Soar o alarme é diferente de alarmismo

atalaiaMuitas vozes têm-se levantado nas redes sociais trazendo mensagens sobre a volta de Cristo. Tem aqueles que, no afã de ver Jesus voltando logo, se arriscam a marcar datas para os últimos eventos escatológicos. Tem outros que, preocupados com o alarmismo, e na melhor das boas intenções, usam frases que acabam levando muitos para o extremo oposto: “Muita coisa ainda tem que acontecer!” “Vai levar pelo menos 20 anos para pregar o evangelho no mundo inteiro!” “O mais importante é o preparo! Não me importam as notícias!” Enfim, diante de tantas vozes, como equacionar esse tema de forma coerente e equilibrada? O papel do Tsôpeh e o sermão profético de Jesus são a chave para encontrar a resposta.

No hebraico bíblico, encontramos a figura do Tsôpeh. E os profetas, muitas vezes, foram comparados ao Tsôpeh. Segundo o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Tsôpeh, traduzido como “sentinela”, “atalaia”, era aquele “colocado sobre o muro da cidade e era responsável por informar a liderança da nação acerca dos perigos (1Sm 14:16; 2Sm 18:24; 2Rs 9:17-20). A sentinela que falhasse no cumprimento do dever frequentemente era executada. O ofício profético é, às vezes, descrito com essa linguagem (Ez 3:17; 33:7; Jr 6:17; Hc 2:1)” (p. 1299 e 1300).

No mundo moderno, a responsabilidade do Tsôpeh repousa sobre os cristãos: “Devem os seguidores de Cristo associar-se num poderoso esforço para chamar a atenção do mundo para as profecias da Palavra de Deus que se cumprem rapidamente” (Ellen White, Evangelismo, p. 193).

 O papel do atalaia ou sentinela era observar os sinais de perigo e soar o alarme (trombeta) para que as pessoas da cidade se preparassem para o que estava para acontecer. O paralelo com a realidade moderna é indiscutível: “Estão iminentes os perigos dos últimos dias, e em nossa obra temos que advertir as pessoas do perigo em que se encontram. Não permaneçam sem ser abordadas essas cenas solenes que a profecia revelou” (Ellen White, Evangelismo, p. 195).

“Como fiéis atalaias, devemos dar o aviso ao ver que vem a espada, para que homens e mulheres, pela ignorância, não sigam um rumo que evitariam se conhecessem a verdade” (Ellen White, Eventos Finais, p. 127).

Na teologia bíblica, soar o alarme é diferente de alarmismo, assim como ser perfeito é diferente de perfeccionismo.

No século 19, durante o Movimento Milerita nos Estados Unidos, a mensagem da breve volta de Cristo à Terra cativou a atenção de milhares de pessoas, porém, muitos líderes protestantes falharam em sua missão de atalaias: “Os pastores, que, como ‘atalaias sobre a casa de Israel’, deveriam ter sido os primeiros a discernir os sinais da vinda de Jesus, não quiseram saber a verdade, quer pelo testemunho dos profetas, quer pelos sinais dos tempos” (Ellen White, O Grande Conflito, p. 380).

Observar os sinais dos tempos é uma necessidade prescrita pelo próprio Senhor Jesus: “Assim também vós, quando virdes todas estas coisas, sabei que está próxima, às portas” (Mateus 24:33).

“Toda notícia de calamidade em mar ou em terra é um testemunho de que o fim de todas as coisas está próximo. Guerras e rumores de guerras, declaram-no. Haverá um só cristão cuja pulsação não se acelere ao prever os acontecimentos que se iniciam perante nós?” (Ellen White, Evangelismo, p. 219).

“Deveremos esperar até que se cumpram as profecias do fim, antes de dizermos alguma coisa a seu respeito? Que valor terão nossas palavras então?” (Ellen White, Testemunhos para a Igreja, v. 9, p. 20) .

Por outro lado, nesse mesmo contexto do sermão profético, o Salvador estabeleceu limites importantes para a missão do atalaia. O primeiro deles foi: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai” (Mateus 24:36).

Em outras palavras, cuidado com o alarmismo! Estabelecer datas para os eventos finais é algo que desqualifica qualquer um que pretenda ser um atalaia fiel. “Tenho sido repetidamente advertida com referência a marcar tempo. Nunca mais haverá para o povo de Deus uma mensagem baseada em tempo. Não devemos saber o tempo definido nem para o derramamento do Espírito Santo nem para a vinda de Cristo” (Ellen White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 188).

Da mesma forma, outro perigo a ser evitado pelos cristãos está no extremo oposto. São o comodismo e a sonolência. É o estado de muitos que, por palavras ou ações, perdem o senso da brevidade da volta de Cristo e tornam-se semelhantes ao mundo imitando seus costumes e ambições. Colocando o coração neste mundo, vivem apenas para os cuidados, as ansiedades e os interesses terrenos.

“Está desaparecendo a fé na próxima vinda de Cristo. ‘Meu Senhor tarde virá’ (Mt 24:48), não se diz apenas no coração, mas exprime-se também em palavras e ainda mais decididamente nas obras. A insensatez, neste tempo de espera, está entorpecendo os sentidos do povo de Deus quanto aos sinais dos tempos” (Ellen White, Testemunhos para a Igreja, v. 3, p. 255).

Para evitar esses extremos, a ordem clara de Jesus foi: “Vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor” (Mt 24:42). E para explicar o significado de “vigiar”, Ele contou em seguida três parábolas.

A primeira (Mt 24:45-51) para mostrar que o bom servo (o que vigia) é aquele que não perde o senso da brevidade do retorno do Senhor, relaxando em sua vida e acabando por imitar os costumes, interesses e ambições daqueles que vivem só para o presente século.

Na segunda parábola (Mt 25:1-13), as cinco virgens insensatas ilustram o perigo de professar a religião de Cristo (lâmpada), mas possuir uma espiritualidade superficial, não permitindo a transformação diária operada pelo Espírito Santo (azeite), colaborando, assim, para uma vida religiosa meramente formal.

Por fim, a terceira parábola, conhecida como parábola dos talentos (Mt 25:14-30), foi contada para mostrar que “o tempo [de espera] não deve ser gasto em vigilância ociosa, mas em trabalho diligente” (Ellen White, Parábolas de Jesus, p. 325).

“O povo de Deus deve acatar a advertência e discernir os sinais dos tempos. Os sinais da vinda de Cristo são demasiado claros para deles se duvidar; e em vista destas coisas, todo aquele que professa a verdade deve ser um pregador vivo” (Ellen White, Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 260).

Sendo assim, o papel do Tsôpeh (atalaia) juntamente com o sermão profético de Jesus, fornecem uma visão completa do papel ativo, coerente e equilibrado que os cristãos que aguardam o retorno do Mestre devem desempenhar. Tal visão pode ser representada pelo seguinte gráfico:

ss

Diante de tudo o que foi abordado, ninguém deveria se esquecer da razão do sermão profético de Cristo e de outras profecias escatológicas da Palavra de Deus: “A mensagem da breve volta de Cristo visa despertar os homens de sua absorção nas coisas temporais. Destina-se a acordá-los para o senso das realidades eternas” (Ellen White, Parábolas de Jesus, p. 228).

Ora, vem, Senhor Jesus!

Sérgio Santeli é pastor e mestre em Teologia

O Relatório da Montanha de Ferro

iron“Em 1963, uma comissão de alto nível – integrada por quinze eminentes pesquisadores, selecionados por seu alto saber e ilibada reputação – começou a reunir-se no local denominado Montanha de Ferro, perto de Nova York, por convocação provável do governo americano, para analisar, realística e objetivamente, as consequências que advirão para a humanidade se, e quando, for adotado universalmente um sistema permanente de paz. Após três anos e meio de estudos profundos e de sérias investigações sócio-científicas, o grupo deu por encerrados os trabalhos e emitiu unânime e sigiloso parecer, segundo o qual a paz definitiva, além de provavelmente inatingível, não seria útil à sociedade humana, cuja estabilidade – pelo menos no estágio atual – não pode prescindir da guerra.

A Paz Indesejável (Original: Report from Iron Mountain, 1969) é o surpreendente e chocante relatório da comissão da Montanha de Ferro tornando ostensivo – sem qualquer corte – pela indiscrição de um de seus membros. Foi acrescido de material introdutivo explicativo, preparado pelo jornalista do The New Yorker Leonard C. Lewin” (apresentação do livro).

“Leonard C. Lewin apresenta o livro como um verdadeiro furo. Uma vez, em agosto de 1963, um cientista social o procurou para lhe passar as conclusões do estudo feito por uma comissão da mais alta importância, convocada por Washington, para determinar, realística e precisamente, a natureza dos problemas que os Estados Unidos teriam de enfrentar se, e quando, o mundo atingir uma condição de paz permanente.

“As conclusões do relatório da comissão foram tão chocantes, que a própria comissão resolveu não as publicar. Em síntese, o relatório legitima a guerra… [grifo acrescentado] Este livro foi considerado, pela maioria dos críticos, uma obra tão interessante, mas tão fictícia…

“E há ainda um depoimento impressionante. Trata-se do que disse a professora de sociologia da Universidade Estadual da Pensilvânia, Jessie Bernard: ‘Antes de comentar este relatório, gostaria de corrigir um rumor errôneo. Na página 21, o autor declara que não havia mulheres na comissão. Acontece que fui membro do Grupo. Mas minhas contribuições eram tão contrárias ao tom das discussões […] que, por consenso, me pareceu melhor pular fora’” (nota do tradutor Luiz Orlando Carneiro).

Partes do relatório:

“A possibilidade da guerra fornece o senso de necessidade externa, sem o qual nenhum governo pode permanecer longamente no poder… A organização de uma sociedade para a possibilidade da guerra é seu principal estabilizador político” (p. 69).

“Em geral, o sistema de guerra dá a motivação básica para a organização social primária. Dessa forma, ele reflete no nível social os incentivos do comportamento individual humano. O mais importante deles, para propósitos sociais, é o argumento psicológico individual para submissão a uma sociedade e a seus valores. A submissão requer uma causa; uma causa requer um inimigo” (p. 73).

“Um substitutivo viável para a guerra como sistema social não pode ser uma mera charada simbólica. Ele deve envolver um risco real de destruição pessoal real, numa escala compatível com a envergadura e a complexidade dos modernos sistemas sociais. Credibilidade é a chave […], a menos que forneça uma ameaça crível de vida e morte, não satisfará a função socialmente organizadora da guerra. A existência de uma ameaça externa aceita é, assim, essencial à coesão social, bem como à aceitação da autoridade política” (p. 76).

“A guerra é a principal força motivadora do desenvolvimento da ciência, em qualquer nível, desde o abstratamente conceitual ao estritamente tecnológico… Todas as descobertas importantes sobre o mundo natural foram inspiradas por necessidades militares, reais ou imaginárias, de suas épocas… Começando com o desenvolvimento do ferro e do aço, passando pelas descobertas das leis do movimento e da termodinâmica, à era da partícula atômica, do polímero sintético, e da cápsula espacial, nenhum progresso científico importante deixou de ser, pelo menos indiretamente, iniciado com uma exigência implícita de armamento” (p. 82).

“O projeto espacial mais ambicioso e fora da realidade não pode, por si só, gerar uma ameaça externa crível. Argumenta-se, fervorosamente, que uma tal ameaça poderia se constituir na última e melhor esperança de paz, unindo a humanidade contra o perigo de destruição por criaturas de outros planetas, ou do espaço sideral. Foram propostas experiências para testar a credibilidade de uma ameaça de invasão extraterrena [grifo acrescentado]; é possível que alguns dos mais inexplicáveis incidentes com discos voadores, nos últimos anos, sejam de fato experiências primárias desse tipo” (p. 95).

“Um substitutivo político efetivo da guerra exigiria inimigos substitutivos… Pode ser, por exemplo, que a brutal poluição do meio-ambiente possa eventualmente substituir a possibilidade de destruição em massa, através de armas nucleares, como a principal ameaça aparente à sobrevivência das espécies” (p. 96).

[Nota pastor Sérgio Santeli: Será que qualquer semelhança com as “mudanças climáticas” é mera coincidência?]

“Um substitutivo de qualidade e magnitude críveis, deve ser encontrado, se uma transição para a paz é possível sem desintegração social. É mais provável, a nosso ver, que uma ameaça tenha de ser inventada ao invés de ser criada a partir de condições desconhecidas” [grifo acrescentado] (p. 96, 97).

“É inteiramente possível que o desenvolvimento de uma forma sofisticada de escravidão possa ser um pré-requisito absoluto para o controle social, num mundo de paz” [grifo acrescentado] (p. 99).

Nota do pastor Sérgio Santeli: É impossível terminar a leitura desse relatório e não se lembrar dos dias de Noé: “Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6:5). “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do homem” (Mt 24:37). O tipo de “paz” que o mundo está tentando construir em lugar do atual sistema de “guerra” será sem a presença e os ensinamentos do Príncipe da paz – Jesus Cristo. Faz, então, todo o sentido a advertência profética: “Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição” (1Ts 5:3).

As notícias que ouvimos atualmente – mudanças climáticas, terrorismo, OVNIs – refletem as recomendações desse relatório na prática, e demonstram que a volta de Cristo está mais perto do que nunca. Quem viver verá!

imperioRecomendo fortemente a leitura do livro O Império Ecológico, páginas 295-334, onde há uma análise do “Relatório da Montanha de Ferro”, publicado em 1967. Isso que está acontecendo em nossa época já foi programado há muito tempo pela engenharia social, e é passo preparatório para a profecia registrada no livro O Grande Conflito, página 590.

“Já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos” (Rm 13:11).

Sérgio Santeli é pastor e mestre em Teologia

Apocalipse 13 e as eleições

apoc 13A essa altura em que chegamos das eleições no Brasil, dá para refletir um pouco sobre o que estamos vivenciando como sociedade e arriscar algumas possíveis comparações com o cenário escatológico de Apocalipse 13, que nos aguarda:

Essa tensão pela qual estamos passando agora é um vislumbre do ambiente que viveremos quando a crise final (Lei Dominical) chegar. Haverá polarização idêntica em torno de um tema. Muitos textos, áudios e vídeos circulando nas mídias sociais contendo argumentos e contra-argumentos; testemunhos de pessoas famosas e centenas de outras anônimas declarando de que lado estão; muitos vestindo a camisa do seu “partido”; mensagens sérias e quem sabe outras com humor; diversas fake news comprometendo a imagem da IASD e a reputação de líderes conhecidos; desentendimento e brigas com amigos e familiares…

Além disso, a saturação do tema – sinal de Deus ou da besta – ocorrerá em pouco tempo (ninguém aguenta tanta tensão e foco em um único tema durante um período tão longo).

Por isso penso que deveríamos aproveitar este período que estamos vivenciando como uma grande oportunidade para treinamento: aprender a se posicionar, expressar ideias, desenvolver o discernimento sobre as mensagens que recebemos, saber ouvir os outros, pesquisar a fundo para descobrir a verdade, desenvolver a paciência…

Eu até chego a pensar que sem essa experiência (note que questões de moralidade estão na boca do povo, e até passagens bíblicas estão sendo citadas) o Brasil não estaria preparado para discutir publicamente a grande questão final: Quem você irá escolher? O Deus Criador ou a besta do Apocalipse?

Quando isso vai acontecer eu não sei. Mas experiência em situações polarizadas nós todos teremos. Ora, vem, Senhor Jesus!

Sérgio Santeli é pastor em São Paulo

De que lado da revolução você quer ficar?

revolucaoNa introdução da sua brilhante obra, o historiador D’aubigné afirmou com precisão: “O cristianismo e a Reforma [Protestante] são as duas maiores revoluções da história” (História da Reforma do XVI Século, v. 1, p. 6). A Reforma foi uma revolução inspirada pela fé, tendo como colunas a defesa da verdade bíblica, da soberania do Senhor Jesus e da santidade da vida cristã. Onde quer que os princípios da Reforma eram aceitos floresciam liberdade e prosperidade. Para cada ação de Deus na História satanás suscita uma contrafação para desviar a mente das pessoas e até, se possível, direcioná-las para o lado contrário. Não foi diferente com a Reforma Protestante. O impacto dessa revolução da fé foi sentido com toda a sua intensidade no reino das trevas. E Satanás usou toda a astúcia do inferno para elaborar também sua revolução – a da incredulidade.

Depois de décadas e até séculos de gestação, essa revolução da incredulidade emergiu com força total durante a Revolução Francesa, em grande parte por causa da colaboração de Roma: “Foi o papado que começara a obra que o ateísmo estava a completar. A política de Roma produzira aquelas condições sociais, políticas e religiosas que estavam precipitando a França na ruína” (Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 276). “Em vez de manter as massas populares em submissão cega aos seus dogmas, sua obra [de Roma] teve como resultado torná-las incrédulas e revolucionárias” (ibidem, p. 281).

O espírito da revolução da incredulidade foi acolhido e propagado por diversos intelectuais no século 19. Seu expoente mais conhecido foi Karl Marx, o qual sistematizou seus princípios e modus operandi. De lá para cá a revolução da incredulidade conquistou o coração de milhões de adeptos ao redor do mundo e tornou-se protagonista em diversos eventos da História, como, por exemplo, a Revolução Bolchevique de 1917. E entre seus frutos é possível observar a degradação moral, a opressão e a ruína.

A revolução da incredulidade ganhou mais tarde uma nova roupagem – conhecida como marxismo cultural. E hoje sua força é sentida principalmente no mundo Ocidental. Cultura, educação, política, economia, tudo foi contaminado por esse espírito revolucionário. O filósofo Olavo de Carvalho estudou a fundo a estrutura de pensamento desse tipo de mente revolucionária e concluiu que sua principal característica é a maneira invertida de ver o mundo.

Essa visão invertida ocorre pelo menos de três formas:

  1. Inversão da percepção do tempo: quem não possui essa mente revolucionária vê o passado como algo imutável, e o futuro como algo ainda a ser definido. Os revolucionários da incredulidade por sua vez têm um projeto de futuro utópico na mente e acham que o passado pode ser reescrito ou reinterpretado para acomodar tal projeto. Esse futuro utópico é tão real para eles que até se vangloriam no presente, rejeitando qualquer fato que possa comprovar o contrário.
  2. Inversão da moral: revolucionários da incredulidade consideram que trabalham para um projeto de futuro perfeito e, portanto, suas ações de hoje são perfeitamente justificadas por esse projeto. Nesse raciocínio, nada do que o revolucionário da incredulidade faça (mentir, roubar, destruir, matar) é considerado por ele imoral.
  3. Inversão de sujeito e objeto: revolucionários seguem um comportamento padrão de se enxergarem sempre como vítimas nas diversas circunstâncias da vida. Então se o revolucionário mata alguém que se opõe a ele, a culpa é do opositor que não seguiu o caminho certo, ou seja, o da revolução. Dentro dessa visão invertida é muito comum fazerem do bandido o mocinho e do mocinho o bandido. E também projetarem em seus adversários seus próprios defeitos.

Existe uma surpreendente similaridade na estrutura de pensamento desse tipo de mente revolucionária com o modo de pensar do seu originador: Satanás:

  1. Inversão do tempo – reinterpretar o passado e gloriar-se pelo futuro utópico:

“Os empenhos de Satanás, de representar mal [reinterpretar?] o caráter de Deus, de levar os homens a acalentar um falso conceito do Criador, e assim considerá-Lo com temor e ódio, em vez de amor […] foram perseverantemente seguidos em todas as épocas” (O Grande Conflito, p. 12).

“Ele [Satanás] prometeu-lhes [aos anjos no Céu] um novo governo, melhor do que aquele que até então haviam conhecido, no qual tudo seria liberdade… Ao perceber ele que suas propostas alcançavam sucesso, gabou-se de que chegaria a ter a seu lado todos os anjos” (A Verdade Sobre os Anjos, p. 39).

“Satanás… gabou-se orgulhosamente de que o mundo criado por Deus era seu domínio. Havendo conquistado Adão, o soberano do mundo, ganhara toda a raça humana como seus súditos. Possuiria o jardim do Éden e o transformaria em seu quartel-general. Ali estabeleceria seu trono para ser o soberano do mundo” (A Verdade Sobre os Anjos, p. 58).

  1. Inversão da moral – os fins justificam os meios:

“Satanás foi astuto em apresentar seu ponto de vista da questão. Tão logo percebia [no Céu] que determinada posição era vista em seu verdadeiro caráter, trocava-a por outra. Tal não ocorreu com Deus. Ele podia operar com apenas uma classe de armas – a verdade e a justiça. Satanás podia usar o que Deus não usaria: o engano e a fraude” (A Verdade Sobre os Anjos, p. 39).

“Satanás disse-lhes [aos anjos rebeldes] que tanto ele quanto os outros haviam ido longe demais para agora voltar, e que […] agora teriam de assegurar a liberdade deles e obter pela força a posição e autoridade que não se lhes havia sido concedida voluntariamente” (A Verdade Sobre os Anjos, p. 43).

  1. Inversão do sujeito – objeto:

“Concordemente, Satanás e sua hoste lançaram a culpa de sua rebelião inteiramente sobre Cristo, declarando que se eles não houvessem sido acusados, não se teriam rebelado” (O Grande Conflito, p. 499).

“O objetivo do grande rebelde foi sempre justificar-se, e provar ser o governo divino responsável pela rebelião” (O Grande Conflito, p. 670).

“Embora incapaz de expulsar a Deus de Seu trono, Satanás O tem acusado com atributos satânicos e reivindicado como seus os atributos de Deus” (Cristo Triunfante, p. 10).

Portanto, vivemos em uma época de intensa batalha espiritual: “Todo o mundo cristão estará envolvido no grande conflito entre a fé e a incredulidade” (Ellen G. White, Eventos Finais, p. 137). A boa notícia nessa história é que a revolução da fé continua viva e atuante: “A Reforma não terminou com Lutero, como muitos supõem. Continuará até o fim da história deste mundo” (O Grande Conflito, p. 148). A defesa da verdade bíblica, da soberania do Senhor Jesus e da santidade da vida cristã continuará sendo a arma dessa revolução. “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1 João 5:4).

Então só podemos dizer uma coisa: “Viva a revolução – da fé!”

(Sérgio Santeli é pastor da Igreja Adventista de São Bernardo do Campo, SP)

A origem da mentira do arrebatamento secreto

arrebatamentoA Reforma Protestante abalou os fundamentos do Romanismo pregando e ensinando as profecias de Daniel e Apocalipse, usando o historicismo como base hermenêutica de interpretação. Todos os grandes teólogos conservadores então concordavam que as profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse se cumpriram através da História. Para contra-atacar a Reforma Protestante e tentar neutralizá-la o Romanismo criou a Ordem dos Jesuítas, e muito cedo incumbiu o sacerdote jesuíta Francisco Ribera de criar uma nova linha de interpretação profética cujo cumprimento das profecias apocalípticas se dará no futuro (Futurismo). O chifre pequeno de Daniel 7 e 8, a besta de Apocalipse 13, e o anticristo de 2 Tessalonicenses 2:3, 4, 8, 9 não mais representariam Roma papal.

Nos dois séculos seguintes essa teoria se infiltrou no Protestantismo pela influência de grandes universidades européias como a de Oxford. Famosos líderes do mundo protestante adaptaram essa corrente de interpretação em sua visão profética de Daniel e Apocalipse. Samuel Roffey Maitland (1792-1866), James Todd, William Burgh e, principalmente, John Nelson Darby (1800-1882) contribuíram para estabelecer as bases do Futurismo profético, agora chamado de Dispensacionalismo entre os protestantes.

Darby fez três viagens aos Estados Unidos nas quais pregava de forma ousada as ideias do Dispensacionalismo profético. Segundo creem, as profecias escatológicas do Antigo Testamento devem ser interpretadas literalmente. Se o texto bíblico diz que Israel irá possuir a terra prometida para sempre, então significa exatamente isso, ao pé da letra.

Em uma de suas viagens aos Estados Unidos, Darby influenciou um advogado chamado Cyrus Scofield, o qual, após converter-se, se tornaria ministro ordenado da Igreja Congregacional. Sua obra, a Bíblia de Referência de Scofield (1909), foi a responsável pela popularização do Dispensacionalismo profético nos Estados Unidos e em vários outros países que mais tarde a traduziram.

A partir da década de 1990, outro lançamento também contribuiu para a popularização dessa teoria entre os evangélicos: a série de livros de ficção religiosa Left Behind (Deixados Para Trás), dos autores Tim LaHaye e Jerry Jenkins.

Somando tudo isso, o resultado é que hoje mais de 80% do mundo protestante acredita no Dispensacionalismo (Futurismo profético) em lugar do Historicismo da Reforma Protestante. Como desfazer esse conflito? Ditos protestantes que não seguem os ensinos dos Reformadores?

Acreditar que as profecias do Antigo Testamento só podem se cumprir de forma estritamente literal significa ignorar o uso que os próprios autores inspirados do Novo Testamento fazem do texto bíblico. Mateus, por exemplo, vê o cumprimento profético de Oseias 11:1 (que, primariamente, se refere a Israel) no retorno de Jesus do Egito com Seus pais após a morte de Herodes (2:15). Claramente, para Mateus, Israel era um tipo de Cristo, logo temos um cumprimento tipológico e não literal da profecia.

O mesmo ocorre com o evangelista Lucas, quando afirma que “assim está escrito” que “o Cristo havia de ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia” (24:46). Na mente de Lucas, Israel também é um tipo de Cristo. Por isso ele faz uma aplicação tipológica de Oseias 6:1 e 2 (originalmente feita para Israel). Mais uma vez o autor bíblico não faz uma aplicação estritamente literal.

Ainda em outro exemplo, em Mateus 2:23, o autor inspirado usa a palavra “profetas” (plural) para expressar o que vários textos proféticos teriam profetizado: “Ele será chamado Nazareno [grego Natzrati].” Acontece que não há nenhuma profecia do Antigo Testamento sobre isso que possa ser aplicada literalmente a Jesus. O autor bíblico vê um cumprimento pelo sentido, por causa da palavra hebraica netzer em Isaías 11:1: “Do tronco de Jessé sairá um rebento [netzer].” Outros profetas também falaram disso (Jr 23:5, 33:15; Zc 3:8 e 6:12). Para todos os efeitos, a aplicação feita por Mateus está longe de ser literal.

Portanto, sustentar que todas as profecias do Antigo Testamento têm que se cumprir de forma estritamente literal é violar o próprio entendimento que os autores do Novo Testamento possuíam. Logo, o Dispensacionalismo não passa no teste bíblico.

E o que dizer dessa teoria do arrebatamento secreto extraída pelos dispensacionalistas de Mateus 24:40 e 41? Ela se sustenta pela Bíblia? Uma leitura atenta do contexto de Mateus 24 já é suficiente para extrair três razões contrárias a essa teoria:

1. Jesus alertou explicitamente contra qualquer um que ensinasse que Seu retorno seria secreto: “Portanto, se vos disserem: Eis que Ele está no deserto, não saiais. Ou: Ei-lo no interior da casa, não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do Homem” (v. 26, 27).

Alguém já viu um relâmpago aparecer de forma secreta?

2. Jesus declarou explicitamente que o mundo inteiro seria testemunha do Seu retorno: “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder [grego dynamis, de onde vem a palavra “dinamite”] e muita glória.”

3. Jesus descreveu explicitamente o destino dos que serão deixados para trás: “Assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem… veio o dilúvio e os levou a todos” (37-39). Ou seja, os que forem deixados para trás serão destruídos “como foi nos dias de Noé”. Não haverá segunda chance. Esse é um grande engano que o inimigo disseminou dentro do protestantismo graças a essa doutrina dispensacionalista do arrebatamento secreto (ver Hb 9:27, 28).

Sendo assim, a corrente futurista de interpretação profética (incluindo o Dispensacionalismo dentro do Protestantismo) carece de fundamento bíblico. Só nos resta a confiança do Historicismo defendido pelos Reformadores.

Você está pronto para os últimos eventos deste mundo? Falta muito pouco para Jesus voltar nas nuvens do céu. “Naquele dia se dirá: Eis que este é o nosso Deus, em quem esperávamos, e Ele nos salvará” (Is 25:9).

Quem viver verá…

(Sérgio Santeli é pastor em São Bernardo do Campo, SP)

Bibliografia:

Dwight K. Nelson, Ninguém Será Deixado Para Trás, Casa Publicadora Brasileira.

Hans K. LaRondelle, O Israel de Deus na Profecia, Unaspress.

João Alves dos Santos, Dispensacionalismo e suas implicações doutrinárias.

Leia também: Arrebatamento secreto não tem base bíblica