(Quase) tudo o que Ellen White disse sobre a natureza humana de Cristo

jesusO assunto da natureza humana de Cristo representa uma das principais discussões teológicas no meio adventista desde a década de 1950. Cristo era semelhante a Adão antes da Queda (posição pré-lapsariana)? Ou semelhante a Adão depois da Queda (posição pós-lapsariana)? Além disso, Cristo tinha ou não propensões (tendências) para o pecado? Essas questões possuem a maior relevância teológica e prática, mas abordá-las vai além dos objetivos deste texto. Um dos estudos mais importantes sobre o tema é o livro de Woodrow W. Whidden, Ellen White e a Humanidade de Cristo (CPB, 2003). No apêndice B, “O que diz Ellen White sobre a humanidade de Cristo” (p. 139-198), Whidden busca reunir TODOS os textos escritos pela autora a respeito do assunto, incluindo todas as declarações usadas pelos defensores de ambas as posições. Há vários anos, quando li esse livro como requisito da faculdade de Teologia, tentei sistematizar o conteúdo do apêndice. Compilei todas as declarações significativas de Ellen White sobre a natureza humana de Cristo em quatro tópicos: (1) Sua natureza humana era sem pecado; (2) não tinha propensões para o pecado; (3) assumiu uma natureza humana caída e (4) conhecia as paixões humanas.

1 – SUA NATUREZA HUMANA ERA SEM PECADO

“[Contraste com] condição pecaminosa e caída [do homem]” (Review and Herald, 17 de dezembro de 1872); “natureza humana […] completo, perfeito, imaculado” (Review and Herald, 28 de janeiro de 1882); “[natureza] superior à do homem caído” (Signs of the Times, 4 de agosto de 1887); “Sua natureza santa” (Review and Herald, 8 de novembro de 1887); “Sua natureza era mais elevada, pura e santa” (Review and Herald, 11 de setembro de 1888); “Sua natureza finita era pura e sem mancha” (Manuscrito 57, 1890); “natureza […] não corrompida” (Manuscrito 57, 1890); “sem pecado e elevado por natureza” (Signs of the Times, 20 de fevereiro de 1893); “natureza […] sem pecado” (Youth’s Instructor, 16 de agosto de 1894); “humanidade […] chamada de ‘o ente santo’” (Signs of the Times, 16 de janeiro de 1896); “Sua natureza espiritual era isenta de toda mancha de pecado” (Manuscrito 42, 1897; Signs of the Times, 9 de dezembro de 1897); “inexistência de pecaminosidade na natureza humana de Cristo” (Manuscrito 143, 1897); “perfeita ausência de pecado na natureza humana de Cristo” (Signs of the Times, 9 de junho de 1898); “em Sua natureza era vista a perfeição da humanidade” (Signs of the Times, 16 de junho de 1898); “espécime perfeito de humanidade sem pecado” (Manuscrito 44, 1898); “Sua própria natureza sem pecado” (Manuscrito 166, 1898); “[contraste com] humanidade degradada [e] seres caídos” (Manuscrito 165, 1899); “Sua própria natureza sem pecado” (Review and Herald, 17 de julho de 1900); “a mesma natureza sobre a qual, no Éden, Satanás obteve vitória” (Youth’s Instructor, 25 de abril de 1901); “não [possuía] a pecaminosidade do homem” (Signs of the Times, 29 de maio de 1901); “Sua natureza sem pecado” (Carta 67, 1902); “não havia nEle […] pecaminosidade” (Signs of the Times, 30 de julho de 1902).

2 – NÃO TINHA PROPENSÕES PARA O PECADO

“…não em possuir idênticas paixões” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 201-202); “não possuindo as paixões [da humanidade]” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 508-509); “[nenhum] sentimento respondeu à tentação” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 422); “não tinha as paixões da nossa natureza humana caída” (Review and Herald, 19 de maio de 1885); “não tinha as paixões da nossa natureza humana caída” (Review and Herald, 17 de agosto de 1886); “sua posteridade [de Adão] nasceu com inerentes propensões à desobediência. Mas Jesus Cristo foi o unigênito Filho de Deus. […] Nem por um só momento houve nEle qualquer má propensão” (Carta 8, 1895); “não […] com propensões para o pecado” (Carta 8, 1895); “nem por um momento […] uma má propensão” (Carta 8, 1895); “[nenhuma] inclinação para a corrupção” (Carta 8, 1895); “nenhuma chance […] como resposta às […] tentações” (Carta 8, 1895); “nada […] que encorajasse seus [de Satanás] avanços” (Carta 8, 1895); “nada nAquele que assim respondeu a seus [de Satanás] sofismas” (Signs of the Times, 10 de maio de 1899); “sentimentos contrários a todas as paixões” (Signs of the Times, 10 de maio de 1899); “não […] as mesmas propensões pecaminosas e corruptas” (Manuscrito 57, 1890); “constante inclinação para o bem” (Youth’s Instructor, 8 de setembro de 1898)

3 – ASSUMIU UMA NATUREZA HUMANA CAÍDA

“…natureza decaída do homem” (Spiritual Gifts, v. 1, p. 25); “natureza do homem decaído” (Primeiros Escritos, p. 152); “natureza do homem caído” (Spiritual Gifts, v. 4a, p. 115; Review and Herald, 31 de dezembro de 1872; Review and Herald, 24 de fevereiro de 1874; Spirit of Prophecy, v. 2, p. 39); “homem caído […] onde se achava” (Review and Herald, 28 de julho de 1874; Spirit of Prophecy, v. 2, p. 88); “natureza sofredora e pesarosa” (Spirit of Prophecy, v. 3, p. 261); “assumiu sua [dos homens] natureza caída” (Signs of the Times, 23 de setembro de 1889); “nossa natureza caída, mas não corrompida” (Manuscrito 57, 1890); “nossa natureza pecaminosa” (Review and Herald, 15 de dezembro de 1896; Carta 67, 1902; Signs of the Times, 30 de julho de 1902; Review and Herald, 22 de agosto de 1907); “nossa natureza em sua condição deteriorada” (Manuscrito 143, 1897); “natureza do homem em sua condição caída” (Manuscrito 143, 1897); “nossa natureza em seu estado deteriorado” (Signs of the Times, 9 de junho de 1898); “natureza humana em seu estado decaído” (Signs of the Times, 9 de junho de 1898); “natureza ofensora do homem” (Manuscrito 166, 1898); “[tomou] sobre Si nossa natureza caída” (O Desejado de Todas as Nações, p. 112); “natureza ofensora do homem” (Review and Herald, 17 de julho de 1900); “natureza caída e sofredora, degradada e maculada pelo pecado” (Youth’s Instructor, 20 de dezembro de 1900); “natureza de Adão, o transgressor” (Manuscrito 141, 1901); “nível da humanidade decaída” (General Conference Bulletin, 23 de abril de 1901)

4 – CONHECIA AS PAIXÕES HUMANAS

“[Tinha] fraquezas do homem caído” (Review and Herald, 28 de julho de 1874); “sabe quão fortes são as inclinações do coração natural” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 177); “[conhecia] todo o vigor da paixão da humanidade” (Carta 27, 1892; Manuscrito 73; Signs of the Times, 21 de novembro de 1892); “[crianças com] paixões como as dEle mesmo” (Signs of the Times, 9 de abril de 1896)

O que podemos entender a partir dessas declarações aparentemente contraditórias sobre o assunto? Woodrow Whidden assim conclui seu estudo: “Sugiro, com veemência, que coloquemos de lado as expressões mais tradicionais como pré-Queda e pós-Queda nessa importante busca pela clareza doutrinária. Elas são simplesmente inadequadas para expressar a riqueza do entendimento de Ellen White acerca da humanidade de Cristo. Quando se tratava de Cristo como Aquele totalmente sem pecado, o substituto sacrificial, ela era PRÉ-QUEDA. Mas, ao escrever sobre Sua capacidade de resistir em momentos de tentação, ela enfatizou Sua identidade e falou amplamente em termos de PÓS-QUEDA. Um equilíbrio cuidadoso dos termos SINGULARIDADE e IDENTIDADE parece refletir de modo mais preciso as tensões profundamente ricas envolvidas neste tema difícil” (Woodrow W. Whidden, Ellen White e a Humanidade de Cristo [CPB, 2003], p. 100-101). Essa compreensão é defendida também na recente Enciclopédia de Ellen G. White (CPB, a ser publicada), artigo “Humanidade de Cristo” (p. 692-696).

O importante livro Nisto Cremos explica: “A humanidade de Cristo não foi a humanidade de Adão, ou seja, a humanidade do pai da raça antes da Queda; tampouco foi a humanidade decaída, isto é, em todos os aspectos a humanidade de Adão após a Queda. Não era a humanidade adâmica em virtude de possuir as inocentes fraquezas dos caídos [isto é, “fome, dor, tristeza, etc.”; p. 75]. Não era a natureza caída porque Ele jamais caiu em impureza moral. Sua natureza era, portanto, mais apropriadamente a nossa humanidade, porém sem pecado” (Nisto Cremos: As 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia [CPB, 2008], p. 62; veja também p. 59-66).

(Matheus Cardoso)

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Jesus Cristo existiu? A “descontribuição” de Onfray

ONFRAY Michel 1-2, 12/2011O filósofo francês ateu Michel Onfray (sobre quem falei em 2006) voltou a ganhar espaço na mídia por causa do lançamento de seu novo livro de 600 páginas intitulado Décadence, no qual ele defende a tese de que Jesus – sim, o Jesus histórico – nunca teria existido. Onfray sempre foi polêmico e agora vai na contramão da posição de outros ateus, como o famoso Bart Ehrman, segundo os quais a existência do Jesus histórico é inegável. Assista a alguns vídeos que apresentam a posição de dois outros filósofos, de uma bacharel em Teologia e doutoranda em Filosofia e de um pastor adventista. E tire suas conclusões.

[Clique aqui para ver os vídeos.]

Jesus veio como Adão antes ou depois do pecado?

jesus-christA pergunta do título deste post vem ocupando o tempo e os esforços dos teólogos por muitos anos. Quando o assunto é a divindade e a encarnação do Filho de Deus, é preciso tirar as sandálias e estudar o assunto com muita humildade, guiados pelo Espírito Santo, do contrário, conceitos errôneos poderão afetar não apenas nossos conceitos, mas também nosso comportamento e nossa vivência da religião. Ideias têm consequências, e isso é tão verdade com respeito à natureza de Cristo quanto com quase qualquer outro assunto que tem que ver com fé e teologia. Nosso relacionamento com Jesus Cristo e nosso conceito do que seja pecado e como vencê-lo igualmente dependem muito do que sabemos e pensamos a respeito de quem é o Mestre: Até que ponto Ele é nosso exemplo? Até que ponto Ele é nosso redentor? Como essas duas coisas se inter-relacionam? Essas perguntas merecem resposta – mas sempre tendo em mente as limitações de seres finitos limitados pelo pecado tentando compreender temas infinitos relacionados com um Ser eterno e sem pecado.

Entre os muitos textos em que Ellen White aborda o assunto biblicamente, há este: “Como um de nós, cumpria-Lhe dar exemplo de obediência. Para isso, tomou sobre Si a nossa natureza e passou por nossas provas. ‘Convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos’ (Hb 2:17). Se tivésse­mos de sofrer qualquer coisa que Cristo não houvesse suportado, Satanás havia de apresentar o poder de Deus como nos sendo insuficiente. Portanto, Jesus ‘foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança’ (Hb 4:15). Sofreu toda prova­ção a que estamos sujeitos. E não exerceu em proveito próprio nenhum poder que não seja abundantemente concedido a nós. Como homem, enfrentou a ten­tação e venceu-a no poder que lhe foi dado por Deus.”

Note que nos dois textos bíblicos citados por ela é usada a palavra “semelhança”. Semelhança não é igualdade. O ser humano foi criado à semelhança de Deus. Jesus veio com uma natureza humana que nós não possuímos, ou seja, moralmente perfeita, assim como a de Adão antes da queda. Fisicamente, Ele veio em desvantagem, afetado (não contaminado) por quatro mil anos de decadência humana, portanto, com a natureza de Adão depois da queda. Como segundo Adão, Ele veio para vencer onde o primeiro Adão caiu, só que com a desvantagem de não estar em um jardim, como o primeiro homem estava. Durante toda a Sua vida, e especialmente no deserto, Jesus sofreu as grandes tentações a que estiveram sujeitos Adão e Eva: apetite, dúvida da Palavra de Deus, autoconfiança, obtenção de poder. Jesus precisava vencer onde Adão caiu, não onde nós caímos. Ou Ele sofreu a tentação de ir a uma boate? De assistir a um filme impróprio? Pornografia? Drogas? Portanto, Ele não foi tentado em tudo como nós do século 21. Na verdade, foi tentado muito mais do que qualquer ser humano de qualquer época. Foi tentado a usar Seu poder divino em benefício próprio, coisa que nunca saberemos o que significa. Nossa vantagem é que, onde abundou o pecado, superabundou a graça. Podemos ser vitoriosos por meio dEle e aceitos nEle, mesmo com nossa obediência imperfeita, apenas semelhante à dEle (até porque mesmo nossas orações sobem ao Céu maculadas pela nossa natureza pecaminosa, conforme é explicado neste texto).

Seria possível ter um caráter “perfeito” (semelhante ao de Jesus), a despeito de possuirmos uma natureza pecaminosa até o dia da glorificação, na volta de Jesus? Uma coisa tem que estar necessariamente ligada à outra. Perfeição bíblica está intimamente relacionada com amor desinteressado, pureza, bondade, mansidão, enfim, vida cristã madura. E isso podemos alcançar por meio da íntima comunhão com Cristo, que é quem crucifica nossa natureza pecaminosa a fim de que ela não tenha precedência sobre a natureza “espiritual” que nos é implantada na conversão. É muito importante ler e compreender a mensagem do livrinho Santificação, de Ellen White. Nele ela diz que, assim como os saudáveis não se dão conta de sua saúde, os santificados não se dão conta de sua santidade. Muito pelo contrário, até: quanto mais próximos de Cristo, mais sentem sua pecaminosidade e carência da graça.

Para o estudioso da Bíblia Frank Mangabeira, quando o assunto é a natureza da humanidade de Cristo, “lidamos com um tremendo mistério (1Tm 3:16), que não pode ser abrangido totalmente pelos nossos termos técnicos teológicos. Nesse assunto, pisamos em solo sagrado e precisamos retirar as sandálias. Penso que, oficialmente, a Igreja Adventista tem avançado numa compreensão cada vez mais bíblica sobre a humanidade de Jesus. Esse assunto é muito importante, pois uma nublada compreensão dele pelos assim chamados pré e pós-lapsarianos compromete a compreensão do caráter de Deus e do plano da salvação. Por isso, precisamos estudar com oração esse tema, pedindo a ajuda do Espírito Santo, pois só Ele é capaz de desvendar perante nós as coisas celestiais. Só sei de uma coisa: tudo na natureza de Cristo, contemplada por mim, me levará a um senso de adoração e de ‘perfeição’ cristã sempre crescente, tendo em Sua perfeita justiça a base da minha santificação”.

Michelson Borges

Nota: Esse é um assunto realmente muito importante, apaixonante e que merece toda a nossa atenção. Sugiro dois livros para que você se aprofunde no tema: Ellen White e a Humanidade de Cristo, de Woodrow Whidden, e O Incomparável Jesus Cristo, de Amin Rodor. O vídeo abaixo é a primeira de quatro partes do estudo apresentado pelo Dr. Amin.

Jesus ressuscitou mesmo?

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