O “PL do poliamor” e a vitória da reação

poliamorSeria votado amanhã (21/8) em Comissão da Câmara dos Deputados em Brasília, DF, um Projeto de Lei (PL) que vinha sendo popularmente chamado de “PL do poliamor”. O PL nº 3369/2015, de Orlando Silva (PCdoB), reconheceria como família “todas as formas de união entre duas ou mais pessoas” e “independente de consanguinidade”. O Projeto, cujo texto pode ser lido aqui, pretendia instituir o “Estatuto das Famílias do Século XXI” e trazia a seguinte justificativa: “Há tempos que a família é reconhecida não mais apenas por critérios de consanguinidade, descendência genética ou união entre pessoas de diferentes sexos. As famílias hoje são conformadas através do amor, da socioafetividade, critérios verdadeiros para que pessoas se unam e se mantenham enquanto núcleo familiar.”

A polêmica foi grande nas redes sociais justamente pelas brechas e más interpretações que o texto apresentava. Talvez seus proponentes não esperassem tamanha repercussão e quisessem aprovar o PL na surdina, mas a sociedade está alerta e a internet veio dar voz às pessoas comuns. A reação veio e, para evitar maiores problemas, o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, Helder Salomão (PT), publicou às 19h24 de hoje uma nota no site da Câmara dos Deputados explicando por que o PL não mais será votado amanhã, e diz que retirou o PL da pauta, a pedido do relator Túlio Gadêlha (PDT), “para aprimoramento de sua redação por meio da elaboração de substitutivo”.

Antes da retirada do projeto da pauta, o deputado Orlando Silva chegou a argumentar que as reações contrárias se tratavam de fake news, no que foi seguido por perfis ideológicos no Facebook e outras redes sociais. Por isso é muito bem-vinda a admissão de que o texto precisa de aprimoramento, pois não estava claro, o que é justamente o que muitos youtubers e blogueiros conservadores e defensores da família tradicional estavam destacando.

A professora de direito da USP e deputada estadual Janaína Pascoal comentou: “Eu não sei o que se pretendeu com o PL 3369/15. Só sei que a redação dá margem a situações bem problemáticas. […] Da maneira como escrito, o texto legal normaliza o incesto e, no limite, pode até favorecer a pedofilia. Acredito não ter sido esse o fim. Mas penso que seria melhor retirar o projeto. Peço, encarecidamente, que os parlamentares federais olhem com cautela.” A advogada e parlamentar teria, também, propagado fake news? Obviamente que não.

O advogado Arthur Albuquerque explica que, “na prática, o projeto traduz-se num reconhecimento de uniões incestuosas entre duas ou mais pessoas, interpretação a que se chega facilmente sem nenhum rodeio, com a simples leitura do teor da propositura”. E diz mais: “Pela ótica jurídica, em rápida análise, percebe-se que a proposta se choca frontalmente com os impedimentos para o casamento elencados no art. 1521 do Código Civil brasileiro, e com a lei nº 9.278/1996. Conflito que certamente é de conhecimento do deputado e de sua assessoria, haja vista sua experiência no Parlamento, o que nos impede de considerar a propositura como mera ingenuidade.”

A jornalista Débora Carvalho diz que “levantar esse assunto é uma questão de responsabilidade, e uma evocação para ficarmos atentos! O texto do referido PL apresenta termos que facilmente podem ser utilizados como ‘brecha na lei’, como dizem os advogados, para que interessados reclamem seu garantido direito de legalizar ‘toda forma de união’ para constituir família ‘independente de consanguinidade’. E isso significa exatamente o que você entendeu: casamento entre parentes próximos, incesto… e todo o resto que você está imaginando. Sendo ou não intenção genuína ou original do autor do PL, o fato em questão é que o texto claramente dá margem para uma interpretação pertinente a casamento incestuoso. Ao fazer uso do contexto ‘todas as formas de união’ para constituir família, vinculada às palavras ‘independente de consanguinidade’, o PL traz, em seu subtexto, uma intenção implícita – e pode confirmar com qualquer professor de redação – de levantar a discussão sobre o incesto e a poligamia, e até mesmo incesto com poligamia.”

A jornalista questiona: “Ao deixar essa lacuna, o PL abriria brechas na lei. Qual foi a intenção de escolher justamente o termo utilizado para casamento? Qual o objetivo de vincular a esse termo as palavras ‘independente de consanguinidade’? Não sejamos tão ingênuos e complacentes a ponto de acreditar cegamente que o subtexto do PL é maldade na cabeça de quem leu, muito menos que a intenção do Projeto seria o de amparar mães solteiras.”

Atualmente, a Constituição Federal prevê o conceito de “família”, em seu artigo 226, como “a união estável entre homem ou mulher e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. No caso de casais homossexuais, a união estável não é reconhecida em lei, mas se trata de um direito garantido na Justiça após decisão do Supremo Tribunal Federal em 2011. Sabendo disso, por que parlamentares experientes tentaram, assim mesmo, aprovar o “PL do poliamor”? Por que usar uma linguagem ambígua em um Projeto de Lei (tão ambígua que agora precisa de revisão)?

Se a intenção era mesmo a de passar despercebido, não deu certo, pois tem gente atenta e fazendo o que todo cidadão pode e deve fazer: cobrar responsabilidade e coerência de seus representantes. Continuemos atentos. [MB]

Leia também: “Especialistas comentam riscos da união poliafetiva”

Religiões do mundo se reunirão em cidade alemã em busca da paz

anelA escultura é bastante evidente. Um anel de madeira de sete metros e meio de altura, entrelaçado várias vezes, sem começo nem fim. O chamado Ring for Peace (Anel pela Paz) ficará alguns dias exposto no Luitpoldpark em Lindau, pequena cidade alemã banhada pelo Lago de Constança. “Ele representa a ideia, a visão e a missão do encontro Religions for Peace (Religiões pela Paz)”, afirma o alemão Ulrich Schneider, diretor da Fundação para os Diálogos de Paz entre Religiões e Sociedades Civis Mundiais. A entidade organiza a 10ª Assembleia Mundial das Religiões pela Paz, que ocorre entre esta terça (20/8) e sexta-feira em Lindau, e terá suas portas abertas pelo presidente da Alemanha, Frank-Walter Steimeier. A Religions for Peace é uma rede global de religiões e comunidades. Segundo Schneider, todas as religiões do mundo estão, de alguma forma, envolvidas nessa aliança criada em 1970.

Há quem compare as reuniões, que ocorrem a cada cinco anos, com a Assembleia Geral da ONU. Desta vez, a grande aliança cívica ocorrerá em uma pequena cidade, bem longe dos grandes centros políticos, acessados mais facilmente. Lindau, porém, se encontra no coração da Europa. A cidade alemã recebe há muitos anos o encontro internacional de vencedores do Prêmio Nobel, oferecendo atmosfera para reflexões intensas e interações entre diferentes culturas.

 O economista Wolfgang Schürer, presidente da Fundação para os Diálogos de Paz entre Religiões e Sociedades Civis Mundiais, é o motor por trás do encontro religioso. “Esperamos que a assembleia mundial dê um impulso com efeito duradouro e que não seja apenas mais uma das inúmeras cúpulas que existem no mundo hoje”, afirma ele à DW. Essas também são as expectativas e esperanças do mundo político, bem como do Ministério do Exterior alemão, que apoia com milhões de euros o evento em Lindau.

Por muitos anos tem havido regiões no mundo onde as instituições políticas são incapacitadas, e apenas forças da sociedade civil – geralmente religiosas – assumem o papel de ajudar aqueles que precisam. Assim ocorre em vilarejos na República Centro-Africana, em partes do Iraque e em campos de refugiados em vários países. “Comunidades religiosas são as maiores instituições da sociedade civil no mundo”, afirma Andreas Görgen, diretor do Departamento de Cultura e Comunicação do Ministério do Exterior alemão. “Muito além de todas as questões de fé, estamos preocupados com sua responsabilidade para com essas sociedades.”

Desde 2018, Görgen tem sob seus auspícios a unidade de religião e política externa do ministério. Em Lindau, ele e seus colegas receberão diplomatas de diversos países europeus, que estarão no evento como observadores. Isso porque em todo o mundo, seja na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos, políticos observam cada vez mais o papel das religiões.

O mundo político enxerga o potencial das comunidades religiosas, mas também quer que elas assumam a tarefa de promover a paz. Em parte, esse será um tema quente em Lindau. A portas fechadas, representantes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte, de Myanmar e de Bangladesh, do Sudão e do Sudão do Sul conversarão uns com os outros. […]

 Também irá a Lindau o cardeal nigeriano John Onaiyekan, que prega em seu país a coexistência entre as religiões, em meio ao terror perpetrado pela organização fundamentalista islâmica Boko Haram. Ao todo, serão mais de 900 representantes de diferentes religiões, vindos de 100 países. Segundo Ulrich Schneider, o objetivo inicial era de que um terço dos participantes fosse do sexo feminino, o que não foi atingido pelos organizadores.

Schneider enfatizou a importância das religiões no mundo todo ao afirmar que 80% da população mundial se descreve como religiosa. “Isso é certamente diferente do que ocorre aqui na Alemanha e demonstra a importância das religiões nos dias de hoje”, observa.

A diversidade de países e religiões vai transformar a pequena Lindau. Os convidados terão a oportunidade de participar de serviços religiosos de crenças diferentes. Na quarta-feira, as igrejas católica e protestante da cidade convidarão representantes religiosos e a população local para comerem juntos em uma grande mesa.

Os alemães esperam que Lindau possa estimular encontros e conversas. O evento deverá resultar não apenas em uma declaração final conjunta, mas também em decisões bastante concretas. Planeja-se a criação de uma iniciativa global pela proteção de locais religiosos, além de um comprometimento conjunto na área acadêmica, visando aumentar a conscientização sobre a violência contra mulheres em conflitos armados.

“Nossa esperança é de que Lindau se torne um local permanente de diálogos inter-religiosos e de impulsos para a paz”, diz Schneider. Assim, quem sabe os representantes religiosos possam voltar ao Lago de Constança daqui a cinco anos.

(Deutsche Welle)

Nota: A pauta religiosa (misturada com política) se torna cada vez mais forte no mundo. A busca pela paz e os esforços para salvar o planeta têm derrubado barreiras. A união de igrejas se torna um alvo cada vez mais alcançável, já que se trata do desejo da maioria dos religiosos “moderados”. Como sempre, ficam de fora os extremistas e fundamentalistas. Muitos paralelos se podem traçar com a recentemente lançada série-documentário da Netflix “The Family”. Em breve, a jornalista e colaboradora Ágatha Lemos escreverá algo sobre isso. [MB]

lindau
A pequena Lindau, no Lago de Constança

Adventistas do sétimo dia e a MP da liberdade econômica (considerações)

Liberdade-Economica[O que você vai ler a seguir não se trata de um posicionamento oficial da IASD, mas de considerações do autor do texto.]

Dentre as 28 crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), uma das que mais se destaca é aquela que diz respeito à vigência do sábado entre os cristãos. Segundo nossa convicção, o dia de sábado deve ser observado pelos seguidores de Cristo ainda hoje. Na prática, isso significa que o trabalho que visa ao autossustento deve ser suspenso nesse dia, como prescreve o quarto mandamento do decálogo (Êx 20:8-11), para que nele sejam feitas atividades de culto e de auxílio aos mais necessitados, exatamente como Cristo fez (Mt 12:12; Mc 2:27; Lc 6:9). Ou seja, nesse dia, devemos descansar de nossas próprias atividades para promover descanso aos outros, aos que mais precisam. Isso condiz exatamente com a santidade desse dia de bênçãos.

Entretanto, um ponto de uma Medida Provisória (MP) de 2019 e de número 881, de autoria da presidência da república, mais conhecida como MP da Liberdade Econômica, tem começado a suscitar dúvidas, anseios, expectativas e até espírito de revolta e indignação entre alguns guardadores do sábado, como os adventistas do sétimo dia. Esse sentimento de apreensão é justificado porque essa MP, de certa forma, fará com que os trabalhadores brasileiros, que em sua maioria gozam de descanso aos domingos (e adventistas aos sábados), agora se vejam no dever de trabalhar nesse dia. Atualmente, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) determina que o descanso semanal deve coincidir com o domingo, no todo ou em parte, além de proibir o trabalho nesse dia e nos feriados, exceto em casos de “conveniência pública ou necessidade imperiosa do serviço” mediante permissão do governo que precisa especificar tais atividades.

No dia a dia das relações trabalhistas até o presente momento, os empregadores não podem exigir trabalho aos domingos de seus funcionários, a menos, é claro, como já dito, que a função ou profissão exercida exija atividades trabalhistas nesse dia. Em casos em que a natureza da atividade não requeira trabalhos dominicais e ainda assim o empregador deseje que seus funcionários trabalhem nesse dia ou em feriados, a remuneração dever ser paga em dobro. O que muitos não sabem, inclusive guardadores do sábado, é que essa regra, em sua essência, não mudou. O que a MP está trazendo de novidade é que os empregadores poderão agora compensar esse pagamento em dobro do trabalho dominical, ou de um feriado, transferindo o descanso semanal do domingo para outro dia da semana. Na prática, essa MP ajudará, e muito, alguns patrões porque ao invés de se verem obrigados a pagar a mais e em dinheiro para que seus funcionários trabalhem aos domingos e feriados (há muitos no Brasil), eles poderão fazer esse pagamento com a oferta de um descanso em qualquer outro dia da semana. Ademais, essa MP também prescreve que a cada três domingos trabalhados, um descanso será obrigatoriamente no domingo.

Com base nisso, pergunto: No que essa MP afeta a vida de guardadores do sábado? Em termos práticos, em absolutamente nada. Aliás, muito pelo contrário, essa MP favorece a observância do sábado porque ela enfraquece o poder de “descanso” do domingo e transfere para qualquer outro dia. Antes dela, por determinação da CLT, ou os patrões pagavam em dobro pelo trabalho dominical de seus funcionários ou não poderiam convocar seus empregados para trabalho nesse dia. Tal realidade levava os patrões a serem rígidos, inflexíveis quanto à liberação do trabalho sabático, porque não tinham opção senão oferecer descanso dominical aos guardadores do sábado, o que do ponto de vista bíblico é irrelevante, já que a Bíblia prescreve o descanso aos sábados e não aos domingos. Com essa nova medida, agora empregadores podem compensar a ausência do trabalho sabático oferecendo trabalho aos domingos sem nenhuma sanção legal ou oneração.

Instituições adventistas nas quais muitas vezes trabalhos aos domingos eram necessários – escolas, por exemplo – por meio de pagamento em dobro pela atividade ou de compensação com certas folgas no calendário, deverão, em tese, funcionar da mesma forma. Escolas adventistas que convocarem trabalhos aos domingos continuarão a enfrentar a mesma dificuldade porque não poderão oferecer como descanso o sábado a seus professores, por exemplo, e, por motivos óbvios, nem nos demais dias da semana que já são, por natureza, dias de trabalho comum. Será difícil imaginar um professor ou pedagogo deixando de trabalhar na segunda-feira numa escola adventista porque foi convocado para trabalhar num domingo para comemorar o dia das mães, digamos.

Só gostaria de terminar ressaltado uma verdade bíblica. Estamos impregnados de uma cultura ocidental cuja base é cristã e na qual o domingo é um dia de descanso em que, normalmente, curtimos a família, seja isso de um prisma religioso ou meramente civil, social. Porém, do ponto de vista da Bíblia, o domingo é só mais um dia de trabalho como todos os outros cinco. Essa alegria que desfrutamos da liberdade do trabalho e do prazer de estar com a família aos domingos, na realidade, pertence ao sábado. O mandamento é claro como a luz do Sol ao meio-dia: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus” (Êx 20:9, 10).

Encerro fazendo um apelo a você: não forme sua opinião política, seja ela qual for, com a leitura de apenas uma única fonte jornalística. Leia ou assista a várias que falem do mesmo assunto e que, de preferência, se alinhem a ideologias antagônicas e conflitantes, porque isso ajudará você a ter uma opinião mais embasada e consistente. Se o seu compromisso for com o que é verdadeiro, então se esforce e busque a verdade de qualquer coisa e em tudo na vida, o que inclui política. E já posso lhe adiantar: dificilmente a verdade será encontrada nas camadas superficiais. A busca por ela demandará escavação, e isso requer esforço. Contudo, portanto, por mais esforço que isso signifique, corra atrás da verdade. O resultado será mais recompensador no final.

Por favor, compartilhe esse texto com todos os sabatistas que ainda não entenderam completamente o assunto. Esse povo precisa ser informado ao invés de formar opinião com base em memes nas redes social.

(Elton Queiroz é formado em Teologia e Filosofia e tem um mestrado em Teologia)

Pastores de Trump chegam a Brasília, e a igreja se aproxima do Estado

bible“Esse estudo não é sobre se Deus aceita ou não uma guerra. Ele aceita”, anuncia o pastor americano Ralph Drollinger, em um dos seus estudos bíblicos semanais, com uma voz emotiva, porém pausada, calculada para que os visitantes de seu site acompanhem o raciocínio. Em seguida, explica que a frase bíblica “Bem-aventurados são os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9) diz respeito apenas a “como os fiéis devem conduzir suas vidas pessoais”. Ou seja: não vale para os governos, que podem, sim, ir à guerra.

Publicado em maio de 2018, aquele “estudo bíblico” tinha razão de ser, segundo o próprio pastor: ajudar os membros do Governo americano a refletir sobre “a ameaça de guerra com a Síria, o Irã e a Coreia do Norte” – movimentos iniciados pelo presidente americano Donald Trump. E convencê-los de que ir à guerra é abençoado pela própria Bíblia. Dias depois, Drollinger seria ainda mais explícito na sua pregação, ao pedir que “você, como servidor público, ajude a reduzir a tendência antibíblica secular em direção ao pacifismo e não intervencionismo! Isso vai levar a um crescente caos global!”

Não foi a primeira vez nem seria a última que o fundador do ministério evangélico Capitol Ministries encontraria na Bíblia uma justificativa para as ações mais radicais do governo Trump. Afinal, o objetivo da igreja fundada por Drollinger é basicamente “converter” políticos e servidores públicos a uma visão cristã evangélica da política que se casa perfeitamente com a visão da ultradireita americana. “Sem essa orientação, é bem mais difícil chegar a políticas públicas que satisfaçam a Deus e sejam benéficas ao progresso da nação”, resume Drollinger em um dos estudos em seu site. […]

A Capitol Ministries – nome que significa “Ministério do Capitólio”, símbolo do Congresso americano – foi fundada pelo ex-jogador de basquete Ralph Drollinger na Califórnia, em 1996, para “criar discípulos de Jesus Cristo na arena política pelo mundo todo”. A ideia do pastor era levar para a política seu trabalho anterior, focado em evangelizar atletas.

Até o ano 2010, seu público eram deputados estaduais; naquele ano, o primeiro ciclo de estudos foi fundado em Washington, no Congresso americano. Mas foi em 2017 que Drollinger deu seu salto para o primeiro plano da política mundial, quando fundou o primeiro grupo de estudos dedicado apenas a membros do Governo de Donald Trump. O encontro semanal, em um local não revelado, reúne dez membros do alto escalão do Governo, incluindo o vice-presidente, Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo, que dirige a política externa. O ex-diretor da Agência de Proteção Ambiental Scott Pruitt, que articulou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, sobre aquecimento global, e já questionou o efeito de emissões de carbono sobre o clima, também chegou a participar.

Muito além de um simples falatório, as pregações de Drollinger têm efeito prático em um Governo que mais de uma vez reconheceu ter sido eleito graças ao voto evangélico. Em junho do ano passado, um de seus sermões foi usado pelo ex-procurador-geral Jeff Sessions para apaziguar os corações dos eleitores quanto à detenção de milhares de crianças imigrantes em péssimas condições na fronteira com o México. “Eu citaria a vocês o apóstolo Paulo e seu comando claro e sábio em Romanos 13, para obedecer às leis do Governo porque Deus ordenou o Governo para seus desígnios”, disse Sessions, invocando a Bíblia, e não a legislação americana, como justificativa. Enquanto a imprensa americana reagia chocada, Drollinger fez questão de expor suas digitais por trás da declaração. […]

Financiada pelo vice-presidente Mike Pence e pelo secretário de Estado Mike Pompeo, segundo afirmou o próprio Drollinger em seu site, a Capitol Ministries também se vale da influência do Governo americano para cumprir sua missão, entre aspas, divina: dominar o mundo. Desde o ano passado, abriu capítulos em cinco países latino-americanos – México, Honduras, Paraguai, Costa Rica e Uruguai –, anunciou que abrirá em outros dois – Nicarágua e Panamá – e acaba de aportar no Brasil, com lançamento oficial programado para a segunda quinzena de agosto no Senado Federal, “sem muita badalação, voltado apenas para autoridades” e “com a presença de Drollinger e sua esposa”, como explicou à Pública o pastor da Igreja Batista Vida Nova, Raul José Ferreira Jr., que será o responsável por conduzir os estudos bíblicos no Senado, na Câmara.

Ele diz ainda que, “se Deus permitir”, vai conduzir também estudos bíblicos na Casa Civil junto ao presidente Jair Bolsonaro e seus ministros, traduzindo as palavras do pastor americano para o presidente brasileiro. “Nós estamos realmente trabalhando firme para que possa haver ao menos um encontro do pastor Drollinger com o presidente Bolsonaro agora em agosto, para que a partir daí a gente possa desenvolver um trabalho. Mas, mesmo que o presidente não esteja entre eles, nós vamos tentar construir um trabalho dentro da Casa Civil, junto dos ministros diretamente ligados ao palácio”, diz.

O objetivo dos estudos bíblicos, que são traduzidos para o espanhol e em breve para o português, é disseminar a visão de Drollinger sobre o cristianismo aplicado à política. “Nossa ideia é chegar a nível de Presidência da República e ministros, primeiro escalão. A gente tem um slogan que é ‘first the firsts’, ou seja, primeiro os primeiros. Através dessas pessoas com relevância a gente pode mudar o destino da nossa nação”, diz o pastor Ferreira Jr., que, indicado pelo diretor regional no Brasil, pastor Giovaldo de Freitas, passou por uma semana de treinamento em Seattle com Ralph Drollinger e sua equipe.

As aspirações da Capitol Ministries no Brasil são ambiciosas, embora o pastor Ferreira Jr. chame de “trabalho de formiguinha”: conduzir, a portas fechadas nos gabinetes, reuniões bíblicas individuais com parlamentares, especialmente os não convertidos, além de reuniões coletivas semanais – e ainda garantir que cada parlamentar do Congresso Nacional receba os estudos impressos, por e-mail e por mensagem no celular. “Nosso objetivo é reconstruir a nação a partir de valores cristãos que são forjados através do estudo da Palavra”, define o pastor. […]

Para Christina Vital da Cunha, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, alguns elementos se destacam nessa chegada do ministério de Drollinger ao Brasil: um deles seria o novo protagonismo político da Igreja Batista, antes vista como mais progressista e também mais afastada da política – ministra Damares Alves é pastora batista, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também, além de outros integrantes do Governo. É o caso da Igreja Batista Vida Nova, de Raul José Ferreira Jr., que liderará os estudos dentro do governo.

“A gente pode observar um elemento diferente do que vinha acontecendo no Brasil desde então, que é uma afinação orgânica entre Estados Unidos e outros países da América Latina a partir desse elemento religioso e que tem na política institucional um lugar importante de atuação. Se vê um alinhamento conservador no Brasil, na América Latina e em outros países no mundo, que nos países da América Latina tem nesses religiosos evangélicos e católicos seus principais atores”, aponta. E chama atenção para a legitimação de um discurso à direita por meio da Bíblia, algo que já tem sido feito em certa medida no Brasil desde a campanha de Bolsonaro. “Outra coisa a se observar é se haverá disputas de poder com instituições já estabelecidas, como a Igreja Universal e a Assembleia de Deus.” […]

Mas não é só de governos orgulhosamente de direita que a Capitol Ministries tem se aproximado. No último dia 19, durante as comemorações dos 40 anos da Revolução Sandinista na Nicarágua, lideradas com pompa por Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, em meio a uma crise política que matou mais de 300 pessoas, levou mais de 500 manifestantes à cadeia e a milhares de exilados, Ralph Drollinger estava lá. Segundo uma nota à imprensa, foi o próprio Ortega quem convidou a Capitol Ministries a abrir o ministério no país. No convite, Ortega declarou: “Sabemos que, se as pessoas a quem Deus confiou o destino da nação nascerem de novo, nossos deputados legislarão de acordo com a Bíblia.” E foi assim que, diante de milhares de pessoas, Drollinger ressaltou os valores cristãos do país e agradeceu a oportunidade oferecida pelo Governo de Ortega. “Eu oro pela sua nação, oro por você, oro pelos líderes do Governo para que todos possamos refletir os atributos de Cristo todos os dias”, disse Drollinger, segundo o jornal oficial La Voz del Sandinismo. […]

Os estudos bíblicos no gabinete presidencial e no Congresso nicaraguense ficarão a cargo de Arsenio Herrera, pastor da maior igreja evangélica de Manágua, Hosanna Church. Herrera foi discípulo do criador da Hosanna, o americano David Spencer, a quem se atribui o feito de ter convertido mais de 500 almas por semana nos primeiros anos da igreja e que, pouco antes de sua morte, recebeu de Ortega e Rosario Murillo a cidadania nicaraguense em honra aos serviços prestados ao povo da Nicarágua.

 (El País)

Nota: Como se pode perceber, tanto a “direitização” da política internacional quanto a aproximação entre o Estado e a igreja são fenômenos mundiais, capitaneados pelos Estados Unidos (bem Apocalipse 13). O objetivo da igreja fundada por Drollinger é basicamente “converter” políticos e servidores públicos a uma visão cristã evangélica da política, que casa perfeitamente com a visão da ultradireita norte-americana. A separação entre o Estado e a igreja, o “empoderamento” do Estado pela religião e a legitimação da vontade humana pela Bíblia ficam cada vez mais claras (bem Apocalipse 13). Uma religião, lembre-se, que tem o domingo como dia sagrado e que advoga o arrebatamento secreto, entre outras coisas. Esse cenário deveria fazer cada adventista sincero refletir profundamente e buscar reavivamento pessoal. Se esse movimento continuar crescendo, uma lei dominical será questão de pouco tempo. Se protestantes e católicos fizerem pequenas concessões, poderão entrar em acordo sobre pontos de convergência, o que será louvado amplamente pelos Estados Unidos e pela Europa. Seria a reconciliação final… É acompanhar para ver no que vai dar (ou melhor: quando vai dar). [MB]

Nota do pastor Sérgio Santeli: “Não vejo problema em divulgar a Palavra de Deus às autoridades. Mas vejo um grande problema quando a Palavra de Deus ensinada está contaminada pela visão da Teologia do Domínio, como é o caso atual dos protestantes conservadores norte-americanos. O pastor Marvin Moore dedicou um capítulo do seu livro Apocalipse 13 a esse tema. Segundo o autor, o principal expoente da ‘teologia do domínio’ foi Rousas John Rushdoony, nascido em 1916, em Nova York, o qual publicou em 1973 uma obra (de 900 páginas) intitulada Institutes of Biblical Law. Ele considerava que as leis do Antigo Testamento ainda seguem vigentes no mundo moderno (com exceção daquelas que o Novo Testamento aboliu especificamente). Baseado no plano de Deus para Adão de que ele exercesse o domínio sobre toda a Terra e sobre os animais (Gn 1:26), Rushdoony transformou essa ideia na grande comissão: os cristãos devem submeter todas as coisas e todas as nações a Cristo e a Sua lei, sendo responsáveis por aperfeiçoar a sociedade, incluindo os governos civis, de modo que Jesus possa voltar. Da mesma forma que o teólogo católico Agostinho, Rushdoony também acreditava que os cristãos terão êxito em converter o mundo, colaborando para a chegada do milênio de paz na Terra. É por isso que, atualmente, os católicos e a direita cristã norte-americana estão agindo politicamente em harmonia – têm o mesmo objetivo. Como se pode perceber, biblicamente falando, a grande comissão de Cristo aos Seus discípulos foi para testemunhar a todas as nações e não para dominá-las (Mt 28:19; 24:14; At 1:8). Nosso mandato é converter (pelo Espírito Santo) pessoas, e não disseminar a Palavra de Deus adulterada na sua essência. Essa Teologia do Domínio está transformando o protestantismo norte-americano em romanismo, na medida que lança as bases para a futura união Igreja-Estado, e o consequente estabelecimento da Lei Dominical, a começar pelos EUA. Quem viver, verá…”

Leia também: “Por que governos de direita e a religião crescem no mundo”

Liberdade religiosa para todos

liberdadeApesar de a liberdade religiosa ser um assunto de grande relevância para todos, poucos são os que se debruçam para entender o seu significado e alcance, especialmente para os tempos em que vivemos e sob a perspectiva adventista escatológica. Não é um tema restrito a advogados, sociólogos ou filósofos. Trata-se de um assunto relacionado a todos os que creem e até àqueles que não creem, e se torna especial e distinto para aqueles que professam a crença nas profecias bíblicas para o tempo do fim.

Liberdade religiosa conceitua-se como o direito de livremente praticar ou expressar uma religião, segundo os ditames de sua própria consciência. Constitui-se como uma questão de foro íntimo, de modo que seu exercício e prática são inerentes ao próprio conceito de dignidade do ser humano, que é o princípio máximo das constituições democráticas de um Estado de Direito. Constituída como direito humano na ordem jurídica internacional e internalizada pelas nações soberanas (como o Brasil), como garantia fundamental, a liberdade religiosa preconiza o direito de consciência, crença, culto e evangelização. A todos é garantido o direito de livremente escolher essa ou aquela religião, e até de não crer, segundo sua livre consciência e convicção. Apenas quando se permite amplo e irrestrito exercício da liberdade religiosa é que se garante a plena concretização da dignidade humana.

A dignidade do ser humano é concebida como o valor máximo inerente ao exercício e a fruição de todos os valores individuais. Segundo o conceito de Günter Dürig (1956), “cada ser humano é humano por força de seu espírito, que o distingue da natureza impessoal e que o capacita para, com base em sua própria decisão, tornar-se consciente de si mesmo, de autodeterminar sua conduta, bem como de formatar sua existência e o meio que o circunda”.

Para o exercício da liberdade religiosa é necessário também um Estado laico, que pode ser definido como a separação absoluta que deve existir entre igreja e Estado. No entanto, não há inimizade entre a igreja e o Estado. Pelo contrário, deve haver uma cooperação recíproca entre ambos para que se concretize plenamente o exercício da liberdade religiosa. O Estado pode subsidiar e promover atividades da igreja que promovam o bem comum, da mesma forma que a igreja pode apoiar atividades do Estado para a promoção dos valores da livre democracia. O que não pode ocorrer é um interferir na nomeação dos líderes do outro e vice-versa, assim como nas regras que ditam a ordem interna de cada qual. Por não ser um “Estado ateu”, o Estado laico defende que haja harmonia entre o exercício da fé e as atividades públicas de interesse social.

O primeiro registro que se tem do termo “liberdade religiosa” é do cristão converso Tertuliano, cidadão romano que viveu entre os anos 160 e 220 d.C., tendo afirmado que “a religião exige, por si só, a recusa a todo tipo de repressão em termos de religião”. Em 13 de junho de 313, o imperador romano Constantino promulgou o Édito de Milão, proclamando que o Império Romano seria neutro com relação à religião e que cada um poderia ter o privilégio de escolher e adorar qualquer divindade que lhe agrade. Surge então o primeiro conceito legal de liberdade religiosa e Estado laico. No entanto, 12 anos após, por meio do Concílio de Niceia, a Igreja começou a perseguir todos aqueles que ousavam discordar de seus dogmas.

Com a Reforma Protestante se iniciam movimentos na busca pela liberdade religiosa e o direto de discordar dos dogmas da Igreja Católica. A Revolução Americana nos Estados Unidos, em 1776, em sua Primeira Emenda à Constituição, trouxe o direito ao exercício da liberdade religiosa e regra de separação entre igreja e Estado, o que influenciou diversas outras constituições democráticas a também tomarem medidas semelhantes.

No contexto da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), as primeiras declarações sobre liberdade religiosa foram proclamadas em 1850, antes mesmo da organização formal da IASD, em 1863. Em 1888, com a proposta de lei do senador americano Henry Blair, que tornaria o domingo dia de guarda religioso (blue law), punindo todos aqueles que ousassem trabalhar nesse dia, teve início um grande movimento na IASD para conter tais movimentos contrários à liberdade religiosa. Nesse tempo se insurgiu contra tais medidas o pastor adventista Alonzo Trévier Jones (1850-1923), que apresentou petição ao Congresso Americano com 500 mil assinaturas de adventistas. Jones foi o representante da IASD que defendeu com intrepidez e destemor o direito à liberdade religiosa perante o Senado, tendo se saído muito bem com a revogação daquele projeto de lei federal.

Em virtude de tais questões, a Associação Geral da IASD designou uma comissão específica sobre liberdade religiosa, que, em 21 de julho de 1889, foi absorvida pela Associação Nacional de Liberdade Religiosa, que posteriormente veio a se tornar a atual Associação Internacional de Liberdade Religiosa (International Religious Liberty Association – IRLA). Em 1892, alguns adventistas chegaram a ser presos por trabalhar no domingo, no Estado do Tennessee. No entanto, com a sedimentação da liberdade religiosa e do princípio do Estado laico na Suprema Corte, tais legislações dominicais foram revogadas e não mais subsistem nos Estados Unidos.

Em 1889, foi editada a Declaração de Princípios da Associação Nacional de Liberdade Religiosa, trazendo como principal premissa: “Acreditamos em apoiar o governo civil e submeter-nos à sua autoridade. Negamos o direito de qualquer governo civil legislar sobre questões religiosas. Acreditamos que é o direito, e deve ser o privilégio de cada homem adorar de acordo com os ditames de sua consciência. Também acreditamos ser nossa responsabilidade usar todos os meios legais e honoráveis de evitar a legislação pelo governo civil.” Tais princípios foram depois incorporados à IRLA, que, em 1948, passou a admitir pessoas de outras religiões como seus associados.

Associados famosos da IRLA, como Eleanor Roosevelt e René Cassino, influenciaram a Declaração Universal dos Direitos do Homem da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1948, marco importantíssimo para a sedimentação da liberdade religiosa nas constituições das nações democráticas em todo o mundo, trazendo a seguinte declaração sobre liberdade religiosa: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.”

Em 1981, foi editada pela ONU a “Declaração sobre a eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação fundadas na religião ou nas convicções”, texto relevante especialmente para aqueles que dedicam um dia exclusivo para o descanso religioso. O art. 6º, alínea “h” estabelece a liberdade de “[…] observar dias de descanso e de comemorar festividades e cerimônias de acordo com os preceitos de uma religião ou convicção”.

Os maiores desafios à liberdade religiosa no mundo são problemas como nacionalismo, ideologias ateístas, secularismo intolerante e extremismo religioso. Movimentos nacionalistas e ideologias ateístas sempre redundam em interferências nefastas, privilegiando determinada religião (nacional) ou privando todos de ter uma religião (ateísmo). O secularismo intolerante traz em si discriminação àqueles que creem e impõem a cultura secular a todos indistintamente. O extremismo religioso, especialmente em países teocráticos muçulmanos, gera agressões físicas e atentados genocidas, e hoje afeta em torno de 150 milhões de pessoas em todo o mundo. Atualmente, cerca de 2/3 da população mundial sofre algum tipo de restrição ou intolerância religiosa, e as agressões têm se intensificado nos últimos anos (Pew Research Center, 2018).

Os maiores obstáculos ao diálogo em questões de liberdade religiosa são a própria religião, e suas respectivas igrejas, que impõem de certo modo seus pontos de vista a outros e buscam interferir em decisões do Estado para buscar a primazia e se agigantarem enquanto instituição. O evangelismo também, algumas vezes quando redunda em proselitismo e se não bem conduzido, traz problemas quanto ao diálogo com o Estado, e disso surgem conflitos, como nos casos em que algumas igrejas são acusadas de manipular os fiéis, especialmente em matéria de dízimos e ofertas.

No Brasil, o direito fundamental à liberdade religiosa encontra-se registrado no artigo 5º, incisos VI a VIII, da Constituição Federal de 1988, sendo garantida a liberdade de consciência e de crença, assegurado o exercício e a proteção dos cultos religiosos e de suas liturgias. Também se assegura a prestação religiosa em entidades civis, militares e coletivas, assim como veda-se privar alguém por motivo de crença religiosa ou até convicção filosófica ou política, e quando necessário cumprir obrigações a todos impostas, cabe prestação alternativa. Por sua vez, o princípio do Estado laico encontra-se previsto no art. 19 da Constituição Federal, sendo vedado ao Estado estabelecer cultos religiosos, igrejas, subvencioná-las, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com elas alianças, ressalvada a colaboração por interesse público.

Para os adventistas do sétimo dia no Brasil, a questão da guarda do sábado tem sido um grande desafio, especialmente por se tratar de uma religião minoritária e que não ocupa espaços relevantes nos cargos governamentais. Em um país de maioria católica, com protestantes e evangélicos que cultuam o domingo como dia separado para as atividades litúrgicas, torna-se especialmente necessário que haja efetiva proteção ao pleno exercício da liberdade religiosa para os sabatistas.

Nesse contexto, pode-se afirmar, com plena convicção, que existe no direito brasileiro o direito fundamental ao descanso semanal religioso, garantindo ao crente o direito de separar um dia na semana, conforme sua crença e liturgia. Destaca-se como garantia ao próprio exercício da fé, tendo em vista que qualquer violação ou restrição, por menor que seja, pode vir a privar a própria consciência e o livre exercício de escolha da religião. Ou seja, ao impor restrições quanto à guarda do sábado, muitos podem não decidir se tornar adventistas por restrições financeiras ou educacionais. Trata-se de restrições no trabalho, na escola, em concursos públicos ou vestibulares.

Em 3 de janeiro de 2019, foi sancionada pelo presidente Jair Messias Bolsonaro a Lei nº 13.796, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, garantindo a todos os estudante de instituições de ensino ausentar-se de prova ou aula marcada para o dia em que, em virtude de sua consciência e crença, segundo os preceitos de sua religião, seja vedado o exercício de tais atividades. Apesar de a lei ter conferido dois anos para as instituições de ensino implementarem progressivamente as medidas necessárias à adequação de seu funcionamento, a lei entrou efetivamente em vigor na data de 4 de abril de 2019, obrigando todas as instituições de ensino, públicas e privadas, exceto militares, a conferir efetiva proteção ao direito fundamental ao descanso semanal religioso, segundo os ditames dessa ou aquela religião. A forma como a lei tratou a questão foi bastante positiva, na medida que garante idêntico direito a todas as religiões, seja para aqueles que guardam a sexta-feira, o sábado ou o domingo.

Defender a liberdade religiosa é uma questão para todas as pessoas, em todos os lugares. A perseguição, nesse contexto, surge como resultado da intolerância, que é fruto do pecado. De fato, ser perseguido faz parte do chamado a ser cristão (João 15:20; Mateus 24:9), mas isso não implica que devemos nos omitir ou negligenciar a defesa da liberdade religiosa. Tem sido pela omissão de muitos que, em tempos de paz, a igreja tem dominado o Estado ou vice-versa. Alguns dos maiores conflitos da humanidade sempre estiveram relacionados com a liberdade religiosa, como a perseguição aos cristãos nos primeiros séculos, a perseguição aos “hereges” pela Igreja Católica, o Tribunal da Inquisição, a Reforma Protestante, o Holocausto, o comunismo, e atualmente os ataques terroristas em países democráticos e execuções onde impera a lei da Sharia.

A IRLA, tradicionalmente presidida por adventistas, é precursora na defesa da liberdade religiosa há mais de um século, tendo influenciado a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU. Por mais de 20 anos, o PhD John Graz esteve à frente da defesa da liberdade religiosa, que é o oposto do conceito de ecumenismo, pois este advoga a união de igrejas em pontos de doutrina e aquele o direito de cada um ter a religião que bem entender ou mesmo de não ter religião alguma. John organizou os maiores eventos de que se tem notícia de liberdade religiosa no mundo, com a participação de até 70 mil pessoas em festivais. Organizou jantares com as mais altas autoridades, comitês acadêmicos interconfessionais e congressos em diversos países e continentes.

Defender a liberdade religiosa deve ser a bandeira de todos aqueles que gostariam que sua liberdade não fosse atingida. Devemos buscar legitimamente em tempos de paz tudo quanto nos é por direito. No entanto, a prática revela que somente se dá importância a esse tema quando se sofre algum tipo de restrição. Como adventistas, devemos ter em mente que a coalizão do anticristo está usando a força para impor sua adoração (Apocalipse 13:16, 17). Por meio da tríade satânica, poderes terrenos irão perseguir os cristãos fiéis aos mandamentos bíblicos, pretendendo dar a todos o mesmo direito e impor a adoração do domingo. Devemos estar preparados para a grande tribulação e aguardar firmes na fé a breve volta do Senhor Jesus.

(Yuri Schmitke Almeida Belchior Tisi é advogado, bacharel em direito pelo Centro Universitário de Brasília, pós-graduado em Direito de Energia Elétrica pelo UniCEUB e mestrando em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB; é presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos, membro do Instituto Brasileiro de Estudos do Direito de Energia, da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético e da Associação Nacional de Juristas Evangélicos)

Papa menciona “emergência climática” e Trump parece estar mudando de ideia

papa-franciscoNo mesmo dia (14/6) em que executivos do setor energético assinaram no Vaticano um termo de compromisso reconhecendo o perigo do aquecimento global e se comprometendo a minimizar as consequências do fenômeno que eles insistem ser antopogênico, o papa Francisco, seguindo sua agenda ECOmênica, declarou que o aquecimento global é uma “emergência climática”. O termo diz: “Como líderes do setor energético, da comunidade global de investimentos e outras organizações, reconhecemos que uma aceleração significativa na transição para um futuro de baixo carbono além das projeções atuais requer uma ação sustentada e de grande escala, além de soluções tecnológicas adicionais para manter o aquecimento global abaixo de 2 ºC, e contudo ainda avançar na prosperidade humana e econômica.”

 Em uma seção inteira da carta apostólica Laudato Si, o papa já havia dado sua sugestão para reduzir as emissões de carbono: descansar aos domingos e fazer dele um dia de baixo carbono, ideia que vem ganhando espaço e aceitação. No encontro do dia 14, o líder católico disse: “Durante tempo demais, fracassamos coletivamente em ouvir os frutos das análises científicas, e as previsões apocalípticas não podem mais ser encaradas com ironia ou desdém.”

No dia 5 de junho, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump visitou o príncipe Charles e a primeira-ministra Thereza May. No encontro, ele tocou em um assunto que deve ter deixado os ambientalistas animados. Diz o jornal italiano Il Sole 24 Ore: “Na única entrevista dada durante sua visita, Trump também abordou outra questão na qual ele discorda da maioria dos líderes ocidentais. O presidente disse que ficou ‘muito impressionado’ com o interesse apaixonado pelo meio ambiente e pela mudança climática demonstrado pelo príncipe Charles. […] O presidente disse que ‘concordou com o príncipe Charles’ sobre a importância para as futuras gerações de ter ‘um bom clima e não um desastre’, mas foi muito cauteloso nos termos que usou: ele ressaltou que não é correto falar de ‘mudança climática’, que no passado negou repetidamente a existência. O presidente falou em lugar disso em ‘condições climáticas extremas’”.

Já é um começo, levando-se em conta que Trump negou até pouco tempo atrás que houvesse algum tipo de mudança climática (ou “condições climáticas extremas”, como ele prefere). Com os Estados Unidos alinhados com o Vaticano também nesse assunto, aí é que o cenário fica favorável à assinatura de um decreto que obrigue por lei as pessoas a reservarem o domingo como dia de repouso. Quem viver verá. [MB]

Sobreviventes da perseguição cristã no Irã encontram apoio nos EUA

IrãNesta quarta-feira (29), pessoas de todos os estados dos EUA e de muitas partes do mundo foram ao edifício do Senado norte-americano para pressionar os membros do Congresso e o presidente a apoiar a causa contra a horrível perseguição de cristãos e outras minorias religiosas na República Islâmica do Irã. De acordo com o Breitbart News, pastores, legisladores e sobreviventes do encarceramento na infame Prisão de Evin, em Teerã, se revezaram no pódio contando histórias de medo, isolamento, tortura e até sobre mortes. Mas uma mensagem de esperança prevaleceu, quando pessoas testemunharam que apesar dos maus-tratos por causa de sua fé, sentiam que Deus estava no controle, e reivindicavam um futuro em que a liberdade de adorar como um direito universal fosse possível. “A maior liberdade para a espécie humana é a liberdade de poder ter um relacionamento com Deus, o Todo-poderoso, sob os termos e condições que escolherem”, disse o conferencista Bill Johnson no evento.

Também estavam presentes no evento Maryam Rostampour e Marziyeh Amirizadeh. Elas nasceram e cresceram no Irã e disseram que, quando meninas, foram forçadas a estudar o Alcorão na escola, a usar roupas prescritas e rotineiramente cantar “morte para a América” e “morte para Israel”. As duas se tornaram cristãs e se conheceram em uma conferência cristã na Turquia. Quando retornaram ao Irã, estavam determinadas a compartilhar o evangelho de Jesus Cristo com amigos, vizinhos e estranhos. Antes de serem presas por espalhar “propaganda cristã” em 2009, distribuíram cerca de 20 mil Novos Testamentos no Irã.

E mesmo quando elas foram presas e forçadas a viver em celas pequenas, dormindo sob cobertores cobertos de urina e enfrentando ameaças diárias de que a sentença a ser executada por enforcamento poderia acontecer a qualquer momento, as duas mulheres encontraram esperança e propósito de vida. Elas disseram que muitas outras companheiras de cela eram mulheres sem família, prostitutas e outras que não tinham apoio algum no mundo exterior. “Foi então que percebemos que Deus tinha um propósito para nos enviar para aquele lugar sombrio. Então, em vez de orar pela nossa libertação, começamos a orar por essas mulheres na prisão. O que o inimigo planejou para o mal, Deus o tornou em bem”, disse Rostampour. “Hoje, damos toda a glória a Jesus que nos salvou do governo iraniano. Acreditamos que estamos livres e vivas hoje por causa do poder de Jesus e Seu milagre”, disse Amirizadeh.

Após 259 dias de cativeiro, elas foram libertas. A reputação dessas mulheres, de ajudar os outros, levou a notícia do sofrimento delas muito além dos muros da prisão. Chegou aos ouvidos de autoridades nos Estados Unidos e outros órgãos de direitos humanos internacionais. Estes pressionaram o governo iraniano a libertá-las. Elas acabaram indo para a Turquia e, em seguida, foram convidadas a se refugiar nos EUA.

Rostampour e Amirizadeh estão nos EUA há mais de uma década, mas não pararam de tentar ajudar seus companheiros iranianos que enfrentam um tratamento desumano sob o regime iraniano. Elas escreveram um livro sobre suas experiências e foram a Washington DC dizer aos legisladores para manterem a pressão sobre o governo iraniano, para que parem de perseguir cristãos, pessoas da fé Baha’i e outras minorias religiosas.

Rostampour, Amirizadehe e outros cristãos falaram com parlamentares, representantes de organizações não-governamentais, grupos de reflexão e defensores da liberdade religiosa, incluindo Sam Brownback, embaixador-geral dos EUA para Liberdade Religiosa Internacional, e Tony Perkins, presidente do Centro de Pesquisa da Família e comissário da Comissão dos EUA sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF).

“Nossa oração é que, ao invés de impedir que pessoas comuns, incluindo cristãos perseguidos, entrem nos EUA, os políticos americanos pressionem mais as autoridades do governo iraniano e suas famílias que vivem livremente em países democráticos como os Estados Unidos e o Canadá”, disse Amirizadeh. “Poucas coisas são mais poderosas do que destacar as histórias de dissidentes, daqueles que são perseguidos”, disse o senador Ted Cruz, que também participou do evento. “Eu fui ao Senado para destacar os dissidentes enfrentando a tirania, resistindo à opressão. Porque simplesmente trazer à luz e contar suas histórias faz com que os tiranos temam as repercussões”, disse Cruz.

Cruz disse que o presidente Ronald Reagan o inspirou renomeando a rua em frente à embaixada russa em Washington como Rua Sakharov, um dissidente antissoviético. “Pare e reflita no poder disso. Toda vez que alguém quer escrever para a embaixada russa, precisa escrever o nome do dissidente”, disse Cruz.

O senador propôs o mesmo tipo de legislação para renomear a praça onde a embaixada chinesa em Washington está localizada como Rua Liu Xiaobo, que foi o vencedor do Prêmio Nobel da Paz chinês e morreu sob circunstâncias misteriosas, na custódia do Partido Comunista em 2017. O projeto foi aprovado pelo Senado por unanimidade, mas ainda não foi posto em prática.

Os palestrantes do evento compartilharam estatísticas sobre a extensão da perseguição cristã em todo o mundo, incluindo o relatório Christian World Watch Monitor, que informa que em 2016 cerca de 193 cristãos foram presos no Irã.

A organização Portas Abertas informou que 1 em cada 9 cristãos em todo o mundo experimenta altos níveis de perseguição, e que em 8 dos 10 países em que os cristãos sofrem severa perseguição a opressão está diretamente ligada à opressão islâmica. “Aqui nos EUA, temos a responsabilidade de receber os cristãos de todo o mundo. E fazer o que pudermos para mantê-los fora de perigo. E dar-lhes a oportunidade de experimentar o mesmo tipo de liberdade que temos aqui”, disse Bill Johnson.

De acordo com Hormoz Shariat, presidente do Ministério iraniano Vivo, apesar da perseguição, a fé cristã não está sendo extinta no Irã. Shariat se converteu do islamismo ao cristianismo nos anos 1980 e passou décadas ajudando seus companheiros cristãos no país. “No Irã, a norma é que, se alguém se converter a Cristo, é muito provável que os membros de sua família também se convertam. Porque o cristianismo tem uma imagem muito positiva no Irã, mais positiva que o Islã. Você acredita nisso?”, disse Shariat.

Shariat informou também que o Irã tem a população evangélica que mais cresce no mundo. Muçulmanos aos milhões estão rejeitando o Islã e estão abertos à mensagem do evangelho de Cristo.

(Conexão Política)

Nota do jornalista e ex-editor Ivacy Oliveira: “Insisto que esse tipo de reação deve atingir todos os governos muçulmanos, entre outros, que não respeitam qualquer outro grupo religioso. Não se trata de combater o Islã, mas exigir respeito e reciprocidade com relação a outras religiões. Os governos ocidentais devem isso aos seus cidadãos. Contudo, preferem continuar numa relação adulterina de interesses comerciais.”