A Bíblia pescada no rio

A data do nascimento de Jesus

Apresentamos a seguir um breve comentário a respeito da possibilidade de calcular com certa precisão a provável data do nascimento de Jesus, com base no ritual do santuário hebraico.

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Embora seja notório e patente que a data não foi o dia 25 de dezembro, por várias razões derivadas do contexto do relato bíblico, permanece a dúvida sobre qual teria sido a data exata que, por razões que ignoramos, não se encontra explicitada em nenhum documento histórico. Entretanto, não deixa de ser verossímil a possibilidade de o nascimento ter-se dado no dia da expiação do ano que pode ser calculado com precisão a partir do estudo das cadeias proféticas que se encontram reveladas no livro de Daniel. (Ver o livro O Profeta Daniel, o Cientista Isaac Newton e o Advento do Messias, publicado pela Sociedade Criacionista Brasileira.)

No primeiro livro de Crônicas, capítulo 24, é relatada a maneira adotada para a escolha, por sorteio, dos turnos que deveriam exercer o serviço sacerdotal no Templo: “Quanto aos filhos de Arão, foram eles divididos por seus turnos [v. 1]. […] Repartiram-nos por sortes, uns com os outros [v. 5]. […] Saiu a primeira sorte a Jeoiaribe [v. 7] […] a oitava a Abias [v. 10]. […] a vigésima-quarta a Maazias [v. 18].”

Havia, portanto, 24 turnos, cabendo a cada turno, no decorrer do ano, o exercício durante duas semanas. O oitavo turno, como visto, cabia à família de Abias (v. 10). Considerando, pois, o início do ano religioso no mês de Abib (março/abril), o oitavo turno dos sacerdotes corresponderia praticamente ao quarto mês (junho/julho).

Zacarias, marido de Isabel, mãe de João Batista, pertencia ao oitavo turno, ou seja, ao turno de Abias: “Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se chamava Isabel” (Lucas 1:5).

Zacarias e Isabel não tinham filhos até a velhice: “E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias” (Lucas 1:7).

Zacarias estava exercendo o sacerdócio quando lhe apareceu então o anjo Gabriel para anunciar-lhe a concepção de João Batista: “Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem de seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso” (Lucas 1:8, 9). “E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor. Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João.”

Seis meses depois, Gabriel também anuncia a Maria a concepção de Jesus: “No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria. […] O anjo lhe disse: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus” (Lucas 1:26-31).

O nascimento de Jesus ocorreria, então, nove meses depois, ou seja, quinze meses após Zacarias ter estado ministrando no Templo. Portanto, a partir do quarto mês do calendário religioso (mês em que Zacarias esteve ministrando no Templo, ou seja, junho/julho), contando-se quinze meses, chega-se ao sétimo mês do calendário religioso (setembro/outubro) como o mês do nascimento de Jesus. Sem dúvida, era esse um mês em que as condições climáticas eram propícias para “os pastores guardarem nos campos o seu rebanho durante as vigílias da noite” (Lucas 2:8).

O décimo dia do sétimo mês do calendário religioso – o Dia da Expiação – era um sábado de descanso solene “para fazer expiação por vós perante o Senhor vosso Deus” (Levítico 23:26-32). Teria sido esse o dia do nascimento de Jesus – Aquele que veio fazer expiação pelos nossos pecados – novamente o tipo encontrando o antítipo?

Moisés relatou a própria morte?

Se Moisés é considerado o autor do livro de Deuteronômio, como ele poderia ter narrado a própria morte?

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A inspiração não revelou quem foi o autor dos últimos versículos de Deuteronômio. Alguns comentaristas têm opinado que Moisés escreveu essa porção do livro antes de morrer; outros creem que Josué ou algum outro autor anônimo o teria acrescentado posteriormente, como epílogo do Pentateuco. Qualquer das posições está em plena harmonia com a maneira como o Espírito Santo tem procedido em outras ocasiões. No entanto, certas expressões usadas nos versos 6-12 parecem ser mais bem entendidas se se considerar que Josué foi o autor:

1. As palavras “ninguém conhece o lugar de sua [de Moisés] sepultura ate hoje” (v. 6) refletem o interesse por parte dos que viveram depois da morte de Moisés em conhecer o lugar do sepulcro. É mais razoável pensar que essa declaração foi escrita por outra pessoa depois da morte de Moisés – uma pessoa inspirada, certamente – do que crer que tenha sido escrita por Moisés mesmo, antes desse acontecimento.

2. As palavras do verso 9, que dão testemunho da autoridade de Josué e de sua habilidade como dirigente, parecem ser mais um simples registro histórico da transição da liderança que uma predição a respeito desse fato. Na descrição feita por Moisés das vicissitudes futuras das doze tribos (cap. 33), ele fala em linguagem claramente profética (v. 10, 12, 19, etc.); nesta passagem, a linguagem é de um relato histórico.

3. As palavras “e nunca mais se levantou profeta em Israel como Moisés” (v. 10) parecem mais apropriadas como um elogio feito por Josué ou alguma outra pessoa que por Moisés mesmo.

Assim como aconteceu com o livro de Romanos, de autoria de Paulo, mas redigido por Tércio, o Espírito Santo pode ter guiado Josué na redação dos últimos versículos de Deuteronômio, assim como havia dirigido Moisés na escritura da porção anterior do livro, ou como mais tarde dirigiu Josué para escrever o livro que leva seu nome.

(Extraído do Comentário Bíblico Adventista em espanhol, v. 1, p. 1091)

Um bom artigo para entender como pensam teólogos feministas

“A Bíblia tem um grande problema na sua origem, no texto em si” (Odja Barros, pastora feminista).

No artigo “Interpretação Bíblica: raízes patriarcais e leituras feministas”, a teóloga feminista Odja Barros Santos (que recentemente causou polêmica ao celebrar numa igreja a união de duas mulheres) e o expoente da teologia queer no Brasil André Sidnei Musskopf deixam claro que, para as teologias identitárias, a Bíblia realmente não é a Palavra inspirada e infalível de Deus, como creem os adventistas, por exemplo. No artigo eles afirmam coisas como: “[…] a Palavra de Deus não é equivalente aos textos bíblicos”, e “a Bíblia e a Palavra de Deus não são idênticas. A Bíblia só se converte em Palavra de Deus quando lida em comunidade de fé, tendo em vista a realidade e a vida”. Esse artigo mostra que a teologia feminista só propõe dois caminhos: o abandono ou a desconstrução. O “feminismo cristão” opta pela desconstrução. E a primeira coisa que é desconstruída é a Bíblia como Palavra de Deus. Ou seja, não é cristão.

Nesta matéria, Odja afirma que “a Bíblia tem um grande problema na sua origem, no texto em si, mas eu diria que esse não é o maior deles, porque com as ferramentas e a leitura histórica do texto você pode separar joio de trigo. Quero dizer, compreender o que são marcas da cultura patriarcal do texto e o que é palavra de Deus”. O que nos faz lembrar de algumas declarações enfáticas de Ellen White quanto a esse tipo de pensamento:

“Mesmo o estudo da Bíblia, como muitas vezes é feito nas escolas, está despojando o mundo do imprescindível tesouro da Palavra de Deus. A obra da alta crítica, dissecando, conjeturando, reconstruindo, está destruindo a fé na Bíblia como uma revelação divina; está despojando a Palavra de Deus do poder de dirigir, enobrecer e inspirar as vidas humanas” (Educação, p. 227).

“Os homens agem como se tivessem recebido liberdade especial de cancelar as decisões de Deus. Os estudiosos da alta crítica põem-se no lugar de Deus e revisam a Palavra de Deus alterando-a ou endossando-a. Dessa forma todas as nações são induzidas a beber do vinho da fornicação de Babilônia. Esses proponentes da alta crítica acertaram as coisas de modo a adaptar-se às heresias populares destes últimos tempos. Se não podem subverter e torcer a Palavra de Deus, se não podem ajustá-la a práticas humanas, eles a despedaçam” (Olhando Para o Alto, p. 29).

“Alguns sentam-se a julgar as Escrituras, declarando que esta ou aquela passagem não é inspirada, pelo fato de ela não impressionar favoravelmente seu espírito. Eles não as podem harmonizar com suas ideias de filosofia e ciência, ‘falsamente chamada’ (1 Timóteo 6:20). Outros por motivos diversos põem em dúvida porções da Palavra de Deus. Assim muitos andam cegamente por onde o inimigo prepara o caminho. Ora, não é da alçada de homem algum proferir sentença sobre as Escrituras, julgar ou condenar qualquer porção da Palavra de Deus. Quando alguém se atreve a fazer isso, Satanás criará para ele respirar uma atmosfera que lhe tolherá o desenvolvimento espiritual. Quando um homem se sente tão sábio que ousa dissecar a Palavra de Deus, sua sabedoria, para com Deus, é considerada loucura. Quando ele souber mais, reconhecerá que tem tudo a aprender. E sua primeira lição é tornar-se dócil. ‘Aprendei de Mim’, diz o grande Mestre, ‘que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas’ (Mateus 11:29)” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 42).

Para entender o que pensa um verdadeiro adventista do sétimo dia, assista ao vídeo abaixo:

Nota: A teóloga Odja tem sofrido ameaças por ter realizado em uma igreja a união de duas mulheres. Toda e qualquer violência ou ameaça à liberdade religiosa de alguém deve ser deplorada e condenada. Devemos, nisso, nos solidarizar com ela, o que não significa concordar com a teologia dela. O que ela prega sobre a Revelação não é o “sim de Deus”.

Assista também a estes vídeos:

A Bíblia precisa ser atualizada?

ORIGENS: a Bíblia e a ciência

Que tipo de vinho Paulo pediu que Timóteo bebesse?

Gostaria que me explicassem 1 Timóteo 5:23, onde Paulo dá um conselho a Timóteo para que bebesse “um pouco de vinho”. É apenas suco de uva ou é vinho alcoólico? – O.C.

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Esse texto paulino tem sido frequentemente usado por aqueles que desejam fazer a Bíblia apoiar o consumo de bebidas alcoólicas. Alguns chegam a dizer que o problema seria a ingestão de “muito” vinho, ao passo que apenas “um pouco” não seria problema. Mas o que realmente Paulo teria aconselhado Timóteo a fazer? Primeiramente, deve-se notar o contexto no qual está inserido o texto (lTm 5:23). Ele está na seção “Conselhos”, que vai de 1 Timóteo 4:7-5:23, sendo o último verso de uma série de conselhos dados pelo apóstolo Paulo. No caso do que foi dado a Timóteo, vê-se que se trata de uma recomendação a alguém com problemas de estômago e acometido por outras enfermidades não mencionadas. Então, o conselho tem que ver com uma situação médica e um doente, e não com os membros da igreja indiscriminadamente.

Há basicamente duas hipóteses quanto ao vinho recomendado para as enfermidades de Timóteo: (1) seria vinho alcoólico; (2) seria vinho sem álcool, o puro suco de uva. Às vezes, uma palavra no idioma original ajuda a esclarecer determinado texto bíblico, mas tal não acontece com 1 Timóteo 5:23, onde “vinho” é tradução da palavra grega oinos – palavra que tanto pode indicar vinho com álcool quanto vinho sem álcool.

Analisemos a primeira hipótese, a de que o vinho fosse alcoólico. Essa hipótese estaria de acordo com uma ideia do tempo de Paulo, a de que o vinho fermentado era um medicamento útil na cura de várias doenças (R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado, v. 5, p. 341). Se se tratasse de vinho fermentado, a ser ingerido como remédio, o conselho se assemelharia ao que aparece em Provérbios 31:6: “Dai bebida forte [shekar] aos que perecem e vinho [yaín] aos amargurados de espírito.” Esses que estavam “perecendo” (doentes terminais), certamente estavam “amargurados de espírito”, ou seja, preocupados consigo mesmos e com o futuro de seus familiares, e deviam tomar alguma coisa que lhes anestesiasse a dor. Note que também aqui o conselho é dado a doentes, e não a pessoas sadias.

Passemos, agora, à segunda hipótese: o vinho seria sem álcool, o puro suco de uva. Essa hipótese levanta um questionamento, o de que Timóteo já devia ter o costume de beber suco de uva não fermentado, pois ele não é condenado pela Escritura. Se aceitamos a hipótese de que o vinho recomendado por Paulo era sem álcool, então Timóteo devia estar seguindo uma dieta do tipo “nazireu”, ou seja, não beber nem comer nada que viesse da videira, como a prescrita em Números 6:3: “Abster-se-á de vinho e de bebida forte; não beberá vinagre de vinho, nem vinagre de bebida forte, nem tomará beberagens de uvas, nem comerá uvas frescas nem secas.” Se for esse o caso, Timóteo devia estar sendo influenciado pelos hereges gnósticos, com suas regras ascéticas e dietéticas (ver lTm 4:3; Cl 2:21-23), seguidas para impressionar os demais membros da igreja. Paulo os denuncia como tendo “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético” (Cl 2:23). Paulo, então, estaria dizendo a Timóteo que suco de uva seria benéfico ao seu estômago, de preferência à água muitas vezes de qualidade duvidosa e contaminada, como acontecia naqueles dias. “Nos dias de Paulo, como agora, a água em muitas localidades não era segura para uso. Doenças físicas, como a disenteria, frequentemente estavam relacionadas com água contaminada, sendo de comum ocorrência. Consequentemente, outras maneiras de matar a sede eram frequentemente recomendadas” (Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 7, p. 314). Nesse caso, vinho (suco de uva) seria preferível à água impura (J. N. D. Kelly. 1 e 2 Timóteo e Tito, p. 123). Ellen White concorda com essa segunda hipótese. Note suas palavras:

“Bebidas fermentadas confundem os sentidos e pervertem as capacidades do ser. […] Vinho fermentado não é um produto natural. O Senhor nunca o produziu e nada tem que ver com sua produção. Paulo orientou Timóteo a tomar um pouco de vinho por causa de seu estômago e de suas frequentes enfermidades, porém se tratava de suco de uva não fermentado. Ele não aconselharia Timóteo a usar o que o Senhor havia proibido” (Signs of the Times, 6 de setembro de 1899, 2º parágrafo).

Como vimos, se Paulo tivesse recomendado vinho alcoólico a Timóteo, estaria receitando um remédio (ao menos se pensava assim em sua época) a alguém doente. E isso não deve servir de justificativa para seu uso por alguém sadio. Se, ao contrário, Paulo recomendou suco de uva não fermentado, teve o propósito de que Timóteo evitasse água contaminada, que agravaria ainda mais seu problema de estômago e suas “frequentes enfermidades”. Em conclusão, dizemos que seguro mesmo é ficar longe das bebidas alcoólicas. A Bíblia as descreve como “alvoroçadoras” (Pv 20:1), causadoras de ais, pesares, rixas, queixas, feridas sem causa, olhos vermelhos (23:29).

(Ozeas C. Moura, Revista Adventista, dezembro de 2009)

Leia também: Não há dose segura

Decepcionado com William Lane Craig

Aos poucos, os adventistas do sétimo dia vão ficando mais e mais isolados como grupo religioso que sustenta a historicidade/factualidade do relato da criação em Gênesis.

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Há muito tempo aprecio o ministério apologético de William Lane Craig. Quando soube, entretanto, que ele estava pesquisando o Adão “histórico” – isto é, o Adão real em contraste (supostamente) com o Adão “literário” como ele aparece nas Escrituras – fiquei preocupado. Eu tinha boas razões para estar. Referindo-se a muitas disciplinas díspares – do Pseudo-Philo à Paleoneurologia, do Enuma Elish ao gene ARHGAP11B, da globularização craniana a 1 Enoch –, Dr. Craig afirma ter descoberto o Adão “histórico”. “Adão e Eva”, escreve ele em seu novo livro In Quest of the Historical Adam (2021, Eerdmans), “podem ser plausivelmente identificados como pertencentes ao último ancestral comum do Homo sapiens e dos neandertais, geralmente denominado Homo heidelbergensis”.[1] Esse casal existiu, escreve ele, há centenas de milhares de anos.

Mas e quanto a Adão e Eva de Gênesis 1-3, ou do Novo Testamento, especialmente Romanos e 1 Coríntios? E quanto à criação em seis dias, ou Deus criando Adão do pó, ou a queda no Éden, ou o dilúvio, ou a Torre de Babel? Essas são, ele escreve, “mitologias”,[2] belas histórias que retratam verdades espirituais e teológicas, mas não são eventos reais e, em muitos casos, são “palpavelmente falsas”.[3]

[Continue lendo.]

Apple derruba app da Bíblia por exigência da China: capitalismo e comunismo de mãos dadas

A empresa tem recebido críticas de diversas autoridades por se submeter à exigências do Partido Comunista.

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A Apple derrubou o aplicativo da Bíblia Sagrada do AppStore para o chineses, atendendo à exigência do governo chinês [leia-se Partido Comunista]. A empresa alega ter sido obrigada a retirar o app em função de seu conteúdo conter textos religiosos ilegais no país. A decisão também levou à derrubada do Alcorão. […] A China vem sendo acusada de violar os direitos humanos, até por genocídio, contra grupos muçulmanos, e prender em uma rede de detenção cerca de um milhão de muçulmanos. A censura aos aplicativos, segundo o governo, é pela falta de documentos adicionais que esclareçam o conteúdo vigente. Entretanto, ainda não houve clareza nas justificativas. Vale lembrar que a China, atualmente, é um dos maiores consumidores da Apple, e a empresa depende bastante da fabricação chinesa e da produção para seus serviços. No entanto, a Apple alega que o aplicativo da Bíblia foi retirado por decisão própria, justificando que faltava a licença para aprovar a atualização do app e disponibilizá-lo aos clientes.

A empresa tem recebido críticas de diversas autoridades por se submeter à exigências do país, visando à economia.

Outras empresas de serviços digitais que também têm sido pressionadas planejam retirar seus produtos do país à fim de romper com o governo chinês.

(DM)

Nota: Num momento desses, podemos perceber duas coisas básicas: (1) para os capitalistas, tudo o que mais importa é o lucro; (2) para os comunistas, a religião continua sendo uma barreira contra sua ânsia de poder coletivista. Nada de novo… [MB]

A destruição de Sodoma e Gomorra

A destruição de Sodoma e Gomorra não se trata de um debate “homossexualidade ou inospitalidade”, mas foi um caso de perversão sexual e inospitalidade.

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1. O relato de Sodoma e Gomorra enfatiza a prática sexual

O tema de Gênesis 18 não é ser homossexual ou não, é ter relações homossexuais, o que é diferente. É preciso diferenciar a prática homossexual do desejo ou orientação homossexual. O relato apenas indica o que os homens de Sodoma queriam fazer. Não é corretor deslocar o problema do “praticar algo” para o “ser alguma coisa”. O texto não fala sobre ser homossexual (isso pode ser inferido), mas claramente descreve a intenção de praticar sexo com pessoas do mesmo sexo. Esse é o foco primário do relato e de alguns outros textos bíblicos que comentam o relato.[1]

Destaco que essa passagem não deveria ser o ponto de partida para qualquer argumentação a respeito da homossexualidade. Existem textos mais claros e mais diretos. A leitura popular da Bíblia produz algumas distorções, e é importante destacá-las. O texto não diz, por exemplo, que Ló era o único cidadão que não era homossexual em Sodoma. O texto diz que vieram “os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos” (Gn 19:4). A expressão “todo o povo de todos os lados” (Gn 19:4) tem o objetivo de evidenciar que não havia nem dez justos em Sodoma, como no desafio proposto a Deus por Abraão (Gn 18:32).

2. Na história, “conhecer” é ter relações sexuais

A exigência dos homens de Sodoma foi: “Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações [יָדַע, yada] com eles” (Gn 19:5). O verbo yada significa literalmente “conhecer”, e é abundantemente usado na Bíblia para indicar relações sexuais (por ex.: 1Rs 1:4). O pedido dos homens de Sodoma é idêntico ao dos homens de Gibeá na história do levita de Juízes 19: “Traga para fora o homem que entrou na sua casa para que tenhamos relações (yada) com ele!” (Jz 19:22).

A resposta de Ló (Gn 19:8) evidencia qual era o sentido de “conhecer” (cf. Gn 4:1; Nm 31:17; Jz 19:22): “Olhem, tenho duas filhas que ainda são virgens [literalmente, ‘que não conheceram homem’, usando yada]” (Gn 19:8).

Assim, “conhecer” aqui significa claramente “ter relações sexuais”, como em Gênesis 4:1. E o fato de Ló oferecer suas filhas virgens como substitutas evidencia qual era a intenção dos homens de Sodoma: praticar sexo com os visitantes.

3. O problema não foi apenas a inospitalidade, mas a imoralidade sexual

O Novo Testamento confirma que o problema de Sodoma foi pecado sexual também, e não apenas xenofobia, inospitalidade e injustiça social:

“De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram à imoralidade [ἐκπορνεύω, ekporneuo] e a relações sexuais antinaturais [lit. ‘ir após outra carne’]. Estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo” (Jd 1:7).

O verbo ekporneuo significa “entregar-se à imoralidade”, “entregar-se à fornicação”, “ser indulgente com a imoralidade grosseira”. Na raiz desse verbo está o substantivo πορνεία (porneia), que significa imoralidade sexual, fornicação, e de onde vem o prefixo da palavra “pornografia”.

A expressão “ir após outra carne” (ἀπελθοῦσαι ὀπίσω σαρκὸς ἑτέρας, apelthousai opisō sarkos heteras) está explicando o “entregar-se à imoralidade”. O termo “outra carne” pode significar atos sexuais antinaturais entre seres humanos e mesmo entre homens e animais. Os canaanitas (Sodoma e Gomorra incluídas) praticavam os dois tipos de pecados (Lv 18:22-29).

Pedro também aponta a imoralidade sexual como motivo para a destruição de Sodoma: “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios; mas livrou Ló, homem justo, que se afligia com o procedimento libertino [ἀσέλγεια, asélgeia] dos que não tinham princípios morais (pois, vivendo entre eles, todos os dias aquele justo se atormentava em sua alma justa por causa das maldades que via e ouvia )” (2Pe 2:6-8).

A palavra grega ἀσέλγεια significa luxúria desenfreada, lascívia, devassidão, sensualidade, licenciosidade (cf. Mc 7:21, 22; Rm 13:13; 2Pe 2:2, 7, 18; Jd 1:4). Claramente a Bíblia vincula a destruição de Sodoma ao aspecto sexual da história.

Pode-se até discutir qual é o sentido mais exato dessas expressões, mas será muito difícil negar que uma das causas da destruição de Sodoma foi a perversão sexual. E, como o único tipo de relação sexual presente no relato de Gênesis é o de homens com homens, há uma forte justificativa para usar esse texto contra a prática homossexual.

No entanto, alguém poderia argumentar que o problema foi o estupro, o sexo não consentido, forçado. Mas textualmente esse argumento é inconsistente, pois o relato afirma que os homens de Sodoma queriam “conhecer” (yada) os homens visitantes, e em hebraico existem expressões e palavras específicas para o estupro (como “forçar”, “humilhar”, “deitar à força com”, etc.), e elas não são usadas com relação a Sodoma.

Certamente a Bíblia descreve a xenofobia de Sodoma e Gomorra como um dos pecados delas, mas não diz que foi o único nem o maior. Com certeza, a hospitalidade é algo muito importante na Bíblia, no AT e no NT (cf. Mt 25:34-40; Rm 12:13; 1Tm 5:10; Hb 13:2), e a falta dela foi um dos motivos para a destruição de Sodoma e Gomorra.

4. Sodoma foi destruída também por causa das práticas sexuais repugnantes

Quando se cita Ezequiel 16, é preciso ler os versos 49 e 50, pois dizem que Sodoma foi arrogante e cometeu abominação (ou prática repugnante). No texto hebraico, há uma diferença significativa entre abominação (to’ebah) e abominações (to’ebot) que não ficou tão clara nas versões em português.[2] Ao falar especificamente de Sodoma e Gomorra, Deus afirma que “eram altivas e cometeram práticas repugnantes [תּוֹעֵבָה, to’ebah; no original, está no singular absoluto] diante de Mim. Por isso eu Me desfiz delas conforme você viu” (Ez 16:50).

Sodoma cometeu práticas repugnantes ou abominação, e essa palavra, to’ebah (no singular), é exatamente a mesma usada para descrever a prática homossexual em Levítico 18:22 e 20:13. Todas as vezes que Ezequiel usa to’ebah no singular ele está se referindo a um pecado sexual (Ez 22:11 e 33:26).[3]

E aqui to’ebah é um pecado adicional à injustiça social do verso 49; um pecado extra, diferente da opressão ao pobre. A “abominação” (singular) do verso 50 não se refere à injustiça social do verso 49, ou seja, to’ebah (singular) não inclui o verso 49, mas as “abominações” (plural) do verso 51 incluem. A palavra to’ebot (plural) no verso 51 resume todos os pecados anteriormente relatados em 49 e 50. Isso é confirmado pelo uso semelhante que Ezequiel faz de to’ebah e to’ebot em Ezequiel 18:10-13.

Ocorre o mesmo em Levítico 18. A prática homossexual é to’ebah (singular) em 18:22, e todas as práticas sexuais proibidas são descritas coletivamente como to’ebot (plural). Essa é uma forte evidência gramatical e intertextual de que Ezequiel 16:49, 50 pode estar falando da prática homossexual em Sodoma como um dos pecados sexuais devido aos quais Deus a destruiu.

O contexto mais amplo de todo o capítulo 16 de Ezequiel também deixa claro que ele está falando de pecados sexuais, especialmente ao falar da lascívia de Jerusalém no verso 43: “Acaso você não acrescentou lascívia [זִמָּה, zimmah] a todas as suas outras práticas repugnantes [תּוֹעֲבוֹת, to’ebot, plural]?” (Ez 16:43b).

A palavra é zimmah, e um de seus significados é “crime lascivo”;[4] e geralmente se refere ao pecado sexual premeditado (Lv 18:17; 20:14; Jz 20:6; Ez 16:27, 58; 22:9; 23:27, 29, 35, 44, 48; 24:13).

Finalmente, o argumento pode ser resumido assim:

a) Ezequiel afirma que Sodoma foi destruída também por causa de to’ebah.
b) Em Ezequiel, to’ebah é pecado sexual.
c) Então, Ezequiel quer dizer que Sodoma foi destruída também por seus pecados sexuais, o que é confirmado no NT.

A esse silogismo acrescente-se que a única atividade sexual em Sodoma registrada no relato do Gênesis é a tentativa de prática homossexual: homens queriam ter relações sexuais (yada) com outros homens. Assim, Ezequiel 16 deixa claro que Sodoma foi destruída por causa de to’ebah, práticas sexuais repugnantes, além da inospitalidade e da injustiça social.

5. Os livros apócrifos confirmam: não foi apenas falta de hospitalidade

Assim como a Bíblia, os livros apócrifos e pseudoepígrafos afirmam que o pecado de Sodoma e Gomorra também foi de imoralidade sexual: Jubileus 16:5, 6 e 20:5, 6; Testamento de Benjamin 9:1 e Testamento de Levi 14:6:

“E nesse mês o Senhor executou julgamento em Sodoma e Gomorra […] eles se profanavam mutuamente, cometendo fornicação e impureza em sua carne sobre a terra” (Jubileus 16:5, 6).

“E ele [Abraão] contou a eles sobre o julgamento dos gigantes, e sobre o julgamento dos sodomitas, como eles haviam sido julgados devido à maldade, e haviam morrido devido a fornicação, e impureza, e corrupção mútua pela fornicação. E guardem-se de toda fornicação e impureza, e de toda poluição do pecado, para que não tornem nosso nome em maldição, e suas próprias vidas um assobio, e seus filhos a serem destruídos pela espada, e vocês se tornem malditos como Sodoma, e seu remanescente como os filhos de Gomorra” (Jubileus 20:5, 6).

“Deduzo a partir das Palavras de Enoque o justo que vos dareis a práticas não boas. Fornicareis ao estilo de Sodoma e perecereis exceto por uns poucos” (Testamento de Benjamim 9:1).

“Ensinareis os mandamentos do Senhor por avareza, profanareis a mulheres casadas, manchareis as virgens de Jerusalém, e vos unireis a prostitutas e adúlteras. Tomareis como mulheres as filhas dos gentios, purificando-as com uma purificação ilegal, e vossa união será como as de Sodoma e Gomorra, por causa da impiedade” (Testamento de Levi 14:6).

Conclusão

A destruição de Sodoma não se trata de um debate “homossexualidade ou inospitalidade”, mas foi um caso de perversão sexual (prática homossexual incluída) e inospitalidade.

(Isaac Malheiros é doutor em Teologia e aluno de PhD em Religious Education pela Andrews University; Reação Adventista)

Referências:

1. Outros textos falam sobre ser alguma coisa: os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores (Gn 13:13); ímpios, libertinos e sem princípios morais (2Pe 2:6, 7), imorais (Jd 1:7).
2. Na versão NVI, usada aqui, a expressão é “práticas repugnantes”, sem diferenciar singular e plural.
3. “Um homem comete adultério [to’ebah] com a mulher do seu próximo, outro contamina vergonhosamente a sua nora, e outro desonra a sua irmã, filha de seu próprio pai” (Ez 22:11); “Vocês confiam na espada, cometem práticas repugnantes [to’ebah], e cada um de vocês contamina a mulher do seu próximo. E deveriam possuir a terra?” (Ez 33:26). Em Levítico, tanto to’ebah (singular) quanto to’ebot (plural) referem-se a pecados sexuais.
4. Segundo alguns léxicos hebraicos, outros significados relacionados às práticas sexuais são: licenciosidade, adultério, prostituição, falta de castidade e incesto.

Para um estudo abrangente sobe sexualidade numa perspectiva bíblico-adventista, leia Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (clique aqui).