Atos 2:42-47 defende o socialismo?

jesus marxEstá cada vez mais fácil encontrar pessoas, muitas vezes sinceras, acreditando que o socialismo pode ser encontrado na Bíblia Sagrada. Um dos argumentos principais consiste na utilização do texto do livro de Atos, capítulo 2, versos 41 a 47, que seria um “suposto” apoio a esse pensamento. O texto completo é este: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.”

Neste texto, estão listadas as três principais razões pelas quais o livro de Atos não pode ser um indicativo ou algum tipo de apoio para o socialismo dentro do cristianismo. De forma alguma os apóstolos estariam prescrevendo alguma norma de conduta para as sociedades cristãs posteriores.

1. Acreditar que Atos dá suporte à ideologia socialista é um anacronismo.

Como se sabe pela História, 18 séculos separam o socialismo do Novo Testamento! O Dicionário de Política de Norberto Bobbio diz o seguinte: “Em geral, o Socialismo tem sido historicamente definido como programa político das classes trabalhadoras que se foram formando durante a Revolução Industrial” (fim do século 18 e começo do século 19).

O significado vulgar de socialismo é a “estatização dos bens e meios de produção”; e algumas pessoas adicionam ainda a expressão “numa sociedade sem classes”. Há dois tipos de socialismo, basicamente, nos quais se caracterizam duas ideias principais: o socialismo utópico e o socialismo científico.

“Socialismo utópico” tem esse nome por causa da obra de Thomas More, Utopia, em que o autor propõe uma sociedade harmônica, justa e contrapondo as sociedades injustas. A principal linha de pensamento do socialismo utópico é idealizadora, justa e igualitária, em que se alcançaria o progresso por meio da razão e do interesse comum sem, necessariamente, uma luta de classes. A característica utópica se dá devido à impossibilidade de alcançar tal sociedade. Seus principais pensadores foram o inglês Robert Owen e os franceses Saint-Simon, Charles Fourier, Pierre Leroux e Louis Blanc, na transição entre os séculos 18 e 19.

O “socialismo científico” ou “socialismo marxista” foi desenvolvido pelos prussianos (atual Alemanha) Karl Marx e Friedrich Engels, no século 19. Ao contrário do idealismo do socialismo utópico, o socialismo científico tinha como principal ideia a crítica ao sistema capitalista. Era necessário aprofundar as análises políticas, econômicas e sociais para então propor mudanças concretas na sociedade. Seu foco era na luta de classes (visão do patrão explorador e do empregado explorado), na mais-valia, na divisão do trabalho e na produção de capital.

A doutrina política de Marx (falecido no fim do século 19) fundamenta-se no materialismo dialético e histórico. Denomina-se materialismo porque seus conceitos diretivos são de conteúdo material; é dialético porque se apoia no método dialético de Hegel, no que tange à evolução dos fenômenos sociais; enfim, qualifica-se como histórico porque os princípios do materialismo dialético são aplicados à evolução dos fatos sociais e à política dos povos no decurso da marcha do tempo.

Se não bastasse o monstruoso intervalo de tempo entre os dois momentos históricos, o que já categorizaria o anacronismo evidente, podemos elencar outra disparidade entre essas ideologias e o texto bíblico no que se refere ao tempo do eventos mencionados: não havia concordância entre os apóstolos e o Império (“Estado”), primeiro porque não era intuito de unir a comunidade Cristã com o império Romano; e segundo porque não havia o Estado como o concebemos hoje e a favor do qual Marx pretendia estatizar os meios de produção.

Mesmo que houvesse o Estado moderno, ainda assim seria impraticável no socialismo porque a autoridade do Estado provém de Deus (como explícito em Romanos 13:1-7, 1 Pedro 2:13 e na conversa de Jesus com Pilatos, em João 19:10, 11), e poderia ter sido estabelecido por conta do pecado da humanidade, embora não fosse plano de Deus original (como descrito nos capítulos de 12, 24 e 26:9-11 de 1 Samuel, e o primeiro capítulo de 2 Samuel).

Embora todo o esforço desses pensadores em criar uma sociedade com oportunidades iguais a toda população e manter certo controle social, a verdade é que a História mostra que os governos socialistas foram em grande parte ditatoriais e um verdadeiro desastre econômico e político. Liberdades individuais foram suprimidas e as guerras e a fome mataram milhões de pessoas. Estima-se que as mortes foram cerca de cem milhões nestes últimos cento e poucos anos:

URSS: 20 milhões de mortos

China: 65 milhões

Vietnã: 1 milhão

Coreia do Norte: 2 milhões

Camboja: 2 milhões de mortos

Leste Europeu: 1 milhão

América Latina: 150.000 mortos

África: 1,7 milhão de mortos

Afeganistão: 1,5 milhão

O movimento comunista internacional e os partidos comunistas fora do poder levaram dezena de milhões de pessoas à morte. Isso mostra que, sim, o socialismo falhou e continuará falhando.

O que esse banho de sangue tem que ver com o livro de Atos capítulo 2? Absolutamente nada! Nem de perto podemos comparar a Bíblia com a ideologia socialista. São coisas completamente diferentes.

3. O texto de Atos 2 não é prescritivo.

Quando lemos o livro de Atos devemos ter em mente que estamos tratando de um livro histórico. A seguir você lerá uma pequena parte de um artigo do teólogo brasileiro Wilson Paroschi:

“A rigor, conforme o próprio Lucas afirma (At 1:1-5; cf. Lc 1:1-4), Atos é um documento histórico e, como tal, narra o desenvolvimento da igreja apostólica nos primeiros trinta anos após a ascensão de Cristo. Em muitos círculos eclesiásticos e evangelísticos, porém, predomina a crença, explícita ou implícita, de que esse livro consiste verdadeiramente numa espécie de manual da igreja ou manual de evangelismo, com orientações e exemplos práticos que, se forem seguidos à risca, produzirão os mesmos resultados. […] Cuidadosa análise da evidência, porém, parece apontar para outra direção. Em primeiro lugar, convém observar que, ao descrever a história da igreja primitiva, Lucas não registra somente os triunfos e sucessos dos apóstolos, mas também seus erros e retrocessos.”

“Em Atos, não encontramos apenas uma sucessão de experiências e relatos positivos que culminam com o evangelho sendo pregado destemidamente e sem qualquer impedimento até mesmo em Roma, no coração do Império (At 28:30-31). Ali também estão registradas inúmeras situações negativas envolvendo diretamente os apóstolos, suas decisões e atitudes.

“Exemplos disso são a negligência para com as viúvas helenistas (6:1), o preconceito e a reticência deles diante da pregação aos gentios (10:1–11:18), a desavença entre Paulo e Barnabé (15:36-40), a transigência de Paulo para com a lei cerimonial (21:17-26) e sua opção por ser julgado em Roma (25:9-12), o que se revelou um grave erro estratégico (cf. 26:30 32). Há também duas outras experiências que se revelaram particularmente negativas: a crença na volta imediata de Jesus e o consequente arrefecimento do fervor evangelístico logo após o Pentecoste.

“A perspectiva evangelística predominante na tradição judaica, tanto no Antigo Testamento (Sl 22:27; Is 2:2-5; 56:6-8; Sf 3:9-10; Zc 14:6) quanto na literatura intertestamentária (Tob 13:11; T. Ben. 9:2; Pss. Sol. 17:33-35; Sib. Or. 3.702-718, 772-776), é a do chamado movimento centrípeto, ou seja, não é Israel que vai às nações; são as nações que vêm a Israel, atraídas pela prosperidade e fidelidade do povo de Deus. E há claros indícios de que, apesar da ordem de Jesus em Atos 1:8, os apóstolos entenderam que, com a pregação no dia de Pentecoste e a conversão de mais de três mil pessoas, a missão deles no mundo já estava cumprida, ou pelo menos substancialmente cumprida.

“Como James D. G. Dunn salienta, o modelo evangelístico que eles conheciam era o que prevalecia no judaísmo de seus dias (cf. Mt 8:11-12; 10:5-6, 23; Mc 11:17) e, no Pentecoste, o mundo todo veio até eles; Lucas menciona mais de quinze diferentes nacionalidades ali representadas (At 2:9-11). O que houve em seguida foi uma diminuição do entusiasmo evangelístico, associado à ideia de que Jesus estaria voltando naqueles dias, como ficara implícito na promessa no dia da ascensão (1:6-11; cf. 3:20-21; Mt 10:23). Foi por isso que eles permaneceram tão firmemente arraigados em Jerusalém e centrados no templo (At 2:46; 3:1; 5:12, 20-21, 25, 42), até porque, de acordo com a profecia de Malaquias (3:1), o templo seria o ponto focal da iminente consumação.

“O elevado senso de fraternidade e comunidade demonstrado pela igreja apostólica logo após o Pentecoste (At 2:44-45; 4:32-35) revela que eles viviam na expectativa diária da volta de Jesus. Posses ou bens materiais perderam o valor. Tudo era vendido e o lucro trazido para um caixa comum para o benefício de todos. Eles não precisavam mais se preocupar com o futuro, pois não haveria futuro.

“A atitude foi louvável, sem dúvida, mas o momento foi errado, ainda que a iniciativa possa ter atendido a algumas necessidades específicas, como a ajuda aos pobres da comunidade de crentes. O espírito de desprendimento e fraternidade que manifestaram é, de fato, o que deve caracterizar o povo de Deus pouco antes da volta de Jesus, mas, naquele momento, representou um retrocesso para a igreja. A igreja de Jerusalém empobreceu (At 11:28; Rm 15:26; Gl 2:10), passou a depender da generosidade das igrejas gentílicas (At 11:29, 30; Rm 15:25, 26; 1Co 16:1-3) e não pôde sequer financiar o evangelismo mundial. Isso coube às próprias igrejas gentílicas (At 13:1-3; 15:35, 36; 2Co 11:8, 9; Fp 4:15-18). Deus permitiu que se levantasse uma perseguição contra a igreja (At 8:1-3) para dispersá-la de Jerusalém e, assim, levá-la a cumprir sua missão mundial (8:4, 5-8, 26-40; 11:19-21).

“Ou seja, é certamente um erro tratar o Livro de Atos como um manual da igreja, e a igreja apostólica como um modelo em tudo para a igreja de todos os tempos e lugares. Ao contrário do que mantém a concepção popular, a igreja apostólica não era perfeita, nem do ponto de vista doutrinário e muito menos do ponto de vista administrativo ou eclesiástico.

“A segunda razão pela qual a igreja apostólica não deve necessariamente ser vista como um modelo em tudo é que ela mesma foi produto de uma época, um lugar e uma cultura específica. A igreja apostólica nasceu no contexto do judaísmo do primeiro século. Ela aparece no cenário bíblico como mais uma dentre as várias denominações ou seitas judaicas da época. Ela teve que lidar com problemas tais como uma expectativa messiânica distorcida, o escândalo da cruz e o legalismo judaico, a inclusão dos gentios e a circuncisão, a idolatria no mundo greco-romano, filosofias pagãs, enfim, uma longa lista de problemas, quase todos muito diferentes dos nossos. É por isso que muito cuidado deve ser tido na hora de apontar os elementos prescritivos no Livro de Atos. Não é só abri-lo e achar que, porque foi assim no passado, tem que ser assim no presente. […]”

Voltei. Gostaria de enfatizar dois pontos importantes: primeiro, é que a empolgação da comunidade se dava exclusivamente pela promessa da vinda de Jesus, pela crença de que o pecado e a morte teriam fim e, finalmente, eles estariam para sempre com Jesus Cristo. O movimento cristão não se manteve unido e motivado no início por conta do ideal revolucionário de transformação social. Eles não estavam ali para reivindicar direitos humanos ou qualquer coisa do tipo. Apenas a alegria do evangelho que os motivava a ficar unidos.

Segundo, é que quanto à distribuição financeira e a comunhão de bens, a comunidade veio à falência pouco tempo depois! Agora veja: se os ideólogos modernos do socialismo procuram encontrar em Atos indícios de modelo econômico para comunidades locais, o que, de fato, eles encontrarão é o modelo ideal de como não distribuir renda e como chegar à falência!

3. Um cristão não pode ser socialista.

Certamente alguém falará que temos, como cristãos, uma função social importante. Isso é verdade e Cristo assim nos ensinou. Porém, existe um abismo entre ajudar o próximo e ser praticante do socialismo coercitivo (comunismo) que usa o aparelho estatal com mão de ferro para saquear a população e definir cada aspecto de sua vida. São ideologias nefastas que a história nos conta com desprezo. Infelizmente, ainda no Brasil poucas pessoas conhecem a história cruel e genocida dessas ideologias.

Considerando isso (e mais vários outros motivos não tratados neste texto), pode-se chegar à conclusão óbvia de que um cristão de verdade, que aguarda a vinda de Cristo, jamais pode perder tempo com essas ideologias ateias e fracassadas. Devemos lembrar sempre que este “Estado” é passageiro, mas o Reino de Deus é eterno.

Referências:

BOBBIO, NORBERTO;  MATTEUCCI, NICOLA ; PASQUINO, GIANFRANCO. Dicionário de Política. 11. Ed. Brasília: Editora UNB, 1998. (Volume 1).

BUKHARIN, NIKOLAI, ABC do Comunismo, Edipro, São Paulo, 2011.

ENGELS, FRIEDRICH, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Edipro de Bolso, São Paulo, 2011.

FERACINE, LUIZ, Karl Marx ou a Sociologia do Marxismo, Lafonte, São Paulo, 2011.

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK, JEAN-LOUIS MARGOLIN  et al. O Livro Negro do Comunismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

PAROSCHI, WILSON, “Os Pequenos Grupos e a Hermenêutica: Evidências Bíblicas e Históricas em Perspectiva”, (Engenheiro Coelho, São Paulo, 2009). (artigo aqui). Ou no livro: SOUZA, ELIAS BRASIL (Ed.). Teologia e metodologia da missão: palestras teológicas apresentadas no VIII Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano. Cachoeira: CePliB, 2011).

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O número 666 e o Vicarius Filii Dei

papalNesse artigo faço uma busca histórica da origem e do uso da expressão Vicarius Filii Dei como interpretação de Apocalipse 13:18 nos círculos adventistas. Após esse background histórico, discorrerei brevemente sobre o uso desse título no meio adventista, bem como sobre a validade hermenêutica dele para a interpretação do número 666. As interpretação mais popular no meio adventista para o número 666, citado em Apocalipse 13:18 é a utilização do suposto título papal Vicarius Filii Dei. Entre as muitas questões a serem levantadas a partir desse assunto, o que nos interessa neste artigo é a confiabilidade histórica dessa expressão e a validade de seu uso nos círculos adventistas.

ORIGEM DO TÍTULO

O documento Doação de Constantino é a mais antiga referência do suposto título papal Vicarius Filii Dei. Tendo sido escrito no período da Idade Média, esse é o mais antigo relato eclesiástico que confere a Pedro a autoridade de ser “substituto do Filho de Deus”.[2] Por quase 600 anos, o catolicismo o considerou como genuíno, mesmo porque aproximadamente dez papas o utilizaram como prova de sua autoridade temporal.[3] A menção do nome Constantino sugere que esse documento deve ter sido escrito nos dias desse imperador, no século 4 d.C.. Porém, Lorenzo Valla, por algum tempo secretário do papa humanista Nicolau V, em 1440 escreveu uma crítica literária e histórica demonstrando que a Doação de Constatino era um documento forjado, que provavelmente foi composto em meados do século 9 d.C.[4]

VICARIUS FILII DEI EM AUTORES PROTESTANTES

O escritor protestante mais antigo a relacionar a expressão Vicarius Filii Dei ao número 666 foi o alemão Andreas Helwig (ca. 1572-1643). Esse erudito foi professor de línguas bíblicas e letras clássicas por quase três décadas. Em 1612, Helwig escreveu sua obra Antichristus Romanus, na qual reuniu 15 títulos nas línguas latina, grega e hebraica, que na soma de suas letras dariam a cifra apocalíptica. Tal obra não enfatizou o título Vicarius Filii Dei, mas o considerou apenas como mais uma das pretensões da Igreja de Roma. Segundo Helwig, quatro fatores eram essenciais para um nome ser aplicado ao número apocalíptico: (1) a soma deveria dar a cifra correta; (2) teria que concordar com a ordem papal; (3) deveria ser um nome do próprio anticristo, não um título dado por seus inimigos; (4) teria que ser um título usado pelo anticristo para a sua auto-ostentação. Porém, essa interpretação se tornou comum entre autores de diversas denominações em meados da Revolução Francesa (1789-1799), quase duzentos anos após a publicação de sua obra.[5]

Autores protestantes como Amzi Armstrong (1771-1827),[6] os presbiterianos William Linn (1752-1808)[7] e David Austin (1760-1831)[8] e Robert Shimeall[9] aplicaram ao número 666 os títulos Ludovicus (latim), Lateinos (grego), Romith (hebraico) e Vicarius Filii Dei. Referente a esse último, John Bayford, em sua obra Messiah’s Kingdom (ca. 1820), afirmou que sua utilização era “dificilmente satisfatória” e que a expressão correta ainda estava para ser descoberta.[10] Percebe-se, assim, que desde o século 19, já havia certa relutância em aplicar esse título ao número 666.

VICARIUS FILII DEI EM AUTORES ADVENTISTAS

Muitos dos pioneiros do movimento adventista foram contemporâneos dos autores protestantes mencionados anteriormente. Sendo assim, é natural encontrarmos semelhança entre as interpretações de Apocalipse 13:18 de ambos os grupos. Foi por meio dos trabalhos de Uriah Smith, decano da interpretação profética nos círculos adventistas,[11] que se atribuiu a expressão Vicarius Filii Dei ao papado. Smith assim entendia: a expressão mais plausível que temos visto sugerir contendo o número da besta é o título que o papa toma para si mesmo e permite que outros lhe apliquem. Esse título é Vicarius Filii Dei, que quer dizer “Substituto do Filho de Deus”. Tomando as letras desse título que os latinos usavam como numerais e dando-lhes seu valor numérico, temos exatamente 666.[12]

A interpretação de Smith causou um impacto significativo no adventismo, a ponto de John N. Andrews, o expoente teológico mais importante dessa denominação, adotá-la na reimpressão de sua obra The Three Angels of Revelation XIV, 6-12, em 1877. Os anos posteriores presenciaram uma expansão dessa visão, por meio dos trabalhos públicos e impressos de alguns evangelistas adventistas ao redor do mundo. Stephen. N. Haskell, por exemplo, ao tratar do tema de Apocalipse 13, enfatizou apenas Vicarius Filii Dei.[13] O mesmo foi feito pelo autor brasileiro Aracely Mello ao afirmar que existem “fatos comprobatórios de que Vicarius Filii Dei é o título verdadeiro do papa e de Roma Papal.”[14] Roy Alan Anderson, importante nome no evangelismo adventista, utilizou títulos como stur (aramaico), italika ekklesia, he latine Basiléia (grego) e Vicarius Filii Dei (latim).[15] Por sua vez, o evangelista argentino Daniel Belvedere limitou a interpretação do número 666 à expressão “substituto do Filho de Deus”[16], e C. Mervyn Maxwell adotou essa mesma posição.[17]

Esse quem sabe seja o principal motivo para o título Vicarius Filii Dei ser associado com Apocalipse 13:18 por tantos adventistas. Porém, por mais popular que seja essa interpretação, é inegável que existem inúmeros problemas na sua aplicação ao relato bíblico.

PROBLEMAS INTERPRETATIVOS

Como vimos anteriormente, o documento mais antigo a mencionar esse título é a Doação de Constantino. A implicação disso é que essa interpretação se baseia num falso decreto da Idade Média. Da mesma forma, há certa controvérsia envolvendo a inscrição de Vicarius Filii Dei na mitra papal. A publicação Our Sunday Visitor, uma popular revista católica americana, mencionou por duas ocasiões que havia, de fato, uma inscrição na tiara do papa. A primeira menção foi em 1914, e a segunda no ano seguinte. Porém, existe uma terceira citação que nega qualquer tipo de inscrição na coroa do pontífice romano. E não há qualquer tipo de evidência que prove o contrário.[18]

Provavelmente, esse assunto teve início com um incidente envolvendo W. W. Prescott, um dos pioneiros da segunda geração adventista. Um evangelista chamado C. T. Everson visitou o Museu do Vaticano e tirou algumas fotografias de diversas tiaras papais, usadas ao longo dos séculos. Nenhuma inscrição havia em sequer uma delas. Prescott foi autorizado a utilizar as fotos na ilustração de um dos seus artigos. Porém, a Southern Publishing Association, quando preparava a publicação da versão atualizada da obra de Smith, contratou um artista que inseriu as palavras Vicarius Filii Dei. A sede mundial da Igreja Adventista ordenou que a impressão fosse interrompida e que removessem as fraudes fotográficas.[19]

Em 1935, a revista Our Sunday Visitor desafiou o periódico adventista Present Truth, que nessa época tinha como editor Francis D. Nichol, a provar que a expressão “substituto do Filho de Deus” era um título oficial do papa. Nichol consultou Prescott para solucionar esse problema. Prescott afirmou que não era possível responder ao desafio, já que os adventistas baseavam essas argumentações em fontes questionáveis.[20] Devido a esse incidente, a sede mundial da IASD sugeriu que tal interpretação jamais fosse utilizada novamente.[21] Ironicamente, hoje essa é a interpretação mais popular entre os adventistas.

Em novembro de 1948, Leroy E. Froom publicou sua resposta para uma pergunta referente à inscrição na tiara do papa. Após negar qualquer tipo de grafia na mitra papal, Froom afirmou que “como arautos da verdade, devemos proclamá-la verdadeiramente”, e que “em nome da verdade e honestidade este periódico protesta contra algum membro da associação ministerial da denominação adventista do sétimo dia”. Segundo ele, “a verdade não necessita de fabricação para ajudá-la”.[22]

Além desses problemas, é necessário dizer que esse recurso é exegeticamente desnecessário. O pregador escocês Robert Fleming Jr. (ca. 1600-1716), por exemplo, jamais utilizou Vicarius Filii Dei em suas abordagens sobre o anticristo e chegou à mesma posição dos adventistas a respeito desse poder, isto é, o catolicismo apostólico romano.[23]

CONCLUSÃO

É evidente, portanto, que o uso da expressão Vicarius Filii Dei aplicado ao número 666 de Apocalipse 13:18 é controvertida e questionável. Visto que sua origem está ligada a um documento forjado. Como declarou Froom, nesse assunto, “nós devemos honrar a verdade e meticulosamente observar o princípio da honestidade ao lidar com as evidências sobre todas as circunstâncias”.[24]

(Luiz Gustavo S. Assis é formado em Teologia pelo Unasp e doutorando no Boston College)

Referências:

  1. Bettenson, H. Documentos da igreja cristã, São Paulo, ASTE, 1998, 171.
  2. Coleman, Christopher B. The Treatise of Lorenzo Valla on the Donation of Constantine, Canada: University of Toronto Press, 1993, 1 e 2. Essa obra foi originalmente publicada em 1922.
  3. Cairns, Earle E. O cristianismo através dos séculos, São Paulo, Vida Nova, 2006, 213.
  4. Froom, Leroy E. The Prophetic Faith of Our Fathers, Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1954, v. 2, 605-608.
  5. O título da obra é “A syllabus of lectures on the visions of the Revelation”.
  6. O título de seu trabalho é “Discourses on signs of the times”.
  7. O título de sua obra é “A prophetic leaf”, citada em Froom, op. cit., 342.
  8. Damsteegt, P. Gerard. Foundations of the Seventh-day Adventist Message and Mission, Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1997, 206.
  9. Froom, op. cit., 412.
  10. Timm, Alberto R. O santuário e as três mensagens angélicas: fatores integrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas. Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2004, 137-138.
  11. Nichol, Francis D. (ed.). Seventh-day Adventist Biblical Commentary. Hangesrtown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1980, v. 10, 1009.
  12. Haskell, Stephen. N. The Story of the Seer of Patmos. Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1905. p. 105.
  13. Mello, Aracely S. A verdade sobre as profecias do Apocalipse. Taquara, RS: Grafiacs, 1982. 202-203.
  14. Anderson, Roy A. As Revelações do Apocalipse. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988. 151.
  15. Belvedere, Daniel. Seminário revelações do Apocalipse. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1987, 102.
  16. C. Mervyn Maxwell. Uma nova era segundo as profecias do Apocalipse. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1998. 431.
  17. Nichol, Francis D. ed. op. cit., v. 9. 1071.
  18. Valentine, Gilbert. W.W. Prescott: Forgotten Giant of Adventism’s Second Generation. Washington D.C.: Review and Herald Pub. Association, 2005. 317.
  19. Ibid., 318.
  20. Ibid., 319.
  21. Froom, Leroy E. “Dubious Pictures of the Tiara”, The Ministry, novembro de 1948, 35.
  22. Torres, Milton Luiz. “Contenções Quanto à Interpretação Tradicional de 666 em Apocalipse 13:18”. Revista teológica SALT-IAENE, Cachoeira, BA, v. 2, n. 1, 1998. 64.
  23. Froom. “Dubious Pictures of the Tiara”, 35.

Paralelos entre a apostasia de Salomão e o 666

666Um dos temas de estudo desta semana da Lição da Escola Sabatina é a marca da besta e o famoso número 666 de Apocalipse 13. Por pertencerem a um movimento profético nascido do estudo dos livros de Daniel e Apocalipse, é natural que os adventistas se debrucem mais sobre assuntos como esse do que os membros de outras religiões cristãs. Algumas propostas de interpretação foram apresentadas ao longo dos anos (como a indevida aplicação do 666 ao título Vicarius Filii Dei, por exemplo), mas o que fica mesmo claro é que Apocalipse 13 tem relação direta com Daniel 3. Em ambos os capítulos a questão em foco é a adoração forçada: ou as pessoas adoram o Deus verdadeiro ou os falsos deuses. Se optar pela fidelidade ao Criador e à Sua lei (o sábado incluído), o povo de Deus sofrerá perseguição e ameaça de morte, como aconteceu com os três jovens hebreus fieis. No Apocalipse, o número da besta representa o poder humano (o 6 em oposição ao 7, que é o número de Deus). Em Daniel, as medidas da estátua que representava o panteão babilônico eram 60 por 6 côvados. Paralelos inegáveis. Mas há outro possível paralelo, esse entre Apocalipse 13 e 1 Reis 10. O pastor e editor da CPB Fernando Dias Souza me falou a respeito disso e achei muito interessante. Veja a explicação dele: [MB]

O livro de 1 Reis 10:14 e 15 fala que o peso do ouro trazido a Salomão era de “seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro, além do que entrava dos vendedores, e do tráfico dos negociantes, e de todos os reis da Arábia, e dos governantes da terra” (ver também 2Cr 9:13, 14). Note-se que as alianças políticas de Salomão, que deveria ser o líder do povo de Deus na terra (ele era “filho de Davi”, e, portanto, um tipo ou modelo de Jesus Cristo, o “Filho de Davi”), levaram-no à apostasia, à luxúria e a sincretizar a religião de Israel com o paganismo (1Rs 11:1-8), exatamente o mesmo caminho que seguiu o ramo da igreja cristã que formou a Babilônia espiritual profética (ver Ap 18:2-24).

Assim como Salomão recebia 666 talentos de ouro dos “negociantes”, dos “reis” e dos “governantes”, e se prostituiu com centenas de mulheres princesas, filhas dos reis de todas as nações da terra, que lhe perverteram o coração para seguir seus deuses (2Rs 11:2, 4), a besta apocalíptica, cujo número é 666 (Ap 13:18), prostituiu-se com “os reis da terra” (Ap 17:2), corrompendo-se espiritualmente com “os mercadores da terra” (Ap 18:3). É interessante ler 1 Reis 10, 2 Crônicas 9 e comparar com Apocalipse 18. Vários dos itens trazidos pelos comerciantes e como presentes dos reis a Salomão também são mencionados no Apocalipse.

Para mim, a menção do número 666 no Apocalipse nos remete à experiência desastrosa do rei Salomão como o líder maior do povo de Deus, que construiu um santuário de Deus na terra (1Rs 7, 8), mas que deixou-se corromper moral e espiritualmente por causa de associações indevidas com os pagãos. Da mesma forma, o Apocalipse 13 fala de duas potências que estão em posição de liderança sobre o mundo cristão, mas que se corromperam moral e espiritualmente da mesma maneira que Salomão. Não vejo razão para o significado do número 666 estar fora da Bíblia, já que entendo que a Bíblia se interpreta a si mesma.

O selo de Deus é o sábado ou o Espírito Santo?

testa2Algumas pessoas têm dificuldade de harmonizar a função do Espírito Santo e o papel do sábado no selamento final do povo remanescente de Deus. Não resta dúvida de que a habitação do Espírito Santo na vida do crente é a maior evidência de que este se encontra em estado de salvação (ver Rm 8:1-17; Gl 5:16-26). Por esse motivo, o apóstolo Paulo se referiu ao Espírito Santo como “penhor” (2Co 1:21, 22) e “selo” (Ef 1:13; 4:30) da salvação. Ellen G. White acrescenta que “a todos os que aceitam a Cristo como um Salvador pessoal, o Espírito Santo vem como consolador, santificador, guia e testemunha” (Atos dos Apóstolos, p. 49).

Além disso, o Espírito Santo é também o agente selador e capacitador dos crentes para o cumprimento da missão evangélica. Comentando os derradeiros momentos antes da ascensão de Cristo, Ellen G. White diz que “a visível presença de Cristo estava prestes a ser retirada dos discípulos, mas uma nova dotação de poder lhes pertencia. O Espírito Santo lhes seria dado em Sua plenitude, selando-os para a sua obra” (Atos dos Apóstolos, p. 30). Em relação ao Pentecostes, a mesma autora afirma que “os que creram em Cristo foram selados pelo Espírito Santo” (Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 6, p. 1.055).

O processo de restauração das verdades bíblicas pelos pioneiros adventistas do sétimo dia também foi selado, ou seja, aprovado pelo Espírito Santo. “Muito bem sabemos nós como foi estabelecido cada ponto da verdade, e sobre ele posto o selo pelo Espírito Santo de Deus” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 103, 104). Descrevendo sua participação em algumas reuniões em South Lancaster, Massachusetts, na década de 1880, a Sra. White menciona que “o Senhor ouviu nossas súplicas, e Seu Espírito colocou o Seu selo à nossa obra” (Review and Herald, 15 de janeiro de 1884, p. 33). Ainda hoje, Deus “deseja que Sua obra seja levada avante com proficiência e exatidão, de modo que possa pôr sobre ela o selo de Sua aprovação” (Atos dos Apóstolos, p. 96).

Mas a função seladora do Espírito Santo no plano da salvação não conspira contra a identificação do sábado como “o selo do Deus vivo” (Ap 7:2; 9:4) no desfecho da grande controvérsia entre a verdade e o erro (ver Ap 12:17; 14:9-12). Em realidade, o Espírito Santo é concedido aos que obedecem a Deus (At 5:32) e, por essa razão, Ele é chamado por Cristo de “o Espírito da verdade” (Jo 14:17; 15:26; 16:13). Sua obra é conduzir os seguidores de Cristo “a toda a verdade” (Jo 16:13), da qual faz parte o quarto mandamento do decálogo, que ordena a observância do sábado (Êx 20:8-11; cf. Sl 119:142).

Ellen G. White afirma que “o sábado foi inserido no decálogo como o selo do Deus vivo, identificando o Legislador, e tornando conhecido o Seu direito de governar. Era o sinal entre Deus e Seu povo, um teste de sua obediência a Ele. Moisés foi ordenado a lhes dizer da parte do Senhor: ‘Certamente, guardareis os Meus sábados; pois é sinal entre Mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que Eu sou o Senhor, que vos santifica’ (Êx 31:13). E quando alguns do povo saíram no sábado a recolher o maná, o Senhor indagou: ‘Até quando recusareis guardar os Meus mandamentos e as Minhas leis?’ (Êx 16:28)” (Sings of the Times, 13 de maio de 1886, p. 273).

“A obra do Espírito Santo é convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo. O mundo só será advertido ao ver os que creem na verdade sendo santificados pela verdade, agindo por princípios altos e santos, demonstrando em sentido alto e elevado a linha divisória entre aqueles que guardam os mandamentos de Deus e aqueles que os pisoteiam a pés. A santificação do Espírito demarca a diferença entre aqueles que têm o selo de Deus e aqueles que guardam um dia de repouso espúrio” (Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 7, p. 980).

Portanto, a habitação santificadora do Espírito Santo na vida é o selo da salvação do crente, que permanece nele enquanto este permitir que o Espírito Santo o conduza “a toda a verdade” (Jo 16:13). No conflito final entre a verdade e o erro, a humanidade acabará se polarizando entre os que observam o sábado bíblico instituído por Deus e os que veneram o domingo de origem pagã. Nesse contexto, o sábado assumirá a função de sinal escatológico de lealdade incondicional a Deus.

(Dr. Alberto Timm é diretor associado do White Estate, na sede mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia)

Deus nos ama, mas não nos fez assim

papaSegundo um chileno que sofreu abuso sexual de religiosos, o papa Francisco lhe teria dito o seguinte, durante uma conversa privada: “Deus o fez assim e o ama dessa maneira, e para mim não importa. O papa o ama dessa maneira, e você deve ser feliz do jeito que é.” O Vaticano não disse que sim nem que não. O jovem de 20 anos é um dos principais motivadores das denúncias de abuso no Chile e uma das vítimas de abuso convidadas para um encontro com o papa neste mês. Após uma audiência com Francisco na semana passada, todos os bispos chilenos renunciaram devido ao escândalo de pedofilia no país.

Se Francisco disse realmente isso, cometeu um grave erro contra a Bíblia. Se ele fosse criacionista (coisa que não é), acreditaria que depois da história da queda narrada no capítulo 3 de Gênesis o ser humano passou a existir em uma forma não ideal. E se o líder católico cresse que Adão e Eva foram personagens históricos, defenderia o conceito bíblico de que Deus criou homem e mulher (aliás, o casamento heteromonogâmico também só pode ser defendido com base na cosmovisão criacionista bíblica). Alguns chamam a isso de “ideologia de Gênesis”.

Deus não criou aquele jovem chileno para ser homossexual! Se o papa realmente disse isso chega a ser cruel. Aquele garoto foi vítima de abuso e muito provavelmente isso tenha causado estragos em sua sexualidade. Deus não criou homossexuais, tanto quanto não criou pessoas com inclinações para o pecado, nem seres humanos mortais, sujeitos à doença, nem tampouco corruptos, imorais e violentos. Não, Deus não nos fez dessa maneira e não podemos nos acomodar, nos acostumar com nossa condição pecaminosa. Não devemos ser felizes do jeito que somos, pois só podemos ser realmente felizes do jeito de Deus. Devemos lutar contra o pecado na força que Deus nos concede.

“Tudo o que aprendi se resume nisto: Deus nos fez simples e direitos, mas nós complicamos tudo” (Eclesiastes 7:29, NTLH).

Michelson Borges

Jesus: nosso divino exemplo inigualável

Jesús y el PanUm comentário da Lição da Escola Sabatina desta semana, se mal compreendido, pode gerar conclusões equivocadas. Ele diz o seguinte: “Cristo veio a este mundo para nos mostrar o que Deus pode fazer e o que nós podemos fazer em cooperação com Deus [1]. Em carne humana, Ele foi ao deserto para ser tentado pelo inimigo. Ele sabe o que é ter fome e sede. Conhece as fraquezas e enfermidades da carne [2]. Foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança [3]. Nosso resgate foi pago por nosso Salvador. Ninguém precisa ser escravizado por Satanás. Cristo Se encontra diante de nós como nosso divino exemplo [4], nosso todo-poderoso ajudador [5].”

Vou comentar brevemente os pontos que numerei no texto:

[1] Podemos vencer em cooperação com Deus. Isso é ponto pacífico. Ainda que mantenhamos a natureza pecaminosa até a glorificação por ocasião da volta de Jesus, a promessa é de que podemos ser “crucificados com Cristo” e guiados por Ele. Isso não faz de nós seres impecáveis e isentos da possibilidade de pecar. Isso faz de nós pessoas santas, enquanto andamos de mãos dadas com Jesus, aquele que nos santifica.

[2] Jesus conhece as fraquezas e enfermidades da carne: sentiu, fome, cansaço, frio… Foi afetado pelo pecado, mas não infectado por ele. Ele foi o único ser humano que nasceu sem pecado e foi perfeito/puro desde o nascimento. Se Jesus morresse como bebezinho, não precisaria de um redentor. Outro ser humano, se morresse como bebezinho, mesmo sem ter cometido um ato pecaminoso, precisaria de um redentor? Claro que sim, e isso deixa clara nossa diferença essencial em relação ao Salvador. Ele veio com a natureza humana afetada por quatro milênios de decadência, mas moralmente como Adão antes do pecado. Ele veio para vencer onde Adão caiu. Quando se diz que Jesus veio com a natureza humana o sentido é de que não veio com a natureza dos anjos nem de seres não caídos, veio com a natureza dos seres humanos deste planeta.

[3] Foi tentado à nossa semelhança, não exatamente como nós. Afinal, algum ser humano poderia ser tentado a transformar pedras em pães ou a descer da cruz tendo o poder de fazê-lo? Jamais compreenderemos o nível de tentação a que Jesus foi submetido. Seremos tentados à semelhança dEle, mas não de maneira igual.

[4] Ele é nosso divino exemplo. Ele é DIVINO, nós não. Ele não tinha tendência para o pecado (o inimigo nada tinha nEle), nós temos. Podemos e devemos imitar esse Exemplo, mas nunca igualá-Lo, conforme explica Ellen White.

[5] Graças a Deus temos um todo-poderoso ajudador que nos auxilia na luta contra o pecado e nos ajuda a subjugar a natureza pecaminosa que Ele, como Adão antes do pecado, não tinha. Em Jesus somos mais que vencedores! [MB]

Presidente mundial da IASD fala sobre a teologia da última geração

tedO que você acha da “teologia da última geração”? 

Depende de como você define essa expressão. Eu certamente acredito e quero ter a esperança de que estamos vivendo na última geração antes da breve vinda de Cristo (Mateus 24; Marcos 13; Apocalipse 3:11; Apocalipse 13; Apocalipse 22:7, 12, 20). Quanto mais nos aproximamos de Cristo, mais vemos necessidade dEle – e mais entendemos nossa necessidade da justiça de Cristo, Sua graça, Seu amor e Seu poder para viver a vida cristã. Não creio que precisemos de outra grande discussão sobre a perfeição, como a ocorrida há poucas décadas. O Espírito da Profecia é muito claro ao afirmar que ninguém deve reivindicar a perfeição.

“Ninguém que alegue santidade é de fato santo”, escreveu Ellen White. “Os que se acham registrados como santos nos livros do Céu não estão apercebidos do fato, e são os últimos a gabar-se de sua bondade. Nenhum dos profetas e apóstolos alguma vez professou santidade, nem mesmo Daniel, Paulo ou João. Os justos nunca fazem semelhante alegação. Quanto mais de perto se assemelham a Cristo, tanto mais lamentam sua dessemelhança dEle, pois têm consciência sensível, e consideram o pecado mais como Deus o considera” (Reavivamento e Seus Resultados, p. 36).

Cristo tem o poder de trabalhar em nossa vida para que vivamos a vida cristã (João 1:12). Ele pede que nos humilhemos e nos coloquemos diariamente em Suas mãos, para que Ele possa desenvolver Seu poder salvador em nossa vida (Filipenses 2:12, 13). Isso só é possível ao nos tornarmos um com Ele – ao submetermos nossa vida diariamente à Sua liderança e ao Seu poder (Tiago 4:7-10). Devemos tudo a Ele e ao Seu amor por nós e à vida eterna que Ele promete (Efésios 1:3-17; Atos 17:26-28).

Ele quer que sejamos um povo preparado para os últimos dias da história deste mundo, na defesa da verdade, e seremos convocados a apresentar a Palavra pura aos vizinhos, amigos e até mesmo aos governantes (Mateus 6:25-34; Mateus 10:16-20; Marcos 13:3-13; Lucas 12:8-12). Ao permitir que Cristo controle nossa vida, nos tornamos cada vez mais como Ele. Refletiremos Seu caráter porque Ele está trabalhando em nós e através de nós, conforme aceitamos Suas vestes de justiça a cada dia e permitimos que o Espírito Santo nos santifique todos os dias (Mateus 11:25-30; Mateus 22:2-14; Apocalipse 3:14-22).

Confiando completamente em Cristo e em Sua justiça, precisamos crer que Ele nos dará vitória sobre o pecado através do Seu poder e não por nosso próprio poder (Filipenses 4:13; Romanos 12:1, 2). De outra forma, o cristianismo não tem poder. Filipenses 2:5 nos diz: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.”

No livro O Desejado de Todas as Nações, lemos: “A justiça ensinada por Cristo é conformidade de coração e de vida com a revelada vontade de Deus. Os pecadores só se podem tornar justos à medida que têm fé em Deus e mantêm vital ligação com Ele. Então a verdadeira piedade lhes elevará os pensamentos e enobrecerá a vida. Então, as formas externas da religião se harmonizam com a interior pureza cristã” (p. 212).

À medida que nos consagrarmos a Cristo e permitirmos que Ele trabalhe em nós para nos aproximarmos dEle e de Sua Palavra, poderemos então perceber aquela linda citação de Parábolas de Jesus: “Cristo aguarda com fremente desejo a manifestação de Si mesmo em Sua igreja. Quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em Seu povo, então virá para reclamá-los como Seus” (p. 29).

O caráter de Cristo só poderá ser reproduzido perfeitamente em nossa vida quando confiarmos completamente apenas em Cristo. Não há poder em nós mesmos para conseguir isso. Devemos permitir diariamente que o Espírito Santo nos transforme cada vez mais à semelhança de Cristo. Esse é o trabalho de toda uma vida. Devemos pedir o caráter de Cristo em nossa vida enquanto aprendemos a obediência prática à Sua Palavra através do Seu poder.

Esta é uma questão de se humilhar diante dAquele que pode mudar nossa vida, nossos pensamentos, motivos e influências, para evidenciar o que Ele pode fazer em uma vida reavivada, reformada, transformada e restaurada – tudo isso através de nossa humilde submissão a Ele e de Seu poder para nos renovar (2 Coríntios 5:17; 1 Pedro 5:6-11).

Não devemos agir na direção daquilo que pode ser chamado de “perfeccionismo”, preocupados com uma lista legalista de itens ou nos exaltando por nosso próprio poder. Que ninguém na Igreja Adventista do Sétimo dia se considere melhor do que qualquer outra pessoa ou venha a acusar os outros de não serem santos ou perfeitos. Todos somos pecadores ao pé da cruz, precisando de um Salvador que nos ofereça a Sua justiça em justificação e santificação.

Devemos ser unidos em Cristo em palavras e ações. “O segredo da unidade encontra-se na igualdade entre os crentes em Cristo. A razão de todas as divisões, discórdias e diferenças encontra-se na separação de Cristo. Cristo é o centro para o qual todos devem ser atraídos; pois quanto mais nos aproximamos do centro, tanto mais nos aproximaremos uns dos outros em sentimento, em simpatia, em amor, crescendo no caráter e imagem de Jesus” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 259).

Acredito que não temos muito tempo. Sei que nossos pais e talvez nossos avós pensaram que estivéssemos perto da vinda do Senhor, mas eu realmente acredito que estamos chegando ao fim do tempo, especialmente por ver o que tem ocorrido atualmente ao redor do mundo.

Basta ver o que aconteceu no fim de setembro de 2015, em Washington, no edifício do Capitólio, nas Nações Unidas, em Nova York, e na cidade de Filadélfia – e a forma como a imprensa e todos ficaram tão fascinados e positivos com os eventos em torno de um líder religioso. Se isso não é um cumprimento de Apocalipse 13, não sei o que é. O Senhor nos deu muitas informações para sabermos que estamos vivendo no fim dos tempos.

Que privilégio é viver nestes últimos dias da história da Terra; viver para Jesus e permitir que Ele demonstre em cada um de nós o poder oferecido para ter uma vida vitoriosa nEle – demonstrando ao mundo que Ele é todo-poderoso e que é amor.

Através da Sua graça, Seu amor e intervenção celestial pelo Espírito Santo, podemos ter poder divino e Seu caráter, conforme somos transformados mais e mais à Sua semelhança. Cristo veio a este mundo. Ele viveu uma vida sem pecado, morreu por nós, ressuscitou por nós, intercede agora por nós no santíssimo do santuário celestial como nosso Sumo Sacerdote, e logo retornará em Sua segunda vinda como Rei dos reis e Senhor dos senhores (Lucas 2; João 20; Atos 1:9-11; Hebreus 4:14-16; Apocalipse 22:12-14).

Em Reavivamento Verdadeiro, lemos: “Não há desculpa para o pecado ou para a indolência. Jesus vai à frente e quer que sigamos os Seus passos. Ele sofreu, Ele Se sacrificou como nenhum de nós pode fazê-lo, para que pudesse colocar a salvação ao nosso alcance. Não precisamos ficar desalentados. Jesus veio ao nosso mundo trazer poder divino à humanidade, para que por meio de Sua graça possamos ser transformados à Sua semelhança” (p. 36).

Exaltemos Cristo e Sua justiça e permitamos que Ele demonstre ao mundo Seu poder para mudar nossa vida e a vida daqueles que se submetem completamente a Ele.

Para mais informações sobre este assunto muito importante, encorajo você a ler um conselho maravilhoso no Espírito de Profecia, especificamente em Caminho a Cristo, capítulos 7 e 8.

(Perspectives; tradução de Levi de Paula Tavares)