(Quase) tudo o que Ellen White disse sobre a natureza humana de Cristo

jesusO assunto da natureza humana de Cristo representa uma das principais discussões teológicas no meio adventista desde a década de 1950. Cristo era semelhante a Adão antes da Queda (posição pré-lapsariana)? Ou semelhante a Adão depois da Queda (posição pós-lapsariana)? Além disso, Cristo tinha ou não propensões (tendências) para o pecado? Essas questões possuem a maior relevância teológica e prática, mas abordá-las vai além dos objetivos deste texto. Um dos estudos mais importantes sobre o tema é o livro de Woodrow W. Whidden, Ellen White e a Humanidade de Cristo (CPB, 2003). No apêndice B, “O que diz Ellen White sobre a humanidade de Cristo” (p. 139-198), Whidden busca reunir TODOS os textos escritos pela autora a respeito do assunto, incluindo todas as declarações usadas pelos defensores de ambas as posições. Há vários anos, quando li esse livro como requisito da faculdade de Teologia, tentei sistematizar o conteúdo do apêndice. Compilei todas as declarações significativas de Ellen White sobre a natureza humana de Cristo em quatro tópicos: (1) Sua natureza humana era sem pecado; (2) não tinha propensões para o pecado; (3) assumiu uma natureza humana caída e (4) conhecia as paixões humanas.

1 – SUA NATUREZA HUMANA ERA SEM PECADO

“[Contraste com] condição pecaminosa e caída [do homem]” (Review and Herald, 17 de dezembro de 1872); “natureza humana […] completo, perfeito, imaculado” (Review and Herald, 28 de janeiro de 1882); “[natureza] superior à do homem caído” (Signs of the Times, 4 de agosto de 1887); “Sua natureza santa” (Review and Herald, 8 de novembro de 1887); “Sua natureza era mais elevada, pura e santa” (Review and Herald, 11 de setembro de 1888); “Sua natureza finita era pura e sem mancha” (Manuscrito 57, 1890); “natureza […] não corrompida” (Manuscrito 57, 1890); “sem pecado e elevado por natureza” (Signs of the Times, 20 de fevereiro de 1893); “natureza […] sem pecado” (Youth’s Instructor, 16 de agosto de 1894); “humanidade […] chamada de ‘o ente santo’” (Signs of the Times, 16 de janeiro de 1896); “Sua natureza espiritual era isenta de toda mancha de pecado” (Manuscrito 42, 1897; Signs of the Times, 9 de dezembro de 1897); “inexistência de pecaminosidade na natureza humana de Cristo” (Manuscrito 143, 1897); “perfeita ausência de pecado na natureza humana de Cristo” (Signs of the Times, 9 de junho de 1898); “em Sua natureza era vista a perfeição da humanidade” (Signs of the Times, 16 de junho de 1898); “espécime perfeito de humanidade sem pecado” (Manuscrito 44, 1898); “Sua própria natureza sem pecado” (Manuscrito 166, 1898); “[contraste com] humanidade degradada [e] seres caídos” (Manuscrito 165, 1899); “Sua própria natureza sem pecado” (Review and Herald, 17 de julho de 1900); “a mesma natureza sobre a qual, no Éden, Satanás obteve vitória” (Youth’s Instructor, 25 de abril de 1901); “não [possuía] a pecaminosidade do homem” (Signs of the Times, 29 de maio de 1901); “Sua natureza sem pecado” (Carta 67, 1902); “não havia nEle […] pecaminosidade” (Signs of the Times, 30 de julho de 1902).

2 – NÃO TINHA PROPENSÕES PARA O PECADO

“…não em possuir idênticas paixões” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 201-202); “não possuindo as paixões [da humanidade]” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 508-509); “[nenhum] sentimento respondeu à tentação” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 422); “não tinha as paixões da nossa natureza humana caída” (Review and Herald, 19 de maio de 1885); “não tinha as paixões da nossa natureza humana caída” (Review and Herald, 17 de agosto de 1886); “sua posteridade [de Adão] nasceu com inerentes propensões à desobediência. Mas Jesus Cristo foi o unigênito Filho de Deus. […] Nem por um só momento houve nEle qualquer má propensão” (Carta 8, 1895); “não […] com propensões para o pecado” (Carta 8, 1895); “nem por um momento […] uma má propensão” (Carta 8, 1895); “[nenhuma] inclinação para a corrupção” (Carta 8, 1895); “nenhuma chance […] como resposta às […] tentações” (Carta 8, 1895); “nada […] que encorajasse seus [de Satanás] avanços” (Carta 8, 1895); “nada nAquele que assim respondeu a seus [de Satanás] sofismas” (Signs of the Times, 10 de maio de 1899); “sentimentos contrários a todas as paixões” (Signs of the Times, 10 de maio de 1899); “não […] as mesmas propensões pecaminosas e corruptas” (Manuscrito 57, 1890); “constante inclinação para o bem” (Youth’s Instructor, 8 de setembro de 1898)

3 – ASSUMIU UMA NATUREZA HUMANA CAÍDA

“…natureza decaída do homem” (Spiritual Gifts, v. 1, p. 25); “natureza do homem decaído” (Primeiros Escritos, p. 152); “natureza do homem caído” (Spiritual Gifts, v. 4a, p. 115; Review and Herald, 31 de dezembro de 1872; Review and Herald, 24 de fevereiro de 1874; Spirit of Prophecy, v. 2, p. 39); “homem caído […] onde se achava” (Review and Herald, 28 de julho de 1874; Spirit of Prophecy, v. 2, p. 88); “natureza sofredora e pesarosa” (Spirit of Prophecy, v. 3, p. 261); “assumiu sua [dos homens] natureza caída” (Signs of the Times, 23 de setembro de 1889); “nossa natureza caída, mas não corrompida” (Manuscrito 57, 1890); “nossa natureza pecaminosa” (Review and Herald, 15 de dezembro de 1896; Carta 67, 1902; Signs of the Times, 30 de julho de 1902; Review and Herald, 22 de agosto de 1907); “nossa natureza em sua condição deteriorada” (Manuscrito 143, 1897); “natureza do homem em sua condição caída” (Manuscrito 143, 1897); “nossa natureza em seu estado deteriorado” (Signs of the Times, 9 de junho de 1898); “natureza humana em seu estado decaído” (Signs of the Times, 9 de junho de 1898); “natureza ofensora do homem” (Manuscrito 166, 1898); “[tomou] sobre Si nossa natureza caída” (O Desejado de Todas as Nações, p. 112); “natureza ofensora do homem” (Review and Herald, 17 de julho de 1900); “natureza caída e sofredora, degradada e maculada pelo pecado” (Youth’s Instructor, 20 de dezembro de 1900); “natureza de Adão, o transgressor” (Manuscrito 141, 1901); “nível da humanidade decaída” (General Conference Bulletin, 23 de abril de 1901)

4 – CONHECIA AS PAIXÕES HUMANAS

“[Tinha] fraquezas do homem caído” (Review and Herald, 28 de julho de 1874); “sabe quão fortes são as inclinações do coração natural” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 177); “[conhecia] todo o vigor da paixão da humanidade” (Carta 27, 1892; Manuscrito 73; Signs of the Times, 21 de novembro de 1892); “[crianças com] paixões como as dEle mesmo” (Signs of the Times, 9 de abril de 1896)

O que podemos entender a partir dessas declarações aparentemente contraditórias sobre o assunto? Woodrow Whidden assim conclui seu estudo: “Sugiro, com veemência, que coloquemos de lado as expressões mais tradicionais como pré-Queda e pós-Queda nessa importante busca pela clareza doutrinária. Elas são simplesmente inadequadas para expressar a riqueza do entendimento de Ellen White acerca da humanidade de Cristo. Quando se tratava de Cristo como Aquele totalmente sem pecado, o substituto sacrificial, ela era PRÉ-QUEDA. Mas, ao escrever sobre Sua capacidade de resistir em momentos de tentação, ela enfatizou Sua identidade e falou amplamente em termos de PÓS-QUEDA. Um equilíbrio cuidadoso dos termos SINGULARIDADE e IDENTIDADE parece refletir de modo mais preciso as tensões profundamente ricas envolvidas neste tema difícil” (Woodrow W. Whidden, Ellen White e a Humanidade de Cristo [CPB, 2003], p. 100-101). Essa compreensão é defendida também na recente Enciclopédia de Ellen G. White (CPB, a ser publicada), artigo “Humanidade de Cristo” (p. 692-696).

O importante livro Nisto Cremos explica: “A humanidade de Cristo não foi a humanidade de Adão, ou seja, a humanidade do pai da raça antes da Queda; tampouco foi a humanidade decaída, isto é, em todos os aspectos a humanidade de Adão após a Queda. Não era a humanidade adâmica em virtude de possuir as inocentes fraquezas dos caídos [isto é, “fome, dor, tristeza, etc.”; p. 75]. Não era a natureza caída porque Ele jamais caiu em impureza moral. Sua natureza era, portanto, mais apropriadamente a nossa humanidade, porém sem pecado” (Nisto Cremos: As 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia [CPB, 2008], p. 62; veja também p. 59-66).

(Matheus Cardoso)

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Ellen White, a Bíblia e a ciência

science_bibleComparando o Salmo 19 com Romanos 1, aprendemos que a natureza revela a glória de Deus e que a cada dia podemos obter novos ensinamentos dela. Além disso, a natureza revela atributos de Deus, não apenas sua existência. A Bíblia tem pequenas falhas: erros de cópia e talvez de escrita no original (é possível trocar uma letra aqui ou ali). Equívocos em traduções, porque foram muitas ao longo da história. Mas a mensagem básica está correta; os princípios permanecem intocados. O mesmo ocorre com a natureza. O pecado tocou em circunstâncias, mas não em princípios, em leis, pois essas coisas são diretamente controladas pelo próprio Deus. Acompanhe esta série de textos de Ellen White que esclarecem pontos mais específicos:

“Hoje os homens declaram que os ensinos de Cristo concernentes a Deus não podem ser provados pelas coisas do mundo natural, que a natureza não está em harmonia com as escrituras do Antigo e Novo Testamentos. Não existe essa suposta falta de harmonia entre a natureza e a ciência. A Palavra do Deus do Céu não está em harmonia com a ciência humana, mas em perfeito acordo com Sua própria ciência criada” (Olhando para o Alto [MM 1983], 21 de setembro).

“Aos olhos dos homens, a vã filosofia e a falsamente chamada ciência são de mais valor do que a Palavra de Deus. Prevalece em grande medida a ideia de que o Mediador divino não é necessário à salvação dos homens. Teorias várias, avançadas pelos chamados sábios segundo o mundo, destinadas ao enobrecimento do homem, são acolhidas e acreditadas mais do que a verdade divina, ensinada por Cristo e Seus apóstolos” (Review and Herald, 8 de novembro de 1892).

Note que entre os ensinos errados está o de que os ensinos de Cristo não podem ser provados pelas coisas do mundo natural.

“O Céu é uma escola; o campo de seus estudos, o Universo; seu professor, o Ser infinito. Uma ramificação dessa escola foi estabelecida no Éden; e, cumprindo o plano da redenção, reassumir-se-á a educação na escola edênica” (Educação, p. 301).

Isso é para o futuro. Também há referências a coisas semelhantes antes do pecado. Mas e na era do pecado, como ficam as coisas? Veremos.

Primeiro um conselho geral: “Seremos julgados de acordo com o que nos cumpria fazer, mas que não executamos por não usar nossas capacidades para glorificar a Deus. Mesmo que não percamos a salvação, reconheceremos na eternidade a consequência de não empregarmos nossos talentos. Haverá eterna perda por todo conhecimento e capacidade não alcançados, que poderíamos ter ganho” (Mensagens aos Jovens, p. 309).

Mas temos limitações sérias. O que fazer quanto a isso?

“Mas se nos entregarmos completamente a Deus, e seguirmos Sua direção em nosso trabalho, Ele mesmo Se responsabilizará pelo cumprimento. Não quer que nos entreguemos a conjecturas sobre o êxito de nossos esforços honestos. Nem uma vez devemos pensar em fracasso. Devemos cooperar com Aquele que não conhece fracasso.

Não devemos falar de nossa fraqueza e inaptidão. Com isso manifestamos desconfiança para com Deus, e negamos Sua Palavra” (Mensagens aos Jovens, p. 309).

Ok. Mas essas coisas são um tanto gerais. E sobre a ciência propriamente?

“Aquele que conhece a Deus e a Sua Palavra por experiência pessoal […]

sabe que, na verdadeira ciência, nada pode haver que esteja em contradição com o ensino da Palavra; uma vez que procedem ambas do mesmo Autor, a verdadeira compreensão delas demonstrará sua harmonia. A esse estudante a pesquisa científica abrirá vastos campos de pensamentos e informações. Ao ele contemplar as coisas da natureza, advém-lhe uma nova percepção da verdade. O livro da natureza e a Palavra escrita derramam luz um sobre o outro. Ambos o fazem relacionar-se melhor com Deus, ensinando-lhe o que concerne ao Seu caráter e às leis por meio das quais Ele opera” (A Ciência do Bom Viver, p. 462).

“Deus é o autor da ciência. As pesquisas científicas abrem ao espírito vasto campo de ideias e informações, habilitando-nos a ver Deus em Suas obras criadas. A ignorância pode tentar apoiar o ceticismo, apelando para a ciência; em vez de o sustentar, porém, a verdadeira ciência contribui com novas provas da sabedoria e do poder de Deus. Devidamente compreendidas, a ciência e a Palavra escrita concordam entre si, lançando luz uma sobre a outra. Juntas, conduzem-nos para Deus, ensinando-nos algo das sábias e benéficas leis por que Ele opera” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 426).

Então, a Bíblia e a verdadeira ciência lançam luz uma sobre a outra. Há uma missão para nós envolvendo a ciência:

“Há poder no conhecimento de ciências de toda a espécie, e é desígnio de Deus que a ciência avançada seja ensinada em nossas escolas como preparação para a obra que há de preceder as cenas finais da história terrestre. A verdade deve ir aos mais remotos confins da Terra mediante pessoas preparadas para a obra. Mas, embora haja poder no conhecimento da ciência, o conhecimento que Jesus veio transmitir pessoalmente ao mundo era o conhecimento do evangelho. A luz da verdade devia lançar seus brilhantes raios nas partes mais longínquas da Terra, e a aceitação ou a rejeição da mensagem de Deus envolvia o destino eterno das pessoas” (Fundamentos da Educação Cristã, p. 186).

Não podemos perder de vista que a prioridade é a salvação revelada por Cristo, mas isso não nos libera do dever de estudar e usar a verdadeira ciência:

“Depois da Bíblia, a natureza deve ser o nosso maior livro de texto” (Conselhos Sobre Educação, p. 171).

“Ao mesmo tempo em que a Bíblia deve ter o primeiro lugar na educação das crianças e jovens, o livro da natureza ocupa o lugar imediato em importância. As obras criadas de Deus testificam de Seu amor e poder. Ele trouxe à existência o mundo, juntamente com tudo que nele se contém” (Exaltai-O Como o Criador [MM 1992] 22 de fevereiro).

“Os jovens que desejam entrar no campo como pastores ou colportores devem primeiro obter um razoável grau de preparo mental, bem como ser especialmente exercitados para sua carreira. Os que não foram educados, exercitados e polidos não se acham preparados para entrar num campo onde as poderosas influências do talento e da educação combatem as verdades da Palavra de Deus. Tampouco podem eles enfrentar com êxito as estranhas formas de erros religiosos e filosóficos combinados, cuja exposição requer conhecimento de verdades científicas, como também bíblicas” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 514).

O que podemos aprender sobre leis espirituais ao estudar a natureza? Há algumas referências a isso. Eis uma delas:

“O mesmo poder que mantém a natureza opera também no ser humano. As mesmas grandes leis que guiam tanto a estrela quanto o átomo dirigem a vida humana. As leis que presidem à ação do coração, regulando o fluxo da corrente da vida no corpo são as leis da Inteligência todo-poderosa, as quais presidem às funções da alma. DEle procede toda a vida. Unicamente em harmonia com Ele poderá ser achada a verdadeira esfera daquelas funções. Para todas as coisas de Sua criação, a condição é a mesma: uma vida que se mantém pela recepção da vida de Deus, uma vida exercida de acordo com a vontade do Criador” (Educação, p. 99).

“Transgredir Sua lei, física, mental ou moral corresponde a colocar-se o transgressor fora da harmonia do Universo, ou introduzir discórdia, anarquia e ruína. Para aquele que assim aprende a interpretar seus ensinos, toda a natureza se ilumina; o mundo é um compêndio, e a vida uma escola. A unidade do ser humano com a natureza e com Deus, o domínio universal da lei, os resultados da transgressão, não podem deixar de impressionar o espírito e moldar o caráter” (ibidem, p. 99, 100).

“Aquele que permanece em pecaminosa ignorância das leis da vida e da saúde, ou que voluntariamente viola essas leis, peca contra Deus” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 295).

“Deus não Se agrada com a ignorância quanto a Suas leis, sejam elas naturais, sejam espirituais” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 467).

Vimos, por exemplo, que há estranhas formas de erros religiosos e filosóficos combinados (não devemos nos contaminar com essas coisas), cuja solução são conhecimentos científicos e bíblicos (precisamos estudar isso). E é muito fácil confundir a verdadeira ciência (na qual deveríamos nos aprofundar) com a falsa (da qual deveríamos fugir). A verdadeira ciência e a Bíblia definitivamente estão entre as coisas que não apenas podemos, mas devemos estudar. Entre as coisas que devemos evitar aparecem nos textos acima a vã filosofia e a falsamente chamada ciência, também chamada de ciência humana.

A Bíblia e a Ciência lançam luz uma sobre a outra justamente por serem complementares. A Bíblia fala mais de motivos, planos e princípios, e a Ciência fornece ferramentas para o estudo da Bíblia e da natureza, esclarecendo mecanismos. As ferramentas da Ciência têm revelado na natureza uma profusão de informações que não estão na Bíblia nem deveriam estar. Isso não acrescenta doutrina nova sobre o evangelho (não vão além da Bíblia nesse aspecto), mas são informações importantes sobre as quais a Bíblia se cala, exceto por nos mandar estudá-las.

(Compilação e comentários por Eduardo Lütz)

Ellen White acreditava na Trindade?

E. G. White portrait (Dames, 911 Broadway, Oakland, Cal.)Os seguintes textos, todos publicados durante a vida de Ellen White por ela própria, respondem à pergunta:

“Há três pessoas vivas pertencentes ao trio celeste; em nome destes três grandes poderes – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –, os que recebem a Cristo por fé viva são batizados, e esses poderes cooperarão com os súditos obedientes do Céu em seus esforços para viver a nova vida em Cristo” (Special Testimonies, Série B, nº 7, p. 62-63 [publicado em 1906]; Bible Training School, 1° de março de 1906).

A Divindade moveu-Se de compaixão pela raça, e o Pai, o Filho e o Espírito Santo deram-Se a Si mesmos ao estabelecerem o plano da redenção. A fim de levarem a cabo plenamente esse plano, foi decidido que Cristo, o unigênito Filho de Deus, Se desse a Si mesmo em oferta pelo pecado” (Australasian Union Conference Record, 1° de abril de 1901; A Systematic Offering for the Sydney Sanitarium, p. 36 [publicado em 1901]; Review and Herald, 2 de maio de 1912).

“O mal vinha se acumulando por séculos e só poderia ser contido pelo inigualável poder do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, que viria sem restrições em Sua eficácia, mas em plenitude do divino poder” (Carta 8, 1896; Special Testimonies for Ministers and Workers, n° 10, p. 25 [publicada em 1897]).

“O príncipe da potestade do mal só pode ser mantido em sujeição pelo poder de Deus na terceira pessoa da Divindade, o Espírito Santo” (Special Testimonies, Série A, nº 10, p. 37 [publicado em 1897]).

“Ao pecado só se poderia resistir e vencer por meio da poderosa operação da terceira pessoa da Divindade, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder. É o Espírito que torna eficaz o que foi realizado pelo Redentor do mundo” (O Desejado de Todas as Nações, p. 671 [1898]; Review and Herald, 19 de maio de 1904; [Australian] Signs of the Times, 4 de dezembro de 1911).

“Cristo enviou Seu representante, a terceira pessoa da Divindade, o Espírito Santo. Nada podia superar esse dom” (Signs of the Times, 1° de dezembro de 1898; Southern Watchman, 28 de novembro de 1905).

Como entender as declarações em que Ellen White afirma que a natureza do Espírito Santo é um mistério?

Os adventistas que negam a personalidade do Espírito Santo costumam citar alguns textos em que Ellen White declara que a natureza do Espírito Santo é um mistério. As declarações mais frequentemente citadas encontram-se em Manuscript Releases, v. 14, p. 179; Atos dos Apóstolos, p. 51 e 52. Essas pessoas argumentam que, se o assunto é um mistério, ele não pode ser definido ou compreendido. Portanto, seria incorreto e mesmo especulativo ensinar que o Espírito Santo é uma Pessoa da Divindade.

É interessante, entretanto, que as mesmas pessoas que utilizam esse argumento, na prática, contradizem a si mesmas. Frequentemente, elas definem o Espírito Santo como algo impessoal, a saber, “um atributo que não pode ser separado de Deus”, a mente de Deus e de Cristo e o fôlego ou respiração compartilhado por ambos. Em outras ocasiões, o Espírito Santo é compreendido como um ser pessoal: Deus, o Pai; Cristo; o anjo Gabriel; ou os anjos em geral. Portanto, é evidente que essas pessoas têm definições bastante específicas, embora conflitantes, sobre a natureza do Espírito Santo.

Antes de analisar os textos em que Ellen White declara que a natureza do Espírito Santo é um mistério, devemos ter uma compreensão geral sobre o que ela ensinou a respeito do assunto. Em diversos textos ela claramente define o Espírito Santo como uma das “três pessoas vivas pertencentes ao trio celestial” ([Special] Testimonies, série B, nº 7, p. 63; Bible Training School, 1° de março de 1906) e “a terceira pessoa da Divindade” (Carta 8, 1896; Special Testimonies for Ministers and Workers, n° 10, p. 25; Special Testimonies, Série A, nº 10, p. 37; O Desejado de Todas as Nações, p. 671; Signs of the Times, 1° de dezembro de 1898; Review and Herald, 19 de maio de 1904; Southern Watchman, 28 de novembro de 1905). Portanto, é evidente que, para Ellen White, o fato de que a natureza do Espírito Santo seja um mistério não significa uma ausência de revelação sobre o assunto. Concluídas essas observações introdutórias, devemos analisar os dois textos de Ellen White mencionados no início.

A carta ao “irmão Chapman”. Uma das declarações frequentemente citadas por aqueles que negam a personalidade do Espírito Santo encontra-se em Manuscript Releases, v. 14, p. 179. Originalmente, esse texto era parte da Carta 7, 1891, escrita “ao irmão Chapman” em 11 de junho de 1891. Ellen White declara: “A natureza do Espírito Santo é um mistério não claramente revelado, e você jamais será capaz de explicá-lo a outros porque o Senhor não o revelou a você. Você pode reunir passagens da Escritura e impor sua própria construção sobre elas, mas a aplicação não é correta. […] Não é essencial para você saber e ser capaz de definir exatamente o que seja o Espírito Santo. Cristo nos diz que o Espírito Santo é o Consolador, e o Consolador é o Espírito Santo. […] Existem muitos mistérios que eu não busco compreender ou explicar; eles são muito elevados para mim e muito elevados para você. Sobre alguns desses pontos, o silêncio é ouro.”

A própria carta escrita por Ellen White esclarece que o equívoco mantido pelo “irmão Chapman” era crer que o Espírito Santo é “o anjo Gabriel” (p. 175). O problema essencial de Chapman consistia em ser demasiadamente específico em sua definição. Ellen White responde a isso ao declarar que não se deve “definir exatamente o que seja o Espírito Santo”, pois esse é “um mistério não claramente revelado”. Além disso, Chapman chegou a uma conclusão especulativa, pois está além de qualquer declaração presente na Bíblia ou no Espírito de Profecia. Ellen White menciona esse aspecto do problema ao condenar o uso de uma “construção” artificial de “passagens da Escritura” para provar uma teoria.

Em torno de 1891, os adventistas estavam convencidos da plena divindade do Espírito Santo (J. H. Waggoner, The Gifts of the Spirit, p. 23; Review and Herald, 3 de julho de 1883, p.  421), mas, ao contrário de Chapman, rejeitavam a teoria de que Ele é um ser criado, um anjo ou grupo de anjos (Signs of the Times, 15 de julho de 1889, p. 422; idem, 4 de novembro de 1889, p. 663). Apesar disso, nessa época poucos adventistas compreendiam o Espírito Santo como uma das três Pessoas da Divindade. Em um contexto “não trinitariano”, é compreensível que a definição dada por Chapman não estivesse ligada à Divindade. É provável que ele tenha observado que Gabriel ocupa uma posição singular no Céu, pois, além de Deus e de Cristo, é o único ser celestial mencionado por nome na Bíblia. Chapman deve ter observado também que Ellen White atribui a Gabriel a posição imediatamente abaixo de Cristo. Seja como for, o certo é que Chapman identificou a posição singular de Gabriel com o Espírito Santo.

A declaração de Atos dos Apóstolos. Outro texto frequentemente citado encontra-se em Atos dos Apóstolos, p. 51 e 52, onde Ellen White declara: “Não é essencial que sejamos capazes de definir exatamente o que seja o Espírito Santo. Cristo nos diz que o Espírito é o Consolador, o ‘Espírito de verdade, que procede do Pai’ (Jo 15:26). Declara-se positivamente, a respeito do Espírito Santo, que, em Sua obra de guiar os homens em toda a verdade ‘não falará de Si mesmo’ (Jo 16:13). A natureza do Espírito Santo é um mistério. Os homens não a podem explicar, porque o Senhor não lho revelou. Com fantasiosos pontos de vista, podem-se reunir passagens da Escritura e dar-lhes um significado humano; mas a aceitação desses pontos de vista não fortalecerá a igreja. Com relação a tais mistérios – demasiado profundos para o entendimento humano – o silêncio é ouro.”

É evidente a semelhança entre esse texto e o da carta “ao irmão Chapman”. Ambos declaram que “a natureza do Espírito Santo é um mistério”, mas, sobre esse assunto tão profundo, “o silêncio é ouro”. É possível “reunir passagens da Escritura” para construir uma teoria humana, mas o resultado será desastroso. Novamente, Ellen White condena qualquer tipo de especulação sobre o assunto. O erro consistiria em “definir exatamente o que seja o Espírito Santo”, indo além da revelação. Além disso, Cristo já trouxe luz sobre o assunto, ao ensinar que Ele é “o Consolador”. Em Atos dos Apóstolos, entretanto, Ellen White apresenta um motivo adicional contra a especulação, não presente na carta a Chapman. “Em Sua obra”, o Espírito Santo “não falará de Si mesmo”. Isso parece indicar que não há tanta revelação sobre o Espírito, pois, como Ele é o agente da revelação e inspiração, Sua obra não estaria centralizada em Si mesmo, mas em Cristo.

O livro Atos dos Apóstolos foi publicado originalmente em 1911. Uma análise da literatura mostra que, nessa época, os adventistas consideravam o Espírito Santo como uma das três Pessoas da Divindade/Trindade. Em um período anterior, seria natural que o Espírito Santo fosse identificado com um anjo, o que foi realizado por Chapman. Agora, o natural seria identificá-Lo com um ser que possui características mais claramente divinas. Já em 1898, R. A. Underwood, influenciado pelas declarações de Ellen White sobre “a terceira pessoa da Divindade”, parece sugerir que o Espírito Santo é um ser corpóreo como o Pai e o Filho. Segundo ele, assim como Satanás “está presente em todos os lugares deste mundo por seus representantes, os anjos caídos”, o Espírito Santo é onipresente apenas por meio dos anjos bons (Review and Herald, 17 de maio de 1898, p. 310-311).

Seguindo uma linha semelhante de raciocínio, em 1905, S. N. Haskell argumentou que o Espírito Santo é Melquisedeque. O Espírito não poderia ser “o anjo Gabriel”, “porque os anjos são seres criados e, portanto, têm início de dias”. O Espírito Santo, entretanto, “é a ‘terceira pessoa da Divindade’ e, portanto, não possui mais ‘início de dias nem fim de existência’ [Hb 7:3] que o próprio Deus”. Haskell conclui: “O Espírito vem ao mundo como um representante de Cristo e é semelhante a Cristo. […] A Abraão Ele apareceu como Rei e Sacerdote” ([Australian] Signs of the Times, 18 de fevereiro de 1905, p. 81). Embora Ellen White não tenha especificado as teorias que condenava, sem dúvida incluíam as ideias de Underwood e Haskell.

Sumário e reflexões finais. As declarações em que Ellen White afirma que a natureza do Espírito Santo é um mistério encontram-se em dois contextos distintos da história da Igreja Adventista. No período de ênfase “não trinitariana” (1844-1897), ela advertiu contra a teoria especulativa de que o Espírito Santo é Gabriel. Em um período posterior, “trinitariano” (1897 em diante), ela condenou teorias que definiam a personalidade do Espírito Santo sob uma perspectiva antropocêntrica.

Em ambos os períodos, a ênfase de Ellen White estava em advertir contra uma definição demasiadamente precisa e minuciosa a respeito do assunto, que vá além da revelação. As advertências de Ellen White são bastante relevantes ainda para o nosso tempo, em que existem teorias especulativas sobre o Espírito Santo.

(Matheus Cardoso é formado em Teologia pelo Unasp)

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