Duas verdades não se anulam

Tender para qualquer um dos lados da questão não é dar destaque para uma verdade, mas escolher a apostasia que mais se encaixa no seu gosto.

Duas verdades não se anulam. Ao contrário, são complementares. Jesus, ao criticar os fariseus, não sugeriu que sua obediência estava errada, mas que ela havia se tornado superficial e voltada aos atos isolados, desassociada dos princípios. “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezam os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Mas vocês deviam fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mateus 23:23).

Dar o dízimo não era mal, o problema é que a força motriz do amor havia sido substituída pela vaidade, que o capítulo inteiro condena. A solução para isso não era deixar de praticar o que é certo, mas mudar as intenções do coração. Pensamento e atos devem guardar uma relação íntima.

Na atualidade, muita gente prefere rivalizar o que, na realidade, é complementar. Por exemplo, a educação dos desejos é importante. Mas ela não anula outro princípio cristão básico: modéstia cristã. Essa rinha entre verdades cristãs, a meu ver, é resultado de um desequilíbrio teológico.

No discipulado, a educação da vontade ocupa um papel, enquanto o da modéstia cristã outro. São verdades que devem ser internalizadas e vividas, e são especialmente desafiadoras, pelo fato de que guerreiam contra as tendências naturais do ser humano para a opolulência e a licenciosiade.

Para defendermos uma posição de pureza, não precisando abdicar da modéstia – elas são verdades complementares. O desequilíbrio promovido por esse divórcio é como uma leitura parcial da Escritura. Acredito que isso surja por meio da imposição ideológica, quando uma filosofia ganha corpo para arbitrar o que é melhor para o ser humano, tomando o lugar da lei de Deus.

Quando a ideologia assume esse papel de juiz revisor da teologia, vejo a repetição dos vícios intelectuais promovidos pelo cristianismo positivo, a linha teológica trazida pelos nazistas. Quando valorizamos as virtudes cristãs de acordo com um projeto político, estamos renunciando o poder de transformação que o Evangelho realmente tem a dar.

Se pureza é verdade, modéstia também é. Quem depende da ideologia, entretanto, vai filtrar o que lhe parece conveniente. Os seguidores de um cristianismo secularizado que se arroga conservador terão a capacidade de achar que o pudor feminino é o que causa a pureza no homem. Ridículo. A transformação que Cristo promove blinda o interior do crente. Tão falso quanto isso é a perspectiva de que a Escritura está despreocupada de princípios que submetem homens e mulheres no cuidado dos recursos e do corpo. A transformação que Cristo faz é vista no exterior do crente.

Melhor seria fazer como os líderes religiosos que encerram o casamento dizendo: “O que Deus uniu, não separe o homem.” Tender para qualquer um desses lados não é dar destaque para uma verdade, mas escolher a apostasia que mais se encaixa no seu gosto.

(Davi Boechat é jornalista e estudante de Direito)

A destruição de Sodoma e Gomorra

A destruição de Sodoma e Gomorra não se trata de um debate “homossexualidade ou inospitalidade”, mas foi um caso de perversão sexual e inospitalidade.

sodoma

1. O relato de Sodoma e Gomorra enfatiza a prática sexual

O tema de Gênesis 18 não é ser homossexual ou não, é ter relações homossexuais, o que é diferente. É preciso diferenciar a prática homossexual do desejo ou orientação homossexual. O relato apenas indica o que os homens de Sodoma queriam fazer. Não é corretor deslocar o problema do “praticar algo” para o “ser alguma coisa”. O texto não fala sobre ser homossexual (isso pode ser inferido), mas claramente descreve a intenção de praticar sexo com pessoas do mesmo sexo. Esse é o foco primário do relato e de alguns outros textos bíblicos que comentam o relato.[1]

Destaco que essa passagem não deveria ser o ponto de partida para qualquer argumentação a respeito da homossexualidade. Existem textos mais claros e mais diretos. A leitura popular da Bíblia produz algumas distorções, e é importante destacá-las. O texto não diz, por exemplo, que Ló era o único cidadão que não era homossexual em Sodoma. O texto diz que vieram “os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos” (Gn 19:4). A expressão “todo o povo de todos os lados” (Gn 19:4) tem o objetivo de evidenciar que não havia nem dez justos em Sodoma, como no desafio proposto a Deus por Abraão (Gn 18:32).

2. Na história, “conhecer” é ter relações sexuais

A exigência dos homens de Sodoma foi: “Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações [יָדַע, yada] com eles” (Gn 19:5). O verbo yada significa literalmente “conhecer”, e é abundantemente usado na Bíblia para indicar relações sexuais (por ex.: 1Rs 1:4). O pedido dos homens de Sodoma é idêntico ao dos homens de Gibeá na história do levita de Juízes 19: “Traga para fora o homem que entrou na sua casa para que tenhamos relações (yada) com ele!” (Jz 19:22).

A resposta de Ló (Gn 19:8) evidencia qual era o sentido de “conhecer” (cf. Gn 4:1; Nm 31:17; Jz 19:22): “Olhem, tenho duas filhas que ainda são virgens [literalmente, ‘que não conheceram homem’, usando yada]” (Gn 19:8).

Assim, “conhecer” aqui significa claramente “ter relações sexuais”, como em Gênesis 4:1. E o fato de Ló oferecer suas filhas virgens como substitutas evidencia qual era a intenção dos homens de Sodoma: praticar sexo com os visitantes.

3. O problema não foi apenas a inospitalidade, mas a imoralidade sexual

O Novo Testamento confirma que o problema de Sodoma foi pecado sexual também, e não apenas xenofobia, inospitalidade e injustiça social:

“De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram à imoralidade [ἐκπορνεύω, ekporneuo] e a relações sexuais antinaturais [lit. ‘ir após outra carne’]. Estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo” (Jd 1:7).

O verbo ekporneuo significa “entregar-se à imoralidade”, “entregar-se à fornicação”, “ser indulgente com a imoralidade grosseira”. Na raiz desse verbo está o substantivo πορνεία (porneia), que significa imoralidade sexual, fornicação, e de onde vem o prefixo da palavra “pornografia”.

A expressão “ir após outra carne” (ἀπελθοῦσαι ὀπίσω σαρκὸς ἑτέρας, apelthousai opisō sarkos heteras) está explicando o “entregar-se à imoralidade”. O termo “outra carne” pode significar atos sexuais antinaturais entre seres humanos e mesmo entre homens e animais. Os canaanitas (Sodoma e Gomorra incluídas) praticavam os dois tipos de pecados (Lv 18:22-29).

Pedro também aponta a imoralidade sexual como motivo para a destruição de Sodoma: “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios; mas livrou Ló, homem justo, que se afligia com o procedimento libertino [ἀσέλγεια, asélgeia] dos que não tinham princípios morais (pois, vivendo entre eles, todos os dias aquele justo se atormentava em sua alma justa por causa das maldades que via e ouvia )” (2Pe 2:6-8).

A palavra grega ἀσέλγεια significa luxúria desenfreada, lascívia, devassidão, sensualidade, licenciosidade (cf. Mc 7:21, 22; Rm 13:13; 2Pe 2:2, 7, 18; Jd 1:4). Claramente a Bíblia vincula a destruição de Sodoma ao aspecto sexual da história.

Pode-se até discutir qual é o sentido mais exato dessas expressões, mas será muito difícil negar que uma das causas da destruição de Sodoma foi a perversão sexual. E, como o único tipo de relação sexual presente no relato de Gênesis é o de homens com homens, há uma forte justificativa para usar esse texto contra a prática homossexual.

No entanto, alguém poderia argumentar que o problema foi o estupro, o sexo não consentido, forçado. Mas textualmente esse argumento é inconsistente, pois o relato afirma que os homens de Sodoma queriam “conhecer” (yada) os homens visitantes, e em hebraico existem expressões e palavras específicas para o estupro (como “forçar”, “humilhar”, “deitar à força com”, etc.), e elas não são usadas com relação a Sodoma.

Certamente a Bíblia descreve a xenofobia de Sodoma e Gomorra como um dos pecados delas, mas não diz que foi o único nem o maior. Com certeza, a hospitalidade é algo muito importante na Bíblia, no AT e no NT (cf. Mt 25:34-40; Rm 12:13; 1Tm 5:10; Hb 13:2), e a falta dela foi um dos motivos para a destruição de Sodoma e Gomorra.

4. Sodoma foi destruída também por causa das práticas sexuais repugnantes

Quando se cita Ezequiel 16, é preciso ler os versos 49 e 50, pois dizem que Sodoma foi arrogante e cometeu abominação (ou prática repugnante). No texto hebraico, há uma diferença significativa entre abominação (to’ebah) e abominações (to’ebot) que não ficou tão clara nas versões em português.[2] Ao falar especificamente de Sodoma e Gomorra, Deus afirma que “eram altivas e cometeram práticas repugnantes [תּוֹעֵבָה, to’ebah; no original, está no singular absoluto] diante de Mim. Por isso eu Me desfiz delas conforme você viu” (Ez 16:50).

Sodoma cometeu práticas repugnantes ou abominação, e essa palavra, to’ebah (no singular), é exatamente a mesma usada para descrever a prática homossexual em Levítico 18:22 e 20:13. Todas as vezes que Ezequiel usa to’ebah no singular ele está se referindo a um pecado sexual (Ez 22:11 e 33:26).[3]

E aqui to’ebah é um pecado adicional à injustiça social do verso 49; um pecado extra, diferente da opressão ao pobre. A “abominação” (singular) do verso 50 não se refere à injustiça social do verso 49, ou seja, to’ebah (singular) não inclui o verso 49, mas as “abominações” (plural) do verso 51 incluem. A palavra to’ebot (plural) no verso 51 resume todos os pecados anteriormente relatados em 49 e 50. Isso é confirmado pelo uso semelhante que Ezequiel faz de to’ebah e to’ebot em Ezequiel 18:10-13.

Ocorre o mesmo em Levítico 18. A prática homossexual é to’ebah (singular) em 18:22, e todas as práticas sexuais proibidas são descritas coletivamente como to’ebot (plural). Essa é uma forte evidência gramatical e intertextual de que Ezequiel 16:49, 50 pode estar falando da prática homossexual em Sodoma como um dos pecados sexuais devido aos quais Deus a destruiu.

O contexto mais amplo de todo o capítulo 16 de Ezequiel também deixa claro que ele está falando de pecados sexuais, especialmente ao falar da lascívia de Jerusalém no verso 43: “Acaso você não acrescentou lascívia [זִמָּה, zimmah] a todas as suas outras práticas repugnantes [תּוֹעֲבוֹת, to’ebot, plural]?” (Ez 16:43b).

A palavra é zimmah, e um de seus significados é “crime lascivo”;[4] e geralmente se refere ao pecado sexual premeditado (Lv 18:17; 20:14; Jz 20:6; Ez 16:27, 58; 22:9; 23:27, 29, 35, 44, 48; 24:13).

Finalmente, o argumento pode ser resumido assim:

a) Ezequiel afirma que Sodoma foi destruída também por causa de to’ebah.
b) Em Ezequiel, to’ebah é pecado sexual.
c) Então, Ezequiel quer dizer que Sodoma foi destruída também por seus pecados sexuais, o que é confirmado no NT.

A esse silogismo acrescente-se que a única atividade sexual em Sodoma registrada no relato do Gênesis é a tentativa de prática homossexual: homens queriam ter relações sexuais (yada) com outros homens. Assim, Ezequiel 16 deixa claro que Sodoma foi destruída por causa de to’ebah, práticas sexuais repugnantes, além da inospitalidade e da injustiça social.

5. Os livros apócrifos confirmam: não foi apenas falta de hospitalidade

Assim como a Bíblia, os livros apócrifos e pseudoepígrafos afirmam que o pecado de Sodoma e Gomorra também foi de imoralidade sexual: Jubileus 16:5, 6 e 20:5, 6; Testamento de Benjamin 9:1 e Testamento de Levi 14:6:

“E nesse mês o Senhor executou julgamento em Sodoma e Gomorra […] eles se profanavam mutuamente, cometendo fornicação e impureza em sua carne sobre a terra” (Jubileus 16:5, 6).

“E ele [Abraão] contou a eles sobre o julgamento dos gigantes, e sobre o julgamento dos sodomitas, como eles haviam sido julgados devido à maldade, e haviam morrido devido a fornicação, e impureza, e corrupção mútua pela fornicação. E guardem-se de toda fornicação e impureza, e de toda poluição do pecado, para que não tornem nosso nome em maldição, e suas próprias vidas um assobio, e seus filhos a serem destruídos pela espada, e vocês se tornem malditos como Sodoma, e seu remanescente como os filhos de Gomorra” (Jubileus 20:5, 6).

“Deduzo a partir das Palavras de Enoque o justo que vos dareis a práticas não boas. Fornicareis ao estilo de Sodoma e perecereis exceto por uns poucos” (Testamento de Benjamim 9:1).

“Ensinareis os mandamentos do Senhor por avareza, profanareis a mulheres casadas, manchareis as virgens de Jerusalém, e vos unireis a prostitutas e adúlteras. Tomareis como mulheres as filhas dos gentios, purificando-as com uma purificação ilegal, e vossa união será como as de Sodoma e Gomorra, por causa da impiedade” (Testamento de Levi 14:6).

Conclusão

A destruição de Sodoma não se trata de um debate “homossexualidade ou inospitalidade”, mas foi um caso de perversão sexual (prática homossexual incluída) e inospitalidade.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University; Reação Adventista)

Referências:

1. Outros textos falam sobre ser alguma coisa: os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores (Gn 13:13); ímpios, libertinos e sem princípios morais (2Pe 2:6, 7), imorais (Jd 1:7).
2. Na versão NVI, usada aqui, a expressão é “práticas repugnantes”, sem diferenciar singular e plural.
3. “Um homem comete adultério [to’ebah] com a mulher do seu próximo, outro contamina vergonhosamente a sua nora, e outro desonra a sua irmã, filha de seu próprio pai” (Ez 22:11); “Vocês confiam na espada, cometem práticas repugnantes [to’ebah], e cada um de vocês contamina a mulher do seu próximo. E deveriam possuir a terra?” (Ez 33:26). Em Levítico, tanto to’ebah (singular) quanto to’ebot (plural) referem-se a pecados sexuais.
4. Segundo alguns léxicos hebraicos, outros significados relacionados às práticas sexuais são: licenciosidade, adultério, prostituição, falta de castidade e incesto.

Para um estudo abrangente sobe sexualidade numa perspectiva bíblico-adventista, leia Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (clique aqui).

A criação e a sexualidade humana

Para se defenderem modalidades sexuais diferentes da estabelecida por Deus em Gênesis (na criação do primeiro casal), seria necessário antes redefinir casamento.

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1. Ninguém é obrigado a se casar por causa do Gênesis

O relato do Gênesis é o modelo ideal para o casamento, mas não obriga todo ser humano a se casar e procriar. Estabelece os parâmetros a serem seguidos por aqueles que quiserem se casar. Jesus demonstrou isso em Mateus 19:4-12. Após mencionar Gênesis 1:27 e 2:24, e explicar o divórcio, ouviu Seus discípulos dizerem que “é melhor não casar”. Jesus então afirmou que “nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite” (Mt 19:11, 12).

O Gênesis mostra que, divinamente instituída, a família começa com a união entre um homem e uma mulher (Gn 1:27, 31; 2:24), e estabelece os princípios para a atividade sexual: ela está restrita ao casamento heterossexual e monogâmico.[1] Gênesis dá o modelo que é confirmado em toda a Escritura, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (cf. Mt 19:4-6).

O importante é que o casamento consiste especialmente (mas não exclusivamente) na união sexual entre um homem e uma mulher. Biblicamente, não existe a opção de fazer sexo (heterossexual ou homossexual) fora do casamento sem que isso seja errado e tenha consequências danosas (Gn 29:23-25; cf. Lv 20:10-21; Dt 22:13-21, 28, 29).

Assim, ninguém é obrigado a casar por causa do Gênesis, mas sexo sem casamento é sexo ilícito.

2. Sexo não é apenas para procriação

Seguir o padrão proposto em Gênesis nos obrigaria a fazer sexo só para a procriação? Esse é outro equívoco. Ninguém precisa fazer sexo apenas para procriação, e Cantares de Salomão mostra de forma poética e ricamente erótica a função prazerosa do sexo. Assim, sexo sem procriação não é pecado, mas sexo sem casamento continua sendo sexo ilícito.

É biblicamente difícil provar que o sexo foi criado por Deus apenas para a procriação e que a sexualidade só passou a ter outras funções com o decorrer do tempo após o pecado. Mesmo em Gênesis, é possível perceber outras funções para o sexo. O Criador destinou a sexualidade no casamento também para proporcionar unidade: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gn 2:24). Tornar-se “uma só carne” também é uma referência à união sexual (1Co 6:16), sem nenhuma conotação de procriação.

Richard Davidson chega mesmo a afirmar que “o propósito primário da sexualidade era o relacionamento pessoal, e que a procriação foi apresentada como uma bênção especial adicional. O significado do propósito unificador da sexualidade é destacado em Gênesis 2 pela completa ausência de qualquer referência à reprodução de filhos. Essa omissão não nega a importância da procriação (como se torna evidente nos capítulos posteriores da Escritura). Mas por meio do ponto final depois de “uma só carne” no verso 24, é dada à sexualidade significado e valor independentes. Ela não precisa ser justificada apenas como um meio para um fim superior, isto é, a procriação”.[2]

No propósito divino, a sexualidade no casamento une um homem e uma mulher, e lhes proporciona alegria, prazer e complementação física.

3. O incesto foi uma necessidade temporária posteriormente alterada

Seguir o padrão proposto em Gênesis tornaria o incesto normativo? Esse é outro equívoco. O incesto foi uma necessidade que durou poucas gerações, e não um modelo normativo (pois foi alterado e abolido). A narrativa registra, por exemplo, que “coabitou Caim com sua mulher [אִשָּׁה, ‘ishshah]; ela concebeu e deu à luz Enoque” (Gn 4:17). Não diz que ele coabitou com “sua parenta”, “sua irmã” ou outra expressão que caracterizasse incesto. O texto não enfatiza (ou até suprime) o parentesco; não coloca o holofote sobre o suposto incesto.

Além disso, o próprio Gênesis traz experiências normativas sobre isso (Ló e suas filhas [30-38], Rubem e Bila [35:22], por exemplo).[3] E há, ainda no Pentateuco, clara revelação da vontade de Deus a respeito do incesto (Lv 18:6-23; 20:11-21). Um cristão só ficará em dúvida a respeito do incesto se ignorar o que a Bíblia diz sobre o assunto.

No caso de Ló, o próprio fato de as filhas terem que embebedá-lo indica que elas tinham noção de que havia algo errado. O Novo Testamento registra que Ló era um “homem justo, que [em Sodoma] se afligia com o procedimento libertino dos que não tinham princípios morais” (2Pe 2:70). A expressão “[sem] princípios morais” vem de ἄθεσμος (athesmos), literalmente “sem lei” ou “sem princípios”. Deduz-se daí, por contraste, que Ló não era um “sem lei”, e por isso tinha a reputação de um homem “justo”. Se estivesse sóbrio, provavelmente não cometeria incesto com as filhas.

Por outro lado, onde estão no Pentateuco (ou em toda a Bíblia) as experiências normativas e as correções posteriores que favoreçam os relacionamentos homossexuais? Não existem. Assim, o incesto após as primeiras gerações já começava a ser visto negativamente mesmo antes da lei escrita,[4] e seguir o modelo de casamento do Gênesis não indica que o incesto possa ser praticado atualmente.

Conclusão

Para se defenderem modalidades sexuais diferentes da estabelecida por Deus em Gênesis (na criação do primeiro casal), seria necessário antes redefinir casamento como algo diferente da união entre um homem e uma mulher que torna lícita a relação sexual entre os dois. E tudo isso de maneira consistente com a totalidade das Escrituras.[5]

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University; Reação Adventista)

Referências:

1. A poligamia e o concubinato não foram estabelecidos por Deus, nunca fizeram parte de seus planos. Contudo, como em outros temas, em sua misericórdia, Deus os regulamentou temporariamente. Sobre isso, ver a tese de Du PREEZ, Ron. “Polygamy in the Bible With Implications for Seventh-day Adventist Missiology.” Tese (doutorado). Berrien Springs: Andrews University, 1993. p. 28-278. Disponível em: <http://digitalcommons.andrews.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1163&context=dmin&gt (acesso em 28/8/2016).
2. DAVIDSON, Richard. The Theology of Sexuality in the Beginning: Genesis 1-2. Andrews University Seminary Studies, v. 26, n.1, Berrien Springs, 1988, (p. 5-24). p. 22. Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/f813/2e85137fb1c8b6dc3dc5a0207deaa18e91cd.pdf&gt (acesso em 13/10/2016).
3. A Bíblia ensina por preceito e também por meio das narrativas, dos exemplos bons ou maus: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar” (Rm 15:4); “Essas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas como advertência para nós, sobre quem tem chegado o fim dos tempos” (1Co 10:11).
4. Antes da lei escrita, já havia a Palavra de Deus, mandamentos, preceitos, estatutos e leis divinas; cf. Gn 26:5; Êx 16:28.
5. Afinal, esse é o princípio hermenêutico de Jesus Cristo, revelado no caminho de Emaús, quando, “começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24:27), “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24:44). “O princípio tota Scriptura refere-se à interpretação de todos os conteúdos bíblicos e da lógica interna da condição hermenêutica biblicamente interpretada do método teológico (sola Scriptura)” (CANALE, Fernando. Creation, Evolution, and Theology: The Role of Method in Theological Accommodation. Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2005. p. 99). Junto com o princípio tota Scriptura está o princípio analogia Scripturae, aparentemente utilizado por Paulo, e pode ser encontrado, por exemplo, nas citações do AT encontradas em Romanos 3:10-18 e Hebreus 1:5-13; 2:6-8, 12, 13. Gerhard Hasel ensina esse princípio afirmando que o “procedimento envolve a coleção e o estudo de todas as partes da Bíblia de passagens que tratam do mesmo assunto”, de modo que uma possa ajudar a interpretar a outra (HASEL, Gerhard. Biblical Interpretation Today. Washington: Biblical Research Institute, 1985. p. 103).

Para um estudo abrangente sobe sexualidade numa perspectiva bíblico-adventista, leia Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (clique aqui).

A doutrina na Igreja Apostólica e na Igreja Adventista

Assim como a Igreja Apostólica, a Igreja Adventista do Sétimo Dia valoriza as doutrinas, e elas são o fundamento de sua fé e prática.

Atos 2:42-47 apresenta um quadro impressionante e vívido da igreja apostólica; um raio x da primeira igreja: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos.”

Uma leitura atenta revela pelo menos 14 aspectos distintivos ou marcas dessa comunidade. Chamo sua atenção para o primeiro desses aspectos: doutrina (verso 42). A palavra original é didache, e se refere ao ensino. Esse vocábulo aponta para o fervor e a dedicação dos primeiros convertidos ao cristianismo em relação à Palavra. Eles se voltavam para os apóstolos constantemente a fim de receberem instrução sobre o evangelho de Cristo, pois Jesus havia nomeado Seus seguidores imediatos para que fossem professores desses aprendizes (ver Mateus 28:20).

Por que era importante perseverar na doutrina? A igreja apostólica praticava uma evangelização poderosa e eficaz; como resultado, muitas pessoas se juntavam à nova comunidade e isso levava a mudanças práticas, pois, embora as pessoas se tornassem propriedade de Jesus, sabiam pouco a respeito Dele! Para isso, os apóstolos não cultivavam pensamentos teológicos e dogmáticos, mas relatavam “todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” (At 1:1); os discípulos narravam o que haviam vivenciado com Jesus e transmitiam o que aprenderam com Ele: ensinos, discursos, parábolas e milagres. E os ouvintes assimilavam tudo.

Assim como a Igreja Apostólica, a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) valoriza as doutrinas, e elas são o fundamento de sua fé e prática. A IASD formula suas doutrinas a partir de sólido estudo da Bíblia, e faz isso mediante longas pesquisas, trabalhando em comissões e contando com eruditos de todas as áreas da teologia. Por isso, precisamos prestar atenção quando uma pessoa se levanta em atitude crítica diante das doutrinas da IASD, que foram sistematizadas e aprovadas por diversas comissões. Não estou querendo dizer que, necessariamente, uma comissão esteja certa e, necessariamente, uma pessoa esteja equivocada. Mas estou sugerindo que é muito provável que uma comissão tenha mais acertos que uma única pessoa.

E por falar em comissões, o livro Nisto Cremos foi aprovado por uma comissão, assim como o Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. Por outro lado, o Biblical Research Institute Committee (Bricom) é uma comissão que analisa publicações oficiais do Instituto de Pesquisas Bíblicas ou da Igreja Adventista mundial, e é um órgão oficial da Associação Geral da IASD.

Tudo isso mostra que a IASD leva a sério as doutrinas, a exemplo da Igreja Apostólica. Afinal, as doutrinas são a base de uma vida correta e de ensinamentos corretos. E nunca é demais afirmar que a igreja cristã deve ser conhecida pela correção de sua prática e pela retidão de suas crenças.

(Adolfo Suarez é reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia)

O erro dos que querem dicotomizar obras e doutrinas

Se dependesse do desprezo que alguns jovens manifestam às doutrinas, não haveria mártires, nem movimento missionário, nem evangelização (seria descartada sempre como “colonialismo”?), nem reavivamentos, nem escolas bíblicas. Com esse tipo de pensamento, não haveria Atos, as viagens missionárias de Paulo, suas disputas nas sinagogas, em Atenas, e suas cartas cheias de apologia e ensino doutrinário às igrejas. As sete igrejas do Apocalipse, por exemplo, são avaliadas por suas obras, mas também pelos ensinos (que sustentam e que rejeitam). Jesus repreende Pérgamo por abrigar “os que sustentam a doutrina de Balaão” (que incluía idolatria e imoralidade sexual; Ap 2:14). Além disso, eles tinham os que “sustentam a doutrina dos nicolaítas” (Ap 2:15). Em Tiatira, havia a “doutrina” das “coisas profundas de Satanás” (Ap 2:24). Se a doutrina tem pouca importância e o que vale são as obras, qual o parâmetro para colocar à prova os “apóstolos mentirosos” em Éfeso? Qual seria o parâmetro para avaliar “a obra dos nicolaítas”? Se não existe ortodoxia doutrinária, qual seria o parâmetro para identificar uma “blasfêmia” em Esmirna? E como seria possível avaliar os ensinos da falsa profetiza Jezabel em Pérgamo (v. 20-22)? Se doutrina é algo desprezível diante das obras, de onde vem a ideia de que prostituição, adultério e idolatria são pecado?

Filadélfia é elogiada por “guardar a Minha palavra” (Ap 3:8) e “guardar a palavra da Minha perseverança” (Ap 3:10). Jesus Se apresenta como aquele que tem “a espada afiada de dois gumes” (Ap 2:12), uma referência à Palavra de Deus (Ef 6:17; Hb 4:12). Ele promete vir pelejar “com a espada da Minha boca” (Ap 2:16). Além disso, Jesus é “o que sonda mentes e corações” (Ap 2:23): ortodoxia, ortopatia e ortopraxia não existem de maneira isolada; são uma harmonia.

Finalmente, cada igreja é exortada a ouvir “o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22). O Espírito Santo guia a toda a verdade, e a Palavra de Deus é “a espada do Espírito” (Ef 6:17). O “vento” jamais sopra contra o texto sagrado! Os mártires só existiram porque acreditavam que havia doutrinas inegociáveis.

Frequentemente “tiro as sandálias” e leio os relatos dos clássicos protestantes: O Livro dos Martires (John Foxe), O Peregrino (John Bunyan), e outras histórias sobre homens e mulheres que preferiram morrer a que negar a fé. Desprezar o ensino bíblico hoje é zombar desses santos da história da igreja. É dizer para eles: “Vocês sofreram e morreram sem necessidade! Não há nenhuma verdade doutrinária pela qual valha a pena morrer!”

No Novo Testamento há muita correção de erros doutrinários. E a dureza do discurso e da postura de Paulo em Gálatas mostra que existe, sim, um ponto de corte (“Anátema!”). No Novo Testamento vemos respostas às alegações de estoicos, epicuristas e proto-gnósticos. Há verdades fundamentais, e a igreja primitiva “perseverava no ensino dos apóstolos” (At 2:42). Ou seja, havia uma unidade de crença básica na igreja primitiva, e sua base eram as Escrituras. Paulo, por exemplo, admite que estava transmitindo o que recebeu, e que o Evangelho era o que Jesus fez “segundo as Escrituras” (1Co 15:1-5).

O motivo para essa preocupação do Novo Testamento é que, fora do espaço seguro para diferenças de opinião, há ensinos e crenças que contradizem Jesus e negam a revelação divina. Jesus disse: “Se alguém se envergonhar de Mim e das Minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem Se envergonhará dele quando vier na glória de Seu Pai com os santos anjos” (Mc 8:38).

Não é hora de ter vergonha de Jesus e de Suas palavras.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)

A indecência da “teologia” queer

Apenas se a Bíblia perder força é que essas “teologias” emplacam.

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As ofensas a Deus e à Sua Palavra estão em uma escalada sem freio. Para ser mais exato, essas ofensas estão em queda sem fim rumo a um buraco cada vez mais fundo. Um exemplo disso é a chamada “teologia” queer, que se opõe propositalmente aos princípios bíblicos sobre a sexualidade humana.

A principal teórica latino-americana dessa linha “teológica” é a argentina Althaus-Reid, já falecida, mas que deixou muito defensores. Para se ter uma ideia da indecência dessa “teologia” segue um trecho de um dos seus livros:

“Teologia é basicamente uma arte incoerente. Se usássemos uma metáfora inspirada no Novo Testamento, diríamos que a teologia é a arte de se deitar na cama com Deus, embora evitando o sexo pleno. […] Se a primeira Eva tem uma inclinação fetichista por uma cobra, a segunda optou por sexo desprotegido com um Deus-nuvem” (ALTHAUS-REID, 2005).

Chamar isso de heresia é pouco. É um absurdo! Um completo desrespeito!

Uma das analistas e defensoras da “teologia” queer esclarece como essa linha encara a Bíblia: “A pergunta de Althaus-Reid não é ‘o que a Bíblia diz sobre a homossexualidade?’, mas sim ‘o que a minha vida diz sobre a Bíblia?'” (Ana Ester Pádua Freire. UFBA). Nesse mesmo artigo há um pedido para que se respeitem os “vários cristianismos”.

É nítida a necessidade de desconstruir a hermenêutica tradicional, que considera a Bíblia como autoridade, para que esse tipo de “teologia” possa ganhar espaço. Apenas se a Bíblia perder força é que essas “teologias” emplacam.

O que me deixa triste é ver que há “teólogos” e gente influente na internet que usam adaptações desses argumentos para tentar perverter a teologia bíblica. Me refiro ao pedido de “teólogos” e “influencers para que se respeitem os “vários cristianismos”.

Ressalto duas coisas sobre esse assunto:

1. A “teologia queer” não é cristianismo, assim como muitas outras “teologias” que têm aparecido por aí.
2. Precisamos reforçar nosso ensino (esse realmente cristão) sobre a autoridade da Bíblia. O que ela diz que é certo, é certo. O que ela diz que é errado, é errado.

Respeitem a Cristo! Respeitem à Bíblia! Respeitem os cristãos!

(Felippe Amorim; Instagram)

Esau McCaulley: é possível ser um teólogo conservador e falar de racismo

“Meu objetivo é, justamente, mostrar como as igrejas tradicionais já falavam sobre temas que hoje estão em voga.”

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Por mais interessante que seja, a “teologia negra da libertação” não é, nem de longe, a “teologia dos negros”, como costumam alardear alguns adeptos desse tipo de leitura da Bíblia. Nem lá nos EUA, muito menos aqui. E várias pesquisas já demonstram isso. Em poucas palavras: os cristãos negros tendem a ser mais teologicamente conservadores que a “teologia negra” (na verdade, pesquisas do Pew Forum mostram que eles tendem a ser mais teologicamente conservadores que brancos e latinos nos EUA). Esau McCaulley levanta esse ponto aqui: “Por alguma razão, a linha progressista das igrejas afroamericanas tem recebido mais publicidade e atenção. Eles são mais vistos. Mas eles não são a maioria dos cristãos negros nos Estados Unidos; a maioria acredita na teologia tradicional […] há uma longa tradição de cristãos negros falando sobre racismo, injustiça e ação social que segue outros preceitos comuns aos cristãos, acreditam nas Escrituras, etc. Meu objetivo é, justamente, mostrar como as igrejas tradicionais já falavam sobre temas que hoje estão em voga. O livro não é contra as igrejas progressistas, mas a ideia é dizer: é possível ser negro, ser teólogo, falar sobre injustiça racial e não ser progressista.”

(Isaac Malheiros, via Facebook)

Leia também: “Para combater o racismo, téologo americano Esau McCaulley prega esperança no lugar do niilismo”

A teologia negra de James Cone (conclusão)

A obra de James Cone contém muitas ideias úteis na luta contra o racismo, mas pode representar um afastamento do ensino bíblico em alguns pontos.

cone

Não podemos ser insensíveis às experiências e memórias dramáticas que moldaram a retórica e a teologia de Cone. O terror racial e o histórico de linchamentos e humilhações sofridos pelos negros nos Estados Unidos não podem ser deixados de fora de nossas abordagens teológicas à questão racial. Ainda existem teologias que servem à ideologia de supremacia branca, e estas devem ser continuamente denunciadas e combatidas, pois distorcem a Palavra de Deus em seus fundamentos.

Cone está totalmente correto ao afirmar que a “essência do evangelho em Cristo permanece ou recai na questão da humanidade negra e não existem formas de uma igreja ou instituição estar relacionada ao evangelho de Cristo e se apoiar ou tolerar qualquer forma de racismo”.[1]

A teologia negra, de maneira tocante, coloca um holofote sobre o vínculo histórico entre os negros e a fé em Jesus. Os negros escravizados e seus descendentes encontraram em Jesus “um amigo que conhece os problemas dos pequeninos e é a razão do ‘Aleluia’ deles”.[2] Como Cone aponta corretamente, a cruz está no centro da histórica espiritualidade cristã negra, pois também revela a solidariedade de Jesus com os negros em seu sofrimento.[3]

A teologia negra também contribui positivamente ao trazer para o ambiente eclesiástico a urgente discussão sobre o racismo.[4] Os recentes apelos por uma igreja que se levante mais abertamente contra o racismo são necessários, mas eles precisam ser feitos a partir de uma plataforma que não negue a autoridade das Escrituras. E é nesse ponto que, numa perspectiva adventista, a teologia negra apresenta características que merecem uma avaliação mais ponderada: a experiência negra não pode substituir a Bíblia como fundamento.

Dada a natureza deste artigo, certamente não é possível fazer aqui uma avaliação exaustiva de todo o corpus teológico de Cone (a escatologia, por exemplo, ficou de fora). Mas as citações utilizadas, que saltaram aos olhos em leituras prévias, parecem ser representativas da teologia negra. A obra de Cone contém muitas ideias úteis na luta contra o racismo, mas pode representar um afastamento do ensino bíblico em alguns pontos.

Para não cair no erro do anacronismo, a avaliação feita aqui procurou levar em conta o contexto histórico de cada declaração. Além disso, no prefácio da edição de 1997 de God of the Oppressed, Cone reafirmou o que havia escrito nos anos 1970: “Exceto pela incorporação de uma linguagem inclusiva, pouco mudou nesta edição [de 1997] de God of the Oppressed. Ainda representa minha perspectiva teológica básica.”[5]

Em poucas palavras, embora sua teologia tenha sido desenvolvida em fases, Cone não apresentou nenhuma drástica ruptura com suas visões teológicas iniciais. Ele apenas reafirmou e explicou melhor suas antigas convicções teológicas básicas numa retórica mais suave. Aparentemente, ele manteve o que escreveu em 1970, em A Black Theology of Liberation, até o fim da vida.

Além disso, suas posições mais preocupantes são explícitas. Um leitor não precisa conhecer toda a moldura teórica, histórica, e todos os detalhes conceituais da teologia de Cone para perceber que algumas ideias estão em oposição à Bíblia e ao espírito do evangelho. Em outras palavras, não é preciso um conhecimento profundo de história negra, Tillich, Barth ou Marx para perceber problemas nas ideias de Cone.

A cristologia da teologia negra é um ponto que também merece consideração. Como todas as teologias da libertação, a teologia negra coloca muita ênfase no aspecto humano de Jesus. Há uma identificação total e irrestrita entre Cristo e o ser humano. No entanto, o quadro cristológico completo encontrado na Bíblia traz um Cristo divino-humano, imanente e transcendente, que conhece a experiência humana, mas que é “o resplendor da Glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hb 1:3 NVI), “santo, inculpável, puro, separado dos pecadores, exaltado acima dos céus” (Hb 7:26 NVI).

A pergunta de Jesus a Seus discípulos “quem dizeis que eu sou?” (Mt 16:15) precisa ser respondida sem rodeios não apenas pela teologia negra, mas por todas as teologias identitárias da libertação (feminista, queer, mulherista, etc.). O enfraquecimento de doutrinas como a autoridade das Escrituras, o pecado humano e a natureza de Cristo não são problemas exclusivos da teologia negra.

Cone afirma que “nossas ideias intelectuais sobre Deus, Jesus e a Igreja foram derivadas de teólogos brancos europeus e seus livros”,[6] e por isso é preciso construir “um novo movimento teológico”[7] sobre outras bases. Como exemplos de teólogos brancos que supostamente teriam moldado nossas ideias, Cone cita Barth, Tillich e Bultmann. E isso levanta a pergunta: Em nome de quem Cone fala quando diz que nossas ideias vêm desses homens? É inegável a influência desses teólogos brancos, mas é igualmente inegável que grande parcela do protestantismo e do evangelicalismo têm verdadeira aversão à teologia deles, especialmente setores mais teologicamente conservadores.

Além disso: O valor e a verdade de um argumento teológico dependem da origem étnica de quem fala? A verdade continua sendo verdade mesmo quando proferida por judeus do século 1, ou africanos como Atanásio e Agostinho, ou um asiático do século 21. Nos primeiros séculos da era cristã, as verdades bíblicas já ecoavam na Etiópia enquanto a Europa ainda era quase completamente pagã. Por outro lado, o próprio Cone reconhece que parte de seu pensamento foi construído sobre Barth e Marx (brancos europeus). Assim, a justificativa que Cone dá à necessidade de um novo movimento teológico baseado em critérios étnicos e raciais não parece ser um forte argumento.

O que a teologia negra faz, propositalmente ou não, é chamar doutrinas bíblicas centrais de “teologia branca”, e então descartá-las. Ronilso Pacheco, por exemplo, denuncia a “identidade branca da igreja que herdamos, ou a branquitude da identidade da mesma”, o que ele chama de “imaginário branco de ser igreja”.[8] Para ele, o que chamam erroneamente de “teologia de verdade” seria apenas uma visão teológica particular de nomes como Abraham Kuyper, James Orr e Wihelm Dilthey.

No entanto, essa descrição de Pacheco é parcial, e omite duas coisas importantes: (1) existem crenças ortodoxas historicamente compartilhadas por toda a cristandade desde a época em que a igreja cristã era composta majoritariamente por judeus oprimidos num império romano; (2) a teologia negra não está apenas rejeitando o neocalvinismo, o fundamentalismo ou a teologia colonial europeia da “igreja branca”, está rejeitando as crenças bíblicas centrais e históricas do cristianismo.

Levanto aqui algumas questões que podem ser úteis à reflexão sobre a teologia negra. Ao lançar mão da metodologia histórico-crítica, de pressupostos da teologia liberal, das categorias do pensamento marxista e das reflexões de teólogos como Tillich, Niebuhr e Barth – por que a teologia negra estaria isenta do problema da “branquitude”? Ou a branquitude só afeta os defensores da ortodoxia doutrinária?

Por que a crítica da teologia negra brasileira às “hermenêuticas engessadas, históricas e hegemônicas” e a defesa da teologia decolonial como uma resposta ao pensamento “eurocêntrico-estadunidense” não são afetadas pelo fato de se apoiarem nas “reflexões postas por James Cone, Jacquelyn Grant, Cornell West [sic], Gayraud Wilmore”,[9] todos eles estadunidenses? Isto é, não há nenhum problema no fato de a teologia negra brasileira ser uma novidade importada (com algum atraso) dos Estados Unidos? Não há nenhum problema de colonização em mimetizar discursos estadunidenses, categorias de análises surgidas no contexto estadunidense, e até importar neologismos da língua inglesa e incorporá-los à versão brasileira da teologia negra?

A denúncia do racismo entre as igrejas evangélicas é extremamente necessária. E algumas iniciativas nesse sentido têm levado a sério as questões históricas, sociológicas e teológicas, amparadas em dados estatísticos.[10] No entanto, existem denúncias feitas sem fundamentação, reproduzindo apenas senso comum e generalizações, como a afirmação de que a “igreja brasileira tem em seu DNA uma forte aliança com as mentalidades escravocratas do Sul dos Estados Unidos”, e coopera “para a manutenção de pensamentos racistas”, cuja hermenêutica é “um olhar branco europeizado”.[11] Há verdades nessas denúncias, mas isso inclui, generalizadamente, os pentecostais brasileiros? Inclui, indiscriminadamente, as diversas denominações historicamente abolicionistas e do Norte (como a IASD)?

O que fazer com a crença teologicamente conservadora dos negros (que são maioria nas igrejas evangélicas brasileiras[12])? Estaria a teologia das igrejas evangélicas e pentecostais (a religião mais negra do Brasil[13]) incluída nessas críticas? A crença histórica dos negros nas doutrinas ortodoxas, incluindo a crença na Bíblia como inspirada e infalível Palavra de Deus e na doutrina da expiação pelo sangue de Jesus, faz parte das “hermenêuticas engessadas” e “olhar branco europeizado”?

Em outras palavras: O que a teologia negra pretende fazer com o fato de a maioria dos protestantes e evangélicos negros, estadunidenses ou brasileiros, acreditarem nas principais doutrinas ortodoxas? Aqui surge novamente a pergunta: Se a teologia negra não representa a crença dos cristãos negros, quem ela representa?

Portanto, sob o pretexto de rejeitar a “igreja branca”, a teologia negra rejeita a doutrina dos apóstolos e do próprio Jesus, e a crença histórica de milhares de negros. Ao rejeitar a doutrina bíblica da expiação, da substituição, e remover a cruz do centro, dizendo que Jesus morreu “(quase) voluntariamente”, a teologia negra não está combatendo o ensino de uma suposta igreja branca, mas um ensino bíblico. Quando James Cone remove a Bíblia da base da teologia cristã e assume que sua experiência pessoal e comunitária é a base, ele não está rejeitando um ensino da suposta igreja branca, mas um ensino do Novo Testamento.

Ao vincular a revelação, a verdade e o conhecimento de Deus exclusivamente à teologia e à experiência negra, Cone gera uma espécie de “gnosticismo étnico”.[14] Acreditar que algumas pessoas, por causa de sua etnicidade, são capazes ou não de entender alguma verdade sobre Deus não encontra nenhum respaldo na Bíblia.

Firmado na autoridade da experiência negra, Cone reinterpretou conceitos bíblicos como revelação, verdade, pecado e evangelho de formas consistentes com seu projeto de libertação negra. Mas a falha central de sua teologia negra é exatamente essa insistência axiomática de que a Bíblia deve ser lida através das lentes da experiência negra. Um cristão bíblico adventista, de qualquer etnia, acredita que o texto bíblico tem significado objetivo e que a verdade revelada pode ser aprendida fora da experiência negra, ou da experiência feminina, ou de qualquer outra experiência identitária.

Como apontou o teólogo negro Anthony Bradley: “O que é mais desconcertante sobre a reflexão de Cone é sua falta de confiança nas Escrituras […] para fornecer ferramentas suficientes para analisar a cultura”.[15] O vínculo entre a teologia negra de Cone e o marxismo é inegável, e sua sugestão de que o marxismo seria o melhor método para ler a realidade tem implicações hermenêuticas sérias. De fato, um estudante da Bíblia precisa estar ciente das forças ideológicas que moldam a nossa cultura, mas não precisa escolher uma delas e transformá-la em autoridade máxima, ou numa lente para ler até mesmo a Bíblia.

Na epistemologia da teologia negra, as verdades da Bíblia são acessíveis apenas a certos grupos étnicos, e a experiência desse grupo está acima do lema protestante Sola Scriptura. Assim, a Bíblia não pode ser a única regra de fé e prática, e deve ser submetida a outro padrão de julgamento. Cristãos bíblicos simpáticos à teologia negra não podem continuar sem avaliar se isso é aceitável.

Finalmente, o pragmatismo de Cone também compromete a fidelidade à sã doutrina. A partir da pergunta pragmática “para que serve essa teologia?”, a Bíblia pode ser arrastada a qualquer tribunal hermenêutico, e julgada pela experiência, interesses e necessidades específicos de qualquer grupo. A superênfase na imanência, na transformação histórica, no aqui e agora, em vez de “uma nova vida no céu” [16] também pode fazer o peregrino cristão se preocupar demais com a estrada e esquecer o horizonte, o destino final.[17]

Embora a teologia negra ainda seja um movimento periférico no protestantismo e evangelicalismo brasileiro, é possível ouvir os ecos da teologia de Cone em publicações e discussões nas redes socias, especialmente entre jovens. Por isso, é interessante que os cristãos se familiarizem com sua obra, e avaliem as suas suposições, sua retórica, seus fundamentos e as consequências de aceitar suas sugestões teológicas.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)

Leia também as partes 1, 2, 3 e 4 (aqui).


[1] CONE, 2020b, p. 68.

[2] CONE, 2011, p. 21.

[3] CONE, 2011, p. 21.

[4] Para uma abordagem cristã à questão racial, que inclui reflexões sobre arrependimento, racismo sistêmico, reparação histórica e fim do pensamento etnocêntrico, ver PIPER, John. O racismo, a cruz e o cristão: a nova linhagem em Cristo. São Paulo: Vida Nova, 2012.

[5] CONE, 1997, p. xi.

[6] CONE, 1977, p. 148.

[7] CONE, 1977, p. 149.

[8] PACHECO, Ronilso. A igreja branca tem que acabar. Folha de São Paulo. 09 jan. 2020. Disponível em: https://bit.ly/341tmVV. Acesso em 26 set. 2020.

[9] PACHECO, Ronilso. A Teologia Negra no Brasil é decolonial e marginal. CrossCurrents, v. 67, n. 1, (p. 233-242) 2017. p. 234.

[10] Como, por exemplo, OLIVEIRA, 2015 e PIPER, 2012.

[11] GUIMARÃES, André. Jesus: exemplo de resistência e esperança para promoção de direitos e vida do povo negro. PACHECO, Ronilso; MOURA, João Luiz (orgs.). Jesus e os direitos humanos: porque o reino de Deus é justiça, paz e alegria. Rio de Janeiro: Vlado, 2018. (p. 59-72) p. 66-67.

[12] ROMANO, Giovanna. Datafolha: Mulheres e negros compõem maioria de evangélicos e católicos. Veja. 13 jan. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3czy00X. Acesso em 26 set. 2020.

[13] OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil: por que os negros fazem opção pelo pentecostalismo? Viçosa: Ultimato, 2015.

[14] Ouvi essa expressão em uma palestra do dr. Voddie Baucham a respeito do racismo, disponível em: https://youtu.be/Ip3nV6S_fYU. Acesso em 25 set 2020.

[15] BRADLEY, Anthony B. Liberating Black Theology: The Bible and the Black Experience in America. Wheaton: Crossway, 2010. p. 119.

[16] CONE, 1990, p. 127.

[17] Essa ideia do peregrino que se apaixona pela estrada e se esquece do horizonte eu ouvi do teólogo Igor Miguel. Infelizmente não pude encontrar uma fonte para referenciar.

A teologia negra de James Cone (parte 4)

A ideologia política e a teologia negra

marxismo

A teologia negra de Cone é uma teologia política: “Não pode haver uma teologia cristã que não seja social e política.”[1] A luta política “contra a pobreza e a injustiça não só é coerente com o evangelho, mas é o próprio evangelho de Jesus Cristo”.[2] Cone apresenta o movimento Black Power como uma revelação divina: “A política do Black Power era o evangelho de Jesus para a América do século 20.”[3] Cone alertou para a necessidade de desenvolver uma teologia negra capaz de “justificar nossa definição de Black Power como uma expressão do evangelho cristão”.[4] Para ele, o conceito de verdade só pode ser conhecido no contexto da luta política: “Não há verdade sobre Yahweh a menos que seja a verdade da liberdade conforme esse evento é revelado na luta do povo oprimido por justiça neste mundo.”[5]

Ou seja, o conhecimento de Deus só pode existir na luta política: “Não há conhecimento de Yahweh exceto por meio da atividade política de Deus em nome dos fracos e desamparados da terra.”[6] A revelação divina é um evento político: “A revelação é um acontecimento negro, quer dizer, aquilo que o povo negro está fazendo por sua libertação.”[7] Para Cone, a teologia deve falar sobre a libertação política, pois isso é o evangelho: “A essência do evangelho éa libertação dos oprimidos da humilhação sociopolítica para uma nova liberdade em Cristo Jesus (e não vejo como alguém pode ler as Escrituras e concluir o contrário).”[8]

Esses elementos definitivamente mostram que a teologia negra é uma teologia política, e que “a teologia é uma linguagem política”.[9] Além de dizer que a essência do evangelho é a libertação política, Cone recorre extensa e explicitamente aos escritos de Karl Marx para embasar seus conceitos.[10] Ele defende a necessidade de incluir a “análise social marxista” na compreensão cristã da injustiça e até nas doutrinas:

O marxismo como método de análise social pode servir como instrumento para descobrir o que os governantes tentam esconder. [...] Os cristãos precisam aplicar o método de análise de Marx não apenas às doutrinas e práticas de suas igrejas, mas também e especialmente aos pronunciamentos e práticas públicas de seu governo.[11]

Cone acrescenta: “A importância de Marx para nossos propósitos é sua insistência em que o pensamento não tem independência da existência social”.[12] O que Cone (através de Marx) está afirmando é que a teologia é condicionada pela sua localização social; e não é possível uma teologia objetiva. Em vez disso, “[nossas] ideias sobre Deus são reflexos do condicionamento social”.[13]

Como Cone vê a teologia como um produto social, um “discurso subjetivo sobre Deus”,[14] ele fica à vontade para propor – antes do labor teológico – uma leitura marxista da realidade, com todas as suas categorias de análise, incluindo a “prática revolucionária da classe proletária, derrubando as condições sociais injustas”.[15]

Cecil Cone, irmão de James Cone, tentou reverter essa visão e apresentar a teologia negra como teologia religiosa,em vez de uma teologia política, afirmando que “o ponto de partida da religião negra não é, pois, a política, e sim Deus”.[16] No entanto, a declaração sobre a teologia feita pela Commission of the National Conference of Black Churchmen em 1976 apresenta a teologia negra não apenas como uma teologia política, mas como teologia política socialista:

Como algumas formas de socialismo, em termos de humanismo e de cooperação, são mais cristãs e promovem mais a justiça e a moralidade que o capitalismo americano, a teologia negra não abre mão da exploração de alternativas socialistas para a idolatria do dólar, para o individualismo caótico e para o materialismo corrosivo da economia e do sistema político americano” (Statement by the Theological Commission of the National Conference of Black Churchmen,1976).[17]

Pessoalmente, Cone defendeu uma aproximação entre as igrejas negras e o marxismo em 1980,[18] e o movimento Black Power e o partido dos Panteras Negras também assumiram o marxismo como ideologia-base para sua atuação.[19] Cone chega a fazer um apelo: “Um encontro sério com Marx fará os teólogos confessarem suas limitações, sua incapacidade de dizer algo sobre Deus que não seja ao mesmo tempo uma declaração sobre o contexto social de sua própria existência.”[20]

Cone diz que o guerrilheiro e ex-sacerdote colombiano Camilo Torres “estava certo quando descreveu a ação revolucionária como ‘uma luta cristã, sacerdotal’”.[21] Camilo Torres, que morreu empunhando uma arma, embora não fosse exatamente um marxista, também via no marxismo “uma ferramenta útil para as suas ideias”.[22]

A visão pragmática foi essencial para o surgimento da teologia negra como uma teologia política. “A questão central que deu origem à teologia negra foi: ‘O que o evangelho de Jesus tem a ver com a luta dos negros oprimidos por justiça na sociedade americana?’”[23] Cone faz uma pergunta: “De que adianta um ponto teológico se não for útil na luta dos negros pela liberdade?”[24] Assim, para a Cone, a teologia branca não passa de “um exercício burguês de masturbação intelectual”.[25]

Aqui surge um problema, pois a pergunta pragmática “para que serve essa teologia?” talvez seja útil em algumas reflexões missiológicas, mas ela não pode ser o guia seguro da teologia. A pergunta da teologia não é “para que serve isso?”, mas “isso é verdade?”. Nas palavras do diabo de C. S. Lewis:

Ele [o homem que o diabo aprendiz deveria tentar] não classifica as doutrinas essencialmente em “verdadeiras” ou “falsas”, mas como “acadêmicas” ou “práticas”; “ultrapassadas” ou “contemporâneas”; “convencionais” ou “opressoras”. É o jargão, e não o argumento, o seu maior aliado para mantê-lo longe da Igreja.[26]
“Acredite nisso não porque seja verdade, mas por alguma outra razão.” Esse é o jogo.[27]

O pragmatismo (“para que serve essa teologia?”) acima da fidelidade às Escrituras leva à inversão na escala da autoridade; a Bíblia se torna mero instrumento – e a instrumentalização das Escrituras para fins políticos era exatamente o que a teologia negra pretendia denunciar na teologia branca.

O pragmatismo afeta o conceito que Cone tem da verdade. Citando Marx, Cone afirma que a verdade “não é uma questão de teoria, mas uma questão prática”.[28] Em vez de um conceito ou uma ideia, a verdade “é um acontecimento libertador”.[29] Por isso, ele elogia Marx por destacar “o papel da economia e da política na definição da verdade”.[30]

Em poucas palavras, para Cone, não basta a teologia ser política: ela precisa ser de esquerda, com viés marxista.[31] Isso fica muito nítido em seus livros, e também em detalhes como o fato de Paulo Freire[32] ter escrito o prefácio de Teologia Negra, e Henrique Vieira, pastor batista e militante do PSOL, ter feito a apresentação da versão em português de Deus dos Oprimidos.

Uma questão incontornável surge então: se a teologia negra é definida como a “teologia feita pelo povo negro para o povo negro”,[33] como define Ronilso Pacheco, então o povo negro deve ser marxista em sua análise? O que cristãos negros não marxistas deveriam pensar e fazer a respeito disso?

Outra questão pertinente é: Se não existe verdade objetiva (Cone chama isso de “suposição ingênua” e “ridícula”[34]), e a suposta verdade teológica é sempre subjetiva e determinada pelo contexto social, como é possível explicar a histórica existência de comunhão entre cristãos pobres e ricos, negros e brancos em torno de crenças comuns? Ou essa comunhão é falsa? Como explicar a semelhança doutrinária entre denominações e grupos cristãos surgidos de realidades socialmente tão distintas?

Como a leitura marxista proposta por Cone poderia explicar o fato de que, em muitos momentos da história, a defesa cristã da ortodoxia teológica (supostamente o discurso de uma classe dominante) representou perda de prestígio social, marginalização e até risco de morrer? Se nossas “ideias sobre Deus são o reflexo do condicionamento social”,[35] essas ideias deveriam se organizar socialmente: cristãos ricos e cristãos pobres jamais poderiam compartilhar as mesmas crenças.[36] Como explicar que um quaker rico do século 19 compartilhava as mesmas ideias sobre Deus com uma ex-escrava como Sojourner Truth? Como pessoas influentes e cheias de prestígio social como os membros da Seita de Clapham poderiam ter basicamente as mesmas ideias sobre Deus que Olaudah Equiano? A realidade da história do cristianismo simplesmente ignora essa distinção teórica marxista.

E como explicar o fato de que pessoas de uma mesma condição social mantenham ideias distintas sobre Deus? É muito óbvio que pobres mantêm crenças teológicas distintas entre si (e ricos também), e atribuir isso a algum tipo de condicionamento ou doutrinação burguesa é subestimar demais a capacidade cognitiva de seres humanos. Me parece que a leitura marxista sobre a “força intelectual dominante” não dá conta de explicar a complexidade do fenômeno.

Ao se lembrar de alguns teólogos brancos abolicionistas, Cone percebe essa dificuldade, e admite timidamente que “a existência social não é algo necessariamente mecânico e determinista”, pois “o evangelho concede às pessoas a liberdade de transcender sua história cultural e afirmar uma dimensão de universalidade comum a todos os povos”.[37] Afinal, a verdade é subjetiva e socialmente condicionada? Ou ela é objetiva e universal?

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)

Leia também a parte 3 deste artigo (aqui).


[1] CONE, 2020a, p. 137.

[2] CONE, 2020a, p. 136 (ênfase no original.

[3] CONE, 1984, p. 32.

[4] CONE, James H. Black Theology and the Black Church: Where Do We Go From Here? CrossCurrents, v. 27, n. 2, (p. 147-156), 1977. p. 148.

[5] CONE, 1997, p. 57.

[6] CONE, 1997, p. 59.

[7] CONE, 1990, p. 40-54.

[8] CONE, 2020a, p.102-103 (ênfase no original).

[9] CONE, 2020a, p. 95.

[10] CONE, 1997, p. 38; CONE, 2020a, p. 89-95.

[11] CONE, 1997, p. 186-187.

[12] CONE, 1997, p. 39.

[13] CONE, 1997, p. 41.

[14] CONE, 2020a, p. 89.

[15] CONE, 2020a, p. 90.

[16] CONE, Cecil. The Identity Crisis in Back Theology. Nashville: AMEC Publishing, 1975. p. 141.

[17] CONE, James; WILMORE, G. Black Theology: a Documentary History, 1966-1979. Maryknoll: Orbis Books, 1979. p. 340-344.

[18] CONE, James H. The Black Church and Marxism: What Do They Have to Say to Each Other? New York: Institute for Democratic Socialism, 1980.

[19] GIBELLINI, 2012, p. 412-413.

[20] CONE, 2020a, p. 91.

[21] CONE, 2020b, p. 56.

[22] ZILCH, Evlyn Louise (trad.). Camilo Torres, “uma figura incômoda para a direita e a esquerda”. IHU Unisinos, 21 jan. 2016. Disponível em: <https://bit.ly/3nss8w9&gt;. Acesso em: 14 fev. 2021.

[23] CONE, 1984, p. 80.

[24] CONE, 1984, p. 34.

[25] CONE, 2020a, p. 97.

[26] LEWIS, C. S. Cartas de um diabo a seu aprendiz. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. p. 18.

[27] LEWIS, 2017, p. 128.

[28] CONE, 2020a, p. 90.

[29] CONE, 2020a, p. 320.

[30] CONE, 2020a, p. 90.

[31] É curioso observar como muitos proponentes de uma teologia política como a teologia negra pretendem denunciar o envolvimento de pastores e igrejas com a política conservadora e economicamente liberal. Me parece que o problema não é a atuação política de líderes religiosos, mas o envolvimento com o “outro lado” do espectro ideológico. Em poucas palavras: o problema desses líderes religiosos criticados é estar do lado errado.

[32] Apesar de não ser exatamente um marxista, é inegável a forte presença de elementos marxistas no pensamento de Paulo Freire. Como ele mesmo disse em entrevista: “Eu fiquei com Marx na mundanidade, mas a procura de Cristo na transcendentalidade” (Disponível em: <https://bit.ly/3teweZP>. Acesso em 28 abr. 2021).

[33] VIEIRA, João. Teologia negra resgata conceito de igreja, fé e família entre evangélicos. 21 set. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3mUWoil.Acesso em 27 set. 2020.

[34] CONE, 2020a, p. 94.

[35] CONE, 2020a, p. 94.

[36] CONE, 2020a, p. 94.

[37] CONE, 2020a, p. 100.

A teologia negra de James Cone (parte 3)

O pecado e a teologia negra

Jesus

Para James Cone, pecado é um conceito que só faz sentido dentro da comunidade que o define: “O que o pecado significa para os negros? Novamente, devemos ser lembrados de que pecado é um conceito comunitário, e isso significa que apenas os negros podem falar sobre seus pecados.”[1] Por isso, a definição de pecado de Cone, em vez de bíblica, é estritamente relacionada ao ativismo negro: “[…] não pode haver conhecimento da condição pecaminosa, exceto no movimento de uma comunidade oprimida reivindicando sua liberdade. Isso significa que os brancos, apesar de sua religiosidade autoproclamada, são incapazes de fazer julgamentos válidos sobre o caráter do pecado.”[2]

Por causa da diferença entre negros e brancos, o conceito de pecado é diferente para cada comunidade:

Visto que brancos e negros não compartilham uma identidade comum, os brancos não podem saber o que é pecado de uma perspectiva negra. A teologia negra não nega que todas as pessoas são pecadoras. O que nega são as observações dos brancos sobre o pecado dos negros. Apenas os negros podem falar sobre o pecado em uma perspectiva negra e aplicá-lo a pessoas negras e brancas. A visão branca da realidade é muito distorcida e torna os brancos incapazes de falar com os oprimidos sobre suas deficiências.[3]

Essa é uma questão patentemente problemática, pois diferentes grupos identitários poderiam definir pecado de maneiras contraditórias (a Ku Klux Klan e o Cristianismo Positivo nazista estariam plenamente justificados em definir pecado de acordo com sua experiência comunitária). Ao contrário disso, na visão adventista, em vez de ser um conceito comunitário, o pecado é biblicamente definido.[4] A universalidade do pecado, atingindo igualmente todas as etnias, é claramente exposta nas Escrituras:

“À tua vista não há justo nenhum vivente” (Sl 143:2; cf. 14:3). “Pois não há homem que não peque” (1Rs 8:46). “Salomão acrescentou: ‘Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?’” (Pv 20:9). “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque” (Ec 7:20). O Novo Testamento é igualmente claro ao declarar que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23), e que “se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1:8).[5]

Como afirma a crença fundamental da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre a natureza da humanidade, “[s]eus descendentes [negros e brancos] partilham dessa natureza caída e de suas consequências. Nascem com fraquezas e tendências para o mal”.[6] Todos são igualmente “por natureza, filhos da ira” (Ef 2:3; cf. 5:6), e negros e brancos estão igualmente sujeitos à morte, pois “o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).

Igualar negros e brancos na criação e separá-los na queda não faz justiça ao conteúdo bíblico (Gn 1:26-28; 2:7, 15; 3). Negros e brancos, homens e mulheres são igualmente pecadores e em condição de decadência moral. Uma das consequências do pecado é que ele “envenenou a relação entre os membros da comunidade humana”.[7]

O preconceito racial, o ódio e a discriminação com base em nacionalidade e etnia são “resultado do pecado (Dt 15:7, 8; 25:13-15; Is 32:6 e 7; Mq 2:1 e 2; Tg 5:1-6)”.[8] A escravidão dos negros é um “amaldiçoado pecado” e “pecado da mais tétrica espécie”.[9] Assim como a escravidão, o racismo é uma manifestação pecaminosa de “preconceitos” e “atributos satânicos”.[10]

A doutrina bíblica da queda enfatiza o orgulho, e a desobediência, que colocam o eu em primeiro lugar. Por outro lado, a doutrina da salvação – a reversão da queda – leva o ser humano a considerar a obediência a Deus e o serviço abnegado pelo próximo objetivo principal de sua ação (Jo 14:15; 1Co 13). Pecado “é a transgressão da Lei” (1Jo 3:4 NVI), e a nova vida cristã se caracteriza pela obediência a Deus: “Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos” (Jo 14:15), porque o amor tem prazer em obedecer (Dt 6:4-6; 30:16; Sl 40:8; G1 5:14; 1Jo 5:3). Essas definições bíblicas valem para todos, e não são restritas ou alteradas pela etnia.

Questões éticas e morais e a teologia negra

Por causa da visão de pecado de Cone como um conceito comunitário, a moralidade das ações não é avaliada por padrões morais objetivos externos, mas, de maneira pragmática, pelo compromisso com a comunidade negra:

O contexto revolucionário força a teologia negra a evitar todos os princípios abstratos que lidam com o que é o curso de ação “certo” e “errado”. Há apenas um princípio que orienta o pensamento e a ação da teologia negra: um compromisso irrestrito com a comunidade negra.[11]

Esse compromisso com a comunidade negra é inegociável e incondicional; nem mesmo Deus escapa dele: “Se Deus não é por nós, se Deus não é contra os racistas brancos, então Deus é um assassino, e é melhor matarmos Deus. A tarefa da teologia negra é matar deuses que não pertencem à comunidade negra.”[12]

Até mesmo o amor aos inimigos, tema central na mensagem de Jesus (Mt 5:39-42; Lc 6:27-49), é relativizado e rejeitado. De acordo com a teologia negra, o pecado dos oprimidos “é tentar ‘entender’ os escravizadores, ‘amá-los’ em seus próprios termos. Como os oprimidos agora reconhecem sua situação à luz da revelação de Deus, eles sabem que deveriam ter matado seus opressores em vez de tentar ‘amá-los’”.[13]

Princípios como “dar a outra face” e “andar a segunda milha”, ensinados por Jesus (Mt 5:38-42), são descritos como “amor branco”, e a condicionalidade do amor na concepção de Cone é imposta a Deus, de maneira que, se Deus não estiver ajustado à definição de amor de Cone, Ele precisa ser rejeitado:

Tivemos muito do amor branco, o amor que diz aos negros para darem a outra face e andarem a segunda milha. O que precisamos é do amor divino expresso no black power, que é o poder dos negros para destruir seus opressores, aqui e agora, por qualquer meio à sua disposição. A menos que Deus esteja participando dessa atividade santa [holy activity], devemos rejeitar o amor de Deus.[14]

A comunidade negra deve definir sua própria maneira de se comportar no mundo, sem se importar com as consequências para a sociedade branca. Isso inclui o uso da violência: “Atingimos nosso limite de tolerância, e se isso significar morte com dignidade ou vida com humilhação, escolheremos a primeira. E se essa for a escolha, vamos levar alguns honkies [honky é um insulto étnico dirigido aos brancos] conosco.[15] Diante dos pedidos de cautela feitos pelos brancos, Cone afirma que “procuraremos intensificar nossa hostilidade manifestando-a plenamente”.[16]

Quando Cone defende o uso de qualquer meio à disposição, ele não está usando uma metáfora, mas está sendo bem explícito: “A experiência negra é a sensação que se tem ao atacar o inimigo da humanidade negra jogando um coquetel molotov em um prédio de propriedade de brancos e vê-lo pegar fogo. Sabemos, é claro, que se livrar do mal exige algo mais do que incendiar prédios, mas é preciso começar de algum lugar.”[17]

Em suas propostas de ação, a teologia negra de James Cone está mais próxima do espírito de Nat Turner[18] do que de Martin Luther King Jr. O movimento Black Power defendia a emancipação do povo negro por qualquer meio necessário, e isso incluía a violência revolucionária. Segundo Cone, o Black Power inaugurou uma era de “rebelião e revolução”.[19] Cone reconhece a diferença entre a estratégia do Black Power e a estratégia não violenta de Martin Luther King: “King talvez não aprovasse o conceito de Black Power.[20]

Cone diz que interpretar o “amor cristão como sendo não violento” é coisa da teologia branca, e que isso seria “uma influência corruptora do pensamento dos brancos”.[21] Aparentemente, Cone crê que o amor é condicional, e não está totalmente alinhado com o texto bíblico:

“Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; Eu retribuirei’, diz o Senhor. Pelo contrário: ‘Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele.’ Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Rm 12:17-21).

Em nome da honestidade, é preciso admitir que o contexto histórico de segregação e linchamentos pode explicar algumas declarações ácidas de Cone no livro A Black Theology of Liberation (publicado pela primeira vez em 1970). Ele usa a retórica característica do movimento Black Power. É uma “teologia da sobrevivência” que usa uma “linguagem passional”.[22] Posteriormente, Cone parece ter suavizado sua retórica explosiva.[23] Ele escreveu, em 1984, que “amar o nosso povo não significa odiar os brancos”,[24] e que “a liberdade só virá através da construção de uma sociedade que respeite a humanidade de todos, incluindo os brancos. A fé cristã o exige e a decência humana o exige”.[25]

No entanto, em 1984 ainda há resquícios da antiga retórica inflamada de 1970:

As igrejas negras deixam a maior parte do treinamento de seus ministros para seminários brancos. [...] que triste, porque [isso] é uma indicação de apostasia. As igrejas negras assumiram a responsabilidade que Deus deu a elas e a entregaram aos inimigos do evangelho.[26]
Podemos identificar facilmente muitas das forças externas que nos oprimem – racismo, capitalismo corporativo, brutalidade policial, leis injustas, prisões, drogas e assim por diante. A lista poderia continuar indefinidamente, e é por isso que é conveniente resumi-los todos em uma palavra: brancos![27]

Cone chama de “cristianismo branco” a religião dos racistas segregacionistas e donos de escravos, e o “cristianismo negro” seria a religião dos negros e dos que lutam pela liberdade dos negros. Baseado nessa generalização, ele faz uma séria acusação aos cristãos brancos:

O endosso flagrante do cristianismo conservador branco ao linchamento como parte de sua religião e o silêncio dos cristãos liberais brancos sobre o linchamento os colocaram fora da identidade cristã. Não consegui encontrar um sermão ou ensaio teológico, para não mencionar um livro, opondo-se ao linchamento por um proeminente pregador branco liberal.[28]

Cone chama a atenção para o fato inegável de que houve apoio de setores cristãos à escravidão e aos linchamentos, uma página vergonhosa na história do cristianismo. Entretanto, a acusação de Cone parece ser uma generalização historicamente injusta, porque mesmo a Southern Baptist Convention, convenção batista do sul dos Estados Unidos, que defendia o direito de possuir escravos,[29] várias vezes condenou oficialmente o linchamento entre 1906 e 1941.[30] Ou seja, até mesmo setores do “cristianismo branco” condenaram os linchamentos, para não mencionar aqui os cristãos brancos que lutaram abertamente contra a segregação racial, e as diversas denominações protestantes e evangélicas abolicionistas e ativamente envolvidas na reconstrução pós-abolição e no Movimento pelos Direitos Civis.

É uma questionável generalização a afirmação de Cone de que “não existe qualquer indício anterior ou posterior à Guerra Civil de que essa sociedade [uma referência aos brancos dos EUA] tenha reconhecido a humanidade das pessoas negras”.[31] Bastaria citar aqui, como exemplo, a postura dos quakers, pioneiros na denúncia da escravidão como pecado, reafirmando a igualdade essencial dos seres humanos, e reiterando que os negros são imagem e semelhança de Deus. O quakerismo é considerado “a principal fonte do abolicionismo na Inglaterra e nos Estados Unidos”.[32] Após afirmar de maneira genérica que a teologia norte-americana permaneceu em silêncio e ignorou a condição das vítimas da sociedade racista, Cone conclui: “A teologia estadunidense é racista.”[33] Essa afirmação não reflete a realidade histórica, pois houve embates teológicos e denominações inteiras se dividiram exatamente por causa desse tema. De quem especificamente Cone está falando? O livro não diz.

É preciso refletir, mesmo correndo o risco da descontextualização e má compreensão, se as declarações de Cone a respeito dos brancos estão alinhadas ao evangelho, e quais dessas afirmativas poderiam ser consideradas biblicamente corretas. E por que as declarações de Cone, que recebem crescente atenção hoje, não poderiam levar a uma forma de etnocentrismo?

Numa perspectiva adventista, as declarações de Cone podem ter efeitos indesejados. Em recente declaração oficial,[34] a IASD declara manter a “fidelidade aos princípios bíblicos de igualdade e dignidade de todos os seres humanos diante das tentativas históricas e contínuas de usar cor da pele, lugar de origem, casta ou linhagem percebida como pretexto para um comportamento opressivo e dominador”, e deplora “toda agressão e preconceito como uma ofensa a Deus”. A teologia negra de Cone, pelo menos retoricamente, falha em defender a verdade bíblica sobre a igualdade de todas as pessoas.

A declaração da IASD lamenta que “alguns crentes absorveram ideias pecaminosas e desumanizantes sobre a valorização racial, tribal, de casta e étnica que levaram a práticas que prejudicam e ferem a família humana”.[35] Certamente, essa declaração é aplicável tanto a supremacistas brancos quanto às retóricas explosivas como a de Cone.

A doutrina da salvação e a teologia negra

Comprometido com a definição comunitária de pecado, Cone critica a noção de que a salvação é “um ato objetivo de Cristo no qual Deus ‘lava’ nossos pecados a fim de nos preparar para uma nova vida no Céu”.[36] Para ele, a salvação “tem a ver principalmente com a realidade terrena e a injustiça infligida aos desamparados e pobres”.[37] Essa ênfase na imanência, na vida terrena e nas transformações históricas são características das teologias da libertação.

Cone rejeita as principais teorias cristãs da expiação, inclusive a substituição penal: “Concordo com feministas e mulheristas [womanist] que rejeitam as teorias da expiação – resgate, satisfação, influência moral, substituição penal, etc. – como refletindo o Deus do patriarcado, os valores do grupo dominante.”[38]

Concordando com a crítica da womanist theology (teologia mulherista) à doutrina da expiação e à cruz como instrumento de salvação, Cone escreveu:

Rejeitando o ensino das igrejas negras e brancas de que a morte de Jesus na cruz nos salvou do pecado e que nós também somos chamados a sofrer como ele sofreu, alguns estudiosos negros, especialmente mulheres, rejeitam qualquer celebração da cruz de Jesus como um meio de salvação. A crítica delas é uma crítica justa e poderosa da má religião e teologia, que deve ser considerada para não fazer do sofrimento um bem em si.[39]

Que ele concorda com a rejeição da compreensão clássica da doutrina da expiação pela cruz fica claro na seguinte declaração:

Aceito a rejeição de Delores Williams das teorias de expiação encontradas na tradição teológica ocidental e na proclamação acrítica da cruz em muitas igrejas negras. Não encontro nada redentor no sofrimento em si. O evangelho de Jesus não é um conceito racional a ser explicado em uma teoria da salvação, mas uma história sobre a presença de Deus na solidariedade de Jesus com os oprimidos, o que o levou à morte na cruz.[40]

É preciso deixar esse ponto bem estabelecido aqui: Cone concorda com teólogas feministas e mulheristas que “rejeitam a ideia bíblica de que Jesus deu a vida como resgate por muitos (Mc 10:45) ou que a salvação de Deus foi realizada em e através da morte do Filho”.[41] Ele classifica como “crítica poderosa e persuasiva”[42] a posição teológica feminista de ver a redenção como “abuso infantil divino – o Pai desejando a morte do Filho”,[43] e a afirmação de que não há “nada salvífico na morte de Jesus e […] a cruz deve ser totalmente rejeitada como um símbolo de salvação”.[44] Cone cita essa crítica e assina embaixo, dizendo que “há muita verdade nela”.[45]

De acordo com a teologia negra, a cruz foi apenas uma consequência da solidariedade de Jesus com os oprimidos. Por isso, Ronilso Pacheco, teólogo brasileiro, escreve que Jesus foi quase voluntariamente à cruz, e que ver o sacrifício de Jesus como algo necessário é fruto de má compreensão:

Uma contribuição importante da chamada Teologia Negra nos Estados Unidos foi denunciar o lugar central que a crucificação de Jesus tinha para o cristianismo. Nesse lugar central, a cruz sempre teve um papel de relevância como um símbolo de sacrifício máximo, ao qual Jesus se submete (quase) voluntariamente. A compreensão equivocada da narrativa do “esvaziamento” de Jesus contida em Filipenses 2 transformou a crucificação em um auge do ministério de Jesus. O sacrifício foi necessário, e, como tal, perde a força de sentido como um instrumento de tortura e morte usado pelo poder, pelo Império, pelo Estado, pelas autoridades, políticas, militares e religiosas para punir, constranger, eliminar, intimidar, executar e (consequentemente) fazer sangrar sujeitos considerados “ameaças”, corpos e presenças que eram um risco para a “ordem social”.[46]

Ao alterar – ou rejeitar – o significado soteriológico da obra salvadora voluntária de Jesus na cruz, Cone rejeita a doutrina que os próprios cristãos negros historicamente defenderam, como fica evidente nas letras dos hinos e negro spirituals mais famosos.[47] A igreja negra abraçou a doutrina da substituição, e isso os ajudou a suportar e superar o sofrimento. O próprio Cone admite isso, ao afirmar que às vezes a mensagem da cruz pode, sim, ter um efeito positivo, e que as “evidências são ambíguas e complicadas”.[48]

O medo da teologia mulherista, e também de Cone, é que a doutrina da expiação substitutiva faça as pessoas verem algum valor salvífico no sofrimento, e assim elas vejam valor salvífico no próprio sofrimento causado pela injustiça racial. Ou seja, a cruz seria um indesejado símbolo que perpetua o ciclo da violência, dando ao sofrimento um valor redentor. Esse temor é justificado, mas leva a teologia mulherista e Cone a rejeitarem uma doutrina bíblica essencial.

À luz da Bíblia, o sofrimento e a morte que têm valor salvífico é o de Jesus, não o dos negros. O sofrimento dos seguidores de Jesus que a Bíblia prevê, e nos encoraja a suportar, é o sofrimento por causa da fé/fidelidade, não pela cor da pele. Todo discípulo de Jesus, independentemente de sua etnicidade, deve esperar sofrer perseguições por causa de sua fé/fidelidade (2Tm 3:12).

Quando avaliada em seu contexto canônico abrangente, a doutrina da expiação enfatiza o caráter único e “de uma vez por todas” (Hb 9:12, 26-28; 10:12-14) da obra expiatória de Cristo, o que torna desnecessário qualquer sofrimento humano expiatório. Ele sofreu e morreu de maneira substitutiva, para cumprir o desígnio divino anunciado pelos profetas: “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5). Era “o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap 13:8).

Além disso, a obra expiatória de Jesus na cruz não é apresentada biblicamente como a hostilidade de Deus, o Pai, contra um Filho vulnerável, mas como a doação do Pai no Filho, através do poder do Espírito Santo. Jesus Se ofereceu, voluntariamente, não foi uma vítima indefesa. Ele “Se entregou a Si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso” (Gl 1:4). Disse: “Eu dou a Minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de Mim; pelo contrário, Eu espontaneamente a dou” (Jo 10:17-18). Ele “a Si mesmo Se entregou por mim” (Gl 2:20), “Se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5:2), “a Si mesmo Se entregou por ela [a igreja]” (Ef 5:25).

O problema da interpretação de Cone da cruz é que ela é uma distorção grotesca da doutrina bíblica da expiação. Se a doutrina da expiação foi usada para manter negros debaixo do sofrimento, a solução não deve ser a negação da doutrina, mas o resgate dela à luz da Bíblia. Ademais, a denúncia não parece estar correta, pois, pelo menos no discurso de amplos setores evangélicos, o sofrimento de Jesus é frequentemente apresentado como substitutivo (como no lema neopentecostal “pare de sofrer”[49]): Jesus sofreu para que os cristãos não tenham que sofrer.

O discurso da teologia negra (e da teologia feminista e mulherista) “assume, a priori, que as imagens da cruz como expiação […] contribuem para a crescente violência e abuso em nossa sociedade”.[50] Porém, assumir que isso seja verdade sem considerar o que a própria Bíblia afirma sobre os temas do sacrifício expiatório, da violência e do abuso de vulneráveis é uma falha metodológica. Apenas caricaturas da teologia da expiação podem contribuir para o abuso e a violência. Se esse for o caso, trata-se de um uso indevido do texto bíblico, e a solução não é negar o texto e a doutrina, mas recuperar o ensino bíblico e proteger a doutrina contra esse uso indevido.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University)

Leia também as partes 1 e 2 deste artigo (aqui e aqui).


[1]     CONE, 1990, p. 108

[2]     CONE, 1990, p. 106.

[3]     CONE, 1990, p. 51.

[4]     FOWLER, John M. Pecado. In: DEDEREN, 2011, p. 262-304.

[5]     GRELLMANN, 2017, p. 112-113.

[6]     SALES, 2016, p. 168.

[7]     FOWLER, 2011, p. 267.

[8]     FOWLER, 2011, p. 285.

[9]     WHITE, 1999, p. 359.

[10]    WHITE, Ellen G. Carta 80a, 1895.

[11]    CONE, 1990, p. 11.

[12]    CONE, 1990, p. 27.

[13]    CONE, 1990, p. 51.

[14]    CONE, 1990, p. 70.

[15]    CONE, 1990, p. 15.

[16] CONE, 2020b, p. 67.

[17]    CONE, 1990, p. 25.

[18]    Nat Turner (1800-1831) foi um escravo americano que liderou uma revolta de escravos em 1831, que executou entre 55 e 65 pessoas (pelo menos 51 delas eram brancos). Esse foi o maior número de mortes de brancos durante uma rebelião, antes da deflagração da Guerra Civil, no sul dos Estados Unidos.

[19]    CONE, James H. Black Theology and Black Power. San Francisco: Harper & Row, 1989. p. 114.

[20]    CONE, 1989, p. 109.

[21] CONE, 2020b, p. 81.

[22]    GIBELLINI, 2012, p. 398.

[23]    KLEINER, Mark. Three Phases in the Writings of James Cone: Resistance, Affirmation, and Dialectics. Consensus, v. 33, n. 2, 2011 (p. 1-10). Disponível em: https://bit.ly/3mQ3uok. Acesso em 24 set. 2020.

[24]    CONE, 1984, p. 202.

[25]    CONE, 1984, p. 203.

[26]    CONE, 1984, p. 119.

[27]    CONE, 1984, p. 159.

[28]    CONE, 2011, p. 132.

[29]    THE SOUTHERN BAPTIST THEOLOGICAL SEMINARY. Report on Slavery and Racism in the History of the Southern Baptist Theological Seminary. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3411xNe. Acesso em 24 set. 2020.

[30]    As declarações podem ser encontradas aqui: https://www.sbc.net/?s=lynching.

[31]    CONE, 2020b, p. 68.

[32]    CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. p. 36.

[33]    CONE, 2020b, p. 73.

[34]    IASD. One Humanity: A Human relations Statement Addressing Racism, Casteism, Tribalism, and Ethnocentrism. 15 set. 2020. Disponível em: https://addventist.org/one-humanity-a-human-relations-statement-addressing-racism-casteism-tribalism-and-ethnocentrism/ . Acesso em 25 set. 2020.

[35]    IASD, 2020.

[36]    CONE, 1990, p. 127.

[37]    CONE, 1990, p. 128

[38]    CONE, 1997, p. xv.

[39]    CONE, James H. The Cross and the Lynching Tree. Maryknoll: Orbis Books, 2011. p. 119.

[40]    CONE, 2011, p. 150.

[41] CONE, 2020a, p. 28-29.

[42] CONE, 2020a, p. 29.

[43] CONE, 2020a, p. 29.

[44] CONE, 2020a, p. 29.

[45] CONE, 2020a, p. 29.

[46]    PACHECO, Ronilso. Não há poder no sangue: onde Igreja e pastorais podem ajudar a quebrar a espiral da violência. Portal das CEBS. 07 mar. 2018. Disponível em: https://bit.ly/2FVm9hS. Acesso em 24 set. 2020.

[47]    James Cone publicou um livro avaliando os spirituals. Ver CONE, James H. The Spirituals and the Blues: An Interpretation.Maryknoll: Orbis Books, 1991. Para uma análise sociológica e teológica dos spirituals, ver WASHINGTON, Joseph. The Politics of God: the Future of the Black Churches. Boston: Beacon Press, 1967. p. 153-177.

[48] CONE, 2020a, p. 31.

[49]    “Pare de sofrer” é o lema da Igreja Universal do Reino de Deus. Ver CIPER. Pare de sofrer: os segredos da Igreja Universal no Chile. 19 jan. 2016. Disponível em: <https://bit.ly/382QzqX>. Acesso em 12 jan. 2020.

[50]    GREENE-MCCREIGHT, Kathryn. Feminist reconstructions of Christian doctrine; narrative analysis and appraisal. Oxford: Oxford University Press, 2000. p. 75.