Jesus era bruxo? A Bíblia é um livro de magia? Bruxos cristãos?!

jesus bruxoA primeira convenção anual de bruxos cristãos será realizada em abril, em Salem, Massachusetts, e contará com o internacionalmente reconhecido “profeta” Calvin Witcher, que concorda com o anfitrião da convenção que Jesus era um feiticeiro e que a Bíblia é um “livro de magia”. A reverenda Valerie Love, a força por trás do evento, que se descreve como uma bruxa cristã e ministra da consciência espiritual, lançou recentemente a Escola de Mistérios da Aliança Cristã para ajudar os cristãos a usar a magia, condenada como “perigosa”. Ela insiste que não há nada errado com a ideia de cristãos praticarem magia, apesar das advertências bíblicas contra ela.

Em uma longa discussão com Witcher cerca de dois meses atrás, sobre a conciliação entre a prática de bruxaria e o cristianismo, ele, cujo website diz que “traz mensagens de Deus para a humanidade através do poderoso ensino e da formação, permitindo que os seguidores não tradicionais ouçam a voz divina de esperança”. “A Bíblia é um grande livro de feitiçaria. Você literalmente não pode contornar isso. Você não pode contornar Jesus sendo um mago. Não tem jeito”, disse Witcher. […]

Witcher [para quem os milagres de Jesus são, na verdade, bruxaria], que se descreve como um crente em Cristo que ainda fala em línguas de sua formação na igreja pentecostal, disse […]: “Minha formação no pentecostalismo realmente me colocou em uma boa base. Nós tínhamos ferramentas. Fizemos óleos de unção, xales de oração, demonologia foi ensinada muito regularmente, pelo menos nos meus círculos. Então essas conversas não eram estranhas. Conversamos sobre os dons do espírito… entrar em magia era uma sequência muito fácil. […] A única coisa que fiz foi expandir esse poder específico fora dessa prática em particular”, disse ele sobre sua entrada total no reino da magia. […]

No último dia do [encontro de bruxos “cristãos”], o domingo de Páscoa, as bruxas também se reunirão para o primeiro culto na igreja. […]

 (Portalpadom)

Nota: Como se não bastassem aqueles que reinterpretam e distorcem a Bíblia para fazer com que ela concorde, por exemplo, com a nefasta teologia da prosperidade (como o pastor que afirmou que Jesus tinha uma mansão à beira-mar) ou com práticas homossexuais (algo claramente condenado no Livro que narra a criação do homem e da mulher e a instituição do casamento entre os dois), agora num cúmulo de relativismo e de distorção, há os que querem unir o imiscível: bruxaria e cristianismo. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos são muito claros quanto a essa prática:

“Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti” (Deuteronômio 18:0-12).

“As obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gálatas 5:19-21).

É preciso haver muita desonestidade intelectual para ler textos como esses e afirmar justamente o contrário do que eles dizem. Deus respeita a decisão dos seres que Ele criou. Quer extorquir os fiéis da sua igreja dando um péssimo testemunho do que é cristianismo? Ok, faça, mas lembre-se de que um dia o juízo vem. Quer fazer sexo com pessoas do mesmo gênero, você é livre para ir adiante. Quer praticar a bruxaria, idem. Mas Deus não nos dá o direito de adulterar Sua Palavra para tentar fazer com que ela afirme o que condena. Isso não! [MB]

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O dia em que meu testemunho incomodou (a quem não devia)

13Recentemente postei no meu Instagram a foto ao lado com parte do meu testemunho de conversão e de abandono de hábitos que me afastavam de Deus (leia o texto completo aqui). Tudo o que fiz foi falar do processo de libertação do meu vício em filmes/cinema, músicas pop/rock e histórias em quadrinhos de super-heróis. Mas foi o que bastou para que fãs desse tipo de conteúdo (só posso pensar que sejam) me criticassem por, segundo eles, estar sendo “irresponsável”. E por quê? Porque estaria induzindo meus seguidores a se tornarem críticos de cristãos que gostam dessas coisas e não veem problemas nelas. Uma dessas pessoas que reagiu ao meu post chegou a sugerir que eu seria perfeccionista! Logo eu, que de vez em quando escrevo e falo contra essa heresia (veja aqui um exemplo)! Mas é curioso notar que basta alguém mencionar algo sobre vegetarianismo, cuidados com os conteúdos midiáticos, vestuário, etc. e a ala comportamentalmente liberal já vai rotulando de “perfeccionista” (por isso mesmo escrevi tempos atrás um texto sobre o que não é um perfeccionista). Não é preciso ser perfeccionista para querer fazer o que é certo pelo motivo certo.

O jovem me disse que o mais importante é pregar sobre Jesus, que o Espírito Santo “faz o resto”. Tive que ler a obviedade de que Cristo é o centro da nossa mensagem, mas pensei: se nada mais deve ser dito em nossa pregação, devemos rasgar o Antigo Testamento e boa parte do Novo (sem contar os livros de Ellen White [Ellen quem?!]), afinal, a Bíblia contém muitas e muitas orientações para os convertidos. Se for assim, se devemos abraçar essa pregação evangelicalista diluída do amor é tudo, é melhor colocar a “viola adventista no saco”, e que o último dito remanescente ex-povo da Bíblia apague a luz ao sair. Será que estamos nos esquecendo do porquê estamos aqui? Será que as três mensagens angélicas de Apocalipse 14 ainda fazem algum sentido? Pra que Deus teria suscitado um movimento restauracionista no século 19, se já havia tantas boas igrejas por aí? Estamos nos divorciando das nossas raízes, da nossa identidade e navegando ao sabor das ondas do “espírito do tempo”. Só que, como escreveu Chesterton, aquele que se casa com o espírito do tempo acaba se tornando muito em breve um viúvo.

Sim, Jesus é o centro de nossa fé. Somos salvos pela graça e o Espírito Santo vai nos mostrando o caminho. Só que, para alguns, esse caminho é uma experiência pessoal e ninguém tem nada a ver com isso. Se a música, os filmes (e nunca disse que todos os filmes não prestam) e os quadrinhos me afastam de Deus, que eu os deixe, mas que não diga isso aos outros, afinal, há pessoas que assistem a maratonas de séries, gastam fortunas com quadrinhos de super-heróis e adoram um cineminha, mas não deixam a igreja. Não devo nem posso julgar ninguém, mas se não existem mais normas, critérios, orientações inspiradas, escancaramos de vez a porta para o relativismo e o secularismo. Aí teremos que aguentar tudo o que passará por ela. Tornaremos o caminho estreito uma rodovia com dez pistas bem pavimentadas.

Um dos meus críticos tem idade para ser meu filho, no entanto, escreveu palavras duras e me aconselhou a não ser tão irresponsável e a saber separar o meio do conteúdo. De minha parte, jamais trataria alguém mais velho dessa forma, ainda mais em público e na página dele. Mas a minha geração é outra. Aprendíamos a respeitar os mais velhos, coisa que os meninos pós-modernos têm esquecido. Sabíamos separar a pessoa de seu argumento, para não cair no ad hominem. Discutam-se ideias, respeitem-se as pessoas.

Quanto ao meio e ao conteúdo, antes de esse moço entrar para a escola primária eu já produzia histórias em quadrinhos cristãs e de cunho apologético. Ou seja, usava o meio (quadrinhos), sem precisar consumir o conteúdo (HQs da Marvel, por exemplo). Além disso, faz mais de uma década que mantenho um blog criacionista, uma conta no Twitter, uma página no Facebook e um canal no YouTube. E ele vem me falar em meio e conteúdo?! Temos que utilizar os meios, é óbvio, mas quem disse que preciso consumir todos os conteúdos veiculados por esses meios?

Retomando o outro ponto: há cristãos hoje que parecem ter esquecido de que a justificação é seguida da santificação. De que o verdadeiro convertido sempre pergunta a Deus como pode servi-Lo mais e melhor. Esquecem também de que reavivamento é seguido de reforma, e que cristianismo sem mudança de vida é como árvore que não dá fruto. Efésios 5:8 passa longe das diretrizes deles, afinal, a maior “diretriz” é o amor. Faça o que você sente e quer, e nada é errado se lhe faz feliz.

Curiosamente, na mesma noite em que, cansado de um dia atarefado, tive que dialogar com esses críticos e adeptos do “fogo amigo”, recebi o seguinte e-mail: “Olá, Michelson. Conheci a mensagem adventista faz três anos. Quando isso aconteceu eu tinha acabado de passar por uma fase complicada em minha adolescência, durante a qual fiquei viciado em conteúdos pornográficos e meu gênero musical preferido passou a ser eletrônica e pop, entre outras. Atualmente estou na igreja, mas é complicado demais eu não poder fazer o que gostava. Tento ficar o mais longe possível, mas isso está gerando muita aflição, principalmente a música. Acho muito bonita sua história de superação.” (Bem, pelo menos esse teve algum benefício ao ler minha “história de superação” e se sentiu motivado a me escrever.)

Perguntei ao meu crítico o que ele faria nesse caso. O que diria ao rapaz. Resposta: ajudá-lo a buscar comunhão e relacionamento com Deus. Bem, isso é óbvio. Recomendou-me também que dissesse ao jovem que ele parasse de focalizar sua luta e olhasse para Jesus. Isso também é o que tem que ser dito. Depois emedou: “O que ele fazia o afasta de Deus? Então deixe de fazer.” Aqui está o erro sutil. Não é o que ele fazia que o afasta de Deus. Pornografia e músicas “mundanas” afastam qualquer um de Deus, mesmo que alguns não admitam, pois gostam do pecado. O rapaz precisa, sim, buscar Jesus, mas deve também abandonar as coisas que o afastam dEle. De nada adianta remar para frente e para trás. O barco ficará parado.

Naquela noite fui dormir pensativo, pois nunca pensei que meu testemunho incomodaria a quem não devia ter incomodado.

Michelson Borges

A última geração não vai pecar?

segunda vindaO pessoal que vive preocupado com isso merece a resposta de Jesus a Pedro: “Se Eu quero que ele fique até que Eu venha, que te importa a ti? Segue-Me tu” (João 21:22). Fico pensando: Que vantagem há em pregar sobre essa geração ou mesmo ficar preocupado com esse assunto? Que me importa se os justos vivos por ocasião da volta de Jesus terão pecado ou não? Nem sei se eu farei parte desse grupo, afinal, posso morrer antes. E se fizer, com certeza as circunstâncias em que estiver vivendo serão bem diferentes das atuais (e não estou defendendo a ética e o comportamento circunstanciais). O que ocorre é que simplesmente não faz diferença para mim, agora, ficar preocupado com isso. “Segue-Me tu” deve ser a minha maior preocupação, e dizer como Paulo: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus” (Filipenses 3:12). Tenho muita coisa com que me preocupar no presente para ficar antecipando preocupações futuras.

Alguns são tão obcecados por temas como a última geração, vitória sobre o pecado, caráter perfeito e afins, que acabam ficando conhecidos por causa dessas ênfases – e depois reclamam de ser chamados perfeccionistas. Que esmurrem o corpo e o reduzam à servidão, mas não fiquem alardeando isso por aí nem dando a impressão de que cristianismo é uma espécie de ascetismo autoflagelante. Preguem a volta de Jesus, a salvação em Cristo, as três mensagens angélicas. Sejam conhecidos como cristãos adventistas e não perfeccionistas. Que o mundo não nos veja como “o povo do não pode”, mas como o povo livre em Cristo, que vive a religião e não a sofre; que guarda os mandamentos de Deus por amor e não obrigação.

Quando essa religião, essa experiência com Deus for real para nós, será natural e prazeroso buscar o estilo de vida correto para ter saúde pelo motivo certo; será natural e lógico usar roupas condizentes com o caráter de alguém puro, embaixadores e embaixatrizes do Céu; será natural procurar entretenimentos saudáveis que ajudam a edificar o caráter e não nos afastam de Deus. Enfim, será natural e não precisaremos ficar alardeando santidade, afinal, o santo, como o saudável, nem se dá conta de sua condição. Na verdade, sabe que é alguém carente da graça e do poder de Deus para tudo.

Claro que há o extremo oposto a esse que descrevi acima. Há os que não dão a mínima para a reforma que se segue ao reavivamento. Pregam a religião do amor sem compromisso e da salvação incondicional e automática – se é que pensam nisso. Para esses o pecado é algo inevitável e, portanto, é inútil o esforço para viver vida santa.

O que fazer para não cair no extremo do liberalismo comportamental nem do fanatismo perfeccionista? Temos que atender ao chamado de Cristo e seguir o exemplo de Paulo: “Segue-Me tu” e “prossigo para o alvo”. Vida cristã é caminhada com o Mestre. É prosseguir, ainda que caiamos aqui e acolá. É não desistir e clamar por força do Alto para imitar o Modelo.

Como será a última geração? Que me importa? Se eu seguir Jesus poderei descobrir pessoalmente. Até lá, prossigo.

Michelson Borges

Quando o futebol vira religião

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Exercício físico e esportes são bons hábitos e ninguém nega isso. Mas, quando se tornam uma obsessão (como outras coisa mais), o problema se instala. Há quem frequente academias apenas para postar selfies do corpo bombado, ficando a saúde física e o bem-estar emocional em segundo ou terceiro planos, em detrimento da vaidade. Há também aqueles que vivem para o futebol, por exemplo. Não apenas jogam por diversão ou acompanham um time como forma de entretenimento. Não. Para esses, o tema futebol absorve a maior parte do tempo e das atenções. Vivem falando sobre isso. Fazem do esporte uma verdadeira religião. Sabedores disso, os dirigentes do Corinthians resolveram escancarar o que já se sabia… Veja só a notícia veiculada no site do SportTV:

“O Corinthians lançou na noite desta segunda-feira, no programa ‘Bem, Amigos’, do SporTV, sua nova campanha de marketing, batizada de ‘Corinthianismo – Fiel até o fim’. Com a ação, o Corinthians pretende reforçar e resgatar alguns de seus valores, como o lado sofredor da torcida, que encara o clube como uma religião. […] Além do vídeo, ‘Corinthianismo – Fiel até o fim’ conta com dez mandamentos cravados em pedra instalada na Arena Corinthians, santinhos entregues à torcida, terço próprio e ações nas redes sociais. O Timão também lançará um site com uma vela que o torcedor pode acender para mandar energia positiva ao clube, um confessionário digital, no qual o fiel pode revelar o que já fez pelo Timão em texto, áudio ou vídeo, e um livro com a doutrina e história do corinthianismo (com milagres, peregrinações e cânticos).”

Veja o vídeo e constate a blasfêmia:

Vou deixar claro: não gosto de futebol. Quando muito, assisto às partidas da Seleção Brasileira em final de Copa do Mundo. Creio que esse desinteresse venha lá da infância. Meu pai foi jogador profissional. Jogou no Figueirense de Florianópolis e em outros times. Mesmo com mais de 70 anos, ainda joga com amigos e é considerado craque. O filho não. É um verdadeiro perna-de-pau. Mas reconheço que o futebol, como brincadeira, tem lá suas vantagens, tanto que muita gente acha que meu pai tem menos de 60. Acontece que minha mãe, minhas irmãs e eu sempre vimos a bola como uma concorrente, disputando conosco a atenção e o tempo do marido/pai. Será que reside nisso minha desmotivação pelo esporte que caracteriza meu país? Os psicólogos que me expliquem…

Bem, o que me levou a essas reflexões anos atrás (revividas agora pelo Corinthianismo) foi a reportagem que eu havia ouvido na rádio Band News, quando retornava de Florianópolis para Tatuí. Passando por Curitiba, sintonizei a emissora e ouvi o jogador Roberto Carlos dando entrevista sobre sua então recente contratação pelo Corinthians. O discurso foi o mesmo de sempre: promessas de amor eterno à camisa, etc., etc. Então, um dos dirigentes do time soltou a pérola: “Agora Roberto Carlos vai vestir o manto sagrado branco e preto.” Manto sagrado?! É essa devoção que me tira do sério e não o meu “trauma de infância”. Pode acreditar.

Fico triste quando ouço jovens cristãos falando com empolgação das conquistas do time para o qual torcem, mas sem entusiasmo pela missão da igreja. Podem mencionar a escalação completa da equipe esportiva, inclusive de anos passados, mas mal sabem o nome dos doze apóstolos. Gastam somas consideráveis em dinheiro na compra de camisetas oficiais e outros souvenires, mas relutam em dar ofertas. Parece que se esqueceram do que significa ser cristão; que cremos numa verdade capaz de abalar o mundo – afinal, nosso Mestre é Deus que Se fez homem, morreu numa cruz para nos salvar e prometeu voltar!

É como diz o texto de C. S. Lewis, que li no Devocionário de Bolso Um Ano Com C. S. Lewis, da Editora Ultimato, página 11: “Acreditar em um ‘Deus impessoal’ – tudo bem. Em um Deus subjetivo, fonte de toda a beleza, verdade e bondade, que vive na mente das pessoas – melhor ainda. Em alguma energia gerada pela interação entre as pessoas, em algum poder avassalador que podemos deixar fluir – o ideal. Mas sentir o próprio Deus, vivo, puxando do outro lado da corda, aproximando-se em uma velocidade infinita, o caçador, rei, marido – é outra coisa.”

Se os cristãos mantivessem comunhão com esse Deus real, que fala, guia, ilumina e ama, não teriam mais tempo nem disposição para se envolver com futilidades e, pior, idolatrias. Enquanto a Verdade liberta (João 8:32), o vício (de qualquer espécie) escraviza.

Marx dizia que a religião é o ópio do povo. Discordo, pois a verdadeira religião tem a capacidade de libertar. Mas que há muitos opiáceos disfarçados por aí, isso há. E o “futebolópio” pode muito bem ser um desses. E olha que narcotiza multidões!

O manto sagrado é a justiça que Cristo quer colocar sobre nós, não a alienação promovida por um esporte que poderia ser saudável, se não tivesse sido transformado em pão, circo e culto religioso.

Michelson Borges

Leia também: “Para CBF, futebol serve à ‘desinformação do povo’” e “Diga não ao futebol, sim à família”

Deus matou Boechat?

BoechatDesculpem, amigos, mas não creio que Deus derrubou o helicóptero e matou o Boechat e seu piloto. Isso mais parece uma atitude de cristãos que desejam se vingar de quem não crê como eles. Recentemente uma van capotou e matou um grupo de irmãos que voltavam de um culto especial. Não ficou ninguém vivo. Pergunto: Nesse caso, Deus Se vingou do quê? Acredito que se Deus fosse punir todo mundo que não crê nEle ou zomba do evangelho, pouca gente ficaria viva, inclusive, ou principalmente, nas igrejas.

O Deus que mata para punir anula a própria graça que Ele mesmo oferece à humanidade. Não foi o Boechat que morreu por causa de Cristo, foi Cristo quem morreu por causa do Boechat. Morreu por quem crê e por quem não crê. Morreu também pelo piloto que nem teve câmeras para divulgar sua fé ou seu ateísmo. A Bíblia é bem clara: o Julgamento é final. Esse julgamento que muitos crentes antecipam nas redes sociais, acusando Deus de matar o jornalista, ofende ao Senhor gravemente! É ofensa, zombaria e blasfêmia contra o nosso Deus. Desqualifica Seu amor, Sua Graça e Seu perdão. Estamos colando em Deus nossa raiva! Colocamos nosso coração irado para pulsar no peito de Deus.

Prefiro não questionar se Boechat está salvo ou não. Não cabe a mim especular tal coisa. Desejo, francamente, encontrá-lo no Céu um dia. E se não encontrá-lo, que não seja por sentença minha. Não posso condená-lo ao inferno que tanto rejeito, nem posso agregá-lo ao Céu que tanto desejo. Mas não nos preocupemos: todos nós teremos essa confirmação mais cedo ou mais tarde… em um endereço ou em outro.

Nota: O texto acima, escrito por Edvaldo Almeida Júnior, faz pensar e evidencia a atitude absurda de cristãos que se atrevem a julgar o destino das pessoas. Se Boechat foi punido por seu ateísmo, por que o ateu militante estridente Richard Dawkins continua vivo? Por que os blasfemos do Porta dos Fundos também ainda não bateram as botas? E o que dizer dos atores do Projaquistão que debocharam do nascimento virginal de Jesus? O problema é que, como escreveu o autor do texto, muitos sedizentes cristãos afirmam esse tipo de conjectura com uma satisfação sádica escondida sob zelo religioso. Talvez se tivessem poder pra justiçar supostos ímpios promoveriam massacres e tragédias a torto e a direito.

Por outro lado, é evidente que Deus faz punições. Lembre-se do dilúvio, de Sodoma, do faraó e seu exército, de Jezabel e Ananias e Safira. O problema é que muitos cristãos viram no jornalista ateu essa ação e julgaram que foi Deus quem puniu. Como sabem disso? O autor exalta o amor (o que está certo) e se esquece da justiça (o que está errado).

Como não somos oniscientes e não podemos sondar os pensamentos, as emoções e intenções de ninguém, é temerário portar-se como um meirinho que assessora as decisões divinas e compartilha com os outros seus pretensos oráculos.

Em momentos como esse, se não tiverem algo positivo e edificante a dizer, a melhor coisa que cristãos ou não cristãos podem fazer é ficar calados.

Leia também: Um Deus sanguinário?

No limiar da sétima trombeta, à espera do falso Cristo

etJá faz tempo que não sabemos discernir muito bem entre a verdade e a ficção. Vivemos em uma época de vida virtual versus vida real, entre o fake e o fato, entre o simulado e o autêntico. É como se a revolução causada pelas tecnologias da comunicação trabalhasse mesmo a favor da manutenção da dúvida a respeito daquilo que é e daquilo que aparenta ser. Longe de ser um mero pensamento filosófico, refiro-me ao que está diante dos nossos olhos anunciando o que há de vir. Engana-se quem pensa que apenas um ou outro grupo religioso aguarda por um determinado advento. Em um planeta tão populoso e variado, há diversas maneiras de interpretar a chegada inesperada de um possível ser cósmico.

Para o cientificismo

 Para grandes nomes da ciência, em especial da física teórica, é bastante aceita a ideia de que o Universo, vasto como é, abriga vida inteligente em outros planetas, galáxias, dimensões. Não se trata apenas de vida, o que poderia se resumir a um ser unicelular, por exemplo. Trata-se de vida inteligente, ou seja, seres mais “evoluídos” e civilizações mais avançadas.

Michio Kaku, físico teórico norte-americano e professor universitário, é muito popular, especialmente por sua abordagem futurística da física. Além disso, ele é co-criador da teoria de campos de corda, um ramo da teoria das cordas, que viria para ajudar na explicação da chamada Teoria de Tudo, buscada por diversos físicos ao longo da história, incluindo Albert Einstein.

Para esse renomado cientista, as descobertas via satélite que revelam a existência cada vez maior de planetas e estrelas apontam para vida inteligência no espaço exterior. Ele diz:

“Sou um físico e quando nós físicos procuramos civilizações alienígenas, não procuramos homenzinhos verdes; procuramos consumo de energia, procuramos civilizações do tipo 1, 2 e 3. Uma civilização do tipo 1 teria poder sobre o planeta inteiro como o controle do clima, dos oceanos, dos vulcões, terremotos. Uma civilização do tipo 2 controlaria a energia de uma estrela; eles brincam com estrelas, eles são imortais, nada conhecido pela ciência (eras glaciais, meteoros, cometas, etc.) poderia destruir a civilização 2, pois eles poderiam mudar seu planeta de lugar, reacender sua estrela ou achar uma nova estrela no espaço. Já a civilização 3 seria galáctica, isto é, ela controlaria a própria produção energética da própria galáxia, sendo capaz de controlar a energia plank, que é o ponto em que o espaço pode se tornar instável, o que poderia abrir caminhos de minhoca e o acesso a outras dimensões. Nós somos o tipo 0 ainda, por isso, talvez, não sejamos muito interessantes ainda para que seres de outros locais no espaço façam contato. Talvez em 2100 consigamos ser uma civilização tipo 1, pois já temos a Internet, que é um sistema de comunicação tipo 1, dentre outras coisas como um só idioma, uma só economia, etc.” (veja o vídeo).

Para esse e muitos outros cientistas de grandes universidades, o contato compreensível com seres inteligentes de outros planetas, estrelas ou galáxias é questão de tempo. Assim que avancemos em tecnologia e em um modo de vida mais organizado, isso ocorrerá naturalmente.

Para o ufologismo

 Os ufólogos possivelmente representam a classe de pessoas mais envolvida com a crença de que seres extraterrestres não só existem, mas desejam fazer contatos inteligentes conosco. Para Ademar Gevaerd, editor da revista Ufo, os ETs – mais uma vez não se trata de seres gosmentos ou com tentáculos, mas, sim, de seres parecidos conosco, com braços, pernas, olhos – já estão entre nós, mas que também por uma deficiência nossa, dos terráqueos, algo mais expressivo ainda não aconteceu. Ele diz:

“Precisamos levar em consideração que estamos sendo visitados por muitas civilizações há muito tempo. Algumas delas são tão parecidas conosco, pois também são humanas, que se em visita a nós, entrasse em um supermercado, por exemplo, dificilmente notaríamos que não é daqui, exceto por ter uma saúde perfeita, nenhuma ruguinha, nenhum cabelinho branco, nenhum grama de peso a mais. Eles não se apresentam ou falam diretamente conosco porque nós ainda não somos tão evoluídos como eles, mas eles estão sempre aqui nos visitando” (veja o vídeo).

Para o espiritualismo

 Espiritualistas diversos entendem que a existência de seres extraterrestres coaduna perfeitamente com o pensamento cristão, a doutrina de Allan Kardec e pesquisas relacionadas à ufologia, tudo dentro do discurso do espiritualismo universalista.

Para eles, os habitantes do planeta terra em breve devem ser reintegrados às demais civilizações cósmicas. Tão logo ocorra a regeneração do amor em nós, faremos parte da cidadania planetária.

Apesar de hoje fazermos parte de um todo, assim como eles, segundo esse ponto de vista há muito tempo nosso espírito adoeceu e perdeu a condição necessária para viver em harmonia com outras civilizações cósmicas, por isso estamos aqui isolados.

Rogério de Almeida Freitas, assinando sob o pseudônimo de Jan Vall Elam, é autor de centenas de livros sobre esse assunto. Ele diz:

“Já está chegada a hora da nossa reintegração cósmica com o nosso mundo. E esse momento deve ser marcado pelo primeiro contato oficial com esses seres. Não há nenhum cientista terreno ou extraterreno que possa dizer o dia, hora, minuto que o fruto cairá da árvire, porém sabe-se que o tempo é chegado, porque o fruto já está maduro. Esse fruto é a volta de Cristo, do príncipe da paz. Ele vem vestido de sua autoridade celeste e cercado por sua hoste angelical para presidir esse momento de reintegração cósmica” (veja o vídeo).

E o que nós temos a ver com isso?

 Os cristãos também aguardam o retorno de Jesus, aliás, essa é a maior promessa dEle, na qual mártires do passado, do presente e do futuro se apoiaram, apoiam e apoiarão. No entanto, a maneira escatológica como encaramos os eventos que precedem a vinda de Cristo faz toda diferença para distinguir o certo do errado. Ellen G. White diz:

“Na conclusão do conflito, todo o cristianismo ficará dividido em dois grandes grupos: os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus, e os que adoram a besta e sua imagem, e recebem o seu sinal. Embora Igreja e Estado unam o seu poder para obrigar a todos, ‘pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos’ (Apocalipse 13:16), a receberem o sinal da besta, o povo de Deus não o receberá” (Conselhos Para a Igreja, p. 39).

Mas a pergunta é: Se esperamos pelo mesmo evento, por que haverá dois grupos? Se todos esperam por Cristo, por que alguns Ele não reconhecerá? Afinal de contas, estaríamos esperando pelo mesmo Cristo?

Jesus, enquanto esteve entre nós, advertiu: “Se, então, alguém lhes disser: ‘Vejam, aqui está o Cristo!’ ou: ‘Ali está ele! ’, não acreditem. Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos. Vejam que Eu os avisei antecipadamente. Assim, se alguém lhes disser: ‘Ele está lá, no deserto! ’, não saiam; ou: ‘Ali está ele, dentro da casa! ’, não acreditem. Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem’” (Mateus 24:23-27).

Satanás personifica a Cristo

 “Como ato culminante no grande drama do engano, o próprio Satanás personificará Cristo. A igreja tem há muito tempo professado considerar o advento do Salvador como a realização de suas esperanças. Assim, o grande enganador fará parecer que Cristo veio. Em várias partes da Terra, Satanás se manifestará entre os homens como um ser majestoso, com brilho deslumbrante, assemelhando-se à descrição do Filho de Deus dada por João no Apocalipse. (Apoc. 1:13-15.) A glória que o cerca não é excedida por coisa alguma que os olhos mortais já tenham contemplado. Ressoa nos ares a aclamação de triunfo: ‘Cristo veio! Cristo veio!’” (Eventos Finais, p. 163).

“O povo se prostra em adoração diante dele, enquanto este ergue as mãos e sobre eles pronuncia uma bênção, assim como Cristo abençoava Seus discípulos quando aqui na Terra esteve. Sua voz é meiga e branda, cheia de melodia. Em tom manso e compassivo apresenta algumas das mesmas verdades celestiais e cheias de graça que o Salvador proferia; cura as moléstias do povo, e então, em seu pretenso caráter de Cristo, alega ter mudado o sábado para o domingo, ordenando a todos que santifiquem o dia que ele abençoou” (O Grande Conflito, p. 624).

“Ele se proclama o Cristo, e é aceito como tal, um ser imponente e belo, revestido de majestade, com voz suave, palavras agradáveis e uma glória não superada por coisa alguma que olhos humanos já contemplaram. Então os seus enganados e iludidos seguidores soltam uma exclamação de vitória: “Cristo veio pela segunda vez! Cristo veio! Ele levantou as mãos assim como fazia quando esteve na Terra, e nos abençoou” (Eventos Finais, p. 164).

 Nem tudo que reluz é ouro

 Diferentes tipos de pessoas em todo o mundo aguardam pelo retorno de Jesus ou de um ser extraterrestre que venha nos reintegrar à harmonia cósmica. Qual será a nossa resposta diante disso? À Bíblia e ao Espírito de profecia; à lei e ao testemunho!

“Se os homens são tão facilmente transviados agora, como subsistirão eles quando Satanás personificar a Cristo, e operar milagres? Quem ficará inabalado então por suas deturpações – professar ser Cristo quando é apenas Satanás assumindo a pessoa de Cristo, e operando aparentemente as obras do próprio Cristo?” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 394).

“Os santos precisam alcançar completa compreensão da verdade presente, a qual serão obrigados a sustentar pelas Escrituras. Precisam compreender o estado dos mortos; pois os espíritos de demônios lhes aparecerão, pretendendo ser amigos e parentes amados, os quais lhes declararão que o sábado foi mudado, bem como outras doutrinas não escriturísticas. (Primeiros Escritos, p. 87).

Maranata! Cristo (o de verdade) logo vem!

Ágatha Lemos é jornalista, pós-graduada em Teologia, mestre em Ciência e uma entusiasta de temas cósmicos e escatológicos.

Diante de tantas tragédias, onde está Deus?

brumadinhoPense nas coisas mais desastrosas e terríveis que aconteceram no mundo ou na sua vida recentemente. Dizer que o mal existe e que nós sofremos no planeta terra é como chamar um cavalo de cachorrinho. Não é exagero dizer que o tópico que une toda a humanidade e nos caracteriza como moradores deste mundo é o mal e o sofrimento que nos sobrevêm. Esse tema tem sido o assunto de milhares de livros, entrevistas, jornais e revistas ao longo de décadas. Porém, qual o problema disso quando estamos falando sobre a defesa da existência de Deus? Qual o problema do mal? O problema é que os teístas (pessoas que acreditam em Deus) creem que Deus é: Bom e ama a todos os seres humanos, portanto, Ele deseja livrar as criaturas que ama do mal e do sofrimento. Onisciente, portanto, Ele sabe como livrar Suas criaturas do mal e do sofrimento. Onipotente, portanto, Ele é capaz de livrar Suas criaturas do mal e do sofrimento.

Com essas informações, entendemos que Deus quer acabar com o sofrimento, Ele sabe como e pode fazer isso. Porém, se o que vemos no mundo com mais abundância é o mal e o sofrimento, logo, Deus não pode existir, ou Ele não é como nós cremos que Ele seja.

Vamos a um exemplo simples disso. Eu tenho um cachorro. Um animal de que gosto muito; tenho um carinho muito grande por ele. Para esse cachorro, sou a doadora do alimento, todas as manhãs e noites. Eu quero que ele viva, sei quando ele está com fome e tenho o poder em minhas mãos para levar o alimento até ele. Porém, vamos dizer que passo uma semana sem dar ração para o meu cachorro. O que isso significa? Ou eu não me importo com ele tanto quanto digo, ou não sei quando meu cachorro está com fome, ou não tenho o poder para lhe dar alimento. Estranho, não? Se primeiramente afirmei que tinha todas essas características, como isso não é verdade agora?

Muitas pessoas, observando esta realidade, desistem do teísmo cristão como uma crença viável e se tornam ateias e naturalistas. Os naturalistas creem que nada existe fora do nosso mundo natural, material e mecânico. Tudo é sem propósito e não há um criador e mantenedor de todas as coisas. A dificuldade de utilizar o problema do mal para transferir sua crença ao naturalismo foi vista no artigo anterior. Vamos relembrar. Com o argumento do mal, a pessoa está afirmando claramente que existe o mal no mundo. Se alguém acredita que existe o mal, também está pressupondo que exista o bem. Mas se diz que existem o bem e o mal, está implicitamente afirmando que existe uma lei moral que diferencia o bem do mal. E se existe uma lei moral, existe um doador da lei moral. Se esse doador da lei moral não existe, a lei moral também não existe. Se a lei moral não existe, não existe uma forma de distinguir o bem do mal. Se não existe uma forma de saber, então o bem e o mal na realidade não existem e o argumento é destruído em si mesmo! Portanto, um argumento que era primariamente para ir contra a existência de Deus, na realidade, é um argumento a favor dEle.

De alguma forma, portanto, precisamos de um meio para mostrar que a existência do mal e do sofrimento no mundo é coerente com a crença em Deus. Vamos fazer isso em seguida.

Primeiramente, você pode concluir de forma lógica que as informações que demos sobre o problema do mal não são contraditórias, de forma alguma. Como? Quando uma informação é contraditória em relação à outra, aquela tem que ser o exato oposto desta. Isso é lógica. Portanto, o cristianismo só seria contraditório se dissesse que: (1) Deus é todo bondoso; (2) Deus é onipotente; (3) Existe mal no mundo; (4) Não existe mal no mundo.

Obviamente não é isso que estamos querendo dizer. Por isso, quando alguém afirma que as três primeiras premissas são contraditórias, isso não é verdade. Como diria o filósofo William Rowe, professor emérito de Filosofia na Purdue University, em Indiana, nos EUA, e crítico do teísmo cristão: “Alguns filósofos sustentam que a existência do mal é logicamente incoerente com a existência do Deus teísta. Ninguém, creio eu, tem obtido sucesso em estabelecer essa extravagante afirmação. De fato, há um razoável argumento para a visão de que a existência do mal é logicamente coerente com a existência do Deus teísta.”[1]

Em segundo lugar, precisamos ter certeza de que as duas premissas de Deus ser todo poderoso e bondoso sejam cuidadosamente definidas. Por isso, se colocarmos a lógica de forma diferente, podemos ver o problema do mal de outra forma:

1. Deus existe, é onipotente, onisciente, onibenevolente e criou o mundo.

2. Deus criou um mundo que agora contém o mal e tem uma boa razão para isso.

3. Portanto, o mundo contém o mal.

Agora sim, temos uma formulação lógica e não contraditória. Só resta saber se a proposição 2 é verdadeira e se tem base para existir na lógica que construímos. Para isso, entra a pergunta “Por que então Deus permite o mal?”. A realidade é que, se cremos em um Deus infinito em sabedoria e onisciente comparado a nós que temos mente finita e extremamente limitada, não precisamos necessariamente saber a resposta. Saber as respostas para perguntas a respeito das intenções e dos planos de Deus é como a história do menino à beira do mar levando e trazendo um baldinho cheio de água até o buraco que havia feito na areia. Um homem que estava passando lhe perguntou: “O que você está tentando fazer, menino?”, e ele respondeu: “Estou trazendo toda a água do mar para dentro deste buraco na areia.” Tentar entender as intenções de Deus não raramente é como tentar colocar o infinito dentro do nosso pequeno “buraco na areia”. Porém, faremos aqui uma pequena tentativa de explicação com as experiências que percebemos no mundo.

Primeiramente, precisamos estabelecer uma diferenciação entre dois tipos de “mal”. A maioria das pessoas concordaria que existe (1) o mal que é causado pela ação ou a falta de ação do ser humano, ou seja, um sofrimento que é consequência das escolhas feitas por outras pessoas, como alguém que morreu por levar um tiro de um bandido, e (2) o mal natural, que não é resultado das escolhas humanas, como terremotos, tornados e doenças. Vamos verificar os argumentos para esses tipos de mal.

Liberdade e livre-arbítrio

Lembro-me de ter tido uma conversa com um ateu amigo meu que havia visitado o território de Ruanda fazia pouco tempo. Relembrando os lugares por onde ele havia passado, contou-me sobre o momento em que o guia contou uma história terrível. O próprio guia havia sido um dos capturados no tempo do genocídio que ocorreu em 1994, em Ruanda, por ser tutsi, o grupo étnico que estava sendo perseguido e morto, na ocasião. Ele descreveu que num momento estava em uma fila de tutsis que seriam executados no local exato em que meu amigo estava pisando, e o homem do lado dele estava orando fervorosamente a Deus para que fosse salvo daquele momento, só para logo em seguida receber um tiro na cabeça. Meu amigo concluiu perguntando-me: “Como você pode acreditar em um Deus que permite que esse tipo de coisa aconteça?”

Deus quer apenas o bem do ser humano, por ser Sua criatura e por amá-lo tanto. Por que, então, Deus não destrói o mal? Por que Ele não impediu que aquelas 500 mil pessoas fossem mortas no genocídio de Ruanda ou em tantas outras situações?

Se cremos que Deus fez o ser humano à Sua imagem e semelhança, cremos que Deus nos fez com a habilidade de escolher entre o certo e o errado: tomar decisões morais. Isso quer dizer que podemos decidir fazer, falar ou pensar tanto coisas ruins quanto coisas boas, sem que Deus interfira nessas decisões. Para que Deus destruísse o mal, Ele teria que ignorar e retirar completamente a habilidade de suas criaturas de introduzir o mal neste mundo. Assim fazendo, também retiraria a habilidade do ser humano de fazer o bem, e, portanto, sua habilidade de amar. Dessa forma, retirando a habilidade de fazer o mal e o bem, Deus retiraria do mundo a habilidade de amarmos a Ele próprio. Acreditar que Deus nos concede livre-arbítrio e ao mesmo tempo acreditar que Ele deveria intervir sempre que acontece o mal é negar essencialmente nossa liberdade. Deus nos criou como seres livres, e acreditar que essa liberdade deve ser controlada fica muito aquém da coerência.

Como bem disse C. S. Lewis, em seu livro O Problema do Sofrimento: “Tente excluir a possibilidade do sofrimento que a ordem da natureza e a existência do livre-arbítrio envolvem, e descobrirá que excluiu a própria vida.”

Isso nos leva a outro elemento. Muitos então se perguntam: “Por que Deus não criou o ser humano já possuindo a habilidade de escolher apenas o certo?” Perguntar por que Deus não nos criou apenas para escolher o certo é pedir que Deus seja contraditório. Que Ele não siga as regras que Ele próprio criou: a do livre-arbítrio e a da liberdade de Sua criação. Um amor que é compelido ou persuadido não é amor. Portanto, grande parte da maldade que vemos no mundo é causada única e exclusivamente pelas escolhas e decisões do ser humano. Certa vez, G. K. Chesterton, importantíssimo poeta e pensador do século passado, respondeu da seguinte forma a um artigo publicado no jornal The Times que perguntava “O que há de errado no mundo?”: “Querido senhor, em resposta ao seu artigo ‘O que há de errado no mundo?’ – Eu sou. Com carinho, G. K. Chesterton.”[2]

O objetivo de Deus

Precisamos, também, tentar entender um pouco daquilo que parece ser mostrado na Bíblia como o objetivo maior de Deus para o ser humano. Costumamos pensar que, já que Deus nos ama e quer o nosso bem, o objetivo maior seria a felicidade. Frequentemente dizemos: “Deus quer me ver feliz, portanto, vou fazer aquilo que me faz sentir bem!” Essa afirmação é contraditória em relação àquela que vemos na Bíblia. Como?

Realmente, Deus quer que tenhamos felicidade completa, já que Ele é onibenevolente, como a Bíblia diz. Porém, a felicidade que Ele deseja para nós não é passageira e finita como aquela que podemos ter em nossos 70-90 anos de vida aqui neste mundo. A Bíblia é muito explícita em seu direcionamento fundamental para a vida eterna oferecida por meio da salvação. Uma das formas que Deus aparentemente tem de levar o ser humano a reconhecê-Lo e a Sua vontade é por meio do sofrimento, assim levando-o eminentemente à vida eterna, onde, aí sim, ele será completamente feliz. Se crêssemos que Deus deseja nosso conforto e felicidade suprema aqui nesta vida, sim, teríamos problemas com a existência do mal, porém, por esse não ser o caso, a existência do mal não é um problema.

Você já se perguntou por que a crença e a adoração a Deus são mais notáveis nos países em que há maior sofrimento e dor? Muitos ateus utilizam esse fato para dizer que são os países mais pobres e, portanto, menos educados que creem mais em Deus e seguem mais a religião. Porém, a professora de filosofia da Universidade de Saint Louis, Dra. Eleonore Stump, faz uma importante afirmação a respeito dessa informação: é a maldade no mundo que nos leva cada vez mais a admirar e nos sentir atraídos à enorme bondade de Deus. Ao contrário do que se pensa, de que o sofrimento nos distancia de Deus, ele nos leva para mais perto dEle.[3]

Crescimento na adversidade

Pensemos no sofrimento que pode ser visto num hospital. Se pararmos para pensar em todos os procedimentos dolorosos e assustadores que são feitos num ser humano lá, concluiríamos que não seria bom levar aqueles que amamos para aquele lugar. Mas, mesmo assim, os levamos sabendo que haverá alguma coisa para minimizar ou mesmo eliminar o sofrimento. O tratamento no hospital faz com que as pessoas vivam mais tempo e com mais qualidade de vida. Na doutrina cristã é a mesma coisa. O que redime, muitas vezes, nosso sofrimento aqui na Terra é um relacionamento melhor com Deus, uma vida de acordo com a vontade dEle e, consequentemente, uma vida eterna com Ele.

Existem estudos em psicologia clínica que avaliam as consequências da bruta maldade na vida de pacientes. O que se encontrou foi uma regeneração em suas vidas, chamada de “crescimento da adversidade” ou “crescimento pós-traumático”. Muitos relatam que, depois de um terrível acontecimento como câncer de mama e ataques sexuais, paradoxalmente, sua vida se torna muito melhor. Numere pelo menos um aprendizado para sua vida que você tirou do prazer. Consegue pensar em um? Agora pense em um aprendizado que você tirou do sofrimento. Já fez uma lista em sua cabeça, não é? Não desenvolvemos coragem sem medo; não sabemos o que é perseverança sem obstáculos; não sabemos como ser humildes sem ter que servir; e não existiria compaixão se ninguém tivesse dor ou alguma necessidade. As dificuldades e obstáculos em nossa vida são a fonte número um das nossas virtudes e dos nossos aprendizados. Assim, vemos que Deus usa poderosamente o sofrimento para o nosso maior bem.

E o que dizer dos sofrimentos para os quais não vemos resultado ou objetivo imediato? Por que Deus os permite? De forma simplória, o ser humano não tem o conhecimento exaustivo de tudo o que acontece no Universo, e, portanto, não pode determinar quanto mal é necessário para revelar o bem final.

O Deus que entende

Há aqueles que dizem que Deus parece ser um Ser extremamente distante, que, se existe, não Se interessa de qualquer forma pela vida e o sofrimento humano. O que esses se negam a enxergar é que a visão cristã do mundo diz exatamente o contrário. O sofrimento de Jesus mostra que Deus não está desinteressado ou omisso em relação ao nosso sofrimento. Pelo contrário, Ele justamente quis participar das mesmas dores e sofrimentos e quis dar a solução para eles.

Aqueles que analisarem as diferentes religiões e filosofias perceberão que a cosmovisão cristã é a única que aceita a existência do mal e do sofrimento, e oferece tanto a causa como o propósito desse sofrimento, ao mesmo tempo em que dá a força divina para suportar e passar por ele.

Ainda assim, sempre teremos a tentação de querer entender o mal no mundo, e muitas vezes é fácil falar teoricamente a respeito da dor, mas no momento em que ela bate à nossa porta, se torna muito mais difícil lidar com o problema. Por que perdi meu pai para um câncer? Por que minha família não tem o que comer? Por que meu filho teve que morrer sem nenhum motivo aparente?

Jó foi um personagem bíblico que ficou perturbado por muitos meses com questionamentos como esses. Perdeu tudo o que tinha; perdeu todos os filhos e perdeu a saúde – tudo em questão de alguns dias. Enquanto ele passou todo o livro tentando entender o porquê, no fim, em vez de Deus responder da forma como ele queria, Deus o confronta com perguntas que ele não sabia responder. Vejamos a incrível conclusão do livro de Jó, no capítulo 42:

“Então Jó respondeu ao Senhor: Agora eu compreendo que o Senhor pode fazer tudo que quiser e que ninguém pode impedir o Senhor de realizar Seus planos. O Senhor perguntou quem foi o ignorante que tentou negar a Sua sabedoria e justiça; fui eu, Senhor. Falei de coisas que eu não entendia, coisas que eu não conhecia, pois eram maravilhosas demais para mim. O Senhor me disse: Escute-me e Eu lhe farei algumas perguntas que você deve responder. Agora eu respondo: Somente agora eu conheço o Senhor de verdade! Antes eu só O conhecia de ouvir falar. Por isso, eu me arrependo de meu orgulho e me cubro de terra e de cinza para mostrar minha tristeza” (Jó 42:1-6, BV).

É como se Deus dissesse a Jó: “Filho, você nem mesmo entende como Eu controlo o mundo físico que você consegue ver, então como vai entender o mundo moral extremamente mais complexo que você não consegue enxergar – um mundo onde o resultado de bilhões de livre-escolhas feitas por seres humanos todos os dias interagem umas com as outras?”

Se fosse perguntado a respeito, ninguém iria querer passar por sofrimento, mas quando vemos o que esse terrível sentimento pode fazer por nós e pelo nosso caráter, reconhecemos que talvez realmente exista um plano maior, que não conseguimos ver nem entender. E, por incrível que pareça, houve uma pessoa que escolheu sofrer. Uma dor muito maior que qualquer situação pela qual tenhamos passado. E essa pessoa é o seu Deus. Quem melhor para entender o que este mundo enfrenta?

Marina Garner Assis é formada em Teologia pelo Unasp e doutoranda em Filosofia

1. William Rowe, The Problem of Evil and Some Varieties of Atheism, p.335
2. Citado em Philip Yancey, Soul Survivor, p. 58
3. Eleonor Stump, The Mirror of Evil, p. 240, 242