Intolerância religiosa se agrava no Rio com ataques de traficantes “evangélicos”

terreiroOs registros de intolerância religiosa são comuns Brasil afora, mas no Rio têm uma característica particular: passaram a envolver traficantes e evangélicos. Após ataques a terreiros de umbanda e candomblé na Baixada Fluminense, a polícia identificou o mandante e, na semana passada, prendeu oito traficantes acusados de integrar seu grupo, o chamado Bonde de Jesus. Segundo a polícia, o mandante é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, do Terceiro Comando Puro (TCP), um dos criadores do Bonde de Jesus, vertente inédita da intolerância religiosa no Estado. Estima-se que existam hoje 200 terreiros sob ameaça. Os casos são investigados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), criada em 2018. Investigações apontam que a peculiar relação entre religiosos e criminosos aconteceu depois que a cúpula do TCP foi convertida por uma igreja neopentecostal. Há informações, ainda não confirmadas, de que Peixão teria sido ordenado pastor. Trata-se de uma característica específica dessa facção, não sendo reproduzida nem pelos demais grupos de traficantes nem por milicianos. “A situação de intolerância sempre existiu, mas tivemos uma piora quando indivíduos ligados à cúpula de uma facção resolveram se converter”, afirma o delegado da Decradi, Gilbert Stivanello. “Eles distorcem a doutrina religiosa e agridem outras religiões, sobretudo as de matriz africana.” As principais lideranças evangélicas do Rio condenam os ataques.

Um dos primeiros a se converter foi Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, há cerca de quatro anos. Ele era o chefe do tráfico no Morro do Dendê, Ilha do Governador, até ser morto pela polícia em junho. Outros, como Peixão, se converteram depois. “Alguns deles se converteram dentro do presídio”, diz Stivanello. “Eles viveram uma experiência distorcida da conversão, tornando-se ‘bandido de Jesus’, como se isso fosse um ato de fé. Se pararmos para pensar, não é muito diferente do terrorismo islâmico. É difícil mesmo entender a lógica”, afirma.

Coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileira, Célia Gonçalves Souza diz que o problema da intolerância é nacional, mas que, de fato, vem ganhando contornos específicos no Rio, sobretudo pela penetração de evangélicos no sistema carcerário. “No Rio, esse problema é muito escancarado e o narcopentecostalismo só tende a crescer. E passa pela questão das penitenciárias, onde há uma entrada muito grande dos neopentecostais.”

Na Baixada Fluminense, traficantes passaram a ditar regras dos terreiros, como horários das cerimônias e uso de fogos de artifício e fogueiras. Eles também proíbem as pessoas de andarem com roupas brancas ou de santo nas ruas. As invasões a terreiros são cada vez mais frequentes, com destruição de oferendas e imagens sagradas.

Há uma semana, o terreiro Ilê Axé de Bate Folha, em Duque de Caxias [foto acima], foi invadido por traficantes – no 10º caso da região. Eles quebraram todas as imagens e oferendas e ameaçaram de morte a mãe de santo, que está fora do Estado, na casa de parentes. “O ataque aconteceu num sábado de casa cheia. Eles entraram com violência, mandando todo mundo sair e quebrando tudo”, contou uma testemunha. “O terreiro está fechado. Tiramos tudo de lá e não aconselhamos ninguém a voltar.” Segundo a mesma testemunha, outros religiosos fecharam os terreiros e se mudaram.

“Qualquer ataque com contornos de destruição do sagrado tem caráter de racismo religioso”, diz a defensora Livia Cásseres, do núcleo contra a desigualdade racial da Defensoria Pública. “À violência que já existe contra essas religiões – que têm uma série de direitos negados –, se soma agora a do varejo de drogas. Mas a violência contra elas é permanente desde a época colonial.” Por isso, para Livia, a solução passa por diferentes esferas.

A gravidade da situação fez com que, em julho, fosse realizada uma reunião com membros da umbanda e do candomblé, lideranças evangélicas e representantes da Polícia Civil, do Ministério Público e da Defensoria Pública. O pastor Marcos Amaral, da Comissão Contra a Intolerância Religiosa, destaca que a denominação “evangélicos” abrange um segmento grande de religiosos, com posicionamentos diferenciados. Já o pastor Neil Barreto, da Igreja Batista Betânia, afirma que “a intolerância é o ápice da ignorância”. “E a única solução para a ignorância que produz intolerância é a educação. Precisamos de uma campanha de educação e conscientização em todas as comunidades de fé.” […]

(O Estado de S. Paulo)

Nota: Assim como é triste assistir de longe à perseguição de cristãos em países islâmicos e budistas, é igualmente desalentador ver pretensos “evangélicos” desrespeitando a fé alheia e usando de violência contra pessoas pacíficas que merecem desfrutar da liberdade religiosa que deveria ser assegurada a todos, independentemente de credo. As barbaridades cometidas por esses “bandidos de Jesus” não apenas desonram o nome de Deus e causam sofrimento e medo nas vítimas de suas ações, como também podem prejudicar o trabalho sério realizado nos presídios por igrejas e cristãos de verdade. Definitivamente, as palavras “Jesus”, “evangélico”, “traficante” e “bandido” não deveriam estar na mesma frase. Lamentável. [MB]

Religiões do mundo se reunirão em cidade alemã em busca da paz

anelA escultura é bastante evidente. Um anel de madeira de sete metros e meio de altura, entrelaçado várias vezes, sem começo nem fim. O chamado Ring for Peace (Anel pela Paz) ficará alguns dias exposto no Luitpoldpark em Lindau, pequena cidade alemã banhada pelo Lago de Constança. “Ele representa a ideia, a visão e a missão do encontro Religions for Peace (Religiões pela Paz)”, afirma o alemão Ulrich Schneider, diretor da Fundação para os Diálogos de Paz entre Religiões e Sociedades Civis Mundiais. A entidade organiza a 10ª Assembleia Mundial das Religiões pela Paz, que ocorre entre esta terça (20/8) e sexta-feira em Lindau, e terá suas portas abertas pelo presidente da Alemanha, Frank-Walter Steimeier. A Religions for Peace é uma rede global de religiões e comunidades. Segundo Schneider, todas as religiões do mundo estão, de alguma forma, envolvidas nessa aliança criada em 1970.

Há quem compare as reuniões, que ocorrem a cada cinco anos, com a Assembleia Geral da ONU. Desta vez, a grande aliança cívica ocorrerá em uma pequena cidade, bem longe dos grandes centros políticos, acessados mais facilmente. Lindau, porém, se encontra no coração da Europa. A cidade alemã recebe há muitos anos o encontro internacional de vencedores do Prêmio Nobel, oferecendo atmosfera para reflexões intensas e interações entre diferentes culturas.

 O economista Wolfgang Schürer, presidente da Fundação para os Diálogos de Paz entre Religiões e Sociedades Civis Mundiais, é o motor por trás do encontro religioso. “Esperamos que a assembleia mundial dê um impulso com efeito duradouro e que não seja apenas mais uma das inúmeras cúpulas que existem no mundo hoje”, afirma ele à DW. Essas também são as expectativas e esperanças do mundo político, bem como do Ministério do Exterior alemão, que apoia com milhões de euros o evento em Lindau.

Por muitos anos tem havido regiões no mundo onde as instituições políticas são incapacitadas, e apenas forças da sociedade civil – geralmente religiosas – assumem o papel de ajudar aqueles que precisam. Assim ocorre em vilarejos na República Centro-Africana, em partes do Iraque e em campos de refugiados em vários países. “Comunidades religiosas são as maiores instituições da sociedade civil no mundo”, afirma Andreas Görgen, diretor do Departamento de Cultura e Comunicação do Ministério do Exterior alemão. “Muito além de todas as questões de fé, estamos preocupados com sua responsabilidade para com essas sociedades.”

Desde 2018, Görgen tem sob seus auspícios a unidade de religião e política externa do ministério. Em Lindau, ele e seus colegas receberão diplomatas de diversos países europeus, que estarão no evento como observadores. Isso porque em todo o mundo, seja na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos, políticos observam cada vez mais o papel das religiões.

O mundo político enxerga o potencial das comunidades religiosas, mas também quer que elas assumam a tarefa de promover a paz. Em parte, esse será um tema quente em Lindau. A portas fechadas, representantes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte, de Myanmar e de Bangladesh, do Sudão e do Sudão do Sul conversarão uns com os outros. […]

 Também irá a Lindau o cardeal nigeriano John Onaiyekan, que prega em seu país a coexistência entre as religiões, em meio ao terror perpetrado pela organização fundamentalista islâmica Boko Haram. Ao todo, serão mais de 900 representantes de diferentes religiões, vindos de 100 países. Segundo Ulrich Schneider, o objetivo inicial era de que um terço dos participantes fosse do sexo feminino, o que não foi atingido pelos organizadores.

Schneider enfatizou a importância das religiões no mundo todo ao afirmar que 80% da população mundial se descreve como religiosa. “Isso é certamente diferente do que ocorre aqui na Alemanha e demonstra a importância das religiões nos dias de hoje”, observa.

A diversidade de países e religiões vai transformar a pequena Lindau. Os convidados terão a oportunidade de participar de serviços religiosos de crenças diferentes. Na quarta-feira, as igrejas católica e protestante da cidade convidarão representantes religiosos e a população local para comerem juntos em uma grande mesa.

Os alemães esperam que Lindau possa estimular encontros e conversas. O evento deverá resultar não apenas em uma declaração final conjunta, mas também em decisões bastante concretas. Planeja-se a criação de uma iniciativa global pela proteção de locais religiosos, além de um comprometimento conjunto na área acadêmica, visando aumentar a conscientização sobre a violência contra mulheres em conflitos armados.

“Nossa esperança é de que Lindau se torne um local permanente de diálogos inter-religiosos e de impulsos para a paz”, diz Schneider. Assim, quem sabe os representantes religiosos possam voltar ao Lago de Constança daqui a cinco anos.

(Deutsche Welle)

Nota: A pauta religiosa (misturada com política) se torna cada vez mais forte no mundo. A busca pela paz e os esforços para salvar o planeta têm derrubado barreiras. A união de igrejas se torna um alvo cada vez mais alcançável, já que se trata do desejo da maioria dos religiosos “moderados”. Como sempre, ficam de fora os extremistas e fundamentalistas. Muitos paralelos se podem traçar com a recentemente lançada série-documentário da Netflix “The Family”. Em breve, a jornalista e colaboradora Ágatha Lemos escreverá algo sobre isso. [MB]

lindau
A pequena Lindau, no Lago de Constança

Ex-dissidente conta tudo

O espírito de dissidência nega Jesus

Jesus“O que confessar a Cristo, tem de O possuir em si. Não pode comunicar aquilo que não recebeu. Os discípulos poderiam discorrer fluentemente acerca de doutrinas, poderiam repetir as palavras do próprio Cristo; mas a menos que possuíssem mansidão e amor cristãos, não O estariam confessando. Um espírito contrário ao de Cristo o negaria, fosse qual fosse a profissão de fé. Os homens podem negar a Cristo pela maledicência, por conversas destituídas de senso, por palavras inverídicas ou descorteses. Podem negá-Lo esquivando-se às responsabilidades da vida, pela busca dos prazeres pecaminosos. Podem negá-Lo conformando-se com o mundo, por uma conduta indelicada, pelo amor das próprias opiniões, pela justificação própria, por nutrir dúvidas, por ansiedades desnecessárias, e por deixar-se estar em sombras. Por todas essas coisas declaram não ter consigo a Cristo. E ‘qualquer que Me negar diante dos homens’, diz Ele, ‘Eu o negarei também diante de Meu Pai, que está nos Céus.”

Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 249 (grifos meus)

Pastores de Trump chegam a Brasília, e a igreja se aproxima do Estado

bible“Esse estudo não é sobre se Deus aceita ou não uma guerra. Ele aceita”, anuncia o pastor americano Ralph Drollinger, em um dos seus estudos bíblicos semanais, com uma voz emotiva, porém pausada, calculada para que os visitantes de seu site acompanhem o raciocínio. Em seguida, explica que a frase bíblica “Bem-aventurados são os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9) diz respeito apenas a “como os fiéis devem conduzir suas vidas pessoais”. Ou seja: não vale para os governos, que podem, sim, ir à guerra.

Publicado em maio de 2018, aquele “estudo bíblico” tinha razão de ser, segundo o próprio pastor: ajudar os membros do Governo americano a refletir sobre “a ameaça de guerra com a Síria, o Irã e a Coreia do Norte” – movimentos iniciados pelo presidente americano Donald Trump. E convencê-los de que ir à guerra é abençoado pela própria Bíblia. Dias depois, Drollinger seria ainda mais explícito na sua pregação, ao pedir que “você, como servidor público, ajude a reduzir a tendência antibíblica secular em direção ao pacifismo e não intervencionismo! Isso vai levar a um crescente caos global!”

Não foi a primeira vez nem seria a última que o fundador do ministério evangélico Capitol Ministries encontraria na Bíblia uma justificativa para as ações mais radicais do governo Trump. Afinal, o objetivo da igreja fundada por Drollinger é basicamente “converter” políticos e servidores públicos a uma visão cristã evangélica da política que se casa perfeitamente com a visão da ultradireita americana. “Sem essa orientação, é bem mais difícil chegar a políticas públicas que satisfaçam a Deus e sejam benéficas ao progresso da nação”, resume Drollinger em um dos estudos em seu site. […]

A Capitol Ministries – nome que significa “Ministério do Capitólio”, símbolo do Congresso americano – foi fundada pelo ex-jogador de basquete Ralph Drollinger na Califórnia, em 1996, para “criar discípulos de Jesus Cristo na arena política pelo mundo todo”. A ideia do pastor era levar para a política seu trabalho anterior, focado em evangelizar atletas.

Até o ano 2010, seu público eram deputados estaduais; naquele ano, o primeiro ciclo de estudos foi fundado em Washington, no Congresso americano. Mas foi em 2017 que Drollinger deu seu salto para o primeiro plano da política mundial, quando fundou o primeiro grupo de estudos dedicado apenas a membros do Governo de Donald Trump. O encontro semanal, em um local não revelado, reúne dez membros do alto escalão do Governo, incluindo o vice-presidente, Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo, que dirige a política externa. O ex-diretor da Agência de Proteção Ambiental Scott Pruitt, que articulou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, sobre aquecimento global, e já questionou o efeito de emissões de carbono sobre o clima, também chegou a participar.

Muito além de um simples falatório, as pregações de Drollinger têm efeito prático em um Governo que mais de uma vez reconheceu ter sido eleito graças ao voto evangélico. Em junho do ano passado, um de seus sermões foi usado pelo ex-procurador-geral Jeff Sessions para apaziguar os corações dos eleitores quanto à detenção de milhares de crianças imigrantes em péssimas condições na fronteira com o México. “Eu citaria a vocês o apóstolo Paulo e seu comando claro e sábio em Romanos 13, para obedecer às leis do Governo porque Deus ordenou o Governo para seus desígnios”, disse Sessions, invocando a Bíblia, e não a legislação americana, como justificativa. Enquanto a imprensa americana reagia chocada, Drollinger fez questão de expor suas digitais por trás da declaração. […]

Financiada pelo vice-presidente Mike Pence e pelo secretário de Estado Mike Pompeo, segundo afirmou o próprio Drollinger em seu site, a Capitol Ministries também se vale da influência do Governo americano para cumprir sua missão, entre aspas, divina: dominar o mundo. Desde o ano passado, abriu capítulos em cinco países latino-americanos – México, Honduras, Paraguai, Costa Rica e Uruguai –, anunciou que abrirá em outros dois – Nicarágua e Panamá – e acaba de aportar no Brasil, com lançamento oficial programado para a segunda quinzena de agosto no Senado Federal, “sem muita badalação, voltado apenas para autoridades” e “com a presença de Drollinger e sua esposa”, como explicou à Pública o pastor da Igreja Batista Vida Nova, Raul José Ferreira Jr., que será o responsável por conduzir os estudos bíblicos no Senado, na Câmara.

Ele diz ainda que, “se Deus permitir”, vai conduzir também estudos bíblicos na Casa Civil junto ao presidente Jair Bolsonaro e seus ministros, traduzindo as palavras do pastor americano para o presidente brasileiro. “Nós estamos realmente trabalhando firme para que possa haver ao menos um encontro do pastor Drollinger com o presidente Bolsonaro agora em agosto, para que a partir daí a gente possa desenvolver um trabalho. Mas, mesmo que o presidente não esteja entre eles, nós vamos tentar construir um trabalho dentro da Casa Civil, junto dos ministros diretamente ligados ao palácio”, diz.

O objetivo dos estudos bíblicos, que são traduzidos para o espanhol e em breve para o português, é disseminar a visão de Drollinger sobre o cristianismo aplicado à política. “Nossa ideia é chegar a nível de Presidência da República e ministros, primeiro escalão. A gente tem um slogan que é ‘first the firsts’, ou seja, primeiro os primeiros. Através dessas pessoas com relevância a gente pode mudar o destino da nossa nação”, diz o pastor Ferreira Jr., que, indicado pelo diretor regional no Brasil, pastor Giovaldo de Freitas, passou por uma semana de treinamento em Seattle com Ralph Drollinger e sua equipe.

As aspirações da Capitol Ministries no Brasil são ambiciosas, embora o pastor Ferreira Jr. chame de “trabalho de formiguinha”: conduzir, a portas fechadas nos gabinetes, reuniões bíblicas individuais com parlamentares, especialmente os não convertidos, além de reuniões coletivas semanais – e ainda garantir que cada parlamentar do Congresso Nacional receba os estudos impressos, por e-mail e por mensagem no celular. “Nosso objetivo é reconstruir a nação a partir de valores cristãos que são forjados através do estudo da Palavra”, define o pastor. […]

Para Christina Vital da Cunha, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, alguns elementos se destacam nessa chegada do ministério de Drollinger ao Brasil: um deles seria o novo protagonismo político da Igreja Batista, antes vista como mais progressista e também mais afastada da política – ministra Damares Alves é pastora batista, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também, além de outros integrantes do Governo. É o caso da Igreja Batista Vida Nova, de Raul José Ferreira Jr., que liderará os estudos dentro do governo.

“A gente pode observar um elemento diferente do que vinha acontecendo no Brasil desde então, que é uma afinação orgânica entre Estados Unidos e outros países da América Latina a partir desse elemento religioso e que tem na política institucional um lugar importante de atuação. Se vê um alinhamento conservador no Brasil, na América Latina e em outros países no mundo, que nos países da América Latina tem nesses religiosos evangélicos e católicos seus principais atores”, aponta. E chama atenção para a legitimação de um discurso à direita por meio da Bíblia, algo que já tem sido feito em certa medida no Brasil desde a campanha de Bolsonaro. “Outra coisa a se observar é se haverá disputas de poder com instituições já estabelecidas, como a Igreja Universal e a Assembleia de Deus.” […]

Mas não é só de governos orgulhosamente de direita que a Capitol Ministries tem se aproximado. No último dia 19, durante as comemorações dos 40 anos da Revolução Sandinista na Nicarágua, lideradas com pompa por Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, em meio a uma crise política que matou mais de 300 pessoas, levou mais de 500 manifestantes à cadeia e a milhares de exilados, Ralph Drollinger estava lá. Segundo uma nota à imprensa, foi o próprio Ortega quem convidou a Capitol Ministries a abrir o ministério no país. No convite, Ortega declarou: “Sabemos que, se as pessoas a quem Deus confiou o destino da nação nascerem de novo, nossos deputados legislarão de acordo com a Bíblia.” E foi assim que, diante de milhares de pessoas, Drollinger ressaltou os valores cristãos do país e agradeceu a oportunidade oferecida pelo Governo de Ortega. “Eu oro pela sua nação, oro por você, oro pelos líderes do Governo para que todos possamos refletir os atributos de Cristo todos os dias”, disse Drollinger, segundo o jornal oficial La Voz del Sandinismo. […]

Os estudos bíblicos no gabinete presidencial e no Congresso nicaraguense ficarão a cargo de Arsenio Herrera, pastor da maior igreja evangélica de Manágua, Hosanna Church. Herrera foi discípulo do criador da Hosanna, o americano David Spencer, a quem se atribui o feito de ter convertido mais de 500 almas por semana nos primeiros anos da igreja e que, pouco antes de sua morte, recebeu de Ortega e Rosario Murillo a cidadania nicaraguense em honra aos serviços prestados ao povo da Nicarágua.

 (El País)

Nota: Como se pode perceber, tanto a “direitização” da política internacional quanto a aproximação entre o Estado e a igreja são fenômenos mundiais, capitaneados pelos Estados Unidos (bem Apocalipse 13). O objetivo da igreja fundada por Drollinger é basicamente “converter” políticos e servidores públicos a uma visão cristã evangélica da política, que casa perfeitamente com a visão da ultradireita norte-americana. A separação entre o Estado e a igreja, o “empoderamento” do Estado pela religião e a legitimação da vontade humana pela Bíblia ficam cada vez mais claras (bem Apocalipse 13). Uma religião, lembre-se, que tem o domingo como dia sagrado e que advoga o arrebatamento secreto, entre outras coisas. Esse cenário deveria fazer cada adventista sincero refletir profundamente e buscar reavivamento pessoal. Se esse movimento continuar crescendo, uma lei dominical será questão de pouco tempo. Se protestantes e católicos fizerem pequenas concessões, poderão entrar em acordo sobre pontos de convergência, o que será louvado amplamente pelos Estados Unidos e pela Europa. Seria a reconciliação final… É acompanhar para ver no que vai dar (ou melhor: quando vai dar). [MB]

Nota do pastor Sérgio Santeli: “Não vejo problema em divulgar a Palavra de Deus às autoridades. Mas vejo um grande problema quando a Palavra de Deus ensinada está contaminada pela visão da Teologia do Domínio, como é o caso atual dos protestantes conservadores norte-americanos. O pastor Marvin Moore dedicou um capítulo do seu livro Apocalipse 13 a esse tema. Segundo o autor, o principal expoente da ‘teologia do domínio’ foi Rousas John Rushdoony, nascido em 1916, em Nova York, o qual publicou em 1973 uma obra (de 900 páginas) intitulada Institutes of Biblical Law. Ele considerava que as leis do Antigo Testamento ainda seguem vigentes no mundo moderno (com exceção daquelas que o Novo Testamento aboliu especificamente). Baseado no plano de Deus para Adão de que ele exercesse o domínio sobre toda a Terra e sobre os animais (Gn 1:26), Rushdoony transformou essa ideia na grande comissão: os cristãos devem submeter todas as coisas e todas as nações a Cristo e a Sua lei, sendo responsáveis por aperfeiçoar a sociedade, incluindo os governos civis, de modo que Jesus possa voltar. Da mesma forma que o teólogo católico Agostinho, Rushdoony também acreditava que os cristãos terão êxito em converter o mundo, colaborando para a chegada do milênio de paz na Terra. É por isso que, atualmente, os católicos e a direita cristã norte-americana estão agindo politicamente em harmonia – têm o mesmo objetivo. Como se pode perceber, biblicamente falando, a grande comissão de Cristo aos Seus discípulos foi para testemunhar a todas as nações e não para dominá-las (Mt 28:19; 24:14; At 1:8). Nosso mandato é converter (pelo Espírito Santo) pessoas, e não disseminar a Palavra de Deus adulterada na sua essência. Essa Teologia do Domínio está transformando o protestantismo norte-americano em romanismo, na medida que lança as bases para a futura união Igreja-Estado, e o consequente estabelecimento da Lei Dominical, a começar pelos EUA. Quem viver, verá…”

Leia também: “Por que governos de direita e a religião crescem no mundo”

Mudanças litúrgicas para alcançar os secularizados

celebrationO que acontece quando uma congregação adventista deseja mudar para alcançar pessoas seculares? E se o padrão de mudanças inclui alterações litúrgicas e a adoção de métodos e práticas das igrejas evangélicas? Quais as consequências para a identidade profética? Para responder a essas e outras perguntas, aqui serão analisados brevemente os primórdios do movimento Celebration, suas implicações e reações (assista ao vídeo que completa o texto).

Breves apontamentos históricos

O pastor Dan Simpson estudou as técnicas de crescimento de igreja propostas por Peter Wagner, um dos gurus do movimento, e as compartilhou com a congregação adventista que ele pastoreava, a Calimesa Church.[1] Sem resultados, Simpson assumiu a congregação adventista Azure Hills, localizada em Grand Terrace, California, no fim do ano de 1986, onde contou com a assessoria de Carl F. George, um consultor de igrejas associado ao Charles E. Fuller Institute of Evangelism and Church Growth.[2]

Em abril de 1989, a Associação da qual Simpson fazia parte votou que ele estabelecesse a congregação que ficaria conhecida como Colton Celebration Center, em um edifício alugado da denominação Assembleia de Deus.[3] A proposta logo ganhou adesão de outras congregações adventistas, recebendo especial destaque as congregações Milwaukie church, em Oregon e Buffalo church, em New York.[4] Nascia o movimento Celebration, que representou “uma ruptura decisiva com a liturgia adventista tradicional”,[5] o qual atingiu muitas congregações adventistas nos Estados Unidos durante a década de 1990 e ainda influencia a discussão sobre liturgia em muitos contextos. O que podemos aprender desse movimento?

Nos bastidores do estilo celebracionista

Hasel, analisando o estilo “celebracionista” de culto, constatou a ocorrência de pelo menos três mudanças: (a) quanto à estrutura congregacional, sendo que as congregações tornaram-se mais independentes, abandonando o uso do Hinário Adventista e agindo administrativamente como se fossem “mini-denominações”; (b) quanto à liturgia, que agregou elementos como dança, teatro, inovações hinódicas, etc.; (c) quanto às doutrinas: ao invés das doutrinas tradicionais adventistas, a ênfase recaiu sobre amor, perdão e aceitação.[6] A conclusão de Hasel traz um alerta muito expressivo: “Em nossa fome espiritual, em nossa ânsia por reavivamento e poder do alto, fixemos nossos olhos na direção da Palavra de Deus. Na Escritura nós encontraremos força renovada e poder divino para descobrir e redescobrir a vontade de Deus para Seu povo no tempo do fim. Os adventistas são o povo do Livro; e o Espírito que fala através do Livro nos renovará.”[7]

Por que o estilo de adoração celebracionista se oporia ao estudo das Escrituras? Segundo Bacchiochi, deve-se reconhecer que, em muitos casos, “aqueles que suplicam por música eclesiástica que ofereça satisfação pessoal ignoram que isso implica buscar uma estimulação física egocêntrica em vez de uma celebração espiritual teocêntrica das atividades criativas e redentivas da divindade”.[8] Essa aproximação da cultura secular remete a modelos mais bem observados na fenomenologia de cultos pagãos. Dorneles afirma que a “relação direta entre espírito (mundo sagrado) e o homem e a natureza (mundo profano), quer seja pela gênese dos espíritos como descendentes dos humanos, quer seja pelo fenômeno de possessão, influencia a aproximação, senão a integração entre o sagrado e o profano”.[9]

Sem dúvida, isso representa um desvio do propósito da adoração autêntica, conforme asseverou Ted Wilson, presidente da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia: “O diabo está tentando neutralizar a igreja de Deus por meio da tendência de aceitar a música e a adoração carismáticas e pentecostais, abordagens que focam nos membros da igreja e naqueles que lideram a liturgia, em lugar de focar no Deus verdadeiramente adorado. Um falso entendimento da adoração nos leva ao cerne das três mensagens angélicas, uma vez que tais mensagens são para que o povo volte à verdadeira adoração a Deus e não à falsa, experiência eufórica, mas, ao contrário, à genuína conexão espiritual com Deus por meio do estudo da Bíblia e da oração.”[10]

Como deveríamos celebrar?

Segundo Klingbeil, diante dos riscos da adoração mal orientada, precisa-se tratar do assunto do culto de um ponto de vista bíblico.[11] Rodríguez reforça a ideia, enfatizando que “mudanças na liturgia necessitam ser precedidas de uma análise séria sobre a natureza da adoração cristã que auxiliará no enriquecimento da experiência de culto dos fiéis”.[12] Os adventistas do sétimo dia possuem um entendimento bastante claro sobre adoração. Entretanto, como assinala Fortin, em “anos recentes, uma hermenêutica pós-moderna de preferências pessoais e culturais tem dominado qualquer discussão sobre adoração”.[13] O autor segue dizendo que muitos estudos que pretendem descobrir princípios de adoração são de natureza revisionista e influenciados pela hermenêutica que ele denuncia. Como resultado, “todo formato e entendimento sobre adoração são impostos sobre todo o povo, e que todo estilo de adoração é um objeto de preferências congregacionais e culturais”.[14] Oliveira advoga uma consciência crítica fundamentada no significado intrínseco à música: “Se realmente tivéssemos a devida seriedade e sobriedade que o assunto do uso de música na Igreja requer, iríamos no mínimo ter a curiosidade de tentar descobrir como a música é capaz de nos afetar e comunicar ideias e sentimentos.”[15]

Em qualquer grupo de adoradores o culto em geral e o tipo de música em especial são conduzidos de acordo com a visão que se tem da divindade.[16] Gordon pondera que por dezenove séculos diversas tradições cristãs, nas mais variadas culturas, admitiram a convivência de música antiga e contemporânea, sendo a última selecionada e incorporada ao repertório da igreja. A mudança nesse padrão aponta uma mudança profunda.[17] A salvaguarda seria propor mudanças no culto somente a partir do entendimento bíblico, uma vez que, ao introduzir metodologias e práticas sob a influência da cultura secular, corre-se o risco de comprometer o sistema bíblico-doutrinário adventista. Conforme Becerra argumenta: “Alguém pode falhar em perceber como a prática de adoração gradualmente modifica a doutrina. A introdução de práticas de adoração não enraizadas nas Escrituras poderia ser perigosa. A Igreja Adventista deveria ser cautelosa em definir teologia e prática de adoração bíblica. A sociedade contemporânea é caracterizada pelo desejo pela experiência e sentimentos acima da doutrina, como se vê na adoração carismática contemporânea. Qualquer adoção de novas formas de adoração deveria ser avaliada pela sua fidelidade às Escrituras.”[18]

Para Plenc, com base na teologia bíblica, o “culto deve ser caracterizado pela reverência, ordem e solenidade em equilíbrio com comunhão, espontaneidade e alegria”.[19] Tanto na Bíblia quanto nos testemunhos de Ellen G. White, a adoração se fundamenta “em virtude dos atributos absolutos de Deus, como a infinitude, a eternidade, a grandeza e perfeição”.[20] Rodríguez acrescenta que o chamado para a adoração exclusiva que aparece nas Escrituras ocorre no contexto do grande conflito, sendo a resposta a esse chamado – e consequente envolvimento na adoração – uma tomada de posicionamento, traduzida em “expressão de lealdade a Ele [Deus] e um reconhecimento de Seu amor”, o que tem estreita relação com o coração da mensagem adventista (Ap 14:6-12).[21]

Conselhos finais

Os adventistas foram agraciados por Deus com orientações adicionais, provenientes dos testemunhos de Ellen G. White. Nos seus escritos, encontramos a seguinte repreensão a um grupo de crentes nos seguintes termos: “Sua religião parece ser mais da natureza de um estimulante do que uma permanente fé em Cristo.”[22] Para a pioneira adventista, os “verdadeiros [cristãos] conhecem o valor da obra interior do Espírito Santo sobre o coração humano. Satisfazem-se com a simplicidade nos cultos”.[23]

Desde o início, o adventismo parece ter lutado contra o excesso de emocionalismo; por isso, nota-se a recomendação: “A verdade deve ser apresentada à mente o mais isenta possível do elemento emocional.”[24] Por outro lado, não se defende um formalismo mecânico; pelo contrário: “Seu culto deve ser interessante e atraente, não se permitindo que degenere em formalidade insípida. Devemos dia a dia, hora a hora, minuto a minuto viver para Cristo; então Ele habitará em nosso coração e, ao nos reunirmos, seu amor em nós será como uma fonte no deserto, que a todos refrigera, incutindo nas almas esmorecidas um desejo ardente de sorver da água da vida.”[25]

E se no passado o movimento Celebration procurou efetuar a evangelização de forma contextualizada à sociedade norte-americana, é justo que se avalie a iniciativa a partir da contundente declaração inspirada: “Muitos supõem que, para se aproximar das classes mais altas, é preciso adotar uma maneira de vida e um método de trabalho que se harmonizem com seus fastidiosos gostos. Uma aparência de riqueza, custosos edifícios, caros vestidos, equipamentos e ambiente, conformidade com os costumes do mundo, o artificial polimento da sociedade da moda, cultura clássica, as graças da oratória, são considerados essenciais. Isso é um erro. O caminho dos métodos do mundo não é o caminho de Deus para alcançar as classes mais elevadas. O que na verdade os tocará é uma apresentação do evangelho de Cristo feita de modo coerente e isento de egoísmo.”[26]

(Douglas Reis é mestre em Teologia, doutorando em Teologia [PhD] pela Universidade Adventista del Plata e autor de livros e artigos acadêmicos sobre identidade adventista, desenvolvimento da doutrina adventista e pós-modernidade)

Referências:

[1] Viviane Haenni, “The Colton Celebration Congregation: A Case Study in American Adventist Worship Renewal 1986-1991” (Tese doutoral: Andrews University, 1996), 64.

[2] Ibid., 65.

[3] Ibid., 68.

[4] J. David Newman e Kenneth R. Wade, “Is It Safe to Celebrate?,” Ministry Magazine, 1990, acesso: 29 de Janeiro de 2017, https://www.ministrymagazine.org/archive/1990/06/is-it-safe-to-celebrate.

[5] John S. Nixon, “Towards a Theology of Worship: An Application at the Oakwood College Seventh-Day Adventist Church” (Tese doutoral, Andrews University, 2003), 21.

[6] Gerard F. Hasel, “The ‘third Wave’ Roots of Celebrationism”, in Samuel Koranteng-Pipim, Here We Stand: Evaluating New Trends in the Church (Berrien Springs, MI: Adventism Affirm, 2005), 395.

[7] Ibid., 396–397.

[8] Samuele Bacchiocchi, “Una Teología Adventista de La Música Eclesiástica”, Kerigma (Col. Moderna, México, 2001), no 2, 23.

[9] Vanderlei Dorneles, Cristãos em Busca do Êxtase: Para compreender a nova liturgia e o papel da música na adoração contemporânea (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2006), 9.

[10] Ted Wilson, “God’s Prophetic Movement, Message, and Mission and Their Attempted Neutralization by the Devil”, sermão durante o concílio anual, realizado em Silver Spring, em 11 de outubro de 2014, acesso: 15 de Outubro de 2014, http://www.adventistreview.org/church-news/%E2%80%98god%E2%80%99s-prophetic-movement,-message,-and-mission-and-their-attempted-neutralization-by-the-devil%E2%80%99.

[11] Gerald A. Klingbeil, “Una Teologia de La Musica Sacra”, Theologika (Lima, Peru, 1997), ano 12, no 2, 191.

[12] Ángel Manuel Rodriguez (org), Teologia Do Remanescente: Uma Perspectiva Eclesiológica Adventista (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2012), 18.

[13] Denis Fortin, “Ellen G. White’ Theology of Worship and Liturgy.” In Ángel Manuel Rodriguez (org), Worship, Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3. (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 84.

[14] Ibid.

[15] Jetro Oliveira, “Além Da Estética: Um Ensaio Sobe a Música Sacra E Seu Significado”, Kerigma (Engenheiro Coelho, SP, 2006), ano 2, no 1, 28.

[16] Ver especialmente Wolfgang H. M. Stefani, Música Sacra, Cultura E Adoração (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2002).

[17] T. David Gordon, Why Johnny Can’t Sing Hymns: How Pop Culture Rewrote the Hymnal (Phillipsburg, N.J.: P & R Pub., 2010), 42-43.

[18] Sergio E. Becerra, “Worship and the Magisterial Reformers.” In Ángel Manuel Rodriguez (org), Worship, Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 29.

[19] Daniel Plenc, “Toward an Adventist Theology on Worship”, In Ángel Manuel Rodriguez (org), Ministry, and the Authority of the Church; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 131.

[20] Daniel Plenc, “Elena G. de White Y La Adoración”, In Hector O. Martín e Daniel A. Mora (ed.), Elena G. de White: Manteniendo Viva La Visión: Documentos Del I Simpósio Bíblico-Teológico Del Seminário Teológico Adventista de Venezuela (Yaracuy, Venezuela: Seminário Teológico Adventista de Venezuela, 2015), 245–246.

[21] Rodriguez, Ángel Manuel. “Elements of Adventist Worship: Their Theology.” In Worship, Ministry, and the Authority of the Church, 133–147; Studies in Adventist Ecclesiology – 3 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2016), 133.

[22] Ellen G. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2008), 502.

[23] Ibid.

[24] Ibid., 611.

[25] Ellen G. White, Testemunhos Seletos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), v. 2, 252.

[26] Ellen G. White, A Ciência Do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 213.

Liberdade religiosa para todos

liberdadeApesar de a liberdade religiosa ser um assunto de grande relevância para todos, poucos são os que se debruçam para entender o seu significado e alcance, especialmente para os tempos em que vivemos e sob a perspectiva adventista escatológica. Não é um tema restrito a advogados, sociólogos ou filósofos. Trata-se de um assunto relacionado a todos os que creem e até àqueles que não creem, e se torna especial e distinto para aqueles que professam a crença nas profecias bíblicas para o tempo do fim.

Liberdade religiosa conceitua-se como o direito de livremente praticar ou expressar uma religião, segundo os ditames de sua própria consciência. Constitui-se como uma questão de foro íntimo, de modo que seu exercício e prática são inerentes ao próprio conceito de dignidade do ser humano, que é o princípio máximo das constituições democráticas de um Estado de Direito. Constituída como direito humano na ordem jurídica internacional e internalizada pelas nações soberanas (como o Brasil), como garantia fundamental, a liberdade religiosa preconiza o direito de consciência, crença, culto e evangelização. A todos é garantido o direito de livremente escolher essa ou aquela religião, e até de não crer, segundo sua livre consciência e convicção. Apenas quando se permite amplo e irrestrito exercício da liberdade religiosa é que se garante a plena concretização da dignidade humana.

A dignidade do ser humano é concebida como o valor máximo inerente ao exercício e a fruição de todos os valores individuais. Segundo o conceito de Günter Dürig (1956), “cada ser humano é humano por força de seu espírito, que o distingue da natureza impessoal e que o capacita para, com base em sua própria decisão, tornar-se consciente de si mesmo, de autodeterminar sua conduta, bem como de formatar sua existência e o meio que o circunda”.

Para o exercício da liberdade religiosa é necessário também um Estado laico, que pode ser definido como a separação absoluta que deve existir entre igreja e Estado. No entanto, não há inimizade entre a igreja e o Estado. Pelo contrário, deve haver uma cooperação recíproca entre ambos para que se concretize plenamente o exercício da liberdade religiosa. O Estado pode subsidiar e promover atividades da igreja que promovam o bem comum, da mesma forma que a igreja pode apoiar atividades do Estado para a promoção dos valores da livre democracia. O que não pode ocorrer é um interferir na nomeação dos líderes do outro e vice-versa, assim como nas regras que ditam a ordem interna de cada qual. Por não ser um “Estado ateu”, o Estado laico defende que haja harmonia entre o exercício da fé e as atividades públicas de interesse social.

O primeiro registro que se tem do termo “liberdade religiosa” é do cristão converso Tertuliano, cidadão romano que viveu entre os anos 160 e 220 d.C., tendo afirmado que “a religião exige, por si só, a recusa a todo tipo de repressão em termos de religião”. Em 13 de junho de 313, o imperador romano Constantino promulgou o Édito de Milão, proclamando que o Império Romano seria neutro com relação à religião e que cada um poderia ter o privilégio de escolher e adorar qualquer divindade que lhe agrade. Surge então o primeiro conceito legal de liberdade religiosa e Estado laico. No entanto, 12 anos após, por meio do Concílio de Niceia, a Igreja começou a perseguir todos aqueles que ousavam discordar de seus dogmas.

Com a Reforma Protestante se iniciam movimentos na busca pela liberdade religiosa e o direto de discordar dos dogmas da Igreja Católica. A Revolução Americana nos Estados Unidos, em 1776, em sua Primeira Emenda à Constituição, trouxe o direito ao exercício da liberdade religiosa e regra de separação entre igreja e Estado, o que influenciou diversas outras constituições democráticas a também tomarem medidas semelhantes.

No contexto da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), as primeiras declarações sobre liberdade religiosa foram proclamadas em 1850, antes mesmo da organização formal da IASD, em 1863. Em 1888, com a proposta de lei do senador americano Henry Blair, que tornaria o domingo dia de guarda religioso (blue law), punindo todos aqueles que ousassem trabalhar nesse dia, teve início um grande movimento na IASD para conter tais movimentos contrários à liberdade religiosa. Nesse tempo se insurgiu contra tais medidas o pastor adventista Alonzo Trévier Jones (1850-1923), que apresentou petição ao Congresso Americano com 500 mil assinaturas de adventistas. Jones foi o representante da IASD que defendeu com intrepidez e destemor o direito à liberdade religiosa perante o Senado, tendo se saído muito bem com a revogação daquele projeto de lei federal.

Em virtude de tais questões, a Associação Geral da IASD designou uma comissão específica sobre liberdade religiosa, que, em 21 de julho de 1889, foi absorvida pela Associação Nacional de Liberdade Religiosa, que posteriormente veio a se tornar a atual Associação Internacional de Liberdade Religiosa (International Religious Liberty Association – IRLA). Em 1892, alguns adventistas chegaram a ser presos por trabalhar no domingo, no Estado do Tennessee. No entanto, com a sedimentação da liberdade religiosa e do princípio do Estado laico na Suprema Corte, tais legislações dominicais foram revogadas e não mais subsistem nos Estados Unidos.

Em 1889, foi editada a Declaração de Princípios da Associação Nacional de Liberdade Religiosa, trazendo como principal premissa: “Acreditamos em apoiar o governo civil e submeter-nos à sua autoridade. Negamos o direito de qualquer governo civil legislar sobre questões religiosas. Acreditamos que é o direito, e deve ser o privilégio de cada homem adorar de acordo com os ditames de sua consciência. Também acreditamos ser nossa responsabilidade usar todos os meios legais e honoráveis de evitar a legislação pelo governo civil.” Tais princípios foram depois incorporados à IRLA, que, em 1948, passou a admitir pessoas de outras religiões como seus associados.

Associados famosos da IRLA, como Eleanor Roosevelt e René Cassino, influenciaram a Declaração Universal dos Direitos do Homem da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1948, marco importantíssimo para a sedimentação da liberdade religiosa nas constituições das nações democráticas em todo o mundo, trazendo a seguinte declaração sobre liberdade religiosa: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.”

Em 1981, foi editada pela ONU a “Declaração sobre a eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação fundadas na religião ou nas convicções”, texto relevante especialmente para aqueles que dedicam um dia exclusivo para o descanso religioso. O art. 6º, alínea “h” estabelece a liberdade de “[…] observar dias de descanso e de comemorar festividades e cerimônias de acordo com os preceitos de uma religião ou convicção”.

Os maiores desafios à liberdade religiosa no mundo são problemas como nacionalismo, ideologias ateístas, secularismo intolerante e extremismo religioso. Movimentos nacionalistas e ideologias ateístas sempre redundam em interferências nefastas, privilegiando determinada religião (nacional) ou privando todos de ter uma religião (ateísmo). O secularismo intolerante traz em si discriminação àqueles que creem e impõem a cultura secular a todos indistintamente. O extremismo religioso, especialmente em países teocráticos muçulmanos, gera agressões físicas e atentados genocidas, e hoje afeta em torno de 150 milhões de pessoas em todo o mundo. Atualmente, cerca de 2/3 da população mundial sofre algum tipo de restrição ou intolerância religiosa, e as agressões têm se intensificado nos últimos anos (Pew Research Center, 2018).

Os maiores obstáculos ao diálogo em questões de liberdade religiosa são a própria religião, e suas respectivas igrejas, que impõem de certo modo seus pontos de vista a outros e buscam interferir em decisões do Estado para buscar a primazia e se agigantarem enquanto instituição. O evangelismo também, algumas vezes quando redunda em proselitismo e se não bem conduzido, traz problemas quanto ao diálogo com o Estado, e disso surgem conflitos, como nos casos em que algumas igrejas são acusadas de manipular os fiéis, especialmente em matéria de dízimos e ofertas.

No Brasil, o direito fundamental à liberdade religiosa encontra-se registrado no artigo 5º, incisos VI a VIII, da Constituição Federal de 1988, sendo garantida a liberdade de consciência e de crença, assegurado o exercício e a proteção dos cultos religiosos e de suas liturgias. Também se assegura a prestação religiosa em entidades civis, militares e coletivas, assim como veda-se privar alguém por motivo de crença religiosa ou até convicção filosófica ou política, e quando necessário cumprir obrigações a todos impostas, cabe prestação alternativa. Por sua vez, o princípio do Estado laico encontra-se previsto no art. 19 da Constituição Federal, sendo vedado ao Estado estabelecer cultos religiosos, igrejas, subvencioná-las, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com elas alianças, ressalvada a colaboração por interesse público.

Para os adventistas do sétimo dia no Brasil, a questão da guarda do sábado tem sido um grande desafio, especialmente por se tratar de uma religião minoritária e que não ocupa espaços relevantes nos cargos governamentais. Em um país de maioria católica, com protestantes e evangélicos que cultuam o domingo como dia separado para as atividades litúrgicas, torna-se especialmente necessário que haja efetiva proteção ao pleno exercício da liberdade religiosa para os sabatistas.

Nesse contexto, pode-se afirmar, com plena convicção, que existe no direito brasileiro o direito fundamental ao descanso semanal religioso, garantindo ao crente o direito de separar um dia na semana, conforme sua crença e liturgia. Destaca-se como garantia ao próprio exercício da fé, tendo em vista que qualquer violação ou restrição, por menor que seja, pode vir a privar a própria consciência e o livre exercício de escolha da religião. Ou seja, ao impor restrições quanto à guarda do sábado, muitos podem não decidir se tornar adventistas por restrições financeiras ou educacionais. Trata-se de restrições no trabalho, na escola, em concursos públicos ou vestibulares.

Em 3 de janeiro de 2019, foi sancionada pelo presidente Jair Messias Bolsonaro a Lei nº 13.796, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, garantindo a todos os estudante de instituições de ensino ausentar-se de prova ou aula marcada para o dia em que, em virtude de sua consciência e crença, segundo os preceitos de sua religião, seja vedado o exercício de tais atividades. Apesar de a lei ter conferido dois anos para as instituições de ensino implementarem progressivamente as medidas necessárias à adequação de seu funcionamento, a lei entrou efetivamente em vigor na data de 4 de abril de 2019, obrigando todas as instituições de ensino, públicas e privadas, exceto militares, a conferir efetiva proteção ao direito fundamental ao descanso semanal religioso, segundo os ditames dessa ou aquela religião. A forma como a lei tratou a questão foi bastante positiva, na medida que garante idêntico direito a todas as religiões, seja para aqueles que guardam a sexta-feira, o sábado ou o domingo.

Defender a liberdade religiosa é uma questão para todas as pessoas, em todos os lugares. A perseguição, nesse contexto, surge como resultado da intolerância, que é fruto do pecado. De fato, ser perseguido faz parte do chamado a ser cristão (João 15:20; Mateus 24:9), mas isso não implica que devemos nos omitir ou negligenciar a defesa da liberdade religiosa. Tem sido pela omissão de muitos que, em tempos de paz, a igreja tem dominado o Estado ou vice-versa. Alguns dos maiores conflitos da humanidade sempre estiveram relacionados com a liberdade religiosa, como a perseguição aos cristãos nos primeiros séculos, a perseguição aos “hereges” pela Igreja Católica, o Tribunal da Inquisição, a Reforma Protestante, o Holocausto, o comunismo, e atualmente os ataques terroristas em países democráticos e execuções onde impera a lei da Sharia.

A IRLA, tradicionalmente presidida por adventistas, é precursora na defesa da liberdade religiosa há mais de um século, tendo influenciado a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU. Por mais de 20 anos, o PhD John Graz esteve à frente da defesa da liberdade religiosa, que é o oposto do conceito de ecumenismo, pois este advoga a união de igrejas em pontos de doutrina e aquele o direito de cada um ter a religião que bem entender ou mesmo de não ter religião alguma. John organizou os maiores eventos de que se tem notícia de liberdade religiosa no mundo, com a participação de até 70 mil pessoas em festivais. Organizou jantares com as mais altas autoridades, comitês acadêmicos interconfessionais e congressos em diversos países e continentes.

Defender a liberdade religiosa deve ser a bandeira de todos aqueles que gostariam que sua liberdade não fosse atingida. Devemos buscar legitimamente em tempos de paz tudo quanto nos é por direito. No entanto, a prática revela que somente se dá importância a esse tema quando se sofre algum tipo de restrição. Como adventistas, devemos ter em mente que a coalizão do anticristo está usando a força para impor sua adoração (Apocalipse 13:16, 17). Por meio da tríade satânica, poderes terrenos irão perseguir os cristãos fiéis aos mandamentos bíblicos, pretendendo dar a todos o mesmo direito e impor a adoração do domingo. Devemos estar preparados para a grande tribulação e aguardar firmes na fé a breve volta do Senhor Jesus.

(Yuri Schmitke Almeida Belchior Tisi é advogado, bacharel em direito pelo Centro Universitário de Brasília, pós-graduado em Direito de Energia Elétrica pelo UniCEUB e mestrando em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB; é presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos, membro do Instituto Brasileiro de Estudos do Direito de Energia, da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético e da Associação Nacional de Juristas Evangélicos)