Cristo perdeu Sua onipresença ao encarnar?

Ao vir à Terra, Jesus assumiu um corpo humano; ao ascender ao Céu, levou consigo o corpo da ressurreição. Isso teria feito com que Ele perdesse um de Seus atributos divinos?

Jesus-Cristo

Ultimamente várias perguntas nos têm sido feitas para que esclareçamos se Cristo realmente perdeu Sua Onipresença. O problema surgiu destas duas circunstâncias: (1) a promessa de Cristo de enviar o Espírito Santo (João 14:16), e a declaração de Ellen G. White: “Embaraçado com a humanidade, Cristo não poderia estar em toda parte em pessoa. Era, portanto, do interesse deles que fosse para o Pai, e enviasse o Espírito como Seu sucessor na Terra”; (2) descuidadas notas de Lições da Escola Sabatina, as quais analisaremos nesta matéria.

Atributos divinos

Para compreender melhor o assunto, seria bom saber alguma coisa sobre os atributos divinos. Devemos distinguir entre a natureza de Deus e Seus atributos. A natureza de Deus constitui o Ser; os atributos revelam o Ser. Deve-se ainda notar que os atributos não são Deus, mas são os modos e as qualidades Dele. Várias classificações têm sido apresentadas: uns falam em atributos naturais e morais; um segundo grupo prefere falar em atributos absolutos e relativos. A mais comum, todavia, é falar em atributos incomunicáveis ou imanentes, e comunicáveis ou emanentes.

Atributos incomunicáveis são privativos de Deus, e não podem ser encontrados no ser humano: onipotência, onipresença, onisciência imutabilidade. Por outro lado, atributos comunicáveis são aqueles que a Divindade transfere ao ser humano, tais como: bondade, amor, justiça, paciência, longanimidade, misericórdia, etc.

Conhecendo o problema

A declaração de O Desejado de Todas as Nações, página 644 – “Embaraçado [ou limitado] com a humanidade…” – se explica por si mesma. Cristo, ao estar na Terra, era tanto Deus quanto Homem, mas tinha uma missão a cumprir exclusivamente como Homem, não podendo, portanto, utilizar-Se de Sua divindade para benefício próprio ou no cumprimento de tal missão. A prova de que a divindade estava Nele presente é que Sua maior tentação foi usar o poder divino que possuía (ver Mateus 4:1-11). Limitado pela humanidade, Ele não poderia estar em toda parte, mas, como divino, isso era perfeitamente possível.

Se, em Sua humilhação, Cristo não usou os atributos divinos independentemente do Pai, é evidente que, concluída essa fase na Terra, podia usá-los livremente. Tanto é que Seu primeiro ato após concluir Sua missão na cruz foi ressuscitar-Se a Si próprio pelo poder divino que possuía.[2]


Ensinar que Cristo perdeu a onipresença é mais uma das artimanhas do inimigo para diminuir o Salvador de Seu todo-suficiente sacrifício em nosso favor. Declarar que Ele perdeu a onipresença seria negar Sua divindade, uma das mais sérias heresias que a Igreja Cristã enfrentou através dos séculos, e enfrenta em nossos dias.

Cristo é Deus, pois o Novo Testamento assim o denomina sete vezes (João 1:1; 20:28; Romanos 9:5; Tito 2:13; Hebreus 1:8; 2 Pedro 1:1; João 5:20). Se é Deus, é perfeito, logo não pode ganhar nem perder nada. O pastor Daniel Porto declarou convincentemente: “É bastante eliminar um dos atributos de Deus para que Ele deixe de ser Deus.”[3]

Ampliando o problema

Quanto às notas de Lições da Escola Sabatina, três merecem destaque:

a) Dia 7 de abril de 1977: “Quando Jesus Se tornou carne, despiu-Se dos poderes da Divindade e Se tornou absolutamente dependente do Pai e do Espírito Santo.”

Não tive condições de averiguar se o verbo “despir-se” foi bem traduzido do inglês, ou se foi uma infelicidade de tradução. Despir-se é pôr de lado, abandonar, despojar-se. Jesus não deixou Sua natureza divina ao estar na Terra; Ele possuía as duas naturezas. De Divindade Ele passou à humanidade, esvaziou-Se, sem deixar de Ser Deus. Ellen White contesta a ideia de Cristo despir-Se ou despojar-Se da natureza divina:

“Jesus tomou a humanidade e a acrescentou à Divindade. Ele revestiu Sua divindade com a humanidade.”[4] “A Divindade e a humanidade combinaram-se misteriosamente, e o homem e Deus se tornaram um.”[5] “Cristo não podia ter vindo à Terra com a glória que possuía nas cortes celestiais. Seres humanos pecadores não suportariam vê-Lo. Ele velou Sua divindade com a roupagem da humanidade, porém, não Se desfez de Sua divindade.”[6]

Não Se desfazer da divindade é a maior prova de que também não Se desfez da onipresença.

b) Dia 11 de março de 1983: “Jesus, como Ser humano, está na presença de Deus no Céu, comparecendo ali por nós. Visto que Ele sempre continuará sendo humano, está restringido a um lugar no espaço e no tempo (ver O Desejado de Todas as Nações, ed. popular, p. 644).”

Como humano, Cristo estaria limitado pelo espaço, mas, como divino, jamais, porque Deus não pode ser limitado nem pelo espaço nem pelo tempo. Uma das provas conclusivas de não estar limitado pelo espaço se encontra em Seu aparecimento a dois discípulos no caminho de Emaús (Lucas 24:13-31), e aos outros em Jerusalém (Lucas 24:36, 37).

A publicação adventista Questões Sobre Doutrina (explicação de nossas crenças fundamentais, à página 77) afirma: “O fato de Cristo ter-Se tornado homem de modo algum fez com que Sua divindade fosse restringida ou subtraída.”

c) Dia 8 de setembro de 1986: “Visto, porém, que ‘Cristo levou Sua humanidade para a eternidade’ (Comentários de Ellen G. White, SDABC, v. 7, p. 925) e está restringido a um corpo humano e não pode mais estar presente em toda a parte como sucedia antes da encarnação, ‘Ele habita agora em Seus seguidores por meio do Espírito Santo’. […] É por meio do Espírito Santo que Cristo habita em nós” (deve-se notar bem que apenas o que se encontra entre aspas simples pertence a Ellen G. White; o restante é do autor da Lição).

Como igreja, é importante que não permitamos nenhum erro doutrinário entre nós. A afirmativa do autor da Lição – “…não pode mais estar presente em toda parte como sucedia antes da encarnação…” – não se harmoniza com outras declarações do Espírito de Profecia e com os ensinos das Escrituras.

A seguinte verdade deve ser lembrada: cada pessoa da Trindade desempenha específica função em benefício do ser humano, mas isso não significa que cada uma não possa desempenhar a função da outra.

Nas 50 proposições sobre nossas crenças e ensinos há esta: “Cremos que a Divindade, ou Trindade, consiste do Eterno Pai, Ser Pessoal, espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, Filho do Eterno Pai, através de quem todas as coisas foram criadas e por quem se realizará a salvação dos remidos; do Espírito Santo, terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador na obra da redenção (S.Mat.28:19).”[7]

A função de cada membro da Trindade é a seguinte: “Deus no trono do Universo, Jesus no trono da graça e o Espírito Santo no trono do coração humano trabalham para a nossa salvação.”[8]

O Pai provê, o Filho realiza e o Espírito Santo aplica. Concluir que Cristo, por conservar Seu corpo humano após a encarnação, perdeu a onipresença é errado, porque seria crer que Ele deixou de ser divino. “Cristo é Deus perfeito, mas nunca deixou de ser Homem perfeito, desde o momento da encarnação. O Ser que subiu ao Céu e está assentado à destra de Deus Pai é Homem e também Deus. Cristo é Homem perfeito, mas nunca deixou de ser Deus perfeito.”[9]

Referências bíblicas

Há inúmeras provas bíblicas da onipresença de Cristo:

Mateus 18:20: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, ali estou no meio deles.”

Hebreus 13:8: “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre.” Valiosa prova de que Cristo não poderia ter perdido nada está em Sua imutabilidade.

Os versos 19 e 26 de João 20 comprovam que Cristo, após a ressurreição, não estaria restringido a um corpo humano.

A declaração de Lucas (Atos 9:5) do aparecimento de Cristo a Paulo cientifica-nos de que Ele pode aparecer em qualquer lugar.

A maior evidência bíblica de que Cristo, tomando a natureza humana, não perdeu nada da divindade se encontra na conhecida declaração paulina: “Portanto Nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2:9). O Comentário Bíblico Adventista traz a seguinte nota sobre esse verso: “Em Cristo habita a soma total da natureza e dos atributos de Deus. Todas as funções e poderes da divindade residem continuamente Nele. Toda a plenitude de Deus é revelada em Cristo. A extensão do termo pleroma, ‘plenitude’, é sem limite no tempo, no espaço e em poder. Tudo quanto Deus é, cada qualidade da Divindade – dignidade, autoridade, excelência, poder para criar e sustentar o mundo, energia para manter e guiar o Universo, amor que levou a redimir o ser humano, presciência a fim de suprir todas as coisas necessárias a cada uma de Suas criaturas – repousa em Cristo.”[10]

Sobre Colossenses 1:19, afirma o mesmo comentário: “Em Cristo se encontra a perfeita expressão da Divindade de maneira completa e eterna.”[11]

Na carta aos colossenses, Paulo está condenando a heresia gnóstica, que não aceitava a plenitude da divindade de Cristo, apresentando-O como um semideus, destituído de alguns atributos divinos.

Colossenses 1:19 e 2:9 contestam hoje, frontalmente, conclusões errôneas a que chegaram membros de nossa igreja, por interpretarem mal declarações bíblicas e do Espírito de Profecia.

Esses dois versos seriam suficientes para provar que Cristo não perdeu o atributo da onipresença. Onipresença é propriedade inerente a Cristo, logo continuará existindo com Ele por toda a eternidade.

Não perdendo nenhum atributo em Sua humilhação, é evidente que, terminada essa fase, pode perfeitamente usar todos os atributos que Lhe são peculiares.

A Cristologia nos ensina que Cristo é onipresente, mas pode ser que nem sempre faça uso desse atributo. Não usar alguma coisa, todavia, não significa a sua perda.

No Espírito de Profecia

Além das citações já feitas, as seguintes declarações do Espírito de Profecia quanto à onipresença de Cristo também merecem ser destacadas:

“O pequeno grupo reunido para adorar a Deus no Seu santo dia tem direito a reclamar as bênçãos de Jeová e pode estar certo de que o Senhor Jesus será honroso visitante em suas reuniões.”[12]

“Não obstante a aparente vitória de Satanás, Cristo está levando avante Sua obra no Santuário celeste e na Terra.”[13]

“A divindade não foi degradada ou mutilada pela humanidade.”

Essas declarações seriam suficientes para dirimir qualquer dúvida que ainda paire na mente de alguém.

Conclusão

Por mais que alguém pesquise tanto na Bíblia quanto no Espírito de Profecia, não encontrará nenhum texto que dê margem à conclusão de que Cristo perdeu Sua onipresença ao tomar sobre Si a humanidade. Possuindo as duas naturezas, como humano não pode ser onipresente, mas como divino é Senhor de todos os atributos.

Demos graças a Deus por termos um Salvador perfeito, completo, banindo da mente a falsa ideia de um Cristo mutilado.

(Pedro Apolinário foi professor de Teologia no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia)

Referências:
1. O Desejado de Todas as Nações, p. 644.
2. O Desejado de Todas as Nações, p. 753.
3. Revista Adventista, março de 1984, p. 6.
4. Review and Herald, 5/7/1887.
5. Signs of the Times, 30/6/1896.
6. Review and Herald, 15/6/1905.
7. Questions on Doctrine, p. 45.
8. Revista Adventista, março de 1984, p. 7.
9. Comentário do Evangelho Segundo S. João, p. 15, J. C. Ryle.
10. Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 2, p. 202.
11. Ibidem, p. 193.
12. Testemunhos Seletos, v. 3, p. 27.
13. Obreiros Evangélicos, p. 26.
14. Review and Herald, 18/2/1890, citado em SDABC, v. 5, p. 918.

Nota de Michelson Borges: “Na Terra, Jesus ocultou Sua divindade (embora algumas vezes ela tenha irrompido através da carne). Aqui Ele não era onipotente, onisciente nem onipresente. Por quê? Porque tinha uma missão específica: vencer como ser humano onde Adão caiu. De volta ao Céu, missão cumprida, não faz sentido algum continuar ‘esvaziado’ de Seus atributos inerentes. Só porque mantém um corpo humano glorioso (identificação conosco, por amor), isso não quer dizer que estará para sempre limitado (um texto claro sobre isso não existe). O Espírito Santo é substituto de Jesus enquanto o conflito se processa, já que Cristo está no santuário celestial cumprindo outra função. Os Consoladores ‘trocaram de papel’. Mas o fato de Jesus estar no santuário não O limita àquele espaço. Prova disso é que, estando lá (‘vivendo SEMPRE para interceder [pelos pecadores]’), Ele apareceu a Saulo, João e tantos outros). Não podemos limitar Deus aos nossos esqueminhas mentais, nem defender a ideia absurda de que o Criador teria perdido atributos inerentes Dele. Isso beira a heresia. ‘Deus sempre foi. Ele é o grande EU SOU. […] Ele é infinito e onipresente. Nenhuma de nossas palavras pode descrever Sua grandeza e majestade’ (Ellen White, Olhando Para o Alto, p. 363).”

A data do nascimento de Jesus

Apresentamos a seguir um breve comentário a respeito da possibilidade de calcular com certa precisão a provável data do nascimento de Jesus, com base no ritual do santuário hebraico.

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Embora seja notório e patente que a data não foi o dia 25 de dezembro, por várias razões derivadas do contexto do relato bíblico, permanece a dúvida sobre qual teria sido a data exata que, por razões que ignoramos, não se encontra explicitada em nenhum documento histórico. Entretanto, não deixa de ser verossímil a possibilidade de o nascimento ter-se dado no dia da expiação do ano que pode ser calculado com precisão a partir do estudo das cadeias proféticas que se encontram reveladas no livro de Daniel. (Ver o livro O Profeta Daniel, o Cientista Isaac Newton e o Advento do Messias, publicado pela Sociedade Criacionista Brasileira.)

No primeiro livro de Crônicas, capítulo 24, é relatada a maneira adotada para a escolha, por sorteio, dos turnos que deveriam exercer o serviço sacerdotal no Templo: “Quanto aos filhos de Arão, foram eles divididos por seus turnos [v. 1]. […] Repartiram-nos por sortes, uns com os outros [v. 5]. […] Saiu a primeira sorte a Jeoiaribe [v. 7] […] a oitava a Abias [v. 10]. […] a vigésima-quarta a Maazias [v. 18].”

Havia, portanto, 24 turnos, cabendo a cada turno, no decorrer do ano, o exercício durante duas semanas. O oitavo turno, como visto, cabia à família de Abias (v. 10). Considerando, pois, o início do ano religioso no mês de Abib (março/abril), o oitavo turno dos sacerdotes corresponderia praticamente ao quarto mês (junho/julho).

Zacarias, marido de Isabel, mãe de João Batista, pertencia ao oitavo turno, ou seja, ao turno de Abias: “Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se chamava Isabel” (Lucas 1:5).

Zacarias e Isabel não tinham filhos até a velhice: “E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias” (Lucas 1:7).

Zacarias estava exercendo o sacerdócio quando lhe apareceu então o anjo Gabriel para anunciar-lhe a concepção de João Batista: “Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem de seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso” (Lucas 1:8, 9). “E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor. Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João.”

Seis meses depois, Gabriel também anuncia a Maria a concepção de Jesus: “No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria. […] O anjo lhe disse: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus” (Lucas 1:26-31).

O nascimento de Jesus ocorreria, então, nove meses depois, ou seja, quinze meses após Zacarias ter estado ministrando no Templo. Portanto, a partir do quarto mês do calendário religioso (mês em que Zacarias esteve ministrando no Templo, ou seja, junho/julho), contando-se quinze meses, chega-se ao sétimo mês do calendário religioso (setembro/outubro) como o mês do nascimento de Jesus. Sem dúvida, era esse um mês em que as condições climáticas eram propícias para “os pastores guardarem nos campos o seu rebanho durante as vigílias da noite” (Lucas 2:8).

O décimo dia do sétimo mês do calendário religioso – o Dia da Expiação – era um sábado de descanso solene “para fazer expiação por vós perante o Senhor vosso Deus” (Levítico 23:26-32). Teria sido esse o dia do nascimento de Jesus – Aquele que veio fazer expiação pelos nossos pecados – novamente o tipo encontrando o antítipo?

Querem transformar Jesus em Barrabás

O movimento progressista promove um reducionismo soteriológico ao idealizar o grande conflito entre o bem e o mal como fundamentalmente um embate opressor versus oprimido.

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Certamente você e eu já ouvimos inúmeros relatos, descrições e impressões a respeito da vida e da obra de Jesus de Nazaré. Neste período natalino, pode acontecer que, ao voltarmos os olhos para aquela manjedoura e nos depararmos com aquele pequeno Ser aparentemente indefeso, nos esqueçamos por alguns instantes de que aquela criança era o próprio Deus encarnado, e que dali pouco tempo literalmente dividiria o mundo entre antes e depois dEle. Fato é que nosso salvador foi retratado sob diversas perspectivas ao longo dos anos e das gerações. Ário (272-337), por exemplo, questionou Sua divindade. Um movimento denominado “adocionismo” O definiu como um “filho adotado” por Deus e coparticipante da natureza divina apenas após Sua ressurreição. O gnosticismo, por outro lado, levantou dúvidas quanto à humanidade de Cristo, enquanto outros movimentos e historiadores promoveram inúmeras inserções históricas no intuito de refutar Sua própria existência! Enfim, tem heresia para todos os gostos.

Mais recentemente e especialmente após o advento da Teologia da Libertação e suas ramificações, a figura de Jesus passa por um processo de reconstrução, supostamente com o objetivo de aproximá-Lo das realidades próprias aos seres humanos inseridos em um mundo desigual de tristeza e pecado. Essa “atualização” do Messias parte do pressuposto de que, como Libertador, Jesus precisa obrigatoriamente não apenas Se posicionar contra as injustiças e desigualdades sociais, mas empunhar a bandeira política e assumir a linha de frente no combate a tais realidades. O evangelho precisa, de acordo com essa visão, “cumprir de fato seu papel”.

O problema inerente a tudo isso é que talvez, até de forma inconsciente, os proponentes e adeptos desse evangelho essencialmente social não se preocupam em trazer à reflexão algum tipo de ética social cristã, mas estabelecer esse cenário como o único realmente fundamental no próprio contexto soteriológico. O chamado progressismo cristão bebe insaciavelmente das fontes teológicas igualitárias, além de fontes notoriamente marxistas, e naturalmente desenvolve uma teologia própria ao reduzir, por exemplo, os conceitos de “libertação” e “justiça” a fim de adaptá-los às suas concepções humanistas.

Perceba: não há nesse processo, uma tentativa de conciliar uma proposta real de aperfeiçoamento da verdadeira caridade cristã, mas, sim, de estabelecer uma nova hermenêutica da fé e, consequentemente, das Escrituras. Em síntese, uma total reformulação na compreensão da pessoa de Cristo e de Seus ensinos. E aqui adentramos um terreno minado e potencialmente fatal: a despersonalização do Messias divino, redentor do mundo e Sua reconstrução ideológica.

Os progressistas sistematicamente enfatizam o fato de Jesus ter sido um revolucionário, não necessariamente espiritual, mas especialmente político, o que, portanto, os leva ao entendimento de que a verdadeira libertação precisa invariavelmente acontecer pelas vias políticas.

Da mesma forma, a própria noção de pecado assume agora um caráter igualmente social, que não se vence exclusivamente por meio de uma renúncia pessoal, de arrependimento e novo nascimento à luz da Bíblia, mas pela “libertação do povo” pela luta política ou igualdade de classes (algo bem familiar, não é?). Outro ponto a se salientar é que geralmente seus simpatizantes e expoentes nutrem certa ojeriza em relação a quase tudo que está relacionado às instituições, mesmo aquelas às quais ao menos aparentemente estão vinculados, e sobre isso falaremos posteriormente.

Em suma, o movimento progressista promove um reducionismo soteriológico ao idealizar o grande conflito entre o bem e o mal como fundamentalmente um embate opressor versus oprimido.

(Adventismo Sólido; Instagram)

Série Sermão do Monte | Pr. Michelson Borges

Resenha crítica do livro Zelota, de Reza Aslan

O empenho do autor é desconstruir a figura do Jesus pacifista, amoroso e pregador de um reino eterno, e apresentá-Lo como um revolucionário.

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Reza Aslan é o autor do livro Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré. Ele é especialista em temas religiosos, formado em Harvard e na Universidade da Califórnia. Estudou o Novo Testamento, grego bíblico, história, sociologia e teologia das religiões. Nascido no Irã, ele vive entre Nova York e Los Angeles.

Aslan e seu livro alcançaram projeção e interesse e, consequentemente, tremendo sucesso editorial, depois de uma polêmica entrevista na rede de televisão americana Fox News, com grande audiência de cristãos de diferentes denominações nos Estados Unidos. Na entrevista, a jornalista Laura Green questionou duramente Aslan e perguntou como ele teve a ousadia de escrever um livro sobre Jesus, sendo muçulmano. A pergunta foi considerada preconceituosa e Aslan respondeu que escreveu o livro como acadêmico com doutorado e especializações em história das religiões e 20 anos de estudo das origens do cristianismo. Esse debate contribuiu para as vendas aumentarem quase 50%.

Em síntese, Aslan defende em seu livro o seguinte: Jesus, ao contrário do que pregam as denominações cristãs, não foi um pacifista que, diante da violência “oferecia a outra face” e amava os inimigos. Segundo Aslan, Jesus foi um revolucionário, cujo objetivo principal era expulsar os romanos da Judeia, criar um reino de Deus na Terra e assumir seu trono. Ele recupera com novas cores uma antiga versão de cristianismo – em voga nos anos 1960 graças à Teologia da Libertação, que misturava cristianismo com marxismo. Era um Jesus mais para Che Guevara do que para Madre Teresa de Calcutá. “Ele era um zelote revolucionário, que atravessou a Galileia reunindo um exército de discípulos para fazer chover a ira de Deus sobre os ricos, os fortes e os poderosos”, escreve Aslan no começo de seu livro.

Zelote é uma palavra derivada do aramaico. Significa “alguém que zela pelo nome de Deus”. Outra possível tradução para o termo é fervoroso, ou mesmo fanático. Sua origem está ligada ao movimento político judaico que defendia a rebelião do povo da Judeia contra o Império Romano. Os zelotes pretendiam expulsar os romanos pela força.

O empenho do autor em sua argumentação supostamente embasada pela História é desconstruir a figura do Jesus pacifista, amoroso e pregador de um reino eterno, e apresentá-Lo como um revolucionário disposto a reverter a ordem e Se estabelecer como rei dos judeus liderando-os na libertação do jugo romano.

Porém, as convicções de Aslan esbarram em limitações que ele procura resolver com uma argumentação especulativa. Procura preencher a falta de dados com suposições, visto não encontrar registros históricos suficientes. O irônico é que a fonte principal do autor é o próprio evangelho que ele procura desmerecer como fonte fidedigna. Empenha-se ao máximo para desfazer a concepção cristã acerca do Jesus que, diante de Pilatos, afirmou: “O Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

O teólogo Martin Goodman, professor de história romana em Oxford, observa que “o problema não é Aslan ser muçulmano ou ser iraniano. O problema é que ele usa uma tese ultrapassada e desacreditada como se fosse uma verdade absoluta”.

A revista Época, ao comentar a respeito do livro, analisa assim: Aslan escreve de modo fluente e coloquial sobre complexas discussões acadêmicas e transforma densos emaranhados filosóficos em narrativas emocionantes. Mas seu livro apenas prova como é difícil tentar ligar a compreensão do cristianismo à história de Jesus – um personagem de traços e características que O diferenciam profundamente dos seres humanos comuns.

(Alceu Nunes é pastor adventista aposentado e ex-editor da Casa Publicadora Brasileira)

Jesus como chave hermenêutica? De que Jesus estamos falando? Não é do Jesus da Bíblia!

Jesus e as Escrituras

Não há o menor indício de que Jesus ficasse apontando possíveis inconsistências nas Escrituras ou tentasse diminuir a importância ou autoridade delas

Jesus-Synagogue

No deserto, Jesus venceu a tentação por meio do “Está escrito!” (Mt 4:4, 7, 10). No sermão inaugural em Nazaré, Ele usou Isaías para apresentar Suas credenciais messiânicas (Lc 4:17-21). No Sermão do Monte, deixou claro que viera não para anular a Lei e os Profetas, mas para obedecer-lhes (Mt 5:17); segundo Ele, enquanto durassem os céus e a terra, as Escrituras permaneceriam (v. 18). Ao saber da prisão de João Batista, Jesus novamente utilizou Isaías (Mt 11:10), além de Malaquias (v. 14), para exaltar o ministério de Seu precursor. Nas disputas com os escribas e fariseus, Ele os repreendia por violarem os mandamentos de Deus (Mc 7:6-8), reafirmava o conteúdo das Escrituras (Mt 19:3-9) e por meio delas justificava Suas ações (Mt 21:12-16, 42; Mc 2:24-28). Quando testado por um mestre da Lei, Jesus mais uma vez recorreu às Escrituras (Lc 10:26), deixando claro que o que “está escrito” continuava válido (v. 28).

O mesmo acontecia nos debates com os saduceus (Mt 22:23-32). Jesus sempre defendeu os mandamentos de Deus (Mt 19:16-22) e esclareceu, recorrendo a Moisés, que o princípio da obediência é o amor (22:34-40). Ao aproximar-Se de Jerusalém, onde em breve seria crucificado, disse que as profecias messiânicas referentes à Sua morte seriam todas cumpridas (Lc 18:31).

Na última semana antes da cruz, Ele continuava apelando às Escrituras para legitimar Suas ações (Mt 21:13). Na última ceia com os discípulos, voltou a reconhecer a autoridade das Escrituras ao Se submeter ao Seu destino profético (Mt 26:24). Pouco antes de deixarem o cénaculo, citou o profeta Zacarias para explicar o que os aguardava (v. 31). Na cruz, usou os Salmos para expressar o temor da eterna separação do Pai (Mt 27:46). Após a ressurreição, repreendeu os discípulos por não crerem “em tudo” o que estava escrito a Seu respeito na Lei e nos Profetas (Lc 24:25-27). E pouco antes de ascender aos céus, uma vez mais ressaltou a importância das profecias (vv. 44-47), dizendo que elas deveriam ser a base da pregação e do testemunho apostólico (v. 48).

Não há o menor indício de que Jesus ficasse apontando possíveis inconsistências nas Escrituras ou tentasse diminuir a importância ou autoridade delas.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

Cristocentricidade ideológica

Cristo é o Centro do Texto e de nossa vida; ler e estudar TODO o cânon fortalece nosso conhecimento pleno Dele

Jesus

Infelizmente, a mercantilização e ideologização da religião tem colocado Cristo como mais um produto em exposição na prateleira do self-service religioso. Wayne Meeks afirmou: “Como uma marca de xampu promete uma solução para o cabelo crespo, uma marca de detergente a solução para uma roupa amarelada, um novo modelo de carro a resposta para a solidão e (indiretamente) desejo sexual, então Jesus é a resposta para qualquer coisa que você deseje. Sem dúvida, Jesus Se transformou no que quer que você deseje, uma marca que serve para tudo, uma resposta para todas as necessidades, desejos, fantasias e especulações” (2007, p. 10).

Nesse sentido, quando se fala em “cristocentricidade”, é fundamental explicar o que se quer dizer com esse termo, o que se pretende com esse conceito. Não podemos negar que Cristo é o centro do Texto, sendo seu Significado e Significante. Todavia, George Gunn (2013, p. 1) nos alerta para o fato de que a prática excessiva e descuidada de interpretação cristocêntrica entre os reformadores levou-os, por exemplo, a extremos verificados nas interpretações tipológica e alegórica. Nesses surtos teológicos, o símbolo superou a Essência; a foto superou a Pessoa.

O que fazer?

É verdade que “a enormidade da vida de Jesus fala-nos ainda hoje” (Flusser, 1997, p. 23). Mas é também verdade que desvincular Sua vida e Suas obras de toda a Escritura é um enorme perigo. Afinal, toda a Escritura (AT e NT) testifica de Jesus; mas isso parece ser frequentemente negligenciado (Williams, 2012, p. 9).

Cristo é o Centro do Texto e de nossa vida; ler e estudar TODO o cânon fortalece nosso conhecimento pleno Dele.

(Adolfo Suarez, Instagram)


Bibliografia:

FLUSSER, D.; NOTLEY, R. S. Jesus. Jerusalem: Magnes Press, 1997.

GUNN, G. The Christocentric Principle of Hermeneutics and Luke 24:27. 2013.

MEEKS, W. A. Cristo É a Questão. São Paulo: Paulus, 2007.

WILLIAMS, M. How to read the Bible through the Jesus lens: a guide to christ- focused reading of scripture. Grand Rapids: Zondervan, 2012.

“Vá e não peque mais” ou “Vá embora”?

A história ainda fala de nossos pecados, e do mesmo e único jeito para resolver seus problemas: e não é refazer a definição divina de pecado, mas ir e não pecar mais

Jesus-e-a-mulher-adúltera

Admira-me a facilidade com que informações equivocadas são propagadas hoje em dia nas mídias sociais, às vezes justamente por aqueles que deveriam saber. Nesse caso, desconhecimento não é desculpa. A história da mulher flagrada em adultério (Jo 8:1-11) é um dos mais sublimes exemplos do amor perdoador de Jesus. Por ser sem pecado (v. 48), Jesus era o único que poderia haver atirado alguma pedra nela. Em vez, disso Ele a perdoou. Mas a história não termina aqui, em que pesem os esforços de alguns em dizer que a frase “vá e não peque mais” não é original. O que se alega é que essa frase teria sido acrescentada posteriormente por moralistas cristãos insatisfeitos com o tratamento que Jesus deu à pobre mulher.

A informação simplesmente não é verdadeira. Não há um único manuscrito grego (ou latino) que tenha a história e que omita a frase final de Jesus. Além disso, essa não teria sido a única vez em que Jesus mostraria compaixão por alguém e recomendasse que ele não pecasse mais (Jo 5:14).

Dois pontos aqui são importantes. O primeiro é que a tentativa de “açucarar” o evangelho como se ele não exigisse nenhuma resposta de nossa parte é uma grave distorção. Quando Deus salva, Ele salva “do pecado”, não “no pecado”. A Bíblia é clara: o perdão é um dom de Deus, mas ele deve ser aceito mediante uma atitude de arrependimento e conversão (At 3:19). Isso significa que o perdão deve provocar mudanças (Rm 6:15; Ef 2:8-10; Tg 2:11, 12), levar a uma vida de obediência e santidade (Rm 6:16-22).

O segundo ponto é que a vitória sobre o pecado não é uma realização humana. É divina (Fp 2:13; 1Ts 5:23). Mas somos nós que escolhemos o que queremos para nossa vida. Sem nossa vontade e nosso comprometimento (1Co 9:27; Fp 2:12), Deus nada poderá fazer – e que ninguém diga que é fácil tomar tempo para a oração e o estudo da Bíblia. Nesta vida, jamais seremos perfeitos, mas estaremos cada dia exercitando nossa vontade, escolhendo e fazendo aquilo que permita que Deus continue Sua obra em nós (Rm 12:1, 2; 1Co 16:13). Ou seja, “vá e não peque mais” é tanto parte do evangelho quanto “também eu não a condeno”.

(Dr. Wilson Paroschi, Instagram)

O Cristo que conheci nas páginas das Escrituras disse a uma mulher pecadora: “Vá e não peque mais.” Palavras poderosas que contêm tanto libertação quanto compromisso: “vá” indica liberdade, movimento e vida. Ela não estava mais presa nas mãos de captores, nem condenada à morte. Ela podia ir. “Não peques”, exigindo compromisso, comprometimento e mudança de caminho e vida. Sua direção do caminhar e a direção de sua vida não podiam ser as mesmas de onde vinha. Ela não poderia incluir o pecado que até ali tinha sido seu principal escravizador. Eram palavras de compromisso que levavam à Vida.

Mas alguns, não podendo suportar o peso do compromisso e a responsabilidade existentes e exigidos nessas palavras, acrescentaram “eu também não te condeno”. Acrescentaram porque para eles Jesus NÃO pode ser tão desumano a ponto de condenar alguém por pecados, ou mesmo exigir que eles sejam abandonados. Acrescentaram às palavras do Legislador que liberta palavras que eximem. Eximem de uma realidade que, de fato, nem mesmo existe, porque pecado é apenas um conceito fluído, vazio, uma oportunidade de Deus demonstrar todo o Seu poder e toda a inutilidade daquele monte de palavras de condenação da aliança levítica e do reino imprestável da Lei. Afinal, o que vale não é o que está escrito, mas o que eu penso que deveria estar escrito.

Não amigos, nenhuma palavra foi acrescentada nesse relato de João 8. É fato que não foi o apóstolo João quem o escreveu, mas a história ali contada é verdadeira, veraz e verídica (pleonasticamente proposital). Cristo SIM perdoou aquela mulher. E isso é graça que alcança. Mas também exigiu dela esforços para não mais pecar. E isso é resposta. Aliás, toda a Escritura é construída em torno desse maravilhoso binômio: ação divina => resposta humana. Nessa ordem. A cada ação divina deve corresponder uma resposta humana, fundamentada na compreensão de nossa pecaminosidade e da graça salvadora de Deus. A disparidade da ação divina é, então, apreciada e a única resposta é a fidelidade a essa ação, cuja existência se baseia na normatividade da aliança (Dt 31:15ss; Jo 14:15ss).

As Escrituras apresentam de forma clara, indelével e absoluta a realidade do pecado. Não há relativização. O que foi outrora pecado, como adultério, homossexualidade, assassinato, idolatria, hipocrisia, é ainda pecado hoje. E não adianta a lógica de uma exegese estrábica tentar desfazer essa realidade. Você pode até não aceitar que seja pecado, mas precisa declarar então que não crê na Bíblia como Palavra de Deus, ou não crê em Deus. Não tente usar o amor de Deus para diminuir o ódio dEle pelo pecado. Ele amou o povo de Israel, mas em nenhum momento redefiniu o que era pecado, para poder eximir Seu povo de seus erros. Eles estavam errados, eram pecadores, mas continuavam sendo amados por Deus. Eles foram mandados para o exílio, entregues a um povo estranho, mas eram ainda objeto do amor de Deus, que não os eximia, nem reduzia o pecado e o extinguia ou redefinia, mas apresentava o perdão como meio para escapar da condenação e a graça para viver longe do pecados e de seus efeitos.

Deus não mudou! Sua palavra não mudou! Sua vontade não mudou! O que Ele disse ser pecado segue sendo pecado! O que o desagradava e Ele abominava segue ainda sendo de Seu desagrado e também abominável, quer a sociedade moderna aceite quer não. A história ainda fala de nossos pecados, e do mesmo e único jeito para resolver seus problemas: e não é refazer a definição divina de pecado, mas ir e não pecar mais.

(Pr. Sérgio Monteiro; Facebook)

Cristo verdadeiro vs. Cristo ideologizado

Há cerca de dois mil anos, uma perspectiva equivocada a respeito do Messias praticamente desabilitou toda uma nação a recebê-Lo. Séculos depois, em prol de uma “nova e humana visão” de evangelho, essa perspectiva ressurgiu praticamente nos mesmos termos anteriores, a de um Messias fundamentalmente revolucionário, sócio-libertador, cuja própria teologia se define primariamente como libertária. O transcendente, o sobrenatural, o divino, a revelação profética e a própria parousia, tudo isso precisa ser contextualizado, atualizado e recolocado em seu “devido lugar”, ou seja, em uma espécie de segundo plano.

A pobreza social ou os desafortunados da sociedade não devem ser vistos como objeto da verdadeira caridade cristã, mas como agentes de sua própria libertação. A partir desse pressuposto, a pregação dá lugar à militância (destra ou canhota, tanto faz…), os evangelhos dão lugar aos tratados sociológicos, e Cristo é retirado de Seu trono para ocupar uma cadeira no Congresso ou no Senado.

Fato é que no Salvador encontram-se todas as respostas; fato é que repousa sobre Sua igreja a solene e obrigatória responsabilidade de atenuar o sofrimento de todos quantos lhes for possível alcançar. Fato é que, como instituição divina, Seu povo deve, sim, se levantar contra tudo o que promova desigualdade ou atente contra a vida humana, em todos os seus aspectos. Mas triste fato (atestado pelo próprio Cristo) é que a injustiça social, a fome e a miséria invariavelmente serão companheiras de jornada em um mundo corrompido pelo pecado e pela rebelião contra Deus. O Messias que libertaria o povo do jugo romano não cumpriu as expectativas, foi além. Potencializou um reino de paz, uma eternidade que, para ser definitivamente estabelecida, precisa promover não uma simples reestruturação social, mas uma restauração global.

A esperança que transcende, a fé que sustenta, o amor que transforma… tudo isso deve ser fundamentado em uma visão sóbria e um entendimento claro a respeito das promessas de Jesus. Ele voltará em breve, não para ocupar um palanque na ONU, mas Seu verdadeiro lugar. Até lá, que esse reinado seja construído e acariciado em cada coração.

(Matheus Amaral)