O fim depende do começo

BibleExiste relação entre os primeiros e os últimos capítulos do Livro sagrado do cristianismo? As evidências bíblicas e científicas confirmam a literalidade da semana da criação?    

[Este artigo foi escrito por meus alunos de pós-graduação Márcio Tonetti, Reisner Martins, Sueli Ferreira de Oliveira, Ulisses Arruda e Valter Cândido. – MB]

A crença de que a semana da criação narrada no primeiro livro da Bíblia representaria um período de longas eras (ou de milhões de anos, segundo a cronologia evolucionista) se popularizou no meio cristão. Uma forte evidência disso é que já existem igrejas nos Estados Unidos que anualmente participam das comemorações do dia dedicado a Darwin (12 de fevereiro). Embora continuem atribuindo a Deus a origem da vida no planeta, os adeptos da evolução teísta não veem os “dias” descritos nos primeiros capítulos de Gênesis como períodos de 24 horas.

O geneticista norte-americano Francis Collins, que coordenou o Projeto Genoma por mais de uma década, está entre os representantes dessa vertente. No livro A Linguagem de Deus (Gente, 2007), embora ele busque apresentar diversas evidências no campo da bioquímica e da genética de que Deus foi o designer inteligente originador da vida, ao fim da obra o cientista expressa sua convicção no fato de que a criação teria acontecido no decorrer de longas eras.

O casamento entre a fé cristã e a evolução foi tema de uma reportagem publicada na edição de março de 2009 da revista Superinteressante. Nela, o jornalista Reinaldo José Lopes considerou que essa tendência reflete a tentativa de “sobrevivência” da Igreja diante da popularidade das ideias propagadas pelo naturalista britânico Charles Darwin. Ele comentou que, ao longo dos últimos 150 anos, “algumas das denominações cristãs mais antigas, como a Igreja Católica e a Igreja Anglicana, acabaram decidindo que não dava para brigar com as descobertas feitas pela biologia evolutiva e passaram a interpretar os relatos da Bíblia sobre a criação do mundo como textos poéticos e alegóricos”.

Lopes cita ainda que, em 2008, o Vaticano promoveu uma conferência para discutir o legado de Darwin, fazendo questão de lembrar que os livros do naturalista nunca foram oficialmente condenados pela igreja. Como lembra o autor, essa concepção continuou sendo defendida por João Paulo 2º que, em 1996, expressou que a teoria da evolução “é mais do que uma mera hipótese”, e, mais recentemente, foi reforçada pelo papa Francisco que considerou a história de Adão e Eva uma fábula.

No meio evangélico, o Gênesis é interpretado de diferentes maneiras. No livro He Spoke And It Was, que em breve deve ser publicado em português pela CPB, o teólogo Richard Davidson menciona que uma posição evangélica simbólica comum é a que é chamada por alguns de “teoria concordista ampla”, defendida por conciliadores liberais. Segundo essa concepção, os sete dias representam longos períodos, admitindo, assim, a evolução teísta.

No artigo “Dias literais ou períodos de tempo figurados?”, publicado na edição nº 53 da Revista Criacionista, Gerhard F. Hasel procurou mostrar alguns dos argumentos mais representativos a favor dessa ideia de longas eras. Para o erudito britânico John C. L. Gibson, por exemplo, “Gênesis 1 deve ser tomado como uma ‘metáfora’, ‘história’ ou ‘parábola’, e não como um registro direto dos acontecimentos da criação”. No entender de Gibson, “se entendermos ‘dia’ como equivalente a ‘época’ ou ‘era’, poderemos pôr a sequência da criação, apresentada no capítulo 1, em conexão com os relatos da moderna teoria da evolução, e assim caminhar um pouco no sentido da recuperação da reputação da Bíblia em nossa era científica” (The Daily Study Bible, v. 1, p. 56).

Hasel cita ainda que, em 1983, o comentarista alemão Hansjörg Bräumer afirmou: “O ‘dia’ da criação que é descrito como contendo ‘manhã e tarde’ (sic) não é uma unidade de tempo que possa ser determinada com um relógio. É um dia divino no qual mil anos são como o dia de ontem (Sl 90:4). O dia primeiro da criação é um dia divino. Não pode ser um dia terrestre, pois ainda está faltando a medida do tempo, o sol. Não ocasionará nenhum dano ao relato da criação, portanto, entendê-la dentro do ritmo de milhões de anos” (Das erst Buch Mose – Wuppertaler Studienbibel, p. 44).

Em seu livro He Spoke And It Was, Richard Davidson também menciona que vários estudiosos evangélicos falam do relato de Gênesis sobre a criação em termos de dias “analógicos” ou “antropomórficos”. Essa compreensão parte do pressuposto de que “os dias são dias de trabalho de Deus, sua duração nem é especificada nem é importante, e nem tudo no relato precisa ser considerado historicamente sequencial”.

Além daqueles que veem o(s) relato(s) de Gênesis como poesia, metáfora ou parábola, outra corrente teórica apresentada por Richard Davidson é a visão “progressista-criacionista” que, embora considere os seis dias literais, entende que cada dia abre um novo período criativo de criação indeterminada. Porém, como lembra Davidson, “comum a todos esses pontos de vista não literais é a suposição de que o relato das origens de Gênesis não é um relato histórico literal e direto da criação material” (p. 20).

Cabe observar, entretanto, que a argumentação de que o primeiro livro da Bíblia tem um caráter alegórico ou figurativo é bem mais antiga do que se imagina. Alguns estudiosos sustentam que ela é muito anterior à publicação do livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Segundo Hasel, Orígenes de Alexandria é considerado o primeiro a entender os “dias” da criação no sentido alegórico, e não literal. Posteriormente, Agostinho, o mais famoso dos pais da Igreja latinos, também corroborou esse pensamento, o que mostra que essas interpretações já começavam a surgir no período medieval.

Contudo, Gerhard F. Hasel observa que nem Agostinho nem Orígenes tinham em mente qualquer conceito evolucionista. “Eles consideravam os ‘dias’ da criação como não literais com base em algo distinto – era obrigação filosófica atribuir a Deus atividade criadora sem qualquer relação com o tempo humano. Como os ‘dias’ da criação se relacionam com Deus, argumentava-se que esses ‘dias’ tinham de ser representativos de noções filosóficas associadas a Deus, tomadas as suas respectivas perspectivas”, ele ressalta. Desse ponto de vista, como para os filósofos gregos Deus era atemporal, logo supunha-se que os dias da criação deveriam ser entendidos com base nessa lógica.

A influência exercida pela filosofia grega sobre a igreja, determinando interpretações figurativas do Gênesis, levanta um aspecto importante citado por Hasel: o de que “houve razões extra-bíblicas que levaram alguns intérpretes a se afastar do significado literal dos ‘dias’ da criação”.

Para Hasel, tal como ocorreu no passado, “existe hoje também outra influência extra-bíblica que induz os intérpretes a alterar o que parece ser o claro significado dos ‘dias’ da criação. É uma hipótese científica baseada num ponto de vista naturalístico, a moderna teoria da evolução, que tem impulsionado essa alteração”.

No entanto, para fugir de compreensões equivocadas, é preciso voltar à Bíblia e interpretá-la corretamente. Como lembra o autor do artigo publicado na Revista Criacionista, Martinho Lutero, considerado o pai da Reforma Protestante, consistentemente, defendeu a interpretação literal do relato da criação ao afirmar que “Moisés falou no sentido literal, e não alegórica ou figurativamente, isto é, que o mundo, com todas as suas criaturas, foi criado em seis dias, como se lê no texto”.

Sendo assim, quais as evidências bíblicas e científicas que confirmam a historicidade do primeiro livro da Bíblia? No livro Estudos sobre Criacionismo, o primeiro sobre o tema produzido pela Casa Publicadora Brasileira na década de 1950, Frank Lewis Marsh sustenta que “em qualquer lugar em que o registro bíblico é tão claramente expresso como em Gênesis 1, nenhum conflito existe entre as declarações da Escritura e os fatos científicos demonstrados” (p. 182).

Um dos fatos que devem ser levados em conta é que, conforme Richard Davidson, o gênero literário de Gênesis 1-11 aponta para a natureza histórica literal do relato da criação (He Spoke And It Was, p. 20). Também na obra Genesis 1:1-11:26, Kenneth Mathews (1996, p. 109) desenvolve essa ideia mostrando que tanto o gênero “parábola”, uma ilustração tirada da experiência diária, quanto o gênero “visão” se encaixam no texto bíblico, pelo fato de não conter o típico preâmbulo e outros elementos que acompanham as visões bíblicas.

Desconstruindo o argumento daqueles que, com base em paralelos do antigo Oriente Próximo, veem o relato bíblico das origens como uma narrativa mitológica, Richard Davidson sustenta: “A realidade é que o relato de Gênesis contrasta fortemente com outros relatos do antigo Oriente Próximo e egípcios, de forma que existe uma pretensa polêmica ou discussão contra esses mitos” (p. 8). Uma das diferenças é que, nessas culturas, as divindades sempre criam a partir da matéria pré-existente. Nas cosmologias egípcias, por exemplo, “tudo está contido dentro do Mônode inerte, até mesmo o Deus criador” (p. 2).

Em contrapartida, em toda a Bíblia (a começar pelo primeiro verso de Gênesis), o verbo especial para “criar” (bara) só tem Deus como sujeito. “Isso está na língua hebraica – ninguém-pode-bara ou ‘criar’, a não ser Deus. Só Deus é o Criador, e ninguém mais pode partilhar essa atividade especial. O verbo bara nunca é empregado para a matéria ou material a partir do qual Deus cria; ele contém, juntamente com a ênfase da frase ‘no princípio’, a ideia de criação a partir do nada (ex nihilo creatio)” (p. 2).

John Sailhamer, outro estudioso do assunto, também concluiu na obra Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account (1996, p. 244) que existem grandes diferenças literárias entre o estilo dos mitos do antigo Oriente Próximo e as narrativas bíblicas da criação em Gênesis 1 e 2. Um exemplo disso é que, se, de um lado, todas as narrativas mitológicas da época foram escritas em poesia, de outro, o relato bíblico da criação foi registrado em prosa.

Assim, na ótica desses autores, não há qualquer pista de literatura metafórica ou meta-histórica no Gênesis. Ao contrário disso, se percebe que intencionalmente a estrutura literária desse livro da Bíblia como um todo assume a natureza literal das narrativas da criação.

Cabe ainda mencionar que todo o livro de Gênesis está estruturado segundo a palavra hebraica toledot (gerações, história), repetida treze vezes ao longo das diversas seções do livro. Em outros trechos da Bíblia, esse termo é usado no registro das genealogias, marcando a contagem precisa do tempo.

Outra forte evidência de que Moisés estava se referindo a dias de 24 horas é o uso da palavra hebraica yom (dia). As ocorrências desse termo na conclusão de cada um dos seis dias da criação de Gênesis 1 estão todas conectadas a um numeral ordinal (“primeiro dia”, “segundo dia”, “terceiro dia”, etc.). Uma comparação com as ocorrências do termo em outros lugares da Escritura (359 vezes) revela que tal uso sempre é feito com dias literais.

No livro Estudos Sobre Criacionismo (CPB), um clássico da literatura criacionista que ainda permanece bastante relevante na época atual, Frank Lewis Marsh acrescenta que a ideia de que yom (dia) significa um período de tempo maior do que 24 horas não encontra comprovante nos dicionários hebraicos de renome. “A interpretação de yom como aeon, fonte favorita para os harmonizadores de ciência e revelação, é oposta ao claro sentido da passagem e não tem justificação no uso hebraico” (p. 12).

Além disso, a frase “tarde e manhã”, que aparece na conclusão de cada um dos seis dias de criação, define claramente a natureza dos dias da criação como dias literais de 24 horas. Ressalte-se também que as referências à “tarde e manhã” juntas em outros pontos além de Gênesis 1, invariavelmente, nas 57 vezes em que aparecem no Antigo Testamento, indicam um dia solar literal. Marsh argumenta que o fato de cada dia mencionado no relato bíblico ser composto por um período de luz e de trevas “está em perfeita conformidade com o método do registro de tempo no período mosaico” (p. 179).

Outro ponto a ser considerado é a correlação entre a semana de trabalho da humanidade com a semana de trabalho da divindade. Em Êxodo 20:8, no mandamento do sábado, há uma explícita comparação entre os seis dias da semana de trabalho da humanidade e a semana de seis dias da criação divina. Posteriormente, o sábado a ser observado pelos seres humanos a cada semana é igualado ao primeiro sábado após a semana da criação. Assim, o divino Legislador inequivocamente interpreta a primeira semana como literal, composta de sete dias consecutivos e contíguos de 24 horas literais.

É pertinente também fazer referência ao endosso feito por Jesus e por todos os escritores do Novo Testamento. Cristo e esses autores recorrem a Gênesis 1-11, tendo como pressuposto que essa é uma história literal e confiável. Todos os capítulos de Gênesis 1-11 são referidos em alguma parte do Novo Testamento. O próprio Jesus recorreu a Gênesis 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.

Em diversas passagens do Novo Testamento, implícita e/ou explicitamente há menção do livro de Gênesis. Em seu artigo “A Criação no Novo Testamento”, publicado no periódico Ciências das Origens, de maio de 2005, o Dr. Ekkerhardt Mueller menciona algumas dessas passagens: “As palavras de Jesus tal como estão registradas nos quatro evangelhos canônicos contêm dez referências à criação. Jesus não somente fez referência a Gênesis 1 e 2. Em Seus discursos também encontramos pessoas – Abel (Mateus 22:35) e Noé (Mateus 24:37-39; Lucas 17:26-27) – e acontecimentos – o dilúvio (Mateus 24:39) – que ocorrem em Gênesis 3-11. Quando lemos essas breves passagens, obtemos a clara impressão de que, segundo Jesus, Noé e Abel não foram figuras mitológicas, mas verdadeiras pessoas humanas, que Gênesis 3-11 é uma narrativa histórica que não deve ser entendida simbolicamente, e que o dilúvio foi um evento global que realmente ocorreu (Gênesis 6:8). Portanto, é de se esperar que Jesus utilizasse o mesmo enfoque sobre a interpretação bíblica quando se referiu à criação. E isso é exatamente o que encontramos nos evangelhos.”

Somado a tudo isso, Frank Lewis Marsh acrescenta em seu livro outras duas boas razões para concluirmos que os dias da semana da criação foram literais. Como explicar, por exemplo, pela ótica da evolução teísta, a relação das plantas com o período escuro? “No terceiro dia todas as espécies de plantas apareceram, as que produziam flores e sementes, bem como as formas mais simples. Evidentemente, se este ‘dia’ fosse um período de tempo geológico, todas as plantas teriam perecido durante esses milhões de anos de escuridão, antes que a luz do quarto dia iluminasse o mundo” (Estudos Sobre Criacionismo, p. 179, 180).

Raciocínio semelhante se aplica à dependência entre plantas e animais. Conforme o primeiro capítulo de Gênesis, as plantas foram criadas no terceiro dia, porém nenhum animal veio à existência antes do quinto dia. Uma vez que a dependência entre plantas e animais é um fato muito evidente no mundo dos seres vivos, seria ilógico imaginar que longas eras separam esses dois momentos da criação. “Para ilustrar, só em matéria de polinização, multidões de plantas não se reproduziriam sem a colaboração dos insetos. Contudo, o registro declara que as plantas com semente se reproduziam desde o princípio. Isso não podia ser assim se os insetos não tivessem aparecido senão 20 ou 40 milhões de anos mais tarde, como sucederia se os dias fossem períodos geológicos” (p. 180).

A criação literal e a teologia bíblica

A negação da crença na criação em seis dias de 24 horas contraria o caráter de Deus. “Que tipo de Deus teria criado a vida por meio da morte e de extinções ao longo de milhões de anos? Certamente, não o Deus que percebe quando uma ave cai no chão”, questiona o ex-evolucionista Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia que hoje defende a visão criacionista.

Para ele, endossar esse “método” implica negar o fato de que, segundo a Bíblia, a morte entrou no mundo por causa do pecado (Rm 5:12; 6:23). Na ótica do evolucionismo teísta, no entanto, a morte é o meio para que ocorra o progresso das criaturas.

Borges, que é autor dos livros A História da Vida e Por Que Creio, lembra também que tal crença tira de vista a doutrina da salvação. Afinal, “se a humanidade tem evoluído durante milhões de anos e está sempre evoluindo, por que precisamos de um Salvador?” E mais: a própria promessa feita em Gênesis 3:15, considerada a primeira profecia messiânica das Escrituras, deixa de fazer sentido.

Do mesmo modo, outras verdades bíblicas são seriamente comprometidas, como a guarda do sábado (o sétimo dia), as bases do matrimônio (a definição do que é o casamento passa a ser definida pela cultura), a remissão da humanidade (remir de quê?), a necessidade de salvação, a ideia de um juízo e, finalmente, a esperança na segunda vinda de Cristo. Todas essas doutrinas dependem da interpretação literal das origens. Sem isso, elas podem parecer vulneráveis e pôr em risco a confiabilidade de todo o conteúdo das Escrituras Sagradas e até mesmo a onipotência de Deus. Por que seria necessário tornar “humanamente” viável ou compreensível a criação? Quem teria interesse nisso? Por que não podemos absorver como isso aconteceu, então não pode ter de fato acontecido? “Eu Te louvarei, porque de um modo assombrosoe tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139:14).

Ao mostrar quão problemática é a tentativa de misturar a visão evolucionista com o criacionismo bíblico, Richard Davidson ressalta: “No fluxo canônico geral das Escrituras, por causa da ligação inseparável entre a origem (Gn 1-3) e o fim dos tempos (Ap 20-22), sem um começo literal, não há um fim literal” (p. 19). Ou seja, se o início da história da humanidade é apresentado na Bíblia de maneira alegórica, de igual forma seria seu fim, o que significaria que a volta de Cristo não se daria como nós, adventistas, acreditamos e pregamos.

As três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12 são o fundamento dessa igreja. A primeira delas, trata da pregação do evangelho eterno, que nos convida a adorar “Aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7). No limiar da história da humanidade, o povo é convocado a se lembrar do Deus Criador. Essa convocação é uma clara defesa ao efervescente crescimento de teorias que anulam ou minimizam a atuação de uma mente inteligente por trás da formação do mundo.

A Igreja Adventista tem sido reconhecida como uma das guardiãs dessa verdade bíblica. Eduardo R. da Cruz, que não professa essa fé, em seu livro Teologia e Ciências Naturais, afirma que “uma das denominações mais importantes no desenvolvimento do criacionismo foi (e ainda é) a Igreja Adventista do Sétimo Dia. […] Enfatizando a leitura literal da Bíblia (base para sua afirmação de que o sábado seria o verdadeiro dia de repouso ordenado por Deus). Ellen White e outros fundadores afirmaram que o mundo teria sido criado em seis dias literais”.

Embora, como observou Reinaldo José Lopes na revista Superinteressante, alguns grupos, como as denominações evangélicas surgidas do século 19 em diante, tenham insistido “na verdade literal das Escrituras Sagradas, considerando-as fontes confiáveis não só para temas espirituais mas também científicos”, hoje são raras as denominações que ainda defendem esse ponto de vista. Como adventistas, somos praticamente uma voz isolada nesse universo de teologias controvertidas, cada vez mais diluídas no naturalismo filosófico. E não devemos perder de vista nossa missão de anunciar ao mundo o iminente retorno daquele que fez o céu, a terra e as fontes das águas.

Como aconselhou Gleason Archer, professor na Universidade Harvard que é considerado uma autoridade entre os eruditos do Antigo Testamento, ao teólogo adventista Richard Davidson após ter participado de um Encontro Anual da Sociedade Evangélica: “Vocês adventistas do sétimo dia são a única denominação que corajosa e oficialmente afirma as verdades bíblicas da origem da Terra. Por favor, não abandonem seu forte posicionamento em favor da semana da criação em sete dias literais e de um dilúvio global.” Assim faremos!

A oferta de Caim, a falsa adoração e a autojustificação

caim abelPor que Deus rejeitou a oferta de Caim, em Gênesis 4?

Em Gênesis capítulo 4, encontramos o triste relato do primeiro homicídio da história humana, quando Caim mata o irmão Abel. No livro Patriarcas e Profetas, Ellen White comenta: “Caim veio perante Deus com íntima murmuração e incredulidade, com respeito ao sacrifício prometido e necessidade de ofertas sacrificais. Sua dádiva não exprimia arrependimento de pecado. Achava, como muitos agora, que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus, confiando sua salvação inteiramente à expiação do Salvador prometido. Preferiu a conduta de dependência própria. Viria com seus próprios méritos. Não traria o cordeiro, nem misturaria seu sangue com a oferta, mas apresentaria seus frutos, produtos de seu trabalho. Apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina. Caim obedeceu ao construir um altar, obedeceu ao trazer um sacrifício, prestou, porém, apenas uma obediência parcial. A parte essencial, o reconhecimento da necessidade de um Redentor, ficou excluída.”

Escreveu também: “Esses irmãos foram provados, assim como o fora Adão antes deles, para mostrar se creriam na Palavra de Deus e a obedeceriam. Estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus. Sem derramamento de sangue não poderia haver remissão de pecado; e deviam eles mostrar sua fé no sangue de Cristo como a expiação prometida, oferecendo em sacrifício o primogênito do rebanho. Além disso, as primícias da terra deviam ser apresentadas diante do Senhor em ação de graças.

“Os dois irmãos de modo semelhante construíram seus altares, e cada qual trouxe uma oferta. Abel apresentou um sacrifício do rebanho, de acordo com as instruções do Senhor. ‘E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta’ (Gn 4:4). Lampejou o fogo do Céu, e consumiu o sacrifício. Mas Caim, desrespeitando o mandado direto e explícito do Senhor, apresentou apenas uma oferta de frutos.”

O assunto é bem claro: Caim procurou se autojustificar ao desprezar o sangue do Cordeiro. Para ele, Deus tinha que aceitar a oferta que ele trouxesse, do jeito dele. O que importava era a vontade e a disposição do adorador, não a vontade do Ser adorado. Para alguns leitores mais atentos da Bíblia, o verso 7 desse capítulo é o mais problemático. Por isso, procurando deixar tudo mais claro, o pastor e mestre em Teologia Eleazar Domini oferece a seguinte explicação/exegese com base no texto original hebraico:

“O texto diz: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo’ (Gn 4:7). De que ‘porta’ o texto está falando? Muitos interpretam esse texto da seguinte forma: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta [do coração]; o seu desejo [desejo do pecado] será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo [tem que dominar o pecado] (Gn 4:7), o que dá margem até mesmo para interpretações perfeccionistas. A questão toda é que chatat é uma palavra feminina, e os sufixos utilizados no verso são masculinos. Ou seja, há uma aparente contradição, se traduzirmos chatat por ‘pecado’. Vejamos como está no hebraico: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta [veremos que porta é essa]; o desejo dele será para ti, e sobre ele dominarás’ (Gn 4:7). No hebraico, está literalmente assim. Por isso, aqui cabe uma exegese bem-feita, para não errarmos no que o texto está dizendo:

“1. Não somos capazes de dominar o pecado sozinhos. Já há um grave erro teológico aqui. Isso é perfeccionismo puro. Vencer o pecado não cumpre a mim, cumpre a Cristo por mim e em mim.

“2. Uma análise mais acurada do texto demonstra que, como disse antes, o termo chatat pode ser, e é mais bem traduzido nesse texto por oferta pelo pecado e não ‘pecado’. Porque, se não, como responder a esta pergunta: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado [palavra feminina] jaz à porta; o desejo dele [Dele quem? Se chatat é feminina, quem é esse ele?) será para ti, e sobre ele [ele quem?] dominarás’ (Gn 4:7).

“Logo, há um erro gravíssimo de tradução que precisa ser revisto. Mas, se analisarmos o texto como ele está, precisaremos buscar o antecedente masculino mais próximo, que é Abel, no verso 4. Logo, o ele do texto não tem que ver com chatat, mas com Abel. E por que Abel? O que isso tem que ver com a história?

“Ao Deus aceitar Abel e rejeitar Caim, é como se Abel estivesse herdando o patriarcado, a herança, a primogenitura. Ninguém rejeitado por Deus seria escolhido para ser o próximo patriarca depois de Adão. Daí o ódio de Caim contra seu irmão.

“Agora vamos a uma tradução mais correta do texto: ‘Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que uma oferta pelo pecado [palavra feminina] jaz à porta [do jardim, não do coração; era na porta do jardim que Adão e Eva ofereciam seus holocaustos, segundo Ellen White]; o desejo dele [de Abel, que é o antecedente masculino mais próximo] será para ti, e sobre ele [Abel] dominarás’ (Gn 4:7).

“As expressões ‘desejo’ e ‘domínio’ têm as mesmas nuances de quando Deus diz a Eva que o desejo dela seria para o marido e ele dominaria (no sentido de ele ser o cabeça da casa, o cabeça da mulher). Nesse caso, se Caim voltasse e fizesse o que Deus mandou, o desejo de Abel seria para ele outra vez e ele dominaria sobre Abel de novo, ou seja, Caim voltaria a seu status de primogênito e seria o chefe da família, dominando sobre Abel. Mas ele não aceitou isso e matou o irmão. Detalhe: a Tradução Etíope traz essa mesma visão.

“Resumindo: o problema de Caim foi oferecer algo que Deus não havia pedido. Ofereceu algo diferente do que Deus solicitou. Aqui está um princípio básico para a adoração: adoração não é o que eu quero dar para Deus; adoração é o que Deus pede de mim. Nem sempre o que eu quero dar, mesmo que de coração, é o que Deus está solicitando. Caim entregou a oferta errada e por isso foi rejeitado. Não foi rejeitado por outro motivo, apenas por esse. É claro que foi um fruto de seu coração rebelde, e por isso Deus o rejeitou, e depois rejeitou a oferta dele. Mas a rejeição ocorreu por causa da oferta errada. Não se pode rejeitar o Cordeiro impunemente.”

(Se quiser aprofundar esse assunto, leia “At the door of Paradise: A contextual interpretation of Genesis 4:7”, publicado em Biblische Notizen 100 (2000): 45-59; Joaquim Azevedo, ex-professor do Salt-Iaene, é PhD em Religião pela Andrews University e diretor do Departamento de Religião da Southwestern Adventist university, Keene, Texas, USA)

O dia em que o Sol parou no céu

josueO Sol realmente parou no céu, como relata o livro de Josué, na Bíblia?

“A Bíblia é a palavra inspirada de Deus e fonte de toda a verdade, entretanto, foi escrita por homens de culturas diferentes, com conhecimentos diferentes e em épocas também diferentes, num período de mais de 1.600 anos. Essa linguagem poderia conter ‘erros’, uma vez que o conhecimento humano acerca da natureza esteve sempre em mudança. Entretanto, não seriam erros no sentido estricto, mas formas diferentes de entender o mundo que nos rodeia. Esse conhecimento acerca do mundo e de como ele funciona foi diferente para Abraão, Moisés, Josué, Davi, Paulo e outros. Entretanto, essa linguagem humana transmitia uma mensagem muito superior, de índole puramente religiosa, esta, sim, imutável, pois a Palavra de Deus não muda. Para que Deus pudesse Se comunicar com o ser humano Ele teria que Se expressar na linguagem e na cultura humanas, caso contrário, não seria entendido e a Bíblia se tornaria um livro de acesso somente aos ‘iniciados’, mas esse não é o objetivo do Livro sagrado. Voltando ao caso de Josué, alguma coisa sobrenatural realmente aconteceu. Do ponto de vista de um observador na Terra, o Sol realmente se deteve e voltou a se movimentar lentamente até o fim do dia, o que sugere uma visão de mundo geocêntrica. Se não foi o Sol que parou, foi a Terra que deixou de girar. Se isso acontecesse naturalmente, ou seja, se a Terra parasse de girar de forma repentina, é provável que toda a vida teria sido extinta. Afinal, a velocidade de rotação, por exemplo, em Brasília, é da ordem de 1.600 km/h. Qualquer pessoa ou coisa nesse paralelo seria arremessada tangencialmente para a atmosfera a essa velocidade. Uma catástrofe sem dimensões! Nesse caso, prefiro aceitar pela fé que Deus operou um grande milagre, como tantos outros.” (Marcos Natal de Souza é doutor em Geologia e presidente da Sociedade Criacionista Brasileira)

“A rigor, se a Terra para de girar, é tecnicamente correto dizer que o Sol para no céu. E isso não é Relatividade. Já se usavam diferentes referenciais na teoria de Newton também. Considerar a Terra como parada e o resto do Universo como girando ao redor é um referencial possível e até utilizado na prática, dependendo da aplicação. Não é tecnicamente errado fazer isso. O problema é que esse não é um referencial inercial e faz com que as leis físicas pareçam muito mais complexas do que o necessário. Por isso, em geral, os físicos usam outros referenciais. Também trabalhamos com abordagens independentes de referenciais. Na Relatividade, por exemplo, podemos usar uma notação da Geometria Diferencial que independe de referenciais, mas normalmente preferimos trabalhar com referenciais que simplifiquem os cálculos, após provar que as equações utilizadas são válidas em todos os referenciais. Outro detalhe: se frearmos um carro bruscamente, sentimos os efeitos da aceleração. Se o carro bater, a aceleração (taxa de alteração de velocidade) é tão alta que tem efeitos catastróficos. Mas, se pararmos um carro por meio de um campo gravitacional, ninguém nota. Se Deus parou a rotação da Terra por meio de um campo gravitacional bem planejado, isso não causaria qualquer efeito observável na Terra. Em suma, quando Josué diz que o Sol parou, está tecnicamente correto, pois o referencial usado era obviamente o do ambiente dele, ou seja, da superfície da Terra.” (Eduardo Lütz é astrofísico e engenheiro de softwares)

“Josué 10:12-14 relata um episódio que teria acontecido cerca de 1400 a.C. O incidente, cuja singularidade é reconhecida na Bíblia (‘Não existiu nenhum dia como esse, antes ou depois’), ocorreu do outro lado da Terra, em relação aos Andes situados na América do Sul, descrevendo um fenômeno oposto, mas complementar astronomicamente ao que ocorrera no Peru. Ao contrastarmos os dois relatos, percebemos que, em Canaã (Oriente Médio), o Sol não se pôs por cerca de vinte horas; nos Andes, o sol não se levantou pelo mesmo período de tempo.” (Quer saber mais sobre isso? Leia este texto interessante do mestre em Imunogenética Everton Fernando Alves)

Nota: Uma ótima explicação sobre o “dia longo de Josué” está no documento “Ajuda a um terraplanista”, do físico Eduardo Lütz, na página 85 (confira aqui). Aliás, envie esse documento aos seus amigos terraplanistas. O desafio é forte!

O sábado está sendo guardado no dia correto?

calendarLevando em conta que houve mudanças nos calendários, como saber se estamos guardando o sábado no dia correto hoje em dia?

“Há um grupo chamado World’s Last Chance (WLC) dizendo que o calendário lunar foi estabelecido por Deus e o calendário gregoriano, pela Igreja Católica com o objetivo de mudar os tempos e as leis. De acordo com essas pessoas, a Igreja Adventista teve “medo” de divulgar essa “verdade” depois do grande desapontamento de 1844. Dizem que não estamos adorando a Deus, o Criador, no dia estabelecido por Ele durante a semana da criação, ou seja, estamos adorando em um dia qualquer. Desde já agradeço a atenção e aguardo ansioso sua resposta.”

Resposta: Essas pessoas afirmam que o sábado não é o sétimo dia do ciclo semanal, mas o sétimo dia do “calendário lunissolar” proposto por eles, sendo que o primeiro dia do mês (“lua nova”) e o último dia do mês precedente – caso este tenha tido 30 dias – são considerados “não-dias”. Assim, o “sábado” seria sempre o 8º, 15º, 22º e 29º dias do mês nesse calendário.

No site deles é apresentada uma série de pressuposições que na verdade são falsas. Logo no início, é dito que “o primeiro dia da festa dos pães asmos era no dia 15 [do mês de abibe], que era um sábado”. A WLC afirma que esse era um sábado semanal, e a única “prova” que apresentam disso é o argumento de que nesse dia havia uma “santa convocação”. Ora, esse argumento não tem validade nenhuma, porque havia “santa convocação” não só no sábado semanal, mas em todos os sábados cerimoniais. Assim, havia santa convocação também no sétimo dia da festa dos pães asmos (Lv 23:8), na festa das primícias ou pentecostes (Lv 23:20, 21), na festa das trombetas (Lv 23:24), no dia da expiação (Lv 23:27), e no primeiro e último dias da festa dos tabernáculos (Lv 23:34-36). Destes, eles consideram que o dia 15 do primeiro mês e os dias 15 e 22 do sétimo mês eram sábados semanais. Baseados em quê?

Para sustentar suas pressuposições, dizem ainda que “Israel saiu do Egito na noite de 15 de abibe” (já que consideram que o dia 15 era um sábado). A Bíblia diz: “Aconteceu que, ao cabo dos quatrocentos e trinta anos, nesse mesmo dia, todas as hostes do Senhor saíram da terra do Egito. Esta noite se observará ao Senhor, porque, nela, os tirou da terra do Egito; esta é a noite do Senhor, que devem todos os filhos de Israel comemorar nas suas gerações. Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela” (Êx 12:41-43). A Bíblia é clara em dizer que os israelitas saíram nesse mesmo dia. Que dia? Ora, o dia 15 de abibe. Se tivessem saído à noite, já não seria dia 15 de abibe, mas 16 (já que o novo dia se inicia ao pôr-do-sol). E que noite é essa, em que a Bíblia diz que Deus “os tirou da terra do Egito”? A noite que “se observará ao Senhor”, e, portanto, a noite do dia 15, em que o povo comeu a Páscoa, e não a do dia 16. Não há como escapar ao fato de que os israelitas saíram em sua jornada no dia 15 e, portanto, que esse dia não poderia ser um sábado.

Outras “provas” são acrescentadas que absolutamente não são provas. Por exemplo, o argumento de que o maná cessou no dia 16 de abibe e que, portanto, o dia anterior seria um sábado semanal em que o maná não caiu. Qual a lógica desse argumento? Nenhuma. O maná cessou no dia 16 porque no dia 15 eles já comeram pães asmos feitos com o fruto da terra.

Outra “prova”, retirada do livro de Ester, diz que “o 15º dia do 12º mês foi um dia de descanso, o que torna o 8º, 22º e 29º dias, dias de descanso também”. O que a Bíblia diz é que uma parte dos judeus fez do dia 14 um dia de banquetes e de alegria pela vitória sobre seus inimigos, e que os judeus de Susã fizeram isso no dia 15. Então, “Mordecai […] enviou cartas a todos os judeus que se achavam em todas as províncias do rei Assuero, […] ordenando-lhes que comemorassem o dia catorze do mês de adar e o dia quinze do mesmo, todos os anos, como os dias em que os judeus tiveram sossego dos seus inimigos” (Et 9:20-22). Dois dias foram instituídos como feriados, e isso não tem nada a ver com o sábado.

O calendário dos judeus era realmente lunissolar, mas esse calendário seguia o ciclo semanal normalmente e não havia nenhum dia considerado “não-dia” da semana. O mês começava quando a estreita faixa de lua nova era avistada; os meses eram lunares, de 29 ou 30 dias. Como isso perfazia apenas cerca de 354 dias no ano, ou seja, deixava o ano cerca de 11 dias mais curto, a fim de manter o ano em harmonia com as estações, um mês adicional era intercalado cada vez que a cevada ainda não estava madura para a Páscoa. Assim, o calendário lunar era mantido em harmonia com o ano solar, e, portanto, o calendário era lunissolar.

Aqui é dito que em 31 d.C. “não se tem e não se pode ter uma crucifixão na sexta-feira”. Isso é totalmente contestado no livro Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27, de Juarez Rodrigues de Oliveira. A crucifixão é possível em 31 d.C., não, porém, numa sexta feira, 14 de abibe/nisã, mas numa sexta-feira 15.

Com base nesse “problema”, tomam uma carta de M. L. Andreasen para Grace Amadon e dizem que ele argumentou contra a adoção de um calendário em que o sábado “flutuava” ao longo da semana moderna, calendário este que estava sendo advogado por alguns da comissão. O problema não era esse. Na carta, Andreasen argumenta contra a adoção de um calendário como o que era usado nos tempos bíblicos, porque “embora o esquema proposto não afete de maneira alguma a sucessão dos dias da semana, e, portanto, não afete o sábado” (o que é justamente o contrário do que a WLC afirma que ele disse), a adoção de um calendário assim pela igreja causaria confusão, porque, devido ao fato de o crescente lunar, que marca o início do mês, se tornar visível em dias diferentes nas diversas localidades, as pessoas dessas diversas localidades poderiam começar seus meses em dias diferentes (por exemplo, cidades vizinhas poderiam estar, uma no último dia de um mês, outra já no primeiro dia do outro).

Os guardadores do sábado lunar estão divididos quanto ao que fazer nos dias 30 de um mês e 1º do mês seguinte, que são os dias da “festa da lua nova”. Alguns descansam nesses dias, considerando-os uma extensão do sábado do dia 29; outros se abstêm apenas de atividades comerciais e emprego remunerado, mas podem realizar outras tarefas comuns. Então, na última semana do mês, (1) no primeiro caso, trabalham seis dias e descansam três (em vez de um); (2) no segundo caso, trabalham sete ou oito dias (em vez de seis), antes de descansar um dia. Com qualquer dos dois métodos, o mandamento do Criador de que se trabalhasse seis dias e se descansasse no sétimo é violado. (Confira aqui.)

(Rosangela Lira é formada em Teologia)