Respostas a um antitrinitariano (parte 3 de 4)

Christian dove with bright sun raysPergunta: Poderia ser o Espírito Santo uma pessoa distinta do Pai e do Filho, como ensinam os trinitarianos? Seria a terceira pessoa da Divindade ou Ele é o Espírito do Pai e do Filho? A Bíblia não mostra a palavra “espírito” como sendo outra pessoa? Por exemplo, em Gênesis 41:8; 45:27; Juízes 15:19; Salmo 51:10; Daniel 7:15, 2 Timóteo 4:22, fala-se do espírito de Faraó, de Jacó, de Sansão, de Davi, de Daniel e de Timóteo. Em todos os casos, quando é mencionado o espírito dessas pessoas citadas, não está falando de outra pessoa, mas dela mesma. Nesse sentido, está claro que o espírito é uma pessoa, a própria pessoa. Assim, também, quando falamos do Espírito de Deus, estamos falando do próprio Deus. E quando falamos do Espírito de Cristo, estamos falando dEle mesmo. Ellen White escreveu: “Ao dar-nos o Seu Espírito, Deus nos dá a Si mesmo, fazendo-Se uma fonte de divinas influências para proporcionar saúde e vida ao mundo” (Testimonies, v. 7, p. 273).

“O relato declara: ‘Soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo’ (João 20:22). Jesus está esperando para soprar sobre todos os Seus discípulos, dando-lhes a inspiração de Seu Espírito santificador e transfundindo a vital influência de Si mesmo a Seu povo” (E Recebereis Poder, p. 26).

“Impedido pela humanidade, Cristo não poderia estar em todos os lugares pessoalmente, então foi para vantagem deles [os discípulos] que Ele deveria deixá-los, ir para o Pai, e enviar o Espírito Santo para ser o Seu sucessor na terra. O Espírito Santo é Ele mesmo, despido da personalidade da humanidade e independente dela. Ele Se representaria como estando presente em todos os lugares pelo Seu Espírito, como o Onipresente. ‘Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em Meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito’ (João 14:26). ‘Mas Eu vos digo a verdade: convém-vos que Eu vá, porque, se Eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, Eu for, Eu vô-Lo enviarei’ (João 16:7; Manuscripts Releases, v. 14, p. 7).

Diante de tudo o que foi exposto acima, podemos mesmo crer que o Espírito Santo é a terceira pessoa na Divindade?

Resposta: Essas são as principais inquietações e esses os principais argumentos usados atualmente pelos antitrinitarianos. Naturalmente, existe uma grande fragilidade na linha argumentativa, pois ela claramente se desenvolve de forma unilateral, dispensando textos que clarificam bastante o assunto. Eles desconhecem ou ignoram o fato de a palavra “espírito” (ruach, no hebraico, ou pneuma, no grego) ser polissêmica, além de utilizarem antropomorfismos como argumento final para determinar a Divindade, desqualificando a pessoa do Espírito Santo a partir de um conceito meramente humano. Vamos aos fatos:

Da mesma forma como os antitrinitarianos pecam em sua abordagem antropomórfica quando falam da geração e filiação de Jesus – segundo eles, se os termos “gerar” e “filho” implicam literalmente em ter um pai biológico para nós humanos, da mesma forma, quando a Bíblia fala que Jesus é o “Filho de Deus” ou que Ele foi “gerado”, isso indica que Jesus é literalmente filho da primeira pessoa da Divindade (o Pai), ou seja, não possui eternidade pretérita, nasceu, foi gerado –, dessa mesma forma eles argumentam acerta da pessoa do Espírito Santo. É claro que se nós usássemos os critérios e a linguagem humanos para explicar detalhadamente a Divindade, teríamos, por exemplo, que encontrar uma mãe para Jesus, já que para ter um filho é necessária uma mãe (em termos humanos). Como sabemos ser isso impossível, é óbvio concluir que os termos humanos empregados para a Divindade devem ser analisados cuidadosamente. Na linha argumentativa antitrinitariana, pode-se notar o mesmo erro de interpretação e o uso irresponsável de uma linguagem antropomórfica como determinante para desqualificar o Espírito Santo como a terceira pessoa da Divindade. Vejamos:

“E aconteceu que pela manhã o seu espírito perturbou-se, e enviou e chamou todos os adivinhadores do Egito, e todos os seus sábios; e Faraó contou-lhes os seus sonhos, mas ninguém havia que lhos interpretasse.” Gênesis 41:8

“Porém, havendo-lhe eles contado todas as palavras de José, que ele lhes falara, e vendo ele os carros que José enviara para levá-lo, reviveu o espírito de Jacó seu pai.” Gênesis 45:27

“Então Deus fendeu uma cavidade que estava na queixada; e saiu dela água, e [Sansão] bebeu; e recobrou o seu espírito e reanimou-se; por isso chamou aquele lugar: A fonte do que clama, que está em Leí até ao dia de hoje.” Juízes 15:19

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito inabalável.” Salmo 51:10

Ao citar textos como esses, note a conclusão a que chegam (peguei a argumentação que um antitrinitariano desenvolveu recentemente num estudo):

“Vemos aqui a expressão ‘seu espírito’ escrita separadamente de faraó. Quer dizer então que são duas pessoas? Nesse texto diz que o espírito de Faraó perturbou-se. Quem você entende que se perturbou? Foi outra pessoa ou foi ele mesmo? O espírito de Jacó reviveu ao ouvir as palavras e ver os carros que José havia enviado. Quem foi que reviveu e se alegrou? Foi outra pessoa ou foi Jacó mesmo? A Bíblia mostra que ao Sansão beber a água que Deus providenciou para ele seu espírito foi recobrado. Foi ele mesmo que foi recobrado ou foi outro ser? Davi pediu para Deus renovar um espírito inabalável nele. Esse pedido tem o sentido de fazer outro ser se tornar inabalável ou ele mesmo ser inabalável?” E conclui: “Nesse sentido, claro está que o espírito é uma pessoa, a própria pessoa. Assim também, quando falamos do Espírito de Deus, estamos falando do próprio Deus. E quando estamos falando do Espírito de Cristo estamos falando dEle mesmo.”

Ora, tal antropomorfismo é inaceitável porque não podemos definir a Divindade a partir de conceitos e palavras humanos. Só para entendermos a que ponto podemos chegar utilizando esse princípio, veja:

“Então dirá também aos que estiverem à Sua esquerda: Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” Mateus 25:41

“E irão eles para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.” Mateus 25:46

“Assim, Sodoma e Gomorra […] havendo-se corrompido […] foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.” Judas 7

“Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé…” Romanos 16:26

Os imortalistas, numa simples comparação dos textos acima, como fazem os antitrinitarianos, concluem: “Se Deus é eterno, i.e., sem fim, logo o fogo e o tormento também são eternos, sem fim, uma vez que a palavra grega usada é a mesma. Portanto, existe um inferno que ficará queimando os ímpios por toda a eternidade.” Não podemos aceitar essa aplicação dada pelos nossos irmãos evangélicos ou católicos pelo simples fato de que uma mesma palavra, quando usada para definir coisas humanas e terrestres, pode ter uma aplicação completamente diferente quando utilizada em relação com a Divindade. Por exemplo, o termo aiónios (eterno), quando se refere a Deus, implica não somente não ter fim, mas ter toda eternidade, pretérita e futura. Quando esse mesmo termo é usado para coisas terrestres, não tem essa mesma significação (ou o tal fogo eterno existe desde sempre?). Sobre isso escreveu Arnaldo B. Christianini:

“Para qualquer pessoa isenta de preconceitos, as palavras que se traduzem por ‘eterno’ e ‘todo o sempre’ não significam necessariamente que nunca terão fim. No Novo Testamento, vem do grego aión, ou do adjetivo aiónios. É impossível forçar esse radical grego significar sempre um período que não tem fim. Quando aplicado a coisas terrenas tem sentido restrito de duração enquanto durar a coisa a que se liga; quando junto a Deus ou coisas derivadas de Deus, então, sim, exprime duração sem fim” (Subtilezas do Erro, p. 236, 237).

Percebe como é perigoso utilizar uma expressão, um conceito humano para definir o Divino? Além do mais, é sabido que o termo “espírito” é polissêmico, portanto, não podemos esperar um mesmo uso e/ou aplicação para ele. Veja:

“Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.” 2 Reis 2:9

Seguindo a linha que foi apresentada, em que o espírito da pessoa é a própria pessoa, seria coerente concluir que Eliseu estaria pedindo dois Elias sobre ele? Óbvio que não! Trata-se de linguagem figurada. Eliseu desejava que o mesmo Espírito Santo que atuou em Elias também atuasse nele. Mas vejamos outros usos do termo “espírito” na Bíblia:

– Espírito de ciúmes: Nm 5:14

– Espírito da impureza: Zc 13:2

– Espírito de profundo sono: Is 29:10

– Espírito do Egito: Is 19:3

– Espírito das prostituições: Os 5:4

– Espírito da luxúria: Os 4:12

– Espírito novo: Ez 11:19

– Espírito como referência ao entendimento: Is 29:24

– Espírito como referência às intenções do coração: Pv 16:2

– Espírito como referência a um ser maligno: Jó 4:15

– Espírito como referência ao fôlego de vida: Sm 146:4; Ec 12:7; Jr 10:14; Jr 51:17; Hc 2:19 e Jó 14:10

Note as várias formas como o termo “espírito” é empregado na Bíblia. Essa polissemia deve ser respeitada. Apesar de em alguns casos “espírito” ser uma referência à própria pessoa, como apontou o antitrinitariano, jamais encontramos frases do tipo: “E disse o espírito de Davi”, “Falou, pois, o espírito de faraó”, “Mentiste ao espírito de Daniel”, “Entristeceste o espírito de Jacó”, “O espírito de Moisés enviou a Arão”, etc., expressões comuns usadas tendo o Espírito Santo como referencial.

Usar o texto de João 20:22: “Soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”, para inferir que o Espírito Santo não pode ser uma pessoa, pois não se pode soprar uma pessoa, é também falta de honestidade com o estilo literário (uso figurado). Vemos na Bíblia situação similar: “Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” (Rm 13:14).

Como revestir-se de Cristo se Ele não é uma roupa? É óbvio que se trata de uma linguagem figurada. Portanto, não podemos usar a expressão “soprou sobre eles” referindo-se ao Espírito Santo para dizer que Ele não é um ser pessoal, assim como a frase “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” não tira de Cristo sua personalidade.

Quanto à última parte do questionamento (talvez a mais usada no meio antitrinitariano) em que foram citados os textos de Ellen White para inferir que o Espírito Santo é o próprio Cristo ou o Pai, analisemos:

“Ao dar-nos o Seu Espírito, Deus nos dá a Si mesmo, fazendo-Se uma fonte de divinas influências para proporcionar saúde e vida ao mundo” (Testimonies, v. 7, p. 273).

“Impedido pela humanidade, Cristo não poderia estar em todos os lugares pessoalmente, então foi para vantagem deles (os discípulos) que Ele deveria deixá-los, ir para o Pai, e enviar o Espírito Santo para ser o Seu sucessor na terra. O Espírito Santo é Ele mesmo, despido da personalidade da humanidade e independente dela” (Manuscripts Releases, v. 14, p. 7).

Segundo a Bíblia o Espírito Santo é “outro” (állos, outro da mesma espécie, outro semelhante) Consolador. Basta ler João 14, 15, 16. No entanto, considerando a representação de Jesus pelo Espírito Santo podemos dizer que a presença do Espírito é a de Jesus. Isso mesmo se pode dizer do Pai que era representado por Jesus quando do Seu ministério na Terra. Ora, Ellen White como profetisa do Senhor usou dos mesmos recursos literários que os profetas bíblicos, e vemos situações idênticas na Bíblia:

Quando Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”, Jesus respondeu: “Estou há tanto tempo convosco, e não Me tendes conhecido, Filipe? Quem Me vê a Mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (Jo 14:8, 9). Sabemos que Jesus não é o Pai, mas Ele diz: “Há quanto tempo estou convosco, e não Me tendes conhecido, Filipe?” Na sequência, o próprio Jesus explica que vê-Lo é como ver o Pai.

João usou a mesma linguagem no livro de Apocalipse ao dizer que Jezabel ensinava e seduzia os cristãos de Tiatira (Ap 2:20), quando, na verdade, Jezabel estava na sepultura, o que quer dizer que seus responsáveis eram como se fossem Jezabel em sua apostasia.

Há um texto, porém, exatamente igual, pois Cristo também usou a mesma forma de linguagem quando Se referiu a João. Ele disse: “E se o quereis reconhecer, ele mesmo [João Batista] é Elias” (Mt 11:14). A partir desse texto podemos dizer que João Batista é Elias? Não, João Batista é como se fosse Elias. Da mesma forma, Ellen White diz que o Espírito Santo é Ele mesmo (Jesus), i. e., é como se fosse o próprio Cristo. Se usarmos a literalidade para Ellen White nesse caso, devemos usar também no texto bíblico, o que acarretaria numa heresia: dizer que João era literalmente Elias.

Podemos crer que o Espírito Santo é uma pessoa distinta do Pai e do Filho, a Terceira Pessoa da Divindade? Sim, podemos! Abaixo os textos que nos habilitam a autorizam assim:

O Espírito Santo é UMA PESSOA, pois dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. […] O Espírito Santo tem PERSONALIDADE, do contrário não poderia testificar ao nosso espírito e com nosso espírito que somos filhos de Deus” (Ellen White, Manuscrito 20, 1906).

“[O Espírito Santo] Deve ser também UMA PESSOA DIVINA, do contrário não poderia perscrutar os segredos que jazem ocultos na mente de Deus” (Ellen White, Manuscrito 20, 1906).

O antitrinitariano diria: “Sim Ele é uma pessoa, mas é o próprio Cristo, não uma pessoa distinta. Será? Vejamos:

 Cristo, nosso Mediador, e o Espírito Santo estão constantemente intercedendo em favor do homem; mas o Espírito não roga por nós como faz Cristo, que apresenta Seu sangue derramado desde a fundação do mundo; o Espírito atua sobre nossos corações extraindo orações e arrependimento, louvor e agradecimento. A gratidão que flui de nossos lábios é o resultado do que o Espírito faz ressoar nas cordas da alma com santas recordações que despertam a música do coração” (Manuscrito 85, 1901).

“O Espírito Santo é o Confortador, em nome de Cristo. Ele personifica Cristo, contudo é uma personalidade DISTINTA” (Manuscrito 93, 1893; 20 MR, p. 324].

 Três agências DISTINTAS, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, trabalham juntas pelos seres humanos” (Manuscrito 27a, 1900).

O antitrinitariano argumenta (tentando desconstruir o sentido básico das palavras PERSONALIDADE e AGÊNCIAS, como se não fossem equivalentes a pessoa): “Mas o texto fala de personalidade, de agências e não de pessoas. Queria um texto que falasse de TRÊS PESSOAS.” Tudo bem, aí estão:

HÁ TRÊS PESSOAS VIVAS pertencentes à Divindade celeste. Em nome destes três grandes poderes – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – os que recebem a Cristo por fé viva são batizados […] e esses poderes cooperarão com os súditos obedientes do Céu em seus esforços para viver a nova vida em Cristo” (Special Testimonies, Série B, nº 7, p. 62, 63).

O texto acima é confiável?

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Manuscrito 21, 1906, p. 4 (note pela data do original que Ellen White estava viva).

O texto não diz que há duas pessoas e que a terceira seria a própria segunda pessoa ou a própria primeira pessoa. Diz que “HÁ TRÊS PESSOAS VIVAS pertencentes à Divindade celeste”.

“A obra está colocada diante de cada alma que reconhece sua fé em Jesus Cristo pelo batismo, e se tornou um recipiente da promessa das TRÊS PESSOAS – o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (Manuscrito 57, 1900; publicado em SDA Bible Commentary, 6:1074).

O antitrinitariano pode argumentar: “Mas esse texto foi adulterado, não é verdadeiro.” Será que foi adulterado? Veja as imagens abaixo:

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Trecho e rascunho escrito à mão do Manuscrito 57, 1900.

 Se o Espírito Santo fosse o próprio Jesus ou o próprio Pai, como pretendem equivocadamente os antitrinitarianos, como entender o texto acima que fala que há TRÊS PESSOAS?

“O poder do mal se estivera fortalecendo por séculos, e alarmante era a submissão dos homens a esse cativeiro satânico. Ao pecado só se poderia resistir e vencer por meio da poderosa operação da TERCEIRA PESSOA DA DIVINDADE, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder” (O Desejado de Todas as Nações, p. 671).

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Trecho da Review and Herald de 1906, citando Ellen White. Nessa edição ela também escreve um artigo.

Não pode haver terceira pessoa se não houver uma segunda e uma primeira.

Conclusão

Por tudo o que foi apresentado acima, a única conclusão a que chegamos é: o Espírito Santo é a terceira pessoa da Divindade; Ele não é o Pai, não é o Filho, é uma pessoa (ou personalidade, como queira) distinta, que age, intercede e está interessado em nossa salvação. Por que o diabo lança tanto descrédito sobre a pessoa do Espírito Santo? Porque “ao pecado só se poderia resistir e vencer por meio da poderosa operação da TERCEIRA PESSOA DA DIVINDADE, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder”. É do maior interesse do mal que os seres humanos não acreditem na TERCEIRA PESSOA DA DIVINDADE. E você, de que lado está?

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: Respostas a um antitrinitariano parte 1 e parte 2

 

O cristão convertido não peca?

cristao“Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” (1 João 3:9 ARC).

Será que não peca mesmo? Então a Bíblia está em contradição, pois na mesma epístola é dito: “Se dissermos que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso [DEUS], e a Sua palavra não está em nós” (1 João 1:10 ARC).

E mais: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (1 João 1:8 ARC).

E agora? Percebeu o tamanho da contradição?

O que dizer, então, de homens que pecaram muito; dentre eles, Davi, Salomão, Manasses de Judá, Pedro e tantos outros santos do Antigo e do Novo Testamentos?

Ora, é fato bíblico que, infelizmente, o crente peca (Provérbios 20:9; 24:16; Eclesiastes 7:20). Tanto a realidade da presença do pecado na vida do crente quanto a nova natureza são vistas claramente na doutrina da santificação que envolve a correção de Deus (Hebreus 12:5-13). Até mesmo o rei Salomão reconheceu isso quando orava ao Senhor na dedicação do templo:

“Quando pecarem contra Ti (pois não há homem que não peque), e Tu Te indignares contra eles, e os entregares às mãos do inimigo, de modo que os levem em cativeiro para a terra inimiga, quer longe ou perto esteja, e na terra aonde forem levados em cativeiro caírem em si, e se converterem, e na terra do seu cativeiro Te suplicarem, dizendo: Pecamos, e perversamente procedemos, e cometemos iniquidade, e se converterem a Ti com todo o seu coração e com toda a sua alma, na terra de seus inimigos que os levarem em cativeiro, e orarem a Ti para o lado da sua terra que deste a seus pais, para esta cidade que elegeste, e para esta casa que edifiquei ao Teu nome; ouve então nos céus, assento da Tua habitação, a sua oração e a sua súplica, e faze-lhes justiça. E perdoa ao Teu povo que houver pecado contra Ti, todas as transgressões que houverem cometido contra Ti; e dá-lhes misericórdia perante aqueles que os têm cativos, para que deles tenham compaixão” (1 Reis 8:46-50).

Se não houvesse pecado na vida do crente, nunca haveria a correção. Se alguém que se acha crente não conhece a mão de Deus que corrige Seus filhos levando-os a ser “participantes da Sua santidade” (Hebreus 12:10), esse tal não tem razão nenhuma de se achar salvo.

Vamos entender, exegeticamente, o que na verdade o apostolo João estava dizendo em sua epístola, ao registrar que “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado”:

1. O apostolo João falava o idioma grego koiné, portanto, a respectiva epístola, assim como todo o Novo Testamento, foi escrita originalmente no idioma grego.

2. A interpretação correta do versículo em apreço é que o verbo “pecar”, por estar aqui na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, de acordo com a gramática grega, expressa a categoria de aspecto contínuo, o que significa dizer que traduz uma noção de ação ininterrupta; e que, portanto, o que João quer dizer aqui é que todo aquele que de fato é cristão não peca continuamente, isto é, não tem um estilo de vida pecaminoso como os ímpios; e que, se peca continuamente, não é cristão, não é de fato convertido; opinião essa defendida também, com pequenas variações, por Champlin (1986, p. 258), Drummond e Morris (1990, p. 1.434), Lopes (2004, p. 86, 94) e Wiersbe (2006, p. 649), em obras de teologia sistemática.

3. O verso em analise está transcrito da edição ARC. Esse é um dos motivos de existir erros na interpretação dessa passagem; utilizar apenas essa versão da Bíblia Sagrada, e ainda criar mitos como este – de que o crente não peca, só comete “pequenas falhas” ou “faltas”, como querem alguns. Todavia, não sabem esses desavisados que, de acordo com o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a definição da palavra “falta” (vou copiar o 5° e o 9° significados, apenas) é: 5. culpa, pecado; 9. transgressão.

4. Um bom exegeta das Escrituras Sagradas deve possuir no mínimo seis edições e traduções diferentes, para efeito de comparação, para uma melhor compreensão e interpretação.

Elencaremos abaixo o verso aludido de outras versões e traduções da Bíblia Sagrada:

“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nEle é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (ARA).

“Todo aquele que é nascido de Deus não prática o pecado, porque a semente de Deus permanece nEle; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus” (NVI).

“Nenhuma pessoa que tem Deus por Pai permanece no pecado, porque a semente plantada por Deus está nele. Isto é, ele não pode continuar pecando, porque tem Deus por Pai” (BJC).

“Aquele que é nascido de Deus não peca habitualmente; porque a semente de Deus permanece nele, e não pode continuar no pecado, porque é nascido de Deus” (ARIB).

“Quem é filho de Deus não continua pecando, porque a vida que Deus dá permanece nessa pessoa. E ela não pode continuar pecando, porque Deus é o seu Pai” (TB).

“Todo aquele que é nascido de Deus não se dedica à prática do pecado, porquanto a semente de Deus permanece nele e ele não pode continuar no pecado, pois é nascido de Deus” (KJA).

Conclusão: o cristão genuinamente convertido peca? Sim. Mas ele pode permanecer no pecado continuamente como estilo de vida, assim como os ímpios vivem? Não! E por quê? Porque o cristão é morada do Espirito Santo que é a “divina semente” plantada em seu coração; de modo que o Espirito o conduz ao arrependimento, convencendo-o do pecado cometido.

Entendeu por que sentimos uma terrível tristeza quando pecamos contra o nosso Deus, e depois ficamos angustiados pedindo perdão? O apostolo Paulo respondeu a essa pergunta para os crentes corintianos: “Porquanto, ainda que vos contristei com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo. Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma. Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte” (2 Coríntios 7:8-10).

Douglas Pereira da Silva

Leia também: É possível ao cristão ser perfeito? e Ainda a perfeição cristã

Nota: The grammatical explanation emphasizes the fact that in this passage (and cf. 5:18) the verb ἁμαρτάνειν (“to sin”) is used in the present tense. This is taken, in a continuous sense, to mean that the person who lives in Jesus does not sin as a settled habit; he does not “keep on sinning” (niv). While occasional sin is a possibility and reality for all Christians (cf. 2:1, where the aorist tenses may suggest individual and isolated acts of sin), the genuine believer (it is claimed) cannot consistently be a sinner (so Westcott, 104, who compares John 13:10; Stott, 135–36; cf. Brown, Community, 126).
This thought is certainly in line with the teaching of the NT about Christian discipleship. Paul, for example, knew from his own experience that true believers are those who “have their minds set on what the Spirit desires” (Rom 8:6), even if at times they fall short of God’s glory (3:23). However, such an interpretation presents problems. (i) It depends on stressing artificially the continuous element in the present tense of the verb ἁμαρτάνειν (in v 6, οὐχ ἁμαρτάνει, “does not sin”; ὁ ἀμαρτάνων, “the one who sins”).

Smalley, Stephen S.: Word Biblical Commentary : 1,2,3 John. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 51), S. 159

Esclarecimentos oficiais sobre a Bíblia White

Diante do surgimento e divulgação da publicação chamada Bíblia White, a Igreja Adventista do Sétimo Dia quer esclarecer alguns aspectos referentes a traduções e ao uso de textos de Ellen G. White. Inclusive como notas, em forma de comentários, e sobre a criação de títulos que induzem a interpretações fora de contexto. A intenção é responder a questionamentos de quem tomou conhecimento da existência do material, que não é produzido nem recomendado pela Igreja. Ela consiste em uma versão da Bíblia com comentários de trechos dos escritos de Ellen G. White. O texto a seguir oferece orientação nas áreas teológica, administrativa e legal, e mostra as implicações de tal iniciativa.

[Continue lendo essa análise oficial divulgada pela sede sul-americana da IASD]

Assista também a este vídeo com uma entrevista feita por Ricardo Oliveira com o Dr. Alberto Timm, diretor associado do White Estate:

Quanto pesavam os gigantes Adão e Eva?

adam eveA Bíblia fala das condições de vida edênica e antediluviana. Podemos imaginar um mundo com abundante vegetação e vida exuberante. As pessoas eram muito mais fortes e longevas. Dotadas de grande inteligência, eram capazes de empreendimentos impressionantes (como a arca de Noé, por exemplo, e, depois, construções como as pirâmides). Quanto à estatura delas, podemos deduzir algumas coisas com base em alguns textos que se referem aos gigantes (tratamos disso aqui e aqui). Por exemplo, Deuteronômio 3:11 fala de Ogue, o último rei dos gigantes refains. O sarcófago dele, feito de ferro, tinha quatro metros de comprimento! No parágrafo a seguir, Ellen White fornece mais detalhes sobre a altura dos primeiros “gigantes” da Terra, Adão e Eva:

“Ao sair Adão das mãos do Criador, era de nobre estatura e perfeita simetria. Tinha mais de duas vezes o tamanho dos homens que hoje vivem sobre a Terra, e era bem proporcionado. Suas formas eram perfeitas e cheias de beleza. Sua cútis não era branca ou pálida, mas rosada, reluzindo com a rica coloração da saúde. Eva não era tão alta quanto Adão. Sua cabeça alcançava pouco acima dos seus ombros. Ela, também, era nobre, perfeita em simetria e cheia de beleza. Esse casal, que não tinha pecados, não fazia uso de vestes artificiais. Estavam revestidos de uma cobertura de luz e glória, tal como a usam os anjos. Enquanto viveram em obediência a Deus, essa veste de luz continuou a envolvê-los” (Ellen G. White, História da Redenção, p. 21).

Se Adão tinha “mais de duas vezes o tamanho dos homens que hoje vivem sobre a Terra”, podemos imaginar que tivesse entre quatro e cinco metros. Para facilitar, vamos ficar com quatro metros (o tamanho do sarcófago de Ogue). Pedi ajuda ao meu amigo físico Eduardo Lütz para, como base nessa medida, calcular qual teria sido o provável peso de Adão e sua esposa, Eva. Acompanhe: [continue lendo]

Por que a Bíblia King James não é a melhor tradução disponível

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Em seu texto “Clássica e moderna”, o pastor e editor Fernando Dias escreveu: “Novas versões bíblicas confiáveis sempre foram valorizadas pelos adventistas. Na década de 1880, enquanto a English Revised Version era preparada, William C. White conversou sobre o assunto com sua mãe, Ellen G. White, que fez com que ele visse as vantagens de uma versão bíblica mais moderna, fiel aos originais e preparada por uma comissão interdenominacional. Segundo pesquisa feita por Arthur L. White sobre as versões da Bíblia usadas por sua avó, Ellen White sempre adotava o uso de versões bíblicas modernas e revisadas à luz das descobertas arqueológicas tão logo eram publicadas pelas sociedades bíblicas (‘The E. G. White Counsel on Versions of the Bible’, disponível whiteestate.org).”

De fato, a Sra. White se valeu extensivamente (mas não apenas) da Bíblia King James, afinal, era a tradução mais utilizada em seu tempo e em seu país. Mais ou menos como fazem a Igreja Adventista no Brasil e a Casa Publicadora Brasileira, ao utilizar majoritariamente a Almeida Revista e Atualizada (2ª Edição). É uma tradução perfeita? Claro que não, afinal, isso não existe. Por isso um bom hábito de leitura e estudo consiste em comparar diferentes traduções e não se prender a apenas uma.

No texto a seguir, o Dr. Daniel B. Wallace, professore no Dallas Theological Seminary e um dos maiores especialistas em grego bíblico, analisa a famosa Bíblia King James. Leia a tire suas conclusões. E mais importante: independentemente da versão ou tradução, não deixe de estudar sua Bíblia. Deus tomou providências para que, de um jeito ou de outro, ela chegasse até nós, no século 21, e em nossa língua! [MB]

Primeiro, quero afirmar com todos os cristãos evangélicos que a Bíblia é a Palavra de Deus, inerrante [sic], inspirada e nossa autoridade final de fé e vida. No entanto, em nenhum lugar da Bíblia é dito que apenas uma tradução dela é a correta. Em nenhum lugar é dito que a Bíblia King James é a melhor ou a única Bíblia “sagrada”. Não há nenhum versículo que diga como Deus preservará Sua palavra e garantia da própria Escritura para argumentar que a King James tem direitos exclusivos ao trono. Os argumentos se originam de outras fontes. Em segundo lugar, o texto grego que dá suporte à Bíblia King James é manifestamente inferior em certos lugares.

O homem que editou o texto era um sacerdote católico romano e humanista chamado Erasmus.[1] Ele estava sob pressão para levar o texto à imprensa o mais rápido possível visto que (a) nenhuma edição do Novo Testamento grego ainda havia sido publicada, e (b) ele tinha ouvido que o Cardeal Ximenes e seus associados estavam prestes a publicar uma edição do Novo Testamento grego e estava numa corrida para vencê-los. Consequentemente, sua edição foi chamada de o volume mais mal editado em toda a literatura! Está cheio de centenas de erros tipográficos que até mesmo Erasmus reconheceria posteriormente.

Dois lugares merecem uma menção especial. Nos últimos seis versículos de Apocalipse, Erasmus não tinha manuscrito grego (ele usava apenas meia dúzia; muitos manuscritos eram tardios para todo o Novo Testamento, de qualquer maneira). Ele foi, portanto, forçado a “traduzir de volta” do latim para o grego e, ao fazê-lo, criou dezessete variantes que nunca foram encontradas em nenhum outro manuscrito grego do Apocalipse. Ele simplesmente adivinhou o que o grego poderia ter sido. Em segundo lugar, para 1 João 5: 7, 8, Erasmus seguiu a maioria dos manuscritos na leitura “há três testemunhas no céu, o Espírito e a água e o sangue”. No entanto, houve um alvoroço em alguns círculos da Igreja Católica porque seu texto não dizia “há três testemunhas no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo”. Erasmus disse que não colocou isso no texto porque não encontrou nenhum manuscrito grego que tivesse essa leitura.

Esse desafio implícito  – isto é, que, se ele encontrou uma leitura em qualquer manuscrito grego, colocaria em seu texto  – não passou despercebido. Em 1520, um escriba em Oxford chamado Roy fez um manuscrito grego assim (Códex 61, agora em Dublin). A terceira edição de Erasmus teve uma segunda leitura porque um manuscrito grego foi “feito sob encomenda” para preencher o desafio. Até hoje apenas um punhado de manuscritos gregos que têm a fórmula trinitária em 1 João 5:7, 8 foi descoberto, embora nenhum deles seja comprovadamente anterior ao século 16.

Isso ilustra algo bastante significativo em relação à tradição textual que dá suporte à King James. Provavelmente, a maioria dos críticos textuais hoje concorda plenamente com a doutrina da Trindade (e, claro, todos os evangélicos que trabalham com crítica textual). E a maioria gostaria de ver a Trindade explicitamente ensinada em 1 João 5:7, 8. Mas a maioria rejeita essa leitura como uma invenção de algum escriba excessivamente zeloso. O problema é que a Bíblia King James está cheia de leituras que foram criadas por escribas excessivamente zelosos! Poucas das leituras distintivas da King James são demonstravelmente antigas. E a maioria dos críticos textuais apenas adota a proposição razoável de que os manuscritos mais antigos tendem a ser mais confiáveis, uma vez que se aproximam da data dos autógrafos originais. Eu mesmo amaria ver muitas das leituras da King James preservadas.

A história da mulher apanhada em adultério (João 7:53-8:11) sempre foi uma das minhas preferidas, pois trata acerca da graça de nosso Salvador Jesus Cristo. Que Jesus é chamado de Deus em 1 Timóteo 3:16, o que confirmaria a minha visão sobre Ele (cf. também João 3:13; 1 João 5: 7, 8, etc). Mas quando as evidências textuais me mostram que os escribas tinham uma forte tendência para adicionar, em vez de subtrair, e que a maioria dessas adições são encontradas nos manuscritos mais recentes, em vez de nos mais antigos, acho intelectualmente difícil aceitar essas respectivas passagens que sempre emocionalmente abracei.

Em outras palavras, aqueles estudiosos que não consideram muitas dessas passagens favoritas do Novo Testamento não fazem isso por maldade, mas porque tais passagens não são encontradas nos melhores e mais antigos manuscritos. No entanto, deve-se considerar enfaticamente que isso não significa que as doutrinas contidas nesses versículos tenham sido prejudicadas. Minha crença na deidade de Cristo, por exemplo, não vive nem morre por causa de 1 Timóteo 3:16. Na verdade, tem sido repetidamente afirmado que nenhuma doutrina da Escritura foi afetada por essas diferenças textuais. Se isso é verdade, os defensores da “King James somente” podem estar fazendo tempestade num copo d’água, em vez de se ocuparem com os aspectos mais importantes do avanço do evangelho.[2]

Em terceiro lugar, a Bíblia King James sofreu três revisões desde a sua criação em 1611, incorporando mais de 100 mil mudanças. Que Bíblia King James é inspirada mesmo?

Em quarto lugar, 300 palavras encontradas na Bíblia King James original não têm mais o mesmo significado hoje  – por exemplo, a palavra “suffer”, em Mateus 19:14. Outro exemplo é a palavra “study”, em 2 Timóteo 2:15. Devemos realmente abraçar uma Bíblia como a melhor tradução quando esta usa uma linguagem que não só não é mais claramente entendida, mas, na verdade, tem sido pervertida e torcida?[3]

Em quinto lugar, a King James inclui um erro muito definido na tradução, o que até mesmo os defensores dessa versão admitiriam. Em Mateus 23:24, a King James tem “coais um mosquito e engolis um camelo”. Mas o grego traz “coou um mosquito e engoliu um camelo”. No mínimo, isso ilustra não só o fato de que nenhuma tradução é infalível, mas também que as corrupções de um escriba podem acontecer e acontecem  – mesmo em um volume que foi trabalhado por tantas mãos diferentes (pois a King James foi o produto de um comitê com mais de cinquenta estudiosos).[4]

Em sexto lugar, quando a King James foi publicada pela primeira vez, ela encontrou forte resistência por ser muito fácil de entender. Algumas pessoas a reverenciam hoje porque a versão é difícil de entender. Receio que parte dessa atitude seja devida ao orgulho: alguns sentem que são capazes de discernir algo que outras pessoas menos espirituais não podem. Muitas vezes, 1 Coríntios 2:13-16 é citado com referência à essa versão (no sentido de que “você o entenderia se fosse espiritual”). Tal uso desse texto bíblico, no entanto, é uma grosseira distorção das Escrituras. As palavras no Novo Testamento, a gramática, o estilo, etc. – em suma, o idioma – foram compreendidos em linguagem comum do primeiro século. Fazemos um grande desserviço a Deus quando tornamos o evangelho mais difícil de entender do que o pretendido. A razão pela qual as pessoas não espirituais não entendem as Escrituras é porque elas têm um problema volitivo e não um problema intelectual (cf. 1Co 2:14, onde “receber”, “acolher” demonstra claramente que o que bloqueia o entendimento é a vontade pecadora do ser humano).

Em sétimo lugar, aqueles que defendem que a King James tem direitos exclusivos sobre a chamada Bíblia Sagrada são sempre, curiosamente, pessoas de língua inglesa (normalmente americanos isolados). No entanto, a boa tradução de Martinho Lutero da Bíblia para o alemão antecedeu a King James em quase cem anos. Somos tão arrogantes ao dizer que Deus falou apenas em inglês! E onde há discrepâncias substanciais entre a Bíblia de Lutero e a King James (como em 1 João 5: 7, 8), vamos dizer que Deus inspirou a ambos? Ele é o autor da mentira? Nossa fé não descansa em uma tradição singular, nem é provincial. O cristianismo bíblico e vibrante nunca deve se unir ao provincialismo. Caso contrário, o esforço missionário, dentre outras coisas, morreria.

Oitavo, novamente deixe-me repetir um ponto anterior: a maioria dos evangélicos que abraçam todas as doutrinas principais da fé – preferem uma tradução e uma base textual diferentes das que estão na King James. Na verdade, mesmo os editores da Nova Bíblia de Scofield (que é baseada na King James) preferem um texto/tradução diferente! [N.T.: Nos EUA, a adesão à King James é verificada mais nos círculos dispensacionalistas e fundamentalistas, porém, há alguns adeptos reformados que têm a mesma abordagem de defesa dessa tradução. No Brasil, a Bíblia preferencial dos reformados, Bíblia de Estudo de Genebra, adotou a versão Almeida Revista e Atualizada, que discorda levemente da ACF/King James.]

Finalmente, embora seja verdade que as traduções modernas “omitem” certas palavras e versos (ou, inversamente, que a King James acrescenta à Palavra de Deus, dependendo do ponto de vista), a questão não é tão simples assim. Na verdade, a edição mais recente de um Novo Testamento grego baseado em quantidade de manuscritos (i.e. o Texto Majoritário), em vez da antiguidade (e, portanto, esse tipo de Novo Testamento permanece firmemente dando algum apoio à tradição King James), quando comparado ao padrão do Novo Testamento grego usado na maioria das traduções modernas, corta também mais de 650 palavras ou frases. Assim, não é apropriado sugerir que apenas as traduções modernas omitem algumas palavras; o texto grego (Texto Majoritário) por trás da King James omite também. A questão, então, não é se as traduções modernas eliminaram porções da Palavra de Deus, mas sim se a King James ou as traduções modernas alteraram a Palavra de Deus. Eu argumento que a King James alterou muito mais drasticamente as Escrituras do que as traduções modernas. No entanto, repito: a maioria dos críticos textuais nos últimos 250 anos diria que nenhuma doutrina é afetada por essas mudanças. Alguém pode ser salvo lendo a ACF/King James ou a NVI, ARA, NTLH, etc.

Estou confiante de que esta breve pesquisa sobre minhas razões de a Bíblia King James/ACF não se apresentar como a melhor tradução disponível não será descartada rapidamente. Todos nós temos uma tendência de fazer motins e, em seguida, fortalecer nossas divisas. Muitas vezes nos apegamos às emoções, e não à verdadeira piedade. E, como tal, fazemos um grande desserviço para um mundo moribundo que precisa desesperadamente de uma voz clara e forte que proclama o evangelho de Jesus Cristo. Soli Deo gloria!

Mais um ponto precisa ser dito. Com a publicação recente de vários livros, vilipendiando traduções modernas, afirmando que essas traduções são apoiadas por motivos conspiratórios, uma palavra deve ser mencionada sobre essa teoria. Primeiro, muitos desses livros são escritos por pessoas que têm pouco ou nenhum conhecimento de grego ou hebraico e, além disso, são uma grande distorção dos fatos. Eu tenho lido livros sobre crítica textual há mais de um quarto de século, mas nunca vi citações tão ilógicas, fora do contexto e lamentáveis decepções sobre isso como tenho observado nesses livros recentes. Em segundo lugar, embora muitas vezes seja afirmado que os hereges produziram alguns dos manuscritos do Novo Testamento que agora temos em nossa posse, há apenas um grupo de manuscritos conhecido por ser produzido por heréticos: certos manuscritos bizantinos do livro de Apocalipse. Isso é significativo porque o texto bizantino dá suporte ao texto da ACF/King James. Esses manuscritos fizeram parte de um livro-texto de culto misterioso usado por vários cultos primitivos. Mas os defensores da King James constantemente fazem acusação de que os primeiros manuscritos (o manuscrito de Alexandria) foram produzidos por hereges. A única base para essa acusação é que certas leituras nesses manuscritos são desagradáveis ​​para eles. Em terceiro lugar, quando se examinam as variações entre o texto grego por trás da King James (o Textus Receptus) e o texto grego das traduções modernas, descobre-se que a grande maioria das variações são tão triviais que sequer podem ser traduzidas (a mais comum é a letra grega nu móvel, que é semelhante à diferença entre “que” e “quem”). Em quarto lugar, quando se compara o número de variantes que se encontram nos vários manuscritos com as variações reais entre o Textus Receptus e os melhores testemunhos do texto grego, verifica-se que esses dois são notavelmente similares. Existem mais de 400 mil variantes textuais entre os manuscritos do Novo Testamento. Mas as diferenças entre o Textus Receptus e os textos baseados nas melhores testemunhas textuais do grego são cerca de cinco mil – e a maioria dessas diferenças é intraduzível. Em outras palavras, mais de 98% da vezes, o Textus Receptus e as edições críticas concordam. Aqueles que vilipendiam as traduções modernas e os textos gregos por trás deles evidentemente nunca investigaram os dados. Seus apelos são baseados em grande parte na emoção, não na evidência. Como tal, eles fazem uma injustiça para o cristianismo histórico, bem como para os homens que estavam por trás da Bíblia King James. Esses estudiosos, que admitiram que esse tipo de trabalho de crítica textual era provisório e não definitivo (como pode ser visto pelo prefácio e por suas mais de oito mil notas marginais que indicam leituras alternativas), acolheriam de todo o coração as grandes descobertas de manuscritos ocorridas nos últimos 150 anos.

(Dr. Daniel Wallace, Bible.org, via Medium; tradução de Evandro Junior)

[1] Um humanista no século 16 não é o mesmo que um humanista hoje. Erasmus era geralmente tolerante com outros pontos de vista e estava particularmente interessado nas ciências humanas. Embora ele fosse um amigo de Melanchthon, o braço direito de Lutero, Lutero não simpatizava com ele.

[2] É significativo que o próprio Erasmus fosse bastante progressivo em seu pensamento, e dificilmente seria a favor de como os defensores da “King James Somente” o abraçaram como seu campeão. Por exemplo, cada uma de suas edições do NT grego alternava entre o latim de um lado e o grego do outro. O latim era sua própria tradução, e deveria melhorar a Vulgata latina de Jerônimo – uma tradução que a Igreja Católica havia declarado inspirada. Por essa razão, a Universidade de Cambridge baniu imediatamente o Novo Testamento de Erasmus, e outros seguiram o exemplo. Em outro lugar, Erasmus chegou a questionar se a perícope da mulher adúltera (a história da mulher capturada em adultério [João 7:53-8:11]), o fim mais longo de Marcos (16:9-20), etc., eram autênticos.

[3] “Sofrer” em Mateus 19:14 significa “permissão”; “Estudar” em 2 Timóteo 2:15 significa “ser ansioso, ser diligente”. Veja o Oxford English Dictionary (o maior dicionário completo da língua inglesa) para obter ajuda aqui: traça os usos das palavras através de sua história, identificando o ano em que um novo significado entrou em voga. [N.T.: O autor fala das palavras “suffer”, “permit”, “study” que tinham significados bem diferentes em 1611 quando comparadas ao inglês moderno. Como a ACF deriva da King James, a tradução para o português também está de acordo com a versão moderna do inglês, e não de acordo com o antigo significado da tradução.]

[4] Há outros erros na King James que persistem até hoje, mesmo que essa tradução tenha passado por várias edições. Por exemplo, em Hebreus 4:8 se lê: “Pois, se Jesus lhes tivesse dado descanso, então Ele não teria depois falado de outro dia.” Isso soa como se Jesus não tivesse proporcionado o eterno descanso que todos desejamos. No entanto, a palavra grega para Jesus é a mesma palavra para Josué. Ademais, no contexto de Hebreus 4, obviamente, Josué é o significado pretendido. Não há problema textual aqui; é simplesmente um erro por parte dos tradutores, perpetuado nos últimos 400 anos em todas as edições da King James.

Respostas a um antitrinitariano (parte 2 de 4)

jesusPergunta: Os trinitarianos negam que Cristo seja o Filho de Deus. Ele só se torna Filho quando vem à Terra. Mas a Bíblia diz que Cristo é o Filho de Deus, sendo lógico concluir que Ele nasceu de Deus, foi gerado de Deus, portanto, não tem a eternidade pretérita. 1 João 5:1 diz que Jesus foi gerado. A própria Ellen White chama Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação. Como entender isso?

Resposta: Nenhum trinitariano nega que Jesus é o Filho de Deus. A Bíblia afirma e o próprio Jesus Se autointitula o Filho de Deus. O problema está na compreensão equivocada que os antitrinitarianos têm dessa expressão. Algumas expressões usadas naquela época, se isoladas de seu contexto, não são bem compreendidas. Por exemplo: quando a Bíblia chama Jesus de Filho do homem, quer dizer que Ele é totalmente homem, ser humano; quando chama Jesus de Filho de Davi, quer dizer que Ele era o Messias, o Rei, o prometido que viria resgatar Israel (na visão do judeu), a humanidade; da mesma forma, quando a Bíblia chama Jesus de Filho de Deus, quer dizer que Ele era totalmente Divino, Deus.

Para mais informações sobre esse tema, leia isto, isto, isto, isto, isto, isto e isto.

O termo “gerado” usado, por exemplo, em Hebreus 1:5, quando visto em seu contexto, nota-se, pelo Salmo 2:7, que primariamente foi utilizado para Davi, quando ele foi entronizado. Por que o verbo “gerar” usado em Salmo referindo-se a Davi significa entronização e quando repetido em Hebreus para ser aplicado a Cristo significa nascer, vir a existência? Da mesma forma, observando o contexto de 1 João, será que no capítulo 5, verso 1 era propósito do autor descrever a suposta origem, o suposto nascimento de Jesus? Vejamos:

a) “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que O gerou também ama ao que dEle é nascido” (1Jo 5:1).

Πᾶς ὁ πιστεύων ὅτι Ἰησοῦς ἐστὶν ὁ χριστός, ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται· καὶ πᾶς ὁ ἀγαπῶν τὸν γεννήσαντα ἀγαπᾷ καὶ τὸν γεγεννημένον ἐξ αὐτοῦ.

No destaque acima está a palavra gennao (γεννάω), que significa nascido ou gerado. Apesar de o verso em português ser traduzido assim: “TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que O gerou também ama ao que dEle é nascido.” Note que há um intercâmbio entre os verbos “gerar” e “nascer”. No grego, entretanto, trata-se do mesmo verbo. A pergunta é: Em que consiste o nascimento ou geração de Cristo? Será que essa expressão, esse verbo só se refere a nascimento no sentido de vir à existência?

Analisemos outras ocorrências do verbo gennao em 1 João para saber o que ele significa, e depois em outras passagens no Novo Testamento:

b) “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1 João 4:7).

Ἀγαπητοί, ἀγαπῶμεν ἀλλήλους, ὅτι ἡ ἀγάπη ἐκ τοῦ θεοῦ ἐστιν, καὶ πᾶς ὁ ἀγαπῶν ἐκ τοῦ θεοῦ γεγέννηται καὶ γινώσκει τὸν θεόν.

c) “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 João 5:4).

ὅτι πᾶν τὸ γεγεννημένον ἐκ τοῦ θεοῦ νικᾷ τὸν κόσμον· καὶ αὕτη ἐστὶν ἡ νίκη ἡ νικήσασα τὸν κόσμον, ἡ πίστις ἡμῶν.

d) “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 João 5:18).

Οἴδαμεν ὅτι πᾶς ὁ γεγεννημένος ἐκ τοῦ θεοῦ οὐχ ἁμαρτάνει, ἀλλ᾽ ὁ γεννηθεὶς ἐκ τοῦ θεοῦ τηρεῖ αὐτόν καὶ ὁ πονηρὸς οὐχ ἅπτεται αὐτοῦ.

Assim, notamos que o verbo γεννάω (gennao) em 1 João não traz necessariamente o sentido de nascimento físico, o que implica vir à existência. Em todo o livro não é essa a conotação do verbo. Por que seria apenas nessa passagem? Veja mais este exemplo fora da literatura joanina:

 e) “Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas prisões” (Filemom 1:10).

Παρακαλῶ σε περὶ τοῦ ἐμοῦ τέκνου, ὃν ἐγέννησα ἐν τοῖς δεσμοῖς μου, Ὀνήσιμον.

Em todas as situações mostradas acima percebemos que o gerar não tem o significado de nascer literalmente, vir à existência (mesmo que esse também possa ser um significado possível ao termo). Por que, então, quando se refere a Jesus, sempre o termo gerar é imposto pelos antitrinitarianos como sendo algo literal, vir à existência, nascer fisicamente?

Os antitrinitarianos tentam fazer certas dicotomias entre os termos “gerar”, “nascer” e “criar”. A questão é: a palavra pode até ser diferente, mas o conceito é o mesmo – Cristo veio à existência de alguma forma; houve um momento na eternidade em que Ele não existia. O Pai O trouxe à existência, seja por geração ou criação, não importa. Aqui se encontra o primeiro grande erro: Deus não é um ser que pode ser criado ou gerado (no sentido de vir à existência). Esse é o conceito grego quando falavam de suas divindades. A Bíblia nega o conceito de uma divindade que não possui a eternidade. Ser Deus implica, necessariamente, ser eterno, tanto para frente quanto para trás. Se foi criado, não é Deus. Se nasceu, não é Deus, se foi gerado (no sentido de vir à existência e não no sentido bíblico de entronização), não é Deus. Deus é eterno.

Cristo é Deus? É eterno? Sim. A Bíblia diz que sim:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os Seus ombros, e Se chamará o Seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Como o Pai da Eternidade, aquele que cria a eternidade, não seria eterno?

Vejamos abaixo mais alguns textos inspirados sobre a divindade e rternidade de Cristo:

“Ao falar de Sua preexistência, Cristo faz o pensamento remontar aos séculos eternos. Ele nos assegura que nunca houve um tempo em que não estivesse em íntima ligação com o Deus eterno. Aquele cuja voz os judeus estavam então ouvindo estivera com Deus como Alguém que Se achava em Sua presença” (Ellen G. White, Signs of the Times, 29 de agosto de 1900).

“Antes de serem criados homens ou anjos, a Palavra [ou Verbo] estava com Deus, e era Deus. O mundo foi feito por Ele, ‘e sem Ele nada do que foi feito se fez’ (João 1:3). Se Cristo fez todas as coisas, existiu Ele antes de todas as coisas. As palavras faladas com respeito a isso são tão positivas que ninguém precisa deixar-se ficar em dúvida. Cristo era, essencialmente e no mais alto sentido, Deus. Estava Ele com Deus desde toda a eternidade, Deus sobre todos, bendito para todo o sempre. O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai. Era Ele a excelente glória do Céu. Era o Comandante dos seres celestes, e a homenagem e adoração dos anjos era por Ele recebida como de direito. Isto não era usurpação em relação a Deus” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 247, 248).

O que significa toda eternidade? Toda é toda. Ou seja, precisamos aceitar que:

a) Nunca houve um tempo em que Cristo não estivesse com o Pai. E nunca é nunca

b) Ele é Deus no mais alto sentido, portanto, não pode ter vindo à existência de alguma forma, porque Deus não nasce, Deus é.

c) Estava com o Pai desde toda a eternidade. Toda é toda. Se você pudesse viajar a qualquer ponto da eternidade, lá estaria Jesus. Se Ele não estivesse, Ellen White seria mentirosa, pois ela disse toda

A Bíblia diz que Deus existe de eternidade a eternidade. Claramente o texto está falando de eternidade pretérita e eternidade futura. Veja: “Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). De quem esse texto está falando? Quem é esse ser eterno para frente e para trás? Veja o que Ellen White escreveu:

“‘Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus” (Salmo 90:2). ‘O povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou” (Mateus 4:16). Aqui se apresentam a preexistência de Cristo e o propósito de Sua manifestação ao mundo, como raios vivos de luz do trono eterno. ‘Agora ajunta-te em esquadrões, ó filha de esquadrões; pôr-se-á cerco contra nós: ferirão com a vara no queixo ao juiz de Israel. E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti Me sairá O que será Senhor em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade’ (Miqueias 5:1, 2; Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 248).

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Portanto, qualquer tentativa de afirmar que Cristo não é Deus eterno, que Ele foi gerado e não existia desde sempre com o Pai é apenas um esforço maligno para distorcer essa verdade tão bela da plena divindade e eternidade de Jesus. Ele é Deus, sempre existiu, sempre foi um com o Pai, sempre esteve com Ele. Ele é o YHWH do Antigo Testamento. Como disse a serva do Senhor falando de Jeová, aquele que aparece no Antigo Testamento: “Jeová é o nome dado a Cristo” (Signs of the Times, 3/5/1899).

Leia mais sobre isso aqui, aqui e aqui.

Sobre Ellen White chamar Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação, essa é uma situação simples e muito comum. Trata-se de termos retroativos e proféticos. Por que Ellen White chama Jesus de Filho de Deus antes de Sua encarnação? Pelo mesmo motivo que

a) a Bíblia chama Jesus de Filho do homem em Daniel, antes de Sua encarnação;

b) a Bíblia diz que Jesus é o cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo;

c) Ellen White chama Jesus de Jesus (nome dado pelo anjo quando apareceu a Maria): “Lúcifer estava invejoso e enciumado de Jesus Cristo” (História da Redenção, p. 14). Naquela época Jesus era chamado de Jesus Cristo? Claro que não!

Portanto, nota-se claramente que certos títulos atribuídos a Cristo são retroativos (termos conhecidos hoje) e proféticos. O fato de alguém dizer hoje que “o Filho de Deus lutou contra Lúcifer no Céu”, ou “Jesus venceu Lúcifer lá no Céu” não quer dizer necessariamente que Ele já era chamado com esses nomes lá no Céu naquela ocasião; são termos conhecidos hoje e que usamos comumente ao relatar histórias do passado, assim como Ellen White o fez. Nem seria lógico Ellen White contar o que houve no Céu falando sempre “a segunda pessoa da Divindade”, só porque naquela época Ele ainda não havia recebido o nome (título) de Jesus ou Filho de Deus ou ainda Filho do homem.

Leia mais aqui, aqui e aqui.

Pergunta: Jesus disse mesmo as palavras de Mateus 28:19 ou esse texto foi um acréscimo posterior ao livro de Mateus?

Resposta: Leia o texto “A fórmula batismal trinitária de Mateus 28:19 é autêntica?” e você encontrará a resposta para essa pergunta.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” (parte 1) 

A Bíblia Sagrada é inerrante?

bibliaCom o claro objetivo de fazer frente às alegações dos defensores do liberalismo e da alta crítica, alguns teólogos evangélicos acabaram assumindo posição radical e reacionária em relação às Escrituras – posição que ficou conhecida como “inerrante”, isto é, que a Bíblia Sagrada não contém erros de quaisquer espécie e teria sido revelada de forma verbal. Essa postura influenciou muitos teólogos e, por outro lado, gerou reações contrárias radicalmente proporcionais. Vários livros foram publicados na intenção de popularizar a teoria da inerrância bíblica. Um desses é O Alicerce da Autoridade Bíblica (Vida Nova), organizado por James Montgomery Boice, e que reúne artigos de estudiosos do quilate de Francis A. Schaeffer, R. C. Sproul e Gleason L. Archer, para mencionar apenas três.

Ao longo das 196 páginas, os escritores tentam demonstrar que a inerrância foi ideia defendida pela igreja cristã em toda a sua história – desde os apóstolos e os “pais da igreja”, passando pela Reforma e chegando aos dias atuais, quando encontra os evangélicos que, para serem assim considerados, devem ser inerrantes (pelo menos essa é a sentença radical de alguns dos articulistas do livro).

No fim do prefácio, Boice faz uma afirmação auto-contraditória: “Aquilo que a Bíblia diz, é Deus quem diz – através de agentes humanos e sem erro.” Como é possível algo humano ser desprovido de erro? E na Introdução, Schaeffer sugere que a mentalidade “cartesiana, positivista e empirista” estaria influenciando a exegese bíblica, parecendo ignorar o fato de que estender a inerrância a assuntos “periféricos” – história, cosmologia, etc. – é, isso sim, uma tentativa de ler a Bíblia sob as lentes do método científico moderno, cujo contexto em muito se distancia da mentalidade semítica com a qual as Escrituras estão entrelaçadas. Na verdade, a própria Bíblia não se arroga inerrante, devendo os que advogam essa prerrogativa apelar para outras fontes – como o próprio racionalismo – a fim de sustentá-la.

Curiosamente, os mesmos que defendem a inerrância, sobem no barco da alegorização de relatos históricos como Gênesis 1, 2 e 3. James I. Packer diz o seguinte, em seu artigo: “…lê-se Gênesis 1 como se fosse uma resposta às mesmas perguntas que os manuais científicos visam a responder, e Gênesis 2 e 3 se leem como se fosse, a cada ponto, narrativas prosaicas de testemunhas oculares, daquilo que teríamos visto se tivéssemos estado lá, não fazendo caso das razões por que se pode pensar que nesses capítulos ‘eventos reais talvez sejam registrados de modo altamente simbólico’” (p. 92.)

Mais equilibrado em suas análises, Gleason Archer informa que “há muito mais apoio textual para o texto da Sagrada Escritura do que há para qualquer outro livro que foi transmitido a nós desde tempos antigos” (p. 102). Archer escreve também que como o texto bíblico tem caráter eminentemente salvífico, foi conservado numa forma “suficientemente exata para realizar o seu propósito”, com uma transmissão não “seriamente defeituosa”. Ao usar as palavras “suficientemente” e “seriamente”, ele parece não querer ir tão longe no conceito de inerrância quanto seus colegas articulistas. “A melhor explicação é supor que Deus o Espírito Santo exerceu uma influência orientadora na preservação do texto original”, prossegue Archer, “conservando-o de erros sérios ou enganadores de qualquer tipo”. Citando Lindsell (The Battle for the Bible), em seu artigo “A Bíblia e a inerrância”, o Dr. Amim Rodor explica que “os inerrantistas confundem ‘erro’ no sentido de precisão técnica com a noção bíblica de erro como engano intencional”. Em sua linguagem, portanto, Archer parece ser não tão inerrantista assim.

Na página 138, vê-se Sproul manifestando igualmente um espírito equilibrado e aberto: “Não lançamos dúvida sobre a real dedicação dos defensores da inerrância limitada. O que questionamos é a exatidão da sua doutrina da Escritura, assim como eles questionam a nossa. Mesmo assim, consideramos que este debate, por mais sério que seja, é um debate entre membros da família de Deus. Que o nosso Pai nos leve à união neste ponto, assim como tem feito em muitas afirmações gloriosas do Seu evangelho” (p. 138).

No capítulo “O pregador e a Palavra de Deus”, assinado pelo próprio Boice, o autor tenta relacionar o “declínio contemporâneo na pregação grandiosa” (expositiva) – nas palavras de Lloyd-Jones – com a perda de crença na autoridade bíblica. Mas seria apenas esse o motivo? E seria o real motivo? Na revista Veja do dia 12 de julho de 2006, a matéria de capa aborda a mudança de ênfase dos pregadores evangélicos modernos (embora o foco sejam os “novos pastores”, pós-neopentecostais). Segundo a reportagem, está havendo cada vez menos ênfase no sobrenatural e mais investimento em técnicas de autoajuda. Nas igrejas evangélicas tradicionais, estuda-se pouco a Palavra de Deus. Portanto, independentemente da ênfase inerrantista (ou da falta dela), o declínio na pregação ocorre por diversos fatores e Boice parece tentar conduzir a conclusão na direção de seu pensamento. Depois, ele tece alguns comentários oportunos a respeito da necessidade de mais sermões expositivos, com forte conteúdo bíblico.

Finalmente, o livro apresenta a Declaração de Inerrância Bíblica de Chicago. Entre declarações que podem ser facilmente consideradas extremadas, há uma que quase surpreende pelo equilíbrio:

“As diferenças entre as convenções literárias nos tempos bíblicos e as do nosso tempo não podem ser desprezadas: uma vez que, por exemplo, a narração não-cronológica e a citação imprecisa eram comuns e aceitáveis, e não frustravam expectativa de espécie alguma na época, não se deve tê-las como equívocos quando as encontramos na Bíblia. Quando não se espera uma precisão absoluta de tipo específico, não se incorre em erro se ela não é alcançada. A Escritura é inerrante, não no sentido de que é absolutamente precisa segundo os padrões modernos, e sim no sentido de que ela cumpre aquilo que afirma e atinge aquela medida de verdade específica que foi objeto dos autores.”

Michelson Borges