Spotlight: os abusos que a Igreja quis esconder

spotlightO título do filme não poderia ser mais apropriado: “Spotlight: verdades reveladas.” Trata-se de uma história real e muito triste, mas bem conduzida pelo diretor Tom McCarthy (tanto que merecidamente ganhou o Oscar de melhor filme neste ano). Outra página negra na história da Igreja Católica é revelada pela equipe de jornalistas investigativos do jornal The Boston Globe, também conhecida como Spotlight. Para quem gosta de filmes de jornalismo, este é um dos bons. A equipe do Globe dá um verdadeiro show de reportagem: consulta muitas fontes, faz ampla pesquisa, ouve, desconfia, gasta sapato e revela muita coragem.

Geralmente, quando se trata de expor e punir “gente grande”, existe temor e a tendência é evitar o assunto. Isso fica claro no filme. Quando sabem que a reportagem da Spotlight vai revelar as entranhas de um comportamento criminoso mantido por muitos padres acobertados pelo arcebispo de Boston, as fontes geralmente ficam com receio – sentem vergonha de se expor, mas têm vontade de que seja feita justiça. Os próprios repórteres experimentam o peso do que estão prestes a revelar, mas vão em frente mesmo assim. O que acontece, depois, é mais um lembrete da relevância do jornalismo responsável e corajoso. De um jornalismo meio raro hoje em dia, mas que enche de orgulho aqueles que ainda acreditam na profissão.

Graças ao trabalho competente e persistente do pessoal do Globe, o drama de inúmeras vítimas (só em Boston foram mais de mil) de padres pedófilos foi revelado e, certamente, muitas vítimas em potencial foram protegidas. Quando ficou evidente que o arcebispo Bernard Law realmente acobertou muitos desses padres, ele renunciou em 2012 (mas ficamos sabendo no texto, no fim do filme, que ele acabou sendo “promovido” a um bom cargo em Roma).

Triste mesmo é acompanhar o depoimento de algumas vítimas desses padres. Via de regra, elas se viam envolvidas por alguém que, para elas, representava o próprio Deus. Mas, depois de abusadas, não apenas perdiam a dignidade, mas a própria fé.

Faço apenas uma ressalva: não seria bom assistir a esse filme com crianças muito pequenas, já que o testemunho de algumas vítimas é bastante explícito. Mas fica a advertência para que os pais e responsáveis ajudem seus pequenos a se prevenir neste mundo mau e a “quebrar o silêncio”, quando o assunto for abuso – exatamente como fez a Spotlight.

Michelson Borges

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A bela Penedo e a romântica casa de pedras

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Penedo: uma cidade que começou sendo colônia finlandesa e que até hoje carrega resquícios disso. Uma cidade pequena e rústica, localizada entre montanhas. Mas é bem movimentada e visitada. O centro lembra um pouco Gramado, no Rio Grande do Sul. Com lojinhas e restaurantes com telhados em forma de “v” de cabeça para baixo. É uma típica cidade “finlandesa”.

Penedo é conhecida como a cidade das trutas e do chocolate. E os chocolates de lá são deliciosos, de todo o tipo que você imaginar. Como fui perto do Natal (em 2015, quando meu pai foi convidado a fazer algumas palestras na região), a cidade estava ainda mais linda, decorada com luzes e guirlandas. A “vila” turística, que é composta por casinhas antigas em estilo finlandês – que na verdade são lojas de roupas, chocolate ou de lembrancinhas –, nos faz praticamente voltar no tempo.

Apesar de ser uma cidade rústica e antiga, é bem agitada. Encontrar um lugar para estacionar é uma tarefa praticamente impossível. Mas Penedo dispõe de pousadas bem tranquilas. Possui um clima agradável e é também uma reserva florestal com uma flora encantadora.

A cidade foi fundada por imigrantes finlandeses. Toivo Uuskallio, o fundador da Colônia Finlandesa de Penedo, conta em seu livro Na Viagem em Direção à Magia do Trópico, que recebeu um chamado para deixar sua terra natal e emigrar para o Sul. Esse chamado chegou de forma misteriosa, à noite, e sem emissário aparente. O chamado era muito forte. E, assim, em meados de 1927, embarcaram para o Brasil Toivo e mais três rapazes, que compartilhavam de seus ideais.

Eles pretendiam viver no longínquo Sul, onde o clima permitia uma vida mais natural, recebendo os benefícios dos raios solares. Também fazia parte de seu programa de vida a alimentação vegetariana e a abstenção de bebidas alcoólicas e café.

Toivo começou a construir com pedras do riacho uma casa que ele chamava de “castelo para sua amada”. Durante 14 anos, construiu a casa com pedras e seixos retirados do riacho.

Toivo casou-se com sua amada e a trouxe para o Brasil. Porém, a moça não acostumada com o clima e a cultura do Brasil, ficou assustada e quis retornar para a Finlândia.

Ainda enquanto construía a casa, Toivo teve contato com um material da Igreja Adventista por meio de um colportor (vendedor de livros religiosos). Ele e mais alguns imigrantes foram depois batizados e se tornaram fieis adventistas.

Hoje a casa de pedras construída por Toivo pertence ao Centro Adventista de Recreação e Treinamento (Catre) de Penedo. Dá para tirar belas fotos na frente da casa que fica à beira da estrada.

Um viagem encantadora e cheia de cultura.

Giovanna Borges

Isaac & Charles: máquina e máquinas

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Vinte anos depois: de volta ao passado

iasd gaspar altoEm 1995, minha esposa (então noiva) e eu passamos alguns dias na casa da família Calson, em Gaspar Alto, SC. Na época, eu estava fazendo pesquisas para concluir meu TCC sobre a chegada do adventismo ao Brasil, com o qual eu obteria o diploma de bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (em 1996). Foram dias muito agradáveis e de muito aprendizado. Tive a oportunidade de conhecer lugares históricos significativos e de entrevistar descendentes de pioneiros ainda vivos na época. Eu era relativamente novo na Igreja Adventista. Fazia apenas quatro anos que era batizado, e ter contato com a linda história da chegada da mensagem adventista ao nosso país reafirmou minha fé e minha convicção de que esse movimento é conduzido por Deus (veja este vídeo que conta parte dessa história).

Antes mesmo de um missionário ou pastor adventista pisar em nosso solo, as publicações produzidas pela Igreja estavam cumprindo sua missão (trabalho há 20 anos numa editora adventista, e isso me enche de alegria!). Pessoas sinceras passaram a ler livros e folhetos enviados de graça e que tratavam de assuntos como a volta de Jesus, a vigência do sétimo dia como repouso sagrado, o estilo de vida saudável para melhor servir a Deus, entre outros temas. A partir daquele pequeno vale entre montanhas, os primeiros missionários saíram para conquistar o Brasil e fazer dele um dos países com a maior população adventista. Foram dias de bênçãos, alegrias, lutas, suor e lágrimas. Dias que não podem ser esquecidos e histórias protagonizadas por pessoas cuja memória tem que ser preservada.

Fazia tempo que eu queria voltar a Gaspar Alto e reviver tudo isso. Fazia tempo que minha esposa e eu queríamos reencontrar o bondoso casal Calson que não apenas nos hospedou, mas me ajudou a obter as informações de que eu precisava para minha pesquisa (material que resultou, pouco tempo depois, na publicação pela CPB do livro A Chegada do Adventismo ao Brasil, no qual estou trabalhando para uma futura reedição).

No dia 4 de janeiro de 2016, conseguimos matar a saudade. Fomos a Brusque e tiramos algumas fotos do casarão do século 19 dentro do qual foi aberto o pacote contendo as revistas Stimme Der Wahrheit, a primeira literatura adventista a chegar ao Brasil. Em seguida, subimos a Gaspar Alto e visitamos o pequeno museu ao lado da igreja, entramos no templo e depois fomos ao “Cemitério da Esperança”. Mais uma vez me senti inspirado com o que vi, e senti o “sabor” de voltar no tempo: vinte e um anos e cento e vinte anos atrás. O tempo ali parece ter parado…

No cemitério estão sepultados os pioneiros que pediram para ficar com os túmulos voltados para o Oriente, pois a primeira coisa que querem ver após ressuscitados é justamente a nuvem de anjos que rodeia o Salvador Jesus. Ou seja, mesmo depois de mortos, esses homens e mulheres valorosos ainda “falam” da fé e da esperança pela qual viveram e na qual morreram.

Quero muito conhecer essas pessoas quando Jesus voltar!

Michelson Borges

Deus não tem religião?

1a9f58df-5279-4094-9af5-4a91fb224feaRecentemente, durante uma missa, o padre Fábio de Melo exortou os fiéis a não terem medo do mal, e disse também: “Com todo respeito a quem faz macumba, pode fazer, pode deixar na porta da minha casa, se tiver fresco a gente até come.” O vídeo da missa repercutiu na internet e o babalaô Ivanir dos Santos resolveu notificar judicialmente o padre pela declaração. Melo rapidamente pediu desculpas por meio de uma nota: “Apenas expressei, durante uma celebração cristã, convicções cristãs. Peço perdão aos que se sentiram ofendidos”, disse ele. Só para esclarecer, um despacho de macumba pode ser considerado um tipo de ritual em oferenda a algumas divindades de origem afro-brasileira.

O Frei Betto, conhecido defensor da marxista Teologia da Libertação, colocou sua colher no angu. Ele questionou: “Qual a diferença dos despachos de macumba com as salas de ex-votos nas igrejas? Não seria também mera superstição ofertar à Nossa Senhora ou ao santo protetor réplicas em cera de órgãos e membros cujas curas são atribuídas a milagres ou intervenção divina? Lembro que na minha paróquia, quando eu era criança, havia cofres para recolher ofertas em dinheiro. Um deles continha a placa ‘Para as almas’. Ainda hoje me pergunto como as almas embolsavam as ofertas…”

O frei disse mais: “Deus não tem religião. Tanto a galinha da macumba quanto o pão da eucaristia são objetos de fé de quem acredita no caráter sagrado da oferenda. O vinho da missa e a cachaça do despacho dependem da crença dos fiéis.”

Com todo o respeito aos dois padres e aos adeptos das religiões afro, não posso aceitar que se compare o vinho que representa o sangue de Cristo com a cachaça oferecida a entidades da umbanda. Que o Frei Betto queira comparar a macumba com ofertas às “almas”, até vá lá, afinal, são duas coisas que não pertencem ao livro dos cristãos, a Bíblia Sagrada. A Palavra de Deus é muito clara em afirmar que existe apenas um Deus e que Jesus é o único Salvador; que entidades desencarnadas não existem e que é o diabo que se faz passar por pessoas que morreram a fim de enganar os incautos. A galinha da macumba igualmente não pode ser comparada ao pão da santa ceia. O pão representa o corpo de Cristo, nosso único e suficiente mediador.

O problema é que o politicamente correto e o relativismo religioso estão sendo levados a tal extremo que daqui a pouco teremos que pedir perdão por pregar as verdades da Bíblia – aliás, pedir perdão por dizer que a Bíblia é a verdade. Evidentemente que devemos ter respeito por todas as religiões e jamais tratar qualquer ser humano que seja com intolerância e ódio. Não foi isso o que Jesus nos ensinou. Mas não podemos nos calar e deixar de proclamar a mensagem que Deus deixou clara em Sua Palavra.

Deus tem, sim, uma religião. É a religião do amor? Sim. É a religião do perdão? Evidentemente. É a religião do acolhimento e da solidariedade? Claro. Mas é também a religião da verdade na pessoa de Jesus Cristo, o único fundador de religião cuja sepultura está vazia. O único ser que reúne em Si mesmo a divindade e a humanidade. O único que pôde dizer com coragem que é o caminho, a verdade e a vida, o grande Eu Sou, o eterno Criador de todas as coisas (João 1:1-3). E se não fosse tudo isso, seria um louco ou blasfemador.

Igualar Jesus a outros líderes religiosos e o cristianismo a outras religiões é violar a revelação divina feita por meio da Bíblia, de que existe um único Deus criador dos céus e da Terra. Esse Deus ordenou que essa verdade fosse proclamada a todos os povos, e orientou Seus seguidores a estar preparados a dar com mansidão a razão de sua esperança (1 Pedro 3:15). Para um cristão dizer algo diferente disso ele precisa mergulhar até a testa no relativismo e tratar a Bíblia como livro de autoajuda.

Imagine se Jesus e os apóstolos tivessem adotado naquele tempo o relativismo de nossos dias… O cristianismo nunca teria transposto as fronteiras da antiga Palestina. Paulo nunca teria deixado a religião judaica para abraçar o cristianismo. Mágicos e feiticeiros nunca teriam sido condenados e chamados à conversão. E talvez nem os demônios tivessem sido expulsos, pois, afinal, devemos respeitar o satanismo, não é mesmo?

Deus tem, sim, uma religião, criada por Ele, não por seres humanos. Ele quer religar a Si todas as pessoas por meio dessa religião, e quer que todos a conheçam e tenham a oportunidade de pertencer a ela, caso desejem. Deus tem ovelhas sinceras por todos os lados, mas a sinceridade dos adeptos das diversas religiões não faz delas religiões verdadeiras. Nem todos os caminhos levam necessariamente a Deus, embora Ele esteja atuando em todos os caminhos, chamando Seus filhos. O caminho de Deus é estreito, não é o da maioria. O caminho do Senhor é aquele trilhado por pessoas de todas as raças, nações e tribos, os remanescentes que “guardam os mandamentos de Deus e têm a fé em Jesus” (Apocalipse 14:12), mandamentos que dizem claramente, entre outras coisas: “Não terás outros deuses diante de Mim.”

Enquanto os cristãos relativizam a mensagem que deveriam pregar com paixão – a mensagem de um Jesus divino, salvador e prestes a voltar –, a Europa se islamiza e o Ocidente perde a fé e/ou abraça cultos pagãos, espiritualistas, orientalistas. Domesticaram o cristianismo, banalizaram a religião da Bíblia. E o que restou, então? Pedir perdão por pregar a verdade. Pedir perdão por ser cristão.

Michelson Borges

Uma estrada para a reconciliação

Theomistocles“… assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido.” Mateus 6:12b

Um dos temas que mais me tem chamado a atenção nos últimos anos é a luta entre nossas normas culturais e nossa convicção religiosa. Ou, em outras palavras, como nós preferimos na hora de tomar uma decisão seguir os costumes culturais nos quais crescemos em detrimento de nossa convicção religiosa ou daquilo que a Bíblia ensina claramente. Creio que o maior desafio do cristianismo é justamente ser mais forte do que a cultura. Como dizia Heródoto, a cultura é o rei. Por exemplo, na Alemanha nazista, praticamente todas as igrejas cristãs tinham placas nas entradas dos prédios com a frase “É proibida a entrada de judeus”. Porém, aqueles mesmos cristãos “absurdamente” esqueciam o fato de Jesus ser judeu. Portanto, a cultura local da época induzia (ou forçava) as pessoas durante a semana a odiar judeus, mas no fim de semana a adorar um. O mesmo paradoxo “cultura versus ensinamento bíblico” ocorreu durante os anos de escravidão durante os quais os cristãos achavam aceitável que pessoas fossem escravizadas. E mais recentemente nos Estados Unidos, onde afroamericanos eram proibidos de entrar nas igrejas de brancos. O racismo era claro em todos os cantos da sociedade, porém, os mesmos racistas liam textos bíblicos durante seus cultos, como: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

A cultura local vigente cegava naquela época e pode cegar hoje completamente o entendimento ou o desejo de entender ou obedecer às doutrinas bíblicas.

Cristo apresenta em Mateus capítulo 6, no Seu famoso sermão do monte, a oração modelo, conhecida como “Pai Nosso”. Praticamente todos os cristãos conhecem essa oração e grande parte do cristianismo tem como prática decorar esses versos bíblicos. Mas, mesmo assim, palavras como “perdoa as nossas ofensas assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido” tornam-se apenas palavras vazias em nossa boca, especialmente quando permitimos que nossa cultura vingativa e o desejo de executar justiça com as próprias mãos sejam mais fortes que o ensinamento de Cristo.

Tive o privilégio de visitar Ruanda durante o mês de abril com a missão de ajudar uma escola que tenho apoiado financeiramente por meio da organização alemã l’Esperance Kinderhilfe e.V. (www.lesperance.de). Visto que as doações têm diminuído nos últimos anos (o porquê dessa diminuição é assunto para outro texto), minha intenção era ensinar os funcionários assim como os alunos a desenvolver produtos a partir dos materiais disponíveis na escola e então passarmos a comercializá-los gerando renda tanto para os alunos quanto para a escola, transformando-a em uma escola autossustentável.

O que nos surpreendeu e é a razão deste texto foi a coincidência ou providência de chegarmos em abril, justamente o mês em que o povo em Ruanda relembra o genocídio contra os tutsis, que ocorreu em 1994.

No início da década de 1990, Ruanda vivia uma guerra civil. Os hutus (maioria da população) governavam e não aceitavam compartilhar com os tutsis (segunda tribo de Ruanda) a liderança do país. Os tutsis que haviam fugido do país e viviam como refugiados em Uganda haviam organizado um exército, o Rwandan Patriotic Front (RPF), e assim os confrontos haviam-se iniciado entre o governo e o RPF. As agressões foram aumentando e a propaganda de ódio do governo hutu contra os tutsis também se intensificou. Já era possível ler e ouvir palavras nos jornais e rádios como: “Tutsis são cobras… são baratas… devem morrer.” Já era possível ver nas escolas, durante as aulas de matemática, explicações do tipo: “Se há cinco tutsis e você mata dois, quantos restam?” Nos jornais era também possível ler listas com os nomes de tutsis famosos que deveriam morrer.

Todo esse clima hostil teve seu ápice em abril de 1994, quando o presidente (leia-se ditador) de Ruanda, Juvénal Habyarimana, que esteve no poder de 1973 a 1994, morreu quando seu avião foi abatido em Kigali, a capital de Ruanda. A partir daquele momento, a máquina de propaganda do governo anunciava por rádio que os tutsis haviam sido os responsáveis e, portanto, todos os tutsis (não somente os do RFP) deveriam morrer. Para piorar a situação, as estações de rádio espalharam a notícia de que qualquer hutu que matasse um tutsi automaticamente ganharia as posses do morto. A partir daquele momento seguiram-se cem dias de terror durante os quais pelo menos 800 mil pessoas foram assassinadas.

Os hutus estavam tão convencidos de que aqueles assassinatos eram socialmente aceitáveis que naturalmente paravam de matar para ir às igrejas, mas depois da missa ou do culto saíam com facões e machados para continuar assassinando seus vizinhos. Cerca de 50 mil hutus também foram assassinados por se oporem ao genocídio ou até mesmo por simplesmente não mostrarem interesse em matar os tutsis. Quase toda igreja em Ruanda virou memorial do genocídio, pois em praticamente todas elas pessoas foram assassinadas e em inúmeros casos líderes religiosos foram responsáveis por assassinatos em massa.

Tanto as Nações Unidas quanto a França, que poderiam ter feito algo para parar a tragédia, falharam miseravelmente em suas funções e pioraram a situação. Somente quando o exército RPF entrou no país foi possível parar o genocídio. Um novo governo foi formado, dessa vez liderado pelos tutsis. Apesar de os conflitos terem-se estendido por algum tempo, a paz finalmente se estabeleceu. E a partir daquele momento algo incrível aconteceu. O novo governo tutsi, que poderia ter usado sua posição para se vingar dos hutus, decidiu adotar uma série de medidas que em minha opinião estão entre as mais avançadas (tanto de um ponto de vista social quanto espiritual) já implementadas por um governo para reconstruir um país. O governo eliminou o divisionismo entre tribos, retirando da identidade das pessoas a referência à tribo à qual pertenciam e anunciando que daquele momento em diante todos seriam ruandeses. Virou crime até mesmo perguntar se uma pessoa era hutu ou tutsi. Os assassinos foram presos, julgados e condenados. Porém, decidiu-se estabelecer uma “estrada para a reconciliação” com base no sistema de justiça tradicional de Ruanda, em que os autores dos crimes deveriam aparecer diante dos familiares das vítimas, admitir os erros e pedir perdão. Apesar de parecer aos nossos olhos algo injusto e obviamente doloroso para as famílias das vítimas, esse programa foi um sucesso. Hoje muitos dos envolvidos nos assassinatos foram restabelecidos às suas comunidades e o país tem sido um exemplo de estabilidade e progresso para a África e para o mundo, mostrando como é possível curar feridas e reerguer uma nação.

Quando Theomistocles, o diretor da nossa escola [foto acima], me explicou tudo isso enquanto viajávamos de Kigali para o oeste do país, onde fica nosso projeto, perguntei se ele chegou a participar de algum desses programas de reconciliação, e ele me disse: “Sim, e eu me encontrei com o homem que matou minha mãe e minha irmã. Ele me disse onde as havia enterrado. Eu o perdoei, desenterrei os corpos dos meus familiares e os enterrei num cemitério.” Naquele momento meus olhos se encheram de lágrimas por estar diante de um exemplo vivo de cristianismo prático no mais profundo sentido da palavra. Enquanto eu me remoía em meus pensamentos e me sentia mal, imaginando a dor que aquele homem passou, também sofria ao refletir no fato de estar muito longe daquele nível de cristianismo.

Um dos pilares do cristianismo é o perdão incondicional, dado justamente àquele que não merece ou nem mesmo reconhece o erro. Várias parábolas de Cristo tratam do perdão. Várias histórias no Novo Testamento são de pessoas em busca do perdão. Uma das frases mais famosas de toda a Bíblia é: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Sem esse perdão estaríamos todos perdidos. Sem esse perdão demonstrado por Theomistocles e tantos outros naquele pequeno país na África, Ruanda provavelmente ainda estaria se banhando em sangue com vinganças sucessivas e sem fim.

Quando vejo cristãos que não perdoam seus cônjuges, filhos, pais, amigos, às vezes por coisas banais, fico me perguntando se eles prestam atenção quando oram o Pai Nosso. Conheço muitos cristãos valentes, inteligentes, eloquentes, fortes, etc., mas conheço poucos que sabem perdoar.

O exemplo de perdão demonstrado pelos ruandeses esmaga qualquer pretensão religiosa que eu tenha, pois o cristianismo é muito mais do que doar uma roupa de que eu já não precise ou perdoar quando o outro lado sinceramente se arrepende e se humilha. O cristianismo vivido e ensinado por Cristo, como descrito nas páginas da Bíblia, quebra barreiras, derruba vícios ou aspectos culturais, por mais enraizados que estejam.

Como é comum em tais viagens, quando vamos ajudar outras pessoas tentando transformar a vida delas, voltamos transformados. Mas eu não imaginava que essa minha visita a Ruanda teria um impacto tão profundo em minha vida e em minha fé. Eu fui para ensinar, mas aprendi que estava diante dos verdadeiros mestres.

Infelizmente, ainda temos uma luta grande dentro de nós a cada dia para evitar que nossa cultura seja mais forte que a ordem de Cristo.

Minha oração é que Deus possa me conceder um espírito perdoador e reconciliador, como mostrado por aquele meu amigo e por tantos outros ruandeses.

Agora me pergunto: O que eu ando fazendo hoje que considero normal, pois faz parte da minha cultura, mas que anda ofuscando as palavras de Cristo? Talvez esse meu comportamento que parece completamente aceitável hoje um dia possa ser motivo de vergonha para os meus netos e para a minha igreja.

(Rivelino Montenegro mora com sua família na Alemanha)

 * As fotos que ilustram este texto são de Jefferson Rodrigues.

Embaixada americana em Jerusalém: profecia cumprida?

embaixada-americana-jerusalem-4Ontem foi inaugurada a embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, em um claro reconhecimento do governo norte-americano de que a cidade é a capital de Israel. A cerimônia atraiu a atenção do mundo todo. O evento foi transmitido ao vivo para milhões e o tom religioso ficou evidente. Dois pastores evangélicos e um rabino fizeram orações de dedicação e pediram a bênção de Deus. Robert Jeffress, pastor da Primeira Igreja Batista de Dallas, mencionou supostas profecias sobre a restauração de Israel em 1948, após quase dois mil anos sem ser contada entre as nações, e encerrou sua fala dizendo: “…em nome do Príncipe da Paz, o nosso Senhor Jesus Cristo.” Obviamente havia muitos líderes religiosos judeus ali, como o rabino Zalman Wolowik, que orou para que mais nações também mudem suas embaixadas para Jerusalém. O pastor John Hagee, do ministério Cristãos Unidos por Israel, encerrou a cerimônia com uma oração, e disse: “Jerusalém é a cidade onde o Messias virá e estabelecerá um reino que não terá fim.”

A decisão do presidente Donald Trump, como era de esperar, teve apoio e manifestações contrárias. Enquanto muitos acham que se trata de uma vitória há muito esperada, outros a consideram um crime e até uma declaração de guerra.

Muitos cristãos ficaram contentes com a mudança da embaixada, pois entendem isso como um passo na direção da construção de um novo templo em Jerusalém. “Se o presidente Trump realmente tiver um chamado semelhante ao do rei Ciro”, escreveu o site Prophecy News Watch, “pode ser que Deus use esse promotor imobiliário transformado em presidente para facilitar o maior desenvolvimento imobiliário dos tempos modernos: a reconstrução do Templo?” Trump tem sido comparado ao antigo rei Ciro porque o governante persa ajudou a restabelecer os judeus em sua terra natal depois de eles terem ficado setenta anos em Babilônia.

Os que ensinam que Israel será um ator importante no cenário do tempo do fim baseiam seu ponto de vista em textos selecionados da Bíblia que falam do respeito de Deus por Israel e de Sua promessa feita a eles por meio de Abraão. O problema com essa interpretação é que ela falha em reconhecer que essas promessas eram condicionais, como fica claro em Levítico 26:27, 31-33, por exemplo. A restauração dependia da fidelidade de Israel a Deus (Jr 7:3).

O Israel político não ocupa lugar central no Novo Testamento. O nome “Israel” é usado como um título para a igreja, não para uma nação. Aqueles que creem em Jesus são os verdadeiros judeus, segundo o apóstolo Paulo: “Os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7). “Nem todos os descendentes de Israel são Israel” (Rm 9:6; veja também Gl 3:27). Não se trata mais da identidade étnica, mas de uma mudança interna: “Não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a operada no coração, pelo Espírito, e não pela lei escrita” (Rm 2:28, 29).

Quanto a um novo templo em Jerusalém, nem Jesus nem os escritores do Novo Testamento previram algo dessa natureza. Muito pelo contrário. Com a morte de Cristo na cruz, a cortina do templo se rasgou de alto a baixo (Mt 27:51), indicando que aquele santuário e as cerimônias que eram realizadas nele não mais teriam validade dali para a frente, afinal, o verdadeiro Cordeiro de Deus havia sido sacrificado. O livro de Hebreus não se concentra em um templo feito pelos seres humanos, mas chama os crentes a olhar para o templo no Céu, onde Cristo ministra como nosso sumo sacerdote (Hb 9:8).

Essa mitologia cristã relacionada com a transferência da embaixada norte-americana e a possível construção de um novo templo em Jerusalém é baseada em uma breve declaração profética de Paulo: “Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, a ponto de se assentar no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus” (2Ts 2:4). Mas quando levamos em conta o próprio conceito de Paulo sobre o templo como metáfora para a igreja, fica claro que essa passagem não está descrevendo um templo literal, mas antevendo a vinda de um falso líder que ganhará influência e desencaminhará muitos cristãos.

Israel como nação tem todos os direitos e responsabilidades de qualquer país e deve ser tratado com justiça, mas sua existência e localização na Terra Santa não se deve à antiga promessa divina. E a mudança da Embaixada norte-americana para Jerusalém não tem qualquer implicação profética. A não ser para aqueles que insistem em uma leitura superficial da Bíblia ou que baseiam sua opinião em novelas neopentecostais.

O detalhe para o qual devemos realmente estar atentos é que Trump tem diminuído cada vez mais a distância entre o Estado e a igreja e vem cumprindo as promessas feitas aos grupos evangélicos que o apoiaram na campanha presidencial e o têm apoiado. Até onde mais Trump estará disposto a ir para retribuir esse apoio? O tempo dirá. [MB]

Leia também: “O que a decisão de Trump sobre Jerusalém tem que ver com as profecias?” e “Crença no fim do mundo pesou na decisão de Trump sobre Jerusalém”