Faz diferença saber exatamente quem são os 144 mil do Apocalipse?

144-milTem sido muito rica a experiência do estudo do Apocalipse neste trimestre. Destaco que esse é um conhecimento que não deve somente persistir dentro do aspecto de discussão racionalizada, mas, principalmente, entrar na questão pessoal e relacional com o nosso Deus. Grande multidão? Os 144 mil? Antes de adentrarmos propriamente nesse estudo, gostaria de colocar uma nota a mais no espírito que devemos nutrir ao estudar esse assunto.

Após a ressureição, nosso salvador Jesus estava pastoreando Seus discípulos. Era Sua terceira aparição a eles, relatada em João 21. Após uma nova experiência de milagre de pesca, e já desfrutando do resultado dessa pesca, há um diálogo entre Jesus e Pedro. Pedro, que havia traído o Mestre, estava naquele momento sendo reabilitado. Jesus disse que Pedro passaria por angústia e aflições, e que pelo seu martírio daria glória a Deus (verso 19). Naquele momento, compreendendo que veria a morte, uma curiosidade humana veio à mente de Pedro. Viu João, o discípulo amado, e perguntou: “Senhor, e quanto a ele?” Respondeu Jesus: “Se Eu quiser que ele permaneça vivo até que Eu volte, o que lhe importa? Siga-Me você” (João 21:20).

Quando adolescente, passei pelo temor de estar ou não entre os 144mil. Logicamente que temos a exortação: “Procuremos, com todo o poder que Deus nos tem dado, estar entre os 144 mil” (SDABC, v. 7, p. 1084). Essa é uma exortação, acima de tudo, de consagração ao nosso Deus. Mas devemos entender que não conhecemos os tempos nem a hora. Não sabemos se estaremos na grande tribulação final ou se estaremos vivos sem passar pela morte. Desse modo, embora seja interessante questionar quem estará ou não entre os 144 mil, a ênfase no nosso estudo deve ser: Senhor, estando ou não entre os 144 mil, eu Te seguirei.

Existe aqui um segundo ponto de discussão na Lição da Escola Sabatina desta semana: Em que sentido os 144 mil não se macularam com mulheres? Como a pureza de seu caráter se relaciona com o fato de que eles são redimidos da Terra como “primícias para Deus” (Ap 14:4). Vou começar de trás para a frente na pergunta, pois o primeiro ponto (serem castos ou virgens) talvez seja o de maior reflexão. Então, vejamos a questão das primícias.

Primícias eram os melhores frutos da colheita. Em Apocalipse são um grupo especial que foi trasladado sem experimentar a morte (1Co 15:50-52): “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” São os primeiros frutos da maior colheita de salvos (Ap 14:14-16).

E sobre a virgindade? Entendemos que esse grupo não participou da infidelidade de Babilônia. Agora, o que significa isso? Sabemos que os 144 mil não passarão pela morte. Mais ainda, Ellen White descreve em Eventos Finais, pagina 182, o seguinte: “Alguns tinham sido arrojados fora do caminho. Os descuidosos e indiferentes, que não se uniam com os que prezavam suficientemente a vitória e a salvação, para por elas lutar e angustiar-se com perseverança, não as alcançaram e foram deixados atrás, em trevas, e seu lugar foi imediatamente preenchido pelos que aceitavam a verdade e a ela se filiavam” (Primeiros Escritos, p. 271 [Eventos Finais, p. 182.1]).

“Os lugares vagos nas fileiras serão preenchidos pelos que foram representados por Cristo como tendo chegado na hora undécima. Há muitos com quem o Espírito de Deus está lutando. O tempo dos juízos destruidores da parte de Deus é o tempo de misericórdia para aqueles que [agora] não têm oportunidade de aprender o que é a verdade. O Senhor olhará para eles com ternura. Seu coração compassivo se enternece, e a mão do Senhor ainda está estendida para salvar, enquanto a porta é fechada para os que não querem entrar. Será admitido um grande número de pessoas que nestes últimos dias ouvirem a verdade pela primeira vez” (Carta 103, 1903 [Eventos Finais, p. 182.2]).

Entendo que virgindade aqui simboliza fidelidade dentro daquilo que Deus estabelece. E aqui cabe um adendo: existem pessoas que neste momento não fazem parte das fileiras da igreja, mas que agem com pureza de coração, sem reservas, diante da luz que receberam. Por outro lado, devemos vigiar e orar. Muitas vezes, mesmo tendo acesso a uma luz mais completa, permitimos que ideias do mundo – daquilo que é pensamento próprio, não exalado das Escrituras, ou o pensamento reinante do mundo – contamine nossas percepções ou convicções.

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

Perceba que se sua convicção religiosa não for maior que seus outros valores pessoais, esses valores acabarão por retirá-lo do caminho de Jesus. Já vi pessoas se desviarem completamente do caminho por questões em que a convicção pessoal dos valores atuais, do socialmente aceitável ou politicamente correto, em que os valores e amores deste mundo, sejam política (esquerda ou direita), bandeiras raciais, de gênero ou a mera ausência do prestígio social ou econômico que gostariam de ter advindo de sua participação religiosa na igreja, acabaram por dar entrada a valores, ideias e convicções que afastam definitivamente do são caminho.

Entendo que estamos em tempo de graça, e que a misericórdia de Deus está aberta para todos nós hoje. Entretanto, a descrição e o chamado de selamento aos 144 mil inclui implicitamente um apelo à santidade e consagração ao Senhor a cada dia. Que o Senhor nos abençoe e nos habilite a cada dia a viver de acordo com a guia do Espírito Santo e a disposição dos 144 mil descritos no livro do Apocalipse.

Quando eu era criança, a primeira vez que li o texto: “Estes são os que não se macularam com mulheres, porque são virgens. São os que seguem ao Cordeiro aonde quer que vá. Foram comprados dentre todos os seres humanos e foram os primeiros a ser oferecidos a Deus e ao Cordeiro” (Apocalipse 14:4), achei muito estranho. Alguma coisa passou pela minha cabeça, tipo: “Pobres coitados: além de não poderem casar, ainda nem vão poder ir para onde querem?” E essa incompreensão minha de garoto talvez seja a mais sem sentido e boba que você tenha ouvido falar, mas existem muitas outras sobre os 144 mil.

Seja qual for a sua dúvida sobre o assunto, eu gostaria de deixar uma certeza: acompanhar o Cordeiro por onde Ele vá não é uma consequência de fazer parte dos 144 mil, e sim a sua maior causa. Os 144 mil seguem o Cordeiro a cada dia. Em seus hábitos, pensamentos, suas prioridades enquanto ainda estão aqui na Terra.

Quantos hinos de batismo começam justamente com essa premissa? “A Jesus seguir eu quero, Tu morreste foi por mim. Mesmo que Te neguem todos, eu Te sigo até o fim.” “Minha cruz eu tomo e sigo, a Jesus eu sempre sigo; aonde for a Ele eu sigo; seguirei a meu Jesus.” Estão essas frases fazendo ainda sentido na sua vida? Lembre-se: seguir o Cordeiro pela fé é:

– Continuar confiando, mesmo quando o mundo diz que não vale a pena.

– Continuar seguindo, mesmo quando as pessoas ao redor lhe mostrem outro caminho.

– Seguir acreditando, mesmo quando as convicções de parentes, amigos, do professor ou orientador, ou da pessoa que você ama, dizem que não vale a pena.

– Seguir vivendo a vida cristã, até nos momentos em que você parece ir na contramão da sociedade.

Que Deus ilumine a todos e nos dê alento, forças e fé para continuar seguindo o Cordeiro.

Oremos: “Pai Eterno, obrigado pela redenção em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador. Queremos seguir Jesus, nosso Cordeiro, a cada dia, até a Sua volta. E mesmo lá no Céu continuar seguindo ao Autor e Consumador da nossa fé!”

Everton Padilha Gomes é médico e doutorando em Cardiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo 

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Os 144 mil do Apocalipse

voltaUm dos temas que mais intrigam os adventistas e os cristãos em geral são os 144 mil do Apocalipse. Muitos não compreendem nem mesmo os aspectos mais básicos em relação a eles – se o número é literal ou simbólico, se eles fazem parte da chamada “grande multidão” e, principalmente, quem são eles. Em grande parte, isso se deve a um conselho de Ellen White, de se evitar discussões inúteis sobre esse assunto, assim como outros não essenciais para a salvação.[1] No entanto, ela mesma citou esse grupo dezenas de vezes em seus escritos, relacionando-o a acontecimentos cruciais para o povo de Deus no tempo do fim, como o selamento e a grande tribulação. Tamanha foi a importância desse grupo em seu ministério profético, que os 144 mil foram representados logo em sua primeira visão, sobre o povo do advento.[2]

Apesar de haver escrito tanto sobre os 144 mil, Ellen White nunca os definiu claramente. A própria Igreja Adventista até hoje não tem uma posição oficial abrangente sobre o assunto. Embora o Instituto Bíblico de Pesquisas, órgão oficial da Associação Geral, interprete o número como simbólico[3], a igreja não determina oficialmente essa compreensão como uma crença.[4] E, apesar de o Seventh-day Adventist Commentary declarar que, até à época de sua reedição (1980), os adventistas favoreciam a interpretação de que os 144 mil são um grupo especial do povo de Deus nos últimos dias – um grupo à parte da grande multidão[5] –, essa também não era nem é até hoje uma posição oficial da igreja. O assunto ainda está em estudo, e o que se enfatiza não é quem são os 144 mil, mas como ser parte deles, como alcançar a salvação.[6]

Por outro lado, se Ellen White condenou discussões inúteis, também encorajou os adventistas a não desistir de buscar conhecer cada vez mais a Bíblia e as profecias.[7] Em uma de suas mais fortes declarações, ela afirmou: “A história da igreja nos ensina que o povo de Deus não deve ficar estereotipado em suas teorias da fé, mas preparar-se para nova luz, para abrir a verdade revelada em Sua Palavra.”[7]

Portanto, os ensinos e profecias da Bíblia podem e devem ser compreendidos cada vez mais à medida que o tempo passa e os estudos progridem. Aspectos como a justificação pela fé, que Ellen White não compreendia inicialmente, foram entendidos por ela décadas depois. Da mesma forma, partes da Bíblia que ela não entendia, pela falta de estudos mais profundos à época, hoje podem ser mais bem compreendidas (assim como Daniel não entendia suas próprias profecias, mas hoje podemos compreendê-las, ver Daniel 12:4).

Avanços

Nas últimas décadas, diversos estudos envolvendo os 144 mil têm sido divulgados por meios oficiais da igreja, como o Instituto Bíblico de Pesquisas da Associação Geral (BRI, sigla em inglês), lançando mais luz sobre o assunto. Uma importante coleção de materiais sobre Daniel e Apocalipse lançada no início dos anos 1990 é a série Daniel & Revelation Comitee Series, conhecida como “Darcom”. Num dos volumes da coleção, um capítulo escrito por Beatrice Neall, “Sealed Saints and the Tribulation” (“Os Santos Selados e a Tribulação”) trata diretamente dos 144 mil.[8] Nesse estudo, um ponto especial pode ser destacado: a relação entre os 144 mil e a “grande multidão” de Apocalipse 7. Em vez de enfatizar as diferenças entre ambos os grupos, a autora apresenta diversas “marcas de identificação” entre eles – evidências de que podem constituir um só grupo. Assim como ela, outros acadêmicos adventistas, como Ekkehardt Mueller, um dos diretores associados do BRI, também favorecem essa posição.

Os 144 mil são apresentados em duas seções, em Apocalipse: 7:1-8 e 14:1-5. No capítulo 7, o relato sobre os 144 mil é seguido pela descrição de uma multidão inumerável. A primeira grande evidência de que os 144 mil e a grande multidão podem ser o mesmo grupo é a própria estrutura do livro do Apocalipse. O capítulo 7 é um hiato, um parêntese entre o sexto e o sétimo selos. Ele responde a uma pergunta básica feita pelos ímpios no sexto selo.

Diante da expectativa da vinda de Jesus, os ímpios clamam aos montes e aos rochedos: “Caí sobre nós e escondei-nos da face dAquele que Se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira dEles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6: 16, 17). Parafraseando, “quem poderá ficar de pé quando Cristo voltar?” Em 7:9, a resposta é direta: “Depois destas coisas, vi e eis grande multidão que ninguém podia enumerar […] em pé diante do trono e diante do Cordeiro” (v. 9). Mais à frente, no livro, os 144 mil são vistos em pé junto ao Cordeiro, no monte Sião (Ap 14:1).

Os 144 mil e a grande multidão são descritos em momentos diferentes, como os únicos que podem ficar de pé diante de Cristo, em Sua vinda à Terra. Isso deixa claro que ambos são o retrato do povo de Deus que estará vivo por ocasião da volta de Jesus. A questão é: Eles são dois grupos ou um só?

Um grupo

Assim como Beatrice Neall, Ekkehart Mueller, em seu artigo “The 144,000 and the Great Multitude”[9] (“Os 144 mil e a Grande Multidão”), apresenta argumentos convincentes em favor de que ambos os grupos são um só: (1) João ouve o número dos selados (144 mil), mas, na sequência, contempla uma grande multidão (7:4, 9), assim como em 5:5, 6 ele tinha ouvido sobre um Leão, mas viu um Cordeiro; (2) no capítulo 7, os 144 mil são os justos do tempo do fim descritos ainda na Terra; a grande multidão é um retrato desse povo já no Céu; (3) os 144 mil são a descrição do povo de Deus no tempo do fim, que vai passar pela grande tribulação (representada pela liberação dos ventos); a grande multidão são os que já passaram pela tribulação (7:3, 14); (4) os 144 mil são os selados antes da liberação dos ventos (7:3); a grande multidão logicamente precisou ser selada antes de passar pela grande tribulação (7:14).[10]

O selamento e a grande tribulação são as principais marcas de identificação, conforme Neall chama, entre os 144 mil e a grande multidão. Ambas as marcas dão fundamentos para se enxergar semelhanças, não diferenças, entre os grupos. Os dois grupos foram selados e passaram pela tribulação. Não é à toa que, no livro O Grande Conflito, Ellen White se refira aos 144 mil, citando versículos referentes diretamente à grande multidão (Ap 7:14-16).[11]

Assim, resta uma dúvida: O que poderia diferenciar os 144 mil da grande multidão? Haverá dois grupos de justos vivos quando Cristo voltar? Alguns argumentam que os 144 mil são as “primícias” (Ap 14:4), um grupo especial em relação à grande multidão. No entanto, “primícias” pode se referir aos 144 mil como os primeiros frutos da “colheita universal de redimidos de todas as eras”. Diante disso, Mueller conclui que “é melhor entender que os 144 mil e a grande multidão são o mesmo grupo, visto por diferentes perspectivas”. Para ele, os 144 mil representam um “termo simbólico”, enquanto a grande multidão “descreve a realidade”. [12]

O simbolismo dos 144 mil pode encontrar sua realidade na grande multidão em diversos outros aspectos, entre eles: (1) origem étnica – João ouviu de um grupo composto por 12 tribos de 12 mil filhos de Israel, mas viu uma multidão de tribos (7:9); (2) número – João ouviu um número exato, mas viu uma multidão inumerável (7:4, 9); (3) pureza – os 144 mil são descritos como puros, sem mancha, assim como a grande multidão, vestida de vestiduras brancas (14:4. 5; 7:14); (4) proximidade ao Cordeiro – os 144 mil “seguem o Cordeiro para onde quer que vá”, assim como a grande multidão serve de “dia e de noite” diante do trono e do Cordeiro (14:4; 7:15, 17); (5) serviço – os 144 mil são “servos de Deus”, e a grande multidão também “serve a Deus” (7:3, 15).

Hans K. LaRondelle, eminente teólogo adventista, apontou os 144 mil como o povo remanescente de Deus no tempo do fim, fiéis de todas as nações que “guardam os mandamentos de Deus e têm a fé em Jesus” (Ap 14:12). Segundo LaRondelle, eles enfrentarão a crise final promovida no mundo pelo anticristo. Ou seja, ele enxerga nos 144 mil um simbolismo do remanescente que passará pela grande tribulação.[14]

Diante das evidências apresentadas, torna-se ainda mais claro que o número 144 mil é simbólico. O próprio contexto das passagens indica isso: tanto no capítulo 7:1-8, como em 14:1-5, a linguagem diretamente ligada aos 144 mil tem forte simbolismo – ventos, quatro anjos, quatro cantos, selamento na testa, homens virgens, doze tribos de Israel (a maioria extinta, além de a lista não corresponder à original dos doze patriarcas), etc. É mais coerente entender os 144 mil das 12 tribos de Israel como que simbolizando a unidade, perfeição, completude e vastidão da igreja de Deus.[15]

Portanto, é possível concluir que os 144 mil simbolizam a grande multidão – a multidão inumerável que atravessará a crise final da Terra. Há razões para se acreditar que Jesus não virá para buscar um pequeno grupo de remidos, nem dois grupos de justos vivos na Terra, mas um remanescente fiel composto por uma multidão inumerável de todas as nações. Virá buscar um povo que terá passado por muitas dificuldades, mas que contou com a proteção de um Deus que lhes enxugará pessoalmente “toda lágrima” (Ap 7:17). Mais importante ainda é nos prepararmos para pertencer a esse grupo.

Diogo Cavalcanti é editor na Casa Publicadora Brasileira.

Referências:

  1. White, Ellen G.Eventos Finais, p. 268.
  2. White, Ellen G.Primeiros Escritos, p. 15-23.
  3. Pfandl, Gerhard. “Information on the Seventh-day Adventist Reform Movement”.Biblical Research Institute. Num ponto desse artigo, a crença reformista de que 144 mil é um número literal é posta em contraste com a crença adventista do sétimo dia de que o número é simbólico. Disponível em: http://www.adventistbiblicalresearch.org/Independent%20Ministries/SDA%20Reform%20movement.htm
  4. Nichol, F. D. (Ed.).Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 7. Hagerstown, MD: Review and Herald, 1980. p. 783.
  5. Ibid., p. 785.
  6. Ibid., p. 783.
  7. White, Ellen G.Caminho a Cristo, p. 112.Conselhos Sobre a Escola Sabatina, p. 23.
  8. White, Ellen G.Cristo Triunfante, p. 317.
  9. Frank Holbrook (ed.). Beatrice Neall. “Sealed Saints and the Tribulation”. Symposium on Revelation – Book I. Daniel & Revelation Committee Series. Hagerstown: Review and Herald, 2000. p. 245-278.
  10. Mueller, Ekkehardt. “The 144,000 and the Great Multitude”.Biblical Research Institute. Disponível em: http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/144%2C000greatmultitude.htm
  11. Ibid.
  12. . White, O Grande Conflito, 648, 649.
  13. . Mueller. Ibid.
  14. . LaRondelle, Hans K. “Prophetic Basis of Adventism”. Adventist Review, 1° de junho-20 de julho, 1989. Disponível em: http://www.adventistbiblicalresearch.org/documents/Prophetic%20Basis%20Adventism.htm
  15. . Neall, Ibid. 262, 269.

Apocalipse: Os Sete Selos

cavalosAssim como as sete igrejas representam sete períodos da história do Cristianismo até a volta de Jesus, o mesmo também é verdade em relação aos sete selos de Apocalipse 6 e 8:1. Porém, a revelação dos selos se dá a partir de outro ponto de vista: ela se refere à pregação do Evangelho e às consequências de rejeitá-lo. Na perspectiva historicista, vivemos hoje no período do sexto selo, o qual se iniciou com os famosos eventos naturais e astronômicos a partir de 1755 e será concluído quando a atmosfera da Terra se abrir diante do aparecimento glorioso de Jesus. O sétimo selo (Ap 8:1) se refere ao silêncio no Céu devido ao fato de que todos os anjos estarão fora dali, acompanhando Jesus em Sua vinda à Terra e ajuntando Seu povo para a viagem de volta para lá (Mt 24:30, 31; 25:31, etc.).

Perguntas para discussão e aplicação

1. A abertura dos primeiros quatro selos – representados por quatro cavalos e seus cavaleiros – corresponde a quatro períodos da história da igreja. Usando Zacarias 1:8-10 como pano de fundo e referência, como podemos entender melhor o significado desses quatro selos?

2. Compare Apocalipse 6:2 com 19:11-16. Qual o significado de o próprio Jesus Cristo ser o cavaleiro conduzindo o primeiro cavalo simbólico? Em que sentido o texto diz que Ele “saiu vencendo e para vencer”?

3. Leia a descrição do segundo cavalo (segundo selo; segundo período) em Apocalipse 6:3, 4 e compare com Mateus 10:34, 35. Como essas palavras de Jesus dão significado aos símbolos do segundo cavalo? Por que a pregação do Evangelho resulta em “espada” (perseguições e guerras)? Por outro lado, que tipo de “paz” é essa que o Evangelho perturba tanto? Por que vale mais a perseguição (“espada”) com o Evangelho do que uma suposta “paz” sem o Evangelho?

4. Leia a descrição do terceiro cavalo, o preto, em 6:5, 6. Depois compare com Lucas 8:11; Ezequiel 4:16, 17; Amós 8:11 e responda: O que significa o “pão” escasso no terceiro período da história da igreja? Se a cor do primeiro cavalo (branco) é significativa para representar a pregação do Evangelho no primeiro século, o que a cor preta deste cavalo representa em contraste? Pense no conceito de “azeite” e “vinho” na Bíblia. Qual o significado de o cavaleiro desse período ordenar que não sejam danificados o “azeite” nem o “vinho”?

5. Leia a cena do quarto selo em Apocalipse 6:7, 8. Como essas descrições simbólicas equivalem exatamente ao período da Igreja durante a maior parte da Idade Média? Compare os detalhes deste selo com os “quatro terríveis juízos de Deus” relatados em Ezequiel 14:21 (os quais eram usados contra o povo de Deus no Antigo Testamento para tentar despertá-lo e trazê-lo de volta à razão e à comunhão). Em sua avaliação, por que João emprega esse contexto de Ezequiel para se referir a esse período da igreja?

6. Leia a cena do quinto selo em Apocalipse 6:9-11. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, por que essa cena não pode ser literal? Compare o pedido de justiça dos mártires com o pedido de justiça do sangue de Abel em Gênesis 4:10; Lucas 11:51; Hebreus 12:24. De que forma o sangue de Abel e o dos outros mártires “fala” pedindo justiça? Leia Levítico 17:14. Como essa passagem nos ajuda a entender melhor o símbolo de “almas debaixo do altar”? Por que a resposta de Jesus a esse clamor de justiça é totalmente satisfatória?

7. O sexto selo (período em que vivemos agora) conclui com a volta de Jesus nas nuvens do Céu. Leia Apocalipse 6:14-17 e compare com Isaías 2:19-21, Malaquias 3:2 e Hebreus 12:29. Por que os ímpios dizem que Jesus está “irado” e querem se esconder dEle? Como você responderia biblicamente à pergunta deles: “Quem pode subsistir diante da glória de Jesus?” (dicas: Mt 5:8; Is 33:14,15; Ml. 4:1,2; etc.). Como o capítulo 7 do Apocalipse responde essa pergunta?

8. Considerando que o sexto selo é concluído com a volta de Jesus à Terra, por que o sétimo selo diz que haverá “silêncio no Céu” (Ap 8:1)? Como você está se preparando para esse grande dia?

Notas importantes

Sobre as “almas debaixo do altar” (Ap 6:9, 10). Esta cena não pode ser literal por pelo menos três motivos.

1. Primeiro, isso entraria em contradição com um fundamento da Bíblia, a qual ensina várias vezes que não há consciência durante a morte (Ec 9:5, 6, 10; Sl 6:5; 146:4; Is 38:18, 19, etc.).

2. Segundo, o texto está fazendo referência ao primeiro mártir, Abel, cujo sangue, metaforicamente, “clamava desde a terra” por justiça (ver Gn 4:10; Lc 11:51 e Hb 12:24). É como quando dizemos que o leite ou suco derramado sobre a mesa “pede” por limpeza. O quinto selo faz referência ao período em que houve tantos mortos por causa do Evangelho, que pairava no ar um “clamor” por justiça, assim como foi com o sangue de Abel.

3. Em terceiro lugar, o texto faz referência, também, a Levítico 4:7, onde é dito que o sangue dos sacrifícios oferecidos no santuário terrestre era derramado à base do altar de holocaustos (ou de sacrifícios). Esse altar não corresponde a nada no Céu, pois ele prefigurava o evento que se deu na cruz do Calvário, na Terra. Portanto, não há nenhum “altar de sacrifícios” no Céu com “almas” por baixo dele. No Apocalipse se faz menção a apenas outro altar no Céu: o de “incenso”, que representa as orações dos santos vivos (Sl 141:2; Ap 5:8; 8:3). No altar do incenso terrestre era colocado um pouco de sangue por cima, para validar o incenso, mas nunca por baixo. Assim, o sangue dos mártires (que representa suas “almas” ou “vidas”, conforme Levítico 17:11, 14) foi derramado na Terra, à base do “altar da cruz”, onde o verdadeiro sacrifício foi morto. No quinto selo Jesus promete que será feita justiça a esse clamor dos mártires, e que a recompensa deles (vestes brancas) é certa no dia da ressurreição.

Períodos referentes aos sete selos

Primeiro selo: primeiro século – mensagem do Evangelho puro.

Segundo selo: Aproximadamente 100-313 d.C. – era de perseguição contra a Igreja.

Terceiro selo: 313-538 d.C. – transigência religiosa com Roma até a “oficialização” do cristianismo.

Quarto selo: 538-1517 d.C. – período de domínio de Roma papal.

Quinto selo: 1517-1755 d.C. – desde a Reforma até o terremoto de Lisboa (primeiro sinal do sexto selo).

Sexto selo: 1755 d.C. até a volta de Jesus – os fenômenos relatados no sexto selo ocorreram exatamente na ordem descrita. Só falta Jesus aparecer no Céu para completar esse período.

Sétimo selo: “Silêncio no Céu” – período em que o Céu estará “vazio” durante a volta de Jesus, pois todos os anjos estarão com Ele em Sua missão de resgate na Terra.

Sobre os eventos que marcam o início do sexto selo (Ap 6:12, 13)

1o/11/1755 – Terremoto de Lisboa.

19/5/1780 – O misterioso dia escuro, conhecido como “The Dark Day”, que não foi causado por um eclipse, e no qual ainda a Lua apareceu vermelha à noite.

13/11/1833 – Fantástica chuva de “estrelas” cadentes (meteoros).

Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Jardim Iguaçu, Maringá, PR

A Igreja Adventista é uma seita? Resposta a um evangélico

iasd logoRecentemente meu amigo cientista e defensor da Teoria do Design Inteligente Dr. Marcos Eberlin postou em sua página no Facebook minha resposta a uma pergunta que ele me fez em privado: “Michelson, vou para o inferno por não guardar o sábado?” (Você pode ler esse post aqui.) Essa simples pergunta sincera acabou gerando uma discussão interminável, com vários ataques e críticas aos adventistas. De certa forma, serviu até de “laboratório” do que os guardadores do sábado enfrentarão no futuro… Um dos debatedores acusou a Igreja Adventista de ser uma seita e me fez algumas perguntas com o intuito de provar sua acusação. Leia abaixo o que respondi a cada um dos questionamentos dele e tire suas próprias conclusões:

Prezado J., aqui vão as respostas. Não pude me limitar a um “sim” ou “não” por três motivos: (1) em benefício dos que estarão lendo isto é preciso explicar algumas coisas, (2) algumas perguntas são claramente capciosas e não quero deixar mal-entendidos, e (3) algumas das suas perguntas não refletem a realidade do pensamento adventista nem bíblico. Vamos lá:

1. Você crê no Espírito de Profecia (Ellen White)?

Sim, eu creio no Espírito de Profecia manifestado ao longo da Bíblia na vida e obra dos profetas. Creio que esse foi um dos dons dados à igreja até a volta de Jesus (Ef 4:11-14), algo anunciado em Joel 2:28-32, por exemplo (por favor, leia os textos bíblicos). Creio que esse dom continuará com o povo de Deus até o fim, conforme assegura João no Apocalipse (Ap 12:17; 19:10). Por ter o dom profético é que João foi preso na ilha de Patmos (Ap 1:9).

Ellen White não é o Espírito de Profecia; ela teve o dom de profecia como outros profetas ao longo da história. O dom profético dela foi aceito por evidenciar as características que a Bíblia apresenta de um profeta verdadeiro. Ellen não inventou nenhuma das doutrinas adventistas, pois essa não era a função dela. Creio na Bíblia como fonte de normas e práticas (doutrinas).

É importante reconhecer um profeta verdadeiro (2Cr 20:20), mas não se trata necessariamente de ponto de salvação aceitá-lo ou não. O Antigo Testamento está repleto de casos em que os verdadeiros profetas não foram aceitos pelo povo de Deus. Mas, quando o povo aceita, os benefícios são grandes.

Portanto, para os adventistas, os escritos de Ellen White não são uma “segunda Bíblia” (e ela mesma diz isso), mas os ajudam na caminhada cristã. Os adventistas a consideram uma profetisa não canônica. Aos que duvidam resta-me deixar o conselho de 1 João 4:1: façam prova. Leiam e comparem tudo com a Bíblia. Depois retenham, se for bom (1Ts 5:21). Recomendo também este estudo que eu preparei.

2. Você acredita que a Igreja Adventista do Sétimo Dia é a igreja remanescente?

Acredito que Deus despertou a Igreja Adventista no século 19 com uma missão muito especial: anunciar a breve volta de Jesus e a mensagem dos três anjos de Apocalipse 14, dentro da qual está o criacionismo. Mais ou menos como creio que alguns séculos antes Deus despertou os reformadores protestantes para dar ênfase a aspectos esquecidos da pregação cristã. Isso não significa que a Igreja Adventista seja melhor ou pior que qualquer outra. Não significa que só os adventistas serão salvos (e qualquer adventista sabe disso). Significa que temos uma missão especial e vamos levá-la avante até o fim, mesmo sob forte oposição dos que não compreendem isso.

Jesus disse que haveria um só rebanho e um só Pastor, reunidos em torno da verdade eterna, do evangelho eterno de Apocalipse 14 – um evangelho que, por ser eterno, nunca mudou. As verdades são as mesmas desde o Éden. Os mandamentos são os mesmos desde o Céu. E Deus espera que esse povo (os remanescentes da igreja cristã ao longo da História) continue pregando as mesmas verdades, a mesma mensagem que os patriarcas, os profetas, Jesus e os discípulos pregaram. Isso é ser remanescente.

Os adventistas acreditam que existe uma igreja de Deus “invisível”, formada por pessoas sinceras de todas as religiões. Esse é o povo de Deus, o genuíno povo de Deus. Os adventistas também acreditam que em todas as épocas existiu a igreja de Deus “visível”. A exemplo das sucessivas reformas, cada etapa passou o bastão à próxima, e cremos que na atualidade a igreja visível está descrita em Apocalipse 12:17, um povo que está sendo perseguido pelo dragão por duas razões especiais: (1) guarda os mandamentos de Deus e (2) tem o dom profético (Espírito da Profecia).

3. Você acredita que Jesus é o Arcanjo Miguel?

Assim como acredito que Jesus era cem por cento humano, e que se me perguntassem: “Você acredita que Jesus é homem”, eu responderia “sim”; acredito, sim, que Jesus é o Arcanjo Miguel. Mas isso não significa que estou rebaixando Jesus de Sua divindade. Assim como, ao dizer que Ele é homem (é e não apenas foi, porque conserva Seu corpo humano), não estou deixando de reconhecer que Ele é também cem por cento Deus. Deus-homem, homem-Deus. Um homem perfeito, não moralmente caído, sem pecado. O único que nunca pecou, por isso mesmo digno de ser nosso redentor e de nos conceder Sua graça e Seus méritos salvíficos.

Jesus é o Verbo de Deus, aquele que Se manifesta e Se comunica com a humanidade. Antes de encarnar como ser humano, Ele aparecia como o Anjo de Jeová. Isso aconteceu diversas vezes na Bíblia, e os textos deixam claro que esse Anjo era divino (Js 5:13-15, comparar com Dn 12:1 – anjos não aceitam adoração [Ap 19:10]; Gn 16:7-11; 21:17; 22:11, 15; 24:7, 40; 28:12-15; 31:3, 11, 13; 32:22-30 [Os 12:3, 4]; 48:15; Êx 3:2, 4, 7; 3:16-4:17; 14:19; 15:11; 23:20, 21; 32:34; Nm 22:22-36; Js 6:1-4; Jz 2:1, 2; 6:11, 14, 22; 13:3, 13, 22; 2Rs 1:3-6; 1Cr 21:16; Zc 3:1, 2; etc. – compare com 1Co 10:1-4; Gênesis 22 e João 8:56 e 57 falam que Abraão viu o Anjo do Senhor/Jesus e O adorou [pois é Deus] [aliás, nesse texto de João, Jesus é o “Eu Sou”, o mesmo Anjo que em Êxodo 3:2, 13 e 14 tem nome igual]; Juízes 13 conta a história da anunciação de Sansão e em todo o capítulo é o Anjo do Senhor falando, até que no fim [Jz 13:21, 22] o pai de Sansão na verdade diz que eles viram a Deus; Gênesis 35:7 diz que o Anjo do Senhor que lutou com Jacó na verdade foi uma manifestação de Deus [pois era Deus ali]; repito: é importante ler os textos em sua Bíblia).

A palavra “Miguel”, como você deve saber, significa “aquele que é como Deus”. Quem unicamente é assim? Quem é esse Arcanjo Miguel que aparece lutando com Satanás no Apocalipse (Ap 12:7) e sob cuja voz os mortos despertam (1Ts 4:16)? Aliás, de quem é a voz de João 5:28, 29? Jesus pode ser comparado a um anjo, pois anjos não têm natureza caída; assim como pode ser moralmente comparado a Adão antes da queda. Quer “anjo”, quer “homem”, um ser perfeito que Se identifica maravilhosamente com Suas criaturas a ponto de Se comunicar com elas assumindo a forma delas. Esse é o eterno Verbo de Deus! Para quem quiser mais informação, sugiro isto.

Para concluir: Jesus não foi criado; Ele é Deus tanto quanto o Pai e o Espírito Santo. Cremos que Arcanjo seja “apenas” uma designação dada a Jesus nos momentos de batalha, uma espécie de “nome de guerra”. A Bíblia apresenta diversos nomes para Deus Pai, pois um único nome seria limitador demais para representá-Lo. De igual modo, Jesus possui muitos nomes, dentre eles o de Miguel, que retrata justamente Seu caráter divino.

4. Você acredita que Jesus foi completar Sua obra em 1844?

Acredito que Jesus cumpriu todo o ritual prefigurado no santuário terrestre (Hb 8:5-7). Jesus é nosso sumo sacerdote, como deixa claro o livro de Hebreus. Ele é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Na cruz Jesus foi imolado como nosso substituto, à semelhança do que ocorria com os animais no ritual judaico. Por isso mesmo a cortina do templo se rasgou de alto a baixo (Mt 27:51, 52), indicando que o santuário terrestre e as cerimônias realizadas ali não mais teriam validade, já que o verdadeiro Cordeiro havia morrido no altar chamado cruz.

No ritual judaico, uma vez por ano havia a purificação do santuário dos pecados simbolicamente acumulados ali. Quando, no verdadeiro santuário (o celestial: Hb 9:24; Ap 11:19), isso aconteceu? Quando o santuário celestial começou a ser purificado? Aqui seria importante um estudo de Daniel 8 e 9, de uma profecia surpreendente que indica esse “quando” (clique aqui).

O santuário celestial precisa ser purificado porque há pecados registrados em livros ali (Ap 20:12) e cada pessoa precisa ser julgada com base nesses registros (Ec 12:14; Rm 14:10; 2Co 5:10). Creio que Jesus cumpriu na cruz Sua missão de redimir a humanidade, e que ao ascender ao santuário celestial (At 1:10, 11) Ele continua Sua obra intercessora em nosso favor, agora aplicando ao arrependido os méritos de Seu sangue derramado no Calvário. Em 1844, conforme a profecia de Daniel, Ele começou o chamado juízo investigativo e a purificação do santuário.

Resumindo: a obra expiatória de Cristo foi completa na cruz. Ele pagou o preço total e completo, não deixando nada para pagar depois. Lembre-se do que acontecia no Antigo Testamento, no santuário do deserto, quando o pecador arrependido ia até o santuário levando sua oferta pelo pecado. O pecador confessava o pecado com a mão na cabeça do animal e o sacrificava. A partir dali o pecador estava livre do pecado e ia embora tranquilo, pois havia feito o pagamento (expiação) pelo seu pecado.

A diferença na crença adventista é que entendemos o que o sacerdote fazia depois de o pecador ir para casa tranquilo. O sacerdote transferia o sangue simbolicamente contaminado com os pecados para o santuário, e no dia da expiação havia uma cerimônia especial em que o santuário era purificado. Entendemos que essas festas, assim como as demais, possuem uma aplicação escatológica. Elas eram sombras de realidades celestiais. Para o pecador arrependido, não muda nada; trata-se apenas uma compreensão mais profunda do que acontece em âmbito celestial.

5. Você acredita que Ele (Jesus) tinha uma natureza caída como a nossa; uma natureza pecaminosa?

Se Jesus tivesse uma natureza caída “como a nossa” não poderia ter sido nosso redentor. A Bíblia é clara em afirmar que Ele nasceu, viveu e morreu sem pecado. A concepção dEle foi milagrosa – já começa aí a diferença. Alguns confundem o fato de Ele ter vindo em uma forma humana “afetada” por quatro mil anos de pecado com a realidade de Ele ser moralmente perfeito e puro, portanto não “infectado” pelo pecado. Jesus sentia fome, frio, estava sujeito a doenças, como qualquer um de nós e diferentemente de Adão antes da queda. Mas, moralmente falando, Ele não tinha nada a ver com Satanás (Jo 14:30).

6. Você acredita que Ele (Jesus) não é o Todo-poderoso?

Se eu não acreditasse que Ele é o Todo-poderoso Deus (Jo 1:1-3) realmente seria um herege, já que essa crença é uma prova fundamental de que alguém é cristão (1Jo 4:3). Quando afirmamos que Miguel é um dos nomes de Jesus (e Ele tem vários), não estamos com isso dizendo que Ele seja um anjo criado ou algo assim, como creem os antitrinitarianos. Veja o que escrevi sobre a Trindade aqui; e sobre a divindade dEle aqui e aqui.

7. Você acredita que o selo de Deus na vida de um cristão é a guarda do sábado?

A Bíblia menciona pelo menos dois selos: o do Espírito, aplicado na vida do crente convertido, como penhor (2Co 1:22; 5:5; Ef 1:13, 14; 4:30), e o sábado, que identifica aqueles que reconhecem a Deus como Criador (Êx 20:12, 20; Êx 31:13-15; Is 8:16; Ap 7:3). Veja este vídeo.

O sábado aparece como selo de distinção, de sinal entre Deus e Seu povo (Ez 20:12, 20). O povo de Deus era diferenciado de todos os outros povos especialmente pela observância desse mandamento (que traz as características de um selo antigo: nome da autoridade que sela, cargo e jurisdição dela; leia Êxodo 20:8-11 e verá essas características ali). Mas o sábado só assumirá novamente o papel descrito em Ezequiel, de forma a mostrar quem é o povo de Deus, apenas nos dias dos 144 mil. Atualmente ele ainda não assumiu a característica decisiva de selo (Ap 7:1-3).

8. Você acredita que todos os que não guardarem o sábado vão receber a marca da besta?

Acredito que todos os que se rebelam conscientemente contra a lei de Deus terão que dar contas a Ele. Acredito que todos os que adulteram, mentem, roubam e adoram imagens, uma vez que tenham a consciência despertada para o seu pecado e não se arrependam, continuando obstinadamente no pecado, acabarão se perdendo. A salvação é pela graça, pela fé nos méritos de Cristo. Mas a forma como vivemos demonstra se valorizamos ou não essa salvação. “Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos” (Jo 14:15). “Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2:12).

O rebelde consciente mostra que não ama seu senhor. Note que estou sempre enfatizando a consciência. Há pessoas sinceras em todas as religiões e fora delas. Creio que Deus julgará cada um segundo a compreensão que teve da verdade que lhe foi revelada ou que lhe esteve ao alcance. Haverá no Céu pessoas sinceras de todos os credos, salvas pela graça de Cristo. Mas pouco antes de Jesus voltar todas as pessoas terão a chance de conhecer mais claramente a vontade de Deus e Seus reclamos quanto à lei que Ele mesmo escreveu com Seu dedo (Êx 31:18).

9. Você acredita que Satanás é o bode emissário, conforme Levítico 16?

De novo temos que voltar ao ritual do santuário para compreender essa questão. Uma vez por ano (no Dia da Expiação) um bode era sacrificado pelos pecados de todo o povo e para a purificação dos pecados simbolicamente registrados no santuário. Depois desse sacrifício os israelitas eram declarados perdoados e o sumo sacerdote os abençoava (leia Levítico 16 em paralelo com Hebreus 9). O outro bode não era sacrificado. Os pecados do povo eram confessados sobre a cabeça dele e ele era enviado para morrer no deserto; repito: sem derramamento de sangue. Hebreus 9:22 diz que sem derramamento de sangue não há remissão de pecados e Levítico 16 deixa claro que o bode Azazel era enviado para morrer no deserto depois que a expiação (perdão) havia sido concluída.

A quem esse bode representa, então? (1) Um bode cujo sangue não era derramado, (2) que morria depois da expiação e (3) que “carregava” os pecados já perdoados, representando o culpado por eles, morrendo no deserto (Apocalipse 20 mostra quem estará acorrentado no deserto). Por tudo isso não posso acreditar que esse bode seja Jesus (seria até uma blasfêmia). Jesus é o bode que morre, que derrama o sangue para salvar os pecadores a quem Lúcifer tentou ao pecado.

Mais detalhes aqui.

Prezado J., quero aproveitar para comentar sua resposta à minha pergunta “O que caracteriza uma igreja cristã?” Você escreveu:

“Uma igreja cristã crê que a salvação está em Cristo e não em uma igreja. Ela crê que Jesus é Deus Todo-poderoso e não um anjo que tinha uma natureza caída como eu. Ela crê que Ele completou Sua obra na cruz do Calvário, quando disse ‘Está consumado!’ Ela é uma igreja centralizada na Bíblia como única regra de fé e pratica; não acredita que precisa de profetas para interpretar as Escrituras. Crê na doutrina da Trindade. Crê na humanidade de Jesus e em Sua ressurreição física. Crê no Espírito Santo como Deus e uma pessoa. Crê que somos salvos pela fé, por meio da graça de Cristo. Crê no sacrífico de Cristo como sendo suficiente para perdoar nossos pecados. Crê que o Espírito Santo é o selo de Deus na vida de um cristão e não a guarda de um dia. Esse é um resumo do que é uma igreja cristã.”

Bem, se você leu com atenção minhas respostas às suas perguntas acima, pode parar de considerar a Igreja Adventista uma seita e chamar os adventistas de seus irmãos, como eles o chamam. Mas, para ficar bem claro, aqui vão meus comentários:

“Uma igreja cristã crê que a salvação está em Cristo e não em uma igreja.” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Ela crê que Jesus é Deus Todo-poderoso e não um anjo que tinha uma natureza caída como eu.” A Igreja Adventista crê exatamente assim. (Só um detalhe: anjos de Deus não têm natureza caída. Esses são os anjos rebeldes expulsos do Céu.)

“Ela crê que Ele completou Sua obra na cruz do Calvário, quando disse ‘Está consumado!’” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Ela é uma igreja centralizada na Bíblia como única regra de fé e pratica; não acredita que precisa de profetas para interpretar as Escrituras.” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Crê na doutrina da Trindade. A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Crê na humanidade de Jesus e em Sua ressurreição física.” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Crê no Espírito Santo como Deus e uma pessoa.” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Crê que somos salvos pela fé, por meio da graça de Cristo.” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Crê no sacrífico de Cristo como sendo suficiente para perdoar nossos pecados.” A Igreja Adventista crê exatamente assim.

“Crê que o Espírito Santo é o selo de Deus na vida de um cristão e não a guarda de um dia.” A Igreja Adventista crê que o Espírito Santo é o selo como penhor na vida do crente, e que o sábado do quarto mandamento será o selo de identificação dos crentes que decidirem não adorar a besta e seu sistema religioso corrompido. Um selamento que ainda está no futuro e que depende de uma compreensão mais ampla do assunto.

“Esse é um resumo do que é uma igreja cristã.” Em resumo: a Igreja Adventista do Sétimo Dia não é uma seita.

Michelson Borges

Apocalipse: O Evangelho de Patmos

leao[Pelos próximos três meses, os adventistas do sétimo dia em todo o mundo estarão estudando novamente e com mais atenção o importante livro do Apocalipse, com a ajuda da Lição da Escola Sabatina, desta vez escrita por um dos maiores especialistas da igreja no tema, o Dr. Ranko Stefanovic. Para ajudar nesse estudo e fornecer um material de apoio especialmente aos professores da Escola Sabatina, estarei postando todas as semanas um pequeno texto e as perguntas para discussão e aplicação preparados pelo pastor Natal Gardino. Ele é doutor em Ministério pela Andrews University, foi aluno do Dr. Ranko e é distrital em Jardim Iguaçu, Maringá, PR. Faça bom proveito deste material. – MB]

Professores da Escola Sabatina, lembrem-se de que o “muito falar” não é tão efetivo para que a sua classe possa aprender. O melhor meio é o de fazer perguntas reflexivas, pois elas levam os membros a pensar, interagir e aplicar os princípios à vida prática. Há alguns pontos da lição desta semana que exigem explicação, mas tente ser o mais breve e objetivo possível. Uma dessas explicações necessárias é o fato de que existem basicamente três tipos de interpretação para as profecias do Apocalipse:

  1. Preterista – Essa interpretação ensina que tudo já aconteceu e João estaria apenas “relatando” a história passada em forma de símbolos para que os romanos não entendessem. Nós, adventistas, não aceitamos essa forma de interpretação.
  2. Futurista – Essa interpretação ensina que a maior parte dos eventos ainda vai acontecer no futuro, logo após um suposto “arrebatamento secreto” da igreja. Obviamente, nós não aceitamos essa ideia também.
  3. Historicista – Essa interpretação é a que defendemos por ser a mais coerente e bíblica. De acordo com essa forma de interpretação, as profecias acontecem ao longo da história, desde o tempo do profeta até a volta de Jesus e além (ex.: as sete igrejas, os sete selos, as sete trombetas, etc.). Assim, o livro faria sentido para os leitores cristãos de todos os séculos, não apenas para os do tempo do fim.

Detalhe: Daniel era historicista (Dn 9:2); o anjo Gabriel usou a interpretação historicista (Dn 8:20, 21). João também (1Jo 4:3). Assim como Jesus igualmente a usou (Mc 13:14). Por isso nós também a usamos.

As visões do Apocalipse foram escritas para os “servos de Deus” (1:1), por isso os símbolos só podem ser entendidos por eles, pois são baseados na própria Bíblia, especialmente no Antigo Testamento. Quem não é servo de Deus não estuda a Bíblia e, consequentemente, não pode decifrar os símbolos do Apocalipse.

Perguntas para discussão e aplicação:

[As perguntas a seguir serão muito mais proveitosas se você tiver antes estudado sua Lição da Escola Sabatina.]

Que tipos de ideias e sentimentos a palavra “Apocalipse” provoca nas pessoas? Por que geralmente são ideias negativas? Como isso pode ser mudado?

Se a palavra “Apocalipse” significa “Revelação”, por que o livro está em forma de símbolos? Por outro lado, o que aconteceria com esse livro se, ao invés de usar figuras como Babilônia ou bestas-feras, João escrevesse claramente sobre o caráter e as ações de Roma?

De acordo com 1:1, por que o livro do Apocalipse foi direcionado especificamente para “os servos de Deus” e com que propósito? O que isso tem a ver com o fato de que a própria Bíblia é a chave para a interpretação dos seus símbolos?

Quais são os perigos quando as pessoas dão suas próprias interpretações aos símbolos do Apocalipse?

Conforme Mateus 24:25; João 14:29 e Apocalipse 22:7, qual é (ou quais são) o(s) propósito(s) de Deus aos nos revelar o futuro? Entretanto, de acordo com Deuteronômio 29:29, por que algumas coisas não nos são reveladas?

De que forma o livro do Apocalipse é uma continuação dos quatro Evangelhos? O que Jesus está fazendo agora no Céu? Como esse conhecimento nos traz conforto e segurança?

De acordo com 1:7 e 8, qual é a nota tônica do livro do Apocalipse? Por que isso é tão importante?

Leia 22:7, 12, 20. Em sua opinião, por que Jesus é tão enfático na expressão “venho sem demora”? Qual o significado dessa expressão, sendo que já se passaram cerca de 2.000 anos?

Se Jesus é o personagem central do livro, qual é o grande problema dos filmes e das explicações modernas sobre o Apocalipse em que Ele não aparece ou em que Ele é apenas um “figurante”?

Note que a típica saudação “graça e paz”, dada no início das cartas da época, neste livro (1:4, 5) é dada pelas três pessoas da Trindade. O que isso significa para você ao iniciar esta jornada de estudo?

Três perguntas que “matam” o antitrinitarianismo

Todos esses movimento novidadeiros de suspostos reavivalistas da fé na verdade não reavivam é coisa nenhuma. Dirigi certa vez três perguntas a um adepto dessas novas ideias de descrença na Trindade:

1. Em que essas noções antitrinitarianas o ajudaram a crescer espiritualmente, tornando-o um cristão melhor?

2. Em que essas noções antitrinitarianas têm ajudado a Igreja a ser mais unida e a refletir mais amor de uns para com os outros?

3. Em que essas noções antitrinitarianas podem contribuir para apressar a pregação mundial do evangelho, que é o grande desafio para a Igreja – cumprir Mateus 24:14?

Ele admitiu candidamente que não saberia dizer em que tais noções o ajudaram a tornar-se um cristão melhor, a unir mais a Igreja e levar os membros a terem mais amor uns pelos outros, nem como contribuiria para apressar a terminação da obra de evangelização mundial e a volta de Cristo.

Então, uma pergunta final: Para que esse empenho todo, que a nada leva de construtivo?

Azenilto Brito

Atos 2:42-47 defende o socialismo?

jesus marxEstá cada vez mais fácil encontrar pessoas, muitas vezes sinceras, acreditando que o socialismo pode ser encontrado na Bíblia Sagrada. Um dos argumentos principais consiste na utilização do texto do livro de Atos, capítulo 2, versos 41 a 47, que seria um “suposto” apoio a esse pensamento. O texto completo é este: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.”

Neste texto, estão listadas as três principais razões pelas quais o livro de Atos não pode ser um indicativo ou algum tipo de apoio para o socialismo dentro do cristianismo. De forma alguma os apóstolos estariam prescrevendo alguma norma de conduta para as sociedades cristãs posteriores.

1. Acreditar que Atos dá suporte à ideologia socialista é um anacronismo.

Como se sabe pela História, 18 séculos separam o socialismo do Novo Testamento! O Dicionário de Política de Norberto Bobbio diz o seguinte: “Em geral, o Socialismo tem sido historicamente definido como programa político das classes trabalhadoras que se foram formando durante a Revolução Industrial” (fim do século 18 e começo do século 19).

O significado vulgar de socialismo é a “estatização dos bens e meios de produção”; e algumas pessoas adicionam ainda a expressão “numa sociedade sem classes”. Há dois tipos de socialismo, basicamente, nos quais se caracterizam duas ideias principais: o socialismo utópico e o socialismo científico.

“Socialismo utópico” tem esse nome por causa da obra de Thomas More, Utopia, em que o autor propõe uma sociedade harmônica, justa e contrapondo as sociedades injustas. A principal linha de pensamento do socialismo utópico é idealizadora, justa e igualitária, em que se alcançaria o progresso por meio da razão e do interesse comum sem, necessariamente, uma luta de classes. A característica utópica se dá devido à impossibilidade de alcançar tal sociedade. Seus principais pensadores foram o inglês Robert Owen e os franceses Saint-Simon, Charles Fourier, Pierre Leroux e Louis Blanc, na transição entre os séculos 18 e 19.

O “socialismo científico” ou “socialismo marxista” foi desenvolvido pelos prussianos (atual Alemanha) Karl Marx e Friedrich Engels, no século 19. Ao contrário do idealismo do socialismo utópico, o socialismo científico tinha como principal ideia a crítica ao sistema capitalista. Era necessário aprofundar as análises políticas, econômicas e sociais para então propor mudanças concretas na sociedade. Seu foco era na luta de classes (visão do patrão explorador e do empregado explorado), na mais-valia, na divisão do trabalho e na produção de capital.

A doutrina política de Marx (falecido no fim do século 19) fundamenta-se no materialismo dialético e histórico. Denomina-se materialismo porque seus conceitos diretivos são de conteúdo material; é dialético porque se apoia no método dialético de Hegel, no que tange à evolução dos fenômenos sociais; enfim, qualifica-se como histórico porque os princípios do materialismo dialético são aplicados à evolução dos fatos sociais e à política dos povos no decurso da marcha do tempo.

Se não bastasse o monstruoso intervalo de tempo entre os dois momentos históricos, o que já categorizaria o anacronismo evidente, podemos elencar outra disparidade entre essas ideologias e o texto bíblico no que se refere ao tempo do eventos mencionados: não havia concordância entre os apóstolos e o Império (“Estado”), primeiro porque não era intuito de unir a comunidade Cristã com o império Romano; e segundo porque não havia o Estado como o concebemos hoje e a favor do qual Marx pretendia estatizar os meios de produção.

Mesmo que houvesse o Estado moderno, ainda assim seria impraticável no socialismo porque a autoridade do Estado provém de Deus (como explícito em Romanos 13:1-7, 1 Pedro 2:13 e na conversa de Jesus com Pilatos, em João 19:10, 11), e poderia ter sido estabelecido por conta do pecado da humanidade, embora não fosse plano de Deus original (como descrito nos capítulos de 12, 24 e 26:9-11 de 1 Samuel, e o primeiro capítulo de 2 Samuel).

Embora todo o esforço desses pensadores em criar uma sociedade com oportunidades iguais a toda população e manter certo controle social, a verdade é que a História mostra que os governos socialistas foram em grande parte ditatoriais e um verdadeiro desastre econômico e político. Liberdades individuais foram suprimidas e as guerras e a fome mataram milhões de pessoas. Estima-se que as mortes foram cerca de cem milhões nestes últimos cento e poucos anos:

URSS: 20 milhões de mortos

China: 65 milhões

Vietnã: 1 milhão

Coreia do Norte: 2 milhões

Camboja: 2 milhões de mortos

Leste Europeu: 1 milhão

América Latina: 150.000 mortos

África: 1,7 milhão de mortos

Afeganistão: 1,5 milhão

O movimento comunista internacional e os partidos comunistas fora do poder levaram dezena de milhões de pessoas à morte. Isso mostra que, sim, o socialismo falhou e continuará falhando.

O que esse banho de sangue tem que ver com o livro de Atos capítulo 2? Absolutamente nada! Nem de perto podemos comparar a Bíblia com a ideologia socialista. São coisas completamente diferentes.

3. O texto de Atos 2 não é prescritivo.

Quando lemos o livro de Atos devemos ter em mente que estamos tratando de um livro histórico. A seguir você lerá uma pequena parte de um artigo do teólogo brasileiro Wilson Paroschi:

“A rigor, conforme o próprio Lucas afirma (At 1:1-5; cf. Lc 1:1-4), Atos é um documento histórico e, como tal, narra o desenvolvimento da igreja apostólica nos primeiros trinta anos após a ascensão de Cristo. Em muitos círculos eclesiásticos e evangelísticos, porém, predomina a crença, explícita ou implícita, de que esse livro consiste verdadeiramente numa espécie de manual da igreja ou manual de evangelismo, com orientações e exemplos práticos que, se forem seguidos à risca, produzirão os mesmos resultados. […] Cuidadosa análise da evidência, porém, parece apontar para outra direção. Em primeiro lugar, convém observar que, ao descrever a história da igreja primitiva, Lucas não registra somente os triunfos e sucessos dos apóstolos, mas também seus erros e retrocessos.”

“Em Atos, não encontramos apenas uma sucessão de experiências e relatos positivos que culminam com o evangelho sendo pregado destemidamente e sem qualquer impedimento até mesmo em Roma, no coração do Império (At 28:30-31). Ali também estão registradas inúmeras situações negativas envolvendo diretamente os apóstolos, suas decisões e atitudes.

“Exemplos disso são a negligência para com as viúvas helenistas (6:1), o preconceito e a reticência deles diante da pregação aos gentios (10:1–11:18), a desavença entre Paulo e Barnabé (15:36-40), a transigência de Paulo para com a lei cerimonial (21:17-26) e sua opção por ser julgado em Roma (25:9-12), o que se revelou um grave erro estratégico (cf. 26:30 32). Há também duas outras experiências que se revelaram particularmente negativas: a crença na volta imediata de Jesus e o consequente arrefecimento do fervor evangelístico logo após o Pentecoste.

“A perspectiva evangelística predominante na tradição judaica, tanto no Antigo Testamento (Sl 22:27; Is 2:2-5; 56:6-8; Sf 3:9-10; Zc 14:6) quanto na literatura intertestamentária (Tob 13:11; T. Ben. 9:2; Pss. Sol. 17:33-35; Sib. Or. 3.702-718, 772-776), é a do chamado movimento centrípeto, ou seja, não é Israel que vai às nações; são as nações que vêm a Israel, atraídas pela prosperidade e fidelidade do povo de Deus. E há claros indícios de que, apesar da ordem de Jesus em Atos 1:8, os apóstolos entenderam que, com a pregação no dia de Pentecoste e a conversão de mais de três mil pessoas, a missão deles no mundo já estava cumprida, ou pelo menos substancialmente cumprida.

“Como James D. G. Dunn salienta, o modelo evangelístico que eles conheciam era o que prevalecia no judaísmo de seus dias (cf. Mt 8:11-12; 10:5-6, 23; Mc 11:17) e, no Pentecoste, o mundo todo veio até eles; Lucas menciona mais de quinze diferentes nacionalidades ali representadas (At 2:9-11). O que houve em seguida foi uma diminuição do entusiasmo evangelístico, associado à ideia de que Jesus estaria voltando naqueles dias, como ficara implícito na promessa no dia da ascensão (1:6-11; cf. 3:20-21; Mt 10:23). Foi por isso que eles permaneceram tão firmemente arraigados em Jerusalém e centrados no templo (At 2:46; 3:1; 5:12, 20-21, 25, 42), até porque, de acordo com a profecia de Malaquias (3:1), o templo seria o ponto focal da iminente consumação.

“O elevado senso de fraternidade e comunidade demonstrado pela igreja apostólica logo após o Pentecoste (At 2:44-45; 4:32-35) revela que eles viviam na expectativa diária da volta de Jesus. Posses ou bens materiais perderam o valor. Tudo era vendido e o lucro trazido para um caixa comum para o benefício de todos. Eles não precisavam mais se preocupar com o futuro, pois não haveria futuro.

“A atitude foi louvável, sem dúvida, mas o momento foi errado, ainda que a iniciativa possa ter atendido a algumas necessidades específicas, como a ajuda aos pobres da comunidade de crentes. O espírito de desprendimento e fraternidade que manifestaram é, de fato, o que deve caracterizar o povo de Deus pouco antes da volta de Jesus, mas, naquele momento, representou um retrocesso para a igreja. A igreja de Jerusalém empobreceu (At 11:28; Rm 15:26; Gl 2:10), passou a depender da generosidade das igrejas gentílicas (At 11:29, 30; Rm 15:25, 26; 1Co 16:1-3) e não pôde sequer financiar o evangelismo mundial. Isso coube às próprias igrejas gentílicas (At 13:1-3; 15:35, 36; 2Co 11:8, 9; Fp 4:15-18). Deus permitiu que se levantasse uma perseguição contra a igreja (At 8:1-3) para dispersá-la de Jerusalém e, assim, levá-la a cumprir sua missão mundial (8:4, 5-8, 26-40; 11:19-21).

“Ou seja, é certamente um erro tratar o Livro de Atos como um manual da igreja, e a igreja apostólica como um modelo em tudo para a igreja de todos os tempos e lugares. Ao contrário do que mantém a concepção popular, a igreja apostólica não era perfeita, nem do ponto de vista doutrinário e muito menos do ponto de vista administrativo ou eclesiástico.

“A segunda razão pela qual a igreja apostólica não deve necessariamente ser vista como um modelo em tudo é que ela mesma foi produto de uma época, um lugar e uma cultura específica. A igreja apostólica nasceu no contexto do judaísmo do primeiro século. Ela aparece no cenário bíblico como mais uma dentre as várias denominações ou seitas judaicas da época. Ela teve que lidar com problemas tais como uma expectativa messiânica distorcida, o escândalo da cruz e o legalismo judaico, a inclusão dos gentios e a circuncisão, a idolatria no mundo greco-romano, filosofias pagãs, enfim, uma longa lista de problemas, quase todos muito diferentes dos nossos. É por isso que muito cuidado deve ser tido na hora de apontar os elementos prescritivos no Livro de Atos. Não é só abri-lo e achar que, porque foi assim no passado, tem que ser assim no presente. […]”

Voltei. Gostaria de enfatizar dois pontos importantes: primeiro, é que a empolgação da comunidade se dava exclusivamente pela promessa da vinda de Jesus, pela crença de que o pecado e a morte teriam fim e, finalmente, eles estariam para sempre com Jesus Cristo. O movimento cristão não se manteve unido e motivado no início por conta do ideal revolucionário de transformação social. Eles não estavam ali para reivindicar direitos humanos ou qualquer coisa do tipo. Apenas a alegria do evangelho que os motivava a ficar unidos.

Segundo, é que quanto à distribuição financeira e a comunhão de bens, a comunidade veio à falência pouco tempo depois! Agora veja: se os ideólogos modernos do socialismo procuram encontrar em Atos indícios de modelo econômico para comunidades locais, o que, de fato, eles encontrarão é o modelo ideal de como não distribuir renda e como chegar à falência!

3. Um cristão não pode ser socialista.

Certamente alguém falará que temos, como cristãos, uma função social importante. Isso é verdade e Cristo assim nos ensinou. Porém, existe um abismo entre ajudar o próximo e ser praticante do socialismo coercitivo (comunismo) que usa o aparelho estatal com mão de ferro para saquear a população e definir cada aspecto de sua vida. São ideologias nefastas que a história nos conta com desprezo. Infelizmente, ainda no Brasil poucas pessoas conhecem a história cruel e genocida dessas ideologias.

Considerando isso (e mais vários outros motivos não tratados neste texto), pode-se chegar à conclusão óbvia de que um cristão de verdade, que aguarda a vinda de Cristo, jamais pode perder tempo com essas ideologias ateias e fracassadas. Devemos lembrar sempre que este “Estado” é passageiro, mas o Reino de Deus é eterno.

Referências:

BOBBIO, NORBERTO;  MATTEUCCI, NICOLA ; PASQUINO, GIANFRANCO. Dicionário de Política. 11. Ed. Brasília: Editora UNB, 1998. (Volume 1).

BUKHARIN, NIKOLAI, ABC do Comunismo, Edipro, São Paulo, 2011.

ENGELS, FRIEDRICH, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Edipro de Bolso, São Paulo, 2011.

FERACINE, LUIZ, Karl Marx ou a Sociologia do Marxismo, Lafonte, São Paulo, 2011.

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK, JEAN-LOUIS MARGOLIN  et al. O Livro Negro do Comunismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

PAROSCHI, WILSON, “Os Pequenos Grupos e a Hermenêutica: Evidências Bíblicas e Históricas em Perspectiva”, (Engenheiro Coelho, São Paulo, 2009). (artigo aqui). Ou no livro: SOUZA, ELIAS BRASIL (Ed.). Teologia e metodologia da missão: palestras teológicas apresentadas no VIII Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano. Cachoeira: CePliB, 2011).