Pastor presbiteriano afirma que guardar o sábado bíblico é pecado

A oferta de Caim, a falsa adoração e a autojustificação

caim abelPor que Deus rejeitou a oferta de Caim, em Gênesis 4?

Em Gênesis capítulo 4, encontramos o triste relato do primeiro homicídio da história humana, quando Caim mata o irmão Abel. No livro Patriarcas e Profetas, Ellen White comenta: “Caim veio perante Deus com íntima murmuração e incredulidade, com respeito ao sacrifício prometido e necessidade de ofertas sacrificais. Sua dádiva não exprimia arrependimento de pecado. Achava, como muitos agora, que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus, confiando sua salvação inteiramente à expiação do Salvador prometido. Preferiu a conduta de dependência própria. Viria com seus próprios méritos. Não traria o cordeiro, nem misturaria seu sangue com a oferta, mas apresentaria seus frutos, produtos de seu trabalho. Apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina. Caim obedeceu ao construir um altar, obedeceu ao trazer um sacrifício, prestou, porém, apenas uma obediência parcial. A parte essencial, o reconhecimento da necessidade de um Redentor, ficou excluída.”

Escreveu também: “Esses irmãos foram provados, assim como o fora Adão antes deles, para mostrar se creriam na Palavra de Deus e a obedeceriam. Estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus. Sem derramamento de sangue não poderia haver remissão de pecado; e deviam eles mostrar sua fé no sangue de Cristo como a expiação prometida, oferecendo em sacrifício o primogênito do rebanho. Além disso, as primícias da terra deviam ser apresentadas diante do Senhor em ação de graças.

“Os dois irmãos de modo semelhante construíram seus altares, e cada qual trouxe uma oferta. Abel apresentou um sacrifício do rebanho, de acordo com as instruções do Senhor. ‘E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta’ (Gn 4:4). Lampejou o fogo do Céu, e consumiu o sacrifício. Mas Caim, desrespeitando o mandado direto e explícito do Senhor, apresentou apenas uma oferta de frutos.”

O assunto é bem claro: Caim procurou se autojustificar ao desprezar o sangue do Cordeiro. Para ele, Deus tinha que aceitar a oferta que ele trouxesse, do jeito dele. O que importava era a vontade e a disposição do adorador, não a vontade do Ser adorado. Para alguns leitores mais atentos da Bíblia, o verso 7 desse capítulo é o mais problemático. Por isso, procurando deixar tudo mais claro, o pastor e mestre em Teologia Eleazar Domini oferece a seguinte explicação/exegese com base no texto original hebraico:

“O texto diz: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo’ (Gn 4:7). De que ‘porta’ o texto está falando? Muitos interpretam esse texto da seguinte forma: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta [do coração]; o seu desejo [desejo do pecado] será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo [tem que dominar o pecado] (Gn 4:7), o que dá margem até mesmo para interpretações perfeccionistas. A questão toda é que chatat é uma palavra feminina, e os sufixos utilizados no verso são masculinos. Ou seja, há uma aparente contradição, se traduzirmos chatat por ‘pecado’. Vejamos como está no hebraico: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta [veremos que porta é essa]; o desejo dele será para ti, e sobre ele dominarás’ (Gn 4:7). No hebraico, está literalmente assim. Por isso, aqui cabe uma exegese bem-feita, para não errarmos no que o texto está dizendo:

“1. Não somos capazes de dominar o pecado sozinhos. Já há um grave erro teológico aqui. Isso é perfeccionismo puro. Vencer o pecado não cumpre a mim, cumpre a Cristo por mim e em mim.

“2. Uma análise mais acurada do texto demonstra que, como disse antes, o termo chatat pode ser, e é mais bem traduzido nesse texto por oferta pelo pecado e não ‘pecado’. Porque, se não, como responder a esta pergunta: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta; o desejo dele [Dele quem? Se chatat é feminina, quem é esse ele?) será para ti, e sobre ele [ele quem?] dominarás’ (Gn 4:7).

“Logo, há um erro gravíssimo de tradução que precisa ser revisto. Mas, se analisarmos o texto como ele está, precisaremos buscar o antecedente masculino mais próximo, que é Abel, no verso 4. Logo, o ele do texto não tem que ver com chatat, mas com Abel. E por que Abel? O que isso tem que ver com a história?

“Ao Deus aceitar Abel e rejeitar Caim, é como se Abel estivesse herdando o patriarcado, a herança, a primogenitura. Ninguém rejeitado por Deus seria escolhido para ser o próximo patriarca depois de Adão. Daí o ódio de Caim contra seu irmão.

“Agora vamos a uma tradução mais correta do texto: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que uma oferta pelo pecado [palavra feminina] jaz à porta [do jardim, não do coração; era na porta do jardim que Adão e Eva ofereciam seus holocaustos, segundo Ellen White]; o desejo dele [de Abel, que é o antecedente masculino mais próximo] será para ti, e sobre ele [Abel] dominarás’ (Gn 4:7).

“As expressões ‘desejo’ e ‘domínio’ têm as mesmas nuances de quando Deus diz a Eva que o desejo dela seria para o marido e ele dominaria (no sentido de ele ser o cabeça da casa, o cabeça da mulher). Nesse caso, se Caim voltasse e fizesse o que Deus mandou, o desejo de Abel seria para ele outra vez e ele dominaria sobre Abel de novo, ou seja, Caim voltaria a seu status de primogênito e seria o chefe da família, dominando sobre Abel. Mas ele não aceitou isso e matou o irmão. Detalhe: a Tradução Etíope traz essa mesma visão.

“Resumindo: o problema de Caim foi oferecer algo que Deus não havia pedido. Ofereceu algo diferente do que Deus solicitou. Aqui está um princípio básico para a adoração: adoração não é o que eu quero dar para Deus; adoração é o que Deus pede de mim. Nem sempre o que eu quero dar, mesmo que de coração, é o que Deus está solicitando. Caim entregou a oferta errada e por isso foi rejeitado. Não foi rejeitado por outro motivo, apenas por esse. É claro que foi um fruto de seu coração rebelde, e por isso Deus o rejeitou, e depois rejeitou a oferta dele. Mas a rejeição ocorreu por causa da oferta errada. Não se pode rejeitar o Cordeiro impunemente.”

(Se quiser aprofundar esse assunto, leia “At the door of Paradise: A contextual interpretation of Genesis 4:7”, publicado em Biblische Notizen 100 (2000): 45-59; Joaquim Azevedo, ex-professor do Salt-Iaene, é PhD em Religião pela Andrews University e diretor do Departamento de Religião da Southwestern Adventist university, Keene, Texas, USA)

Um engano chamado “teologia gay”

teologia_gayO padrão de Deus para o exercício da sexualidade humana é o relacionamento entre um homem e uma mulher no ambiente do casamento. Nesta área, a Bíblia só deixa duas opções para os cristãos: casamento heterossexual e monogâmico ou uma vida celibatária. À luz das Escrituras, relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são vistas não como opção ou alternativa, mas sim como abominação, pecado e erro, sendo tratadas como prática contrária à natureza. Contudo, neste tempo em que vivemos, cresce na sociedade em geral, e em setores religiosos, uma valorização da homossexualidade como comportamento não apenas aceitável, mas supostamente compatível com a vida cristã. Diferentes abordagens teológicas têm sido propostas no sentido de se admitir que homossexuais masculinos e femininos possam ser aceitos como parte da Igreja e expressar livremente sua homoafetividade no ambiente cristão.

Existem muitas passagens na Bíblia que se referem ao relacionamento sexual padrão, normal, aceitável e ordenado por Deus, que é o casamento monogâmico heterossexual. Desde o Gênesis, passando pela lei e pela trajetória do povo hebreu, até os evangelhos e as epístolas do Novo Testamento, a tradição bíblica aponta no sentido de que Deus criou homem e mulher com papéis sexuais definidos e complementares do ponto de vista moral, psicológico e físico. Assim, é evidente que não é possível justificar o relacionamento homossexual a partir das Escrituras, e muito menos dar à Bíblia qualquer significado que minimize ou neutralize sua caracterização como ato pecaminoso. Em nenhum momento a Palavra de Deus justifica ou legitima um estilo homossexual de vida, como os defensores da chamada “teologia inclusiva” têm tentado fazer. Seus argumentos têm pouca ou nenhuma sustentação exegética, teológica ou hermenêutica.

A “teologia inclusiva” é uma abordagem segundo a qual, se Deus é amor, aprovaria todas as relações humanas, sejam quais forem, desde que haja esse sentimento. Essa linha de pensamento tem propiciado o surgimento de igrejas em que homossexuais, nessa condição, são admitidos como membros e a eles é ensinado que o comportamento gay não é fator impeditivo à vida cristã e à salvação. Assim, desde que haja amor genuíno entre dois homens ou duas mulheres, isso validaria seu comportamento, à luz das Escrituras. A falácia desse pensamento é que a mesma Bíblia que nos ensina que Deus é amor igualmente diz que Ele é santo e que Sua vontade quanto à sexualidade humana é que ela seja expressa dentro do casamento heterossexual, sendo proibidas as relações homossexuais.

Em segundo lugar, a “teologia inclusiva” defende que as condenações encontradas no Antigo Testamento, especialmente no livro de Levítico, se referem somente às relações sexuais praticadas em conexão com os cultos idolátricos e pagãos, como era o caso dos praticados pelas nações ao redor de Israel. Além disso, tais proibições se encontram ao lado de outras regras contra comer sangue ou carne de porco, que já seriam ultrapassadas e, portanto, sem validade para os cristãos. Defendem ainda que a prova de que as proibições das práticas homossexuais eram culturais e cerimoniais é que elas eram punidas com a morte – coisa que não se admite a partir da época do Novo Testamento.

É fato que as relações homossexuais aconteciam inclusive – mas não exclusivamente – nos cultos pagãos dos cananeus. Contudo, fica evidente que a condenação da prática homossexual transcende os limites culturais e cerimoniais, pois é repetida claramente no Novo Testamento. Ela faz parte da lei moral de Deus, válida em todas as épocas e para todas as culturas. […] Quando ao apedrejamento, basta dizer que outros pecados punidos com a morte no Antigo Testamento continuam sendo tratados como pecado no Novo, mesmo que a condenação capital para eles tenha sido abolida – como, por exemplo, o adultério e a desobediência contumaz aos pais.

Pecado e destruição

Os teólogos inclusivos gostam de dizer que Jesus Cristo nunca falou contra o homossexualismo. Em compensação, falou bastante contra a hipocrisia, o adultério, a incredulidade, a avareza e outros pecados tolerados pelos cristãos. Este é o terceiro ponto: sabe-se, todavia, que a razão pela qual Jesus não falou sobre homossexualidade é que ela não representava um problema na sociedade judaica de Sua época, que já tinha como padrão o comportamento heterossexual. Não podemos dizer que não havia judeus que eram homossexuais na época de Jesus, mas é seguro afirmar que não assumiam publicamente essa conduta. Portanto, o homossexualismo não era uma realidade social na Palestina na época de Jesus. Todavia, quando a Igreja entrou em contato com o mundo gentílico – sobretudo as culturas grega e romana, onde as práticas homossexuais eram toleradas, embora não totalmente aceitas –, os autores bíblicos, como Paulo, as incluíram nas listas de pecados contra Deus. Para os cristãos, Paulo e demais autores bíblicos escreveram debaixo da inspiração do Espírito Santo enviado por Jesus Cristo. Portanto, suas palavras são igualmente determinantes para a conduta da Igreja nos dias de hoje.

O quarto ponto equivocado da abordagem que tenta fazer do comportamento gay algo normal e aceitável no âmbito do Cristianismo é a suposição de que o pecado de Sodoma e Gomorra não foi o homossexualismo, mas a falta de hospitalidade para com os hóspedes de Ló. A base dos teólogos inclusivos para essa afirmação é que no original hebraico se diz que os homens de Sodoma queriam “conhecer” os hóspedes de Ló (Gn 19:5) e não abusar sexualmente deles, como é traduzido em várias versões, como na Almeida Atualizada. Outras versões, como a Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje entendem que conhecer ali é conhecer sexualmente e dizem que os concidadãos de Ló queriam “ter relações” com os visitantes, enquanto a SBP é ainda mais clara: “Queremos dormir com eles.” Usando-se a regra de interpretação simples de analisar palavras em seus contextos, percebe-se que o termo hebraico usado para dizer que os homens de Sodoma queriam “conhecer” os hóspedes de Ló (yadah) é o mesmo termo que Ló usa para dizer que suas filhas, que ele oferecia como alternativa à tara daqueles homens, eram virgens: “Elas nunca conheceram (yadah) homem”, diz o versículo 8. Assim, fica evidente que “conhecer”, no contexto da passagem de Gênesis, significa ter relações sexuais. Foi essa a interpretação de Filo, autor judeu do século 1º, em sua obra sobre a vida de Abraão: segundo ele, “os homens de Sodoma se acostumaram gradativamente a ser tratados como mulheres”.

Ainda sobre o pecado cometido naquelas cidades bíblicas, que acabaria acarretando sua destruição, a “teologia inclusiva” defende que o profeta Ezequiel claramente diz que o erro daquela gente foi a soberba e a falta de amparo ao pobre e ao necessitado (Ez 16:49). Contudo, muito antes de Ezequiel, o “sodomita” era colocado ao lado da prostituta na lei de Moisés: o rendimento de ambos, fruto de sua imoralidade sexual, não deveria ser recebido como oferta a Deus, conforme Deuteronômio 23:18. Além do mais, quando lemos a declaração do profeta em contexto, percebemos que a soberba e a falta de caridade era apenas um entre os muitos pecados dos sodomitas. Ezequiel menciona as “abominações” dos sodomitas, as quais foram a causa final da sua destruição: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Foram arrogantes e fizeram abominações diante de Mim; pelo que, em vendo isto, as removi dali” (Ez 16:49, 50). Da mesma forma, Pedro, em sua segunda epístola, refere-se às práticas pecaminosas dos moradores de Sodoma e Gomorra tratando-as como “procedimento libertino”.

Um quinto argumento é que haveria alguns casos de amor homossexual na Bíblia, a começar pelo rei Davi, para quem o amor de seu amigo Jônatas era excepcional, “ultrapassando o das mulheres” (2Sm 1:26). Contudo, qualquer leitor da Bíblia sabe que o maior problema pessoal de Davi era a falta de domínio próprio quanto à sua atração por mulheres. Foi isso que o levou a casar com várias delas e, finalmente, a adulterar com Bate-Seba, a mulher de Urias. Seu amor por Jônatas era aquela amizade intensa que pode existir entre duas pessoas do mesmo sexo e sem qualquer conotação erótica. Alguns defensores da “teologia inclusiva” chegam a categorizar o relacionamento entre Jesus e João como homoafetivo, pois este, sendo o discípulo amado do Filho de Deus, numa ocasião reclinou a cabeça no peito do Mestre (Jo 13:25). Acontece que tal atitude, na cultura oriental, era uma demonstração de amizade varonil – contudo, acaba sendo interpretada como suposta evidência de um relacionamento homoafetivo. Quem pensa assim não consegue enxergar amizade pura e simples entre pessoas do mesmo sexo sem lhe atribuir uma conotação sexual.

Torpeza

Há uma sexta tentativa de reinterpretar passagens bíblicas com o objetivo de legitimar a homossexualidade. Os propagadores da “teologia gay” dizem que, no texto de Romanos 1:24-27, o apóstolo Paulo estaria apenas repetindo a proibição de Levítico à prática homossexual na forma da prostituição cultual, tanto de homens como de mulheres – proibição esta que não se aplicaria fora do contexto do culto idolátrico e pagão. Todavia, basta que se leia a passagem para ficar claro o que Paulo estava condenando. O apóstolo quis dizer exatamente o que o texto diz: que homens e mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza, e que se inflamaram mutuamente em sua sensualidade – homens com homens e mulheres com mulheres –, “cometendo torpeza” e “recebendo a merecida punição por seus erros”. E ao se referir ao lesbianismo como pecado, Paulo deixa claro que não está tratando apenas da pederastia, como alguns alegam, visto que a mesma só pode acontecer entre homens, mas a todas as relações homossexuais, quer entre homens ou mulheres.

É alegado também que, em 1 Coríntios 6:9, os citados efeminados e sodomitas não seriam homossexuais, mas pessoas de caráter moral fraco (malakoi, pessoa “macia” ou “suave”) e que praticam a imoralidade em geral (arsenokoites, palavra que teria sido inventada por Paulo). Todavia, se esse é o sentido, o que significam as referências a impuros e adúlteros, que aparecem na mesma lista? Por que o apóstolo repetiria esses conceitos? Na verdade, efeminado se refere ao que toma a posição passiva no ato homossexual – esse é o sentido que a palavra tem na literatura grega da época, em autores como Homero, Filo e Josefo – e sodomita é a referência ao homem que deseja ter coito com outro homem.

Há ainda uma sétima justificativa apresentada por aqueles que acham que a homossexualidade é compatível com a fé cristã. Segundo eles, muitas igrejas cristãs históricas, hoje, já aceitam a prática homossexual como normal – tanto que homossexuais praticantes, homens e mulheres, têm sido aceitos não somente como membros, mas também como pastores e pastoras. Essas igrejas, igualmente, defendem e aceitam a união civil e o casamento entre pessoa do mesmo sexo. É o caso, por exemplo, da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos – que nada tem a ver com a Igreja Presbiteriana do Brasil –, da Igreja Episcopal no Canadá e de igrejas em nações europeias como Suécia, Noruega e Dinamarca, entre outras confissões. Na maioria dos casos, a aceitação da homossexualidade provocou divisões nessas igrejas, e é preciso observar, também, que só aconteceu depois de um longo processo de rejeição da inspiração, infalibilidade e autoridade da Bíblia. Via de regra, essas denominações adotaram o método histórico-crítico – que, por definição, admite que as Sagradas Escrituras sejam condicionadas culturalmente e que refletem os erros e os preconceitos da época de seus autores. Dessa forma, a aceitação da prática homossexual foi apenas um passo lógico. Outros ainda virão. Todavia, cristãos que recebem a Bíblia como a infalível e inerrante [sic] [leia sobre isso aqui] Palavra de Deus não podem aceitar a prática homossexual, a não ser como uma daquelas relações sexuais consideradas como pecaminosas pelo Senhor, como o adultério, a prostituição e a fornicação.

Contudo, é um erro pensar que a Bíblia encara a prática homossexual como sendo o pecado mais grave de todos. Na verdade, existe um pecado para o qual não há perdão, mas com certeza não se trata da prática homossexual: é a blasfêmia contra o Espírito Santo, que consiste em atribuir a Satanás o poder pelo qual Jesus Cristo realizou Seus milagres e prodígios aqui neste mundo, mencionado em Marcos 3:22-30 [o pecado contra o Espírito Santo é o pecado do qual a pessoa não se arrepende e que, por isso, acaba levando-a à perdição]. Consequentemente, não está correto usar a Bíblia como base para tratar homossexuais como sendo os piores pecadores dentre todos, que estariam além da possibilidade de salvação e que, portanto, seriam merecedores de ódio e desprezo. É lamentável e triste que isso tenha acontecido no passado e esteja se repetindo no presente. A mensagem da Bíblia é esta: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus”, conforme Romanos 3:23. Todos nós precisamos nos arrepender de nossos pecados e nos submeter a Jesus Cristo, o Salvador, pela fé, para receber o perdão e a vida eterna.

Lembremos ainda que os autores bíblicos sempre tratam da prática homossexual juntamente com outros pecados. O 20º capítulo de Levítico proíbe não somente as relações entre pessoas do mesmo sexo, como também o adultério, o incesto e a bestialidade. Os sodomitas e efeminados aparecem ao lado dos adúlteros, impuros, ladrões, avarentos e maldizentes, quando o apóstolo Paulo lista aqueles que não herdarão o Reino de Deus (1Co 6:9, 10). Porém, da mesma forma que havia nas igrejas cristãs adúlteros e prostitutas que haviam se arrependido e mudado de vida, mediante a fé em Jesus Cristo, havia também efeminados e sodomitas na lista daqueles que foram perdoados e transformados.

Compaixão

É fundamental, aqui, fazer uma distinção importante. O que a Bíblia condena é a prática homossexual, e não a tentação a essa prática. Não é pecado ser tentado ao homossexualismo, da mesma forma que não é pecado ser tentado ao adultério ou ao roubo, desde que se resista. As pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo devem se lembrar de que esse desejo é resultado da desordem moral que entrou na humanidade com a queda de Adão e que, em Cristo Jesus, o segundo Adão, podem receber graça e poder para resistir e vencer, sendo justificados diante de Deus.

Existem várias causas identificadas comumente para a atração por pessoas do mesmo sexo, como o abuso sexual sofrido na infância. Muitos gays provêm de famílias disfuncionais ou tiveram experiências negativas com pessoas do sexo oposto. Há aqueles, também, que agem deliberadamente por promiscuidade e têm desejo de chocar os outros. Outro fator a se levar em conta são as tendências genéticas à homossexualidade, cuja existência não está comprovada até agora e tem sido objeto de intensa polêmica. Todavia, do ponto de vista bíblico, o homossexualismo é resultado do abandono da glória de Deus, da idolatria e da incredulidade por parte da raça humana, conforme Romanos 1:18-32. Portanto, não é possível para quem crê na Bíblia justificar as práticas homossexuais sob a alegação de compulsão incontrolável e inevitável, muito embora os que sofrem com esse tipo de impulso devam ser objeto de compaixão e ajuda da Igreja cristã.

É preciso, também, repudiar toda manifestação de ódio contra homossexuais, da mesma forma com que o fazemos em relação a qualquer pessoa. Isso jamais nos deveria impedir, todavia, de declarar com sinceridade e respeito nossa convicção bíblica de que a prática homossexual é pecaminosa e que não podemos concordar com ela, nem com leis que a legitimam. Diante da existência de dispositivos legais que permitem que uma pessoa deixe ou transfira seus bens a quem ele queira, ainda em vida, não há necessidade de leis legitimando a união civil de pessoas de mesmo sexo – basta a simples manifestação de vontade, registrada em cartório civil, na forma de testamento ou acordo entre as partes envolvidas. O reconhecimento dos direitos da união homoafetiva valida a prática homossexual e abre a porta para o reconhecimento de um novo conceito de família. No Brasil, o reconhecimento da união civil de pessoas do mesmo sexo para fins de herança e outros benefícios aconteceu ao arrepio do que diz a Constituição: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento” (Art. 226, § 3º).

Cristãos que recebem a Bíblia como a palavra de Deus não podem ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma vez que seria a validação daquilo que as Escrituras, claramente, tratam como pecado. O casamento está no âmbito da autoridade do Estado e os cristãos são orientados pela Palavra de Deus a se submeter às autoridades constituídas; contudo, a mesma Bíblia nos ensina que nossa consciência está submissa, em última instância, à lei de Deus e não às leis humanas – “Importa antes obedecer a Deus que os homens” (At 5:29). Se o Estado legitimar aquilo que Deus considera ilegítimo, e vier a obrigar os cristãos a irem contra a sua consciência, eles devem estar prontos a viver, de maneira respeitosa e pacífica em oposição sincera e honesta, qualquer que seja o preço a ser pago.

(Augustus Nicodemus Lopes; artigo publicado na revista Cristianismo Hoje e republicado no blog O Tempora, o Mores)

Mudanças litúrgicas para alcançar os secularizados

celebrationO que acontece quando uma congregação adventista deseja mudar para alcançar pessoas seculares? E se o padrão de mudanças inclui alterações litúrgicas e a adoção de métodos e práticas das igrejas evangélicas? Quais as consequências para a identidade profética? Para responder a essas e outras perguntas, aqui serão analisados brevemente os primórdios do movimento Celebration, suas implicações e reações (assista ao vídeo que completa o texto).

Breves apontamentos históricos

O pastor Dan Simpson estudou as técnicas de crescimento de igreja propostas por Peter Wagner, um dos gurus do movimento, e as compartilhou com a congregação adventista que ele pastoreava, a Calimesa Church.[1] Sem resultados, Simpson assumiu a congregação adventista Azure Hills, localizada em Grand Terrace, California, no fim do ano de 1986, onde contou com a assessoria de Carl F. George, um consultor de igrejas associado ao Charles E. Fuller Institute of Evangelism and Church Growth.[2]

Em abril de 1989, a Associação da qual Simpson fazia parte votou que ele estabelecesse a congregação que ficaria conhecida como Colton Celebration Center, em um edifício alugado da denominação Assembleia de Deus.[3] A proposta logo ganhou adesão de outras congregações adventistas, recebendo especial destaque as congregações Milwaukie church, em Oregon e Buffalo church, em New York.[4] Nascia o movimento Celebration, que representou “uma ruptura decisiva com a liturgia adventista tradicional”,[5] o qual atingiu muitas congregações adventistas nos Estados Unidos durante a década de 1990 e ainda influencia a discussão sobre liturgia em muitos contextos. O que podemos aprender desse movimento?

Nos bastidores do estilo celebracionista

Hasel, analisando o estilo “celebracionista” de culto, constatou a ocorrência de pelo menos três mudanças: (a) quanto à estrutura congregacional, sendo que as congregações tornaram-se mais independentes, abandonando o uso do Hinário Adventista e agindo administrativamente como se fossem “mini-denominações”; (b) quanto à liturgia, que agregou elementos como dança, teatro, inovações hinódicas, etc.; (c) quanto às doutrinas: ao invés das doutrinas tradicionais adventistas, a ênfase recaiu sobre amor, perdão e aceitação.[6] A conclusão de Hasel traz um alerta muito expressivo: “Em nossa fome espiritual, em nossa ânsia por reavivamento e poder do alto, fixemos nossos olhos na direção da Palavra de Deus. Na Escritura nós encontraremos força renovada e poder divino para descobrir e redescobrir a vontade de Deus para Seu povo no tempo do fim. Os adventistas são o povo do Livro; e o Espírito que fala através do Livro nos renovará.”[7]

Por que o estilo de adoração celebracionista se oporia ao estudo das Escrituras? Segundo Bacchiochi, deve-se reconhecer que, em muitos casos, “aqueles que suplicam por música eclesiástica que ofereça satisfação pessoal ignoram que isso implica buscar uma estimulação física egocêntrica em vez de uma celebração espiritual teocêntrica das atividades criativas e redentivas da divindade”.[8] Essa aproximação da cultura secular remete a modelos mais bem observados na fenomenologia de cultos pagãos. Dorneles afirma que a “relação direta entre espírito (mundo sagrado) e o homem e a natureza (mundo profano), quer seja pela gênese dos espíritos como descendentes dos humanos, quer seja pelo fenômeno de possessão, influencia a aproximação, senão a integração entre o sagrado e o profano”.[9]

Sem dúvida, isso representa um desvio do propósito da adoração autêntica, conforme asseverou Ted Wilson, presidente da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia: “O diabo está tentando neutralizar a igreja de Deus por meio da tendência de aceitar a música e a adoração carismáticas e pentecostais, abordagens que focam nos membros da igreja e naqueles que lideram a liturgia, em lugar de focar no Deus verdadeiramente adorado. Um falso entendimento da adoração nos leva ao cerne das três mensagens angélicas, uma vez que tais mensagens são para que o povo volte à verdadeira adoração a Deus e não à falsa, experiência eufórica, mas, ao contrário, à genuína conexão espiritual com Deus por meio do estudo da Bíblia e da oração.”[10]

Como deveríamos celebrar?

Segundo Klingbeil, diante dos riscos da adoração mal orientada, precisa-se tratar do assunto do culto de um ponto de vista bíblico.[11] Rodríguez reforça a ideia, enfatizando que “mudanças na liturgia necessitam ser precedidas de uma análise séria sobre a natureza da adoração cristã que auxiliará no enriquecimento da experiência de culto dos fiéis”.[12] Os adventistas do sétimo dia possuem um entendimento bastante claro sobre adoração. Entretanto, como assinala Fortin, em “anos recentes, uma hermenêutica pós-moderna de preferências pessoais e culturais tem dominado qualquer discussão sobre adoração”.[13] O autor segue dizendo que muitos estudos que pretendem descobrir princípios de adoração são de natureza revisionista e influenciados pela hermenêutica que ele denuncia. Como resultado, “todo formato e entendimento sobre adoração são impostos sobre todo o povo, e que todo estilo de adoração é um objeto de preferências congregacionais e culturais”.[14] Oliveira advoga uma consciência crítica fundamentada no significado intrínseco à música: “Se realmente tivéssemos a devida seriedade e sobriedade que o assunto do uso de música na Igreja requer, iríamos no mínimo ter a curiosidade de tentar descobrir como a música é capaz de nos afetar e comunicar ideias e sentimentos.”[15]

Em qualquer grupo de adoradores o culto em geral e o tipo de música em especial são conduzidos de acordo com a visão que se tem da divindade.[16] Gordon pondera que por dezenove séculos diversas tradições cristãs, nas mais variadas culturas, admitiram a convivência de música antiga e contemporânea, sendo a última selecionada e incorporada ao repertório da igreja. A mudança nesse padrão aponta uma mudança profunda.[17] A salvaguarda seria propor mudanças no culto somente a partir do entendimento bíblico, uma vez que, ao introduzir metodologias e práticas sob a influência da cultura secular, corre-se o risco de comprometer o sistema bíblico-doutrinário adventista. Conforme Becerra argumenta: “Alguém pode falhar em perceber como a prática de adoração gradualmente modifica a doutrina. A introdução de práticas de adoração não enraizadas nas Escrituras poderia ser perigosa. A Igreja Adventista deveria ser cautelosa em definir teologia e prática de adoração bíblica. A sociedade contemporânea é caracterizada pelo desejo pela experiência e sentimentos acima da doutrina, como se vê na adoração carismática contemporânea. Qualquer adoção de novas formas de adoração deveria ser avaliada pela sua fidelidade às Escrituras.”[18]

Para Plenc, com base na teologia bíblica, o “culto deve ser caracterizado pela reverência, ordem e solenidade em equilíbrio com comunhão, espontaneidade e alegria”.[19] Tanto na Bíblia quanto nos testemunhos de Ellen G. White, a adoração se fundamenta “em virtude dos atributos absolutos de Deus, como a infinitude, a eternidade, a grandeza e perfeição”.[20] Rodríguez acrescenta que o chamado para a adoração exclusiva que aparece nas Escrituras ocorre no contexto do grande conflito, sendo a resposta a esse chamado – e consequente envolvimento na adoração – uma tomada de posicionamento, traduzida em “expressão de lealdade a Ele [Deus] e um reconhecimento de Seu amor”, o que tem estreita relação com o coração da mensagem adventista (Ap 14:6-12).[21]

Conselhos finais

Os adventistas foram agraciados por Deus com orientações adicionais, provenientes dos testemunhos de Ellen G. White. Nos seus escritos, encontramos a seguinte repreensão a um grupo de crentes nos seguintes termos: “Sua religião parece ser mais da natureza de um estimulante do que uma permanente fé em Cristo.”[22] Para a pioneira adventista, os “verdadeiros [cristãos] conhecem o valor da obra interior do Espírito Santo sobre o coração humano. Satisfazem-se com a simplicidade nos cultos”.[23]

Desde o início, o adventismo parece ter lutado contra o excesso de emocionalismo; por isso, nota-se a recomendação: “A verdade deve ser apresentada à mente o mais isenta possível do elemento emocional.”[24] Por outro lado, não se defende um formalismo mecânico; pelo contrário: “Seu culto deve ser interessante e atraente, não se permitindo que degenere em formalidade insípida. Devemos dia a dia, hora a hora, minuto a minuto viver para Cristo; então Ele habitará em nosso coração e, ao nos reunirmos, seu amor em nós será como uma fonte no deserto, que a todos refrigera, incutindo nas almas esmorecidas um desejo ardente de sorver da água da vida.”[25]

E se no passado o movimento Celebration procurou efetuar a evangelização de forma contextualizada à sociedade norte-americana, é justo que se avalie a iniciativa a partir da contundente declaração inspirada: “Muitos supõem que, para se aproximar das classes mais altas, é preciso adotar uma maneira de vida e um método de trabalho que se harmonizem com seus fastidiosos gostos. Uma aparência de riqueza, custosos edifícios, caros vestidos, equipamentos e ambiente, conformidade com os costumes do mundo, o artificial polimento da sociedade da moda, cultura clássica, as graças da oratória, são considerados essenciais. Isso é um erro. O caminho dos métodos do mundo não é o caminho de Deus para alcançar as classes mais elevadas. O que na verdade os tocará é uma apresentação do evangelho de Cristo feita de modo coerente e isento de egoísmo.”[26]

(Douglas Reis é mestre em Teologia, doutorando em Teologia [PhD] pela Universidade Adventista del Plata e autor de livros e artigos acadêmicos sobre identidade adventista, desenvolvimento da doutrina adventista e pós-modernidade)

Referências:

[1] Viviane Haenni, “The Colton Celebration Congregation: A Case Study in American Adventist Worship Renewal 1986-1991” (Tese doutoral: Andrews University, 1996), 64.

[2] Ibid., 65.

[3] Ibid., 68.

[4] J. David Newman e Kenneth R. Wade, “Is It Safe to Celebrate?,” Ministry Magazine, 1990, acesso: 29 de Janeiro de 2017, https://www.ministrymagazine.org/archive/1990/06/is-it-safe-to-celebrate.

[5] John S. Nixon, “Towards a Theology of Worship: An Application at the Oakwood College Seventh-Day Adventist Church” (Tese doutoral, Andrews University, 2003), 21.

[6] Gerard F. Hasel, “The ‘third Wave’ Roots of Celebrationism”, in Samuel Koranteng-Pipim, Here We Stand: Evaluating New Trends in the Church (Berrien Springs, MI: Adventism Affirm, 2005), 395.

[7] Ibid., 396–397.

[8] Samuele Bacchiocchi, “Una Teología Adventista de La Música Eclesiástica”, Kerigma (Col. Moderna, México, 2001), no 2, 23.

[9] Vanderlei Dorneles, Cristãos em Busca do Êxtase: Para compreender a nova liturgia e o papel da música na adoração contemporânea (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2006), 9.

[10] Ted Wilson, “God’s Prophetic Movement, Message, and Mission and Their Attempted Neutralization by the Devil”, sermão durante o concílio anual, realizado em Silver Spring, em 11 de outubro de 2014, acesso: 15 de Outubro de 2014, http://www.adventistreview.org/church-news/%E2%80%98god%E2%80%99s-prophetic-movement,-message,-and-mission-and-their-attempted-neutralization-by-the-devil%E2%80%99.

[11] Gerald A. Klingbeil, “Una Teologia de La Musica Sacra”, Theologika (Lima, Peru, 1997), ano 12, no 2, 191.

[12] Ángel Manuel Rodriguez (org), Teologia Do Remanescente: Uma Perspectiva Eclesiológica Adventista (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2012), 18.

[13] Denis Fortin, “Ellen G. White’ Theology of Worship and Liturgy.” In Ángel Manuel Rodriguez (org), Worship, Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3. (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 84.

[14] Ibid.

[15] Jetro Oliveira, “Além Da Estética: Um Ensaio Sobe a Música Sacra E Seu Significado”, Kerigma (Engenheiro Coelho, SP, 2006), ano 2, no 1, 28.

[16] Ver especialmente Wolfgang H. M. Stefani, Música Sacra, Cultura E Adoração (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2002).

[17] T. David Gordon, Why Johnny Can’t Sing Hymns: How Pop Culture Rewrote the Hymnal (Phillipsburg, N.J.: P & R Pub., 2010), 42-43.

[18] Sergio E. Becerra, “Worship and the Magisterial Reformers.” In Ángel Manuel Rodriguez (org), Worship, Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 29.

[19] Daniel Plenc, “Toward an Adventist Theology on Worship”, In Ángel Manuel Rodriguez (org), Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 131.

[20] Daniel Plenc, “Elena G. de White Y La Adoración”, In Hector O. Martín e Daniel A. Mora (ed.), Elena G. de White: Manteniendo Viva La Visión: Documentos Del I Simpósio Bíblico-Teológico Del Seminário Teológico Adventista de Venezuela (Yaracuy, Venezuela: Seminário Teológico Adventista de Venezuela, 2015), 245–246.

[21] Rodriguez, Ángel Manuel. “Elements of Adventist Worship: Their Theology.” In Worship, Ministry, and the Authority of the Church, 133–147; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 133.

[22] Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2008), 502.

[23] Ibid.

[24] Ibid., 611.

[25] Ellen G. White, Testemunhos Seletos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), v. 2, 252.

[26] Ellen G. White, A Ciência Do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 213.

Respostas a um antitrinitariano (parte 4 de 4)

2Pergunta: Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram antitrinitarianos. Em 1872, foi elaborado um documento contendo os Princípios Fundamentais da IASD e lá não consta a Trindade. Ellen White, falando desses princípios fundamentais, disse que não deveríamos mover os pilares da nossa fé que tinham sido estabelecidos nos últimos 50 anos. São os marcos antigos dos pioneiros. Mas hoje esses pilares, esses marcos foram abandonados pela liderança da IASD. Como vocês me explicam isso?

(As respostas a esses questionamentos têm como base estudos feitos por mim e materiais que li de outros autores e amigos, como Reginaldo Castro, Matheus Cardoso e o Demóstenes Neves.)

Resposta: Primeiro é necessário dizer que a abordagem inicial é falsa e tendenciosa. Dizer que “os pioneiros da IASD eram antitrinitarianos” não é de todo verdade. Havia pioneiros que tinham vindo de igrejas evangélicas tradicionais e que criam na Trindade. É verdade, também, que alguns não criam na Trindade e outros eram semiarianos, mas perceba que isso não se aplica a todos:

  1. S. Spears, em artigo de 1889, transformado em panfleto em 1892, defende “A doutrina bíblica da Trindade”.
  1. N. Downer, em artigo na Review, de 6 de abril de 1876, declara que “as três pessoas da Trindade tiveram parte na ressurreição de Cristo”.
  1. Lee S. Wheeler observa, citando Efésios 4:4, 5: “É digno de nota que nesta como em muitas outras partes da Escritura o Espírito como sendo um é mencionado como distinto do Pai e do Filho” (Lee S. Wheeler, “The Communion of the Holy Spirit”, Review and Herald, 21/4/1891, p. 244).
  1. D. Hildereth: “Tire o Espírito Santo da Bíblia e ‘nada’ que reste é digno de ser falado” (Review and Herald, 1/4/1862).
  1. R. F. Cotrell: “Onde houver adoração verdadeira aí o Espírito Santo está” (1873).
  1. Joseph Clark defendeu o Espírito Santo como uma realidade em Si mesmo e um agente de Deus (Review, 10/3/1874).
  1. P. Bollman, em 4/11/1889, na Signs of the Times, escreveu: “O Espírito Santo é divino e Criador de todas as coisas.”
  1. A. J. Morton, em 26/10/1891, na Signs of the Times, declarou: “A divindade do Espírito Santo e Cristo e a do Pai e Cristo não pode ser separada.”
  1. Alonzo T. Jones, então da Review and Herald por muitos anos, em sermão na Sessão da Conferência Geral de 27 de fevereiro de 1895, defendeu que “o Espírito Santo é um representante pessoal de Deus”. Também disse que há uma unidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho (General Conference Bulletin, 27/2/1895).
  1. Stephen N. Haskell, no artigo “O Espírito Santo”, declarou que “a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo é um mistério” (Review, 28/11/1899).
  1. G. C. Tenny, que em 1883 usara “it” para o Espírito Santo, declarou em 1896 que o Espírito Santo era inteligente, tinha existência independente e passou a usar o pronome pessoal “he” (Review, 9/6/1896).
  1. S. M. I. Henry (Sarepta Miranda Irish Henry), escritora e evangelista, era incentivada por Ellen G. White e produzia uma página semanal na Review chamada “Mulheres na Obra do Evangelho”. Ela declarou em 1898 que “os pronomes usados em conexão com o Espírito devem nos levar a concluir que Ele é uma pessoa – uma personalidade” (The Abindig Spirit, 271).
  1. R. A Underwood, que havia sido antitrinitariano a princípio, expôs, segundo ele mesmo declara, sua mudança de compreensão a partir do estudo da Bíblia. Na Review de 3 de maio de 1898, ele disse que o Espírito é uma pessoa e que não deveríamos permitir que Satanás destruísse nossa fé “na personalidade dessa pessoa da Divindade – O Espírito Santo”. Em relação à sua opinião anterior, Underwood declarou: “Mas nós queremos a verdade porque ela é a verdade, e nós rejeitamos o erro porque é o erro, apesar de qualquer ponto de vista que nós possamos anteriormente ter sustentado ou qualquer dificuldade que nós possamos ter tido ou possamos ter agora quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa” (Review, 3/5/1898).

Como você pôde observar, havia muitos pioneiros que criam na Trindade; portanto, afirmar que os pioneiros eram antitrinitarianos é, no mínimo, uma atitude irresponsável.

A segunda abordagem feita pelo antitrinitariano refere-se aos Princípios Fundamentais, elaborados em 1872 por Urias Smith. Segundo os que não creem na Trindade, o fato de não se falar da Trindade é uma clara evidência de que essa doutrina não seria verdadeira. Para melhor esclarecermos essa segunda parte, faremos três perguntas e as responderemos de forma que o leitor consiga compreender melhor a questão:

  1. Esses princípios fundamentais eram um documento oficial da igreja?
  2. Eles representam uma finalização no conhecimento e avanço doutrinário?
  3. Eles são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala?

Resposta à pergunta 1: Não. Os Princípios Fundamentais de 1872 escritos por Uriah Smith, de que tanto falam os antitrinitarianos, não são um documento oficial da Igreja Adventista. No parágrafo inicial do documento, o próprio autor informa que não se trata de algo oficial. Destinava-se a ser apenas uma resposta sobre alguns pontos de nossa fé, e não tinha autoridade alguma sobre a igreja como um credo imutável.

Leia com atenção, pois nossos objetores não enfatizam esse detalhe:

“Ao apresentar ao público esta sinopse de nossa fé, desejamos que seja distintamente compreendido que não temos nenhum artigo de fé, credo ou disciplina, além da Bíblia. Não apresentamos isto como tendo qualquer autoridade sobre nosso povo, nem é destinado a assegurar uniformidade entre ele, como um sistema de fé, mas é uma breve declaração do que é e tem sido, com grande unanimidade, mantida por ele. Com frequência achamos necessário responder a indagações sobre este assunto” (Urias Smith, “A Declaration of the Fundamental Principles Taught and Practiced by the Seventh-day Adventists”, Battle Creek, MI: Steam Press, 1872).

Urias Smith deixou claro que o documento em questão não deveria ser tomado como um credo fechado e que ele não tinha qualquer autoridade sobre a Igreja como um credo ou sistema de fé. Agora perceba o contraste: aqui Smith afirma que esses princípios não possuem nenhuma autoridade sobre a Igreja, mas quando Ellen White se referiu aos princípios fundamentais da fé, ela afirmou que Deus “nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208). E agora? Será que quando Ellen White fala dos principais pontos de nossa fé ela não tem em mente o documento de 1872? Veremos isso mais adiante, na resposta 3.

Além disso, se aceitamos a visão trinitária de que toda a nossa base doutrinária foi lançada em 1872, teremos sérias dificuldades com a ausência de várias doutrinas que se desenvolveram posteriormente:

  1. Modéstia Cristã – 1889.
  2. Conduta Cristã – 1889.
  3. Dízimos e Mordomia – 1889.
  4. Temperança – após 1863 (Ellen White). Obs.: Uriah Smith, ainda em 1883, negava a validade de Levítico 11 (Manuscript Releases, 852, in: Spirit of Prophecy Library, v. VI, Peace Press, Loma Linda, EUAM S/D, p. 1915).
  5. A própria Justificação pela Fé passou a ser mais discutida a partir de 1888.

Algo bastante interessante – e no mínimo curioso – é o fato de os antitrinitarianos não mencionarem este texto de Uriah Smith, escrito em 1896, numa seção de perguntas e respostas da Review and Herald, na qual ele comenta a resposta:

“Pergunta: As Escrituras ordenam o louvor ou a adoração ao Espírito Santo? Se não, a última linha da doxologia não contém um pensamento não bíblico?

“Resposta: Não conhecemos nenhum lugar na Bíblia onde somos ordenados a adorar o Espírito Santo, como foi ordenado no caso de Cristo (Hb 1:6), ou onde encontramos um exemplo da adoração do Espírito Santo, como no caso de Cristo (Lc 24:52). No entanto, na fórmula para o batismo, o nome ‘Espírito Santo’ está associado ao do Pai e ao Filho. Se o nome pode ser assim usado, por que não poderia ser apropriado como parte da mesma TRINDADE no hino de louvor: ‘Louve a Deus de quem é todo fluxo de bênção?’” (Uriah Smith, Review and Herald, 27/10/1896).

Não podemos dizer que Uriah Smith tenha se tornado plenamente trinitariano, mas que sua visão já estava muito melhorada; isso com certeza. Ele até usa o termo “Trinity”, algo incomum para ele anteriormente.

Resposta à pergunta 2: Os pioneiros nunca ficaram parados no tempo em relação ao crescimento na compreensão da doutrina. Eles não tinham um credo fechado. Ao contrário disso, estavam sempre crescendo no conhecimento da verdade. Veja o que disse Tiago White:

“Eu afirmo que os credos estão em direta oposição aos dons. Imaginemos a seguinte circunstância: Obtemos um credo, declarando exatamente em que deveremos acreditar sobre esse ponto e outro, e o que deveremos fazer em referência a isso ou aquilo, e afirmamos que creremos nos dons também. Mas suponha que o Senhor, por meio dos dons, nos conceda alguma nova luz que não se harmonize com nosso credo; então, se permanecermos fiéis aos dons, isso se chocará completamente com nosso credo. Fazer um credo é fixar estacas e impedir todo avanço futuro” (Tiago White, “Doings of the Battle Creek Conference, Acts 5:16, 1861”, Review and Herald, 8/10/1861, p. 148, 149).

“Temos conseguido regozijar-nos em verdades muito além do que então percebíamos. […] Mas não pensamos de modo algum que já sabemos tudo. Esperamos ainda progredir, de forma que nossa vereda se torne cada vez mais brilhante até ser dia perfeito. Que mantenhamos sempre um estado mental inquiridor, buscando mais luz e mais verdade” (Uriah Smith, Review, 30/4/1857).

“Nunca foram as Sagradas Escrituras tão valorizadas pelo remanescente como agora. Quando o testemunho da Bíblia para começar o dia ao pôr do sol foi apresentado em clara luz, assim como outros assuntos foram apresentados na Review, eles [os primeiros adventistas] de bom grado abraçaram esse testemunho. E nós acreditamos que eles mudariam outros pontos de sua fé se eles pudessem ver uma boa razão para fazê-lo a partir das Escrituras” (Tiago White, Review, 7/2/1856).

Será que Ellen White pensava diferente?

“Percepções nítidas e claras da verdade nunca serão a recompensa da indolência. A investigação de cada ponto que foi recebido como verdade irá ricamente recompensar o pesquisador: ele encontrará pedras preciosas. E, investigando de perto todo jota e til que achamos ser verdade estabelecida, comparando escritura com escritura, podemos descobrir erros em nossa interpretação das Escrituras. Cristo quer que o pesquisador de sua palavra cave fundo nas minas da verdade. Se a pesquisa for realizada corretamente, serão encontradas joias de valor inestimável. A Palavra de Deus é a mina das insondáveis riquezas de Cristo” (Review and Herald, 12/7/1898).

“Há homens entre nós que professam compreender a verdade para estes últimos dias, mas que não investigarão com calma a verdade mais recentemente estabelecida. Estão decididos a não avançar além das estacas que estabeleceram e não ouvirão aqueles que, dizem eles, não estão em defesa dos marcos antigos. São tão autossuficientes que tornam impossível que argumentemos com eles. […] Se forem apresentadas ideias que diferem em alguns pontos de nossas doutrinas anteriores, não devemos condená-las sem uma busca diligente da Bíblia para ver se elas são verdadeiras. Devemos jejuar e orar e pesquisar as Escrituras, como fizeram os nobres bereanos, para ver se essas coisas são assim. Precisamos aceitar todos os raios de luz que nos chegam. Por meio de fervorosa oração e diligente estudo da Palavra de Deus, as coisas sombrias serão esclarecidas para o entendimento” (Signs of the Times, 26/5/1890).

Respondendo à pergunta 3:

O que são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala? São os princípios fundamentais escritos por Smith em 1872? Não! Analisemos o contexto das declarações:

“Tenho estado a suplicar ao Senhor força e sabedoria para reproduzir os escritos das testemunhas que foram confirmadas na fé e NA PRIMITIVA HISTÓRIA DA MENSAGEM. DEPOIS DE PASSAR O TEMPO EM 1844, eles receberam a luz e andaram na luz, e quando os homens que pretendiam possuir novo esclarecimento vinham com suas maravilhosas mensagens acerca de vários pontos da Escritura, tínhamos, PELA ATUAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, TESTEMUNHOS BEM DEFINIDOS, que excluíam a influência de mensagens como as que o pastor G [A. F. Ballenger] tem devotado o tempo a apresentar. Esse pobre homem tem estado a trabalhar decididamente CONTRA A VERDADE CONFIRMADA PELO ESPÍRITO SANTO. QUANDO O PODER DE DEUS TESTIFICA DAQUILO QUE É VERDADE, ESSA VERDADE DEVE PERMANECER PARA SEMPRE COMO VERDADE. Não deve ser agasalhada nenhuma suposição posterior contrária ao esclarecimento que Deus proporcionou. Surgirão homens com interpretações das Escrituras que para eles são verdade, mas que não o são. Deu-nos Deus a verdade para este tempo como um fundamento para nossa fé. ELE PRÓPRIO NOS ENSINOU O QUE É A VERDADE. Aparecerá um, e ainda outro, com nova iluminação, que contradiz aquela QUE FOI DADA POR DEUS SOB A DEMONSTRAÇÃO DE SEU SANTO ESPÍRITO. Vivem ainda alguns que passaram pela experiência obtida QUANDO ESTA VERDADE FOI FIRMADA. Deus lhes tem benignamente poupado a vida para repetir, e repetir até ao fim da existência a experiência por que passaram da mesma maneira que o fez o apóstolo João até ao termo de sua vida. E os porta-bandeiras que tombaram na morte devem falar mediante a reimpressão de seus escritos. Estou instruída de que, assim, sua voz se deve fazer ouvir. Eles devem dar seu testemunho relativamente ao que constitui a verdade para este tempo. Não devemos receber as palavras dos que vêm com uma mensagem em contradição com os pontos especiais de nossa fé. Eles reúnem uma porção de passagens, e amontoam-na como prova em torno das teorias que afirmam. Isso tem sido repetidamente feito durante os cinquenta anos passados. E se bem que as Escrituras sejam a Palavra de Deus, e devam ser respeitadas, sua aplicação, uma vez que mova uma coluna do fundamento sustentado por Deus ESTES CINQUENTA ANOS, constitui grande erro. Aquele que faz tal aplicação ignora A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO QUE DEU PODER E FORÇA ÀS MENSAGENS PASSADAS, VINDAS AO POVO DE DEUS” (Ellen G. White, The Integrity of the Sanctuary Truth, p. 15-20).

Lendo o texto acima, CONSTATAMOS QUE O ASSUNTO DO QUAL A SERVA DO SENHOR ESTÁ FALANDO É ESPECIALMENTE O SANTUÁRIO. O título do documento é “A Integridade da Verdade do Santuário”. Nada de Divindade não trinitária. Observe a menção que ela faz ao pastor Albion Ballenger. Quem foi Ballenger? Foi um popular pregador adventista que trabalhou na Inglaterra, País de Gales e Irlanda. Ballenger concluiu que o entendimento adventista do ministério de Cristo no santuário era antibíblico. Foram as ideias de Ballenger CONTRA A DOUTRINA DO SANTUÁRIO QUE MOTIVARAM O TESTEMUNHO DE ELLEN WHITE ACIMA. Não deixe também de perceber que Ellen recorda os tempos depois de 1844, quando Deus, mediante o Espírito Santo, deu testemunhos bem definidos por meio de Sua serva para confirmar o que era a verdade e para não permitir que falsas ideias penetrassem na Igreja. Quando, no texto acima, ela menciona que foi o próprio Deus quem ensinou a verdade à Igreja, quando se refere ao esclarecimento que o próprio Deus proporcionou, da maravilhosa demonstração do Espírito Santo e de que quando o poder de Deus testifica daquilo que é a verdade essa verdade não deve mais ser alterada, ELA ESTÁ FALANDO DA DOUTRINA DO SANTUÁRIO NO CONTEXTO DO ATAQUE DE BALLENGER A ESSA DOUTRINA. Nos primeiros anos do Movimento, Deus de fato deu visões a Ellen orientando os pioneiros na interpretação correta da Escritura quando após muito estudo chegavam a um impasse. Isso ocorreu nos estudos sobre o Santuário nos primeiros anos após 1844. Veja como os antitrinitarianos pegam textos fora do contexto para criar um pretexto.

Os dois textos – do Manuscrito 135 (1903) e o de Mensagens Escolhidas, volume 1, p. 208 – geralmente usados pelos objetores da Trindade, de fato estão falando dos princípios fundamentais, dos marcos antigos, das doutrinas definidoras do adventismo, as quais foram resultado de muita oração, estudo da Bíblia e confirmação por meio das visões da mensageira do Senhor. O problema é que, ao analisar o contexto dessas duas passagens, constata-se que Ellen White de forma alguma está se referindo ao documento de 1872. Vamos ler o contexto (parágrafos precedentes) dos dois trechos, respectivamente:

“Meu marido, o pastor José Bates, o pai Pierce, o pastor Edson, um homem ávido, nobre e verdadeiro, e muitos outros cujos nomes não consigo recordar agora, estavam entre aqueles que, após a passagem do tempo em 1844, buscaram a verdade. Em nossas reuniões importantes, esses homens se reuniam e buscavam a verdade como a um tesouro escondido. Reunia-me com eles e estudávamos e orávamos fervorosamente, pois sentíamos que era nosso dever aprender a verdade de Deus. Muitas vezes ficávamos reunidos até alta noite e, às vezes, a noite toda, orando por luz e estudando a palavra. Quando jejuamos e oramos, um grande poder veio sobre nós. Mas eu não conseguia entender o raciocínio dos irmãos. Minha mente estava por assim dizer fechada e eu não conseguia compreender o que estávamos estudando. Então o Espírito de Deus vinha sobre mim, eu era arrebatada em visão, e era-me dada uma clara explicação das passagens que estávamos estudando, com instruções sobre a posição que deveríamos tomar em relação à verdade e ao dever. Foi-me tornada clara uma sequência de verdades que se estendia daquele tempo até ao tempo em que entraremos na cidade de Deus, e transmiti a meus irmãos e irmãs a instrução que o Senhor me deu. Eles sabiam que, quando eu não estava em visão, eu não conseguia entender esses assuntos e aceitavam como luz direta do céu as revelações dadas. Os principais pontos de nossa fé, como os mantemos hoje, foram firmemente estabelecidos. Ponto após ponto foi claramente definido, e todos os irmãos entraram em harmonia. Toda a companhia dos crentes estava unida na verdade. Houve aqueles que vieram com doutrinas estranhas, mas nunca tivemos medo de enfrentá-los. Nossa experiência foi maravilhosamente confirmada pela revelação do Espírito Santo” (Manuscrito 135 [1903]).

“Que influência essa, que desejaria levar os homens, neste período de nossa história, a trabalhar de modo enganador e poderoso, para solapar os alicerces de nossa fé – alicerces QUE FORAM LANÇADOS NO PRINCÍPIO DE NOSSA OBRA mediante DEVOTO ESTUDO DA PALAVRA E PELA REVELAÇÃO? Sobre esses alicerces temos estado a construir, nos últimos CINQUENTA ANOS. Admirai-vos de que, quando vejo o princípio de uma obra que pretende remover alguns dos pilares de nossa fé, tenha algo a dizer? Tenho de obedecer à ordem: ‘Enfrentai-o!’ Tenho de proclamar as mensagens de advertência que Deus me dá para divulgar, e então deixar com o Senhor os resultados. Tenho de agora apresentar o assunto em todos os seus aspectos, pois o povo de Deus não deve ser despojado. Somos o povo de Deus, observador dos mandamentos. Nos passados cinquenta anos tem-se feito pressão sobre nós com toda sorte de heresias, a fim de embotar-nos o espírito em relação aos ensinos da Palavra – especialmente quanto ao ministério de Cristo no santuário celestial e à mensagem do Céu para estes últimos dias, como foi dada pelos anjos do décimo quarto capítulo do Apocalipse. Mensagens de toda espécie e feitio têm feito pressão sobre os adventistas do sétimo dia, pretendendo substituir a verdade que, ponto por ponto, foi buscada com estudo e oração, e atestada pelo poder milagroso do Senhor. Mas OS MARCOS que nos tornaram o que somos devem ser preservados, e sê-lo-ão, conforme Deus o mostrou mediante Sua Palavra e o testemunho de Seu Espírito. Ele nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208).

Note-se que algumas expressões se repetem ou são equivalentes. “Após a passagem do tempo”, “Nos passados cinquenta anos” (o texto de ME é de 1904; os cinquenta anos são uma média que vai chegar lá nos primeiros anos do movimento; o próprio texto se refere ao “princípio de nossa obra”). Os dois textos mencionam o estudo dedicado da Bíblia e a Revelação do Espírito. É inegável que os dois textos estão se referindo à mesma época: os primeiros anos após a passagem de 1844, quando os primeiros adventistas se entregaram completamente à oração e se debruçaram intensamente sobre a Bíblia a fim de aprender o que é a verdade. Seus esforços foram recompensados pela atuação do Espírito de Deus por meio do dom profético de Ellen White. Durante esse período inicial, os pilares da fé adventista foram estabelecidos. Em outro texto, ela faz a mesma recordação. Note a semelhança nas expressões:

“Os cinquenta anos passados não apagaram um jota ou princípio de nossa fé ao recebermos as grandes e maravilhosas evidências que se tornaram certas para nós em 1844, após a passagem do tempo […] Aquilo que o Espírito Santo testificou como verdade após a passagem do tempo, em nosso grande desapontamento, é o sólido fundamento da verdade. Os pilares da verdade foram revelados e nós aceitamos os princípios fundamentais que nos tornaram o que somos – adventistas do sétimo dia, observando os mandamentos de Deus e tendo a fé de Jesus” (Carta 326, 1905).

De forma clara, Ellen White está se referindo aos primórdios da Igreja, quando as doutrinas distintivas foram estabelecidas pela oração, estudo da Palavra e revelação. Os princípios fundamentais de que Ellen White fala nesses textos NEM DE LONGE SE REFEREM AOS DE 1872, ESCRITOS POR URIAH SMITH. Por que os antitrinitarianos não mostram O CONTEXTO dos trechos que citam? Agora fica claro: OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EM ELLEN WHITE NÃO SÃO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE URIAS SMITH (de 1872). Encadear os textos de modo que passem a impressão de que Ellen White está se referindo ao documento de Uriah Smith induz a uma falsidade histórica!

Mas, para que não fique nenhuma dúvida, no próximo texto, Ellen White deixa bem claro que doutrinas são essas que foram fruto de muita oração, estudo da Palavra, e que o Espírito Santo, por meio de visões, confirmou a veracidade bíblica dessas doutrinas. Preste muita atenção no texto a seguir:

“Em Mineápolis, Deus concedeu preciosas gemas da verdade ao Seu povo. Essa luz do Céu enviada a algumas pessoas foi rejeitada com toda a resistência que os judeus manifestaram ao rejeitar a Cristo, havendo muita discussão em torno da defesa dos antigos marcos. Ficou evidente, porém, que quase nada sabiam sobre o que eram os antigos marcos. Ficou claro e foram feitos apelos diretos à consciência com base na Palavra de Deus; contudo, as mentes estavam cauterizadas, seladas contra a entrada da luz, porque decidiram que seria um perigoso erro remover os ‘marcos antigos’ quando não se estava removendo nada, além das ideias errôneas do que constituíam os antigos marcos. O PASSAR DO TEMPO EM 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a PURIFICAÇÃO DO SANTUÁRIO que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com AS MENSAGENS DO PRIMEIRO, DO SEGUNDO E DO TERCEIRO ANJOS, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: ‘OS MANDAMENTS DE DEUS E A FÉ DE JESUS.’ Um dos marcos dessa mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A LUZ DO SÁBADO DO QUARTO MANDAMENTO lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A NÃO IMORTALIDADE DOS ÍMPIOS É UM MARCO. NÃO CONSIGO LEMBRAR-ME DE ALGUMA OUTRA COISA QUE POSSA SER COLOCADA NA CATEGORIA DOS ANTIGOS MARCOS. Todo esse rumor sobre a mudança do que não deveria ser mudado é puramente imaginário” (O Outro Poder, p. 21 [Manuscrito 13, 1889]).

A QUAIS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EGW ESTAVA SE REFERINDO?

– A purificação do santuário celestial

– A tríplice mensagem angélica

– Os mandamentos de Deus

– A fé em Jesus

– O sábado

– A não imortalidade dos ímpios

Esses são, de acordo com a voz profética, os MARCOS ANTIGOS QUE NOS TORNAM O QUE SOMOS. Essas são as doutrinas chamadas de pilares de nossa fé, os principais pontos de nossa fé.

É válido ressaltar que a rejeição da Trindade por alguns pioneiros não se deu em si pela doutrina, mas pela forma como as igrejas romana e protestante a apresentavam na época, conforme bem expressa J. N. Loughborough: a doutrina “é contrária às Escrituras. Em quase qualquer texto do Novo Testamento que lermos, fala-se sobre o Pai e o Filho, apresentando-Os como duas pessoas distintas. […] O capítulo 17 de João já é suficiente para refutar a doutrina da Trindade. Mais de quarenta vezes em apenas um capítulo Cristo fala de Seu Pai como uma pessoa distinta de Si mesmo”. Numa análise simples, nota-se que J. N. Loughborough estava falando acerca da distorcida visão de que Jesus e o Pai eram um e o mesmo ser. Seria mais ou menos como mostram as ilustrações abaixo:

1.png

Qualquer ser inteligente e conhecedor da Bíblia negaria esse conceito de Trindade. Reforçando a ideia de que o que os pioneiros combatiam era o conceito errôneo acerca da Trindade, segue-se a afirmação de Sarah Haselton: “A doutrina chamada Trindade afirma que Deus é sem forma ou partes; e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os três são apenas uma pessoa.” Esse conceito de Trindade os pioneiros realmente jamais deveriam ter aceitado, e não é assim que a Igreja Adventista creu ou crê. O comentário de A.C. Bourdeau confirma ainda mais isso:

“Que Deus é um Espírito infinito e eterno, sem pessoa, corpo, aparência ou partes; está presente em toda parte e em nenhum lugar; ou está em toda parte como um Espírito e em lugar algum como um ser tangível. Pergunto: isso não torna Deus quase um mero nada? Examinemos brevemente esses pontos à luz das Escrituras. É mostrado claramente: (1) Que Deus é uma inteligência material e organizada, possuindo corpo e partes. (2) Que Jesus é o Filho de Deus. Ele não é Seu próprio filho, nem Seu próprio pai, e é um ser distinto de Deus, o Pai.”

Veja como era ensinada a Trindade naquela época. Esse tipo de ensinamento eu também não aceitaria. O conceito de Trindade encontrado nos Escritos da senhora White jamais se assemelham ao conceito errôneo vigente em seu tempo. Ela diz: “Cumpre-nos cooperar com os três poderes mais alto no Céu – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – e esses poderes operarão por meio de nós, fazendo-nos coobreiros de Deus.”

Ela ainda afirma: “Aqui estão as três personalidades vivas do trio celestial, nas quais cada alma arrependida dos seus pecados recebe Cristo por fé viva, para aqueles que são batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”

É verdade, entretanto, que o conceito trinitário foi sendo compreendido com o tempo, como se nota na declaração de Waggoner na Review and Herald do ano de 1875: “Há uma questão que tem sido muito controvertida no mundo teológico sobre a qual nunca temos presumido entrar. É da personalidade do Espírito de Deus.”

Mesmo assim, eles seguiam a ordem do mestre batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (bem diferente dos antitrinitários de hoje, que negam o batismo trinitário). Na sessão da Review and Herald com o subtítulo “Church Manual” (Manual da Igreja) está assim: “Quando o momento adequado foi finalmente alcançado, o ministro deve levar o candidato devagar e solenemente para o local onde ele se propõe batizá-lo. […] Tendo chegado ao local desejado, o administrador deve ter uma firmeza do candidato, proferindo as seguintes palavras: meu irmão (ou irmã), agora eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Adequando a ação à palavra, ele deve lentamente mover o corpo do candidato em uma direção para trás até que a cabeça toque a água, em seguida, por um movimento súbito, o candidato deve ser mergulhado abaixo da superfície a uma profundidade suficiente para cobrir cada parte de sua pessoa com a água. Feito isso, ele deve ser levantado para a posição de pé novamente. Assim como ele emerge da água, é habitual para o administrador pronunciar a palavra ‘Amém’.”

Mais evidente e nítido se torna o crescimento da visão dos pioneiros quanto à Trindade nestas afirmações encontradas na Review and Herald de 1898 (mesmo ano em que Ellen White escreveu O Desejado de Todas as Nações), escritas por R. A. Underwood, com o título “The Holy Spirit a Person” (O Espírito Santo uma Pessoa):

“Espírito é o representante pessoal de Cristo no campo, e Ele é carregado com o trabalho de conhecer Satanás e derrotar esse inimigo pessoal de Deus e Seu governo. Parece estranho para mim, agora, que eu sempre acreditei que o Espírito Santo era apenas uma influência, tendo em vista o trabalho que ele faz. Mas nós queremos a verdade porque é verdade, e nós rejeitamos o erro porque ele é o erro, independentemente de quaisquer visões que mantivemos anteriormente, ou qualquer dificuldade que tivemos, ou podemos ter, quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa. A luz é semeada para o justo. O esquema de Satanás é destruir toda a fé na personalidade da Divindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo, – também em sua própria personalidade.”

É bem perceptível também que após uma compreensão mais aclarada acerca da Trindade esse assunto passou a ser bastante explorado nas literaturas da igreja. A seguir uma sequência de textos publicados por M. E. Steward no volume 87 da Review and Rehald, números 50, 51 e 52, que datam respectivamente de 15, 22 e 29 de dezembro de 1910. O primeiro artigo intitulado “The Divine Godhead: God, the Father” (A Divina Divindade: Deus, o Pai) começa com a declaração de 1 João 5:7: “Há três seres na Divindade: Deus, o Pai, Jesus Cristo, a Palavra e o Espírito Santo. Estes três são um.” Não é intenção desse artigo discutir a autenticidade dessa passagem, apenas mostrar que a compreensão dos pioneiros quanto a esse assunto foi gradual e crescente.

O segundo artigo é intitulado “The Second Person of the Godhead – Jesus Christ” (A Segunda Pessoa da Divindade – Jesus Cristo) e traz as seguintes afirmações: “Cristo tinha uma existência, antes de vir à Terra . (1) Ele tinha glória com o Pai ‘antes que o mundo existisse’ (João 17:5). (2) ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ‘O Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (João 1:1, 14). (3) Cristo estava com os israelitas no deserto (1 Coríntios 10:4, 9). Jesus Cristo uniu a humanidade à divindade. ‘Grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne’ (1 Timóteo 3:16).”

O terceiro artigo tem como título “The Third Person of the Godhead – the Holy Spirit” (A Terceira Pessoa da Divindade – O Espírito Santo). Nesse artigo é afirmado que o Espírito é “o representante de Cristo”, e “por isso o Espírito Santo é o direto agente no cumprimento de todos os propósitos e promessas divinos na obra da salvação do homem. E, como representante de Cristo, aquele que aceita a Cristo tem o dom do Espírito Santo”.

No ano de 1913, a Review publicou uma edição especial com relatos dos avanços do evangelho em todo o mundo. Entretanto, ao meio da revista com o subtítulo “Mensagem para hoje” há a seguinte declaração: “Para o benefício daqueles que podem desejar saber mais particularmente as características fundamentais da fé mantida por esta denominação, nós referiremos que os adventistas do sétimo dia creem… na Trindade divina. Essa Trindade consiste do eterno Pai, um ser espiritual pessoal, onipotente, onisciente, infinito em poder, sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, o Filho do eterno Pai, por quem todas as coisas foram criadas, e através de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o regenerador na obra da redenção” (grifo nosso).

É importante salientar que todos esses textos foram produzidos enquanto a senhora White estava viva e não houve da parte dela nenhum tipo de observação contrária. Alguns indivíduos já tiveram a ousadia de afirmar para mim que tais declarações passaram a ocorrer e não houve crítica da senhora White porque ela já estava bastante avançada em idade (morreu em 1915), e que, portanto, não estava mais acompanhando as supostas entradas de heresias na igreja. Ora, essa afirmação é no mínimo absurda. Prova disso é que nessa mesma revista apresentada acima (do ano de 1913) há um artigo escrito pela senhora White, e o curioso é que o artigo dela é imediatamente anterior ao artigo que traz a declaração mencionada anteriormente.

CONCLUSÃO

Pelo que se nota com clareza, o assunto da Trindade não foi introduzido na igreja a partir da década de 1940, como alguns advogam, nem na década de 1980. Mas a compreensão gradual dos pioneiros é evidenciada ao longo das edições das literaturas eclesiásticas, em especial (como mostrou este artigo), nas edições da Review and Herald. Portanto, qualquer tentativa contrária ao ensino da Trindade, tomando-se como base o argumento de que os pioneiros não aceitavam essa doutrina, carece de um estudo sério e abalizado, tanto na história da Igreja quanto em sua literatura. Proceder dessa maneira é evidenciar total ignorância e carência informacional acerca do assunto, o que torna os argumentos dos proponentes de tais alegações pueris e reducionistas.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” parte 1parte 2 e parte 3

Material complementar:

“Desenvolvimento do pensamento cristológico na IASD”

“Os pioneiros adventistas e a Trindade”

“Desenvolvimento gradual da doutrina da Trindade na Igreja Adventista do Sétimo Dia: uma análise nos registros iniciais da Review and Herald e da Revista Adventista”

Prezis:

“O adventistas e a Trindade”

“Mitos e fatos sobre a Trindade na IASD”

Jesus Cristo: um plágio?

jesus-christEm junho de 2007, foi lançado um vídeo de 122 minutos chamado Zeitgeist e até novembro de 2007, oito milhões de acessos haviam sido feitos. Esse documentário foi ganhador do prêmio de melhor filme no festival Artivist, na Califórnia, em 2007 e 2008.[1] Na primeira parte de Zeitgeist, que é dividido em três blocos principais, é proposto que o Jesus histórico não passa de um plágio das mitologias de povos pagãos antigos. Os apóstolos teriam se utilizarado de histórias já conhecidas na época e criado um personagem muito parecido, escrevendo assim quatro evangelhos a respeito desse “outro deus mitológico”. Veremos a seguir do que se trata esse intenso debate. Antes, porém, mencionaremos alguns dos deuses mitológicos seguidos de suas aparentes semelhanças com Jesus Cristo:

Horus, deus egípcio – Nasceu no dia 25 de dezembro de uma virgem; nascimento acompanhado de uma estrela no leste; adorado por três reis; era mestre aos 12 anos; foi batizado com 30 anos; tinha 12 discípulos; fazia milagres; foi traído, crucificado e morto; depois de três dias ressuscitou; era considerado filho de Deus; caminhou sobre as águas e foi transfigurado numa montanha.

Attis, deus frígio – Considerado filho de Deus, nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro; também é considerado salvador que foi morto pela humanidade; seu “corpo” como pão era comido pelos adoradores; era tanto o divino filho como o pai; numa sexta-feira, ele foi crucificado numa árvore e se levantou depois de três dias como “deus todo-poderoso”.

Krishna, deus hindu – Nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro, seu pai terreno era carpinteiro; o nascimento foi assinalado por uma estrela ao leste; visitado por pastores que o presentearam, foi perseguido por um tirano que ordenou o assassínio de infantes; operava milagres e maravilhas; usava parábolas para ensinar as pessoas sobre caridade e amor; foi transfigurado diante dos discípulos; crucificado aos 30 anos, ressuscitou dos mortos e ascendeu aos céus; era a segunda pessoa da “trindade” e deverá retornar para o dia do juízo em um cavalo branco.

Dionysus, deus grego – Nascido de uma virgem no dia 25 de dezembro, era mestre viajante que operava milagres; andou em um burro durante uma procissão; transformava água em vinho; era chamado “rei dos reis” e “deus dos deuses”; considerado “filho de deus”, “único filho”, “salvador”, “aquele que redime”, “ungido” e o “alfa e o ômega”, foi identificado como cordeiro e pendurado num madeiro.

Diante de tudo isso, poderíamos perguntar, como Timothy Freke e Peter Gandy, dois dos maiores defensores da teoria do Jesus-mito pagão: “Por que consideramos as histórias de salvadores como Osíris, Dionísio, Adônis, Attis, Mitra e outros deuses pagãos fábulas, porém, ao encontrarmos essencialmente a mesma história contada em um contexto judeu, acreditamos ser a biografia de um carpinteiro de Belém?”[2]

Vamos, então, para o exame das acusações e a confirmação – ou não – de sua confiabilidade.

Nascimento virginal

O centro de todo o desentendimento quanto aos paralelos entre o nascimento virginal dos deuses pagãos e o de Jesus começa já em sua definição. De acordo com o relato de Mateus e Lucas, a descrição que encontramos do nascimento de Jesus é de Maria sendo virgem e Jesus sendo gerado pela operação do Espírito Santo. Porém, não há qualquer relato entre as religiões de mistério que lembre essa situação. A definição dos críticos do nascimento virginal é a fecundação resultante de casamento sagrado (entre um casal de deuses) ou fruto do ato sexual entre um deus disfarçado de ser humano e uma mulher mortal (hieros gamos).

Em uma das histórias de Dionísio, Zeus foi a Perséfone em forma de serpente e a engravidou, portanto, sua virgindade foi tecnicamente perdida. Na versão mais conhecida, Zeus se apaixonou por Semele, princesa da casa de Times. O deus olímpico foi até ela disfarçado de homem mortal e logo Semele estava grávida. Hera, rainha de Zeus, inflamada de ciúmes, se disfarçou de mulher idosa e foi até a casa de Semele. Quando Semele revelou seu caso com Zeus, Hera sugeriu que a história de que Zeus era o rei dos deuses poderia ser mentira e que talvez ele fosse mero mortal que inventou a história para que ela dormisse com ele. Quando Zeus foi visitá-la novamente, ela pediu apenas uma coisa. Zeus jurou que daria o que ela quisesse. “Apareça a mim como você aparece a Hera.” Relutantemente, mas fiel à sua palavra, Zeus apareceu em toda sua glória, reduzindo Semele às cinzas. Hermes salvou o feto e o levou até Zeus que o costurou à sua coxa e três meses depois deu à luz Dionísio.[3]

A história claramente não é comparável com o relato bíblico e, além disso, só existem relatos pós-cristãos. Os deuses e deusas antigos eram típica e muito explicitamente sexuais e ativos, até porque, para o mundo antigo, grandeza era comumente associada com a geração física de um deus. Esse elemento está completamente ausente do relato da concepção virginal de Jesus.

No mito de Horus, o engano continua. De acordo com The Encyclopedia of Mythica, depois de Osíris (pai de Horus) ser assassinado e mutilado em 14 pedaços por seu irmão Set, a esposa de Osíris, a deusa Íris, “recuperou e remontou o corpo, e em conexão pegou o papel da deusa da morte e dos direitos funerais. Ísis engravidou-se pelo corpo de Osíris e deu à luz Horus nos rios de Khemnis, no Delta do Nilo.[4]

O relato está muito distante da realidade bíblica, apesar de uma concepção necrofílica ser miraculosa. Mesmo na imagem encontrada em Luxor, com Thoth anunciando a Ísis que ela conceberia a Horus, a ordem é a concepção e depois o anúncio, enquanto que os evangelhos declaram o anúncio e depois a concepção.

Na pesquisa de Raymond Brown a respeito das narrativas sobre o nascimento de Jesus, ele avalia os exemplos de “nascimentos virginais” não-cristãos, e sua conclusão é: “Em suma, não há nenhum exemplo claro de concepção virginal no mundo ou nas religiões pagãs que plausivelmente poderia ter dado aos judeus cristãos do primeiro século a ideia da concepção virginal de Jesus.[5]

Ressurreição

Segundo Paulo, o maior fundamento da fé cristã é a crença na morte e ressurreição de Jesus (1Co 15:13, 14). Ainda no início do capítulo de 1 Coríntios 15, os exegetas do Novo Testamento encontram fortes evidências para defender a realidade do fato da ressurreição. E foi justamente nessa pedra fundamental que os críticos aproveitaram para divulgar os paralelismos com personagens das religiões de mistério e das deidades que teriam experimentado morte e ressurreição.

Não é senão a partir do 3º século d.C. que encontramos suficiente material a respeito das religiões de mistério que permitem relativa reconstrução de seu conteúdo. Muitos escritores se utilizam desse material (depois de 200 d.C.) para formular reconstruções das religiões de mistério dos séculos anteriores. Essa prática, porém, é extremamente anti-acadêmica e não pode permanecer sem desafios.[6]

Na realidade, segundo Pierre Lambrechts, os textos que se referem à ressurreição são muito tardios, do segundo ao quarto século d.C.[7] A aparente ressurreição de Adonis, por exemplo, não tem sequer uma evidência, nem nos textos antigos nem nas representações pictográficas. Quanto à ressurreição de Attis, não há qualquer sugestão de que ele teria sido um deus ressurreto, senão até depois de 150 d.C.[8]

Há ainda o famoso caso da suposta ressurreição do deus Osíris. A versão mais completa do mito de sua morte e ressurgimento é encontrada em Plutarco, que escreveu no segundo século d.C. De acordo com a versão mais comum do mito, Osíris foi assassinado por seu irmão que então o afundou em um caixão no rio Nilo. Ísis descobriu o corpo e o levou de volta ao Egito. Mas seu cunhado mais uma vez ganhou acesso ao corpo, dessa vez o desmembrando em 14 pedaços, os quais ele atirou para longe. Depois de muita procura, Ísis recuperou cada pedaço do corpo. É nesse ponto que a linguagem utilizada para descrever o que se seguiu é crucial. Algumas vezes, aqueles que contam a história se contentam em dizer que Osíris voltou à vida, mesmo que isso passe longe daquilo que o mito permite dizer. Alguns escritores ainda vão mais longe ao falar sobre a “ressurreição” de Osíris. Ísis restaura o corpo de Osíris e ele é colocado como um deus do mundo dos mortos. Roland de Vaux complementa dizendo:

“O que significa Osíris ter ‘levantado para a vida’? Simplesmente que, graças à ministração de Ísis, ele pôde levar uma vida além da tumba que é quase uma perfeita réplica da existência terrestre. Mas ele nunca mais voltará a habitar entre os viventes e reinará apenas sobre os mortos… Esse deus revivido é, na realidade, um deus ‘múmia’.”[9]

Mudando de deidade, outro muito mencionado por sua suposta história de reaparição dos mortos é o de Cybele e Áttis. Cybele era uma figura muito adorada no mundo helenístico; o rito antigamente incluía um frenesi nos adoradores homens que os levava a se castrarem.

Encontramos especialmente três mitos diferentes com respeito à vida de Áttis. De acordo com um dos mitos, Cybele amava um pastor de ovelhas chamado Áttis. Por Áttis ter sido infiel, ela o levou à loucura. Tomado de loucura, Áttis se castrou e morreu. Isso encaminhou Cybele a um luto muito forte e introduziu a morte ao mundo natural. Mas então Cybele restaurou Áttis à vida, um evento que também trouxe o mundo da natureza à vida. As pressuposições do intérprete tendem a determinar a linguagem usada para descrever o que se segue à morte de Áttis. Referem-se a ela descuidadamente como “ressurreição de Áttis”. Não há nada que se pareça a uma ressurreição corpórea no mito que sugira que Cybele só podia preservar o corpo morto de Áttis, ou seja, ele volta à vida de forma praticamente vegetativa, pois o mito menciona que os pêlos do seu corpo continuaram a crescer e que ele movimentava um dos dedos. Em algumas versões do mito, Áttis volta à vida na forma de uma árvore. Nem nesse e nem nas outras três histórias, encontramos morte e ressurreição ou qualquer coisa semelhante ao que vemos nos evangelhos.

Foi somente em celebrações posteriores pelos romanos (depois de 300 d.C.) que algo remotamente semelhante ocorreu. A árvore que simbolizava Áttis foi cortada e enterrada dentro de um santuário. Na outra noite, a “tumba” da árvore estava aberta e a “ressurreição” de Áttis foi celebrada. A linguagem, porém, é ambígua e os detalhes sobre o culto são remotos; todo o material é muito tardio.

Nas comparações com Krishna, as respostas se tornam ainda mais fáceis de dar. Segundo especialistas em hinduísmo, Krishna foi morto por um caçador que acidentalmente atirou em seu calcanhar. Ele morreu e ascendeu. Não houve qualquer ressurreição e ninguém o viu ascender. Mesmo que o mito da ascensão de Krishna traga algum desconforto, ele pode ser rapidamente resolvido com as declarações de Benjamin Walker, em seu livro The Hindu World: an Encyclopedia Survey of Hinduism: “Não pode haver qualquer dúvida de que os hindus pegaram emprestado os contos [do cristianismo], mas não o nome.”[10]

Por esses paralelos virem do Bhagavata Purana e do Harivamsa, Bryant acredita que o Bhagavata Purana seja “anterior ao sétimo século d.C. (apesar de alguns acadêmicos o considerarem do século 11 d.C.)”, e que o Harivamsa tenha sido composto entre o quarto e o sexto século.

Apesar de ser chocante às mentes religiosas ocidentais, é senso comum dentro da história das religiões que imortalidade não é uma característica básica da divindade. Deuses morrem. Alguns deuses simplesmente desaparecem, alguns somente para retornar novamente depois e alguns para reaparecer frequentemente. Todas as deidades que foram identificadas como fazendo parte da classe de deidades que morrem e ressuscitam podem ser colocadas sob duas classes maiores: deuses que desaparecem e deuses que morrem. No primeiro caso, as deidades retornam, mas não haviam morrido, e no segundo caso, os deuses que morrem, mas não retornam. Para a concepção judaica, nenhum desses paralelos ressuscitou dos mortos, e para muitos acadêmicos hoje paira a dúvida se literalmente existe algum deus que teria experimentado a morte e a ressurreição. Uma citação muito interessante explica a realidade da teoria:

“Desde a década de 1930… um consenso tem se desenvolvido de que os ‘deuses que morrem e ressuscitam’ morreram, mas não retornaram ou se levantaram para viver novamente… Aqueles que pensam diferente são vistos como membros residuais de espécies quase extintas.”[11]

Outras diferenças substanciais

Analisamos brevemente e em seus aspectos principais as semelhanças e as diferenças entre Jesus e os deuses da morte-levantamento e das religiões de mistério. A seguir, mencionaremos outras diferenças marcantes que não poderiam passar despercebidas:

1. Em todos os casos de deuses que morrem, eles morrem por compulsão e não por escolha; às vezes, por orgulho ou desespero, mas nunca por amor sacrifical.[12]

2. Não há qualquer evidência de religiões de mistério inseridas na Palestina das três primeiras décadas do primeiro século. Não haveria tempo suficiente para que os discípulos fossem influenciados pelos mistérios, se eles estivessem dispostos a ser, o que não era o caso. Quando a influência dos mistérios atingiu a Palestina, principalmente por meio do gnosticismo, a igreja primitiva não aceitou, mas renunciou vigorosamente aos mitos pagãos. A falta de sincretismo dificulta a concepção.

3. Os deuses que morrem e ressuscitam, segundo os mitos, nunca morreram por outra pessoa (vicariamente), e nunca anunciaram morrer pelo pecado. A ideia de uma aliança substitutiva pelo homem é totalmente única ao cristianismo. Além disso, Jesus morreu uma vez por todos os pecados, enquanto os deuses pagãos eram frequentemente deuses de vegetação que imitavam os ciclos anuais da natureza, aparecendo e morrendo diversas vezes.

4. Jesus morreu voluntariamente e Sua morte foi uma vitória e não derrota; ambos os aspectos são contrários aos conceitos pagãos.[13]

5. Similaridade não prova dependência. Movimentos sociais e religiosos frequentemente compartilham formas de expressão ou práticas similares. Não é de se surpreender que encontrássemos paralelos em qualquer religião a respeito de vida após a morte, identificação com uma deidade, ritos de iniciação ou um código de conduta. Se uma religião deseja atrair conversos, precisa apelar para as necessidades e desejos universais dos seres humanos. Mas isso não indica dependência! Em qual cultura, por exemplo, a imagem de se lavar em água não significa purificação? O que importa, entretanto, não é a semelhança das palavras e práticas, mas os significados anexados a elas. A fim de provar um caso de dependência é necessário demonstrar semelhança na essência e não só na forma. Os escritores normalmente exageram similaridades formais, enquanto ignoram diferenças essenciais entre a história de Jesus e os variados mitos pagãos.

6. Os pagãos nesse período não estavam confusos quanto à exclusividade da Igreja, e chamavam os cristãos de “ateus” por causa de sua indisponibilidade fundamental de ceder ou sincretizar. Como J. Machen explica, os cultos de mistério eram não-exclusivistas: “Um homem poderia ser iniciado nos mistérios de Ísis ou Mitra sem ter que abrir mão de suas crenças anteriores; mas se ele quisesse ser recebido na Igreja, de acordo com a pregação de Paulo, deveria abrir mão de todos os outros salvadores pelo Senhor Jesus Cristo… Dentre o sincretismo predominante do mundo greco-romano, a religião de Paulo, assim como a religião de Israel, permanece absolutamente distinta.”[14]

7. A cronologia está toda errada. As crenças básicas do cristianismo existiam no primeiro século, enquanto que o total desenvolvimento das religiões de mistério não aconteceu até o segundo século. Historicamente, é muito improvável que qualquer encontro teve lugar entre o cristianismo e as religiões de mistério pagãs até o terceiro século. Até hoje não há evidência arqueológica de religiões de mistério na Palestina do início do primeiro século.[15] A história das influências pode ser dividida em três períodos: (1) primeiro período (1-200 d. C), as religiões de mistério eram restritas e não exerciam influência nas outras religiões. Se há qualquer influência, ela é na direção contrária: o cristianismo influenciou os cultos; (2) segundo período (201-300 d.C.), depois de o cristianismo ter-se espalhado pelo mundo romano, as religiões de mistério se tornaram mais ecléticas, suavizando doutrinas severas e conscientemente oferecendo uma alternativa ao cristianismo (aparece o culto a Cybele oferecendo a eficácia do banho de sangue, que antes era de 20 anos, para um período que ia de 20 anos à eternidade), competição com o cristianismo; (3) terceiro período (301-500 d.C.), o cristianismo passou a adotar a terminologia e ritos dos cultos de mistério (e.g., 25 de dezembro).[16]

8. Como um judeu devoto, o apóstolo Paulo nunca teria considerado pegar emprestados seus ensinamentos de religiões pagãs (At 17:16; 19:24-41; Rm 1:18-23; 1Co 10:14), assim como João também não (1Jo 5:21). Não há a mínima evidência de crenças pagãs em seus escritos.

9. Como religião monoteísta com um corpo de doutrinas coerente, o cristianismo dificilmente poderia ter pegado emprestado de um paganismo politeísta e doutrinariamente contraditório.

10. Os críticos parecem ignorar completamente o pano de fundo hebraico do cristianismo. Quase nenhuma atenção é dada ao rico pano de fundo hebraico no Novo Testamento e no cristianismo primitivo. Termos como “mistério”, “ovelha sacrificada” e “ressurreição” em vez de vir dos mitos pagãos, como os escritores sugerem, são baseados nas crenças judaicas encontradas no Antigo Testamento. Além disso, os Manuscritos do Mar Morto têm lançado muita luz sobre práticas judaicas que se escondem atrás do Novo Testamento, como o batismo, comunhão e bispos.

11. O cristianismo está baseado em eventos da história, não em mitos. A morte dos deuses de mistério aparece em dramas místicos sem nenhuma conexão histórica. A igreja primitiva cria que proclamava a morte e ressurreição de Jesus como fatos incontestáveis e era baseada em um verdadeiro evento histórico. Isso faz com que seja absurda qualquer tentativa de derivá-la de histórias míticas e não históricas dos cultos pagãos.

12. Se houve qualquer empréstimo, foi na outra direção. À medida que o cristianismo crescia em influência e se expandia, os sistemas pagãos, reconhecendo a ameaça, provavelmente pegaram alguns elementos do cristianismo. Por exemplo, o rito pagão do banho em sangue de touro (taurobolium) inicialmente tinha sua eficácia espiritual de 20 anos. Mas, assim que a “competição” com o cristianismo começou, o culto a Cybele, aumentou a eficácia de seu rito “de 20 anos à eternidade”[17], quase equivalendo, assim, à eternidade prometida aos cristãos.

13. O conteúdo moral de amor e compaixão, bondade e ações de caridade eram completamente diferentes. A forma cristã de humildade, permitindo que o próximo bata nas duas faces e o próprio exemplo de Jesus utilizando Seu poder apenas para o bem, diferencia seriamente daquilo que vemos na mitologia pagã.

A conclusão da completa falta de argumentos confiáveis e verossímeis é clara e óbvia, e, nas palavras de Ronald Nash: “Esforços liberais de desacreditar a revelação singular cristã por meio dos argumentos da influência das religiões pagãs são destruídos rapidamente a partir da verificação completa das informações disponíveis. É claro que os argumentos liberais exibem academicismo incrivelmente ruim e, com certeza, essa conclusão está sendo muito generosa.”[18]

Fica claro que a melhor conclusão a ser feita é aquela do livro em que encontramos a verdadeira revelação da verdade e da fonte do mistério da vida, morte e ressurreição de Jesus: a Bíblia Sagrada. Porque “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.”[19]

(Marina Garner Assis é formada em Teologia pelo Unasp e cursa o doutorado em Filosofia nos Estados Unidos)

Referências:

1. Informação retirada do site http://www.zeitgeistmovie.com, dia 11/05/2009.
2. Timothy Freke e Peter Gandy, The Jesus Mysteries, Three Rivers Press (Setembro, 2001), p. 9.
3. Barry Powell, Classical Myth (3ª ed.), PrenticeHall (New Jersey, 2001), p. 250.
4. Mich F. Lindemans, Encyclopedia of Mythica. Artigo publicado em 21 de maio de 1997 no website: http://www.pantheon.org/articles/i/isis.html (acessado dia 23/08/09).
5. Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah, Anchor Bible (1999), p. 523.
6. “A summary critique the mythological Jesus mysteries a book review of ‘The Jesus Mysteries: Was the ‘Original Jesus’ a Pagan God?”, por Timothy Freke e Peter Gandy, Christian Research Journal, , v. 26, nº 1 (2003).
7. P. Lambrechts, “La Resurrection de Adonis”, em Melanges Isadore Levy (1955), p. 207-240, como citado em Edwin Yamauchi, “The Passover plot or Easter triumph?”, em J. W. Montgomery, (ed.), Christianity for the Tough-Minded (Minneapolis: Bethany, 1971).
8. Ibid.
9. Roland de Vaux, The Bible and the Ancient Near East, Doubleday (1971), p. 236.
10. Benjamin Walker, The Hindu World: an Encyclopedic Survey of Hinduism, v. 1 (New York: Praeger, 1983), p. 240, 241.
11. Tryggve N. D. Mettinger, The Riddle of Resurrection: “Dying and Rising Gods” in the Ancient Near East (Stockholm, Sweden: Almquist & Wiksell International, 2001), p. 4, 7.
12. J. N. D. Anderson, Christianity and Comparative Religion (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1977), p. 38.
13. Ronald H. Nash, Christianity & the Hellenistic World (Grand Rapids, MI: Zondervan/Probe, 1984), p. 171, 172.
14. J. Gresham Machen, The Origin of Paul’s Religion (New York: Macmillan, 1925), p. 9.
15. J. Ed Komoszewski, M. James Sawyer, Daniel B. Wallace, Reinventing Jesus (Kregel Publications, 2006), p. 231.
16. Ibid., p. 232, 233.
17. Nash, Christianity & the Hellenistic World, p. 192-199; citando Bruce Metzger sobre o culto de Cybele.
18. Ronald Nash, “Was the New Testament influenced by pagan religions?, Christian Research Journal (Inverno 1994) p. 8.
19. Atos 4:12

Quem é o Eu Sou?

santidadeCom fortes dores abdominais, você, depois de muito resistir, resolve ir ao médico. Após uma hora e meia na fila, é chamado para o atendimento. Conversando com o médico, descobre algumas informações, que não o deixam confortável: ele possui a mesma formação que você. Leu os mesmos livros e tem a mesma idade. Sim, ele não é formado em medicina. É claro que essa é uma história fictícia, porém, como você reagiria caso fosse real? É fundamental ou não que o médico seja alguém diferente de você? Ele precisa ou não, apesar de estar acessível, possuir uma característica que o distingua de seus pacientes? Dentre essas, o conhecimento aprofundado do funcionamento do corpo humano, bem como dos mecanismos corretos para correção de eventuais problemas. Essa diferença necessária pode ser aplicada a outros exemplos, além do médico, de tal forma que, em nossa vida, somos acostumados a reconhecer a necessidade de que haja pessoas diferentes de nós, a fim de proporcionar-nos o que precisamos.

[Continue lendo.]