Separando o trigo do joio

Moisés relatou sua morte?

Se Moisés é considerado o autor do livro de Deuteronômio, como ele mesmo poderia ter narrado a sua morte?

A inspiração não revelou quem foi o autor dos últimos versículos de Deuteronômio. Alguns comentaristas têm opinado que Moisés escreveu essa porção do livro antes de morrer; outros creem que Josué ou algum outro autor anônimo o teria acrescentado posteriormente, como epílogo do Pentateuco. Qualquer das posições está em plena harmonia com a maneira como o Espírito Santo tem procedido em outras ocasiões. No entanto, certas expressões usadas nos versos 6-12 parecem ser mais bem entendidas se se considerar que Josué foi o autor:

1. As palavras “ninguém conhece o lugar de sua [de Moisés] sepultura ate hoje” (v. 6) refletem o interesse por parte dos que viveram depois da morte de Moisés em conhecer o lugar do sepulcro. É mais razoável pensar que essa declaração foi escrita por outra pessoa depois da morte de Moisés – uma pessoa inspirada, certamente – do que crer que tenha sido escrita por Moisés mesmo, antes desse acontecimento.

2. As palavras do verso 9, que dão testemunho da autoridade de Josué e de sua habilidade como dirigente, parecem ser mais um simples registro histórico da transição da liderança que uma predição a respeito desse fato. Na descrição feita por Moisés das vicissitudes futuras das doze tribos (cap. 33), ele fala em linguagem claramente profética (v. 10, 12, 19, etc.); nesta passagem, a linguagem é de um relato histórico.

3. As palavras “e nunca mais se levantou profeta em Israel como Moisés” (v. 10) parecem mais apropriadas como um elogio feito por Josué ou alguma outra pessoa que por Moisés mesmo.

Assim como aconteceu com o livro de Romanos, de autoria de Paulo, mas redigido por Tércio, o Espírito Santo pode ter guiado Josué na redação dos últimos versículos de Deuteronômio, assim como havia dirigido Moisés na escritura da porção anterior do livro, ou como mais tarde dirigiu Josué para escrever o livro que leva seu nome.

(Extraído do Comentário Bíblico Adventista em espanhol, v. 1, p. 1091)

Deus aprovou o consumo de bebida forte?

“Comprem tudo o que quiserem: vacas, ovelhas, vinho ou bebida forte.” Deuteronômio 14:26

O “vinho” e a “bebida forte” mencionados nestes versículos eram fermentados. No passado, muitas vezes Deus relevou a ignorância que motivava práticas que Ele não aprova. Mas, finalmente chega a hora quando Deus “notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam” (At 17:30). Então, os que persistem no erro, a despeito de conselhos e advertências, não mais “têm desculpa do seu pecado” (Jo 15:22). Antes disso, não tinham pecado e Deus não os considerava responsáveis mesmo que suas ações estivessem longe de ser ideais. A longanimidade se estende a todos mesmo os que “não sabem o que fazem” (Lc 23:34). Como Paulo, que perseguiu a igreja “na ignorância, na incredulidade”, eles podem obter misericórdia (1Tm 1:13).

Deus tolerou que os israelitas tivessem escravos, mas os protegia contra injustiças (Êx 21:16, 20). Mesmo na igreja cristã, a escravidão não foi abolida de imediato, mas os senhores eram instruídos a tratar bem seus escravos (Ef 6:9; Cl 4:1).

Do mesmo modo, Deus nunca aprovou o divórcio e a poligamia. “Não foi assim desde o princípio” (Mt 19:8). Deus, porém, tolerou isso por certo tempo e deu instruções designadas a salvaguardar os direitos das mulheres, para diminuir o sofrimento que resultava dessas práticas e proteger o casamento de abusos maiores (Êx 21:7-11; Dt 21:10-17). Se, por um lado, Deus não proibiu Abraão de ter uma segunda esposa, Agar, por outro, Ele não o protegeu dos males que resultaram dessa ação.

“Por intermédio de Moisés, Deus promulgou leis destinadas, não a abolir diretamente a poligamia, mas a desencorajá-la (Lv 18:18; Dt 17:17), a restringir o divórcio (Dt 22:19, 29; 24:1) e a elevar a norma da vida matrimonial (Êx 20:14, 17; Lv 20:10; Dt 22:22). Cristo deixou claro que as disposições do AT acerca da poligamia e do divórcio não eram ideais, mas sim uma solução temporária tolerada por Deus “por causa da dureza do vosso coração” (Mt 19:4-8). Cristo afirmou que o ideal de um lar cristão (Mt 19:9) sempre foi a monogamia (Mt 19:4-6; 1Tm 3:2; Tt 1:6). O cristão não deve ter dúvidas quanto à vontade de Deus nessas questões, e, portanto, não tem nem a limitada desculpa da época do AT.

O mesmo pode ser dito sobre o vinho e a bebida forte. Nenhum era estritamente proibido, exceto para quem desempenhava tarefas religiosas e também para os que se ocupavam na administração da justiça (Lv 10:9; Pv 31:4, 5). O mau do “vinho” e da “bebida forte” foi claramente assinalado, e o povo foi aconselhado a se abster dessas bebidas (Pv 20:1; 23:29-33). Uma maldição foi pronunciada sobre os que incitassem outros a beber (Hc 2:15). Paulo afirma: “Quer comais, quer bebais, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10:31); ele adverte que Deus destruirá os que destroem o corpo (1Co 3:16, 17). As bebidas embriagantes “destroem o santuário de Deus” e seu uso não pode ser considerado um meio de glorificar a Deus (1Co 6:19, 20; 10:31). Paulo abandonou o uso de tudo o que era prejudicial ao corpo (1Co 9:27). Não há desculpa para o argumento de que não há nada de errado em usar bebida alcoólica, alegando-se que Deus uma vez permitiu isso. Como observado, Ele também permitiu práticas como a escravidão e a poligamia. A Bíblia adverte que os “bêbados” não “herdarão o reino de Deus” (1Co 6:10).

(Comentário Bíblico Adventista, v. 1 – Casa Publicadora Brasileira)

Leia também: “Bebidas alcoólicas: uma abordagem bíblica”

Chave hermenêutica: as Escrituras

A única serventia da tal chave hermenêutica é revelar o grau de comprometimento que se tem para com a Palavra de Deus.

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Para quem deseja mais informação, essa coisa do filtro do evangelho, de Jesus como a chave hermenêutica ou do princípio cristocêntrico (ou crucicêntrico) foi popularizada poucos anos atrás nos Estados Unidos pelo pastor e escritor progressista (pós-moderno) Greg Boyd. Na obra The Crucifixion of the Warrior God (A Crucificação do Deus Guerreiro), em dois volumes, ele sustenta que tudo na Bíblia deve ser avaliado a partir da revelação suprema do amor de Deus em Cristo Jesus, um amor não violento e que se sacrifica a si mesmo pelos outros. Ou seja, as Escrituras devem ser lidas pelas lentes da cruz e qualquer coisa – mesmo se atribuída a Deus – que, na visão de Boyd, não se ajusta ao princípio da cruz, deve ser rejeitada como incorreta, culturalmente condicionada e mesmo demonicamente induzida.

O problema de Boyd é com o que ele chama de “lado escuro” do Antigo Testamento, que são as passagens em que Deus é retratado como exercendo juízo de forma violenta (como o dilúvio, a rebelião de Coré, Sodoma e Gomorra, etc.). Para Boyd, a cruz demonstra que Deus não condena. Ele apenas ama. Logo, os relatos bíblicos em que Deus parece condenar pecado e pecadores são falsas representações do caráter divino. Na verdade, afirma Boyd, não era Deus. Eram forças satânicas em operação e, ao creditar o relato a Deus, o escritor humano (Moisés, Josué, Samuel, etc.) está apenas evidenciando sua própria obstinação e perversidade.

Boyd defende o mesmo com relação ao Novo Testamento. O que temos aqui, porém, nada mais é que uma rejeição sumária da autoridade divina e sua substituição pela autoridade humana. É o homem querendo decidir o que é correto e o que não é, o que é “bíblico” e o que não é. Se não condiz com minha mentalidade liberal quanto ao que é pecado e o que não é, eu rejeito!

O tema é amplo, mas gostaria de perguntar de novo (veja meu post anterior, “O filtro do evangelho”): Onde está o apoio bíblico para esse pseudocritério de interpretação? Simplesmente não existe!

Pelo contrário, Jesus explicitamente afirmou que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17), que a Escritura não pode falhar (10:35), que mesmo as menores partes da Escritura continuam válidas (Lc 16:17), que Ele viera para Se submeter à Escritura (Mt 5:17) e que enquanto durassem os céus e a terra nada seria tirado da Escritura (v. 18). Ele reconheceu a autoridade de Moisés e afirmou que os escritos dele seriam a norma no juízo final (Jo 5:45-47). E pouco antes de morrer, Ele orou para que Seus discípulos fossem santificados na verdade, acrescentando que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17:17). Ou seja, Jesus jamais sequer insinuou que o Antigo Testamento possa conter concepções distorcidas sobre o caráter de Deus ou não ser autoritativo em tudo o que diz (cf. 2Tm 3:15, 16; Tt 1:2; Hb 6:18; 2Pd 1:19-21).

Não há dúvida de que Jesus é o centro da Escritura e do plano redentor (Jo 5:39, 46; 2Tm 3:15), mas usar isso para excluir passagens ou conceitos bíblicos só porque eles não condizem com as minhas preferências pessoais é brincar de Deus (cf. Gn 3:15). A única serventia da tal chave hermenêutica, portanto, é revelar o grau de comprometimento que se tem para com a Palavra de Deus.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

IASD reafirma confiança na Revelação divina

Durante as reuniões da Conferência Geral, que estão sendo realizadas nesta semana nos Estados Unidos, representantes da Igreja Adventista do Sétimo dia de todo o mundo votaram duas resoluções que reafirmam a confiança da igreja na revelação divina:

RESOLUÇÃO SOBRE A BÍBLIA SAGRADA

Como delegados da Sessão da Conferência Geral de 2022 em St Louis, Missouri, expressamos nossa convicção de que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada e revelada. Através das Sagradas Escrituras, Deus revelou a Si mesmo e Sua vontade à humanidade. A Bíblia toda é inspirada e deve ser entendida como um todo para se chegar a conclusões corretas quanto à verdade sobre qualquer assunto revelado. A Bíblia é confiável no que afirma. Seu registo da criação em seis dias literais, a queda dos seres humanos, um dilúvio global para destruir a maldade e preservar um remanescente, a vida terrena, morte e ressurreição de Cristo, bem como as numerosas intervenções de Deus na história para a salvação dos seres humanos são relatos confiáveis dos atos de Deus na história (Lucas 24:27; Hebreus 1:1, 2; 2 Pedro 1:21). Profeticamente, o cumprimento de eventos preditos de acordo com períodos de tempo proféticos estabelece a confiança na Bíblia como um testemunho único da verdade divina, diferentemente de qualquer outro livro religioso (Isaías 46:9, 10; Daniel 2, 7, 8; Lucas 24:44; 2 Pedro 1:19, 20).

Acreditamos que a Bíblia é a Palavra profética de Deus e por meio dos profetas do Antigo Testamento, os apóstolos do Novo Testamento, e principalmente por meio de Seu Filho, Jesus Cristo, Deus revelou como Ele agirá para a salvação dos seres humanos e executar julgamento sobre a maldade.

Comprometemo-nos a, em espírito de oração, estudar e seguir a Bíblia, a Palavra viva e eficaz de Deus. É proveitosa para doutrina, repreensão, correção e instrução em justiça. Permanece para sempre como um testemunho da vontade de Deus, Sua lei, Seus pensamentos e Seus propósitos para os seres humanos e para o nosso mundo, e contém os tesouros da eterna sabedoria e graça (Isaías 40:8; 1 Tessalonicenses 2:13; 2 Timóteo 3:16, 17). Seus princípios e ensinamentos são aplicáveis em todos os tempos, todos os lugares, todos os idiomas e todas as culturas para todas as pessoas. Fala de forma confiável e relevante hoje como no passado, e continuará a falar enquanto o tempo durar.

Também acreditamos que a Bíblia nos leva a um relacionamento vivo com Deus por meio de Jesus Cristo. E pelo Espírito Santo a Bíblia fala diretamente a cada pessoa para revelar o plano de salvação e restaurar os crentes à imagem de Deus. Assim, a Bíblia permanece como a norma para toda experiência religiosa na medida em que revela e ensina a verdade e explica como seus efeitos se manifestam no intelecto, sentimentos e afeições (Hebreus 4:12; Gálatas 5:22, 23).

Expressamos nossa profunda gratidão ao Senhor porque nas Escrituras encontramos esperança para viver em meio aos desafios do mundo. A Bíblia fala do plano de Deus para conceder imortalidade ao Seu povo na segunda vinda de Cristo e, finalmente, após o milênio no céu, para acabar com o pecado e os pecadores para sempre e estabelecer a justiça na nova Terra (Salmo 119:105; Romanos 15:4; Hebreus 4:12; Tiago 1:18).

DECLARAÇÃO DE CONFIANÇA NOS ESCRITOS DE ELLEN G. WHITE

Como delegados da Sessão da Conferência Geral de 2022 em St Louis, Missouri, expressamos nossa profunda gratidão pela orientação profética de Deus na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Com o objetivo de viver “de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4:4 NKJV; cf. Lucas 10:16), levamos a sério as passagens bíblicas que ensinam a natureza permanente do dom de profecia (Romanos 12:6; 1 Coríntios 12:10, 28; Efésios 4:11-14) e prometem sua manifestação no fim dos tempos (Joel 2:28-31; Apocalipse 12:17; 19:10; 22:9). Reconhecemos o dom de profecia na vida e ministério de Ellen G. White (1827-1915).

Acreditamos que os escritos de Ellen G. White foram inspirados pelo Espírito Santo e são centrados em Cristo e fundamentados na Bíblia. Em vez de substituir as Escrituras, eles exaltam seu caráter normativo, protegem a Igreja de “todo vento de doutrina” (Efésios 4:14) e oferecem um guia inspirado para passagens bíblicas sem esgotar seu significado ou impedir um estudo mais aprofundado. Também nos ajudam a superar a tendência humana de aceitar na Bíblia o que gostamos e distorcer ou desconsiderar o que não gostamos.

Comprometemo-nos a estudar em espírito de oração os escritos de Ellen G. White com o coração disposto a seguir os conselhos e as instruções neles encontrados. Seja individualmente, em família, em pequenos grupos, na sala de aula ou na igreja, acreditamos que o estudo de seus escritos nos aproxima de Deus e de Sua Palavra infalível – as Escrituras –, proporcionando-nos uma experiência transformadora e edificante na fé.

Regozijamo-nos no Senhor pelo que já foi realizado na circulação global e local dos escritos de Ellen G. White em formatos impressos e eletrónicos, incluindo egwwritings.org e aplicativos relacionados. Incentivamos o desenvolvimento contínuo de estratégias mundiais e locais para promover a circulação e o estudo de seus escritos no maior número possível de idiomas. O estudo desses escritos é um meio poderoso para fortalecer e preparar o povo de Deus para enfrentar os desafios destes últimos dias à medida que nos aproximamos do breve retorno de Cristo.

O filtro do evangelho

Essa coisa do filtro não passa de uma cortina de fumaça para tentar encobrir preferências e arbitrariedades pessoais.

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Quem foi que disse que temos que usar o evangelho como filtro para definir quais declarações bíblicas aceitar e quais não? Jesus é que não foi! Sendo assim, o suposto princípio interpretativo não passa no próprio teste. E nem poderia, porque Jesus reconhecia plenamente a inspiração e a autoridade das Escrituras de Seus dias, o Antigo Testamento. Já tratei disso num post anterior (“Jesus e as Escrituras”). Ele jamais relativizou ou minimizou o que os profetas disseram (Mt 5:17-20; Lc 16:31; Jo 5:39-46). Além disso, pouco antes de concluir Seu ministério, Jesus conferiu autoridade apostólica aos Doze e os tornou depositários de Seus ensinos (Mc 3:14-19; cf. Mt 10:1-4; Lc 6:13-16; Jo 6:70). Ele inclusive deu a eles “as chaves do reino” (Mt 16:19), autorizando-os a ensinar e preparar pessoas para o reino dos céus (cf Lc 24:47-49; Jo 20:23). E acrescentou: “Quem ouve vocês ouve a Mim; e quem rejeita vocês é a Mim que rejeita; quem, porém, Me rejeita está rejeitando Aquele que Me enviou” (Lc 10:16; cf. Jo 13:20).

Dizer que os escritos apostólicos precisam eles mesmos passar pelo crivo do evangelho soa, no mínimo, contraditório. Afinal, como foi que o evangelho chegou até nós se Jesus mesmo não deixou nada escrito – nenhuma autobiografia ou coleção de ensinos? O evangelho chegou até nós justamente por meio daqueles a quem Jesus chamou, preparou e inspirou para serem Suas testemunhas (Lc 1:1-4; Jo 20:30-31; 21:24; cf. Jo 14:25-26; 15:26; 16:12-15; 20:22).

Sem os apóstolos, portanto, incluindo-se o temporão Paulo (1Co 15:8; cf. 9:1-2; 2 Co 12:11-12), não haveria evangelho, tampouco haveria Cristo.

A objeção maior é a Paulo, o apóstolo que mais fez para universalizar e sistematizar a fé cristã. Paulo é questionado porque ele identifica o pecado de uma forma que não condiz com a agenda liberal. Mas quem chamou e comissionou Paulo não foi outro senão o próprio Jesus, e quem conta a história é Lucas, o mesmo que escreveu o terceiro evangelho (At 9:3-6, 15; 22:6-10; 26:12-18). Ou seja, essa coisa do filtro não passa de uma cortina de fumaça para tentar encobrir preferências e arbitrariedades pessoais. O resultado não é cristianismo, mas uma caricatura grotesca do cristianismo.

(Dr. Wilson Paroschi; Instagram)

Análise do vídeo “Mudando a Palavra”, de Walter Veith

O Textus Receptus é tão superior aos demais? As Bíblias modernas devem ser encaradas com suspeita?

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Respeito a pessoa e a biografia do ex-ateu e zoólogo Dr. Walter Veith. A análise que segue diz respeito à palestra “Mudando a Palavra”, apresentada por ele cerca de dez anos atrás, mas que ainda influencia muitas pessoas nos dias atuais. A tônica da palestra consiste na crítica ao trabalho de “atualização” da Bíblia feito por Brook Foss Westcott (1825-1903) e Fenton John Anthony Hort (1828-1892), ministros anglicanos professores da Cambridge University, acusados por Veith e outros de darwinistas, defensores do purgatório, das orações pelos mortos e do culto a Maria, e descrentes da inspiração dos autores bíblicos. Algumas versões/traduções bíblicas em linguagem contemporânea derivam (às vezes em parte) dessa versão de Westcott e Hort. Assim, o Dr. Walter Veith tece inúmeras críticas às versões modernas e exalta repetidamente a antiga versão anglicana King James (KJV), publicada em 1611 e que tem como base textual o Textus Receptus (série de textos do Novo Testamento em grego impressos entre os séculos 16 e 19, e que serviu de base para várias traduções da Bíblia além da King James, como a Bíblia de Lutero e a João Ferreira de Almeida; a primeira edição desse texto foi feita pelo padre e filósofo humanista Erasmo de Roterdã (1467-1536), em 1516, que usou seis manuscritos gregos disponíveis em Basileia e a Vulgata latina para traduzir a parte final do Apocalipse).

Será que a King James é realmente a única versão confiável, como Veith faz parecer? Será que todas as versões modernas foram tão adulteradas que merecem ser chamadas de “demoníacas”, como ele afirma?

O erudito adventista Johannes Kovar, em artigo para o Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral, destaca a história do Textus Receptus para questionar o valor superestimado que lhe é atribuído. “Para a publicação de seu texto, Erasmo [de Roterdã (1467-1536)] confiou em [apenas] seis manuscritos datados entre os séculos 11 e 15 [ou seja, cópias com afastamento superior a mil anos desde que o texto foi escrito], estando bem ciente de sua qualidade inferior. Nenhum desses manuscritos era completo, e Erasmo mudou o texto grego aqui e ali, frequentemente de acordo com a Vulgata Latina. Os manuscritos que Erasmo usou, incluindo as anotações que fez neles, ainda existem, de forma que seu trabalho pode ser analisado de maneira relativamente fácil.”

O Dr. Wilson Paroschi afirma que com a descoberta de manuscritos mais antigos, o trabalho de Erasmo em seu Textus Receptus perdeu espaço: “Apesar de os críticos ainda divergirem com relação a algumas das teorias textuais, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, sob os mais violentos protestos, romperam definitivamente com o Textus Receptus.”

Segundo o Dr. Paroschi, que há décadas estuda e ensina crítica textual, sendo autor de um dos mais respeitados livros nessa área, ao contrário do que dizem os defensores do Textus Receptus, o Códice Sinaítico tem um dos melhores textos, próximo ao do Códice Vaticano. Ambos são superiores aos demais porque o texto deles remonta a manuscritos do segundo século. Existem inúmeros papiros (completos e fragmentários) do segundo século, e o texto dos códices Sinaítico e Vaticano é apoiado por esses papiros. “Do ponto de vista da evidência material e documental, há evidências de sobra de que o Textus Receptus de Erasmo é tardio e inferior, já ‘viciado’ por copistas. As versões mais modernas são, sim, baseadas em manuscritos antigos muito melhores”, afirma Paroschi. E completa: “O que se diz de Wescott e Hort dá a impressão de que antes e depois deles ninguém fez nada. Isso é pura desinformação.”

Como se pode ver, as coisas não são tão preto no branco como Veith faz parecer em seu vídeo, sendo uma versão totalmente confiável e as outras deprezíveis. A verdade é que nenhuma tradução será perfeita e sempre haverá detalhes a serem estudados e explicados (como, por exemplo, a vírgula mal posicionada em Lucas 23:43, em algumas versões). No entanto, cremos que Deus milagrosamente trabalhou para que Sua Palavra fosse preservada em seu todo, de modo que as variações e os erros de tradução não comprometessem a obra que a Bíblia precisa realizar e vem realizando, haja vista o grande número de pessoas que se convertem ao Evangelho lendo qualquer uma das versões/traduções (eu me converti lendo inicialmente uma Bíblia católica traduzida da Vulgata Latina). 

Infelizmente, em sua palestra, Veith mais causa alarde e sensacionalismo do que esclarece e confirma a fé na Palavra de Deus. Esse não é o tipo de tema que se deva analisar em público e sem o devido equilíbrio. O efeito colateral pode ser a descrença e o desprezo em relação às versões mais contemporâneas da Bíblia, por um lado, e a idolatria da King James, por outro.

Conforme questiona o doutor em Teologia Heraldo Lopes, reitor da Universidade Adventista de Moçambique, “Satanás tem poder para alterar o texto bíblico e Deus não tem poder para cuidar? Então quem garante que o que temos é divino e não satânico? O mesmo Deus que inspirou os autores e cuidou do texto deixou milhares de manuscritos para vermos como é realmente a Palvra de Deus. Esses ataques que surgem podem causar um efeito muito perigoso, pois vão gerando na mente nas pessoas a ideia de que a Bíblia não é confiável, e de que dependeríamos de documentos secretos e de denunciadores para dizer que alguns versos não são confiáveis, quando bastaria um estudo comparativo para selecionar as melhores versões. Ou seja: para eles o diabo teve poder sobre a Palavra de Deus. É isso o que cremos? É isso o que Ellen White ensinou sobre o assunto?” Mais adiante veremos o que Ellen escreveu a respeito disso.

Compartilho a seguir algumas impressões em relação à análise do discurso na palestra de Veith e aponto algumas inconsistências e erros na fala dele:

<> Veith diz que muitas alterações foram feitas para minimizar o poder de Jesus. Só que esse foi um péssimo trabalho de Satanás, pois é possível provar a divindade de Cristo mesmo na Tradução Novo Mundo das antitrinitarianas testemunhas de Jeová.

<> Existem variações e até falhas nas traduções, mas creio que Veith maximiza demais o assunto. As variantes não são assim tão drásticas como ele faz parecer. Ele mesmo começa dizendo que se converteu lendo a NIV (New International Version). Eu me converti lendo uma Bíblia Paulinas traduzida da Vulgata, como já disse.

<> Ele suspeita o mal e tenta justificar a mudança em todos os textos. Soa quase onisciente. No minuto 52’20”, ele diz: “Vocês acham que isso é só um erro de interpretação? Eu não ACHO.” Essa técnica dele é conhecida. Lança a pergunta, questiona, e mais adiante afirma. Sabe onde vi muito essa técnica de “lavagem cerebral”? No livro Eram os deuses Astronautas. Däniken faz exatamente isso. Ele lança algo no ar numa página e uma ou duas páginas depois afirma o que havia perguntado. Anos atrás, quando ainda não era adventista e li esse livro, já havia percebido a manipulação. Se Veith faz isso consciente ou inconscientemente, não posso afirmar.

<> Mesmo o “hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:43) pode não ter sido escrito por pura maldade. Pode ter sido a crença dos tradutores que interferiu. Como há inúmeros textos para comparação, fica fácil mostrar o problema às pessoas.

<> Para Veith, em todas as variantes há uma intenção oculta por trás; que os ocultistas mexeram em um monte de textos. Não consigo aceitar isso. É um diabo muito forte! Hoje as Bíblias mais vendidas são as “adulteradas” e não a King James. O diabo venceu?

<> Sinceramente, para mim, uma palestra dessa presta mais desserviço do que bênção. É assunto para se discutir numa aula de teologia. O resultado está aí: confusão. O mesmo tipo de resultado observado com o vídeo em que Veith sugere o ano de 2027 para a volta de Jesus (confira).

<> Em 58’40”, Veith aponta que na Bíblia jesuítica Douay, na Revised Standard Version (RSV) e na NIV não aparece “segundo a ordem de Melquisedeque”. Ele diz que os maçons de grau elevado são iniciados na ordem de Melquisedeque e que, portanto, deram um jeito de rebaixar Jesus na Douay. Esses maçons são sempre muito poderosos!

<> Em 1h03, ele tenta explicar Hebreus 11:3 e se confunde, trazendo inclusive a controvérsia criação x evolução para a discussão. A King James traduz assim o verso: “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela Palavra de Deus.” A RSV fala em “séculos” e a NIV diz “universo”. O texto grego de fato descreve a criação do tempo (espaço/tempo) e não dos mundos. Logo em seguida, Veith tenta descredibilizar uma explicação de Westcott, que, nesse caso, está certa. E ainda distorce o sentido da palavra “evolução” usada no texto de Westcott. Aqui fizeram falta conhecimentos da língua original e de cosmologia. Vejamos:

<> A palavra αἰῶνας (aiônas), traduzida como “mundos” pela King James em Hebreus 11:3, tem o sentido original de “eras” ou “tempo”, e apenas por implicação pode significar “mundos” (Isidro Pereira, S. Dicionário grego-português e português-grego. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1969).

<> Hebreus 11:3 diz que Deus criou as eras (tempo, eternidade). Ainda sobre o tempo, o astrofísico Eduardo Lütz afirma que “o tempo é um dos atributos do Universo. Existe uma profunda conexão entre a criação do tempo e a criação do Universo, não tem como separá-los. Se o tempo não teve um início, Deus não criou o que chamamos hoje de Universo, pois o tempo depende do Universo para existir”. Em outras palavras, segundo o astrofísico, “tempo pode existir sem matéria, mas matéria não pode existir sem tempo”.

<> Em terceiro lugar, espaço-tempo é o “material” com que foi “tecido” (katarithmeo) o universo. Não existe tempo sem espaço. Não existe Universo sem espaço-tempo. Não existe espaço-tempo sem Universo. Tempo é só mais uma das coisas que fazem parte da criação. Portanto, Hebreus 11:3 na King James está mal traduzido e a má tradução é impropriamente defendida por Veith.

<> Em 1h06, de novo vemos um levantamento de hipótese sem confirmação (algo recorrente nos vídeos de Veith): “Vocês não acham que aqui há um ataque sutil a Jesus Cristo? Ou talvez um ataque não tão sutil? Talvez seja um ataque aberto a Jesus Cristo.” Aí ele frequentemente diz: “Só estou perguntando…”

<> “Quanto às traduções modernas e comentários, a própria Sra. White os utilizava. Você encontrará várias citações extraídas de outras versões bíblicas, além da King James Version, em muitos de seus trabalhos mais recentes, quando aquelas versões estavam disponíveis. Ocasionalmente, ela também consultava comentários bíblicos” (William Fagal, 101 Perguntas Sobre Ellen White e Seus Escritos, p. 195). Ellen usou amplamente a versão mais disponível e popularizada no tempo dela: a King James, mas recebeu com satisfação e usou também versões mais novas que iam surgindo. Tenhamos a mesma postura equilibrada da serva do Senhor e não causemos alarde desnecessário.

Falando nela, vejamos um texto que pode nos ajudar a ter uma atitude equilibrada em relação a esse assunto: “Alguns nos olham seriamente e dizem: ‘Não acha que deve ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?’ Tudo isso é provável, e a mente que for tão estreita que hesite e tropece nessa possibilidade ou probabilidade estaria igualmente pronta a tropeçar nos mistérios da Palavra Inspirada, porque sua mente fraca não pode ver através dos desígnios de Deus. Sim, com a mesma facilidade tropeçariam em fatos simples que a mente comum aceita e em que discerne o Divino, e para quem as declarações de Deus são simples e belas, cheias de essência e riqueza. Mesmo todos os erros não causarão dificuldade a uma pessoa, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada. Deus confiou o preparo de Sua Palavra divinamente inspirada ao homem finito. Esta Palavra, arranjada em livros – o Antigo e o Novo Testamentos – é o guia para os habitantes de um mundo caído, a eles legado para que, mediante o estudar as direções e obedecer-lhes, pessoa alguma perdesse o caminho do Céu” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 16, 17).

“O Senhor fala aos seres humanos em linguagem imperfeita, a fim de os sentidos degenerados, a percepção pesada, terrena, dos seres da Terra poderem compreender-Lhe as palavras. Nisto se revela a condescendência de Deus. Ele vai ao encontro dos caídos seres humanos onde eles se acham. Perfeita como é, em toda a sua simplicidade, a Bíblia não corresponde às grandes ideias de Deus; pois ideias infinitas não se podem corporificar perfeitamente em finitos veículos de pensamento. Em lugar de as expressões da Bíblia serem exageradas, como julgam muitos, as fortes expressões se enfraquecem ante a magnificência da ideia, embora o escritor escolha a mais expressiva linguagem para transmitir as verdades da educação mais elevada. Os seres pecadores só podem suportar olhar a sombra do brilho da glória celeste” (Ellen G. White, Carta 121, 1901).

Para o Dr. Heraldo, “o Textus Receptus teve seu papel, mas depois foram descobertos muitos manuscritos. O texto base para o Novo Testamento da Almeida Revista e Atualizada e da Nova Almeida Atualizada é o da United Bible Societies (UBS); e desde 1952, quando o texto de Nestle passou a ser Nestle-Aland, ele segue uma linha muito adotada pelos protestantes. Logo, dizer que o Receptus é ainda o melhor texto é ignorar tudo de bom que se descobriu depois e foi sendo acrescentado e melhorado. É como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais. As versões que usamos não se baseiam em Westcort-Hort. É só verificar as diferenças entre o texto da UBS e de Westcort-Hort. São diferentes”.

O Intituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral (órgão oficial da IASD em âmbito mundial) publicou o artigo “The Textus Receptus and modern Bible translations” (aqui). Cito a seguir alguns trechos bastante esclarecedores:  

“Ele chega a essa posição [tratada acima] em parte por causa de certas teorias da conspiração, que ele defende, e não com base em um estudo dos manuscritos gregos originais.”

“Sua tradução difere substancialmente do texto encontrado nos manuscritos. Há palavras no texto de Erasmo que hoje não são encontradas em um único manuscrito grego. Quem considera o Textus Receptus como o texto original inspirado do Novo Testamento tem que acreditar que o texto original grego do NT era desconhecido até o ano de 1516, e deve aceitar o sacerdote católico e humanista Erasmo como um escritor inspirado do Novo Testamento.”

“Um dos primeiros grandes hereges, Marcião, veio originalmente da Ásia Menor. Portanto, é incorreto concluir que a Ásia Menor e a Grécia garantiram a ortodoxia. Por outro lado, o bispo de Alexandria excomungou Orígenes, mantendo assim a ortodoxia. Mais tarde, na disputa cristológica, o alexandrino Atanásio demonstrou novamente que o Egito aderiu a posições teológicas saudáveis. A ideia de que as descobertas no Egito implicam que os manuscritos também foram escritos lá não pode ser provada e não é provável.”

“Em 1881, [Westcott e Hort] publicaram uma edição do NT grego que causou sensação entre os estudiosos. Ela foi muito atacada, mas, no geral, foi recebida como a mais próxima do texto original do NT. Seu texto lançou as bases para as edições posteriores de Nestlé e Aland. Embora a alegação de que fossem espiritualistas não possa ser comprovada pelo exame histórico, os ‘ativistas da King James somente’ perpetuam constantemente essa ideia.”

“As diferenças entre as traduções das Bíblias baseadas no Textus Receptus e as que seguem o texto eclético não são graves. Apenas muito poucas passagens são de maior significado. Estima-se que 98% do texto do NT não revele variações apreciáveis. Os ‘campeões do Textus Receptus’ muitas vezes levam as diferenças muito a sério.”

“Palavras teologicamente duvidosas no Textus Receptus. Há casos em que o texto majoritário é problemático. O Textus Receptus de João 5:3, 4 diz: ‘Pois um anjo descia em certo tempo ao tanque e agitava as águas’ (KJV). Esse texto está ausente nas Bíblias modernas ou é relegado às notas de rodapé. No entanto, a leitura da KJV resulta em uma teologia alarmante: Deus é arbitrário, recompensando os fortes e punindo os fracos. Curiosamente, Ellen G. White também questiona esse texto [no Desejado]. Ela explica que o texto retrata a tradição popular e claramente não acredita em uma obra divina. Não há fundamento para afirmar que o Textus Receptus é mais ortodoxo.”

“Ellen White citou a English Revised Version (ERV) e a American Revised Version (ARV, 1901), também conhecida como American Standard Version [ASV]), ambas baseadas no texto grego Westcott-Hort do NT. Ela deu instruções específicas à sua secretária para usar a versão que melhor refletisse suas ideias. Em seu livro The Ministry of Healing (1905), ela usou dez textos bíblicos da ERV, mais de cinquenta da ARV e alguns textos de outras versões. Isso prova que ela não se limitou à KJV. Quando mais tarde ela fez declarações importantes sobre inspiração (Mensagens Escolhidas, v. 1, e a introdução de O Grande Conflito), ela não advertiu contra novas traduções. Evidentemente, ela não via nelas qualquer ameaça às crenças e à teologia.”

“Quando novas traduções para o inglês apareceram, a Associação Geral mais uma vez considerou necessário apresentar uma declaração (1954). A igreja justificou a necessidade de novas traduções com dois argumentos ainda válidos hoje: primeiro, novas descobertas arqueológicas enriquecem nossa compreensão, e, segundo, cada língua viva está em constante flutuação. As traduções da Bíblia devem levar isso em conta.”

“As diferenças em ambos os tipos de texto são pequenas e, portanto, não devem minar nossa confiança na transmissão e na validade do texto bíblico. Não é cientificamente legítimo nem pastoralmente aconselhável negar às traduções modernas e cuidadosamente traduzidas da Bíblia seu direito de existir.”

Para mais informações, leia o texto “The Textus Receptus and modern Bible translations”, no boletim do Biblical Research Institute, da Associação Geral da IASD (clique aqui). Leia também “Apocalyptic ficcion in times of Covid-19” (aqui).

Michelson Borges

Nome de Deus, gigantes e filhas e filhos de Deus

Qual a origem e o significado do nome “Deus”? E quem são os gigantes mencionados na Bíblia? Seriam filhos de mulheres que tiveram relações sexuais com anjos? – B.

nome

Prezada B., sua primeira pergunta é sobre a origem e significado da palavra “Deus”. Em português, essa palavra vem do latim Deus divus. Essas palavras em latim e a palavra em grego διϝος (leia teós), que significa “divino” vêm do Proto-Indo-Europeu deiwos, que significa “divino”, “resplandecente”, “luminoso”. O Antigo Testamento foi escrito em hebraico e, nesse idioma, a palavra “Deus” é אל (leia El), que significa “elevado”, “poderoso”.

A sua segunda pergunta é sobre os gigantes mencionados em Gênesis 6. Muitos acreditam que, quando os “filhos de Deus” e as “filhas dos homens” tiveram relações sexuais, os filhos deles nasceram gigantes. Em Gênesis 6:4, lemos: “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.” A Nova Tradução na Linguagem de Hoje diz: “Havia gigantes na terra naquele tempo e também depois, quando os filhos de Deus tiveram relações com as filhas dos homens e estas lhes deram filhos. Esses gigantes foram os heróis dos tempos antigos, homens famosos.” Observe que os gigantes existiam antes e “também depois” que os “filhos de Deus” tiveram relações com as “filhas dos homens”. Então, não foi a relação entre os dois grupos que produziu os gigantes. Gênesis 6:4 simplesmente descreve como eram as pessoas daquele tempo: no original em hebraico diz “nefilim”, que significa pessoas fortes, altas, realmente “heróis”.

Na sua pergunta, você sugere que os “filhos de Deus” seriam anjos. Essa é uma ideia muito comum, mas, se estudarmos mais atentamente a Bíblia, veremos que existe uma explicação melhor. Os “filhos de Deus” não poderiam ser anjos, porque anjos são seres espirituais (Hb 1:14) e não têm relações sexuais (Mt 22:30; Mc 12:25; Lc 20:34-36). Se estudarmos o contexto (os capítulos próximos) de Gênesis 6, veremos que os “filhos de Deus” eram os descendentes de Sete, fiéis a Deus (Gn 5) e as “filhas dos homens” eram descendentes de Caim, rebeldes contra Deus (Gn 4:1-24). Depois que houve essa união entre os dois grupos, que foi reprovada por Deus, apenas Noé e sua família permaneceram leais a Deus (Gn 6:8-10). Veja mais sobre esse assunto nos seguintes estudos: “Filhos e filhas de Deus”, de Alberto R. Timm e “Os ‘filhos de Deus’ em Gênesis 6:1-4”, de Reinaldo W. Siqueira.

(Matheus Cardoso é formado em Teologia e tradudor da Casa Publicadora Brasileira)

Descoberta surpreendente sobre Tiago, irmão de Jesus

Sacerdotes usavam maconha no santuário de Israel?

O cânhamo usado na composição do incenso teria alguma relação com a droga?

maconha

Recentemente, em uma entrevista concedida ao comediante Rafael Bastos, o ex-pastor presbiteriano Caio Fábio afirmou que uma das substâncias supostamente contida no incenso oferecido a Deus no antigo santuário israelita era a maconha. Conhecido por declarações polêmicas como a de que a Bíblia não é exatamente a Palavra de Deus (“A única palavra de Deus é Cristo! Quem disser que é a Bíblia, é herege”, 26/8/2020, YouTube), Caio Fábio afirmou que o cânhamo usado no incenso do santuário seria a maconha que compunha “o combinado que enchia o templo de fumaça”.

Segundo o site HempMeds, “é importante entender que o cânhamo e a maconha são plantas da mesma espécie, a Cannabis sativa. No entanto, ambas são geneticamente distintas e geralmente utilizadas para finalidades diferentes”.

“A suposta conexão entre qaneh-bosem e a cannabis simplesmente não existe. Note primeiro que qaneh-bosem são duas palavras em hebraico, não uma. E as palavras são facilmente traduzidas: qaneh significa um talo ou junco, e bosem significa ‘cheiro doce’. Alguns estudiosos traduzem as palavras juntas para se referirem à ‘cana aromática’, ‘cana perfumada’ ou ‘cana-de-cheiro’, e outros ‘cálamo doce’ ou ‘cálamo perfumado’. Mas nem um único léxico acadêmico de hebraico bíblico no mundo conecta essas palavras com a maconha. […] Também é certo, por várias razões fonéticas e linguísticas, que a palavra cannabis, que vem do grego kannabis, não está relacionada a essas duas palavras hebraicas. Não há mais conexão entre o hebraico qaneh-bosem e o grego kannabis do que entre as palavras ‘Moisés’ e a palavra inglesa ‘mice’ [camundongos]” (A Bíblia e o Jornal).

Valer-se de alucinações para uma suposta conexão com Deus trata-se de um costume praticado por algumas religiões místicas, incluindo uma corrente do islamismo chamada sufismo. Os dervixes rodopiam por horas a fio e entram em transe. No judaísmo e no cristianismo bíblico isso simplesmente não existe, e chega a ser uma heresia afirmar que no incenso do santuário haveria algum tipo de droga psicoativa, uma vez que foi o próprio Deus que orientou a produção da mistura que compunha o incenso.

Obs.: Conforme Caio Fábio diz no vídeo, encontraram resquícios de canabis num dos altares de Tel Arad. Só que, em primeiro lugar, Tel Arad era um templo sincretista de Israel que, ao que tudo indica, estava desassociado e em ruptura com o templo de Jerusalém (talvez fosse até seu concorrente). Segundo: o resquício não pode ser datado com certeza absoluta dos tempos bíblicos, pois a amostra estava contaminada. Terceiro: a etnologia proposta entre Moisés e canabis chega a ser ridícula do ponto de vista acadêmico.