Isaac Newton era ocultista?

isaac_newtonJá escutou que Isaac Newton, que para muitos foi o maior cientista de todos os tempos, não era cristão, mas um praticante do ocultismo e da alquimia? Há bons esclarecimentos no vídeo abaixo, feito por Gabriela P. Bailas, uma física brasileira que cursou seu doutorado em Física na França e faz pós-doutorado na High Energy Accelerator Research Organization, uma espécie de CERN do Japão. Ela não declara ser ou não religiosa, mas é mais equilibrada que muitos ditos religiosos, inclusive não vendo problema nos estudos que Newton fez da Bíblia. Chega mesmo a comentar a visão dele de buscar unir ciência e religião como não sendo algo anticientífico, mas uma motivação pela curiosidade, pelo rigor e pela busca por desenvolver tudo que fez em direção à verdade. Ela também comenta a acusação de que Newton teria feito parte da sociedade secreta chamada Rosa-Cruz.

Bom vídeo para desmistificar os ataques de terraplanistas contra Newton. Para negar a teoria da gravidade (que destrói totalmente o terraplanismo), eles acabam atacando a vida pessoal de Newton (argumento ad hominem para tirar a credibilidade da mensagem de alguém), dizendo que ele recebeu essa teoria de anjos caídos para esconder do mundo que a Terra é plana [!], algo que para os terraplanistas é, em geral, o único jeito de tornar o ser humano um ser especial aos olhos de Deus. Esqueceram o que significa a cruz e quão suficiente ela é para nos mostrar que somos especiais para Deus. 

terraplanismo é um “bom” exemplo do que acontece quando falsa religião e falsa ciência se unem: negação de diversas realidades básicas.

Josué Cardoso

Leia mais sobre Isaac Newton aqui.

Terra plana: resposta ao Afonso Vasconcelos

afonsoRecentemente, publiquei em meu canal no YouTube um vídeo com o título “Desafio aos terraplanistas”, no qual ofereço uma resposta a um engenheiro que me escreveu em privado questionando o formato redondo (globo) da Terra. Em respeito a esse terraplanista, pedi que meu amigo astrofísico e engenheiro de software Eduardo Lütz escrevesse alguma coisa, e ele se empolgou: redigiu um documento de 118 páginas, disponível aqui. O único terraplanista de destaque que afirma ter lido o artigo do Lütz foi o geofísico Afonso Vasconcelos, cujo canal é citado por onze de cada dez terraplanistas brasileiros. Agradeço-o por ter dedicado tempo para analisar um material que foi preparado com dedicação e de maneira respeitosa. Que outros defensores da Terra plana sigam esse exemplo do Afonso.

Não conheço pessoalmente o geofísico youtuber, mas o respeito como ser humano e só resolvi responder ao vídeo dele porque, em lugar de começar analisando os argumentos técnicos do Lütz, ele tenta descredibilizar tanto a mim quanto ao meu amigo físico, num típico exemplo de argumentação ad hominem, em que se ataca a pessoa, deixando suas ideias em segundo plano. Há vários vídeos sobre Terra plana em meu canal (confira), e em nenhum deles me dirijo a pessoas, tratando unicamente de ideias. Esta será a única vez que abro uma exceção.

Farei a seguir uma breve análise do vídeo de 31 minutos em que ele comenta a introdução do texto do Lütz:

  1. Logo aos 10 segundos de vídeo, ele projeta na tela os dizeres “físico ‘criacionista’ que defende o modelo da bola molhada giratória”. Por que colocar a palavra “criacionista” entre aspas?Aos 7’10”, ele afirma que Lütz “se diz criacionista”, e em seguida sugere que ele seria “criacionista nutella”. Desde os anos 1990, Eduardo Lütz tem defendido o criacionismo bíblico como poucos têm feito. Ele apresentou inúmeras palestras, escreveu vários artigos sobre criacionismo e temas correlatos. Eu sou testemunha pessoal da grande sabedoria e da humildade desse cientista servo de Deus. Não é justo chamá-lo de criacionista entre aspas, quando os que o conhecem sabem que ele é um criacionista com C maiúsculo, que decidiu dedicar a vida a essa causa muitos anos antes de existirem youtubers.
  1. Ao 1’14”, Afonso diz que eu “odeio” a Terra plana. Na verdade, tenho aversão (essa é a melhor palavra) a qualquer tipo de pseudociência, como astrologia, parapsicologia, certas “medicinas alternativas”, e o terraplanismo entra nesse pacote. Assim como tenho aversão por heresias e dogmas antibíblicos que posam de bíblicos. Por quê? Pelo potencial que essas coisas têm de cegar as pessoas e as afastar da verdadeira ciência e da verdadeira teologia. Além disso, atraem o escárnio e o desprezo à Bíblia, que nada tem que ver com essas ideias esdrúxulas. Prova disso é que o YouTube já está restringindo vídeos de desinformação e considerados conspiratórios, como os que tratam da Terra plana (confira). Podemos imaginar que essa restrição acabará sendo estendida aos vídeos criacionistas, por falsa associação. Parabéns, terraplanistas!
  1. Ao 1’29”, Afonso mostra o meu vídeo com o desafio aos terraplanistas, que estava com “apenas” 7,1 mil visualizações. De fato, esse vídeo não está entre os mais visualizados do meu canal, talvez porque as pessoas que me seguem estejam preocupadas com coisas mais importantes. Afonso parece tentar medir a relevância do meu conteúdo pelos views, já que em seguida diz que meus vídeos sobre terraplanismo “não traz[em] conhecimento”, embora depois elogie o vídeo de outra pessoa, com exatamente a mesma quantidade de visualizações…
  1. Aos 4’36”, Afonso começa a falar sobre o currículo do Eduardo Lütz, que há muitos anos trabalha como engenheiro de software e faz tempo que não leciona, não tendo, portanto, o Currículo Lattes. Incensado pelos terraplanistas, o filósofo Olavo de Carvalho também não tem Currículo Lattes. Só pra lembrar…
  1. Aos 5’55”, Afonso reclama que eu não apresentei o e-mail original que deu origem ao texto do Lütz, sugerindo que teríamos inventado a mensagem. Não revelei o nome do engenheiro pelo mesmo motivo que até hoje me levou a nunca divulgar nomes de pessoas que me procuram em privado. Não seria ético revelar a identidade do indivíduo. Em lugar de se ater aos argumentos da resposta do Lütz, Afonso continua se esforçando para lançar dúvidas sobre nosso conhecimento e idoneidade. Isso é lamentável. Ele induz seus seguidores a lerem o material com desconfiança e preconceito.
  1. Aos 7’48”, Afonso considera “top” o autor do e-mail pelo fato de ser engenheiro, mas não pergunta pelo Lattes dele nem sugere que ele seja “nutella” ou coisa parecida. Basta ser terraplanista para o indivíduo já ser respeitado pelo geofísico, independentemente do currículo.
  1. Aos 7’55”, o youtuber terraplanista levanta a primeira cortina de fumaça, detendo-se em um detalhe insignificante: o fato de Lütz ter dito que o engenheiro se converteu ao terraplanismo. E pergunta: “Vocês se converteram ao criacionismo?” De minha parte, respondo sem hesitar: sim, convenci-me e converti-me. Fui evolucionista até minha juventude, até que conheci um modelo das origens muito melhor e mais coerente, que integra a boa ciência e a boa teologia. Abracei o criacionismo no começo dos anos 1990 e desde então tenho feito o que posso para divulgar esse modelo conceitual. Mas Afonso gasta tempo considerável para tentar mostrar que o terraplanismo não é filosofia nem religião, comparando-o a áreas de pesquisa como o desenvolvimento de cristais e a nanotecnologia, para desespero dos que lidam com essas coisas reais. Afonso nos chama de “monstruosamente ignorantes” e mal-intencionados pelo fato de Lütz ter usado a palavra “conversão”, e nos compara a “tartarugas”.
  1. Aos 12’34”, a segunda cortina de fumaça é levantada e vai ocupar o restante do vídeo: Afonso induz seus seguidores a pensar que Lütz afirmou no texto que as escolas só ensinam verdades, quando o que ele disse, em resposta ao engenheiro, foi, obviamente, que ensinam a verdade de que a Terra é um globo. Afirmar algo diferente disso é pior do que nos chamar de tartarugas sem Currículo Lattes.
  1. Aos 13’05”, Afonso vem com a pergunta “O que é a verdade?”, e me desafia a gravar um vídeo explicando o que para mim é a verdade. Ele diz que, para ele, a verdade é a Bíblia (mais especificamente a Torá). E eu respondo que, para mim, obviamente, também é a Bíblia (João 17:17), e, mais específica e especialmente, Aquele de quem as Escrituras dão testemunho e que de Si mesmo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Se pesquisasse em meu canal, o geofísico descobriria que gravei 26 vídeos de uma série intitulada “O Resgate da Verdade” (confira), na qual exalto a Bíblia Sagrada e suas doutrinas. Depois de me desafiar a fazer o que já fiz, Afonso começa a tergiversar, dizendo que a escola não ensina a Bíblia e, portanto, não ensina a verdade. Que nas escolas se ensina a ideologia de gênero e os alunos são estimulados a ouvir funk. Isso não tem absolutamente nada a ver com o que o Lütz escreveu, já que o assunto do documento “Ajuda a um terraplanista” é o terraplanismo. No entanto, esse passa a ser o tema do vídeo do Afonso até 30’35”. Ou seja, em um vídeo de 31’06”, ele gasta 17’03” para falar de algo que foge totalmente da discussão, desperdiçando quase 55% do tempo do vídeo – e do nosso tempo. Isso se caracteriza como a conhecida “falácia do espantalho”, “argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate e a substitui por uma versão distorcida, que representa de forma errada essa posição. A falácia se produz por distorção proposital, com o objetivo de tornar o argumento mais facilmente refutável, ou por distorção acidental, quando o debatedor que a produz não entendeu o argumento que pretende refutar. Nessa falácia, a refutação é feita contra um argumento criado por quem está atacando o argumento original; não é uma refutação do próprio argumento original. Para alguém que não esteja familiarizado com o argumento original [a maioria dos seguidores do Afonso, que certamente não leu o texto do Lütz], a refutação pode parecer válida, como refutação daquele argumento” (fonte).
  1. Aos 17’36”, Afonso mostra rapazes vestidos de saia e meninas usando gravatas em uma escola do México, para então sugerir que os responsáveis por isso são a “bola molhada giratória”, o “darwinismo” e “cia”. O que a Terra redonda (globo) tem que ver com essas questões morais? Por que tentar relacionar uma coisa com a outra? Eu jamais iria sugerir que terraplanistas são imorais por adotarem essa ideia pseudocientífica.
  1. Aos 20’46”, ele sugere que sinônimo de verdade para o Lütz e para mim seria a NASA, e para ele, a Bíblia; e dá uma risada de deboche. Depois pergunta se eu faço vídeos contra o darwinismo “só por causa dos cliques”. Creio que nem vale a pena responder esse tipo de escárnio. Melhor manter mais alto o nível da discussão.
  1. Quando cheguei aos 22’40”, uma curiosidade me veio à mente: Será que Afonso guarda o sábado do quarto mandamento da Torá? Sim, porque ele afirma que toda a Bíblia serve para validar a Torá e que o Messias também veio validar a Torá. Terraplanistas costumam ser tão literalistas (até demais) com respeito às Escrituras, mas nunca os vejo defendendo o memorial da criação, o santo sábado. Bem, foi apenas curiosidade…
  1. Aos 27’28”, Afonso faz outra “pergunta espantalho” que nada tem que ver com o texto do Eduardo Lütz: “Qual o seu objetivo, quando você manda seu filho para a escola?” Então ele cita algumas ideologias típicas da educação comum, como darwinismo, comunismo e feminismo, e diz que o objetivo dele para os próprios filhos é que eles se desenvolvam como pessoas inteligentes, aprendam um ofício para ganhar o sustento e tenham uma família. Já que ele me perguntou, eu respondo: a educação que eu escolhi para meus filhos, embora não seja perfeita, tem exatamente essas qualidades que ele destaca, e se chama educação adventista.

Espero que nos próximos vídeos prometidos o Dr. Afonso se atenha estritamente às ideias e aos dados apresentados no texto do Lütz, e abandone os argumentos ad hominem e a falácia do espantalho. Creio que nós e os seguidores dele merecemos isso.

Falando em seguidores, resolvi ler alguns dos inúmeros comentários ao vídeo do Afonso, mas não avancei muito ali, pois estavam me fazendo mal. São muitas palavras desrespeitosas, arrogantes e maldosas. Pessoas que não me conhecem julgando meu caráter pelo fato de eu defender a esfericidade da Terra. Isso é cristianismo? É esse tipo de ética e respeito que o terraplanismo ensina? É por esse e outros motivos que não deixo habilitada em meu canal a função comentários – preciso manter minha saúde emocional, tenho meu trabalho (o canal e as demais redes sociais são uma atividade voluntária) e, principalmente, tenho que me dedicar à minha esposa e aos meus filhos.

Já que Afonso valoriza tanto currículos, vou publicar aqui a análise do meu amigo doutor em Física e especialista no estudo do movimento de corpos celestes do Instituto de Tecnologia de Israel, Josué Cardoso dos Santos. Segundo o Dr. Josué, Afonso usa “uma tática velha de retórica, em que você tenta desqualificar o oponente ao (1) procurar limitações na formação (como se ele fosse menos capaz que Afonso por não possuir o doutorado que ele possui), utilizando o argumento de autoridade de forma conveniente, pois quando possuem menos formação aí são ‘ignorantes’; se possuem melhor formação, aí busca-se desqualificá-los, dizendo que a formação não é importante; ou força-se alguma conexão da pessoa com conspiração; (2) desqualificar a pessoa procurando falhas na vida dela para tentar manchar a reputação, tirando a credibilidade pública dela de maneira que as pessoas já desconfiem a priori do que ela fala e não analisem friamente os argumentos (o que dizer da reputação de tantos personagens da Bíblia, como Abraão, Moisés, Davi, Salomão e Paulo? Suas terríveis falhas passadas não os impediram de dizer grandes verdades. Não é o mensageiro que torna a mensagem verdadeira, mas o conteúdo dela em si. Deus usou até mesmo ímpios para pregar verdades quando o povo de Israel estava de coração endurecido. E o próprio diabo pode dizer verdades. Além disso, lembremos que as contribuições de famosos cientistas com conexão com misticismo, como é o caso de Pitágoras e Tesla, são usadas por todos nós, inclusive terraplanistas, até hoje. Mesmo que muito do que fizeram esteja claramente ligado ao misticismo, ninguém, nem mesmo os terraplanistas, deixa de usar ou nega a validade do teorema de Pitágoras ou dos estudos sobre eletromagnetismo de Tesla); (3) usando a já citada falácia do espantalho, distorcendo as palavras da pessoa para sentidos que não foram os originais (isso é falso testemunho, segundo a Torá), para induzir o público a ter uma opinião específica sobre a pessoa; etc.”.

“Afonso se equivoca na argumentação em diversos momentos, especialmente ignorando conceitos fundamentais e básicos de física, geometria e lógica”, continua o Dr. Josué. “Adicionalmente (e infelizmente) utiliza-se de ataques pessoais que levantam suspeita contra o caráter de outras pessoas a quem não conhece, e de forma gratuita. A verdade se sustenta por si própria e o foco deve ser concentrado nos argumentos (Deus usou uma jumenta para disciplinar Balaão em Números 22). Para além disso, esse comportamento nunca foi o que Jesus apresentou em Seu trato com as pessoas, mesmo quando elas estavam tremendamente equivocadas e até mesmo mal-intencionadas. Mesmo sabendo das intenções delas, Cristo sempre foi respeitoso, buscando discutir a informação de maneira a ajudar na salvação dos outros, mostrando a verdade ensinada na Torá de maneira prática, exemplificando como devem ser e viver os que dizem crer nele. Com essa abordagem não cristã de alguns terraplanistas, desvia-se o foco, fala-se e fala-se muito de outro assunto, e depois conclui-se (dando a falsa impressão para quem não está atento) que o assunto não abordado está correto (no caso, o terraplanismo). Falar verdades sobre algo não valida que tudo o que falamos sobre outro assunto estará correto. Essa é uma falácia lógica. Um matemático cristão não sabe mais e não fará uma cirurgia melhor do que um médico não cristão só pelo fato de ele aceitar mais os ensinamentos de Jesus Cristo que o outro. Pessoas minimamente instruídas e educadas percebem isso.”

Aliás, terraplanistas não se contentam em lançar dúvidas sobre a inteligência e o caráter de “globalistas” atuais. Eles têm feito isso também com grandes nomes da ciência, como Galileu, Copérnico e Newton. Sim, porque o modelo é mais importante do que tudo, e tem que ser defendido de qualquer ideia ou pessoa que o contrarie.

Em 2014, manuseei um manuscrito original de Isaac Newton guardado no cofre da Universidade Andrews, nos Estados Unidos (foto abaixo). E há pouco mais de um ano estive na Inglaterra pesquisando a vida e obra do cientista. Visitei a Abadia de Westminster (onde ele está sepultado); a fazenda em Woolsthorpe (a 186 km de Londres), onde Newton nasceu, cresceu e viveu alguns anos da vida adulta; e outros lugares históricos. Li biografias sobre o cientista, como o livro Newton, do famoso escritor britânico Peter Ackroyd, e O Profeta Daniel, o Cientista Isaac Newton e o Advento do Messias, do Dr. Ruy Vieira (www.scb.org.br). Mas o livro que mais me impressionou foi escrito pelo próprio Newton e publicado em 1733: As Profecias do Apocalipse e o Livro de Daniel. Newton aplicou sua mente matemática ao estudo das profecias apocalípticas, chegando a conclusões bem interessantes e alinhadas com a interpretação dos grandes nomes da Reforma Protestante e também do adventismo. Vale a pena ler esse livro a fim de perceber que o grande cientista foi também um tremendo teólogo!

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Ackroyd escreveu, na página 52 de seu livro Newton, que o cientista “estava em busca da verdade eterna. Para ele não havia contradição entre ciência e teologia. Ambas eram parte de uma mesma busca. Teologia e ciência eram, igualmente, avenidas para Deus. Eram as verdadeiras chaves para o conhecimento do Universo”. Ackroyd diz que Newton tinha trinta versões e traduções da Bíblia, e estudou hebraico para poder ler os textos bíblicos originais. Portanto, os terraplanistas que o criticam precisam ainda comer muito feijão com arroz.

Em seu livro Tempo Astronômico, Histórico e Profético (www.scb.org.br), o ex-ateu Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, fundador e por quatro décadas presidente da Sociedade Criacionista Brasileira, uma das mentes mais brilhantes que conheço, escreveu que “a concepção de uma Terra esférica […] era algo incorporado ao conhecimento científico até o segundo século da era cristã e continuou presente até o décimo século. Como, então, veio a se tornar tão divulgado que, na época dos descobrimentos, não se sabia que a Terra era esférica, e se aceitava de maneira generalizada o conceito de uma Terra plana?” Em seu livro, o Dr. Ruy responde à pergunta que ele mesmo faz (e eu resumo a resposta neste vídeo).

Ah, e como já vimos que currículo é muito importante para o Dr. Afonso, vamos lá: um dos maiores criacionistas adventistas do Brasil, o Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, é engenheiro mecânico e eletricista, formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Dedicou-se à carreira docente, lecionando Mecânica dos Fluidos de 1954 a 1956, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Em julho de 1956, foi lecionar Física Técnica (nome italiano dado à cadeira de Mecânica dos Fluidos, Transmissão de Calor e Aplicações Tecnológicas) na Universidade de São Paulo (USP), Campus de São Carlos, onde fez a livre docência e tornou-se catedrático. Em 1970 assumiu a chefia do Departamento de Hidráulica e Saneamento naquela universidade, fundando a pós-graduação que é considerada a melhor na área no Brasil. Foi convidado, em 1972, a integrar a Comissão de Especialistas do Ensino de Engenharia do Ministério da Educação e Cultura, responsável pelas escolas de engenharia, currículos, formação de professores, reconhecimento de cursos, etc. Representou o MEC no Conselho da Agência Espacial Brasileira, participando de suas reuniões periódicas e empreendendo viagens por locais onde se desenvolvem atividades espaciais. Atuou como consultor do Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento, junto à Secretaria de Educação Tecnológica do MEC. Foi também diretor-tesoureiro da Sociedade Bíblica do Brasil, tendo vasto conhecimento das Escrituras Sagradas. Escreveu e traduziu muitos livros.

Evidentemente que currículo e formação acadêmica são coisas importantes, mas ideias e argumentos, independentemente de quem os tenha dito, devem ser analisados à luz da verdade, dos fatos e do bom senso. Por isso quero gastar mais algumas linhas para analisar outros vídeos e outras ideias do Dr. Afonso Vasconcelos, sendo bom, mais uma vez, afirmar que o respeito como ser humano e que reconheço a formação dele. Só que ideias são ideias, e penso ser bom que os seguidores desse importante terraplanista saibam o que ele afirma sobre outros temas.

No vídeo “A Lua: entre a provocação e a ilusão”, Afonso defende o geocentrismo, diz que o Sol tem apenas 50 km de diâmetro e está a 5.000 km de altura (2’42”), que a Lua pode ser um holograma e que, portanto, é impossível pousar nela (o que torna mentirosos os norte-americanos, os russos, os israelenses, os chineses e os indianos) (13’55”); depois ele sugere que a Lua seja um tipo de prato preso no domo sólido que, segundo os terraplanistas, recobre a Terra (14’56”).

De 15’55” a 16’56”, violando a língua hebraica e citando tradições indígenas, ele afirma que o “luminar menor” mencionado em Gênesis 1:14-16 seriam as estrelas e não a Lua. A tradução literal desses versos de Gênesis é: “E disse Deus: que haja luzeiros no firmamento [palavra que também pode ser traduzida como ‘expansão’] dos céus para fazer separação entre o dia e a noite, […] e fez Deus os dois luzeiros grandes; o luzeiro grande para dominar/governar o dia, e o luzeiro [no singular] menor para dominar/governar a noite e as estrelas [no plural].” Portanto, é impossível relacionar o “luzeiro menor” com as estrelas, como faz Afonso (leia também os Salmos 8:3; 104:19; 136:9).

De 17’15” a 17’26”, Afonso menciona os tais “corpos obscuros” invisíveis a olho nu e que seriam responsáveis pelos eclipses lunares, objetos estranhamente nunca detectados nem citados na Bíblia, mas necessários para explicar o que se torna inexplicável no modelo terraplanista: os eclipses. Em 18’45”, ele diz que ninguém garante que a Lua é uma esfera (esse é um bom momento para assistir a este vídeo do meu amigo Alexsander Silva).

Sobre os mágicos e misteriosos “corpos obscuros”, é bom que se saiba que qualquer objeto capaz de ocultar a luz do Sol pode ser facilmente observado ao ocultar também a luz de estrelas. De fato, tem-se um mapeamento detalhado de objetos do sistema solar, e muitos desses objetos podem ser observados dessa maneira, apesar de serem muito menores do que algo capaz de fazer uma sombra visível na Lua. Como geofísico, tenho certeza de que Afonso sabe disso.

No vídeo “Item fundamental para o fim dos tempos”, Afonso diz, aos 36 segundos, que é fundamental comer carne no fim dos tempos, e reforça isso aos 6’27”, afirmando ainda que os demônios têm mais facilidade de acessar a mente dos que não comem carne. Dá para levar a sério uma coisa dessas?! Inúmeras pesquisas científicas têm mostrado as vantagens de uma dieta vegetariana, tanto para o corpo quanto para a mente. Até o diabo sabe que a alimentação recomendada por Deus desde o Éden desobstrui os pensamentos e, portanto, favorece a comunhão com Deus (mas claro que o inimigo usa esse conhecimento para ajudar seus servos a serem mais saudáveis e inteligentes que os servos de Deus, pois há uma guerra em curso; assim, os primeiros ficam mais receptivos e perspicazes para usar o engano, como a serpente fez no Éden, inclusive distorcendo declarações da própria Bíblia).

Aos 3’58”, valendo-se de uma má interpretação de 1 Timóteo 4:1-3, Afonso afirma que a Bíblia manda comer carne. Nesse texto aparece a palavra grega “bromaton”, traduzida por “alimento” em praticamente todos os manuscritos antigos. A palavra é traduzida como “alimento” (e não carne) em outros textos bíblicos, como Gênesis 6:21 e 44:1; Deuteronômio 23:19; 2 Crônicas 11:11; Provérbios 23:6. A King James pode ter interpretado como “carne” um termo grego que frequentemente é traduzido como “alimento”. Afonso opta por essa interpretação e defende uma ideia que vai contra as claras orientações dietéticas originais de Deus (Gênesis 1:29).

Voltando ao vídeo do Afonso em que ele critica a introdução do documento do Lütz, aos 52 segundos ele diz que “muitos adventistas” lhe pediram para comentar o texto escrito por meu amigo físico. De fato, entre as pessoas que escreveram comentários elogiosos ao vídeo do Afonso estão algumas (não muitas) que se identificam como adventistas e terraplanistas, o que me causa muita estranheza e também tristeza.

Adventistas do Sétimo Dia “raiz” (para usar uma expressão utilizada pelo Afonso) creem que Deus usou de maneira especial Ellen White para trazer mensagens importantes para Sua igreja. Ela escreveu centenas de milhares de páginas nas quais fala sobre temas variados, como educação, psicologia, medicina, teologia e ciência. No século 19, ela (que não era física, geofísica nem astrônoma) escreveu os seguintes textos, que nos interessam especialmente neste momento:

“Deus fez o Seu sábado para um mundo esférico; e quando o sétimo dia chega para nós nesse mundo arredondado, controlado pelo Sol que governa o dia, em todos os países e regiões é o tempo para observar o sábado. Nos países em que não há pôr do sol durante meses, e em que também não há nascer do Sol durante meses, o período será calculado pelos registros mantidos” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 317; grifo meu). Gravei um vídeo comentando esse texto (confira).

“A mesma energia criadora que trouxe o mundo à existência exerce-se ainda na manutenção do Universo e continuação das operações da natureza. A mão de Deus guia os planetas em sua marcha ordenada através dos céus. Não é por causa de uma força inerente que a Terra, ano após ano, continua seu movimento ao redor do Sol, e produz suas bênçãos. A Palavra de Deus governa os elementos” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 185; grifo meu). Mais claro impossível: a Terra gira em torno do Sol e não o contrário.

Assim, para a escritora inspirada Ellen White, umas das fundadoras da Igreja Adventista do Sétimo Dia e uma das escritoras norte-americanas mais respeitadas (confira), a Terra não apenas é um globo, como gira ao redor do Sol, exatamente como ensinaram as grandes mentes da ciência e da teologia ao longo dos séculos. Alguns adventistas seguidores do Afonso escreveram que eu não os represento (nunca tive essa pretensão). Ellen White também não os representa?

(Permita-me abrir um pequeno parêntesis: já que estou falando sobre um dos mais famosos terraplanistas do Brasil, creio que seja útil mencionar também outra figura que costumava – assim como o Dr. Afonso no início de seu canal – postar vídeos interessantes sobre criacionismo e design inteligente. Refiro-me agora ao físico Douglas Aleodin, que em tempos mais recentes tem deixado de lado a Teoria do Design Inteligente para falar que o homem não pisou na Lua, não deve receber vacinas e que a Terra é plana. Douglas participará em novembro do primeiro encontro de terraplanistas no Brasil, motivo que levou o fundador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente e presidente emérito da Sociedade Brasileira de Design Inteligente, o mestre em História da Ciência Enézio Eugênio de Almeida Filho, a postar em seu blog que “Douglas Aleodin não reflete a posição do Design Inteligente sobre essa questão absurda” [ou seja, o terraplanismo; confira]. Fecha parêntesis.)

Gostaria de concluir apelando aos seguidores do Dr. Afonso (na verdade, a todas as pessoas que lerem este texto) que tenham a mesma postura dos cristãos bereanos, elogiados pelo apóstolo Paulo, que escreveu: “Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram mesmo assim” (Atos 17:11). Conselho mais atual do que nunca, ainda mais neste mar de informações e desinformações em que estamos navegando hoje em dia. Não baseie suas opiniões e convicções unicamente em vídeos de internet e nas opiniões e convicções de terceiros. Saiba das coisas por si mesmo. Vá sempre à fonte e desenvolva a visão crítica.

Sabe qual seria um bom começo? Ler por si mesmo o documento escrito pelo físico Eduardo Lütz, que começou a ser tão mal analisado pelo Afonso Vasconcelos.

Bons estudos, e que o Deus da verdade conduza você à plena verdade.

Michelson Borges é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, pós-graduando em Biologia Molecular pela Universidade Cândido Mendes e autor de dezenas de livros sobre criacionismo, mídia e História (tendo um de seus livros sido traduzido para mais de dez idiomas)

Os 500 anos da primeira globonavegação

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No dia 6 de setembro de 1522, dezoito marinheiros magros, exaustos e cabeludos, da expedição espanhola liderada inicialmente pelo português Fernão de Magalhães, chegaram com a nau Victoria quase destruída ao porto espanhol de Sanlúcar de Barrameda. Era o que havia sobrado das cinco embarcações e dos 243 navegadores que haviam deixado o mesmo porto três anos antes, com o objetivo de estabelecer uma rota comercial até as ilhas Molucas (hoje Filipinas), mas que acabaram por circunavegar o globo terrestre. Magalhães não completou o périplo mundial, pois acabou morto em 27 de abril de 1521, durante uma batalha.

No ano passado, visitei Portugal e lá conheci alguns pontos turísticos históricos, como o local de onde as embarcações portuguesas saíram para singrar os mares e a igreja onde estão os restos mortais de outro navegador famoso: Vasco da Gama. Esses exploradores corajosos merecem realmente todo o respeito, afinal, graças a eles a visão da humanidade a respeito do mundo foi grandemente ampliada. E foi graças a eles, também, que cálculos feitos pelos antigos matemáticos gregos puderam ser comprovados na prática, mostrando sem sombra de dúvida que a Terra de fato é um globo.

amyrEm matéria publicada na Folha de S. Paulo, o famoso navegador brasileiro Amyr Klink disse: “Naquela época a Terra era redonda. E eles comprovaram isso. Eu lamento desapontar os crentes dessa teoria [da Terra plana], mas eu fui lá e vi. Adoraria sentar na beira da Terra, balançar as perninhas e dar tchau para o Universo. Mas não dá, a Terra é redonda.” Klink acumula os feitos de ter em 1984 atravessado em cem dias o Atlântico em um barco a remo, circunavegado a Antártida com um veleiro em 1998, feito que repetiu com tripulação em 2003, entre outras aventuras. Tudo registrado em fotos e textos em seus livros.

Infelizmente, os chamados terraplanistas desrespeitam o navegador brasileiro e dizem que tudo o que ele escreveu não passa de mentira, assim como dizem que o astronauta e agora ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil Marcos Pontes também mente quando afirma que foi ao espaço e viu a curvatura da Terra. Sem levantar os glúteos da cadeira, desprezam o testemunho de pessoas idôneas que navegaram e voaram muito além do que sequer poderiam imaginar ou estariam dispostos a fazer.

Em 2017, conversei pelo WhatsApp com a esposa de Klink, Marina, e ela me disse achar um absurdo a atitude desses negacionistas do óbvio. “A Terra será plana enquanto ele [ela se referia a um terraplanista] continuar abrindo o mapa-múndi na mesa da cozinha.” Sim, de fato, aqueles que não apenas conhecem o mapa planificado, mas viajam pelo mundo real (como navegadores, pilotos de avião e astronautas), sabem o que há muito tempo já é conhecido, mas que estranhamente vem sendo negado no século 21: que a Terra é um globo, não uma pizza com uma borda de gelo em volta do disco.

carlos magnoPara citar apenas mais três exemplos históricos, basta saber que A Divina Comédia, livro escrito em 1320, apresenta a Terra globo (confira); o mais antigo globo terrestre data de 1492 (confira); e ver as pinturas do primeiro imperador do Sacro Império Romano Carlos Magno, que lá pelos anos 800 segurava um globo terrestre com uma cruz em cima, indicando poder e posse, e concluiremos que a ideia da Terra plana foi disseminada posteriormente no Ocidente com objetivos espúrios (assista a este vídeo para saber que objetivos foram esses).

No último domingo, o programa dominical de TV “Fantástico” exibiu uma reportagem alusiva aos 500 anos da primeira viagem de circunavegação, e tratou também da teoria conspiratória da Terra plana (veja aqui a matéria original do “Fantástico” e aqui um pequeno texto que escrevi sobre essa matéria, com vários materiais de referência sobre o assunto). Graças a Deus, desta vez os repórteres não relacionaram essa ideia mirabolante com o criacionismo nem com a Bíblia. Sim, porque, infelizmente, os chamados terraplanistas (que, por sinal, estão organizando um encontro no Brasil para o mês que vem) frequentemente se identificam como defensores das Escrituras Sagradas, do criacionismo e até do design inteligente, como um rapaz que tem um canal no YouTube aparentemente criado para defender a TDI, mas que ultimamente mais se ocupa de tentar mostrar que o homem não pisou na Lua e que a Terra seria um disco plano! O que esse pessoal mais consegue, na verdade, é atrair o escárnio e denegrir o cristianismo/criacionismo diante do público em geral. Por isso a Sociedade Criacionista Brasileira teve que emitir em 2017 uma nota de esclarecimento em que deixa claro não ser de forma alguma terraplanista.

Depois dessa reportagem no “Fantástico”, pipocaram no YouTube vídeos de terraplanistas indignados, o que já era previsível. Comentando um desses vídeos, meu amigo doutor em Física e especialista em satélites, que colabora em projeto da Nasa e agora trabalha para o Instituto de Tecnologia de Israel (Technion), Josué Cardoso, disse que frequentemente os terraplanistas “se apegam a detalhes irrelevantes (como a definição de ‘redondo’, por exemplo), desviando o foco das pessoas para coisas que nada significam em relação ao assunto. Nada de provas e argumentos técnicos. É muito triste ver assuntos importantes e verdadeiros sendo ‘queimados’ por essa gente”.

Josué analisa que, no início de seu vídeo, certa youtuber reclama de analfabetismo funcional na reportagem do “Fantástico”, sendo que ela mesma demonstra isso na “resposta” que não é resposta. “Outra coisa triste é quando ela apela para o argumento de autoridade: fulano é geofísico, o rapaz do outro canal é físico, ela é formada nisso e naquilo. Eles praticam os erros grosseiros que acusam os outros de cometer. Além disso, atacar Galileu e Newton é atacar os pais criacionistas da ciência. Assim eles ‘queimam’ duas vezes não somente o legado de cientistas cristãos, mas também da verdadeira mensagem que o bom cristianismo, que está em harmonia com a boa ciência, pode oferecer ao mundo. A mensagem de fé racional e esperança proferida por Cristo se torna associada ao obscurantismo e misticismo. Assim eles nos ‘queimam’ duas vezes! Que serviço para o inimigo de Deus estão fazendo!”

Na avaliação do matemático, esses negacionistas do globo “estão com aquela atitude de suspeitar/duvidar de tudo que os circunda. Quando uma pessoa perde o fio da meada, perde muitas vezes a capacidade de separar as coisas, pois a mente está fervendo. Fica fanática e vacina a si própria contra qualquer argumento contrário. Fecha-se para a possibilidade de estar errada em um assunto, só por ter descoberto verdades em outro. A mente fica polarizada e cega, tornando-se ‘do contra’ em tudo, até contra a verdade. Quando verdades são proferidas pela boca de ‘ímpios’, isso faz com que essas pessoas as rejeitem. Satanás joga com psicologia inversa, e sempre há muita gente que morde a isca”.

Exemplo disso foi o comentário de uma pessoa em minha página no Facebook: “Se veio da Globo é tudo mentira.” Aí eu perguntei: “Se a Globo disser que Deus existe Ele não existe?” Até o diabo fala verdades de vez em quando. Infelizmente, esta é a lógica de muita gente hoje em dia: se o diabo me falou para beber água, eu vou beber veneno; se o diabo falou para eu ser fiel à minha esposa, eu vou traí-la; se o diabo falou, só pode ser errado. No contexto social e político que estamos vivendo no Brasil, com polarização em tudo, a mente dos terraplanistas foi preparada e condicionada para receber esse engano.

Se eles guardassem o engano para si mesmos, seria menos pior. O grande problema é que se identificam como defensores da Bíblia e do criacionismo. Como exemplo disso, vou comentar um vídeo postado no canal Spotniks, em que três terraplanistas visitam o planetário do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e são recebidos lá pelo físico que dirige o planetário. As falas que se seguem são um festival de ignorância científica (assista ao vídeo aqui). Além de, como sempre, negarem a gravidade, desprezarem os conhecimentos em espectrometria que permitem analisar a composição de estrelas, ignorarem ferramentas matemáticas, eles disseram bobagens como estas: “O suposto lançamento de foguetes” (impossível para eles, pois esses artefatos não seriam capazes de cruzar o tal domo sólido), “A datação por carbono 14, todas essas coisas, já caíram por terra”; apontando o dedo para o físico, o rapaz com uma camiseta com a estampa de uma Terra pizza disparou: “Você acredita piamente que o homem evoluiu do macaco? Se o homem vem evoluindo, evoluindo do macaco, por que que hoje em dia ainda existe macaco?” “Você acha que é muito mais fácil explodir alguma coisa e gerar vida?” E um dos terraplanistas conclui o vídeo afirmando: “Nós facilmente chegamos à conclusão de que a Terra é plana, estacionária e não gira.”

Não vou nem dizer que senti vergonha alheia, porque esse pessoal definitivamente não representa o criacionismo, não sabe utilizar a verdadeira ciência e usa a Bíblia de uma forma totalmente distorcida. Quero é concluir repetindo o desafio que apresentei em outro vídeo: meu amigo astrofísico Eduardo Lütz escreveu um texto de mais de cem páginas sobre terraplanismo. Vou deixar de novo aqui o link e esperar que algum terraplanista se disponha a ler o conteúdo e escrever ou gravar uma refutação. Por enquanto, nada…

Enquanto aguarda a reação dos “planilsons” ao desafio do Lütz, sugiro que assista aos dois vídeos abaixo.

Michelson Borges

Fantástico exibe reportagem sobre a Terra plana

fantasticoO programa dominical de TV “Fantástico” exibiu ontem uma reportagem alusiva aos 500 anos da primeira viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães, e tratou também da teoria conspiratória da Terra plana (veja aqui a matéria). Graças a Deus, desta vez os repórteres não relacionaram essa ideia mirabolante com o criacionismo nem com a Bíblia. Sim, porque, infelizmente, os chamados terraplanistas (que, por sinal, estão organizando um encontro no Brasil para o mês que vem) frequentemente se identificam como defensores das Escrituras Sagradas, do criacionismo e até do design inteligente (DI), como um rapaz que tem um canal no YouTube aparentemente criado para defender a TDI, mas que ultimamente mais se ocupa de tentar mostrar que o homem não pisou na Lua e que a Terra seria um disco tipo pizza! O que esse pessoal mais consegue, na verdade, é atrair o escárnio e denegrir o cristianismo/criacionismo diante do público em geral. Por isso o diabo gosta tanto dessa ideia e leva as pessoas a perder tanto tempo com ela. E por isso, a Sociedade Criacionista Brasileira teve que emitir em 2017 uma nota de esclarecimento em que deixa claro não ser de forma alguma terraplanista (leia a nota).

Vou deixar aqui embaixo alguns vídeos para que você possa se inteirar desse assunto e dois links para textos que refutam o terraplanismo (veja aqui e aqui). E MAIS IMPORTANTE: deixo aqui o link para um extenso documento escrito por meu amigo astrofísico Eduardo Lütz, até agora não refutado por nenhum terraplanista. É bem evidente que esse pessoal não gosta de matemática nem da verdadeira ciência, essa, sim, em harmonia com a Bíblia Sagrada e o verdadeiro criacionismo. [MB]

Eclipse solar, obscurantismo e os raios da verdade

Captura de Tela 2019-07-02 às 19.09.45Neste dia 2 de julho, mais um eclipse solar chamou a atenção dos moradores do planeta Terra. No fim da tarde, ele pôde ser visto em 14 das 27 capitais brasileiras: Manaus, Porto Velho, Rio Branco, Palmas, Cuiabá, Goiânia, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Conforme explica o matemático e astrônomo Josué Cardoso dos Santos, “o evento popularmente conhecido como eclipse solar é um fenômeno que ocorre quando a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, ocultando total ou parcialmente sua luz numa estreita faixa terrestre. Se o disco inteiro do Sol está atrás da Lua, o eclipse solar é total. Caso contrário, é um eclipse solar parcial”. Uma descrição mais adequada desse fenômeno seria “ocultação do Sol pela Lua”, já que é a Terra que passa pela sombra produzida pela Lua.

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O mínimo que você precisa saber sobre ciência e intuição

albert-einstein-colored-photo“Mais pessoas acreditam em Einstein do que nos seus próprios olhos.” – Olavo de Carvalho

A maioria das pessoas não tem ideia do que Einstein disse ou deixou de dizer. Quanto aos físicos, nenhuma das informações que usam tem Einstein como origem. Ele apenas reuniu informações já conhecidas em uma única teoria (sistema de equações diferenciais). E ele mesmo não acreditou inicialmente em todas as consequências das equações que reuniu.

Mas em quem devemos acreditar, na Matemática ou em nossos próprios olhos? Quando estamos mergulhados em uma piscina e, de lá vemos um objeto a dois metros de altura, se fizermos os cálculos levando em conta o índice de refração da água e do ar obteremos que o objeto está a um metro de altura e não dois. Mas nossa visão nos mostra que sua altura é de dois metros. Se colocarmos a cabeça para fora da água, nossa visão concordará com o nosso cálculo. Em quem vamos acreditar, em nossa visão sob a água ou em nossa visão acima da água? Esse é um exemplo simples e cotidiano (pelo menos para quem costuma mergulhar e olhar para fora da água a partir de um ambiente subaquático, como eu) que mostra que nem sempre nossos sentidos são confiáveis, que temos meios de calcular correções a nossas distorções de percepção, correções essas que podem ser testadas e confirmadas.

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Não existe pôr do sol na Terra plana

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Hoje, ao sair do meu trabalho na Casa Publicadora Brasileira, deparei-me com esse espetáculo da natureza: um lindo pôr do sol. É impossível não pensar no Criador ao ver nossa estrela mais próxima desaparecer no horizonte terrestre pintando o céu com cores de fogo. Saindo do estado poético, pensei também em outra coisa…

Conforme meu amigo astrofísico Eduardo Lütz, não existe pôr do sol assim em modelos terraplanistas coerentes. Isso porque, geometricamente, é impossível que o Sol desapareça no horizonte se ele está apenas circulando sobre o disco. Mas ele não poderia simplesmente parecer tão próximo do horizonte que desapareceria, na prática? Depende da altura dele, do tamanho da Terra e do raio da trajetória do Sol. Temos dados sobre isso para usar no contexto terraplanista? Temos. E precisamos usar esses dados para verificar se o modelo terraplanista é coerente internamente e com o que se observa.

É comum que terraplanistas apresentem um modelo no qual vivemos sobre um disco com centro no polo norte e borda na Antártida. O Sol seria como um holofote que percorre uma trajetória aproximadamente circular sobre o disco (mas que estranhamente não assume formato de elipse nem diminui de tamanho à medida que se afasta de nós). Precisa ser um holofote, pois, se não fosse, seria dia o tempo todo em toda a Terra, por causa dos resultados que mostraremos a seguir.

Podemos estimar a que altura está o Sol? Isso pode ser estimado se levarmos em conta que o raio do disco da Terra é de aproximadamente 20 mil km (distância entre o polo norte e a Antártida) e que, nos Equinócios, o Sol encontra-se em uma posição tal que seus raios incidem verticalmente sobre a linha do Equador. Além disso, nesse momento, a luz solar incide com ângulo de aproximadamente zero em relação à horizontal no Polo Norte. Se a Terra é plana, isso significa que o Sol está tocando no solo nos Equinócios. Isso é uma incoerência do modelo.

Vamos tentar de novo com dados que não quebrem o modelo tão rapidamente. Podemos medir a diferença entre ângulos dos raios da luz do Sol em diferentes partes da Terra ao mesmo instante. Já foi medido que, quando a luz do Sol incide verticalmente sobre um ponto a Terra, a 800 km de distância ela incide em um ângulo de aproximadamente sete graus em relação à vertical. Se a superfície da Terra é plana, um simples cálculo trigonométrico nos permite estimar a altitude do Sol: 6.500 km.

Agora podemos calcular em que posição o Sol fica no céu quando está “do outro lado do mundo” do ponto de vista de alguém que esteja no Equador. A distância horizontal do Sol no Equinócio será de 20 mil km e a vertical continuará 6.500 km. Isso corresponde a uma altura mínima de 18 graus acima do horizonte. Em outras palavras, o Sol nunca chega mais perto do horizonte do que 18 graus para quem está na linha do Equador durante a época do Equinócio. Em outras épocas, o ângulo é um pouquinho maior (no inverno do Sul) ou um pouquinho menor, mas o Sol nunca chega muito perto do horizonte, apenas circula no céu.

Ah, mas e a refração da luz na atmosfera (que alguns preferem chamar de “efeito de lente”, que é exatamente a mesma coisa)? Bem, é fácil de medir e constatar que a pressão do ar diminui com a altitude. Isso significa que a densidade do ar é maior no solo do que onde estaria o Sol (6.500 km de altitude). Observa-se que, quanto maior a densidade de um meio, maior o índice de refração. Isso faz com que ocorra um “efeito de lente” semelhante ao que ocorre quando a luz passa do ar para a água em uma piscina. Ao descer e passar para o meio mais denso, a trajetória da luz se aproxima da vertical. Isso nos faz ver os objetos a uma altitude maior do que eles realmente estão. A consequência disso é que vemos o Sol mais alto do que ele realmente está. Ou seja, o “efeito de lente” apenas afasta a imagem do Sol do horizonte, complicando ainda mais a situação para o terraplanismo.

Em suma, não existe pôr do sol na Terra plana.

Nota 1: Se eu tivesse dúvida quanto a esse assunto, juntaria algum dinheiro, entraria em um site como o antartida.com.br, e compraria um pacote para uma expedição à Antártida (quem sabe até poderia tirar uma foto da borda do tal domo). Assim, poderia ver que lá na Antártida tem época em que o Sol não se põe; é “dia” o dia inteiro. Ou então iria para algum lugar bem perto do Polo Norte, como a Suécia e o Canadá. Lá, durante o ápice do verão, o Sol não se põe, e o contrário acontece no inverno. Ou ainda faria uma viagem de Sidney até Santiago (veja como essa viagem seria impossível numa Terra plana). Mas como não tenho dúvidas, vou deixar esse investimento e essa pesquisa para os terraplanistas.

Nota 2: Se tivéssemos uma abóbada sobre o planisfério do Mapa Múndi, como querem os terraplanistas, como explicar que um fenômeno como a aurora boreal ocorra na parede de gelo (Polo Sul) e ao mesmo tempo no centro do planisfério (Polo Norte)? Pela repetição dos fenômenos (frio, auroras, baixo azimute do Sol) podemos sugerir que ambos os polos compartilhem a mesma característica geométrica, ou ao menos parte dela. Isso pode ser representado por duas calotas opostas de uma esfera ou por dois aros de um tiroide, no mínimo.