota”, justamente porque seu som é uma variante entre os sons de “i” e “j”. O que Trissino fez foi criar uma forma gráfica para representar especificamente o som (ou fonema) mais propenso para “j” do que para “i”. É como o caso da letra hispana “ñ”: ela foi “criada” no século 13, mas seu som já existia séculos antes, sendo representado por “nn” ou “gn” (que em nossa língua representamos por “nh”).

O nome Jesus veio do latim Iesus, que veio do grego Iesous, que, por sua vez, é uma adaptação do hebraico Yeshua. No hebraico, as palavras que em nossa língua começam com “j” geralmente são iniciadas com a letra “yod”, que equivale ao nosso “y”. Nos textos em grego essa letra era representada pela sua equivalente chamada “iota”: Ierousalém, Ioudaia, Ionas, etc. Dizer que o nome Jesus é uma profanação de Cristo só porque não existia a letra “J” é tão sem sentido quanto dizer que os nomes Jerusalém, Judá, Jonas e todas as palavras que contêm “J” na Bíblia estão profanadas!

O nome hebraico Yeshua é a abreviação de Yehoshua, o qual traduzimos em português como “Josué”. Esse era um nome comum no Antigo Testamento, como se pode ver em 1 Samuel 6:14 e 2 Reis 23:8. Seu significado é “Yahu resgata/salva” (sendo que Yahu é uma das formas do nome de Deus). Com o passar do tempo, por questões linguísticas naturais, o prefixo Yeho foi encurtado para Ye. O próprio Josué (Yehoshua) é mencionado em Neemias 8:17 com a forma encurtada de seu nome (Yeshua).

Aparentemente, esse nome abreviado se tornou mais popular, pois há vários outros “Josués” mencionados no Antigo Testamento no formato Yeshua (ex.: 1Cr 24:11; 2Cr 31:15; Ed 2:2, 6, 36, 40; Ne 3:19; 7:7, 11, 39, 43; 12:24, 26). Esse também era muito provavelmente o nome de Jesus – Yeshua –, que em grego era registrado como Iesous. Por isso em Mateus 1:21 o anjo interpreta o nome do Menino com o mesmo significado de Josué: “Deus salvará o Seu povo”. Na Septuaginta (LXX), famosa versão grega do Antigo Testamento – produzida cerca de 200 anos antes de Cristo –, o nome hebraico de Josué é sempre traduzido como Iesous. Assim, como o nome grego Iesous é totalmente equivalente ao nome hebraico de Josué, a versão bíblica King James substitui o nome Josué por Jesus em Atos 7:45 e Hebreus 4:8.

Portanto, o nome de Jesus era muito comum em Sua época, tanto na forma hebraica Yeshua quanto na forma grega Iesous. Um exemplo disso é o homem chamado “Jesus, conhecido como o Justo”, referido em Colossenses 4:11 como um dos fiéis amigos de Paulo. Conforme alguns manuscritos antigos de Mateus 27:16, 17, é possível que o primeiro nome de Barrabás fosse Jesus (mas isso é conteúdo para outro estudo).

Como se pode notar, o nome Iesous não foi inventado para profanar Cristo, pois esse nome já existia séculos antes da era cristã como a forma grega de Josué (Yeshua). Geralmente, quem inventa (e quem espalha) uma teoria de conspiração como essa não entende nada das línguas originais que dissimuladamente usa para enganar. Por exemplo, ao dizerem que a sílaba Je significa “terra”, em grego, demonstram ignorar por completo que a palavra grega para “terra” é ge, a qual se lê como “gue” e não como “je”.

Alguém pode ainda perguntar por que os nomes mudam tanto de um idioma para outro, e se não deveríamos usar apenas o nome “original” de Jesus, Yeshua, ou até mesmo sua versão não abreviada (Yehoshua). Mas o fato é que não conseguiríamos pronunciar corretamente o nome. Como será que se pronuncia esse “Y” inicial (que é uma transliteração da letra hebraica “yod”)? Seria como um “Y”, como um “I” ou como um “J”? Ou seria como um meio-termo entre essas letras? A letra “e” seria pronunciada como um “ê” ou como um “é”? E o “u” seria como o “ü” de Müller, como o “u” francês ou o português? E ainda: Seria como o som hebraico atual ou o antigo?

Há fonemas que são muito naturais em uma língua, mas muito difíceis de reproduzir em outra. Para uma pessoa hispana, por exemplo – que não usa o fonema “ó” –, é muito difícil perceber a diferença entre os sons de “vovô” e “vovó” e reproduzi-los corretamente (faça um teste com um amigo hispano). O mesmo acontece com outras línguas. Uma vez perguntei a um amigo texano qual era a diferença de pronúncia entre as palavras year (ano) e ear (orelha). Ele pronunciou essas duas palavras como se a diferença fosse muito óbvia, mas para mim soavam exatamente iguais. Então eu percebi, depois de muita ênfase dada por ele, que o “y” deles soa de modo quase imperceptível para nós, como um tipo de “j” muito discreto e quase mudo. Assim, a palavra year (que pronunciamos errado como “iear”) soa quase como “jear”, mas com um “j” muito diferente, pronunciado meio com a garganta (gutural) e com a parte de trás do céu da boca. Talvez algo similar deva ser a realidade das letras “yod” em hebraico e “iota” em grego.

Por incrível que seja, há palavras em outras línguas que nós não conseguiríamos reproduzir nem mesmo sob ameaça de morte. Vemos um exemplo disso em um episódio da Bíblia que mostra como uma pequena variação de dialeto entre as tribos de Israel fez com que milhares de pessoas morressem por não conseguirem reproduzir corretamente uma palavra (Jz 12:6). Muitas pessoas morreriam se suas vidas dependessem de pronunciar corretamente palavras inglesas como world, girl, Connecticut, three, entre outras. Ainda bem que com Deus não é assim que funciona, como querem os conspiracionistas com suas teorias!

São questões linguísticas como essas que fazem com que um apóstolo seja chamado de Ioannes na língua em que ele mesmo escreveu (grego), e ainda de Iohan, Johanes, John ou João em outras línguas. Da mesma forma, Iácobos se tornou Jacob em inglês e Tiago em português. É difícil entender essas transformações que às vezes ficam tão diferentes, mas elas acontecem de modo natural, pois a pronúncia é inevitavelmente modificada em outras línguas e acaba se adaptando. Da mesma forma, há vários nomes de estrangeiros muito difíceis de serem reproduzidos corretamente em nosso idioma. Pense no nome americano masculino Earl em solo brasileiro! Imagine as várias tentativas dos amigos para reproduzirem esse nome: “Er”; “Ere”; “Eare”; “Erul”! O tal do Earl teria que reconhecer que seu nome é muito difícil para os falantes daquela língua e aceitaria suas tentativas.

Da mesma forma o Senhor Jesus certamente aceita o modo como O chamamos com reverência em nossa própria língua (Is 65:1). Por isso não é preciso dizer Yeshua, HaMashiah (“Jesus o Messias”) para se referir a Ele, nem HaShem (“O Nome”) para falar sobre o Pai. Não existe outro “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”; não há outro que possa ser chamado de “Aquele que fez o Céu, a Terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7). Ele sabe que nos referimos unicamente a Ele quando Lhe chamamos em nosso idioma de “Senhor”, de Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz (Is 9:6). Nesse sentido, em todas as diferentes línguas, dialetos e sotaques, “nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12).

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Domesticaram Jesus Cristo

“Em Jesus, Deus nos mostrou um rosto, e posso ver diretamente nesse rosto como Deus Se sente acerca das pessoas.”

jesus

Em seu livro O Jesus que Eu Nunca Conheci (Vida), o jornalista e escritor cristão Philip Yancey defende a tese de que o cristianismo acabou “domesticando Jesus”, e justifica com as seguintes palavras: “Ele falou pouco sobre a ocupação romana, o assunto principal das conversas de Seus conterrâneos, mas pegou um chicote para expulsar do templo judeu os pequenos aproveitadores. Insistia na obediência à lei de Moisés, enquanto adquiria a reputação de transgressor da lei. Poderia ser tomado de simpatia por um estrangeiro, mas afastou o melhor amigo com a dura repreensão: ‘Para trás de Mim, Satanás!’ Tinha opiniões inflexíveis sobre os homens ricos e as mulheres de vida fácil, mas ambos os tipos desfrutavam de Sua companhia.”

Yancey diz mais: “De alguma forma criamos uma comunidade respeitável na igreja… Os miseráveis, que se reuniam ao redor de Jesus quando Ele vivia na Terra, já não se sentem bem-vindos. Como Jesus, que era a única pessoa perfeita na história, conseguia atrair os sabidamente imperfeitos? E o que nos impede de seguir Seus passos hoje?”

Jesus nunca deixou de ser uma figura surpreendente, a começar pelo Seu nascimento. Nas palavras do poeta John Done, a encarnação do Filho de Deus fica assim: “A imensidão enclausurada em teu [de Maria] amado ventre.” Segundo Yancey, “em Jesus, Deus encontrou um meio de Se relacionar com os seres humanos que não passava pelo medo”. E aqueles que descobrem esse Jesus firme, mas amoroso; severo e misericordioso, podem dizer como Dostoievski: “Se alguém me provasse que Cristo não estava na verdade… então eu preferiria permanecer com Cristo a permanecer com a verdade.”

Usando os recursos do jornalismo, Yancey investiga Jesus e o cenário social, político e geográfico que O envolveu aqui na Terra. Em linguagem agradável, ele brinda o leitor com detalhes que surpreendem até mesmo aqueles que já leram a Bíblia dezenas de vezes. E o Jesus apresentado pelo autor é o Deus-homem que ainda quer interagir com o ser humano, deixando claro que Ele Se importa com nossas lutas. “Quando Jesus enfrentou o sofrimento, reagiu como eu. Ele não orou no jardim: ‘Ah, Senhor, sinto-Me tão grato por Me teres escolhido para sofrer por Ti. Regozijo-Me nesse privilégio!’ Não, Ele experimentou tristeza, medo, abandono e algo parecido até mesmo com o desespero. Contudo, Ele suportou porque sabia que no centro do Universo vivia Seu Pai, um Deus de amor no qual Ele podia confiar, apesar de como as coisas parecessem na ocasião.”

Assim, ao concluir seus estudos sobre Jesus, Yancey afirma que uma pergunta já não mais o atormenta como antes; uma pergunta que, segundo ele, nos espreita na maior parte dos problemas com Deus: “‘Deus Se importa?’ Sei de apenas um jeito de responder a essa pergunta, e essa resposta veio no meu estudo acerca da vida de Jesus. Em Jesus, Deus nos mostrou um rosto, e posso ver diretamente nesse rosto como Deus Se sente acerca das pessoas.”

Na contracapa do livro, Lewis B. Smedes, do Fuller Theological Seminary, afirma que o trabalho de Yancey é o melhor que ele já leu sobre Jesus, e amplia: “Talvez o melhor livro do século sobre Jesus.” O livro é bom, de fato. Mas acho que Lewis nunca leu O Desejado de Todas as Nações, de Ellen G. White. Esse já me levou às lágrimas.

Michelson Borges

Jesus, o maior presente | mensagem de Natal

Perguntas interativas da Lição: Jesus como Mestre dos mestres

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Muitos livros publicados ao redor do mundo retratam Jesus como “modelo” em áreas tão diversas como liderança, educação, vendas e até “coaching”. Porém, muito mais do que um modelo em qualquer área específica, Jesus deve ser o Mestre de nossa vida. E essa realidade deve ser a base da educação cristã. Esse foi o assunto da Lição da Escola Sabatina desta semana.

Perguntas interativas para discussão em grupo:

Além de ser o nosso Salvador e Senhor, em que sentido Jesus deve ser também nosso Mestre? O que devemos aprender dEle e praticar? (Ver Mt 4:19; 9:35; 11:1, 29.)

Leia Efésios 5:1. Em sua opinião, qual é a essência desse versículo? Como nosso Mestre, de que maneira Jesus nos ensina a ser “imitadores de Deus, como filhos amados”?

Leia João 14:8, 9 e 2 Coríntios 4:6. O que significa dizer que “Jesus veio revelar o caráter do Pai”? E por que isso era necessário?

Sendo Jesus o nosso Mestre, que lições aprendemos de Seu exemplo ao lermos Filipenses 2:5-8? Como isso se aplica na vida prática do dia a dia?

Contraste a passagem acima (de Filipenses) com Tiago 4:6 e 1 Pedro 5:5. Por que um “cristão orgulhoso” é uma contradição ambulante? Como se pode vencer esse mal? (Ver Mt 11:29; 1Pe 5:6.)

Leia 2 Coríntios 5:18-20. O que aprendemos do mestre Jesus sobre “reconciliação”? O que significa o fato de que Ele também “nos deu o ministério da reconciliação” (v. 18) e “nos confiou a palavra da reconciliação” (v. 19)? Nesse sentido, de que forma nos tornamos “embaixadores de Cristo” (v. 20) ao mundo?

Leia João 17:18. Qual é a missão pela qual somos enviados? Como podemos representar devidamente o caráter de Quem nos envia?

Veja este trecho do início da lição de sexta-feira: “Todo verdadeiro trabalho educativo centraliza-se no Mestre enviado por Deus.” O que isso nos diz sobre o propósito da educação adventista, tanto na esfera familiar quanto na acadêmica?

Quais valores e ações são importantes para os professores e alunos que levam a sério a ideia de que Jesus foi e é nosso grande Mestre?

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Clique aqui e assista à recapitulação do assunto em vídeo.

Jesus e nada mais

Em outubro de 2020, assisti ao documentário em série “The Family”, à época disponibilizado pela Netflix. A produção trata de uma misteriosa instituição sediada nos Estados Unidos da América que, às sombras, opera uma ampla rede de poder político religioso internacional. A única ação pública da instituição parece ser o tradicional “Café da Manhã de Oração”, que na realidade é um congresso anual de três dias realizado no centro do poder norte-americano, Washington. O prestígio do evento, aliado à discrição da organização em não se identificar como provedora, o fez ter status de oficial. Todos os presidentes dos EUA há cinco décadas dele participam, ladeados por políticos e empresários ilustres. Os tentáculos d’”A Família”, aliás se estendem a lideranças de 200 países.

O material é fartamente documentado e aponta para teorias de conspiração factíveis, desmistificadas por alguns dos entrevistados. Entretanto, apesar de a trama ser pintada a cores fortes, há muita forçação de barra, especialmente no que diz respeito aos apontamentos sobre a intervenção da instituição na política interna de nações. Organizações missionárias e humanitárias internacionais, se fossem devassadas por pessoas com mentalidade secularizada, poderiam ser retratadas de forma terrível, uma vez que existem com o propósito de pregar o Evangelho a toda criatura. Qualquer denominação internacional, vista com má vontade, poderia parecer uma teia de arranjos pelo poder. O problema apontado na série parte de lentes seculares e, portanto, suspeitas. O autor não diria o mesmo de ONGs ambientais ou de direitos humanos com representações internacionais para a defesa de suas respectivas agendas.

Para além das questões de liberdade e organização religiosa mal apresentadas no documentário, me chamou atenção a crítica de Jeff Sharlet, autor do livro que baseou o documentário a postura da organização frente aos líderes de ditaduras sanguinárias, como o genocida Muamar Kadafi, presidente que governou a Líbia de 1969 a 2011. Outros ditadores e déspotas também foram visitados. Nas reuniões aconteciam orações, seguindo o objetivo da instituição, que era falar aos poderosos sobre “Jesus e nada mais”. Concordo com Sharlet quando ele afirma que não há como falar de Jesus de maneira meramente fraterna com líderes como esses sem apresentar as implicações éticas do evangelho, ou seja, sobre os ensinos de Jesus a respeito desses atos.

“Jesus e mais nada” se confunde facilmente com o lema do protestantismo, “Solo Cristus”. Mas esse segundo, diferente da frase da superficialidade d’A Família, não representa um minimalismo temático ou doutrinário. Ao invés disso, “Jesus e mais nada” tem a ver com o único nome pelo qual importa que sejamos salvos (Atos 4:12). “Jesus e mais nada” tem a ver com a devoção, que deve ser unicamente dirigida. “Jesus somente” não é uma nota isolada, mas uma sinfonia.

Sharlet, não cristão, se indignou com o fato de Jesus ter sido apresentado sem nenhuma denuncia, reprovação ou apelo à mudança. E ele está coberto de razão. Mas esse não é um erro exclusivo dos que oravam com poderosos sanguinários.

Muita gente gosta de pensar em Jesus apenas como um cara legal que trata com criminosos e marginalizados como qualquer outra pessoa. Mas e quanto aos criminosos que fogem ao padrão tolerado comumente, como terroristas? Para eles também apresentaremos um Jesus que não exige arrependimento? O fato é que a imagem inconsistente de Jesus apresentada mostra o nosso desprezo pelo Evangelho, que vai sendo adaptado ao gosto de quem ouve ou apresenta. Mas o Jesus inconsistente que a cultura e, por vezes, a igreja gostam de apresentar nunca é levado às últimas consequências.

Púlpitos em toda parte evocam Jesus sem mostrar o que ele requer de nós. Pregadores apresentam Cristo como um amuleto a ser usado em momentos de dificuldade. Pessoas dizem ter aceitado a Cristo, mas não dão evidências de discipulado, vida transformada, arrependimento de seus pecados. Em certo sentido, a pregação que ouviram tem similaridade com aquela recebida pelos ditadores. Emocionaram-se, ganharam amigos, e frequentam reuniões, mas não foram desafiados para a mudança. “Jesus e mais nada” precisa ter seu significado histórico resgatado urgentemente: Jesus e mais nada pode nos salvar. Mais uma vez, os custos e encargos de ser um discípulo, o fardo suave quando comparado ao pecado, precisam ser postos à mesa antes que muitos possam, euforicamente, “aceitar Jesus”.

Que a nossa pregação não sonegue o ensinar “todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mateus 28), processo obrigatório na ordem do Mestre de fazer discípulos, afinal, falar de Jesus sem dizer sobre os motivos que nos levam a depender dEle e o que Ele deseja fazer em nós é o mesmo que nada.

Ele é perdoador, mas também será juiz. Evangelizar implica falar sobre transformação e obediência. É enganoso querer tornar palatável a mensagem e Jesus. Isso seria colocar em risco a missão de apresentar o Evangelho a todos.

(Davi Boechat é jornalista e estudante de Direito)