A ciência e a Bíblia são sexistas?

inferiorA revista Veja [anos atrás] publicou uma entrevista interessante com a jornalista inglesa especializada em ciência Angela Saini, aproveitando como “gancho” o lançamento do livro dela, Inferior: How Science Got Women Wrong (Inferior: Como a ciência se enganou com as mulheres, em tradução livre). Saini afirma que a ciência nasceu dentro de um contexto cultural em que a mulher era vista de forma diferente do homem, em uma sociedade sexista que fragilizava e inferiorizava o feminino. “Então, não é surpreendente que a ciência tenha seguido o mesmo caminho, reproduzindo estereótipos e baseando seus estudos em suposições herdadas da sociedade”, diz ela, deixando claro que, a despeito de sua especialização, não compreende o que é ciência. Mas tem mais: Saini também não compreende a religião bíblica.

Quando lhe foi perguntado se a forma como a religião retrata a mulher influenciou a ciência supostamente sexista, ela respondeu que sim, e definiu a religião que, para ela, é machista: “Adão e Eva foram a fonte primária de informação sobre a relação entre homem e mulher para o mundo cristão.” Para ela, a história do primeiro casal reforçaria o estereótipo da mulher como segundo elemento. Mas de onde ela tirou essa ideia? Escolher o relato da criação foi um tiro no pé em seu discurso feminista. Se ela ainda tivesse usado passagens bíblicas pós-pecado que refletem a ascensão diabólica do machismo e a subjugação da mulher por homens pecadores, ainda daria para compreender (deixando de lado o fato de que quando a Bíblia descreve aspectos culturais reprováveis não significa que Deus os esteja aprovando).

No relato bíblico da criação fica evidente que a mulher – a obra-prima de Deus, o último ser criado em uma ordem crescente de relevância e complexidade – é tão importante quanto o homem, embora ambos tivessem (e ainda têm) funções diferentes. O fato de ser usada no relato a palavra “ajudadora” ou “adjutora idônea” não diminui em nada a esposa de Adão. Na verdade, a expressão original hebraica ezer kenegdo também é aplicada a Deus como nosso ajudador. Isso significa que o Senhor é inferior a nós? Claro que não!

Infelizmente, Saini parece entender pouco de Bíblia e menos ainda de ciência. Como é muito comum, ela confunde ciência com filosofia ou paradigmas, e pensa que as afirmações dos cientistas equivalem à ciência. Esta é uma confusão recorrente: atribui-se à ciência coisas que os cientistas dizem. A ciência não diz nada. Ciência é uma caixa de ferramentas que usamos para compreender o mundo que nos rodeia. Ciência não é uma invenção humana. Não foi inventada. Foi descoberta.

A própria Saini dá um exemplo interessante na entrevista, que ajuda a compreender a diferença entre ciência e paradigma filosófico. Ela conta que em 2013 um grupo de cientistas da Universidade McMaster publicou um artigo sobre a origem da menopausa no qual afirmam que a mulher deixa de menstruar na meia-idade porque os homens não mais as consideram atraentes, sendo, então, a menopausa um efeito evolutivo da falta de atração masculina por mulheres mais velhas. Para rebater essa pesquisa, a jornalista cita o trabalho de outro evolucionista, o biólogo George Williams. Para ele, a menopausa surgiu em nossa espécie como um mecanismo para proteger as mulheres mais velhas dos riscos do parto. O que há de ciência nessas afirmações? Praticamente nada. São meras opiniões evolucionistas que mostram uma casa dividida.

Para ser justo, Saini acerta no alvo em um ponto: quando afirma que Charles Darwin foi o cientista que causou mais dano para a percepção dos cientistas em relação à mulher. Isso porque o naturalista inglês afirmou categoricamente sem base alguma que a mulher seria naturalmente inferior ao homem, sustentando que as mulheres estavam atrás dos homens na escala evolutiva. Por não fazer ciência de verdade, Darwin deixou de considerar o contexto social de seu tempo, que impedia as mulheres de terem acesso à educação, à informação, à possibilidade de participar das descobertas científicas da época, etc. “O poder [das ideias de Darwin] e seu status fizeram com que suas teses embasassem muitos trabalhos de cientistas nos séculos seguintes”, diz Saini, sem perceber que, na verdade, está reconhecendo que o darwinismo contaminou muitas áreas do saber, influenciando filosoficamente inúmeras pesquisas e trabalhos.

Ao responder à última pergunta da entrevista, Saini diz que “o que feminismo está fazendo com a ciência é melhorá-la, confrontá-la. O feminismo tem ajudado a questionar estereótipos que são, justamente, irracionalidades que faziam parte da ciência”. Errado, pois, como eu já disse, a ciência não é machista nem feminista. Machistas ou feministas são os cientistas. Assim como Deus e a Bíblia não são machistas nem feministas. Machistas e feministas são as pessoas e as culturas retratadas na história bíblica.

Esses são os verdadeiros estereótipos que precisam ser derrubados. Mas não serão graças ao feminismo radical ou a qualquer outro ismo. Serão derrubados pela verdadeira religião e pela verdadeira ciência – quando as pessoas estiverem dispostas a compreendê-las.

Michelson Borges

(Publicado originalmente no blog Criacionismo.)

“Minha ‘bússola moral’ não é a Bíblia; é Jesus.” Como assim?!

jesus modernoEsse comentário foi feito recentemente numa página que tem como proposta produzir uma teologia adventista alinhada com algumas pautas progressistas como a de que a prática homossexual não é considerada pecado na Bíblia e de que o aborto é uma questão de escolha pessoal. A ideia exposta nesse comentário [do título] não é nova, nem surgiu dos meios adventistas. Ela é uma versão do conceito de Jesus como “chave hermenêutica” da Bíblia, muito adotado por cristãos mais liberais. O nome é bonito. Dá a impressão de ser um princípio interpretativo em que Jesus é colocado no centro. Faz lembrar a passagem de João 5:39, onde Cristo diz que toda a Escritura testifica dEle. Em resumo, o conceito consiste em julgar todas as coisas, incluindo a Bíblia, a partir do que seria o “espírito de Jesus” – espírito aqui no sentido de modo de pensar e agir. Algo como sempre se perguntar: “O que Jesus faria/pensaria em relação a X?” Dependendo da resposta, até trechos da própria Bíblia podem ser colocados em cheque. Na verdade, a tendência de quem adota esse método é gradualmente avançar para uma visão cada vez mais relativista das Escrituras.

O problema central desse tipo de teologia é evidente: o “espírito de Jesus” é sempre aquilo que o intérprete acha correto. Se o intérprete pensa que X não combina com Jesus ou que Y combina com Jesus, então é isso o que vale. E será esse o padrão a julgar todas as coisas. Como o leitor pode perceber, o objetivismo de extrair o sentido das Escrituras a partir de regras lógicas de interpretação dá lugar ao subjetivismo de impor às Escrituras o sentido que nos parece mais belo e conveniente. No fim das contas, Jesus como “chave hermenêutica” acaba se tornando “eu mesmo como chave hermenêutica”.

Há outros dois problemas fundamentais nessa abordagem hermenêutica progressista. Primeiro: ela despreza o fato de que Jesus usava as Escrituras Sagradas e Se guiava por elas. Todos os Seus discursos e ensinos estavam pautados na Bíblia Hebraica, e Suas principais ações eram cumprimento de profecias registradas nos livros sagrados judaicos.

Segundo: ela despreza que a própria história de Jesus e dos apóstolos, bem como seus ensinos principais, estão registrados em um conjunto de documentos que foi acoplado à Bíblia Hebraica pelos cristãos do primeiro século, tornando-se a Bíblia cristã que temos hoje. Em outras palavras, a principal e mais confiável fonte a respeito de Jesus que nós temos é a Bíblia.

Sendo assim, separar Jesus das Escrituras, buscando usá-Lo como “chave hermenêutica”, é um erro crasso. Aliás, dentro das regras lógicas de interpretação, é princípio básico que nenhuma parte das Escrituras deve ser usada de modo isolado para interpretar toda a Bíblia. Uma vez que a Bíblia é um todo coerente e inspirado, toda ela deve ser usada para interpretar cada uma de suas partes.

A página em questão provavelmente ainda não chegou ao ponto de considerar que algumas partes da Bíblia não são inspiradas. Mas já flerta com uma hermenêutica mais subjetivista e faz uso de uma exegese distorcida dos textos bíblicos que condenam práticas que ela apoia ou é conivente. Ainda que seus autores permaneçam na Igreja e crendo na total inspiração da Bíblia, o tipo de evangelho que tem criado levará muitos a moldarem suas interpretações da Bíblia com base em suas preferências, não em critérios lógicos e objetivos. As palavras de Paulo a Timóteo, pouco antes de ser martirizado, cabem bem aqui:

“Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (2 Timóteo 4:1-5).

(Davi Caldas, Reação Adventista, via Facebook)

Comentário de Marco Dourado: “A velha e surrada estratégia: primeiro, cria-se um falso dilema a partir de uma suposta oposição entre as Escrituras e Jesus. Depois, distorcem-se as palavras de Cristo a fim de se construir um argumento espantalho. Quem inventou esse método deve tê-lo feito por malícia, mas os que o adotam são indivíduos com sérios transtornos cognitivos.”

Perguntas interativas da Lição: vivendo pela Palavra de Deus

Praying in the darkNesta semana se encerra o trimestre da Lição da Escola Sabatina que tratou do tema “Como Interpretar as Escrituras”. Para concluir esse assunto, verificamos o fato de que todas as técnicas de hermenêutica para interpretar a Bíblia não valem nada se o que for aprendido não for colocado em prática.

Perguntas para discutir em grupo:

Leia Tiago 1:22. De que modo as pessoas que são “somente ouvintes” das Escrituras enganam a si mesmas?

Por que a Bíblia não deve ser lida apenas para se obter conhecimento teológico ou literário? De que maneira sua leitura se torna efetivamente proveitosa para a vida? Por quê?

Veja em Mateus 4:4, 7, 10 como Jesus usava as Escrituras para combater as tentações. Como também podemos adquirir tal conhecimento para as usarmos da mesma forma que Ele?

Por que ser capaz de apenas citar passagens da Bíblia (como o diabo fez em Mateus 4:6) não é suficiente?

Como vemos em Lucas 5:46, 47; 10:26; 24:45, 46, Jesus considerava as Escrituras como a norma pela qual devemos viver e analisar todas as coisas. O que isso nos ensina sobre o pensamento popular em alguns círculos de que “as palavras de Cristo estão acima das palavras da Bíblia”? De que forma esse pensamento invalida as Escrituras e torna o Cristianismo cada vez mais subjetivo?

De que forma a leitura da Bíblia nos ajuda a viver o etilo de vida proposto em Filipenses 2:12-16? Em que sentido Deus “efetua em nós tanto o querer como o realizar”? Por que não podemos viver o que estudamos sem o auxílio do Espírito Santo?

Qual é a importância de passarmos diariamente um tempo de qualidade com Deus? Por que as pessoas que dizem não ter “tempo” para dedicar à comunhão diária geralmente o conseguem para fazer qualquer outra coisa que lhes pareça “importante”?

Qual é o papel da leitura da Bíblia durante a hora tranquila de comunhão com Deus? O que essa comunhão pode se tornar, ao longo do tempo, sem a leitura da Palavra?

Conforme Efésios 5:19 e Colossenses 3:16, de que maneira a palavra de Deus pode “habitar ricamente” em nós? Como a memorização de diversas passagens das Escrituras pode nos ajudar em momentos difíceis?

Leia Filipenses 2:16. O que significa “preservar a Palavra da vida”? Como podemos fazer isso?

Compare Lucas 24:44, 45 com 2 Coríntios 4:3, 4. Ao encerrarmos o tema de estudo deste trimestre, como podemos ter a mente sempre disposta a compreender devidamente as Sagradas Escrituras?

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Bíblia: presente de Deus e alimento diário

BíbliaHá poucos dias, terminei de ler a Bíblia pela quinta vez. Levei mais tempo que das outras vezes. Um muitos dias pude ler vários capítulos e meditar demoradamente no que Deus quis me dizer. Em alguns dias li somente um pequeno trecho, e guardei aquela mensagem no coração. Também houve dias em que simplesmente não consegui acordar mais cedo e a correria me atropelou e me fez perder esses momentos. Mas nunca pensei em desistir. A Bíblia se tornou minha fonte de vida! Por meio dela consigo ter o senso da presença de Deus em todo o tempo: nas minhas lutas, acalmando minhas ansiedades, nas grandes bênçãos recebidas, reconhecendo Seu poder e bondade. Em cada leitura pude confirmar minhas crenças e aumentar minha fé nas promessas de Deus. Tenho presenciado milagres reais e posso constatar que aquelas histórias não são fábulas. Deus continua agindo da mesma forma.

Achei interessante que cheguei à parte do Apocalipse durante a quarentena. Isso me chamou a atenção, e passagens difíceis de ser entendidas, que geralmente eu passava por alto, agora me despertaram para estudar mais. Parece que Deus está me falando mais do que nunca que o dia do nosso reencontro está próximo, e é preciso estudar esse livro para estar preparada.

A Bíblia é um presente de Deus e quanto mais eu a leio, mais O amo!

(Débora Borges é pedagoga e pós-graduada em Aconselhamento Familiar)

Perguntas interativas da Lição: lidando com passagens bíblicas difíceis

bibleNão é vergonhoso reconhecer que algumas passagens da Bíblia são difíceis de entender. O próprio apóstolo Pedro reconheceu isso ao mencionar os textos inspirados do apóstolo Paulo (2Pe 3:15, 16). Porém, longe de desacreditar a Bíblia, os textos difíceis nos desafiam a estudar mais profundamente a Palavra de Deus. Assim podemos perceber como as dificuldades desaparecem e somos recompensados com maior compreensão da verdade. É um esforço que compensa sempre! Esse foi o tema de estudo na Lição da Escola Sabatina desta semana.

Perguntas para discussão em grupo:

Leia 2 Pedro 3:15, 16. Em sua opinião, qual é a intenção de Pedro ao dizer que “há certas coisas difíceis de entender” nos escritos do Apóstolo Paulo? Por que ele chama de “ignorantes” e “inconstantes” os que deturpam os textos difíceis das Escrituras? Como devemos agir para não sermos classificados assim?

Por que não devemos nos surpreender de que existam passagens difíceis na Bíblia? (Isaías 55:9)

O que significa dizer que as supostas contradições da Bíblia são apenas “aparentes”? Quais são as possíveis razões para que elas aconteçam?

O que significa se aproximar dos textos bíblicos “com humildade e submissão”? Por que a pessoa arrogante e orgulhosa terá muita dificuldade em interpretar corretamente uma passagem difícil? Por outro lado, como podemos apresentar um texto bíblico com certeza e sendo humildes ao fazê-lo?

O que você deve fazer em situações em que não entende completamente um texto bíblico ou quando o assunto parece não se encaixar na sua compreensão da verdade?

Por que é necessário determinação e paciência para se interpretar uma passagem difícil? E por que vale a pena o esforço? (João 5:39; 2 Tmóteo 3:15-17)

Além de abordar a Bíblia com humildade, submissão, determinação e paciência, por que a oração é crucial para a entendermos corretamente? E qual deve ser nossa atitude enquanto não compreendemos uma passagem difícil?

Por que é melhor afirmar que não se sabe como responder uma passagem difícil do que forçar o texto a dizer o que se quer que ele diga?

Leia Deuteronômio 29:29. Por que algumas das declarações desafiadoras da Bíblia podem nunca ser respondidas aqui na Terra? O que isso nos ensina?

Sabendo que apenas poucos textos apresentam alguma dificuldade de compreensão, qual deve ser nossa atitude para com a maior parte das Escrituras que não apresentam dificuldade alguma?

 Notas:

Há vários motivos prováveis que podem causar supostos “erros” ou aparentes discrepâncias em alguns textos da Bíblia. Dentre eles estão traduções inapropriadas e pequenos erros de copistas. Mas em grande parte o problema se deve à nossa própria ignorância em algum aspecto determinante, como a língua original, a cultura da época e o local da escrita, ou por se desconhecer o que a própria Bíblia diz sobre o mesmo assunto em outras passagens. Veja alguns poucos exemplos desses tipos de problema:

Possível erro de copista. Em Mateus 27:9, 10 é dito que a profecia “de Jeremias”, em relação ao preço pago pela traição de Jesus (cf. Mt 26:15; 27:3), foi devidamente cumprida. Mas na verdade essa profecia foi feita por Zacarias (11:12,13)! É muito provável que isso tenha sido erro de um copista. Mas isso não altera em nada o fato de que a profecia realmente se cumpriu de um modo muito preciso.

Erro de tradução. Geralmente as traduções de Lucas 23:43 são influenciadas pela pressuposição dos tradutores de que a vida continua durante a morte. Por isso traduzem como se naquela sexta-feira da crucificação Jesus tivesse dito ao ex-ladrão: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” No entanto, isso entraria em contradição com todos os textos bíblicos que ensinam que não há consciência alguma durante a morte (ex.: Ec 9:5, 6, 10; Sl 6:5; 115:17; 146:4; etc.). E estaria em contradição também com o próprio Jesus que, na manhã de domingo, afirmou que ainda não havia subido ao Pai (Jo 20:17). Ele teria mentido ao ladrão na sexta-feira? De modo algum! Na verdade, o que Jesus afirmou ao ex-ladrão foi: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no Paraíso.” Afinal, Ele mesmo já havia repetido enfaticamente em outras passagens que a recompensa após a morte virá apenas “no último dia”, no dia de Sua volta, o dia da ressurreição (Jo 5:28, 29; 6:39, 40, 44, 54; 11:24; cf. 1Co 15:52; 1Ts 4:16; 2Tm 4:8; etc.).

Aparentes contradições. As contradições na Bíblia são apenas aparentes; elas se desvanecem quando entendemos o contexto. Alguns usam os textos de 1 Crônicas 21:1 e 2 Samuel 24:1 para apontarem uma suposta contradição. O primeiro texto diz que Satanás tentou Davi a fazer o censo de Israel; o segundo texto diz que Deus o levou a fazer isso. Para nossa época e cultura, isso realmente parece uma contradição. Porém, essa dificuldade desaparece quando entendemos que, no pensamento bíblico, Deus “faz” aquilo que Ele apenas deixa acontecer. É o que vemos em 2 Tessalonicenses 2:9-11: ali é dito que “Deus enviará a operação do erro” a todos aqueles que “não acolheram o amor da verdade”. O verso 9 deixa claro que Satanás é quem age com a mentira. E o verso 11 diz que essas pessoas, que recebem a operação do erro, “se deleitam com a injustiça”. Em outras palavras, Deus não pode proteger essas pessoas contra a vontade delas. Na linguagem bíblica, Deus está lhes “enviando” o erro, quando na verdade Ele está apenas permitindo que isso aconteça (conforme o desejo dessas pessoas).

Textos que jamais compreenderemos nesta vida. Jamais saberemos na Terra por que Deus não deixou João escrever o que as vozes como de “trovões” falaram (Ap 10:3, 4). Deus sabe o porquê. Isso não seria importante para nossa edificação. Um dia saberemos. Também nunca saberemos nesta vida o conteúdo da epístola de Paulo aos Laodicenses (Cl 4:16). Por isso, temos que nos preocupar com o que está revelado para nós; o que está encoberto “pertence ao Senhor” (Dt 29:29).

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Perguntas interativas da Lição: a Bíblia e as profecias

profeciasAo revelarem o futuro, as profecias bíblicas não só nos dão direção e segurança, mas também confirmam a veracidade e confiabilidade das Escrituras. No entanto, é necessário usar os métodos corretos de interpretação para que não sejam desenvolvidas teorias particulares e enganosas. Esse foi o tema de estudo da lição da Escola Sabatina desta semana.

Perguntas para discussão em grupo:

Veja em João 13:19 e 14:29 um dos grandes propósitos das profecias bíblicas. De que maneira elas comprovam o caráter da Bíblia como Palavra de Deus? Que enorme vantagem temos hoje em relação às pessoas que viveram nos tempos de Daniel e Nabucodonosor?

Os métodos mais conhecidos atualmente para interpretar profecias bíblicas são preterismo, futurismo (ambos tendo origem no século 16) e historicismo. Como podemos saber que o método historicista é o que foi intencionado por Deus para interpretarmos corretamente as profecias? (R.: Esse foi o método utilizado por Jesus, pelos autores inspirados e pelo anjo que interpretou a visão para Daniel – cf. Dn 8:20, 21, 26; 11:31; Mt 24:15; Mc 13:14; 2Ts 2:3-7; etc.)

De que modo os capítulos 2, 7, 8 e 11 de Daniel nos dão o fundamento para usarmos o método de interpretação historicista? (R.: Esses quatro capítulos são paralelos e só fazem sentido se forem entendidos como a descrição da ascensão e queda dos vários impérios desde Daniel até a volta de Jesus.)

O conhecido “princípio dia-ano” (cf. Nm 14:34; Ez 4:6, 7) é uma ferramenta fundamental para se interpretar corretamente as profecias de longo prazo. Por que algumas profecias não fazem sentido algum se esse princípio não for aplicado (ver nota 1)? Como esse princípio se demonstra incontestável no caso das seguintes profecias: as 2.300 “tardes e manhãs” de Daniel 8:14; os 1.260 “dias” de Apocalipse 12:6 (ver nota 2); e especialmente as 70 semanas de Daniel 9:24-27?

A lição de terça-feira apresenta sete características do simbólico “chifre pequeno” mencionado nos capítulos 7 e 8 de Daniel. De que forma o papado preenche todos os requisitos para ser a única entidade que cumpre essa profecia? (veja, por exemplo, Dn 7:8, 25; 8:10-12; Ap 13:5-7; 2Ts 2:3, 4). De maneira apropriada, com amor, por que essa verdade ainda deve ser dita, mesmo que isso seja “politicamente incorreto” em nossos dias?

Quando Jesus voltar, Ele virá para “dar a cada um conforme as suas obras” (Mt 16:27; Ap 22:12). Isso indica que o caso de cada pessoa já terá sido decidido antes, no tribunal celestial. Chamamos esse processo no Céu de “juízo investigativo”. Se o princípio dia-ano é o correto para interpretar profecias (e vimos que é), e os 2.300 “dias” de Daniel 8:14 devem ser contados a partir do ano 457 a.C. (quando saiu a ordem para reedificar Jerusalém, cf. 9:25). Então o juízo investigativo foi iniciado no ano 1844. Por que tão poucos cristãos sabem disso?

Em sua opinião, por que a maioria dos membros da igreja não sabe explicar a profecia das 2.300 tardes e manhãs (Dn 8:14)? O que é necessário para que ela seja aprendida? O que muda na vida das pessoas que compreendem essa profecia? (R.: Certamente será ampliada a compreensão do plano da redenção, como também o amor por Deus e pela verdade, a responsabilidade, o senso de missão, etc.)

Por que o método historicista é tão pouco usado nas interpretações proféticas populares? O que está em jogo quando se aceita a teoria (futurista) do “arrebatamento secreto”? O que isso nos revela sobre a condição do cristianismo atual? De que modo esse fato confirma a relevância da mensagem bíblica adventista?

É fato que o conhecimento das profecias é essencial para os adventistas do sétimo dia. Costuma-se dizer com muito acerto que, caso percam de vista a importância do conhecimento profético, eles também perdem automaticamente sua identidade como igreja e o seu senso de missão. Por que isso acontece?

Notas:

As profecias de longo alcance não se cumpririam se os “dias” proféticos fossem considerados de modo literal. A profecia das 70 semanas, por exemplo (Dn 9:24-27), prediz o batismo de Jesus (o “Ungido”) no fim de 69 semanas após a “saída da ordem para reedificar Jerusalém” (v. 25). Essa ordem foi dada no ano 457 a.C.; a interpretação de 69 semanas literais resulta em apenas um ano e quatro meses após essa data. Porém, quando o princípio dia-ano é aplicado, a 69a “semana” (483 anos) chega até o ano 27 d.C., exatamente o ano em que Jesus foi “Ungido” através do batismo para dar início à Sua missão messiânica! É por isso que em Marcos 1:15, pouco tempo após o batismo de Jesus, Ele ainda aparece dizendo: “o tempo está cumprido.” Ele Se referia à profecia das 70 semanas! Mais ainda, essa mesma profecia prediz que o “Ungido” faria “cessar os sacrifícios” 3,5 anos após Seu batismo, ou seja, “na metade da semana” seguinte (9:27). Isso se cumpriu precisamente no instante em que Jesus morreu e o véu do santuário foi rasgado de alto a baixo para indicar que os sacrifícios de animais não mais eram necessários (Mt 27:51; Mc 15:38; Lc 23:45).

Os cristãos fiéis à Bíblia sofreram intensa perseguição papal desde o ano 538 até 1798. Esse mesmo período de tempo é relatado sete vezes na Bíblia de três modos diferentes: “mil duzentos e sessenta dias” (Ap 11:3; 12:6), “quarenta e dois meses” (Ap 11:2; 13:5) e “tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25; 12:7; Ap 12:14 – ver também Dn 4:32 e 11:13, onde se entende que “tempos” e “anos” são equivalentes).

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Perguntas interativas da Lição: a Bíblia como história

historiaNesta semana estudamos a historicidade dos relatos bíblicos, em contraste com outras chamadas escrituras “sagradas” que contêm apenas mitos e fantasias. Tanto o estudo da cronologia bíblica paralela com a História como a Arqueologia nos confirmam a veracidade dos relatos bíblicos.

Perguntas para discussão em grupo:

Em vez de tentar provar a existência de Deus, as Sagradas Escrituras já partem do pressuposto de que Ele existe. Em sua opinião, por quê é assim?

Por que a Bíblia é o documento histórico mais confiável que existe?

Leia Apocalipse 22:16. De acordo com a lição desta semana, sem Davi não haveria a cidade de Jerusalém, não existiria o “templo de Salomão” e nem a promessa de um Messias que Se assentaria no trono de Davi. O que isso quer dizer? Como esse mesmo tipo de raciocínio se aplica também a outros personagens bíblicos como Abraão, Daniel ou o apóstolo Paulo? O que não existiria na fé bíblica (e no mundo) sem eles?

Imagine que José do Egito, Moisés ou mesmo uma pessoa ímpia como Jezabel nunca tivessem existido além de contos fictícios ou estórias de fundo moral. Quais seriam as implicações para nossa fé?

A antiga inscrição no “Prisma de Senaqueribe” afirma que esse rei Assírio invadiu 46 cidades de Judá mas “poupou” apenas a cidade de Jerusalém, onde supostamente deixou o rei Ezequias “trancado como um pássaro na gaiola”. No relato bíblico, porém, ele não invadiu Jerusalém porque um anjo matou 180.000 soldados de seu exército (2Rs 19:35). Em sua opinião, por que existe essa discrepância entre os dois relatos? Quando existem diferenças entre o registro histórico e o bíblico, por que devemos preferir confiar no que a Bíblia diz?

A lição de quarta-feira menciona alguns textos extra-bíblicos que confirmam a historicidade de Jesus e de outras pessoas contemporâneas cujas histórias se cruzaram com a dEle. Além desses testemunhos, há outros, inclusive dos inimigos de Jesus, que registraram no Talmude Babilônico (Sanhedrim, 43a) que Jesus foi condenado “por prática de magia e por enganar Israel”. Este relato, apesar de tentar desqualificar os milagres de Jesus, apenas comprova ainda mais a Sua historicidade, pois é o mesmo argumento que vemos os judeus usando contra Ele nos Evangelhos (Mt 9:34; 12:24; Mc 3:22). É um testemunho poderoso de que Ele existiu e que os incomodava muito. Contudo, apesar dessa e de várias outras fontes a respeito da historicidade de Jesus, por que os 4 evangelhos devem ser a fonte primária para sabermos a respeito dEle? (ver João 20:30,31)

Leia 1 Coríntios 15:12-14, 17-20. Qual é o problema de não se considerar os relatos sobre Jesus como históricos e verídicos?

Por mais úteis que sejam as “provas” arqueológicas e históricas a respeito dos relatos bíblicos, por que nossa fé não deve depender delas?

O capítulo 11 de Hebreus é comumente chamado de “a galeria da fé” por considerar a vida de vários personagens bíblicos em sua jornada espiritual.  Após mencionar vários desses heróis da fé, pense no que é dito de todos eles no verso 13: “todos eles morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas viram-nas de longe e creram nelas e as abraçaram”. Que lição poderosa você pode extrair dessa declaração para sua própria vida? Agora considere todo o pensamento contido nos versos 13-16. Que parte dessa mensagem é mais significativa para você em sua própria jornada de fé?

Leia Daniel 1:8. Como a firme decisão que Daniel tomou impactou sua própria vida e também a de milhões de pessoas até hoje? Qual é o peso das decisões dos personagens bíblicos na História ao longo dos séculos? E qual é a importância de suas próprias decisões de fé enquanto lê esse texto?

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

Bíblia, adventismo e racismo

Perguntas interativas da Lição: a criação: Gênesis como fundamento (parte 2)

genesisÉ evidente que Jesus e os escritores bíblicos consideravam o relato das origens em Gênesis de modo literal (ex.: Mt 24:38, 39; Jo 5:46; etc.). Isso nos revela algo a respeito das interpretações que se baseiam em métodos diferentes desse. Nesta semana, continuamos o estudo sobre as origens em Gênesis como fundamento para a correta interpretação da Bíblia, do passado e do futuro.

Perguntas para discussão em grupo:

Jó 26:7 diz que Deus “faz a Terra pairar sobre o nada”. O que isso quer dizer? Como Jó sabia disso?

Além disso, a Bíblia também afirma a “redondeza” da Terra (Jó 22:14; 26:10; Pv 8:27; Is 40:22). Por incrível que pareça, hoje há pessoas que creem no chamado “terraplanismo” (o qual defende que a Terra não é esférica, mas “achatada” e “plana”). Por que um cristão que defende essa ideia maluca se torna um empecilho à causa do Evangelho?

Apesar de alguns dizerem que crer na Terra plana “não influencia a sua fé nem sua relação com Deus”, por que é desastroso para o cristão ir contra a própria realidade observável? Como essa obsessão pode de alguma forma acabar afastando-o de Deus?

Obviamente os textos bíblicos que falam em “quatro cantos da Terra” e “quatro ventos” são figuras de linguagem. Que outros exemplos de linguagem figurada existem na Bíblia e também no nosso dia a dia? (R.: “Do coração procedem os maus desígnios” [Mt 15:19]; “janelas do céu” [Gn 7:11; 8:2; 2Rs 7:1, 2; Ml 3:10]; “ir pelo ralo”; “fulano mora no meu coração”; etc.). Em sua opinião, por que os textos bíblicos também fazem uso de figura de linguagem em várias ocasiões? Como podemos saber quando a linguagem é figurada?

Foram descobertos textos contendo mitos de criação que datam de antes de Moisés ter escrito o Gênesis. Alguns dos mais importantes são a “Epopeia de Gilgamesh”, da Mesopotâmia; o “Enuma Elish”, da Babilônia; e a “Epopeia de Atra-hasis”, da Suméria. Nesses contos mitológicos existem várias semelhanças com o relato de Gênesis. Apesar disso, como sabemos que o Gênesis não é apenas mais um “mito de criação” nem uma “adaptação” de nenhum deles? Por outro lado, o que as diferenças entre esses mitos e o Gênesis nos revelam? (Leia Colossenses 2:8 e 1 Timóteo 4:7.)

(R.: Semelhanças: a criação dos seres humanos; o barro como um dos elementos; o dilúvio. Diferenças: os “deuses” criam os humanos para trabalhar por eles; os deuses se odeiam, traem e matam; a morte é “natural” nos mitos, ao passo que na Bíblia ela é uma tragédia que resultou do pecado.)

As semelhanças entre os diferentes registros mitológicos encontrados e o Gênesis indicam que existe uma “versão original” dessas histórias, a qual tem que ser muito mais antiga, e que os povos pagãos a distorceram ao longo dos séculos conforme suas próprias crendices e superstições. Por que é ilógico supor que Moisés teria simplesmente copiado e “adaptado” os mitos (Êx 17:14; 34:27)? Que evidências você pode apontar que comprovam a veracidade de Gênesis mas não a dos mitos mais antigos?

Leia Atos 14:11-15, 18, 19. Assim como foi no passado, a crença na Criação bíblica (em uma semana literal) está em desacordo com a cultura predominante. Por que não devemos nos surpreender disso?

Leia Gênesis 1:14-16. Por que o relato bíblico da criação não menciona o nome do Sol nem da Lua? Como isso nos ajuda a perceber que, em vez de ser uma “cópia” ou “adaptação” dos antigos mitos de criação, o Gênesis é um corretivo desses mitos?

Como o conhecimento científico verdadeiro (que não nega o sobrenatural, cf. 1Tm 6:20, 21) nos ajuda a apreciar mais ainda o caráter de Deus e Sua revelação na Bíblia e na natureza?

Leia Gênesis 1:26. Em que sentido o ser humano é “a coroa da criação”? Que profundo significado reside no fato de que Deus criou os seres humanos com as próprias “mãos”, enquanto todas as outras coisas simplesmente surgiram por Sua palavra?

A árvore da vida é mencionada unicamente nos primeiros três capítulos da Bíblia e nos dois últimos. Por que a menção dela no Apocalipse não faria sentido se a que foi mencionada em Gênesis fosse apenas uma metáfora? Qual seria o sentido de Deus nos prometer um Éden restaurado se o primeiro não tivesse sido literal?

(Natal Gardino é doutor em Ministério pela Andrews University e pastor distrital em Londrina, PR)

A Bíblia ensina que a Terra é plana com um domo sólido em cima?

flatOs terraplanistas – defensores da ideia de uma Terra plana – afirmam que o disco terrestre é coberto por um domo sólido intransponível, o que torna ilusórios meteoritos, satélites e viagens espaciais. Para eles, a palavra hebraica רקיע (raqia), que aparece em Gênesis1:6-8, deve ser compreendida como “firmamento” ou “domo”, embora o próprio verso 8 defina raqia como “céus”. A Bíblia de Estudo Palavra-Chave explica que raqia é um “substantivo masculino que […] literalmente […] se refere a uma grande expansão e, em particular, à abóbada dos céus acima da terra. O termo indica o céu literal que se estende de um lado a outro do horizonte” (p. 1.936). Então de onde veio a ideia de que raqia poderia significar um domo sólido? Resposta: de uma tradução inapropriada.

Quando traduzia as Escrituras Sagradas do hebraico para o latim clássico (versão que ficou conhecida como Vulgata), Jerônimo (347-420) verteu a palavra raqia para firmamentum ou para o grego steréoma, que significa “construção sólida”. Estava lançada a semente da confusão, já que algumas traduções posteriores em espanhol e português tiveram como base a Vulgata e perpetuaram a palavra e o conceito de “firmamento”. Os terraplanistas atuais se prendem a essa tradução de raqia e parecem ignorar o sentido original do vocábulo.

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