Anel de Pôncio Pilatos é descoberto perto de Jerusalém

herodiunUm anel descoberto perto de Jerusalém foi atribuído a Pôncio Pilatos, o governador romano que, segundo textos bíblicos, condenou Jesus a ser crucificado. O objeto descoberto há cinquenta anos em uma escavação traz uma inscrição “de Pilatus” em letras gregas, revelada agora em análises recentes de pesquisadores, de acordo com um artigo publicado no Israel Exploration Journal. Datado com cerca de 2.000 anos, o anel, que servia de selo, pode comportar uma das poucas menções escritas de Pôncio Pilatos de sua época, afirma o Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. A peça foi descoberta em Herodium, um antigo palácio construído na época do rei Herodes, perto de Jerusalém e de Belém, uma cidade da Cisjordânia ocupada [veja a foto]. O palácio serviu de fortaleza para os insurgentes judeus que se rebelaram contra os romanos.

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Teólogas lançam “Bíblia feminista”

biblia feministaTeólogas feministas de um grupo que reúne católicas e protestantes de diversas partes do mundo estão lançando uma nova versão da Bíblia que visa a “empoderar as mulheres” e promover os valores do feminismo. À medida que o movimento #MeToo continua a expor o abuso sexual que mulheres sofrem em diversas culturas, esse grupo de teólogas propõe uma nova interpretação dos textos bíblicos, pois elas afirmam que as Escrituras têm sido usadas para expor imagens negativas de mulheres. Uma das teólogas chegou a afirmar que os valores do feminismo podem estar de acordo com a Bíblia. “Valores feministas e a leitura da Bíblia não são incompatíveis”, insistiu Lauriane Savoy, uma das duas professoras de Teologia de Genebra por trás da iniciativa de redigir a versão “Une Bible des Femmes” (“Uma Bíblia Feminina”), publicada em outubro.

A professora da Faculdade de Teologia em Genebra – que foi estabelecida pelo próprio João Calvino em 1559 – disse que a ideia de fazer o trabalho veio depois que ela e sua colega Elisabeth Parmentier entenderam que as pessoas “não estavam interpretando corretamente os textos bíblicos”. “Muitas pessoas pensaram que estavam completamente desatualizados, sem relevância para os valores de igualdade de hoje”, disse a teóloga de 33 anos à AFP, sob as esculturas de Calvino e outros fundadores protestantes no campus da Universidade de Genebra.

Numa tentativa de contrariar essas noções, Savoy e Parmentier, 57 anos, juntaram-se a outras 18 teólogas de uma série de países e denominações cristãs para elaborar uma nova tradução das Bíblia, que desafia as “interpretações tradicionais das Escrituras que colocam as personagens femininas como fracas e subordinadas aos homens que as rodeiam”.

Parmentier aponta para uma passagem no Evangelho de Lucas, na qual Jesus visita duas irmãs, Marta e Maria. “[O texto] diz que Marta garante o ‘serviço’, o que foi interpretado como significando que ela servia a comida, mas a palavra grega diakonia também pode ter outros significados, por exemplo, poderia significar que ela era diaconisa”, ressaltou.

As duas professoras de teologia de Genebra dizem que foram inspiradas a trabalhar nesse projeto de maneira “ecumênica”. “Queríamos trabalhar de maneira ecumênica”, disse Parmentier, destacando que cerca de metade das mulheres envolvidas no projeto são católicas e a outra metade de vários ramos do protestantismo.

Na introdução da “Bíblia das Mulheres”, as autoras disseram que os capítulos deveriam “examinar mudanças na tradição cristã, coisas que permaneceram ocultas, traduções tendenciosas, interpretações parciais”. Elas criticam “as leituras patriarcais persistentes que justificaram numerosas restrições e proibições às mulheres”.

Savoy disse que Maria Madalena, “a personagem feminina que mais aparece nos Evangelhos”, recebera um tratamento cru em muitas interpretações comuns dos textos. “Ela ficou ao lado de Jesus, inclusive quando Ele estava morrendo na cruz, quando todos os discípulos do sexo masculino estavam com medo [as autoras se esqueceram de João, personagem que também ficou junto a Cristo até o fim]. Ela foi a primeira a ir ao seu túmulo e a descobrir sua ressurreição”, ressaltou. “Este é um personagem fundamental, mas ela é descrita como uma prostituta […] e até como amante de Jesus na ficção recente.”

As estudiosas também propõem uma nova leitura sobre as cartas de Paulo, que estariam sendo interpretadas por um viés “machista”. “Estamos lutando contra uma leitura literal dos textos”, disse Parmentier. “Ler as passagens dessas cartas, que poderiam ser facilmente interpretadas como radicalmente antifeministas, como instruções para como as mulheres devem ser tratadas hoje é insano. É como pegar uma carta que alguém envia para dar conselhos como válida por toda a eternidade.” [Isso quer dizer que muito certamente essas acadêmicas não consideram a Bíblia inspirada.]

Os textos das teólogas também abordam a Bíblia através de diferentes temas, como o corpo, a sedução, a maternidade e a subordinação.

Apesar do esforço do grupo de teólogas em lançar uma releitura da Bíblia para promover os valores feministas, há quem pense que isso não seja necessário para desfazer compreensões equivocadas sobre os textos bíblicos. Uma leitura contextualizada do texto já em uso seria o suficiente, não para promover os valores feministas, mas, sim, adquirir a compreensão adequada das Escrituras.

A escritora e youtuber brasileira Fabiana Bertotti explicou, em entrevista anteriormente concedida ao Guiame, que passagens que indicam uma submissão feminina ao homem são muito mais complexas do que simplesmente subjugar a mulher a uma ditadura masculina.

“O primeiro texto (Efésios 5:25) diz para os maridos amarem as esposas como Cristo amou a igreja. Cristo morreu pela igreja, mesmo ela sendo infiel e não totalmente devota a Ele. Eu não acho que dizer às esposas para serem submissas a seus maridos seja mais difícil do que amar as esposas como Cristo amou a igreja”, explica Fabiana.

“Quando você entende o contexto em que isso foi escrito e a mensagem de submissão – que tem a ver com a proteção que é dada pelo marido e mostra a submissão como reconhecimento ao sacerdócio dele no lar – eu acho que a missão da mulher é muito mais fácil”, acrescenta.

Fabiana contou que já foi adepta do feminismo anos atrás, mas abandonou essa visão quando percebeu que o feminismo moderno não compactua com a visão bíblica. “Eu deixei de ser feminista porque enxerguei o cristianismo como algo muito maior do que o feminismo. Quando eu entendo que em Cristo somos iguais, entendo uma declaração de direitos iguais. A partir do momento em que eu luto para ter o mesmo salário ou para a mulher não ser estuprada no ônibus, isso não é feminismo. Estamos falando de direitos civis, de um direito à vida”, explicou.

(Guiame)

Nota: Como se não bastasse a “Bíblia gay”, em que os textos que condenam as práticas homossexuais são malabarísticamente adulterados, eis que agora surge a “Bíblia feminista”. É o tipo de iniciativa que deixa claro que seus autores não estão preocupados com a mensagem bíblica, mas, sim, com sua bandeira. Para eles a Bíblia não é um livro inspirado e deve ser interpretada à luz dos conhecimentos atuais e relida com os óculos ideológicos relativistas que escolheram usar. Basta deixar que a Bíblia fale por si mesma. Ela tem uma mensagem única. Os autores, inspirados pelo Espírito Santo, tiveram uma intenção ao escrever. O contexto e a época devem sempre ser levados em conta, sem perder de vista os valores e princípios eternos expressos nos textos. Na Bíblia, homem e mulher têm o mesmo valor diante de Deus, embora possuam funções e características diferentes. A Bíblia também reflete os costumes e preconceitos das sociedades em que ela foi escrita. Por exemplo: a Bíblia apresenta a poligamia e o uso de joias, bem como o consumo de bebidas alcoólicas. Isso quer dizer que Deus aprovava essas práticas? De forma alguma! O fato de serem descritas e de Deus tolerar algumas coisas não significa autorização. De modo semelhante, há textos bíblicos que mostram costumes machistas daqueles tempos, mas, se quisermos saber o que Deus pensa disso, devemos conferir como Ele tratava as mulheres, especialmente como Jesus as tratava. Chega a ser irônico, na foto acima, as teólogas estarem posando na frente das estátuas de reformadores, homens que dedicaram a vida para levar a Palavra de Deus, tal como ela é, ao maior número possível de pessoas. Se isso fosse possível, eles estariam se revirando nos túmulos. [MB]

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A verdadeira história de Moisés. É a Super que sabe?

moisesMais uma vez a revista Superinteressante, que adora tratar de temas bíblicos de um jeito polêmico e questionador, quase sempre perto do Natal (pois assim vende mais), traz um título avassalador para uma de suas matérias: “A verdadeira história de Moisés”, acompanhado do subtítulo: “Como um rei megalomaníaco, muita geopolítica e uma farsa de proporções bíblicas criaram a saga de Moisés – o herói que foi sem nunca ter sido”. Agora, sim! Esqueça a Bíblia, pois a Super tem a verdadeira história – como sempre. O texto afirma, entre outras coisas, que os israelitas jamais moraram no Egito, que Moisés não escreveu a Torá, e por aí vai. Vou deixar aqui o link para você conferir por si mesmo. Providencialmente, o Dr. Rodrigo Silva, apresentador do programa “Evidências”, da TV Novo Tempo, e doutor em Arqueologia Clássica pela USP, tratou desse tema em seu último programa. Está aí para você assistir e comparar com a “verdade” da Superinteressante. [MB]

Clique aqui a leia outras análises de artigos publicados pela Superinteressante.

Quem é Jesus e o que isso importa

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Cristãos da “resistência”? Como assim?

resistencia3Sempre gostei das reuniões de comissão de igreja (quando bem conduzidas e sob a influência do Espírito Santo, evidentemente) porque ali a gente vê a democracia representativa em ação. Isso me impressionou positivamente quando me tornei adventista, nos idos anos 1990. Houve vezes em que em reuniões de comissão eu defendi que as paredes do templo deveriam ser pintadas de branco (exemplo hipotético), mas a proposta vencedora acabou sendo a que defendia a cor bege. A maioria votou nela. Aprovada a proposta, passei a defendê-la como se fosse minha. Não fiquei criticando pelos corredores os que votaram na cor bege. Não fiquei torcendo para que o templo ficasse feio com aquela cor, para depois dizer que eu tinha razão. Na verdade, torci para que ficasse mais bonito, para o bem de todos. Assim devemos nos comportar em uma democracia. Devemos sempre pensar no bem coletivo e até abrir mão de nossos interesses, se eles não forem considerados os da maioria (o que não significa abrir mão de princípios, evidentemente; mas esse é outro assunto).

O presidente Jair Bolsonaro foi eleito pela maioria do povo brasileiro. Pode ser que não concordemos com tudo o que ele diz e faz, mas foi a vontade da maioria. Durante meses todos puderam obter informações sobre os dois candidatos, ler seus programas de governo, comparar suas ideias, tudo de acordo com as regras, como se espera em uma boa democracia. A eleição foi democrática, pelo voto direto e secreto, e Bolsonaro foi o escolhido de 55 milhões de brasileiros. Agora ele é o presidente do Brasil. E se você ama o Brasil e a democracia, o que deveria fazer? Aceitar a realidade, torcer pelo presidente e orar pela nação. Fazer de tudo para que nosso país possa dar certo e avançar.

Quanto aos cristãos, é fácil seguir a Bíblia Sagrada quando ela aprova nossos pensamentos e nossas vontades. Mas e quando ela contraria nosso ponto de vista? O que a Bíblia nos diz para fazer em relação às autoridades constituídas/eleitas? Você sabe:

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” (1 Timóteo 2:1, 2).

“Lembre a todos que se sujeitem aos governantes e às autoridades, sejam obedientes, estejam sempre prontos a fazer tudo o que é bom, não caluniem ninguém, sejam pacíficos, amáveis e mostrem sempre verdadeira mansidão para com todos os homens” (Tito 3:1, 2).

“Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por Ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem. Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos. Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos de Deus. Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei” (1 Pedro 2:13-17).

“Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por Ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se opondo contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos” (Romanos 13:1, 2).

“Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser por aqueles que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas, se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência” (Romanos 13:3-5).

Obviamente que, quando as autoridades nos obrigarem a desobedecer à vontade de Deus, valerão outros textos, como Atos 5:29. Aí, nesse caso, deveremos opor resistência pacífica para ser fiéis a Deus. Mas o que alguns descontentes com a vontade da maioria dos brasileiros estão fazendo não é resistência. No mínimo é mimimi de frustrados com a perda do poder ou com o inconformismo pela prevalência democrática de uma ideia que não é a deles. Resistência a um governo que ainda nem começou? Ser contra tudo o que esse governo propuser? Como assim? Isso não é resistência. Isso é querer que tudo dê errado antes mesmo de começar. Isso é pouco se lixar para o Brasil. Isso é batalhar pelo divisionismo.

Mas Jesus não foi um revolucionário? Ele não foi da “resistência”? Já gravei um vídeo sobre isso e peço que você o assista (aqui), mas nunca é demais repetir: não, Jesus não foi um revolucionário. Ele tinha tudo para ser, afinal, o governo de Seu tempo era invasor, cobrava impostos para César, não havia sido eleito nem escolhido. Mas Jesus nunca Se insurgiu contra o Império. Ele sempre deixou claro que Seu reino não é deste mundo e mandou que dessem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Tomar Jesus como exemplo ou modelo de resistência política é, além de anacrônico, injusto. Em lugar de revolução Ele pregou a conversão. Em lugar de ódio, amor. E o amor dEle não era só de discurso, não. Ele amou na prática. Amou quem concordava com Ele e quem dEle discordava. Amou a todos e morreu por todos.

Recentemente, no Twitter, o comediante e apresentador Danilo Gentili escreveu: “O discurso dos caras agora é: ‘Vamos fiscalizar o governo e meter a boca em tudo o que estiver errado.’ Sim, vamos. Sem dúvida alguma vamos. Mas só lembrando aqui que nos últimos treze anos todo mundo que fez isso foi chamado de fascista.”

Muita gente teve que tolerar treze anos de um governo no qual não votou. Assim é a democracia. Muitas vezes orei e torci por Lula e Dilma. Orei para que eles fizessem o bem para o nosso povo, para que tivéssemos liberdade religiosa e paz. Da mesma forma, exatamente como manda a Bíblia, vou orar por Bolsonaro e por sua equipe de governo, para que tenham sabedoria e compaixão a fim de governar para o povo e para o bem do nosso país.

Não vou fazer resistência ao governo que nem começou, porque não é isso o que meu Mestre e Sua Palavra mandam. Continuarei opondo resistência ao reino das trevas, “porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Efésios 6:12).

Michelson Borges

Atos 2:42-47 defende o socialismo?

jesus marxEstá cada vez mais fácil encontrar pessoas, muitas vezes sinceras, acreditando que o socialismo pode ser encontrado na Bíblia Sagrada. Um dos argumentos principais consiste na utilização do texto do livro de Atos, capítulo 2, versos 41 a 47, que seria um “suposto” apoio a esse pensamento. O texto completo é este: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.”

Neste texto, estão listadas as três principais razões pelas quais o livro de Atos não pode ser um indicativo ou algum tipo de apoio para o socialismo dentro do cristianismo. De forma alguma os apóstolos estariam prescrevendo alguma norma de conduta para as sociedades cristãs posteriores.

1. Acreditar que Atos dá suporte à ideologia socialista é um anacronismo.

Como se sabe pela História, 18 séculos separam o socialismo do Novo Testamento! O Dicionário de Política de Norberto Bobbio diz o seguinte: “Em geral, o Socialismo tem sido historicamente definido como programa político das classes trabalhadoras que se foram formando durante a Revolução Industrial” (fim do século 18 e começo do século 19).

O significado vulgar de socialismo é a “estatização dos bens e meios de produção”; e algumas pessoas adicionam ainda a expressão “numa sociedade sem classes”. Há dois tipos de socialismo, basicamente, nos quais se caracterizam duas ideias principais: o socialismo utópico e o socialismo científico.

“Socialismo utópico” tem esse nome por causa da obra de Thomas More, Utopia, em que o autor propõe uma sociedade harmônica, justa e contrapondo as sociedades injustas. A principal linha de pensamento do socialismo utópico é idealizadora, justa e igualitária, em que se alcançaria o progresso por meio da razão e do interesse comum sem, necessariamente, uma luta de classes. A característica utópica se dá devido à impossibilidade de alcançar tal sociedade. Seus principais pensadores foram o inglês Robert Owen e os franceses Saint-Simon, Charles Fourier, Pierre Leroux e Louis Blanc, na transição entre os séculos 18 e 19.

O “socialismo científico” ou “socialismo marxista” foi desenvolvido pelos prussianos (atual Alemanha) Karl Marx e Friedrich Engels, no século 19. Ao contrário do idealismo do socialismo utópico, o socialismo científico tinha como principal ideia a crítica ao sistema capitalista. Era necessário aprofundar as análises políticas, econômicas e sociais para então propor mudanças concretas na sociedade. Seu foco era na luta de classes (visão do patrão explorador e do empregado explorado), na mais-valia, na divisão do trabalho e na produção de capital.

A doutrina política de Marx (falecido no fim do século 19) fundamenta-se no materialismo dialético e histórico. Denomina-se materialismo porque seus conceitos diretivos são de conteúdo material; é dialético porque se apoia no método dialético de Hegel, no que tange à evolução dos fenômenos sociais; enfim, qualifica-se como histórico porque os princípios do materialismo dialético são aplicados à evolução dos fatos sociais e à política dos povos no decurso da marcha do tempo.

Se não bastasse o monstruoso intervalo de tempo entre os dois momentos históricos, o que já categorizaria o anacronismo evidente, podemos elencar outra disparidade entre essas ideologias e o texto bíblico no que se refere ao tempo do eventos mencionados: não havia concordância entre os apóstolos e o Império (“Estado”), primeiro porque não era intuito de unir a comunidade Cristã com o império Romano; e segundo porque não havia o Estado como o concebemos hoje e a favor do qual Marx pretendia estatizar os meios de produção.

Mesmo que houvesse o Estado moderno, ainda assim seria impraticável no socialismo porque a autoridade do Estado provém de Deus (como explícito em Romanos 13:1-7, 1 Pedro 2:13 e na conversa de Jesus com Pilatos, em João 19:10, 11), e poderia ter sido estabelecido por conta do pecado da humanidade, embora não fosse plano de Deus original (como descrito nos capítulos de 12, 24 e 26:9-11 de 1 Samuel, e o primeiro capítulo de 2 Samuel).

Embora todo o esforço desses pensadores em criar uma sociedade com oportunidades iguais a toda população e manter certo controle social, a verdade é que a História mostra que os governos socialistas foram em grande parte ditatoriais e um verdadeiro desastre econômico e político. Liberdades individuais foram suprimidas e as guerras e a fome mataram milhões de pessoas. Estima-se que as mortes foram cerca de cem milhões nestes últimos cento e poucos anos:

URSS: 20 milhões de mortos

China: 65 milhões

Vietnã: 1 milhão

Coreia do Norte: 2 milhões

Camboja: 2 milhões de mortos

Leste Europeu: 1 milhão

América Latina: 150.000 mortos

África: 1,7 milhão de mortos

Afeganistão: 1,5 milhão

O movimento comunista internacional e os partidos comunistas fora do poder levaram dezena de milhões de pessoas à morte. Isso mostra que, sim, o socialismo falhou e continuará falhando.

O que esse banho de sangue tem que ver com o livro de Atos capítulo 2? Absolutamente nada! Nem de perto podemos comparar a Bíblia com a ideologia socialista. São coisas completamente diferentes.

3. O texto de Atos 2 não é prescritivo.

Quando lemos o livro de Atos devemos ter em mente que estamos tratando de um livro histórico. A seguir você lerá uma pequena parte de um artigo do teólogo brasileiro Wilson Paroschi:

“A rigor, conforme o próprio Lucas afirma (At 1:1-5; cf. Lc 1:1-4), Atos é um documento histórico e, como tal, narra o desenvolvimento da igreja apostólica nos primeiros trinta anos após a ascensão de Cristo. Em muitos círculos eclesiásticos e evangelísticos, porém, predomina a crença, explícita ou implícita, de que esse livro consiste verdadeiramente numa espécie de manual da igreja ou manual de evangelismo, com orientações e exemplos práticos que, se forem seguidos à risca, produzirão os mesmos resultados. […] Cuidadosa análise da evidência, porém, parece apontar para outra direção. Em primeiro lugar, convém observar que, ao descrever a história da igreja primitiva, Lucas não registra somente os triunfos e sucessos dos apóstolos, mas também seus erros e retrocessos.”

“Em Atos, não encontramos apenas uma sucessão de experiências e relatos positivos que culminam com o evangelho sendo pregado destemidamente e sem qualquer impedimento até mesmo em Roma, no coração do Império (At 28:30-31). Ali também estão registradas inúmeras situações negativas envolvendo diretamente os apóstolos, suas decisões e atitudes.

“Exemplos disso são a negligência para com as viúvas helenistas (6:1), o preconceito e a reticência deles diante da pregação aos gentios (10:1–11:18), a desavença entre Paulo e Barnabé (15:36-40), a transigência de Paulo para com a lei cerimonial (21:17-26) e sua opção por ser julgado em Roma (25:9-12), o que se revelou um grave erro estratégico (cf. 26:30 32). Há também duas outras experiências que se revelaram particularmente negativas: a crença na volta imediata de Jesus e o consequente arrefecimento do fervor evangelístico logo após o Pentecoste.

“A perspectiva evangelística predominante na tradição judaica, tanto no Antigo Testamento (Sl 22:27; Is 2:2-5; 56:6-8; Sf 3:9-10; Zc 14:6) quanto na literatura intertestamentária (Tob 13:11; T. Ben. 9:2; Pss. Sol. 17:33-35; Sib. Or. 3.702-718, 772-776), é a do chamado movimento centrípeto, ou seja, não é Israel que vai às nações; são as nações que vêm a Israel, atraídas pela prosperidade e fidelidade do povo de Deus. E há claros indícios de que, apesar da ordem de Jesus em Atos 1:8, os apóstolos entenderam que, com a pregação no dia de Pentecoste e a conversão de mais de três mil pessoas, a missão deles no mundo já estava cumprida, ou pelo menos substancialmente cumprida.

“Como James D. G. Dunn salienta, o modelo evangelístico que eles conheciam era o que prevalecia no judaísmo de seus dias (cf. Mt 8:11-12; 10:5-6, 23; Mc 11:17) e, no Pentecoste, o mundo todo veio até eles; Lucas menciona mais de quinze diferentes nacionalidades ali representadas (At 2:9-11). O que houve em seguida foi uma diminuição do entusiasmo evangelístico, associado à ideia de que Jesus estaria voltando naqueles dias, como ficara implícito na promessa no dia da ascensão (1:6-11; cf. 3:20-21; Mt 10:23). Foi por isso que eles permaneceram tão firmemente arraigados em Jerusalém e centrados no templo (At 2:46; 3:1; 5:12, 20-21, 25, 42), até porque, de acordo com a profecia de Malaquias (3:1), o templo seria o ponto focal da iminente consumação.

“O elevado senso de fraternidade e comunidade demonstrado pela igreja apostólica logo após o Pentecoste (At 2:44-45; 4:32-35) revela que eles viviam na expectativa diária da volta de Jesus. Posses ou bens materiais perderam o valor. Tudo era vendido e o lucro trazido para um caixa comum para o benefício de todos. Eles não precisavam mais se preocupar com o futuro, pois não haveria futuro.

“A atitude foi louvável, sem dúvida, mas o momento foi errado, ainda que a iniciativa possa ter atendido a algumas necessidades específicas, como a ajuda aos pobres da comunidade de crentes. O espírito de desprendimento e fraternidade que manifestaram é, de fato, o que deve caracterizar o povo de Deus pouco antes da volta de Jesus, mas, naquele momento, representou um retrocesso para a igreja. A igreja de Jerusalém empobreceu (At 11:28; Rm 15:26; Gl 2:10), passou a depender da generosidade das igrejas gentílicas (At 11:29, 30; Rm 15:25, 26; 1Co 16:1-3) e não pôde sequer financiar o evangelismo mundial. Isso coube às próprias igrejas gentílicas (At 13:1-3; 15:35, 36; 2Co 11:8, 9; Fp 4:15-18). Deus permitiu que se levantasse uma perseguição contra a igreja (At 8:1-3) para dispersá-la de Jerusalém e, assim, levá-la a cumprir sua missão mundial (8:4, 5-8, 26-40; 11:19-21).

“Ou seja, é certamente um erro tratar o Livro de Atos como um manual da igreja, e a igreja apostólica como um modelo em tudo para a igreja de todos os tempos e lugares. Ao contrário do que mantém a concepção popular, a igreja apostólica não era perfeita, nem do ponto de vista doutrinário e muito menos do ponto de vista administrativo ou eclesiástico.

“A segunda razão pela qual a igreja apostólica não deve necessariamente ser vista como um modelo em tudo é que ela mesma foi produto de uma época, um lugar e uma cultura específica. A igreja apostólica nasceu no contexto do judaísmo do primeiro século. Ela aparece no cenário bíblico como mais uma dentre as várias denominações ou seitas judaicas da época. Ela teve que lidar com problemas tais como uma expectativa messiânica distorcida, o escândalo da cruz e o legalismo judaico, a inclusão dos gentios e a circuncisão, a idolatria no mundo greco-romano, filosofias pagãs, enfim, uma longa lista de problemas, quase todos muito diferentes dos nossos. É por isso que muito cuidado deve ser tido na hora de apontar os elementos prescritivos no Livro de Atos. Não é só abri-lo e achar que, porque foi assim no passado, tem que ser assim no presente. […]”

Voltei. Gostaria de enfatizar dois pontos importantes: primeiro, é que a empolgação da comunidade se dava exclusivamente pela promessa da vinda de Jesus, pela crença de que o pecado e a morte teriam fim e, finalmente, eles estariam para sempre com Jesus Cristo. O movimento cristão não se manteve unido e motivado no início por conta do ideal revolucionário de transformação social. Eles não estavam ali para reivindicar direitos humanos ou qualquer coisa do tipo. Apenas a alegria do evangelho que os motivava a ficar unidos.

Segundo, é que quanto à distribuição financeira e a comunhão de bens, a comunidade veio à falência pouco tempo depois! Agora veja: se os ideólogos modernos do socialismo procuram encontrar em Atos indícios de modelo econômico para comunidades locais, o que, de fato, eles encontrarão é o modelo ideal de como não distribuir renda e como chegar à falência!

3. Um cristão não pode ser socialista.

Certamente alguém falará que temos, como cristãos, uma função social importante. Isso é verdade e Cristo assim nos ensinou. Porém, existe um abismo entre ajudar o próximo e ser praticante do socialismo coercitivo (comunismo) que usa o aparelho estatal com mão de ferro para saquear a população e definir cada aspecto de sua vida. São ideologias nefastas que a história nos conta com desprezo. Infelizmente, ainda no Brasil poucas pessoas conhecem a história cruel e genocida dessas ideologias.

Considerando isso (e mais vários outros motivos não tratados neste texto), pode-se chegar à conclusão óbvia de que um cristão de verdade, que aguarda a vinda de Cristo, jamais pode perder tempo com essas ideologias ateias e fracassadas. Devemos lembrar sempre que este “Estado” é passageiro, mas o Reino de Deus é eterno.

Referências:

BOBBIO, NORBERTO;  MATTEUCCI, NICOLA ; PASQUINO, GIANFRANCO. Dicionário de Política. 11. Ed. Brasília: Editora UNB, 1998. (Volume 1).

BUKHARIN, NIKOLAI, ABC do Comunismo, Edipro, São Paulo, 2011.

ENGELS, FRIEDRICH, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Edipro de Bolso, São Paulo, 2011.

FERACINE, LUIZ, Karl Marx ou a Sociologia do Marxismo, Lafonte, São Paulo, 2011.

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK, JEAN-LOUIS MARGOLIN  et al. O Livro Negro do Comunismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

PAROSCHI, WILSON, “Os Pequenos Grupos e a Hermenêutica: Evidências Bíblicas e Históricas em Perspectiva”, (Engenheiro Coelho, São Paulo, 2009). (artigo aqui). Ou no livro: SOUZA, ELIAS BRASIL (Ed.). Teologia e metodologia da missão: palestras teológicas apresentadas no VIII Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano. Cachoeira: CePliB, 2011).

Evidências arqueológicas que confirmam a Bíblia