Cristo perdeu Sua onipresença ao encarnar?

Ao vir à Terra, Jesus assumiu um corpo humano; ao ascender ao Céu, levou consigo o corpo da ressurreição. Isso teria feito com que Ele perdesse um de Seus atributos divinos?

Jesus-Cristo

Ultimamente várias perguntas nos têm sido feitas para que esclareçamos se Cristo realmente perdeu Sua Onipresença. O problema surgiu destas duas circunstâncias: (1) a promessa de Cristo de enviar o Espírito Santo (João 14:16), e a declaração de Ellen G. White: “Embaraçado com a humanidade, Cristo não poderia estar em toda parte em pessoa. Era, portanto, do interesse deles que fosse para o Pai, e enviasse o Espírito como Seu sucessor na Terra”; (2) descuidadas notas de Lições da Escola Sabatina, as quais analisaremos nesta matéria.

Atributos divinos

Para compreender melhor o assunto, seria bom saber alguma coisa sobre os atributos divinos. Devemos distinguir entre a natureza de Deus e Seus atributos. A natureza de Deus constitui o Ser; os atributos revelam o Ser. Deve-se ainda notar que os atributos não são Deus, mas são os modos e as qualidades Dele. Várias classificações têm sido apresentadas: uns falam em atributos naturais e morais; um segundo grupo prefere falar em atributos absolutos e relativos. A mais comum, todavia, é falar em atributos incomunicáveis ou imanentes, e comunicáveis ou emanentes.

Atributos incomunicáveis são privativos de Deus, e não podem ser encontrados no ser humano: onipotência, onipresença, onisciência imutabilidade. Por outro lado, atributos comunicáveis são aqueles que a Divindade transfere ao ser humano, tais como: bondade, amor, justiça, paciência, longanimidade, misericórdia, etc.

Conhecendo o problema

A declaração de O Desejado de Todas as Nações, página 644 – “Embaraçado [ou limitado] com a humanidade…” – se explica por si mesma. Cristo, ao estar na Terra, era tanto Deus quanto Homem, mas tinha uma missão a cumprir exclusivamente como Homem, não podendo, portanto, utilizar-Se de Sua divindade para benefício próprio ou no cumprimento de tal missão. A prova de que a divindade estava Nele presente é que Sua maior tentação foi usar o poder divino que possuía (ver Mateus 4:1-11). Limitado pela humanidade, Ele não poderia estar em toda parte, mas, como divino, isso era perfeitamente possível.

Se, em Sua humilhação, Cristo não usou os atributos divinos independentemente do Pai, é evidente que, concluída essa fase na Terra, podia usá-los livremente. Tanto é que Seu primeiro ato após concluir Sua missão na cruz foi ressuscitar-Se a Si próprio pelo poder divino que possuía.[2]


Ensinar que Cristo perdeu a onipresença é mais uma das artimanhas do inimigo para diminuir o Salvador de Seu todo-suficiente sacrifício em nosso favor. Declarar que Ele perdeu a onipresença seria negar Sua divindade, uma das mais sérias heresias que a Igreja Cristã enfrentou através dos séculos, e enfrenta em nossos dias.

Cristo é Deus, pois o Novo Testamento assim o denomina sete vezes (João 1:1; 20:28; Romanos 9:5; Tito 2:13; Hebreus 1:8; 2 Pedro 1:1; João 5:20). Se é Deus, é perfeito, logo não pode ganhar nem perder nada. O pastor Daniel Porto declarou convincentemente: “É bastante eliminar um dos atributos de Deus para que Ele deixe de ser Deus.”[3]

Ampliando o problema

Quanto às notas de Lições da Escola Sabatina, três merecem destaque:

a) Dia 7 de abril de 1977: “Quando Jesus Se tornou carne, despiu-Se dos poderes da Divindade e Se tornou absolutamente dependente do Pai e do Espírito Santo.”

Não tive condições de averiguar se o verbo “despir-se” foi bem traduzido do inglês, ou se foi uma infelicidade de tradução. Despir-se é pôr de lado, abandonar, despojar-se. Jesus não deixou Sua natureza divina ao estar na Terra; Ele possuía as duas naturezas. De Divindade Ele passou à humanidade, esvaziou-Se, sem deixar de Ser Deus. Ellen White contesta a ideia de Cristo despir-Se ou despojar-Se da natureza divina:

“Jesus tomou a humanidade e a acrescentou à Divindade. Ele revestiu Sua divindade com a humanidade.”[4] “A Divindade e a humanidade combinaram-se misteriosamente, e o homem e Deus se tornaram um.”[5] “Cristo não podia ter vindo à Terra com a glória que possuía nas cortes celestiais. Seres humanos pecadores não suportariam vê-Lo. Ele velou Sua divindade com a roupagem da humanidade, porém, não Se desfez de Sua divindade.”[6]

Não Se desfazer da divindade é a maior prova de que também não Se desfez da onipresença.

b) Dia 11 de março de 1983: “Jesus, como Ser humano, está na presença de Deus no Céu, comparecendo ali por nós. Visto que Ele sempre continuará sendo humano, está restringido a um lugar no espaço e no tempo (ver O Desejado de Todas as Nações, ed. popular, p. 644).”

Como humano, Cristo estaria limitado pelo espaço, mas, como divino, jamais, porque Deus não pode ser limitado nem pelo espaço nem pelo tempo. Uma das provas conclusivas de não estar limitado pelo espaço se encontra em Seu aparecimento a dois discípulos no caminho de Emaús (Lucas 24:13-31), e aos outros em Jerusalém (Lucas 24:36, 37).

A publicação adventista Questões Sobre Doutrina (explicação de nossas crenças fundamentais, à página 77) afirma: “O fato de Cristo ter-Se tornado homem de modo algum fez com que Sua divindade fosse restringida ou subtraída.”

c) Dia 8 de setembro de 1986: “Visto, porém, que ‘Cristo levou Sua humanidade para a eternidade’ (Comentários de Ellen G. White, SDABC, v. 7, p. 925) e está restringido a um corpo humano e não pode mais estar presente em toda a parte como sucedia antes da encarnação, ‘Ele habita agora em Seus seguidores por meio do Espírito Santo’. […] É por meio do Espírito Santo que Cristo habita em nós” (deve-se notar bem que apenas o que se encontra entre aspas simples pertence a Ellen G. White; o restante é do autor da Lição).

Como igreja, é importante que não permitamos nenhum erro doutrinário entre nós. A afirmativa do autor da Lição – “…não pode mais estar presente em toda parte como sucedia antes da encarnação…” – não se harmoniza com outras declarações do Espírito de Profecia e com os ensinos das Escrituras.

A seguinte verdade deve ser lembrada: cada pessoa da Trindade desempenha específica função em benefício do ser humano, mas isso não significa que cada uma não possa desempenhar a função da outra.

Nas 50 proposições sobre nossas crenças e ensinos há esta: “Cremos que a Divindade, ou Trindade, consiste do Eterno Pai, Ser Pessoal, espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, Filho do Eterno Pai, através de quem todas as coisas foram criadas e por quem se realizará a salvação dos remidos; do Espírito Santo, terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador na obra da redenção (S.Mat.28:19).”[7]

A função de cada membro da Trindade é a seguinte: “Deus no trono do Universo, Jesus no trono da graça e o Espírito Santo no trono do coração humano trabalham para a nossa salvação.”[8]

O Pai provê, o Filho realiza e o Espírito Santo aplica. Concluir que Cristo, por conservar Seu corpo humano após a encarnação, perdeu a onipresença é errado, porque seria crer que Ele deixou de ser divino. “Cristo é Deus perfeito, mas nunca deixou de ser Homem perfeito, desde o momento da encarnação. O Ser que subiu ao Céu e está assentado à destra de Deus Pai é Homem e também Deus. Cristo é Homem perfeito, mas nunca deixou de ser Deus perfeito.”[9]

Referências bíblicas

Há inúmeras provas bíblicas da onipresença de Cristo:

Mateus 18:20: “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, ali estou no meio deles.”

Hebreus 13:8: “Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre.” Valiosa prova de que Cristo não poderia ter perdido nada está em Sua imutabilidade.

Os versos 19 e 26 de João 20 comprovam que Cristo, após a ressurreição, não estaria restringido a um corpo humano.

A declaração de Lucas (Atos 9:5) do aparecimento de Cristo a Paulo cientifica-nos de que Ele pode aparecer em qualquer lugar.

A maior evidência bíblica de que Cristo, tomando a natureza humana, não perdeu nada da divindade se encontra na conhecida declaração paulina: “Portanto Nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2:9). O Comentário Bíblico Adventista traz a seguinte nota sobre esse verso: “Em Cristo habita a soma total da natureza e dos atributos de Deus. Todas as funções e poderes da divindade residem continuamente Nele. Toda a plenitude de Deus é revelada em Cristo. A extensão do termo pleroma, ‘plenitude’, é sem limite no tempo, no espaço e em poder. Tudo quanto Deus é, cada qualidade da Divindade – dignidade, autoridade, excelência, poder para criar e sustentar o mundo, energia para manter e guiar o Universo, amor que levou a redimir o ser humano, presciência a fim de suprir todas as coisas necessárias a cada uma de Suas criaturas – repousa em Cristo.”[10]

Sobre Colossenses 1:19, afirma o mesmo comentário: “Em Cristo se encontra a perfeita expressão da Divindade de maneira completa e eterna.”[11]

Na carta aos colossenses, Paulo está condenando a heresia gnóstica, que não aceitava a plenitude da divindade de Cristo, apresentando-O como um semideus, destituído de alguns atributos divinos.

Colossenses 1:19 e 2:9 contestam hoje, frontalmente, conclusões errôneas a que chegaram membros de nossa igreja, por interpretarem mal declarações bíblicas e do Espírito de Profecia.

Esses dois versos seriam suficientes para provar que Cristo não perdeu o atributo da onipresença. Onipresença é propriedade inerente a Cristo, logo continuará existindo com Ele por toda a eternidade.

Não perdendo nenhum atributo em Sua humilhação, é evidente que, terminada essa fase, pode perfeitamente usar todos os atributos que Lhe são peculiares.

A Cristologia nos ensina que Cristo é onipresente, mas pode ser que nem sempre faça uso desse atributo. Não usar alguma coisa, todavia, não significa a sua perda.

No Espírito de Profecia

Além das citações já feitas, as seguintes declarações do Espírito de Profecia quanto à onipresença de Cristo também merecem ser destacadas:

“O pequeno grupo reunido para adorar a Deus no Seu santo dia tem direito a reclamar as bênçãos de Jeová e pode estar certo de que o Senhor Jesus será honroso visitante em suas reuniões.”[12]

“Não obstante a aparente vitória de Satanás, Cristo está levando avante Sua obra no Santuário celeste e na Terra.”[13]

“A divindade não foi degradada ou mutilada pela humanidade.”

Essas declarações seriam suficientes para dirimir qualquer dúvida que ainda paire na mente de alguém.

Conclusão

Por mais que alguém pesquise tanto na Bíblia quanto no Espírito de Profecia, não encontrará nenhum texto que dê margem à conclusão de que Cristo perdeu Sua onipresença ao tomar sobre Si a humanidade. Possuindo as duas naturezas, como humano não pode ser onipresente, mas como divino é Senhor de todos os atributos.

Demos graças a Deus por termos um Salvador perfeito, completo, banindo da mente a falsa ideia de um Cristo mutilado.

(Pedro Apolinário foi professor de Teologia no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia)

Referências:
1. O Desejado de Todas as Nações, p. 644.
2. O Desejado de Todas as Nações, p. 753.
3. Revista Adventista, março de 1984, p. 6.
4. Review and Herald, 5/7/1887.
5. Signs of the Times, 30/6/1896.
6. Review and Herald, 15/6/1905.
7. Questions on Doctrine, p. 45.
8. Revista Adventista, março de 1984, p. 7.
9. Comentário do Evangelho Segundo S. João, p. 15, J. C. Ryle.
10. Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 2, p. 202.
11. Ibidem, p. 193.
12. Testemunhos Seletos, v. 3, p. 27.
13. Obreiros Evangélicos, p. 26.
14. Review and Herald, 18/2/1890, citado em SDABC, v. 5, p. 918.

Nota de Michelson Borges: “Na Terra, Jesus ocultou Sua divindade (embora algumas vezes ela tenha irrompido através da carne). Aqui Ele não era onipotente, onisciente nem onipresente. Por quê? Porque tinha uma missão específica: vencer como ser humano onde Adão caiu. De volta ao Céu, missão cumprida, não faz sentido algum continuar ‘esvaziado’ de Seus atributos inerentes. Só porque mantém um corpo humano glorioso (identificação conosco, por amor), isso não quer dizer que estará para sempre limitado (um texto claro sobre isso não existe). O Espírito Santo é substituto de Jesus enquanto o conflito se processa, já que Cristo está no santuário celestial cumprindo outra função. Os Consoladores ‘trocaram de papel’. Mas o fato de Jesus estar no santuário não O limita àquele espaço. Prova disso é que, estando lá (‘vivendo SEMPRE para interceder [pelos pecadores]’), Ele apareceu a Saulo, João e tantos outros). Não podemos limitar Deus aos nossos esqueminhas mentais, nem defender a ideia absurda de que o Criador teria perdido atributos inerentes Dele. Isso beira a heresia. ‘Deus sempre foi. Ele é o grande EU SOU. […] Ele é infinito e onipresente. Nenhuma de nossas palavras pode descrever Sua grandeza e majestade’ (Ellen White, Olhando Para o Alto, p. 363).”

Chave hermenêutica: o caráter de Deus

No equilíbrio perfeito entre o amor e a justiça de Deus reside a segurança eterna do universo.

Mesmo a maior das verdades pode acabar se tornando uma heresia. É o caso do amor de Deus, que tem sido utilizado para desacreditar várias outras verdades bíblicas. A prática é antiga; o novo agora é a agenda socioideológica que está por trás. O objetivo é poder sancionar biblicamente ideias ou comportamentos que estão em flagrante violação da vontade revelada de Deus e que estão se tornando cada vez mais comuns nos dias de hoje. Os que assim o fazem não aceitam a definição bíblica de pecado nem parecem interessados em fazê-lo. Quando falam de pecado, a ênfase é quase sempre social: pecado é fazer mal ao próximo, ser intolerante ou preconceituoso. Eles fazem pouco caso da doutrina e desprezam os parâmetros bíblicos sobre quem vai e quem não vai herdar o reino.

Arrependimento do pecado, fidelidade a Deus e uma vida transformada pelo Espírito são temas ignorados. Eles jogam a graça contra a lei, a fé contra a obediência, Cristo contra Moisés, como se um implicasse na rejeição do outro.

Alguns negam que, no exercício de Sua justiça, Deus possa condenar ou mesmo disciplinar, ao passo que outros chegam a ser levianos ao falar da ira divina. É como se Deus não fosse um Ser moral e o princípio da retribuição não fosse inerente ao livre-arbítrio dos seres criados.

A própria morte de Jesus é vista apenas como uma revelação do amor de Deus por nós, não como um ato de expiação por nosso pecado. Falarei sobre isso em outro post.

Ou seja, o que se vê é uma completa manipulação do texto sagrado. Eles subvertem a autoridade das Escrituras, omitindo ou modificando aquilo que não lhes é conveniente. E assim distorcem o caráter de Deus e o fundamento da fé. A justiça, porém, é um atributo tão essencial a Deus quanto o amor; a cruz, o evento central da história da salvação, é a revelação suprema de ambos, e assim será para sempre lembrada.

No Apocalipse, o louvor dos redimidos e seres celestiais pelas eras infindas não será outro senão: “Aleluia! A salvação, a glória e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os Seus juízos” (Ap 19:2). No equilíbrio perfeito entre o amor e a justiça de Deus reside a segurança eterna do universo.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

Chave hermenêutica: as Escrituras

A única serventia da tal chave hermenêutica é revelar o grau de comprometimento que se tem para com a Palavra de Deus.

chave

Para quem deseja mais informação, essa coisa do filtro do evangelho, de Jesus como a chave hermenêutica ou do princípio cristocêntrico (ou crucicêntrico) foi popularizada poucos anos atrás nos Estados Unidos pelo pastor e escritor progressista (pós-moderno) Greg Boyd. Na obra The Crucifixion of the Warrior God (A Crucificação do Deus Guerreiro), em dois volumes, ele sustenta que tudo na Bíblia deve ser avaliado a partir da revelação suprema do amor de Deus em Cristo Jesus, um amor não violento e que se sacrifica a si mesmo pelos outros. Ou seja, as Escrituras devem ser lidas pelas lentes da cruz e qualquer coisa – mesmo se atribuída a Deus – que, na visão de Boyd, não se ajusta ao princípio da cruz, deve ser rejeitada como incorreta, culturalmente condicionada e mesmo demonicamente induzida.

O problema de Boyd é com o que ele chama de “lado escuro” do Antigo Testamento, que são as passagens em que Deus é retratado como exercendo juízo de forma violenta (como o dilúvio, a rebelião de Coré, Sodoma e Gomorra, etc.). Para Boyd, a cruz demonstra que Deus não condena. Ele apenas ama. Logo, os relatos bíblicos em que Deus parece condenar pecado e pecadores são falsas representações do caráter divino. Na verdade, afirma Boyd, não era Deus. Eram forças satânicas em operação e, ao creditar o relato a Deus, o escritor humano (Moisés, Josué, Samuel, etc.) está apenas evidenciando sua própria obstinação e perversidade.

Boyd defende o mesmo com relação ao Novo Testamento. O que temos aqui, porém, nada mais é que uma rejeição sumária da autoridade divina e sua substituição pela autoridade humana. É o homem querendo decidir o que é correto e o que não é, o que é “bíblico” e o que não é. Se não condiz com minha mentalidade liberal quanto ao que é pecado e o que não é, eu rejeito!

O tema é amplo, mas gostaria de perguntar de novo (veja meu post anterior, “O filtro do evangelho”): Onde está o apoio bíblico para esse pseudocritério de interpretação? Simplesmente não existe!

Pelo contrário, Jesus explicitamente afirmou que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17), que a Escritura não pode falhar (10:35), que mesmo as menores partes da Escritura continuam válidas (Lc 16:17), que Ele viera para Se submeter à Escritura (Mt 5:17) e que enquanto durassem os céus e a terra nada seria tirado da Escritura (v. 18). Ele reconheceu a autoridade de Moisés e afirmou que os escritos dele seriam a norma no juízo final (Jo 5:45-47). E pouco antes de morrer, Ele orou para que Seus discípulos fossem santificados na verdade, acrescentando que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17). Ou seja, Jesus jamais sequer insinuou que o Antigo Testamento possa conter concepções distorcidas sobre o caráter de Deus ou não ser autoritativo em tudo o que diz (cf. 2Tm 3:15, 16; Tt 1:2; Hb 6:18; 2Pd 1:19-21).

Não há dúvida de que Jesus é o centro da Escritura e do plano redentor (Jo 5:39, 46; 2Tm 3:15), mas usar isso para excluir passagens ou conceitos bíblicos só porque eles não condizem com as minhas preferências pessoais é brincar de Deus (cf. Gn 3:15). A única serventia da tal chave hermenêutica, portanto, é revelar o grau de comprometimento que se tem para com a Palavra de Deus.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

Um Deus sanguinário?

Por que Deus mandou matar? Essa é a pergunta que se impõe quando certas passagens bíblicas são analisadas.

Numa época em que o terrorismo e o fundamentalismo religioso estão sendo amplamente discutidos, surgem algumas dúvidas e confusões com relação a certos textos bíblicos. Robert Wright, autor de O Animal Moral: Psicologia Evolucionária e o Cotidiano, chegou a escrever que “se Osama bin Laden fosse cristão e quisesse destruir o World Trade Center, citaria a reação violenta de Jesus contra os vendilhões do templo”. Exageros à parte, Wright não é o único escritor contemporâneo a comparar a postura de terroristas com certas passagens das Escrituras, especialmente aquelas em que Deus aparece intervindo de forma drástica na vida humana ou ordenando a morte de pessoas. Mas o Deus do Antigo Testamento não é menos amoroso do que o Deus revelado por Jesus.

Para Chris Blake, autor de Searching for a God to Love [Procurando um Deus para Amar], “figuras de doenças em um livro de medicina não refletem o médico; elas ilustram a grande necessidade de cura”. A comparação é boa, uma vez que conhecer o contexto do Antigo Testamento – e as “doenças espirituais” do povo de Deus – ajuda e muito a entender certas reações divinas.

Blake faz outra comparação: “Deus Se revelava ao povo do Antigo Testamento como uma persiana num quarto escuro – uma lâmina por vez – para que eles se acostumassem aos poucos com a luz. Se Ele houvesse aberto totalmente a persiana e revelado Sua deslumbrante ternura e tremenda bondade, a luz teria cegado os antigos. Eles não teriam visto coisa alguma.”

Quando se conhece o contexto cultural da época, pode-se perceber que, na verdade, o Deus do Antigo Testamento é o mesmo no Novo. Senão, note este texto bíblico: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” São palavras de Jesus, certo? Certo. Mas elas estão registradas em Levítico 19:18, como tendo sido ditas primeiramente por Yahweh ao povo de Israel. Ainda que tenham sido necessárias atitudes extremas da parte de Deus em alguns momentos da História, uma coisa fica clara para o estudante da Bíblia: indiscutivelmente, do Gênesis ao Apocalipse, “Deus é amor” (1 João 4:8).

ORDEM PARA MATAR

Por que Deus mandou matar? Essa é a pergunta que se impõe quando certas passagens bíblicas são analisadas. A primeira dificuldade em se lidar com essa questão é justamente a pequena compreensão que o ser humano tem do caráter de Deus. As pessoas formam seus valores e tomam suas decisões por meio do paralelismo ou da comparação. Escolhem esse ou aquele produto comparando cores, formas, sabores, preço. Com relação ao divino, não há com o que ou com quem compará-lo. Diante do Senhor, não há paralelos que permitam identificar aquilo que Lhe é natural. Por isso, não podemos definir para o Criador padrões ou parâmetros do que seja justo, correto, bom e adequado. Os padrões da dimensão terrena e finita não podem ser parâmetros ou projeções para aquilo que está infinitamente acima da percepção e do conhecimento humanos.

A Bíblia fornece algumas pistas sobre a pessoa de Deus. Ela diz que Deus é puro, santo, justo e amoroso. Sua santa Lei também possui esses atributos, pois é a expressão de Seu caráter. Assim, a consequência negativa surge porque o padrão divino para a vida humana é rompido. O “castigo”, antes de ser um ato isolado de um Ser superior e rigoroso, nada mais é do que o exercício zeloso e exigente da própria virtude que foi desprezada.

PUREZA

A não observância da virtude divina da pureza foi a causa de muitas consequências negativas para o ser humano. O dilúvio é uma delas: “E disse o Senhor: Destruirei da face da Terra o homem que criei […] porque a Terra está cheia da violência dos homens; eis que os destruirei juntamente com a Terra” (Gn 6:7, 13).

A impureza que se alastrava condenou toda a geração de Noé, numa oportunidade para um novo começo da raça humana. Note-se a grande longanimidade de Deus: Noé pregou por 120 anos que viria a destruição, mas os antediluvianos preferiram assumir as consequências.

Outro exemplo de extrema impureza: Sodoma e Gomorra. A destruição dessas duas cidades evidencia a consequência do pecado. É uma das páginas mais tristes sobre o ponto a que pode chegar a depravação do ser humano. Não havia outro jeito! A impureza, cujo clamor subira aos Céus, tinha que ser exemplarmente condenada, como a um câncer que precisa ser extirpado, sob o risco de comprometer aquilo que ainda está são (Ez 16:49, 50).

Por outro lado, Deus poupou a cidade de Nínive em circunstâncias semelhantes, devido ao arrependimento de todo o povo. Isso deixa evidente a misericórdia divina (ver Jn 3:1-10).

A impureza na vida impede o ser humano de se aproximar de Deus. Foi o que aconteceu com Nadabe e Abiú. Por serem filhos do grande sacerdote Arão, julgavam que poderiam apresentar-se diante de Deus da forma como lhes convinha, e não de acordo com os preceitos divinos. As cerimônias do santuário apontavam para a obra intercessória de Cristo, e tinham caráter sagrado. A impureza dos dois hebreus foi castigada: “Ora, Nadabe e Abiú […] ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que Ele não ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor, e os devorou; e morreram perante o Senhor” (Lv 10:1, 2).

Posteriormente, por não ter outro alimento, Davi comeu dos pães da proposição, o que não era permitido (ver 1Sm 21:4-6). Mas Deus não o matou. Isso demonstra que a irreverência é mais uma disposição do coração do que meramente atos exteriores.

A impureza no coração faz desencadear uma série de atitudes e procedimentos contrários à vontade de Deus. Salta à vista a ingratidão do povo hebreu que, por mais de 400 anos, havia sido escravo dos egípcios e que agora, depois de libertado, ainda murmurava contra seu Libertador. O maná caía do céu diariamente, provendo-lhes o sustento necessário para a caminhada no deserto. Mas eles não estavam satisfeitos. Preferiam a comida que tinham no Egito. Foi preciso que Deus lhes permitisse comer carne e que muitos morressem, para que aprendessem a importante lição (Nm 11:32-34). Ainda hoje o ser humano come aquilo que deseja e, depois, sofre os resultados de sua intemperança.

As trágicas mortes foram, portanto, o preço cobrado pela opção da impureza. As ocorrências terríveis relatadas na Bíblia tiveram suas causas em si mesmas explicadas. Não seria, na verdade, preciso que Deus atuasse diretamente para que cada um daqueles fatos ocorresse, pois, pela falta de pureza no viver, eles naturalmente iriam acontecendo.

SANTIDADE

Santidade e pureza andam de mãos dadas. Enquanto pureza é eliminar tudo aquilo que prejudica o viver, santidade é somar tudo aquilo que exalta e dignifica o ser humano; enquanto pureza é retirar do viver ético tudo aquilo que rebaixa a vida moral, santidade é acrescentar padrões divinos à vida, pela comunhão com Jesus.

Santidade é o segundo padrão pelo qual o ser humano deve caminhar. Assim, a quebra desse padrão também traz consigo desgraças inevitáveis.

Israel estava diante da sonhada terra prometida. O grande confronto da santidade exigida do povo teria início a partir do momento em que a terra começasse a ser conquistada. Isso porque os povos que ali viviam não eram nada santos. Pelo contrário, eram imorais, violentos e idólatras, praticando toda sorte de profanação e ofensas ao nome de Deus. Essa diferença teria que ser clara e evidentemente absorvida pelo povo de Israel.

O padrão divino de santidade começou a ser mostrado por meio da cidade de Jericó e tudo o que nela havia: “A cidade, porém, com tudo quanto nela houver, será anátema ao Senhor; somente a prostituta Raabe viverá, ela e todos os que estiverem em casa” (Js 6:17). Raabe aceitou os termos do Senhor e foi salva, da mesma forma que aqueles que aceitarem a Palavra de Deus serão salvos.

O Senhor ainda advertira Israel para não tomar nada do que fosse de Jericó – símbolo do pecado. A ambição de Acã foi maior e ele tentou esconder consigo algumas riquezas. Resultado: foi apedrejado e suas coisas queimadas (Js 7:15, 24, 25).

Como escreveu Chris Blake, “Deus levantou Sua voz frequentemente no Antigo Testamento para atrair a atenção dos filhos de Israel”. De fato, Deus precisava ser “duro” com Seu povo; afinal, Ele os havia conduzido até ali para serem luz para outros povos. O perigo da paganização era constante. As nações vizinhas tinham divindades de caráter fundamentalmente violento e imoral, que conduziam o povo à guerra e à depravação. Os cultos eram verdadeiras orgias, com sacrifícios até de vidas humanas. Não havia como compactuar. O povo que deveria ser santo porque o seu Deus é santo tinha que lutar e eliminar por completo tais pecados.

Nos anos seguintes, Israel passaria por uma sucessão de altos e baixos espirituais. E Deus permitiria que Seu povo enfrentasse dificuldades e até humilhações com o objetivo de corrigi-lo. Deus, como sempre, seria constantemente mal entendido, enquanto o único responsável pelas desgraças continuava sendo o ser humano.

JUSTIÇA

A justiça é outro padrão para o qual não temos paralelismo. Por isso, hoje, nem sempre é possível entender exatamente o porquê de certas coisas terem acontecido. Como exemplo da quebra desse padrão tomemos apenas uma passagem: “Estando, pois, os filhos de Israel no deserto, acharam um homem apanhando lenha no dia de sábado. E os que o acharam apanhando lenha trouxeram-no a Moisés e a Arão, e a toda a congregação e o meteram em prisão, porquanto ainda não estava declarado o que se lhe devia fazer. Então disse o Senhor a Moisés: ‘Certamente será morto o homem; toda a congregação o apedrejará’” (Nm 15:32-36).

Será que foi agradável para aquelas pessoas apedrejarem o homem? E por que “toda a congregação” deveria participar da terrível cena? Os preceitos para a vida de obediência e adoração a Deus já tinham sido declarados por Moisés, que os recebera do próprio Deus. O Senhor queria que o povo entendesse a importância de Seus mandamentos. Foi a desobediência que levou Lúcifer à ruína, privou Adão e Eva do Éden e traria desgraça ao povo. O transgressor do sábado, certamente não arrependido de seu feito, foi morto como exemplo da justiça divina e da gravidade do pecado. Se Deus perdoasse o homem em rebelião consciente, Satanás seria o primeiro a acusá-Lo de injusto.

É preciso que entendamos que o caminho da justiça de Deus se faz muitas vezes de forma incompreensível para nós, e que o Senhor não tem “prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva” (Ez 33:11).

AMOR

A quarta razão pela qual as manifestações negativas de Deus estão registradas na Bíblia é decorrente não da falha do ser humano diante de qualquer padrão divino, mas de uma decisão soberana e amorosa de Deus.

Por incrível que pareça, apenas uma vez o Senhor Se manifesta negativamente por causa do amor, e essa única vez é contra Ele mesmo: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16 BJ). A palavra “entregou” poderia ser substituída por “matou”. Sim, porque não foi nada mais, nada menos do que isso.

Deus amou tanto a cada um dos seres humanos que deu o que mais amava: Seu único Filho. Quando Deus comissionou os anjos para guiar os pastores até Belém em forma de uma linda estrela, sabia que ela apontava para o Gólgota. Quando fez com que um exército de anjos cantasse “Glória a Deus nas alturas!”, sabia que esse coro celestial mais tarde se quedaria mudo, para ouvir o brado solitário e tenebroso do Calvário: “Por que Me desamparaste?” Quando permitiu que os magos do Oriente levassem ouro, incenso e mirra a Cristo, também sabia que os judeus e os romanos Lhe dariam a coroa de espinhos e a cruz. Ele sabia de tudo isso desde os tempos de Adão, passando por todas as épocas, porque já havia dado o Seu Filho, pelo grande amor com que nos amou.

O Pai Celestial sempre desejou o bem da humanidade. E para isso não poupou esforços, correndo mesmo o risco de ser mal interpretado. Por que Ele Se afligiu até suar sangue e morreu por decisão própria? Porque Deus, o Senhor, é puro, santo, justo e amoroso.

(Michelson Borges é jornalista, pós-graduado em Biologia Molecular e mestre em Teologia)

Leia também: “Seria Deus um monstro moral?”

O filtro do evangelho

Essa coisa do filtro não passa de uma cortina de fumaça para tentar encobrir preferências e arbitrariedades pessoais.

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Quem foi que disse que temos que usar o evangelho como filtro para definir quais declarações bíblicas aceitar e quais não? Jesus é que não foi! Sendo assim, o suposto princípio interpretativo não passa no próprio teste. E nem poderia, porque Jesus reconhecia plenamente a inspiração e a autoridade das Escrituras de Seus dias, o Antigo Testamento. Já tratei disso num post anterior (“Jesus e as Escrituras”). Ele jamais relativizou ou minimizou o que os profetas disseram (Mt 5:17-20; Lc 16:31; Jo 5:39-46). Além disso, pouco antes de concluir Seu ministério, Jesus conferiu autoridade apostólica aos Doze e os tornou depositários de Seus ensinos (Mc 3:14-19; cf. Mt 10:1-4; Lc 6:13-16; Jo 6:70). Ele inclusive deu a eles “as chaves do reino” (Mt 16:19), autorizando-os a ensinar e preparar pessoas para o reino dos céus (cf Lc 24:47-49; Jo 20:23). E acrescentou: “Quem ouve vocês ouve a Mim; e quem rejeita vocês é a Mim que rejeita; quem, porém, Me rejeita está rejeitando Aquele que Me enviou” (Lc 10:16; cf. Jo 13:20).

Dizer que os escritos apostólicos precisam eles mesmos passar pelo crivo do evangelho soa, no mínimo, contraditório. Afinal, como foi que o evangelho chegou até nós se Jesus mesmo não deixou nada escrito – nenhuma autobiografia ou coleção de ensinos? O evangelho chegou até nós justamente por meio daqueles a quem Jesus chamou, preparou e inspirou para serem Suas testemunhas (Lc 1:1-4; Jo 20:30-31; 21:24; cf. Jo 14:25-26; 15:26; 16:12-15; 20:22).

Sem os apóstolos, portanto, incluindo-se o temporão Paulo (1Co 15:8; cf. 9:1-2; 2 Co 12:11-12), não haveria evangelho, tampouco haveria Cristo.

A objeção maior é a Paulo, o apóstolo que mais fez para universalizar e sistematizar a fé cristã. Paulo é questionado porque ele identifica o pecado de uma forma que não condiz com a agenda liberal. Mas quem chamou e comissionou Paulo não foi outro senão o próprio Jesus, e quem conta a história é Lucas, o mesmo que escreveu o terceiro evangelho (At 9:3-6, 15; 22:6-10; 26:12-18). Ou seja, essa coisa do filtro não passa de uma cortina de fumaça para tentar encobrir preferências e arbitrariedades pessoais. O resultado não é cristianismo, mas uma caricatura grotesca do cristianismo.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

Irmão de Leonardo Boff conta por que abandonou a Teologia da Libertação

Já faz algum tempo que se fala sobre uma crise da Teologia da Libertação (TdL), corrente teológica fundada há mais de 40 anos, que se caracteriza por uma opção preferencial pelos pobres e pela luta por justiça social. Nas palavras do Frei Clodovis Boff – religioso da ordem dos Servos de Maria, que juntamente com seu irmão mais famoso, Leonardo Boff, foi um dos principais teólogos da TdL –, esse modo de teologizar “deu o que tinha que dar”, ou seja, conscientizou a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres, contudo “não tem mais futuro dentro da igreja” e por isso está perdendo cada vez mais espaço dentro dela.

Mesmo tendo participado da fundação da TdL, Frei Clodovis assegura que já tinha suas reservas em virtude da falta de rigor teórico e da priorização “do político às expensas da fé”. Com o passar dos anos, vendo que essa prioridade não mudava, mas se firmava cada vez mais, decidiu abrir suas críticas. Hoje o religioso defende que é desaparecendo no caudal maior da teologia cristã que a Teologia da Libertação cumpre sua missão histórica.

Eis a entrevista de Natasha Pitts, publicada por Adital, 8/8/2014.

Quarenta e dois anos depois, a Teologia da Libertação ainda vive? Ela ainda faz sentido nos dias atuais?

Sim, existem teólogos da libertação que se reúnem e escrevem. Mas seu declínio como tendência à parte é inegável. A meu ver, a Teologia da Libertação “prescreveu” historicamente. Deu o que tinha que dar: conscientizar a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres. Ora, isso foi fundamentalmente incorporado, sem mais discussão, pelo discurso normal da Igreja. Assim, a corrente liberacionista reentra, finalmente, na grande correnteza da teologia católica ou universal, reforçando e atualizando aquilo que foi sempre uma riqueza da Igreja: o amor preferencial pelos sofredores de toda a sorte. A Teologia da Libertação poderia até permanecer como um espécimen da chamada “teologia do genitivo”, teologia necessariamente parcial, como quando se fala na “teologia da graça”, na “teologia do casamento” ou ainda na “teologia de São Paulo”. Essas teologias particulares são apenas tematizações de um aspecto da fé. Foi nesse sentido, como teologia parcial, sintonizada com o todo da fé, que a Teologia da Libertação foi declarada por João Paulo II, em Carta aos Bispos do Brasil (9/4/1986) “oportuna, útil e necessária” (n. 5). Mas até que a Teologia da Libertaçãopretende ser uma teologia completa, ela não tem futuro dentro da Igreja. Ela, de fato, vai perdendo cada vez mais espaço dentro dela.

“Quer-se mostrar aqui que a Teologia da Libertação partiu bem, mas, devido à sua ambiguidade epistemológica, acabou se desencaminhando: colocou os pobres em lugar de Cristo. Dessa inversão de fundo resultou um segundo equívoco: instrumentalização da fé ‘para’ a libertação. Erros fatais, por comprometerem os bons frutos desta oportuna teologia” (artigo de 16/8/2008). Em qual momento e por que você se tornou um dos grandes críticos da Teologia da Libertação?

Desde sempre tive reservas em relação à Teologia da Libertação, quer por causa de sua falta de rigor teórico, quer devido ao seu pendor ideológico: o de priorizar o político às expensas da fé. Embora em minha tese doutoral “Teologia e prática”, publicada há mais de 40 anos (Vozes, 1978) eu já tivesse estabelecido claramente a prioridade da fé sobre a política (especialmente na II Seção, cap. I), imaginei que a prioridade conferida ao político fosse coisa transitória, seja pelo urgentismo social, que se vivia naqueles tempos difíceis (ditadura e capitalismo selvagem), seja por se mostrar uma doença infantil, normal para todo movimento histórico novo. Mas quando, com o passar do tempo, fui me dando conta de que, desgraçadamente, aquela prioridade, em vez de refluir, ia se afirmando cada vez mais, com grave dano para a identidade da fé, a missão própria da Igreja e o destino último do ser humano, decidi então explicitar, sem rebuços, minhas críticas.

Em quais pontos há divergências entre os teólogos da TdL?

As divergências não são de pouca monta, mas fundamentais, tocando os princípios mesmos da fé. Quem é o Senhor da Igreja? Quem ocupa seus pensamentos? Cristo ou os pobres? Se dizemos: Cristo, é garantido, em princípio, que os pobres terão na Igreja seu “lugar eminente”, para falar como Bossuet. Mas se dizemos: os pobres, então Cristo pode ser facilmente despedido da sociedade e da vida, como foi com o marxismo.

Em alguns textos você fala em desgaste e crise da TdL. Como esse “modo de teologizar” pode enfrentar a crise e seguir forte?

Como disse acima, é paradoxalmente desaparecendo no caudal maior da teologia cristã que aTeologia da Libertação cumpre sua missão histórica. É como o torrão de açúcar, que só existe para se dissolver no café: continuará aí presente, adoçando todo o café, mas invisível. Ou, numa metáfora mais bíblica, é como João Batista, que disse: “Importa que Ele cresça e eu diminua”, ao contrário dos judeus que, chamados a acolher o Messias, se recusaram a ser o que deveriam se tornar. Deveriam ter feito como Saulo, que só cumpriu seu destino tornando-se Paulo. Tal também deveria ser o termo final da Teologia da Libertação: tornar-se teologia cristã sem mais, depois de ter contribuído para seu enriquecimento.

Os teólogos da libertação estão envelhecendo, o senhor acredita em uma renovação?

Quando se leem as produções atuais dos chamados “teólogos da libertação”, nota-se aí que o discurso se repete ad nauseam. São “variações sobre o mesmo tema”: os pobres socioeconômicos e sua libertação social. Insisto: só é possível uma Teologia da Libertação, como, aliás, qualquer outra espécie de teologia, sob a condição de começar e também acabar no horizonte transcendente da fé. Fora disso, a Teologia da Libertaçãosó produzirá “mais do mesmo”. E, assim como o Papa Francisco costuma dizer que uma Igreja sem a fé incondicional no Cristo é uma “ONG piedosa”, assim também uma Teologia da Libertação (ou qualquer outra), sem essa mesma fé primacial no Cristo, é uma ideologia religiosa, concorrendo ou então colaborando com outras ideologias. Torna-se, com isso, cada vez mais irrelevante, pois, de ideologias o mundo atual está cansado.

A abertura que o Papa Francisco vem dando a teólogos da TdL pode ajudar a revigorá-la?

O discurso e, mais ainda, o exemplo do Papa atual poderia servir de exemplo para um cristianismo que não precisa de ideologia, mesmo sob um rótulo teológico, para se ocupar a sério com os pobres. A Teologia da Libertação só pode se revigorar dentro da Igreja, no seio de seu pluralismo teológico, a título, portanto, de uma teologia particular.

Como os teólogos da libertação têm trabalhado e como deveriam pensar questões polêmicas como aborto, diversidade (união homoafetiva) e participação da mulher na igreja?

Como para a questão do pobre, central na Teologia da Libertação, todas essas outras questões devem ser tratadas por qualquer teólogo a partir dos princípios perenes da fé. Mas, é claro – e esta é a função própria do teólogo na Igreja –, esses princípios devem ser bem compreendidos e postos em confronto com a experiência da história, que tem muito a ensinar à Igreja, como reconhece o Vaticano II na Gaudium et Spes (cf. GS 44).

E no caso da Igreja Católica, quais são seus desafios atuais diante de tantas demandas sociais, políticas e econômicas?

Certamente, a Igreja já está fazendo muito no campo social, e precisará fazer mais. Mas, é preciso que fique claro: não é essa a missão originária, “própria” da Igreja, como repete expressamente o Vaticano II (cf. GS 42,2; e ainda 40,2-3 e 45,1). A missão social é, antes, uma missão segunda, embora derivada, necessariamente, da primeira, que é de natureza “religiosa”. Essa lição nunca foi bem compreendida pelo pensamento laico.

Foram os Iluministas que queriam reduzir a missão da Igreja à mera função social. Daí terem cometido o crime, inclusive cultural, de destruírem celebres mosteiros e proibido a existência de ordens religiosas, por acharem tudo isso coisa completamente inútil, mentalidade essa ainda forte na sociedade e até mesmo dentro da Igreja.

Agora, se perguntamos: Qual é o maior desafio da Igreja?, devemos responder: É o maior desafio do homem: o sentido de sua vida. Essa é uma questão que transcende tanto as sociedades como os tempos. É uma questão eterna, que, porém, hoje, nos pós-modernos, tornou-se particularmente angustiante e generalizada.

É, em primeiríssimo lugar, a essa questão, profundamente existencial e hoje caracterizadamente cultural, que a Igreja precisa responder, como, aliás, todas as religiões, pois são elas, a partir de sua essência, as “especialistas do sentido”. Quem não viu a gravidade desse desafio, ao mesmo tempo existencial e histórico, e insiste em ver na questão social “a grande questão”, está “desantenado” não só da teologia, mas também da história.

(Instituto Humanitas Unisinos)

Um poço sem fundo?

O cristão não precisa entrar no poço para defender as causas legítimas do cristianismo, basta apenas ser cristão, ser bíblico

poço

O poço da “teologia (?) da libertação” (parece) não ter fundo e o “cristão” que pensa que vai entrar só um pouquinho nele descobre que vai afundar cada vez mais. As causas nas quais o poço vai te envolvendo são seletivas, porque nele se propõe “morrer por uma árvore”, mas não há a mesma comoção pelo assassinato de crianças no ventre da mãe.

Não adianta tentar impor a aproximação entre a Bíblia e a teologia da libertação (e logicamente as ideologias que a sustentam). Não há aproximação saudável entre elas. Essa “teologia (?)” não é bíblica e, portanto, as causas que ela defende são todas incompatíveis com o cristianismo. São, na verdade, impulsos para descer mais rápido no poço.

No poço se misturam água pura com gotas de veneno. Preservar a natureza é um papel do cristão? Sim, claro que sim! Mas quando essa causa pura se mistura com gotas (às vezes litros) do veneno ideológico (teologia da libertação é, no fundo, marxismo “cristianizado”), há uma completa desqualificação da causa.

O cristão não precisa entrar no poço para defender as causas legítimas do cristianismo, basta apenas ser cristão, ser bíblico.

Uma vez ouvi que “o fundo do poço pode ser um bom lugar para se dar o impulso para retornar à superfície”, mas, e se o poço não tiver fundo?

(Pr. Felippe Amorim é apresentador do programa Bíblia Fácil, da TVNT; Instagram)

Música, adoração e vida cristã

Estudiosos da música e da Bíblia apontam características da adoração cristã

Bíblia

A discussão sobre os estilos musicais adequados para o culto na igreja, bem como para a vida pessoal, é vista como complexa e controversa. Com alguma frequência, perguntas são feitas, porém não respondidas satisfatoriamente ou são recebidas com visões diferentes. Questionamentos são levantados sobre as possíveis implicações morais, emocionais ou espirituais da linguagem musical; ou seja, se a música ou o ritmo musical podem exercer influência sobre as pessoas, independentemente da letra. Além disso, existem dúvidas sobre se a música vai além do argumento estético, artístico, para entrar no terreno da ética, da moralidade e da espiritualidade. Explicações são levantadas a favor ou contra a ideia de que os estilos musicais impactam as crenças ou valores pessoais. Também não há consenso sobre a possível influência dos diferentes elementos da música como a melodia, a harmonia e o ritmo. Em suma, podem ser encontrados critérios válidos para orientar a escolha da música para os indivíduos, as famílias ou as instituições como a igreja? Tal escolha tem relação genuína com a espiritualidade e a religiosidade? 

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O impacto das teologias de libertação sobre a igreja (parte 4)

O conceito de que uma classe ou grupo possa representar a mission Dei, em oposição a outro que, sendo maligno, necessita ser derrubado é autodestrutivo. Ele acaba meramente invertendo os papéis de opressor e oprimido, e, finalmente, converte-se em uma visão de Deus essencialmente pagã como uma deidade tribal.

Talvez a característica mais forte e mais chocante nos recentes desenvolvimentos do catolicismo romano latino-americano seja a afirmação de que a igreja, durante a maior parte de sua vida no continente, fora transformada em uma igreja dos ricos, longe do mundo dos pobres, que são a maior parte da população na América Latina. Pertencente à mesma crítica, mas apresentando conotação mais radical, está a afirmação de que tendo suas simpatias conectadas a uma pequena camada, mas excessivamente superior em riquezas, a Igreja Católica Romana latino-americana sancionou o uso do evangelho para satisfazer as necessidades religiosas das massas contribuindo, assim, definitivamente para sacramentar e assegurar a ordem social que está em um domínio constituído por uns poucos.[66]

Em reação a essa situação, a maior parte dos escritos de teólogos da libertação surge de uma ênfase avassaladora na necessidade da igreja em mudar de lado e se converter para outro mundo, ou seja, o mundo dos pobres e oprimidos. Convencidos da importância sociocultural direta e explícita da igreja para com a sociedade na América Latina, os teólogos da libertação, em oposição a uma imagem puramente religiosa e desencarnada da igreja, têm, arduamente, defendido uma visão eclesiológica capaz de usar o peso da influência da igreja para acelerar a transformação social necessária.

Pelo fato de a igreja se voltar para si mesma, falha ao posicionar-se retrogradamente em relação aos pobres dentro do processo revolucionário de libertação, sendo essa a maior de suas omissões. De fato, como argumentam, “não exercer essa influência em favor dos oprimidos é, realmente, exercê-la contra eles”.[67]

Refletindo sua consciência recém-descoberta, a igreja deve se posicionar ao lado daqueles que sofrem violência e são oprimidos pelas estruturas e sistemas injustos. Para agir de acordo com sua vocação, a igreja deve fazer sua presença ser sentida em meio de um mundo de sofrimento por “proclamar as boas-novas aos pobres, a liberdade aos oprimidos e a alegria aos aflitos”.

Coerente com essa ênfase, há na formulação eclesiológica dos teólogos da libertação, como já sugerido, uma supremacia teológica da libertação humana sobre os interesses intraeclesiásticos. A ênfase recai sobre a prioridade do elemento antropológico sobre o eclesiológico. Os oprimidos e sua luta, portanto, como sugerido anteriormente, são a força que determina não só a autocompreensão da igreja e o conteúdo da sua agenda, mas, também, a abordagem da igreja para com as realidades socioeconômicas. Nessa conjuntura, parece inevitável que a teologia da libertação tenha mudado essencialmente a questão da igreja de “o que é a igreja?” para, primariamente, “por que a igreja?”.

Os teólogos da libertação, em sua visão, não só discutem o que é a igreja ou o porquê de ela existir, mas, também, apontam para onde ela deve se encontrar. A igreja não deve, meramente, ser pelos pobres, mas, acima de tudo, deve ser a igreja dos pobres. Como alega Gutiérrez, para ser “fiel ao Deus de Jesus Cristo, ela (a igreja) tem de se repensar a partir de baixo [‘from below’], da posição dos pobres”.[68]

Neste ponto, uma concepção revolucionária da igreja começou a surgir na América Latina, a Iglesia Popular, a “Igreja Popular” ou igreja que brota do povo.[69] Justificando essa nova visão eclesiológica, Gutiérrez observa que “o evangelho lido a partir do ponto de vista dos pobres e dos explorados, a militância em suas lutas pela liberdade requer uma igreja popular: uma igreja que surge do povo, um povo que arranca o evangelho das mãos dos grandes deste mundo e, assim, impede que seja usado para justificar uma situação contra a vontade do Deus libertador”.[70]

Convencidos de que não é o suficiente ser pelos pobres, uma noção que, do ponto de vista da teologia da libertação, conota uma ideia paternalista, os teólogos da libertação realçam que um esforço real e efetivo para eliminar a pobreza deve estar conectado com a perspectiva daqueles que estão dentro do movimento dos pobres pela libertação. Para realmente encarnar e dar conteúdo a sua opção pelos pobres, a igreja deve se converter ao mundo dos explorados e dos oprimidos e tornar-se a igreja dos pobres.

Ao passo que o conceito da igreja pelos pobres é entendido como uma questão ética, a visão da igreja dos pobres é teologicamente justificada sobre fundamentos cristológico-ontológicos. Se “uma compreensão cristã da igreja começa com a Cristologia”,[71] a igreja encontra sua verdadeira identidade quando está em conformidade com Jesus Cristo, quando assume Sua “estrutura espiritual, Seu modo de ser”.[72] A igreja, portanto, deve estar presente onde Cristo prometeu estar presente. Ela deve seguir Jesus onde ele já a precedeu, ou na famosa formula eclesiológica de Inácio de Antioquia: ubi Christus, ibi ecclesia.[73]

Por causa da identificação de Jesus para com os pobres,[74] é justamente entre eles que a igreja deve ser encontrada. O elemento dominante da eclesiologia da libertação que emerge dessa noção é o entendimento da igreja completamente voltado para com a situação concreta dos pobres e oprimidos. Desde que o pecado é “basicamente uma realidade social”, a salvação está localizada no âmbito social histórico. A igreja deve abandonar preocupações centradas em si e encontrar sua missão em servir aos oprimidos, não ética ou paternalisticamente “pelos pobres”, mas sendo essencialmente “dos pobres” por adotar a perspectiva e as lutas deles. A distinção entre a vida de fé e as obras temporais deve ser abolida.

Sem escusas, alega-se que a igreja deve “participar ativamente em construir uma ordem [social] justa”.[75] Sua função, portanto, não pode ser implorar aos pobres que se sujeitem à exploração que os faz sofrer tão dolorosamente, ou meramente defender uma reforma moderada. Responsiva ao chamado de Deus, a igreja deve viver sua verdadeira vocação ao menos sob três formas, a saber, celebração, denúncia e anunciação.[76] Com a alegria imaginada na Eucaristia, celebra-se a ação salvífica de Deus de libertação e de fraternidade.[77] A igreja está, também, obrigada a exercer uma crítica social, uma denunciação profética de cada situação desumanizadora. Em uma forma mais positiva, no entanto, além da crítica, ela deve, também, anunciar as boas-novas de uma nova ordem [social]. Isso conduz ao conceito de uma evangelização política[78] dos pobres. Ao decidir em favor de um determinado sistema político, ou seja, o socialismo, a igreja deve apoiar as mudanças revolucionárias que essa nova ordem [social] demanda. Comprometendo-se a educar os pobres em relação à verdadeira natureza de sua própria miséria, engajando-os nas lutas pela libertação e pela justiça [social].

Eclesiologia da libertação: uma avaliação

Como indicado anteriormente, embora este estudo coloque uma ênfase considerável sobre a teologia da libertação latino-americana, um movimento que tem tomado lugar quase que exclusivamente dentro da Igreja Católica Romana, muitas das nossas observações e a avaliação que agora se segue podem precisamente ser aplicadas a quaisquer teologias que tentam direcionar a influência da igreja em direção a um grupo ou partido em particular, desconsiderando algumas noções fundamentais acerca da eclesia cristã.

O que foi dito antes nos leva a um ponto em que algumas conclusões devem ser tiradas. Os teólogos da libertação são críticos justificáveis da fácil acomodação da igreja para com o status quo na sociedade latino-americana, onde os ricos foram confirmados em suas riquezas e estruturas opressivas e os pobres consolidados em sua pobreza e miséria, e o que é pior, tudo em o nome de religião.[79]

Teólogos libertacionistas têm uma visão de sociedade influenciada pelo marxismo. Todavia, essa visão determina seu entendimento da igreja com implicações graves. A “opção da igreja pelos pobres”, como eles tão apaixonadamente enfatizam, tende a ser expressada em termos de luta de classes e a igreja dos pobres é transformada na igreja de uma classe social. É de se maravilhar, contudo, que se a teologia da libertação não está repetindo o tradicional engano acusado por eles, meramente reformula-os em uma nova forma. Em vez de associar a igreja com o regime passado, ela associa a igreja com o novo, assumindo que o erro fora a igreja associar-se ao lado errado (ricos/opressores), em contraposição ao questionamento se ela deve estar vinculada com qualquer regime. Alianças passadas da igreja e as estruturas sociais de poder são substituídas por uma nova aliança para com os pobres[80] e confiadas a ideologias de esquerda.[81] A teologia da libertação deve repensar que a aliança unilateral que ela defende não poderia mais ser aceita como uma eclesiologia adequada em troca da aliança unilateral a que ela se opõe.

Como temos apontado, a teologia da libertação tende a idealizar os pobres. Mas, uma vez admitido que um grupo em particular é o portador do evangelho e do significado da história, a causa do grupo é considerada absoluta e endossada em nome de Deus, e confunde-se com a própria causa de Deus. O conceito de que uma classe ou grupo possa representar a mission Dei, em oposição a outro que, sendo maligno, necessita ser derrubado é autodestrutivo. Ele acaba meramente invertendo os papéis de opressor e oprimido, e, finalmente, converte-se em uma visão de Deus essencialmente pagã como uma deidade tribal. Essa visão também corre o risco de criar uma versão moderna do entendimento exclusivista de uma extra-ecclesian nulla sallus. Além do mais, se a igreja se identifica com um partido político, seu papel como crítica da moral em questões públicas, como os teólogos da libertação demandam, está em perigo de ser neutralizada e sua própria integridade religiosa ser ameaçada.

Como o teólogo católico Avery Dulles coloca, “a igreja pode estar em casa com uma teologia de conflito e de luta de classes em vez de uma teologia de reconciliação?”[82] Os teólogos da libertação tentam justificar sua visão partidária da igreja para com os pobres com o argumento de que o “evangelho é para os pobres”. No entanto, pode o evangelho ser legitimamente usado como um elemento divisor da humanidade nas linhas categóricas do mundo? Não almeja o evangelho precisamente a abolição de todas essas divisões? Em seu protesto correto contra o desvio histórico do evangelho, que tem levado a igreja a tornar obscuro o relacionamento entre o espírito do homem e sua situação material por meio de um falso pietismo sem raízes nem na natureza do homem nem em sua historicidade, a teologia da libertação pendula de sua visão de um outro mundo para politização. Da passividade para a revolução, da rejeição do mundo para a assimilação. O real caráter revolucionário da igreja, no entanto, não é para encontrar-se em ativismo, mas na fidelidade ao chamado divino como um microcosmo do que a vida pode ser sob o domínio de Deus. Porque uma ordem [social] mais justa não pode ser estabelecida com as estratégias e armas dos tempos passados, a igreja confronta e mundo e as potências temporais com os valores do novo aeon. Portanto, em sentido contrário à noção dos teólogos da libertação, a igreja necessita de renovação, conversão profunda, em vez de uma mera mudança de aliança de classes.

A análise do pensamento eclesiológico libertacionista revela dificuldades ainda maiores. Em sua tentativa de mobilizar a igreja como um instrumento de mudança, os teólogos da libertação tendem a compreendê-la em termos do mundo e julgar sua validade em termos de efetividade[83] e impacto social na transformação da sociedade. Dentro dessa visão funcional da igreja, a ecclesia é basicamente concebida como mais um bloco de poder seguindo toda uma organização social dominante.[84] Então, tende-se a perguntar onde está o significado da igreja e onde sua natureza essencial repousa? Por um lado, enquanto Gutiérrez, por exemplo, insiste que a igreja deve ser “vista em termos do mundo”,[85] por outro lado ele a considera como o sinal de uma realidade além do alcance do mundo.[86] Mas onde repousa a validade desse sinal? Está no fato de que o mundo parece apreciar, agora, a efetividade e o valor utilitário da igreja, ou é isso um valor intrínseco como um sinal indiferente a quaisquer momentos históricos em particular que se possam imaginar?[87]

Os teólogos da libertação corretamente chamam a igreja para levar a realidade social a sério. Ainda que eles atribuam à igreja um papel na sociedade de tal forma que estão em termos mais definidos pelo mundo do que por aqueles encontrados no evangelho. De acordo com Gutiérrez, as fronteiras igreja-mundo são tênues[88] na medida em que muitos cristãos comprometidos – unindo forças com vários grupos seculares comprometidos com a revolução social – não fazem distinção entre colaborar para o reino de Deus e colaborar para a revolução social.[89] Até que ponto pode a igreja engajar-se em ativismo político e em luta de classes e ainda ser fiel à sua vocação divina para um ministério de reconciliação?

Considerando que devem estar plenamente conscientes da tendência perigosa em direção ao dualismo teológico tradicional, a teologia da libertação volta-se em direção ao monismo histórico, o que não é uma mudança satisfatória. Sua propensão tão sincretista e tão universalista está, particularmente, distorcendo o evangelho. Obliterando a distinção entre a igreja e o mundo, a teologia da libertação acaba transformando a igreja em um partido político como outro, tentando dizer e fazer o que outros movimentos seculares estão dizendo e fazendo. Na medida em que a igreja quer ser cristã, e não meramente uma outra agência emancipadora para “mudar o mundo”, sua prática deve ser determinada e dependente da revelação de Deus e estar sob o juízo crítico da Palavra de Deus.

Os teólogos da libertação tentam moldar sua eclesiologia seguindo o conceito de identificação de Jesus para com os pobres. A formulação cristológica libertacionista, no entanto – que tende a transformar Jesus primariamente em um libertador histórico na esfera econômica e política, proclamando um evangelho partidário para com os materialmente pobres – dificilmente encontra muito suporte bíblico.[90] Além do mais, baseando-se em sua compreensão dos pobres como identificados em termos de análise de classes marxista, a teologia da libertação parece conceber a “igreja dos pobres” como já temos visto: como a igreja de uma classe revolucionária específica. Nesse caso, a opção de igreja pelos pobres é, de fato, uma opção pelo proletariado em termos de luta de classes – aqueles que estão em conformidade com as exigências teóricas de demandas ideológicas. Mas essa ênfase virtualmente elimina as bases cristológicas que os teólogos da libertação querem dar à sua compreensão da igreja.

Como podemos manter a noção teológica do ubi Christus, ibi ecclesia e, ao mesmo tempo, associar a igreja a uma classe social? Devemos supor que Jesus empregou a mesma análise social científica que os teólogos da libertação têm adotado? Jesus “opta pelos necessitados” quem quer que sejam eles?[91] Teólogos da libertação exageram na questão quando procuram dar uma base ontológica para a identificação de Jesus com os pobres. Essa ênfase cabalmente resulta em uma externalização questionável na qual os pobres, com base em sua condição social, estão automaticamente incluídos na igreja. Podemos, legitimamente, afirmar que os pobres e oprimidos são a “verdadeira igreja”, como sugerem os teólogos da libertação? Ou eles são, devido à sua condição socioeconômica externa, transformados automaticamente em “Povo de Deus”? Se a Bíblia sugere que Deus está do lado dos pobres, dificilmente significa que os pobres estão automaticamente ao lado de Deus.

A teologia da libertação tem, positivamente, desafiado a ética individualista do cristianismo tradicional. Corretamente expõe a tradicional concentração todo-absorvente do espiritual e do além e chama a atenção para as implicações sociais do evangelho. Colocando ênfase na natureza coletiva do pecado e da salvação, ela tenta abrir o caminho para a atividade da igreja na esfera política. Dentro dessa visão, no entanto, a salvação é temporalizada e vinculada a este mundo na medida em que está virtualmente igualada com a libertação sócio-político-econômica.[92] Esse paradigma imanentista de salvação, embora tempestivo e atrativo, não é suficientemente satisfatório. Se a essência das boas-novas é que a igreja tem que proclamar o que tem a ver com o bem-estar material imediato, hic et nunc, como, então, devemos distinguir essa salvação intra-histórica da solução oferecida pela política, o assistente social ou o economista? Pela mesma razão, a exclusão do opressor torna-se uma consequência fatal desse ponto de vista de salvação, pois, pode-se, certamente, perguntar por que deve o evangelho estar direcionado àqueles que já têm o que ele oferece?

Além do mais, não é a compreensão de salvação para a teologia da libertação uma noção fundamental para a sua concepção de igreja, radicalmente, servir a correlação decisiva entre a salvação e a fé?[93] Articulados no âmbito daquilo que pode ser chamado de uma visão marxista-pelagiana do pecado e do talento, são os oprimidos, através de sua própria iniciativa, que libertam a si mesmos. A salvação torna-se, principalmente, um ato político para defender uma utopia política. Como observa K. Braaten, “o tipo de salvação que a teologia da libertação geralmente levanta é algo que atenienses poderiam, em princípio, descobrir sem a ajuda de Jerusalém […] algo que virá através da práxis humana sem qualquer dependência necessária sobre o ato de Deus em Jesus Cristo”.[94] Há, aqui, o perigo de um colapso total no abandono do evangelho para a esfera política e secular, oferecendo aos oprimidos uma salvação que poderia ser provida sem referência à obra redentora de Jesus Cristo. Todavia, se é verdade que para o marxismo a vida humana tem necessidades e significado tão somente em relação ao processo histórico, de acordo com o ensino bíblico, o sentido da existência humana não se encontra, exclusivamente, em relação ao presente, mas, também, no destino final do indivíduo. Nas palavras de Jesus: “Não só de pão viverá o homem” (Mt 4:4).

A teologia da libertação tem corretamente insistido que a igreja deve transcender a abordagem paternalista tradicional para com os pobres e começar a lidar com as causas profundas da pobreza. Isso, em larga escala, significa que a ênfase deve ser posta sobre a responsabilidade política. Maravilha-se, no entanto, se é justificável esperar da igreja operar diretamente no campo político com a eficácia e certeza como a requerida pelos teólogos da libertação. Além do mais, pode, também, maravilhar-se se não fora precisamente o envolvimento histórico da igreja na esfera secular e lutando com meios seculares, tentando fazer o que poderes seculares deveriam estar fazendo, que responde pelas maiores distorções de que os teólogos da libertação a acusam.

Enquanto, de algum modo, é possível concordar com a ênfase da teologia da libertação sobre o imperativo da presença cristã naqueles esforços que almejam os ideais refletidos no reino de Deus, devem, ao mesmo tempo, evitar as armadilhas de uma escatologia secularizada. Os cristãos devem permanecer conscientes de que o mais e o melhor que eles podem fazer é testemunhar do reino, colaborando como “luz” e “sal” na terra. Sem desmoronar em uma passividade e um pessimismo apocalíptico, deveríamos nos resguardar com uma perspectiva bíblica que dificilmente se pode ver na participação política do homem como “complementando”, “construindo” ou “efetuando” o reino de Deus. O reino virá por iniciativa de Deus em Seu próprio tempo e em Seu próprio modo. “Não pode ser forçado a existir por quaisquer quantidades de esforços políticos ou sociais. Continua a ser uma dádiva de Deus e do retorno do Senhor a um mundo que não pode se aperfeiçoar por seus próprios esforços.”[95]

A práxis do reino, como observa Schillebeeckx, é expressa sobretudo na metanoia.[96] De fato, o reino só existe sobre a terra onde os homens se submetem ao governo de Deus, e esse objetivo não pode vir a partir de um escopo no âmbito de disputas políticas. Parece que, infelizmente, para os teólogos da libertação, os valores evangélicos não transformam a realidade social. É o oprimido, lutando para superar a alienação e opressão, que transforma a si mesmo e a sociedade. Nessa construção, no entanto, há pouco espaço, se há algum, para a parousia. O reino não vem de cima [from above], ele procede de baixo [from below], a partir do processo de libertação que é, ao menos fragmentariamente, a obra dos oprimidos. O tipo de descontinuidade implicada pela ruptura radical na história por Cristo em sua segunda vinda – que é o ensinamento principal das Escrituras (Mt 16:27; Lc 9:26; Jo 14:3; 21:21-23; At 1:9-11; 1Ts 4:16; Hb 9:27; Ap 1:7) – não parece funcionar dentro do pensamento escatológico da teologia da libertação.

Finalmente, tanto quanto os marxistas, os cristãos genuínos querem a resolução do problema da injustiça, da opressão e do conflito entre classes. A igreja, no entanto, como a comunidade de uma nova era, enquanto aguardando a intervenção final de Deus na história, deve trilhar um caminho diferente. A igreja transcende ideologias humanas, não por imitá-las, mas por ser ela mesma. É por viver a vontade de Deus, pelo verdadeiro amor sacrificial e pelo autêntico testemunho cristão que a igreja, com os cristãos, desafia e subverte os valores e sistemas do mundo. Aqueles que têm em si mesmos experimentado o amor de Deus para com sua própria pobreza, fraqueza e miséria encontram na graça divina a identidade moral para seu serviço de compaixão para com os pobres e necessitados. Provavelmente porque no livro de Atos, onde Lucas retrata a vida de serviço da igreja cristã primitiva, o foco de atenção não são os pobres em si, mas aqueles que estão ministrando a eles (Atos 6:11; 9:36).

Referências:

[66] Ao longo da história do continente, forças políticas conservadoras têm usado a Igreja Católica Romana, em particular, e o papel da religião, em geral, como forças de estabilização moral, os guardiões de valores tradicionais e como um meio de preservar a “lei” e a “ordem,” o que, geralmente, significa a “lei” e “ordem” dos opressores; ver O. Costas, Theology of the Crossroads (Amsterdam: Editions Rodopi, 1976), p. 81. Religião tem sido mal utilizada para sacramentar o status quo e interpretar políticas públicas retrogradas como a “vontade de Deus”; ver Galilea, “Pastoral popular, liberación y política”, em Pastoral Popular y Liberación en America Latina, coleción IPLA 14 (Quito: Dept. Pastoral CELAM 1972), p. 29.

[67] Gutierrez, A Theology, p. 139. A imagem da igreja que não intervém na ordem temporal passou a ser vista como uma abstração idealista. Para a teologia da libertação, a posição da igreja nunca é neutra; qualquer “pretensão de não envolvimento em política […] nada mais é que um subterfúgio para manter as coisas como elas estão” (Gutierrez, ibid.) p. 256. Portanto, agora que as classes pobres e exploradas estão fazendo suas vozes serem ouvidas dentro da igreja, retornar à sua “função puramente religiosa” significaria “legitimar o status quo”; p. 272, 273.

[68] Gutiérrez, “The poor in the Church”, in The Poor and the Church; ee. Norbert Greinacher e Alois Mülle (New York: The Seabury Press, 1977), p. 13.

[69] Na América Latina, essa visão se atualiza através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), um fenômeno católico generalizado considerado uma forma eficaz de trazer a ecclesia em estreito contato com as massas do povo comum. Esse tipo de formação de base da igreja tem, de fato, dado origem a um novo modelo de igreja. Nas palavras de Leonardo Boff, “uma verdadeira eclesiogênese” vem ocorrendo nas estruturas eclesiais verticais”; Boff, “Theology Characteristics of a Grassroots Church”, em The Challenge os Basic Christian Communities, ee. Sergio Torres e John Eagleson, (Maryknoll, NY.: Orbis Books, 1981), p. 133. Para uma discussão e uma bibliografia mais ampla, ver A. Rodor, The Concept of the Poor, p. 178-194.

[70] Gutiérrez, The Poor in the Church, p. 15.

[71] Gutiérrez, A Theology, p. 210.

[72] Míguez Bonino, “Fundamental Questions in Ecclesiology”, em The Challenge of Basic Christian Communities, p. 147.

[73] A igreja, afirma a teologia da libertação, recebera de Jesus uma imagem paradigmática, elaborada a partir de Seu ministério para com os pobres, Sua solidariedade para com eles, Sua compaixão para com multidões e Seus ataques contra os poderosos. Tudo isso, como Jon Sobrino afirma, é a Sua Verdadeira Igreja e Os Pobres, faz-se o lugar onde os pobres são a posição normativa a qual a verdadeira igreja é e há de ser; Sobrino, The True Church (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1984), p. 84-124. Portanto, a igreja deve viver uma vida concreta de identificação com os pobres e ministrar às necessidades deles. Desde que Jesus Se identifica com eles, os pobres não são meramente recipientes da caridade cristã ou de uma entidade externa à qual a igreja deve estar relacionada de uma forma ou de outra. Eles pertencem à compreensão da própria natureza da igreja e tornam-se um critério eclesiológico, um teste de autenticidade. Nas palavras de Miguez Bonino, “a igreja que não é a igreja dos pobres coloca em sério risco o seu caráter eclesiástico”; em “The Struggle of the Poor and the Church” (The Ecumenical Review nº 27, 1975), p. 40. A identificação da igreja com os pobres, portanto, não é uma questão de preferência, mas uma escolha que deriva de sua essência constitutiva. Na verdade, segundo o teólogo chileno Pablo Richard, “a igreja é dos pobres ou não é a igreja”; em “The Latin American Church 1959-1978”, CrossCur 28, 1978, p. 36.

[74] Gutierrez, “Notes for a Theology of Liberation”, p. 259. Para a maior parte dos teólogos da libertação, esta ordem de justiça [social] significa uma sociedade socialista ideal, que será, de forma tipológica, o reino escatológico. Juan Luis Segundo não deixa dúvidas de que a igreja tem que se decidir em favor do socialismo, em “Capitalism Socialism: A Theological Cruz” (Conc 96, 1974), p. 105-233. Para uma crítica dessa noção, ver Arthur F. McGovern, Marxism: An American Christian Perspective (Maryknoll, NY.: Orbis Books, 1980), p. 201. Mais cauteloso, Gutierrez, à exceção dessa ideia de evangelização “politizada e conscientizada”, não dá especificações sobre como e quando a igreja deve se envolver. Com as recentes mudanças no bloco soviético e no socialismo na Europa, pode-se perguntar onde os novos eventos deixam a teologia da libertação em relação à sua idealização do socialismo. Uma edição inteira da revista teológica brasileira Tempo e Presença, nº 252 (julho-agosto de 1990), publicada por católicos progressistas, foi dedicada a essa questão. Nos vários artigos, torna-se claro que, para os teólogos da libertação, o que ruíra na Europa foi apenas uma espécie de capitalismo de Estado ou um socialismo distorcido. Para alguns, a crise do socialismo moderno tem, até mesmo, uma dimensão positiva, pois pode trazer uma alternativa melhor. Deve ser lembrado que desde o início os teólogos da libertação têm argumentado que a América Latina deve encontrar um modelo de sociedade socialista de acordo com suas próprias características, e que se adequará à sua realidade, sem recorrer a qualquer importação estrangeira. Embora a maioria dos teólogos da libertação continue a identificar-se como socialista, percebe-se uma mudança significativa na paixão tradicional da teologia da libertação para com o socialismo. Hugo Assmann descreve o modo de pensamento dicotômico inicial de capitalismo-socialismo como “um pecado original da teologia da libertação que deve ser superado” (cp. Sigmund, Libertion Theology at the Crossroad, p. 178). Outro teólogo da libertação brasileiro, J. B. Libanio, em um trabalho recente, argumenta, até mesmo, que “no lugar do socialismo, a teologia da libertação fala, agora, de uma alternativa ao capitalismo”, em Teologia da Libertação (São Paulo: Loyola Editorial, 1987), p. 27. Tem havido nos escritos de teólogos da libertação, no entanto, uma penúria desapontadora e uma incerteza quando eles discutem o socialismo. Parece que, para eles, o socialismo continua a ser um ideal utópico de um igualitarismo cooperativo, uma ordem social não exploradora – com detalhes a serem preenchidos posteriormente. Mas, como Sigmund observa, fora “a falta de um modelo para a sociedade socialista em Marx que consolidou a derrubada do capitalismo que permitira a Joseph Stalin criar a historia” (ibid., p. 178). Precisamente, o tipo de socialismo que os teólogos da libertação defendem está, hoje, em crise. Leonardo Boff, “Implosão do Socialismo e Teologia da Libertação”, Tempo e Presença, p. 32-36; Frei Beto, “O Socialismo Morreu, Viva o Socialismo”, ibid., p. 17-20; ver, também, Argemiro Ferreira, “Nem fim do Socialismo e nem fim da História”, ibid., p. 14-16.

[74] Gutiérrez, A Theology, p. 259-279. Para uma discussão proveitosa desses três níveis do envolvimento da igreja, ver Costas, The Church and Its Mission: A Shatering Critique from the Third World (Wheaton: Thindale House, 1974), p. 237-240.

[75] Gutiérrez, A Theology, p. 259-279. Para uma discussão proveitosa desses três níveis do envolvimento da igreja, ver Costas, The Church and Its Mission: A Shatering Critique from the Third World (Wheaton: Thindale House, 1974), pp. 237-240.

[76] Gutiérrez, ibid., p. 262-265. A concepção de Gutierrez da Eucaristia é, todavia, no mínimo problemática. Ele vê a ascensão como um símbolo da fraternidade humana; assim, ele conclui: “Sem um compromisso real contra a exploração e a alienação e por uma sociedade de solidariedade e de justiça [social], a celebração da Eucaristia é uma ação vazia” (ibid., p. 265). Sua visão é válida, mas ele não fornece quaisquer sugestões de como a igreja poderia fazer da sua celebração eucarística um símbolo de unidade genuína em um mundo radicalmente dividido. Ele afirma que “a unidade da igreja não será verdadeiramente alcançada sem a unidade no nível de posse material que assegurará unidade dentro da igreja”. Deve a celebração cristã esperar pela unidade mundial ideal ou deve o dilema ser resolvido evitando que os opressores participem junto aos militantes? A noção de unidade da igreja na teologia da libertação, reduzida a uma mera expressão da realidade humana, é superficial e facilmente derrubada pela visão de Paulo da igreja, onde, em Cristo, “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher” (Gl 3:28).

[77] Uma das noções centrais da teologia da libertação salienta que Deus, como um Deus libertador, incondicionalmente fica do lado dos pobres (Gutierrez, “Two Theological Perspectives”, p 247; para uma discussão mais ampla, ver a bibliografia de Rodor em The Concept of the Poor, p. 214-252. O texto da Escritura, como a narrativa do Êxodo, Lucas 4:18-21 e muitos outros, é frequentemente utilizado para validar essa proposição teológica. Vez após vez, novamente, é-nos dito que os pobres são os favoritos de Deus; os primeiros a quem a missão de Jesus fora direcionada. Essa identificação torna-se uma espécie de paradigma inspiracional e justifica a posição teológica e ética da igreja em juntar-se aos pobres (ver, acima, a nota 74). A ideia de que Deus demonstra uma preocupação especial para com os indefesos na sociedade está, inquestionavelmente, enraizada em uma sólida base bíblica. O cuidado e o amor de Yahweh para com os pobres e Sua revelação como um Deus que é o vindicador compassivo dos oprimidos são temas recorrentes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Dificuldades, entretanto, surgem com as ambiguidades inerentes à formulação influenciada pelo marxismo libertacionista da tese teológica e das implicações que os teólogos da libertação formulam a partir dela (ver Rodor, p. 326).

[78] Gutiérrez destaca que o evangelho tem “uma função politizadora” (ibid., p. 269). Os teólogos da libertação insistem que os pobres “estão pouco conscientes de que são homens” (Gutierrez, Liberation Theology and Proclamation, p. 57-59), necessitados de experimentar, no nível psicológico, uma “libertação interior” (Gutierrez, A Theology, p. 91), que é materializada mediante um processo de conscientização (ou seja, um despertar da consciência crítica que produz uma experiência de descontentamento social). Para Miguez Bonino, “a mobilização para um trabalho sério e amplo de politização das massas, ajudando-as a se tornar conscientes da contradição do sistema sob o qual sofrem” (Doing Theology, p. 141). É exatamente a “evangelização consciente” que, em larga escala, provê o fundamento para as Comunidades Eclesiais de Base. É por meio desse esclarecimento que as CEBs desencadeiam o processo como sujeitos responsáveis, capazes de forjar uma verdadeira sociedade igualitária justa e fraternal. Deve ser notado que essa “consciência crescente” vai além da crítica de Marx à religião. Contrariamente à conclusão marxista de que a religião é apenas uma influência alienante inteiramente a serviço das classes dominantes, mantendo o ignorante oprimido de sua verdadeira realidade e dando-lhe falso consolo para suas aflições do tempo presente, os teólogos da libertação estão determinados a refutar tal criticismo empregando as Escrituras e os símbolos cristãos como forças libertadoras na luta do proletariado.

[79] Os teólogos católicos romanos da libertação protestaram fortemente contra sua própria igreja por negligenciar em grande parte as demandas sociais do evangelho. Os cristãos evangélicos podem, dificilmente, em sã consciência, alegar “inocência” diante de uma questão similar. Harvie Coon descreve, propriamente, a teologia da libertação como decorrente do fato das “contas a pagar da igreja” (“Theologies of Liberation: An Overview”, in Tensions in Contemporary Theology), p. 131. Há uma verdade básica na afirmação de Ronald Sider que, ao ignorar, em grande parte, a centralidade do ensino bíblico sobre a preocupação para com os pobres e os oprimidos, “a teologia evangélica tem sido, profundamente, pouco ortodoxa”; por Ronald Sider, “A Evangelical Theology of Liberation”, em Perspectives on Evangelical Theology, ee. Kenneth S. Kantzer e Stanley N. Gundry (Grand Rapids: Baker Book House, 1980), p. 314. Temerosos de horizontalismo, evangélicos, frequentemente, se refugiam em verticalismo, mas, como Wilhelm A. Visser’t Hooft tão bem coloca: “Um cristianismo que perdeu suas dimensões verticais perdeu seu sal e não só é insípido em si, mas inútil para o mundo. Mas um cristianismo que usasse a preocupação vertical como meio de escapar de sua responsabilidade na vida comum do ser humano é uma negação da encarnação do amor de Deus no mundo manifestada em Cristo.” Cp. Sider, “Evangelism, Salvation and Social Justice”, p. 6.

[80] A “opção pelos pobres” libertacionista tende a limitar a universalidade da igreja e compromete a sua oferta de salvação a todos de uma forma que transforma a ecclesia em uma facção política partidária. Como o teólogo católico Hans Urs von Balthasar observa, a igreja não pode “celebrar a Eucaristia unicamente com aqueles que são materialmente pobres, limitar a sua unidade católica ao ‘partido’ dos pobres, ou seja, não querer estender a todos os homens que buscam uma ‘luta de classes’ vitoriosa” em “Historie du salut et théologie de la libéracion,” (NovTTh 99, 1977), p. 529.

[81] Como observa David J. Booch: “A teologia do status quo e uma teologia da revolução são, em essência, exatamente iguais. Cada uma aceita uma estrutura específica como manifestação normativa do reino de Deus”, em “The Church and the Liberation of People” (Missionalia 6, August 1977), p.18. Inquestionavelmente, a igreja deve se posicionar ao lado dos fracos e dos impotentes, mas não pode se comprometer absolutamente com qualquer estrutura social, seja uma já existente ou uma que se espera existir. Ela não pode comprometer sua visão, nem para o opressor nem para o oprimido.

[82] Avery Dulles, em “Theology in the Americas”, ee. Sergio Torres e John Eagleson (Maryknoll, NY.: Orbis Books, 1976), p. 95. A visão liberacionista da igreja envolvida na luta de classes em favor dos oprimidos retém as sementes da violência e da mentalidade das cruzadas. Essa observação, no entanto, é feita em profunda simpatia para com as preocupações dos teólogos da libertação. Os cristãos devem reconhecer que as pessoas mais violentas na sociedade, frequentemente, não são aquelas que lutam pela libertação, mas aquelas que os desumanizam e os mantêm em opressão, aqueles que usam seu poder para suprimir a mudança. Os teólogos da libertação estão corretos em suspeitar de muitas chamadas para a “não violência” entre os oprimidos, enquanto protesto semelhante não é feito contra aqueles que usam a “violência institucionalizada”, aqueles que criam e mantem estruturas opressivas e violentas.

[83] Teólogos da libertação demandam da efetividade da igreja em termos do mundo. No entanto, se a efetividade revolucionária em termos de padrões seculares é a medida da relevância da igreja, como devemos manter um foco cristológico, quando Cristo pelos padrões do mundo fora não efetivo? Stanley Hauer tem incisivamente observado que isso pode sugerir que “as políticas mais efetivas não podem estar abertas à participação cristã exatamente porque os meios necessários para as políticas efetivas são inapropriados para o tipo de reino em que servimos como cristãos”; em “The Politics of Clarity” (Interpretation 31, 1977), p. 254.

[84] Esse entendimento, no entanto, não presta atenção adequada à realidade invisível e divina da igreja. Teólogos da libertação tendem a minimizar aquelas realidades na igreja que ultrapassam as limitações e realizações das instituições humanas. Enfatizando a importância da presença da igreja no processo de mudanças estruturais na América Latina, não deveria a teologia da libertação dar atenção ao chamado à conversão e à santidade que a igreja faz aos homens? Ou a força da igreja encontra-se, exclusivamente, em sustentar a luta de classes?

[85] Gutiérrez, A Theology, p.67.

[86] Ibid., p. 262-265.

[87] Indo ainda mais além, devemos enfatizar que se o sinal é de valor intrínseco, então, a igreja dificilmente pode ser avaliada em termos dos padrões do mundo e a teologia da libertação enfrenta aqui o desafio de um paradoxo não resolvido. O significado de um sinal depende da crença que aqueles que defendem o sinal têm colocado sobre ele, ao invés do valor que pessoas externas possam atribuir a ele. Sendo esse o caso, enquanto para os crentes a igreja pode ser um sinal de salvação, para o mundo que pode ser apenas um sinal de contradição, como no caso do próprio Jesus e da cruz. Consequentemente, como pode a igreja ser vista em “termos do mundo”, quando o mundo, naturalmente, não pode discernir o significado na realidade que a igreja como um sinal aponta?

[88] Gutiérrez, A Theology, p.72.

[89] A partir do Novo Testamento fica claro que o triunfo final sobre o mal não é trazido por quaisquer meios humanos ou políticos. A intervenção de Deus na história, não o progresso humano, é a decisão final sobre o mistério da história. “A responsabilidade do cristão em derrotar o mal”, como diz Yoder, “é resistir à tentação de encontrá-lo em seus próprios termos. Esmagar o adversário maligno é ser derrotado por ele porque significa aceitar seus padrões”, por John H. Yoder (Peace Without Echatology), p. 111. Para esperar ou exigir da igreja que se junte a forças seculares, em termos seculares, com a finalidade de criar um sistema econômico ou social que reflita a ética do reino, é pedir muito mais do que a igreja pode realmente oferecer, e isso pode apenas resultar em desilusão.

[90] O retrato do ministério de Jesus nos Evangelhos Sinópticos trata, frequentemente, sobre sua comunhão com os humildes e os marginalizados. De fato, parece indiscutível que os ensinos e os feitos de Jesus, cumprindo as palavras do Antigo Testamento concernentes às ações salvíficas de Deus, foram libertadores e marcados por uma “opção pelos pobres”. De forma surpreendente Jesus procura os enfermos, os humildes, os pecadores, as mulheres, as crianças, os desprezados, os estrangeiros, os marginalizados e os pobres. No entanto, uma vez que o Reino é universal, a opção de Jesus para com os pobres não constitui a fundação de um partido dos pobres em oposição aos ricos. Os ricos não são amaldiçoados, mas, sim, convidados à conversão (Lc 18:18-22; 19:1-10; etc.). Ademais, o fato de que no tempo de Jesus era possível ser materialmente próspero e ainda um pária da sociedade (como no caso dos coletores de impostos) deve nos fazer cuidadosos em tornar muito fácil e exclusivo na identificação entre “os pobres” dos quais Jesus era partidário, com os exclusivamente desfavorecidos economicamente. Assim, a menos que os libertacionistas fossem além do que Rosemary Ruether chamou de o “modelo apocalíptico e sectário opressor-oprimido” dos teólogos da libertação, em Liberation Theology (New York: Paulist Press, 1973), p. 13, correm o risco de reduzir a igreja a uma outra formação emancipatória secular.

[91] Uma “opção pelos pobres” fiel às Escrituras deve, então, brotar do Evangelho e não de pragmatismo sócio-político, de motivações ideológicas ou de esperanças humanistas utópicas. A igreja deve se identificar com os pobres e oprimidos porque, como fica evidente no ato escatológico de Deus em Jesus Cristo, esse é o sinal do reino (Lc 4:18-21; 7:22). Porque Jesus e Seu evangelho ficaram do lado dos pobres, Sua igreja não pode fazer menos do que isso. Mas essa opção deve estar livre de quaisquer ambiguidades. A mensagem de Jesus e a “opção pelos pobres” transcendem classes sociais e alinhamentos ideológicos. Portanto, “opção pelos pobres” não deveria significar, à luz das Escrituras, que a igreja deva mostrar um interesse, em particular, por aqueles alienados em quaisquer níveis, evitando, assim, um cativeiro ideológico. Ademais, a igreja deve transcender qualquer idealização do pobre. É preciso reconhecer que o poder redentor dos pobres, ao contrário da ênfase liberacionista, não reside em sua superioridade moral, mas no fato de que através deles Deus sinaliza as mudanças necessárias para a vinda do Seu reino. Os pobres são redimidos não por causa de seu potencial revolucionário, mas no sentido de que neles toda a sociedade descobre a verdade sobre si mesma. Neles a humanidade confronta-se com sua desumanidade.

[92] Isso não significa que os teólogos da libertação neguem a realidade da salvação no outro mundo – há, em seus escritos, comentários qualificativos suficientes para sugerir que essa não é sua intenção –, mas é evidente que eles não lidam com esse aspecto de forma adequada. Costa observa que embora Gutierrez fale de libertação como ocorrendo em três níveis: o político, o psicológico e o religioso ou o espiritual, e argumente que os três são parte de um único processo salvífico, ele, raramente, vai além do político em sua exposição da teologia da libertação (Christ Outside the Gate, p. 129).

[93] De forma significativa, os teólogos da libertação, em geral, não atentam suficientemente para a doutrina paulina da justificação e seu lugar em uma visão bíblica total de salvação.

[94] K. Braaten, The Christian Doctrine of Salvation, p. 127, 128.

[95] Hans Urs von Balthasar, Current Trends in Catholic Theology, CommunioICAR (1978), p. 84, 85.

[96] Edward Schillebeeckx, The God of Jesus and the Jesus of God, in Schillebeeckx and Bas van Iersel, Jesus Christ and Human Freedom (New York, NY: Herder and Herder, 1974), p. 116.

(Pastor Amin Rodor, ThD, é professor de Teologia Sistemática na Faculdade Adventista de Teologia, Unasp-EC. Trabalhou em diversos segmentos da IASD no Brasil e no mundo. Artigo originalmente publicado, em Inglês, sob o título “The Impact of Liberation Theologies on the Church” pelo Biblical Research Institute e, posteriormente, revisado e publicado pela revista Kerygma e pelo site Estudos Adventistas, que fez a tradução do texto original.)

O impacto das teologias de libertação sobre a igreja (parte 3)

Teologia da libertação, a igreja e uma nova perspectiva eclesiológica

Embora as teologias negras e feminista tenham, também, uma visão funcional da igreja, parece que tal conceito não está explicitamente articulado em uma eclesiologia clara.[56] Teólogos da libertação latino-americanos, contudo, têm devotado intelecto e esforço para estabelecer em termos pouco precisos sua noção de comunidade cristã.

Fiéis à sua metodologia teológica, com um compromisso ativo na práxis,[57] os libertacionistas têm tentado redefinir a compreensão da igreja, para superar a tradicional visão eclesiocêntrica e conservadora da presença da igreja no continente. Focando no papel fundamental que deve conduzir sua participação na luta pela libertação e pela justiça, os teólogos da libertação demandam uma completa descentralização da igreja e delineiam uma eclesiologia radical em forte contraste com aquela que tem sido operativa no passado.

Uma nova perspectiva eclesiológica

Para fornecer uma interpretação teológica para o engajamento da igreja em favor dos pobres e sua causa, a teologia da libertação procura, primeiramente, construir uma ponte no enorme buraco entre a vida normal da fé e o compromisso revolucionário defendido por seus proponentes. Gutiérrez, em particular, dirige-se à questão do relacionamento entre a missão da igreja e a práxis social, entre a salvação e o processo de libertação. Ele destaca sua visão da igreja com a afirmação fundamental de que toda eclesiologia deve estar enraizada em uma compreensão adequada da salvação. A noção tradicional de salvação da igreja – que, corrompida com a conotação quase exclusiva de um outro mundo, tornou-se uma espécie de “fuga da realidade”[58] – é radicalmente desafiada pela rejeição da teologia da libertação de qualquer divisão entre o espiritual e o material.[59]

Para a teologia da libertação, a salvação não é mais uma questão quantitativa e extensiva (i.e., uma questão de quantos serão salvos e o papel que a igreja desempenha nesse processo), mas, em vez disso, uma questão qualitativa e intensiva (i.e., uma questão de como exercer a graça salvadora que tem se tornado extensiva a cada um no evento de Cristo). Embora a abordagem quantitativa destaque os aspectos individuais, eclesiocêntricos e futurísticos da salvação, a qualitativa, pelo contrário, enfatiza as suas dimensões corporativas, universais e atuais. Disto emerge a conclusão inevitável: despojada do monopólio dos recursos da graça e da redenção, a igreja deve cessar “de considerar a si mesma como a fonte exclusiva de salvação e orientar-se em torno de um novo e radical serviço para a humanidade”.[60]

Negando qualquer pretensão de universalidade eclesiástica com base em noções espaciais, os teólogos da libertação colocam a questão em um novo contexto. A significância universal de igreja deve ser entendida de forma dinâmica, em termos de missão vocacional e especial, fazendo as obras de amor no mundo, estando a serviço dos homens e se manifestando ao resto da humanidade como quem faz seu caminho para a mensagem do plano de Deus para o mundo.

A igreja é, portanto, essencialmente um sinal visível e sacramental[61] da libertação dos homens na história. Como tal, não existe para si mesma. Ela não tem significado por si só, a não ser na medida em que é capaz de dar significado à realidade em função da qual ela existe. O que esse entendimento da igreja significa para a comunidade eclesiástica em um contexto onde enfrenta lutas pela libertação e por uma sociedade justa? Significa que a igreja deve encontrar sua missão em dar significado à realidade da salvação, tornando-se um sinal visível da presença do Senhor no esforço de romper com uma ordem social injusta, para libertar e humanizar os oprimidos.

A igreja e o mundo

Para os teólogos da libertação, a noção tradicional expressa pela fórmula “a igreja e o mundo” tem funcionado como um dualismo que tem servido para excluir a igreja da história: sobrenatural e natural, história da salvação e história secular, o sagrado e o profano. Assim, rejeitando as respostas tradicionais à questão do relacionamento entre a igreja e o mundo, os teólogos da libertação enfatizam que essa bifurcação se torna uma “frase antiquada que deve ser substituída pela ‘igreja no mundo’ ou pela ‘igreja do mundo’”.[62]

Para Gutiérrez, a igreja não é um não-mundo ou uma “ordem aparte”, a ordem da salvação e da santidade no mundo. Em vez disso, a igreja “deve se voltar para o mundo, no qual Cristo e seu Espírito estão presentes e ativos; a igreja deve se permitir ser habitada e evangelizada pelo mundo. […] a teologia da igreja no mundo deve ser complementada por uma teologia do mundo na igreja”.[63] Desde que para a teologia da libertação, a história é aquela em que[64] “as fronteiras entre a vida de fé e obras temporais, entre a igreja e o mundo, tornam-se mais fluidas em ambas as direções. Participar no processo de libertação já é, em certo sentido, uma obra salvífica”.[65]

Resumindo, consistente com a orientação histórica que permeia seus escritos, os teólogos da libertação enfatizam que não existe uma solidariedade da igreja para com o mundo. A salvação a qual a igreja testemunha está intimamente relacionada com a libertação do homem no plano político. A missão da igreja, portanto, é determinada mais pelo contexto político da sociedade em que está inserida, do que por preocupações intraeclesiásticas. Vivendo em um mundo de revolução social, a identidade da igreja, sua missão e estruturas eclesiásticas, assim como sua abordagem para com a sociedade, deve ser definida em relação à realidade histórica. Onde nisso tudo se encontra a transcendência da igreja? Não há dúvida de que, para teólogos da libertação, é tão-somente tornando-se imanente ao mundo que a igreja, realmente, testemunhará sua transcendência; em contrapartida, o fracasso na imanência só revela uma transcendência inapropriada.

Referências:

[56] Avery Dulles em seu Models of the Church, por exemplo, dificilmente menciona teologias negras ou feministas.

[57] Para os teólogos da libertação a ação pastoral da igreja tem chegado a uma conclusão a partir de premissas teológicas. A teologia não guia a atividade pastoral, mas é, em vez disso, uma reflexão sobre ela. Ver Gutierrez, “Notes for a Theology of Liberation”, ThS 31 (1971), p. 144, 145. For this reason, Gutierrez insists that if the church whishes to deal with the real question of the modern world and to attempt to respond to them, it must open a new chapter of theological-pastoral epistemology. Assim “em vez de usar apenas a revelação e a tradição como ponto de partida… ela deve iniciar com fatos e questões derivadas do mundo e da história” (A Theology), p. 12.

[58] Sob a influência da filosofia grega dualista, a igreja tradicionalmente interpretou a realidade em duas dimensões históricas, em duas esferas isoladas. Por um lado, o universo não-histórico, o reino superior e exaltado de verdade eterna, espírito, alma e salvação sobrenatural, tudo além do mundo humano da história; por outro lado, a esfera mundana e inferior, usualmente associada ao reino maligno da matéria, corpo e natureza. A opção entre as duas realidades, vistas como irreconciliáveis, parece clara. A igreja tornara-se preocupada demais com o reino sobrenatural, exibindo uma decidida falta de interesse no temporal, no lado empírico da vida humana, que se sente tão somente à parte de seus interesses, mas, também, considerado religioso e moralmente irrelevante.

Como uma correção significativa para esse viés espiritualizador, a teologia da libertação tem exposto a infiltração do dualismo platônico na teologia ocidental tradicional, que fizera do evangelho e da salvação excessivamente individualistas e de outro mundo. Gutierrez, como os teólogos da libertação em geral, defende uma visão mais ampla da salvação, uma “que envolva toda a realidade humana, transforma-a e a conduz a sua plenitude em Cristo” (A theology, p. 153). No entanto, a teologia da libertação oscila o pêndulo longe demais em direção à esfera política da vida. VerCarl E. Braaten, “The Christian Doctrine of Salvation” (Interp, 1981), p. 127-130; ver, também, Orlando Costas, Christ Outside the Gate (Marykoll, NY.: Books, 1982), p. 139-130.

[59] Entendida como uma “realidade intra-histórica”, argumenta-se, a salvação não pode mais se referir a uma outra esfera separada e de forma distinta às condições materiais da vida humana. Salvação, insistem os teólogos da libertação, deve ser orientada para a transformação da realidade humana na história, começa, portanto, na construção do “projeto histórico.” Gutierrez, “Freedom and Salvation”, p. 86. Hugo Assmann, “Theology for a Nomad Church” (Maryknoll, NY.: Orbis Books, 1976), p. 67. Uma vez que a libertação que Cristo oferece é universal e integral, satisfaz-se ao envolver a todos os homens e ao homem como um todo, não sendo sem consequências políticas; portanto, não se limita, puramente, a um “plano espiritual.”

[60] Gutiérrez, A Theology, p.261

[61] Ibid., p. 261. O Segundo Concílio Vaticano já concebera a igreja como sacramento de salvação (Lumen Gentium, nº’s 1, 48; Gaudium et Spes, nº 45.). Esta noção é considerada o marco mais importante do Vaticano II no campo da teologia dogmática; ver K. Rahner, “The Christian of the future” (Montreal: Pam Publishers, 1964), p. 82. No entanto, não ganhou a aceitação de todos os teólogos pois temia-se que ela levaria a uma “redução da eclesiologia no estudo de elementos externos”; Jerome Hamer, “The Church Is a Communion” (New York: Sheed and Ward, 1964), p. 88.

[62] Assmann, “Practical Theology of Liberation” (London: Search Press, 1975), p. 91. Este entendimento coloca a teologia na trilha de uma nova forma de conceber a relação entre a igreja histórica e o mundo

[63] Gutiérrez, A Theology, pp. 260-261.

[64] Gutierrez, ibid., p. 53-167. Argumentando-se a partir de um ponto de vista teológico que tenta eliminar todo dualismo, a teologia da libertação afirma que toda a história é unificada. Não há história de salvação separada. Toda a história deve ser entendida como uma história geral da salvação. Esta visão monistica da história tem dado margem a fortes críticas. Ver B. Kloppenburg, The People’s church (Chicago: Franciscan Herald Press, 1974), p. 100-105; ver, também, Peter Wagner, Latin American Theology: Radical or Evangelical? (Grand Rapids, MI.: Wm. B. Eeerdmans, 1970), p. 42. Se tudo é história da salvação, como os teólogos da libertação afirmam, cogita-se a concordar com a observação de Morris Inch que “então, nada é história de salvação e o homem, como um todo, permanece alienado de Deus,” “Doing Theology Across Culture” (Grand Rapids: Baker Book House, 1982), p. 69.

[65] Gutiérrez, ibid., p. 72.

(Pastor Amin Rodor, ThD, é professor de Teologia Sistemática na Faculdade Adventista de Teologia, Unasp-EC. Trabalhou em diversos segmentos da IASD no Brasil e no mundo. Artigo originalmente publicado, em Inglês, sob o título “The Impact of Liberation Theologies on the Church” pelo Biblical Research Institute e, posteriormente, revisado e publicado pela revista Kerygma e pelo site Estudos Adventistas, que fez a tradução do texto original)

Leia também a parte 2 deste estudo (clique aqui).