Mentir para os filhos?

capaDez anos atrás a revista IstoÉ publicou uma matéria de capa na qual tratava de um tema oportuno (e sempre atual) para os pais: É errado se valer de pequenas mentirinhas para evitar acessos de birra dos filhos? Até que ponto é aceitável mentir para os pequenos? Para os especialistas, os pais devem sempre dizer a verdade e tomar cuidado ao lançar mão de truques e desculpas. “Em uma relação em que a confiança é fundamental não há espaço para inverdades, em nenhum nível, em nenhuma fase da vida”, diz a psicopedagoga Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp). “A maioria dos pais mente para facilitar a vida deles, mas isso não educa. É melhor a criança crescer com a imagem real do que é a vida do que falsear a realidade”, diz Tânia Zagury, filósofa, mestre em educação e autora de 13 livros na área de ensino e relacionamento entre pais e filhos.

A matéria aponta outra contradição ocasionada pela mentira: para não comprar o que o filho pede em uma loja de brinquedos, por considerarem caro, inútil ou inadequado, muitos pais alegam não ter dinheiro. Mas, em seguida, entram no supermercado e enchem um carrinho de compras. Isso as confunde. “A criança, especialmente a partir dos três anos, percebe a gafe”, diz a psicopedagoga Maria Irene Maluf. “Esse tipo de comportamento acaba com a confiança dos filhos nos pais. Eles não veem mais força na palavra do adulto”, afirma. Nessas situações, o ideal é conversar e explicar o porquê de ela não ganhar o brinquedo naquele dia.

A psicopedagoga Quézia alerta os pais para outro detalhe importante: só falarem de castigos que são capazes de pôr em prática. Do contrário, ficam desacreditados.

É importante lembrar ainda que o filho se espelha no comportamento dos pais para moldar sua personalidade – e ninguém quer criar um mentiroso contumaz. Aquela mania do pai de pedir à criança para atender ao telefone e dizer que ele não está, por exemplo, é péssima.

Contar a verdade sempre não significa que não se deva respeitar os níveis de compreensão dos filhos. A matéria de IstoÉ também chama atenção para isso: “Transparência é importante, mas às vezes não contar a verdade inteira pode ser o mais adequado. No caso de uma separação, sobretudo se houver traição, os pais não precisam entrar em detalhes dos motivos. ‘Isso não é da competência dos filhos, pode até gerar raiva neles’, afirma a educadora Tânia Zagury. Da mesma forma, não precisam falar que estão namorando até se sentirem seguros no novo relacionamento. A empresária Nelcy Del Grossi, 45 anos, chegou a levar três meses para contar às filhas adolescentes que tinha um namorado.”

E o que fazer se for confrontado sobre seu passado [digamos, “torto”] pelo filho? “Esta é uma decisão que os pais têm de pesar muito bem”, opina Tânia. “Existem pais que fumaram e se sentem desonestos ao negar. Mas há o risco de o adolescente decodificar essa mensagem como ‘se ele usou e está tudo bem, por que não posso usar?’”, diz Tânia. O importante é ter em mente que é algo a ser tratado em uma conversa longa, com calma. “É preciso aproveitar a pergunta para estruturar um diálogo”, diz o hebiatra Ramos, da Asbra. “Se for admitir que usou drogas, explique antes o contexto e qual era o momento da sua vida, faça-o refletir para não chocá-lo”, aconselha. Na opinião dele, se o pai nega ter experimentado e o filho depois descobre a mentira, pode ser mais complicado clarear a situação. Educar nem sempre é preto no branco. Cabe aos pais encontrar o equilíbrio na missão de criar os adultos de amanhã.

A matéria é equilibrada e nos lembra (sem querer) de que o imperativo bíblico de Êxodo 20 – “não levantarás falso testemunho” – é sempre o melhor caminho.

Uma ótima sugestão para ajudar na educação de seus filhos é o livro Orientação da Criança, contido neste lindo, valioso e baratíssimo box.

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Efeitos da tela no cérebro das crianças

Cell-PhoneO site da CBS publicou um estudo muito interessante, cuja prévia dos resultados foi divulgada ontem pelo National Institute of Health dos EUA. Foi um estudo multicêntrico conduzido ao longo de dez anos, com 11. 000 pessoas, em 21 cidades, ao custo de 300 milhões de dólares, para demonstrar os efeitos da tela (celular, iPad, computador e TV) no cérebro de crianças, adolescentes e adultos. Alguns highlights do estudo (dica do Dr. Ivan Stabnov):

1. O uso constante de tela provoca atrofia do córtex cerebral, com possível diminuição da receptividade de informações sensoriais (visão, audição, tato, olfato, paladar), pois acabam menos estimulados durante o uso da tela do que em outras atividades.

2. Há sinais de aumento importante da velocidade da maturação cerebral relacionado ao uso de tela, ou seja, aceleração do processo de envelhecimento cerebral.

3. Durante o uso de mídias sociais, há evidências do aumento da liberação de dopamina, que é um neurotransmissor relacionado ao vício. Ou seja, há evidências (que serão mais bem estudadas) de que pode viciar quimicamente, como uma droga.

4. Diminui o desempenho em testes de linguagem e matemática.

5. Crianças que aprendem a empilhar blocos e jogar em 2D (por exemplo, Minecraft), ao contrário do que se pensava, não conseguem transferir estas habilidades para montar blocos em 3D. Ou seja, a habilidade serve apenas especificamente para o computador, não para a vida real.

6. Existe uma correlação que será mais bem estudada (para saber se é uma relação de causa e consequência ou não) entre automutilação em meninas adolescentes e uso de redes sociais.

7. Adolescentes que usam redes sociais menos de 30 minutos ao dia apresentam muito menos sintomas depressivos e autodestrutivos do que os adolescentes que usam redes sociais por um tempo superior a esse.