O pecado perdeu a vergonha (parte 2)

Somente quem continua vivo para o pecado pode fazer qualquer concessão a ele

vergonha

No post anterior, mencionei que nem sempre é possível distinguir pecado voluntário de pecado involuntário. Também pode ser que algum “fiel” esteja tentando acobertar uma transgressão voluntária, continuada. Nada disso, porém, é desculpa para se imaginar que todos na igreja são culpados do pecado voluntário, muito menos para se defender a tese de que a igreja deve tolerar o pecado voluntário e público entre seus membros. A lógica é completamente errônea, se não perversa, até porque, como disse, o coração é jurisdição exclusiva de Deus. Somente Deus pode determinar a verdadeira natureza do ato ou a motivação subjacente. É necessário, portanto, separar a questão individual (salvífica) da questão social (eclesiástica). Deus cuida do individual. A igreja cuida do social.

Mesmo sendo imperfeita, a igreja é chamada a estabelecer uma linha de demarcação clara entre o sagrado e o profano, o puro e o impuro (1Co 5:9-11; 2Co 2:14-18), e a dar um testemunho vivo do amor de Deus e do poder transformador do evangelho. O problema é que alguns parecem estar se acostumando demais ao pecado e por isso o pecado tem se tornado cada vez menos ofensivo e cada vez mais ousado e desavergonhado. O pecado não deve jamais ser visto como a norma, sequer como tolerável. Ele é um intruso, uma anomalia, uma aberração no universo de Deus. O pecado, tanto voluntário quanto involuntário, não é para ser defendido. É para ser odiado, rejeitado, condenado. Foi o pecado involuntário que levou Paulo a exclamar em Romanos 7:24: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” – ou seja, da sua natureza caída e debilitada pelo pecado. Olhemos para o Calvário e digamos se há alguma dignidade, virtude ou aceitabilidade no pecado! O pecado é um monstro que levou o próprio Filho de Deus à morte, não para que o pecado se tornasse aceitável, mas exatamente para que ele fosse derrotado, destruído, eliminado (Rm 6:6; 1Jo 3:8).

O pecador, sim, é para ser amado, não o pecado. Ocorre que nem sempre é fácil encontrar o ponto de equilíbrio entre o amor ao pecador e a aversão ao pecado, o que resulta às vezes ou no moralismo cruel de um lado ou na tolerância permissiva de outro. Somente com muita oração, humildade e fidelidade ao evangelho é que a igreja conseguirá realmente adotar uma postura digna do reino de Deus, postura que mostre de que lado ela está no grande conflito entre o bem e o mal e, ao mesmo tempo, que vise à restauração do pecador. A igreja deve sempre objetivar a cura do transgressor (2Ts 3:14, 15; Tg 1:13). Mas acostumar-se ao pecado significa perder de vez a noção do projeto salvífico de Deus. “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6:1, 2).

Somente quem continua vivo para o pecado pode fazer qualquer concessão a ele.

(Dr. Wilson Parosci, via Instagram)

Há um julgamento que não deve ser feito. Qual?

dedos

“Não julguem para que vocês não sejam julgados” (Mateus 7:1). Nesse verso é muito importante entender o que Jesus NÃO está dizendo, e o que Ele ESTÁ dizendo. Aqui Jesus Cristo NÃO está dizendo que é errado praticar o julgamento crítico que tem como objetivo identificar a verdade e o erro. Afinal, Ele mesmo, ao longo de toda a Palavra, nos adverte sobre más decisões, maus comportamentos, e nos diz que devemos escolher a justiça, a verdade, a vida.

O que Jesus Cristo ESTÁ dizendo é que não devemos fazer o julgamento que tem como objetivo destruir, prejudicar, as pessoas; não devemos determinar que tal e tal pessoa vá se perder.

Devemos julgar para identificar a verdade e o erro; mas não devemos fazer julgamento salvífico de alguém, do tipo: “Fulano vai se salvar”; ou: “Sicrano vai se perder.”

E por que NÃO devemos fazer o julgamento salvífico de alguém? Simples: porque não somos Deus, e por isso nunca temos o quadro completo da realidade; nunca conhecemos os bastidores da vida das pessoas.

Somente Deus conhece plenamente tudo e todos; por isso, somente Ele pode julgar corretamente e dizer quem vai se salvar e se perder.

Exerçamos juízo claro e guiado pelo Espírito Santo para identificar e seguir a verdade; e para identificar e rejeitar enfaticamente a mentira e o erro. E deixemos o juízo salvífico com Jesus Cristo. Ele fez, faz e fará isso corretamente, e não precisa de auxiliares.

(Pastor Adolfo Suarez, via Instagram)

Riscos da relativização da Bíblia

A punição eterna no inferno não existe

É bom que se saiba que não são apenas os adventistas e outros cristãos minoritários que defendem o aniquilacionismo

inferno

Edward William Fudge, autor de The Fire That Consumes: A Biblical and Historical Study of the Doctrine of Final Punishment (O Fogo Que Consome: Um Estudo Bíblico e Histórico da Doutrina da Punição Final), é um defensor da visão aniquilista [aniquilacionista] do inferno. Ele acredita que o inferno é real e que as pessoas são torturadas no inferno. Mas, diferentemente da visão tradicional, ele sustenta que a dor é temporária e que aqueles [que estarão] no inferno eventualmente cessarão de existir. “Isso tem a ver com o caráter de Deus e a maneira como as pessoas veem o caráter de Deus”, explicou Fudge para o The Christian Post na quarta-feira. “O Deus que ama o mundo tanto que deu Seu único filho para que os crentes não perecessem, mas tivessem a vida eterna vai então voltar e atirar bilhões deles dentro de algo que é como um lago de lava vulcânica e fazer assim de maneira que eles não morram, e que eles enfrentem isso para sempre. Isso não parece o Deus que eu conheço e vejo em Jesus Cristo”, afirmou ele.

O Fogo Que Consome, livro de 442 páginas com cerca de mil notas de rodapé, foi primeiramente lançado em 1982. O livro, que é considerado leitura obrigatória pelos teólogos e estudiosos do inferno, apenas marcou o lançamento de sua primeira edição há poucas semanas. Fudge, que é advogado e ex-ancião nas Igrejas de Cristo, diz que ele não leu o livro controverso de Rob Bell, O Amor Vence, e não vê necessidade para isso. Mas ele leu “sérias análises por pessoas de mente soberba” sobre o livro e diz que ele concorda com Bell em que a visão tradicional que um não salvo tem que ser sujeitado à tortura pela eternidade contradiz o entendimento de um Deus de amor.

Fudge afirma que dezenas de passagens na Bíblia sustentam sua posição de que a vida eterna é presente de Deus somente para os crentes. Em João 3:16, por exemplo, é dito que “todo aquele que nEle crê não perecerá mas terá vida eterna”. Esse versículo famoso somente promete a vida eterna para aqueles que acreditam em Jesus, mantém o defensor do [aniquilacionismo]. E em Romanos 6:23, o apóstolo Paulo diz que “o salário do pecado é a morte, mas o presente de Deus é a vida eterna”.

Todas as vezes em que a palavra imortalidade é usada no Novo Testamento em relação às pessoas, o estudioso diz, está sempre falando sobre os salvos, tal como 1Coríntios 15. “Isso (imortalidade) nunca é usado para os perdidos. Porque os seres humanos existem somente enquanto Deus lhes dá a vida. Se os ímpios crescem como não imortais… então não há nenhuma base na qual eles possam continuar a existir para sempre”, disse Fudge.

É importante para todo cristão pensar cuidadosamente sobre o que acontece no inferno, disse o respeitado autor, porque os crentes devem ensinar a Palavra de Deus corretamente. “Se pretendemos falar de Deus, precisamos ser bem cuidadosos e tentar ser precisos no que representamos sobre o que Deus está dizendo”, disse ele. “Acredito que a visão tradicional por si só é um terrível escândalo contra a natureza de Deus.”

Entre os estudiosos cristãos notáveis que também sustentam a mesma visão de Fudge sobre o inferno estão: F.F. Bruce, estudioso bíblico considerado um dos fundadores do entendimento evangélico moderno da Bíblia, e NT Wright, estudioso do Novo testamento e ex-bispo de Durham, na Igreja da Inglaterra, entre outros. John Stott, clérigo anglicano e líder do movimento evangélico mundial, pediu uma consideração dessa visão.

(Gospel Mais)

Nota: É bom que se saiba que não são apenas os adventistas e outros cristãos minoritários que defendem o aniquilacionismo. A verdade é que o dogma do inferno eterno é um mito (entre tantos outros) que acabou se infiltrando na igreja cristã e contaminando a teologia de muitas denominações. Confira aqui e aqui.[MB]

Leia também: “O inferno afasta de Deus”

O chifre pequeno é realmente Roma?

Existe, sim, Teologia da Libertação nas Escrituras

Existe, sim, Teologia da Libertação nas Escrituras. Se tem dúvidas, confira Romanos 6:22.

O evangelho da inclusão, pregado sistematicamente por alguns formadores de opinião, muitas vezes peca exatamente pela incongruência discurso/prática claramente exposta quando se sugere uma concepção mais bíblica a respeito dos discursos de Cristo.

É evidente e irrefutável a responsabilidade que temos para com os menos favorecidos; isso faz parte do evangelho em sua essência, mas não o define. Como cristãos, precisamos lançar mão de todos os recursos possíveis a fim de aliviar o fardo de nossos semelhantes; a abnegação e o desprendimento são exigidos muitas vezes nesse processo, o que contribui para nosso próprio amadurecimento espiritual. Mas isso deve ocorrer à luz da moral social bíblica cristã e não por meio de um falso moralismo político-teológico maximalista que reduz o imenso cenário de um conflito cósmico a uma simples luta de classes.

Ecos de uma concepção platônica de “República” que atingem seu ápice no ópio ideológico marxista têm invadido um ambiente onde originalmente se pregava sobre o conflito entre o bem e o mal, as decisões que precisamos tomar diariamente, nossa humana incapacidade de estabelecer e viver princípios igualitários, os resultados da entrada do pecado neste mundo e a única e necessária solução.

O fato é que o comunismo, seja ele raiz ou transvestido de religiosidade, jamais funcionará, e a resposta para essa ideologia fadada ao fracasso é muito simples e já foi dada: vivemos em um mundo de pecado. Se Romanos 6:22 nos dá o verdadeiro significado de Teologia da Libertação, é necessário que avancemos para o versículo 23 e, de uma vez por todas, compreendamos e aceitemos a definitiva solução bíblica para esse dilema.

(Matheus Amaral é formado em Logística e licenciado em Filosofia)

O texto mais mal traduzido da Bíblia e o feminismo

As palavras de Deus, proferidas em Gênesis 3:16, não podem ser compreendidas de maneira irresponsável, como se fosse uma declaração machista que colocou a mulher numa posição inferior ao homem

Traduttore, traditore. Este é um provérbio italiano que, literalmente, significa que o tradutor é traidor. E por quê? Porque é impossível ao tradutor, no desempenhar de sua função, despojar-se de seus conceitos, de sua cosmovisão particular. Além do mais, há muitas variáveis tais como limitação da língua de origem ou de destino, intervalo temporal entre o original e a tradução, termos de difícil compreensão do original, estruturas sintáticas que se diferenciam, entre outros elementos. Assim, nem sempre uma tradução vai representar exatamente aquilo que foi pretendido pelo autor do texto original.

As traduções bíblicas não estão isentas desse problema. É por isso que, numa esfera mais elevada, destaca-se a ecdótica ou crítica textual, que é o trabalho cuja finalidade é se aproximar tanto quanto possível da forma original de um texto, isto é, da forma pretendida pelo autor. Numa esfera menor, pode-se destacar a exegese e a hermenêutica, sendo a exegese – palavra de origem grega ἐξήγησις que significa literalmente “levar para fora” – uma interpretação ou elucidação crítica de um texto, em particular de um texto religioso, levando-se em consideração os originais. E a hermenêutica que, em síntese, é a arte de interpretar os textos.

Gênesis 4

O episódio de Caim Abel descrito em Gênesis 4 é comumente reconhecido como um dos relatos mais difíceis do Antigo Testamento. O ápice da dificuldade textual encontra-se no verso 7, que diz: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo.” Neste verso há um jogo de palavras masculinas e femininas que causam certa confusão. Há também sufixos pronominais masculinos que, aparentemente, não combinam com o contexto imediato da passagem.

Numa leitura rápida, desconsiderando-se os sufixos pronominais masculinos e a possibilidade de que uma palavra hebraica pode ter mais de um significado, chega-se a seguinte tradução interpretativa: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta (porta do coração, como um leão para devorar), o seu desejo (desejo do pecado) será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo (dominar o pecado).” Além de sérias implicações no que tange ao perfeccionismo, essa tradução não respeita absolutamente os sufixos pronominais ali presentes, sendo mais uma interpretação do tradutor que uma tradução real do texto.

Entendendo a passagem

Veja abaixo uma análise da segunda parte do verso 7 (o hebraico lê-se de trás para frente):

(Da direita para a esquerda) וְאִם֙  לֹ֣א     תֵיטִ֔יב   לַפֶּ֖תַח    חַטָּ֣את    רֹבֵ֑ץ וְאֵלֶ֙יךָ֙

 (Da esquerda para a direita) e se | não | procederes bem, | à porta | transgressão | jaz | e para ti

תְּשׁ֣וּקָת֔וֹ       וְאַתָּ֖ה    תִּמְשָׁל־בּֽוֹ׃

o desejo dele | e tu | dominarás a ele

A dificuldade encontra-se na palavra hattat, que é traduzida por pecado ou transgressão, mas também pode significar oferta pelo pecado, sacrifício. Em hebraico, essa palavra é feminina. Portanto os sufixos que a ela se referem devem estar no feminino. Sendo assim, se a intenção do texto fosse dizer que “o desejo da transgressão” seria contra Caim e que ele deveria dominar a transgressão, o texto deveria estar assim: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, a transgressão jaz à porta (porta do coração), o desejo dela (desejo da transgressão) será para ti, e a ela dominarás (dominar a transgressão).” Mas não é isso que acontece. A palavra é feminina, mas os sufixos são masculinos. Ficando literalmente assim: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, a transgressão jaz à porta (que porta?), o desejo dele (ele quem?) será para ti, e sobre ele dominarás (dominar quem?).”

Um outro problema é que a palavra rovets é um particípio masculino. Como harmonizar esse particípio masculino com hattat que é feminina?  Na tentativa de harmonização entre a palavra feminina hattat com a expressão rovets, que significa jazendo, repousando, descansando, alguns eruditos alegam que esta expressão teria sua origem no acadiano, rabishum, que é traduzida por “demônio”:

“E. A. Speiser destaca que o acádio, uma das origens do hebraico bíblico, tem basicamente a mesma palavra, rabishum (note que as primeiras três consoantes são as mesmas), que significa “demônio”. Esta história bíblica vem do mesmo local geográfico; assim, se considerarmos que robesh é um empréstimo do acádio, a solução está à mão. O texto descreve o pecado como um demônio malévolo, pronto para se lançar sobre Caim se este sair da presença de Deus sem se arrepender. Deus graciosamente ofereceu a Caim o poder de vencer o pecado: Sobre ele dominarás.” (LIVINGSTON, COX, KINLAW et al., 2012)

O Dr. Joaquim Azevedo, no entanto, demonstra que tal empréstimo do acadiano inferindo que rovets fosse uma personificação do mal à espreita para atacar não condiz com o contexto da passagem.

O particípio masculino de #bero (rovets),significa “jazendo, repousando, descansando”. É uma evidência extra para considerar taJ’x; (hattat) como sacrifício. Ela é uma forma cognata da palavra acadiana “jazer, deitar”, da palavra ugarítica trbṣ- “estábulo, cocheira, aprisco de ovelhas”. Alguns eruditos, porém, têm identificado este particípio como o “croucher” ou “demônio”, baseado no particípio acadiano rābiṣu. No uso deste particípio no Pentateuco não cabe a interpretação como “demônio” (Gn 49:14; Ex 23:5; Dt 22:6). O particípio #bero é usado em relação à ovelha (Gn 29:2), leopardo e cabra vivendo juntos pacificamente (Is 11:6), e usado como para referir-se figuradamente para uma pessoa sendo comparada com uma ovelha (S1 23:2); ou ao povo como ovelha (Ez 34:14); em outro caso aplicado é a um rebanho ou aprisco de ovelhas (Is 13:20). Somente uma vez fora das trinta passagens no AT, esta palavra é usada no sentido de besta feroz (Gn 49:9). Isto pode significar um sacrifício-purificação; quer um carneiro, cabra, ou algum animal macho for empregado para sacrifício estava jazendo ou descansando à porta do Paraíso. Assim, o gênero masculino do particípio #bero, se refere diretamente ao gênero do animal macho para o sacrifício-purificação ao invés do substantivo feminino taJ’x; (Lv 4:4; 4:23). Isto pode resolver o problema da discordância de gênero. (NETO, 2003)

Conforme mencionado acima, a palavra hattat pode significar tanto pecado ou transgressão como oferta pelo pecado, sacrifício. “A porta” a que o texto se refere não parece indicar a porta do coração como alguns tem suposto, mas o local onde os sacrifícios eram realizados: à porta do Paraíso, do Éden; local onde estavam os querubins. Segundo o Dr. Joaquim, é provável que os sacrifícios fossem oferecidos à porta do Éden “porque a entrada do jardim é imaginada no enredo literário como a fronteira entre o mundo sem pecado e o mundo pecaminoso.” Para ele “este era o lugar de separação entre Yahweh e suas criaturas, o lugar mais perto da árvore da vida onde às criaturas caídas era permitido se aproximar (Gn 3:21-24)”. (NETO, 2003). Esta posição é defendida por vários outros eruditos, conforme apresenta o Dr. Azevedo na nota de rodapé de seu artigo:

The Book of Jubilees identifica o jardim do Éden com o lugar do templo, a casa de Deus (Jz 8:19); Gordon J. Wenham, “Sanctuary Symbolism in the Garden o Eden Story, em Studied Inscriptions from Before the Flood, Ancient Near Eastern, Literary, and Linguistic Approaches to Genesis 1-11, eds. Richard S. Hess and David Toshio Tsumura (Winona Lake: Eisenbrauns, 1994): De acordo com Wenham “o jardim do Éden não é visto pelo autor de Gênesis simplesmente como um lugar da terra cultivável da Mesopotâmia, mas um arquétipo do santuário, isto é, um lugar onde Deus habita e onde o homem deveria adorá-Lo. Muitas das características do jardim do Éden podem também ser encontradas em santuários posteriores, particularmente no Tabernáculo ou no Templo de Jerusalém. Estas comparações sugerem que o próprio jardim é tido como um tipo de santuário”, p. 399: Para posterior comparação do jardim com o santuário, veja Gary Anderson, “Celibacy or Consummation in the Garden? Reflection on Early Jewish and Christian Interpretations of the Garden of Eden, HTR 82:2 (1989)121-148; and Phyllis Trible, God and the Rhetoric of Sexuality (Philadelphia: Fortress Press, 1978)144-164. (NETO, 2003)

Visto que a melhor tradução para hattat no contexto de Gên. 4 seja oferta pelo pecado ou sacrifício, e que a porta não seria uma referência ao coração, mas ao jardim do Éden, resta identificar o sujeito masculino da passagem de quem o texto hebraico diz: “o seu desejo” ou “o desejo dele será para ti e sobre ele dominarás”. Já está claro que não pode ser hattat por ser uma palavra feminina. Sobre isso, o Dr. Joaquim diz:

O lugar mais provável para se encontrar o antecedente dos sufixos pronominais é no contexto de Gênesis 4. Uma avaliação da primeira parte deste capítulo (vv. 1-7) mostra que Caim era o primogênito. Ele supostamente deveria ser o sacerdote, líder e o futuro patriarca, por assim dizer, do clã de Adão. Por não efetivar o ritual do sacrifício, ele pode ter perdido seu direito de primogenitura, causando nele ira para com seu irmão Abel. Portanto, o antecedente mais provável para ambos os sufixos, o e seu, seria o único substantivo masculino que se encaixa no fluxo literário do tópico de Gênesis 4:1-16, a saber, “Abel”. (NETO, 2003)

A conclusão que se chega de maneira responsável e analisando o texto tal como ele está não pode ser outra a não ser a de que os sufixos pronominais masculinos sejam uma referência a Abel e não ao pecado. Fica assim, portanto, a tradução mais próxima ao original hebraico:

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, uma oferta pelo pecado [um sacrifício de animal macho] jaz à porta [do Paraíso, do Éden], e para ti será o seu [de Abel] desejo e dominarás [novamente como o primogênito] sobre ele [seu irmão]”. (NETO, 2003)

Feminismo e Gênesis 3

E o que tudo isso que foi dito até o momento tem a ver com o feminismo? De acordo com o pensamento feminista, Gênesis 3:16 seria uma tragédia para a mulher, pois ali ela é colocada em sujeição ao homem: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” De maneira muito interessante, talvez não aleatória, as mesmas palavras, isto é, desejo e domínio, que aparecem em Gênesis 3, aparecem igualmente e na mesma ordem em Gênesis 4 e, juntas assim, não ocorrem mais em nenhuma porção do Antigo Testamento. O paralelismo é inegável:

  וְאֶל־אִישֵׁךְ֙         תְּשׁ֣וּקָתֵ֔ךְ      וְה֖וּא     יִמְשָׁל־בָּֽךְ׃

  e para teu marido | o teu desejo | e ele | dominará a ti

וְאֵלֶ֙יךָ֙       תְּשׁ֣וּקָת֔וֹ       וְאַתָּ֖ה    תִּמְשָׁל־בּֽוֹ׃

e para ti | o desejo dele | e tu | dominarás a ele

O termo desejo תְּשׁוּקָה (teshuqá) ocorre apenas três vezes em todo o Antigo Testamento. Além das ocorrências em Gênesis 3 e 4, ele aparece novamente apenas em Cantares 7:10 que diz: “Eu sou do meu amado, e ele me tem afeição.” Numa tradução mais literal desse texto, a leitura seria assim:

 אֲנִ֣י      לְדוֹדִ֔י            וְעָלַ֖י       תְּשׁוּקָתֽוֹ׃

eu | para meu amado | e para mim | o desejo dele 

Note que a ordem em Cantares está invertida. Se em Gênesis o desejo da mulher é para seu marido, em Cantares o desejo do marido é para a mulher, evidenciando claramente que o que foi prescrito em Gênesis 3 não rebaixa a mulher, caso assim fosse, o homem estaria sendo rebaixado em Cantares. Portanto, a expressão desejo em Gênesis 3 não tem por objetivo colocar a mulher em uma posição inferior à do homem. Mas, talvez a expressão que cause maior dificuldade não seja desejo e sim domínio.

A primeira análise a ser feita dentro do texto é: Quem pronuncia as palavras de Gênesis 3:16? Deus! Ora, se o interlocutor da sentença é Deus, não se pode fazer a análise do texto usando as lentes da cosmovisão feminista atual, seja ela de que vertente for. As lentes para a compreensão do texto devem ser extraídas da própria Bíblia. É a cosmovisão bíblica, divina, que vai guiar a interpretação do texto e não conceitos de dicionários modernos ou literaturas carregadas de ideologias. Por isso, cabem os questionamentos: De acordo com a cosmovisão bíblica, quais as implicações do termo domínio expressas em Gênesis 3:16? O que Deus quis dizer quando falou que o homem dominaria sobre a mulher? De que tipo de domínio o texto está falando? Esse texto expressa uma visão machista por parte de Deus?

Naturalmente, afirmar que Gênesis 3:16 traz uma visão machista e preconceituosa contra a mulher, coloca Deus em uma situação indevida, contrária a Seu caráter e Sua forma de agir. Talvez, um olhar ao capítulo 4 e o que representava o domínio da primogenitura ajude na compreensão inicial do assunto. Ser o primogênito não colocava o primeiro filho numa posição em que pudesse humilhar, violentar, desmerecer os seus demais irmãos. A primogenitura dizia respeito, principalmente, a funções de liderança, respeito, proteção e cuidado do clã quando o então líder/patriarca partisse. O primogênito seria o responsável, o cabeça, o próximo líder da família. Portanto, a ideia de domínio expressa tanto em Gênesis 3, quanto em Gênesis 4 nada tem que ver com dominação pessoal, violência, conduta arbitrária e desrespeito por parte do que exerce o domínio, é exatamente o contrário disso. O domínio ordenado por Deus em Gênesis 3:16 a ser exercido pelo homem deveria ser, então, uma bênção, conforme verificar-se-á mais adiante.

Ao longo de toda a Bíblia, nota-se o nítido contraste entre o מָשַׁל (mashal) domínio do justo e sábio e o מָשַׁל (mashal) domínio daquele que é tolo e injusto. Por exemplo: Quando o livro de Gênesis fala dos sonhos de José, diz que seus irmãos lhe questionaram: “Tu, pois, deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio sobre nós?” (Gn 37:8) O verbo aqui usado foi mashal. Anos depois, José se torna o governador do Egito e tem em seu poder a possibilidade de fazer o que quisesse com seus irmãos, que tanto mal lhe fizeram. Ao invés disso, suas palavras no momento em que se revela a seus irmão, foram: “Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como dominador em toda a terra do Egito” (Gn 45:8). Novamente a palavra usada aqui foi mashal. Nitidamente se nota que tipo de domínio foi exercido por aquele que era fiel a Deus, que, podendo usar da força e do poder para castigar, violentar, não retribuiu de forma vingativa os males sofridos. É por isso que Davi, no fim de sua vida declarou:

“Aquele que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor de Deus, é como a luz da manhã, quando sai o sol, como manhã sem nuvens, cujo esplendor, depois da chuva, faz brotar da terra a erva” (2Sm 23:3, 4).

O contrário do domínio do justo também é expresso na Bíblia quando em Provérbios se diz: “Como leão rugidor, e urso faminto, assim é o ímpio que domina sobre um povo pobre”(Pv 28:15). Ainda em Provérbios o contraste torna-se bastante claro pela própria estrutura poética de antítese ao afirmar que “quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme” (Pv 29:2) Verifica-se, portanto, que o problema não está na palavra domínio, mas em quem exerce a ação deste verbo.

É indispensável atentar para o texto de Miqueias 5:2, porque ali está expresso a ação de domínio do Messias: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará (dominará – mashal) em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5:2). Esse texto é importante porque no Novo Testamento Paulo retoma a ideia de submissão e domínio entre a mulher e o homem fazendo alusão comparativa da relação entre Cristo e Sua igreja. Cristo é o dominador por excelência e Ele é o modelo a ser seguido. Ao discursar sobre o tema, Paulo afirma:

“Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus. Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo Ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” (Ef 5:21-24).

No primeiro momento do texto, Paulo sugere que a sujeição deve ser mútua entre os irmãos no temor de Deus, indo além das questões maritais. Em seguida, ele vai expressar a ideia do homem como cabeça, isto é, o líder, protetor, cuidador da mulher e deve ele exercer esse domínio da mesma forma como Cristo, que é o cabeça da igreja, exerce Seu domínio. Na sequência, Paulo diz:

“Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a Si mesmo Se entregou por ela. […] Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos” (Ef 5:25-30).

Claramente, fica evidenciado que o tipo de domínio a que Paulo faz referência não tem que ver com atitudes ríspidas, autoritárias, violentas, desrespeitosas, mas, um domínio de amor, amor este, capaz de dar a vida pela esposa. Não é um domínio machista, mas, de cuidadoso zelo. Esta é a cosmovisão bíblica de domínio. Foi este tipo de domínio (mashal) que Deus estabeleceu no Gênesis. Qualquer que seja a visão antropocêntrica que desvirtue o sentido bíblico apresentado em Gênesis 3:16 deve ser desconsiderada. O domínio estabelecido por Deus, não era para ser uma maldição, mas uma bênção. Se em algum momento não foi benéfico, a culpa não está nas palavras de Deus, mas na maldade do coração humano e na má compreensão das Escrituras. A este respeito diz Ellen White:

Referiram-se a Eva a tristeza e a dor que deveriam dali em diante ser o seu quinhão. E disse o Senhor: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gn 3:16). Na criação Deus a fizera igual a Adão. Se houvessem eles permanecido obedientes a Deus – em harmonia com Sua grande lei de amor – sempre estariam em harmonia um com o outro; mas o pecado trouxera a discórdia, e agora poderia manter-se a sua união e conservar-se a harmonia unicamente pela submissão por parte de um ou de outro. Eva fora a primeira a transgredir; e caíra em tentação afastando-se de seu companheiro, contrariamente à instrução divina. Foi à sua solicitação que Adão pecou, e agora foi posta sob a sujeição de seu marido. Se os princípios ordenados na lei de Deus tivessem sido acariciados pela raça decaída, esta sentença, se bem que proveniente dos resultados do pecado, ter-se-ia mostrado ser uma bênção para o gênero humano; mas o abuso da supremacia assim dada ao homem tem tornado a sorte da mulher mui frequentemente bastante amargurada, fazendo de sua vida um fardo. (WHITE, 1997)

Não há dúvidas que a submissão por parte de um ou de outro foi resultado do pecado. Mas, esta é a única forma de se manter a harmonia, conforme relata a pena inspirada. O problema não está na submissão, pois claramente o texto declara que esta deveria ser uma bênção para a o gênero humano. O problema está no “abuso da supremacia” do homem que “tem tornado a sorte da mulher mui frequentemente bastante amargurada, fazendo de sua vida um fardo”. Qual a solução para isso? Recorrer às ideias feministas (seja ela de que vertente for)? Ou buscar o padrão bíblico de domínio, entendendo o que a Bíblia ensina sobre isso? Ainda falando sobre a busca por um domínio arbitrário, diz Ellen White:

Nem o marido nem a esposa devem pensar em exercer governo arbitrário um sobre o outro. Não intentem impor um ao outro os seus desejos. Não é possível fazer isso e ao mesmo tempo reter o amor mútuo. Sede bondosos, pacientes, longânimos, corteses e cheios de consideração mútua. Pela graça de Deus podeis ter êxito em vos fazerdes mutuamente felizes, como prometestes no voto matrimonial. (WHITE, 2004a, 361)

E ao marido que, não compreendendo o verdadeiro sentido bíblico, busca no texto inspirado respaldo para suas atitudes equivocadas de domínio, Ellen White alerta:

Não é evidência de varonilidade demorar-se o esposo constantemente no fato de ser a cabeça da família. Não se lhe acrescenta respeito ser ouvido a citar as Escrituras a fim de sustentar seus reclamos de autoridade. Ele não se faz mais varonil por exigir de sua esposa, a mãe de seus filhos, que aceite os seus planos como se eles fossem infalíveis. O Senhor constituiu o marido como a cabeça da mulher, para ser-lhe protetor, o laço de união da família, unindo os membros entre si, da mesma forma que Cristo é a cabeça da igreja, e o Salvador do corpo místico. Que cada esposo que alega amar a Deus estude cuidadosamente os reclamos de Deus no que respeita a sua posição. A autoridade de Cristo é exercida com sabedoria, com toda a bondade e mansidão; assim exerça o esposo seu poder e imite a grande Cabeça da igreja. (WHITE, 2004b, 215)

E por fim, aqui se expressa de forma clara e perfeita o que é domínio por parte do marido e o que é sujeição por parte da esposa:

Nem o marido nem a mulher deve buscar dominar. O Senhor expressou o princípio que guiará este assunto. O marido deve amar a mulher como Cristo à igreja. E a mulher deve respeitar e amar o marido. Ambos devem cultivar espírito de bondade, resolvidos a nunca ofender ou prejudicar o outro. (WHITE, 1998, 97)

CONCLUSÃO

Conclui-se, após este estudo, que as palavras de Deus, proferidas em Gênesis 3:16, não podem ser compreendidas de maneira irresponsável, a saber, que esta seria uma declaração machista que colocou a mulher numa posição inferior ao homem devendo, portanto, ser combatida com ideias feministas. A própria Bíblia se interpreta, e Gênesis 4, ao falar do domínio do filho primogênito em relação aos demais irmãos, num claro paralelismo com Gênesis 3 com o uso dos termos desejo e domínio, começa a abrir o caminho para uma compreensão mais clara desses termos, em especial, “domínio”, que ganha sua amplitude e significado máximos na relação entre Cristo e Sua igreja. Assim, portanto, o termo domínio em Gênesis 3 nada tem que ver com menosprezo a mulher, não a coloca em uma posição inferior em relação ao homem, tampouco sanciona a violência, o desrespeito e atitudes arbitrárias do homem em relação à mulher. A compreensão correta desse assunto à luz da Bíblia, não permitirá que o leitor esteja a vaguear por filosofias humanas, pretendendo mesclar com a teologia aspectos filosóficos que mais buscam a militância que a aprovação divina. Como último alerta, diz Ellen White:

Aqueles que se sentem chamados a se unir ao movimento em favor dos direitos da mulher e do vestuário reformado, podem igualmente romper toda conexão com a mensagem do terceiro anjo. O espírito que assiste a um não pode estar em harmonia com o outro. As Escrituras são claras sobre as relações e direitos de homens e mulheres. (WHITE, 1999, 421)

(Eleazar Domini é pastor adventista e mestre em Teologia)

Referências:

LIVINGSTON, G. H. et al. Comentário bíblico Beacon: Gênesis a Deuteronômio. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. v.1. 510.

NETO, J. A. À porta do paraíso. Uma interpretação contextual de Gên. 4:7. Revista Hermenêutica, v. 3, n. 1, p. 3-21, 2003.

WHITE, E. G. Patriarcas e profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997. 755.

______. Testemunhos Seletos: Obras de Ellen G. White Versão 2.0. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1998. v.3 443.

______. Testemunhos para igreja. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1999. v.1 700.

______. A Ciência do Bom Viver. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004a. 532.

______. O Lar Adventista. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004b.

Progressista ou conservador? Depende

Há um problema com os rótulos que usamos para classificar ideias. Especialmente quando usamos categorias da teologia para classificar fenômenos políticos. De maneira descuidada e equivocada aplicamos “liberal”, “progressista” e “conservador” em contextos em que não cabem. E a confusão é ampliada quando confundimos a visão teológica com a social/política. Por exemplo, quando descrevemos um “cristão progressista” como alguém que é progressista nos dois sentidos (teologicamente e política/socialmente), cometemos um erro, pois existem cristãos teologicamente conservadores que se identificam politicamente com o progressismo.[1] Portanto, vamos dividir o assunto em dois tópicos: teologia e política, e vamos começar falando de teologia.

O que é a Teologia Progressista[2]

A atual Teologia Progressista é descendente da antiga Teologia Liberal.[3] Apesar de não serem sinônimas, há muitas semelhanças entre elas. O liberalismo teológico é um fenômeno dos séculos 18 e 19, e alguns pontos que o caracterizam são: ênfase antropocêntrica, crença no progresso humano, crítica ao dogmatismo e à “bibliolatria”. Mas a principal característica da teologia liberal é não ver a Bíblia como Palavra de Deus (ela apenas contém as palavras de Deus). A Bíblia seria apenas o registro das experiências religiosas de pessoas.[4]

A Teologia Progressista herdou essa característica liberal, e afirma que “a Bíblia não é a Palavra de Deus”, mas é o leitor quem define o que pode ser considerado Palavra de Deus na Bíblia. Por isso, ela pode ser colocada ao lado de “todos os outros livros interessantes que procuramos para obter insight, prazer e desafio”, e a vida ética não depende da Bíblia para ser definida.[5] A Bíblia é fruto de manobras políticas e infectada pelo patriarcado,[6] por isso ela é “perigosa para a nossa saúde”.[7] Portanto, a Bíblia deve ser lida com suspeita. De acordo com uma teóloga progressista: “Meu trabalho é desconstruir […] a Bíblia como a palavra de Deus. Eu digo: não é a palavra, é uma palavra humana.” A Bíblia deve ser vista como “a produção literária de uma época”, “e não como ‘palavra de Deus’”, nem como “a voz de Deus”. É um amontoado de textos contraditórios sem nenhuma meta-narrativa como moldura.[8]

O liberalismo e o progressismo evitam referências ao elemento divino da Bíblia, e tendem a negar a veracidade dos milagres e relatos sobrenaturais, explicando-os “cientificamente”, ou encarando-os como mitos, metáforas, alucinações. Essa abordagem ficou conhecida como “Método Histórico-Crítico” (ou “Alta Crítica”). A postura hermenêutica progressista pode ser resumida assim: “Há mais valor em questionar com a mente aberta e o coração aberto do que em absolutos ou dogmas.” O progressismo “leva a Bíblia a sério, mas não necessariamente literalmente, adotando um entendimento mais interpretativo e metafórico”.[9]

O liberalismo e o progressismo consideram o pecado apenas como fraqueza moral, e são otimistas com relação ao ser humano, crendo que “a transformação do caráter vem por meio de alguma bondade natural que só precisa ser afirmada e liberada”.[10] A redenção vem por meio de revoluções culturais, e o futuro juízo divino perde importância. Por isso alguns progressistas são universalistas (a crença de que todos serão salvos), colocando o conceito de “amor” como uma norma superior à Bíblia.[11] Um subproduto do liberalismo foi o “evangelho social”, a crença de que o engajamento em questões sociais, em vez de credos e doutrinas, é o que provocaria a transformação radical da sociedade, e abriria caminho para o reino vindouro.[12] E essa é uma característica marcante do progressismo teológico também.

Na visão teológica progressista, as várias representações de Deus na Bíblia refletem as opiniões particulares dos autores bíblicos. Por isso a doutrina da propiciação é rejeitada, e a doutrina da expiação é alterada: “Não há poder no sangue de Jesus”, e “a ideia de que Jesus foi enviado por Deus como sacrifício não vem dos Evangelhos, mas de São Paulo”. Atribui a Paulo a ideia de que “só podemos nos tornar justos diante de Deus especificamente por causa da morte de Jesus”, e conclui que “isso coloca Deus como um sádico, que enviou seu amado Filho à morte”. A doutrina da expiação “é repugnante porque se baseia na vitória através da morte violenta”.[13] A centralidade da cruz é criticada, porque promove a violência e o abuso, um “abuso infantil cósmico” em que o “pai permite, ou mesmo inflige a morte de seu único filho perfeito”.[14]

Também são fruto do liberalismo a ênfase no “Jesus histórico”, um grande homem, crucificado apenas por desafiar o sistema, como um martírio histórico de um revolucionário. Jesus não é um salvador que morre para salvar, mas um professor de justiça social e compaixão. E Jesus não é mais “a única maneira válida ou viável de se conectar a Deus”.[15] A morte de Jesus é interpretada livremente à luz das atuais disputas ideológicas. Na cristologia progressista, Jesus não revela um “Deus teísta”, mas um Deus que “é a experiência da vida, do amor e do ser”.[16] Algumas versões do progressismo questionam a doutrina da Divindade em três pessoas, e outras adotam o Teísmo Aberto.

O progressismo teológico também apela para a “ciência” a fim de questionar, relativizar ou negar “as alegações clássicas do cristianismo”,[17] mantendo o mito do conflito entre ciência e religião (alimentado por uma visão progressista da História). A Teologia Progressista conserva os pressupostos científicos críticos da Teologia Liberal e do Método Crítico-Histórico, também mantidos pela Teologia da Libertação, e pelas Teologias Contextuais engajadas (Feminista, Indígena, Negra, Mulherista, Queer, etc). Leonardo Boff, nome importante da Teologia da Libertação, afirma que “a Bíblia não é a Palavra de Deus num sentido objetivo, nem o sistema de uma doutrina de fé. É o resultado da história e da pregação da cristandade primitiva”.[18] Essas teologias têm basicamente as mesmas pressuposições sobre a Bíblia, e diferem entre si apenas em seus objetivos e ênfases. De maneiras diferentes, enfatizam que o cristianismo precisa ser revisto doutrinariamente, e sua nova versão precisa admitir que a Bíblia é “um documento humano”; Deus é “um conceito humano”; e Jesus é “um ser humano”.[19]

Gretta Vosper, pastora e fundadora do Centro Canadense de Cristianismo Progressista, afirma que, para sobreviver, a igreja cristã deve modificar radicalmente suas doutrinas. Ela escreveu um livro intitulado Com ou Sem Deus: Por que a maneira como vivemos é mais importante do que aquilo em que acreditamos?, no qual escreve que “deus é o que existe entre duas pessoas”, “deus é tudo o que há de bom no mundo”, “um ser cósmico que não existe”. O Cristianismo Progressista mais radical “inclina-se mais para o panenteísmo do que para o teísmo sobrenatural”.[20] Gretta acabou se declarando ateísta, e continuou pastoreando a Igreja Unida do Canadá.

Levados seriamente às últimas consequências, os argumentos da Teologia Progressista são semelhantes aos da “espiritualidade ateísta”, ou da “espiritualidade humanista”, pois trata-se de uma espiritualidade centrada no homem. Por isso, o ateísmo é visto como a consequência natural de se levar a sério a Teologia Progressista, mesmo na opinião de ateus.[21]

O que é a teologia conservadora

Basicamente, é conservadorismo teológico acreditar na Bíblia como Palavra de Deus, inspirada e infalível, na literalidade histórica da Criação, dos milagres registrados na Bíblia, do nascimento virginal, da ressurreição e da volta literal de Jesus no futuro, acompanhada pela ressurreição e pelo arrebatamento dos salvos.[22]

O método histórico-gramatical da Reforma Protestante, e não o histórico-crítico da Teologia Liberal, é a abordagem usada pela “erudição evangélica conservadora”.[23] Em 1986 a Igreja Adventista do Sétimo Dia rejeitou oficialmente o método histórico-crítico, no documento Métodos de Estudo da Bíblia. Ellen White condenou o método crítico-histórico (ela chama de “alta crítica”): “A obra da alta crítica, dissecando, conjeturando, reconstruindo, estava destruindo a fé na Bíblia como uma revelação divina; estava despojando a Palavra de Deus do poder de dirigir, enobrecer e inspirar as vidas humanas.”[24]

É nesse sentido que os adventistas são “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”. Por isso, o cerne do conservadorismo adventista é o princípio protestante radical Sola Scriptura, e não o tradicionalismo nem a experiência cristã. Teologicamente, conservadorismo não é tradicionalismo. O tradicionalismo pode até representar um distanciamento da ortodoxia doutrinária: “O erro tira sua vida da verdade de Deus. As tradições dos homens, como micro-organismos que pairam no ar, agarram-se à verdade de Deus, e os homens as consideram como parte da verdade.”[25] O tradicionalismo e o liberalismo teológico podem igualmente “destruir a fé nas Escrituras” e “levar as pessoas para caminhos proibidos”.[26] Ellen White sugere que “a fé na Bíblia hoje [é] destruída tão eficazmente pela alta crítica e as especulações, como o era pela tradição […] dos dias de Jesus”.[27]

O princípio Sola Scriptura coloca a Bíblia acima da tradição: “Os discípulos deviam ensinar o que Cristo ensinara. O que Ele falara, não só em pessoa, mas através de todos os profetas e mestres do Antigo Testamento, aí se inclui. É excluído o ensino humano. Não há lugar para a tradição, para as teorias e conclusões dos homens, nem para a legislação da igreja. Nenhuma das leis ordenadas por autoridade eclesiástica se acha incluída na comissão.”[28] Assim, é possível alguém se declarar teologicamente “conservador”, mas ser de fato apenas tradicionalista, e viver exatamente como um liberal, desprezando a autoridade das Escrituras.

A IASD é teologicamente conservadora

O Tratado de Teologia (CPB) afirma que os adventistas são “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”, cuja fé está “embasada na Bíblia e centralizada em Cristo”.[29] George Reid descreve como “conservadora” a posição teológica protestante que mantém a Bíblia como a autorizada Palavra de Deus. O livro A Symposium on Biblical Hermeneutics, publicado pela IASD, afirma que, teologicamente, “denominações inteiras podem estar dentro da estrutura conservadora – como é o caso, por exemplo, dos adventistas do sétimo dia”.[30] O livro Interpretando as Escrituras expõe a compreensão adventista de alguns temas bíblicos, e argumenta sob uma perspectiva teológica conservadora,[31] rejeitando a visão liberal.[32]

Apesar da ambiguidade e da má compreensão, os termos técnicos “liberal” e “conservador” ainda são úteis, e não precisam ser usados em tom pejorativo. No sentido técnico, são termos usados na literatura teológica porque conseguem descrever razoavelmente algo que temos dificuldade de descrever de outra forma.[33] Teologicamente, liberal ou conservador não têm necessariamente que ver com costumes, comportamentos, etc., mas têm que ver, principalmente, com a opinião que se tem a respeito da Bíblia como Palavra de Deus inspirada e infalível. Por isso, apesar de manterem crenças peculiares, os adventistas são teologicamente conservadores.[34]

Entre os adventistas, há o chamado “Adventismo Progressista” (Progressive Adventism), uma forma particular de progressismo teológico, que não defende necessariamente todas as pautas teológicas do Progressismo descrito aqui. O Adventismo Progressista, em geral, é definido mais por suas crenças doutrinárias alternativas dentro do adventismo: a negação do “juízo investigativo” (ou “juízo pré-advento”), um conceito diferente do que seria o “remanescente”, a relativização (e até mesmo negação) do dom profético de Ellen White, a rejeição do sábado como selo de Deus (apesar de reconhecer benefícios em sua observância). Ou seja, mesmo nesse sentido particular, o “Adventismo Progressista” também pode alterar ou negar crenças fundamentais do adventismo.

Como teologia e política são áreas distintas, ser teologicamente progressista não é necessariamente ser social/politicamente progressista. Essa distinção é importante, pois muitas discussões perdem o sentido quando teologia e política são avaliadas em conjunto, como se fossem a mesma coisa. Agora vamos falar de “progressismo” e “conservadorismo” no sentido político/social.

Progressismo e conservadorismo político/social

Politicamente, o progressismo é uma visão originada no Iluminismo, que acredita na melhoria da condição humana por meio de medidas econômicas, da educação, e também da ruptura de padrões sociais tradicionais considerados prejudiciais. Em comparação com o conservadorismo, o progressismo prefere mudanças sociais mais rápidas (por isso, o pensamento revolucionário geralmente se identifica com o progressismo), e, em geral, vê o Estado como um dos principais agentes dessas mudanças. O conservadorismo preza pelas mudanças graduais do que é ruim, e a manutenção do que é bom, do que resistiu ao teste do tempo. Apesar de frequentemente associado à esquerda política, o progressismo também pode ser encontrado entre politicamente liberais de direita, especialmente na pauta de costumes.[35]

Por sua vez, o conservadorismo é uma política de prudência,[35] uma mentalidade representada por autores como Russell Kirk, Edmund Burke, Michael Oakeshott e Roger Scruton. David Koyzis avalia várias ideologias e posicionamentos (liberalismo, conservadorismo, nacionalismo, democracia, socialismo), e afirma que, teoricamente, o conservadorismo não possui ligação com qualquer religião em particular, mas reconhece que a maioria dos conservadores do mundo ocidental é cristã.

Koyzis alerta para o risco de se confundir cristianismo com conservadorismo político, como se fossem sinônimos. O conservadorismo, como teoria política, não tem nada de intrinsecamente cristão: ser cristão não é algo exigido pelo pensamento conservador, e por isso existem ateus conservadores. Num sentido político, o conservadorismo cristão pode se transformar “numa forma irracional de nacionalismo ‘por Deus e pela pátria’”.[36]

Ao confundir “conservadorismo teológico” com “conservadorismo político”, ou, pior, com “tradicionalismo religioso”, corremos o risco de rebaixar a Bíblia, assim como a teologia liberal o faz. Existem “conservadores políticos” e “tradicionalistas religiosos” promovendo profundas revisões teológicas e doutrinárias, mas recebendo erradamente o rótulo de “teologicamente conservador”. Não importa o nome que se dê ou a aparência que tenha – se diminui, relativiza, despreza ou combate a Bíblia, está do lado errado, mesmo que tenha aparência ortodoxa.

Portanto, a visão teológica não está necessariamente ou totalmente vinculada à visão política, e é possível um cristão ser teologicamente conservador e manter visões progressistas a respeito de temas sociais que não firam princípios bíblicos. Por outro lado, é possível alguém ter uma visão política conservadora e, ao mesmo tempo, ter uma visão liberal/progressista da Bíblia, ou até mesmo ser um descrente (existem conservadores ateus).

Visões teológicas e políticas podem ser diferentes

Existem aqueles que são conservadores ou progressistas, tanto no sentido teológico quanto no sentido social/político. No Brasil, é crescente o fenômeno do “evangélico progressista” (tanto teológica quanto politicamente).[37] Mas é necessário reconhecer que a defesa da autoridade das Escrituras não está atrelada a nenhuma visão política/social específica. Como afirma Augustus Nicodemus, “há quem seja de esquerda na política, mas com posições conservadoras em pontos éticos, repudiando a teologia liberal”.[38]

 Como vimos, há um largo espectro de crenças debaixo do guarda-chuva que se chama “progressismo teológico”, e é quase certo que nenhum progressista mantenha todas as crenças teológicas descritas aqui. Esse é um ponto importante: não basta olhar o rótulo, precisamos conversar com as pessoas para descobrir quais são de fato suas crenças.

Enquanto na teologia a classificação é mais clara e estática, o discurso político não é inflexível: há progressistas que não se identificam com a esquerda política, e existe até mesmo o “conservadorismo progressista”. Além disso, os rótulos mudam de sentido com o tempo. Por exemplo, no século 19, muitas pautas defendidas pelos pioneiros adventistas eram vistas como socialmente progressistas (a reforma educacional, o abolicionismo, liberdade religiosa, etc). Algumas igrejas socialmente conservadoras proibiam mulheres de falar em público. Ou seja, ao falar em público, Ellen White estava assumindo uma postura considerada socialmente progressista na sua época. Ao defender a desobediência civil no caso da Lei do Escravo Fugitivo, ela também adotou uma postura considerada socialmente progressista para sua época. Por outro lado, a avaliação negativa que Ellen White faz da Revolução Francesa em O Grande Conflito parece refletir o ponto de vista do conservadorismo político em alguns pontos.

Como diz George Knight, o adventismo pode desempenhar, ao mesmo tempo, funções conservadoras e revolucionárias: “[…] deve ser conservadora ao transmitir as verdades imutáveis da Bíblia ao longo do tempo, mas assumir o papel revolucionário ao desempenhar a função de agente de mudanças a serviço de um Deus justo em um mundo de pecado.”[39] Ou seja, teologicamente conservadora e socialmente “revolucionária”.

Uma pesquisa de 2015 mostrou que os adventistas dos Estados Unidos continuam majoritariamente conservadores em teologia, mas progressistas em muitos temas políticos e sociais – uma comprovação de que a visão teológica nem sempre coincide com a visão social/política.

Em resumo: fique atento à teologia, e não confunda os conceitos. Apesar de conservadorismo e progressismo serem dois extremos, Koyzis afirma que, “para o cristão dotado de discernimento, o progresso e a preservação andam lado a lado” e “não são escolhas mutuamente exclusivas”.[40] É possível ser teologicamente conservador e socialmente progressista. Assim como é possível alguém ser socialmente conservador e economicamente liberal.

Mas será que é prudente um cristão se identificar politicamente como “conservador” ou “progressista”? Diante de tanta confusão, vale a pena correr o risco de ser associado a pautas e posturas que não resistem ao exame bíblico? Se a resposta for positiva, então o cristão genuíno precisa deixar sua posição teológica clara, visto que nem sempre as pessoas sabem distinguir posições políticas de posições teológicas. Sabendo do potencial divisivo dos debates políticos, Ellen White diz ao cristão adventista: “Enterre as questões políticas” e busque “unidade nos puros princípios evangélicos que são positivamente revelados na Palavra de Deus”.[41] A teologia tem primazia.

Nenhum dos grandes “pacotes ideológicos” que disputam o controle do país hoje parece representar os valores bíblicos. Assim, a avaliação teológica deve ser constante e rigorosa. Precisamos desenvolver uma mente cristã, ao invés de continuar ingenuamente “batizando” sistemas seculares. A diversidade de pensamento é sempre bem-vinda, mas, quando se trata de teologia, temos uma posição clara e definida: a Bíblia é (não apenas contém) a Palavra de Deus, inspirada, infalível, nossa única regra de fé e prática.

Teologicamente, o progressismo representa um ataque aberto contra muitas das verdades bíblicas que fomos chamados a proclamar. Nesse ponto, mesmo com o risco das ambiguidades, a IASD faz bem em continuar se descrevendo teologicamente como “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”, cuja fé está “embasada na Bíblia e centralizada em Cristo”.[42]

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia [Novo Testamento], mestre em Teologia [estudos de texto e contexto bíblicos] e especialista em Ensino Religioso e Teologia Comparada)

Referências:

  1. “Há quem seja de esquerda na política, mas com posições conservadoras em pontos éticos, repudiando a teologia liberal” (Augustus Nicodemus, O que Estão Fazendo com a Igreja).
  2. Como não existe uma fonte oficial que defina o que é o Cristianismo Progressista, o que fizemos neste texto foi um apanhado de autodescrições de autores assumidamente progressistas e representativos.
  3. O liberalismo teológico está na matriz de muitas teologias ao longo da História: o Evangelho Social, a Teologia da Libertação, e as teologias contextuais engajadas (negra, feminista, queer, etc.)
  4. Tratado de Teologia, p. 58.
  5. Gretta Vosper, With or Without God, p. 221, 222.
  6. Kathryn Greene-McCreight, Feminist Reconstructions of Christian Doctrine, p. 39.
  7. Elisabeth Schüssler-Fiorenza, The Will to Choose or to Reject, p. 130.
  8. Alicia Ostriker, Feminist Revision and the Bible, p. 86.
  9. Roger Wolsey, Kissing Fish: Christianity for people who don’t like christianity, p. 64.
  10. Tratado de Teologia, p. 757, 758.
  11. Tratado de Teologia, p. 941.
  12. Tratado de Teologia, p. 637.
  13. Mary Grey, Redeeming the Dream, p. 124, 125.
  14. Rita Nakashima, Journeys by Heart, p. 56.
  15. Kissing Fish, p. 64.
  16. John Shelby Spong, Jesus for the Non-Religious, p. 248.
  17. With or Without God, p. 37.
  18. Leonardo Boff, Igreja, Carisma e Poder, p. 128.
  19. With or Without God, p. 217-244.
  20. Kissing Fish, p. 64.
  21. Alex McCullie, “Progressive Christianity: A Secular Response”, in Warren Bonett (ed), The Australian Book of Atheism (Melbourne: Scribe, 2010), 211.
  22. Tratado de Teologia, p. 414.
  23. Tratado de Teologia, p. 103.
  24. Educação, p. 227.
  25. Evangelismo, p. 589.
  26. Atos dos Apóstolos, p. 265.
  27. Ciência do Bom Viver, p. 142.
  28. Evangelismo, p. 15.
  29. Tratado de Teologia, p. 1.
  30. A Symposium of Biblical Hermeneutics, p. 90.
  31. Interpretando as Escrituras, p. 22, 40, 192.
  32. Interpretando as Escrituras, p. 50.
  33. Hoje, por exemplo, já se fala em “pós-liberalismo” e “pós-conservadorismo”.
  34. Existem classificações alternativas. Por ex.: Kwabena Donkor classifica a teologia adventista como “biblico-historical realism”. Mas, no geral, o adventismo é considerado teologicamente conservador <https://bit.ly/2CPKhk4>
  35. Norberto Bobbio, Dicionário de Política, p. 243.
  36. Russell Kirk, The Politics of Prudence, p. 1-14.
  37. David Koyzis, Visões e Ilusões Políticas, p. 110.
  38. Como, por exemplo: < https://bit.ly/3jiZMlp>; <https://bit.ly/3eGVvot>; <https://bit.ly/2OzSFa6>; <https://bit.ly/2DRe78o>.
  39. Augustus Nicodemus, O que Estão Fazendo com a Igreja.
  40. George Knight, Educando para a Eternidade, p. 143.
  41. Visões e Ilusões Políticas, p. 112.
  42. Obreiros Evangélicos, p. 391.
  43. Tratado de Teologia, p. 1.

“Minha ‘bússola moral’ não é a Bíblia; é Jesus.” Como assim?!

jesus modernoEsse comentário foi feito recentemente numa página que tem como proposta produzir uma teologia adventista alinhada com algumas pautas progressistas como a de que a prática homossexual não é considerada pecado na Bíblia e de que o aborto é uma questão de escolha pessoal. A ideia exposta nesse comentário [do título] não é nova, nem surgiu dos meios adventistas. Ela é uma versão do conceito de Jesus como “chave hermenêutica” da Bíblia, muito adotado por cristãos mais liberais. O nome é bonito. Dá a impressão de ser um princípio interpretativo em que Jesus é colocado no centro. Faz lembrar a passagem de João 5:39, onde Cristo diz que toda a Escritura testifica dEle. Em resumo, o conceito consiste em julgar todas as coisas, incluindo a Bíblia, a partir do que seria o “espírito de Jesus” – espírito aqui no sentido de modo de pensar e agir. Algo como sempre se perguntar: “O que Jesus faria/pensaria em relação a X?” Dependendo da resposta, até trechos da própria Bíblia podem ser colocados em cheque. Na verdade, a tendência de quem adota esse método é gradualmente avançar para uma visão cada vez mais relativista das Escrituras.

O problema central desse tipo de teologia é evidente: o “espírito de Jesus” é sempre aquilo que o intérprete acha correto. Se o intérprete pensa que X não combina com Jesus ou que Y combina com Jesus, então é isso o que vale. E será esse o padrão a julgar todas as coisas. Como o leitor pode perceber, o objetivismo de extrair o sentido das Escrituras a partir de regras lógicas de interpretação dá lugar ao subjetivismo de impor às Escrituras o sentido que nos parece mais belo e conveniente. No fim das contas, Jesus como “chave hermenêutica” acaba se tornando “eu mesmo como chave hermenêutica”.

Há outros dois problemas fundamentais nessa abordagem hermenêutica progressista. Primeiro: ela despreza o fato de que Jesus usava as Escrituras Sagradas e Se guiava por elas. Todos os Seus discursos e ensinos estavam pautados na Bíblia Hebraica, e Suas principais ações eram cumprimento de profecias registradas nos livros sagrados judaicos.

Segundo: ela despreza que a própria história de Jesus e dos apóstolos, bem como seus ensinos principais, estão registrados em um conjunto de documentos que foi acoplado à Bíblia Hebraica pelos cristãos do primeiro século, tornando-se a Bíblia cristã que temos hoje. Em outras palavras, a principal e mais confiável fonte a respeito de Jesus que nós temos é a Bíblia.

Sendo assim, separar Jesus das Escrituras, buscando usá-Lo como “chave hermenêutica”, é um erro crasso. Aliás, dentro das regras lógicas de interpretação, é princípio básico que nenhuma parte das Escrituras deve ser usada de modo isolado para interpretar toda a Bíblia. Uma vez que a Bíblia é um todo coerente e inspirado, toda ela deve ser usada para interpretar cada uma de suas partes.

A página em questão provavelmente ainda não chegou ao ponto de considerar que algumas partes da Bíblia não são inspiradas. Mas já flerta com uma hermenêutica mais subjetivista e faz uso de uma exegese distorcida dos textos bíblicos que condenam práticas que ela apoia ou é conivente. Ainda que seus autores permaneçam na Igreja e crendo na total inspiração da Bíblia, o tipo de evangelho que tem criado levará muitos a moldarem suas interpretações da Bíblia com base em suas preferências, não em critérios lógicos e objetivos. As palavras de Paulo a Timóteo, pouco antes de ser martirizado, cabem bem aqui:

“Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (2 Timóteo 4:1-5).

(Davi Caldas, Reação Adventista, via Facebook)

Comentário de Marco Dourado: “A velha e surrada estratégia: primeiro, cria-se um falso dilema a partir de uma suposta oposição entre as Escrituras e Jesus. Depois, distorcem-se as palavras de Cristo a fim de se construir um argumento espantalho. Quem inventou esse método deve tê-lo feito por malícia, mas os que o adotam são indivíduos com sérios transtornos cognitivos.”

Trombetas fora do tom: série de vídeos trata de erros teológicos sobre eventos finais