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Adão e Eva eram gigantes?

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Respostas a um antitrinitariano (parte 4 de 4)

2Pergunta: Os pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram antitrinitarianos. Em 1872, foi elaborado um documento contendo os Princípios Fundamentais da IASD e lá não consta a Trindade. Ellen White, falando desses princípios fundamentais, disse que não deveríamos mover os pilares da nossa fé que tinham sido estabelecidos nos últimos 50 anos. São os marcos antigos dos pioneiros. Mas hoje esses pilares, esses marcos foram abandonados pela liderança da IASD. Como vocês me explicam isso?

(As respostas a esses questionamentos têm como base estudos feitos por mim e materiais que li de outros autores e amigos, como Reginaldo Castro, Matheus Cardoso e o Demóstenes Neves.)

Resposta: Primeiro é necessário dizer que a abordagem inicial é falsa e tendenciosa. Dizer que “os pioneiros da IASD eram antitrinitarianos” não é de todo verdade. Havia pioneiros que tinham vindo de igrejas evangélicas tradicionais e que criam na Trindade. É verdade, também, que alguns não criam na Trindade e outros eram semiarianos, mas perceba que isso não se aplica a todos:

  1. S. Spears, em artigo de 1889, transformado em panfleto em 1892, defende “A doutrina bíblica da Trindade”.
  1. N. Downer, em artigo na Review, de 6 de abril de 1876, declara que “as três pessoas da Trindade tiveram parte na ressurreição de Cristo”.
  1. Lee S. Wheeler observa, citando Efésios 4:4, 5: “É digno de nota que nesta como em muitas outras partes da Escritura o Espírito como sendo um é mencionado como distinto do Pai e do Filho” (Lee S. Wheeler, “The Communion of the Holy Spirit”, Review and Herald, 21/4/1891, p. 244).
  1. D. Hildereth: “Tire o Espírito Santo da Bíblia e ‘nada’ que reste é digno de ser falado” (Review and Herald, 1/4/1862).
  1. R. F. Cotrell: “Onde houver adoração verdadeira aí o Espírito Santo está” (1873).
  1. Joseph Clark defendeu o Espírito Santo como uma realidade em Si mesmo e um agente de Deus (Review, 10/3/1874).
  1. P. Bollman, em 4/11/1889, na Signs of the Times, escreveu: “O Espírito Santo é divino e Criador de todas as coisas.”
  1. A. J. Morton, em 26/10/1891, na Signs of the Times, declarou: “A divindade do Espírito Santo e Cristo e a do Pai e Cristo não pode ser separada.”
  1. Alonzo T. Jones, então da Review and Herald por muitos anos, em sermão na Sessão da Conferência Geral de 27 de fevereiro de 1895, defendeu que “o Espírito Santo é um representante pessoal de Deus”. Também disse que há uma unidade do Espírito Santo com o Pai e o Filho (General Conference Bulletin, 27/2/1895).
  1. Stephen N. Haskell, no artigo “O Espírito Santo”, declarou que “a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo é um mistério” (Review, 28/11/1899).
  1. G. C. Tenny, que em 1883 usara “it” para o Espírito Santo, declarou em 1896 que o Espírito Santo era inteligente, tinha existência independente e passou a usar o pronome pessoal “he” (Review, 9/6/1896).
  1. S. M. I. Henry (Sarepta Miranda Irish Henry), escritora e evangelista, era incentivada por Ellen G. White e produzia uma página semanal na Review chamada “Mulheres na Obra do Evangelho”. Ela declarou em 1898 que “os pronomes usados em conexão com o Espírito devem nos levar a concluir que Ele é uma pessoa – uma personalidade” (The Abindig Spirit, 271).
  1. R. A Underwood, que havia sido antitrinitariano a princípio, expôs, segundo ele mesmo declara, sua mudança de compreensão a partir do estudo da Bíblia. Na Review de 3 de maio de 1898, ele disse que o Espírito é uma pessoa e que não deveríamos permitir que Satanás destruísse nossa fé “na personalidade dessa pessoa da Divindade – O Espírito Santo”. Em relação à sua opinião anterior, Underwood declarou: “Mas nós queremos a verdade porque ela é a verdade, e nós rejeitamos o erro porque é o erro, apesar de qualquer ponto de vista que nós possamos anteriormente ter sustentado ou qualquer dificuldade que nós possamos ter tido ou possamos ter agora quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa” (Review, 3/5/1898).

Como você pôde observar, havia muitos pioneiros que criam na Trindade; portanto, afirmar que os pioneiros eram antitrinitarianos é, no mínimo, uma atitude irresponsável.

A segunda abordagem feita pelo antitrinitariano refere-se aos Princípios Fundamentais, elaborados em 1872 por Urias Smith. Segundo os que não creem na Trindade, o fato de não se falar da Trindade é uma clara evidência de que essa doutrina não seria verdadeira. Para melhor esclarecermos essa segunda parte, faremos três perguntas e as responderemos de forma que o leitor consiga compreender melhor a questão:

  1. Esses princípios fundamentais eram um documento oficial da igreja?
  2. Eles representam uma finalização no conhecimento e avanço doutrinário?
  3. Eles são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala?

Resposta à pergunta 1: Não. Os Princípios Fundamentais de 1872 escritos por Uriah Smith, de que tanto falam os antitrinitarianos, não são um documento oficial da Igreja Adventista. No parágrafo inicial do documento, o próprio autor informa que não se trata de algo oficial. Destinava-se a ser apenas uma resposta sobre alguns pontos de nossa fé, e não tinha autoridade alguma sobre a igreja como um credo imutável.

Leia com atenção, pois nossos objetores não enfatizam esse detalhe:

“Ao apresentar ao público esta sinopse de nossa fé, desejamos que seja distintamente compreendido que não temos nenhum artigo de fé, credo ou disciplina, além da Bíblia. Não apresentamos isto como tendo qualquer autoridade sobre nosso povo, nem é destinado a assegurar uniformidade entre ele, como um sistema de fé, mas é uma breve declaração do que é e tem sido, com grande unanimidade, mantida por ele. Com frequência achamos necessário responder a indagações sobre este assunto” (Urias Smith, “A Declaration of the Fundamental Principles Taught and Practiced by the Seventh-day Adventists”, Battle Creek, MI: Steam Press, 1872).

Urias Smith deixou claro que o documento em questão não deveria ser tomado como um credo fechado e que ele não tinha qualquer autoridade sobre a Igreja como um credo ou sistema de fé. Agora perceba o contraste: aqui Smith afirma que esses princípios não possuem nenhuma autoridade sobre a Igreja, mas quando Ellen White se referiu aos princípios fundamentais da fé, ela afirmou que Deus “nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208). E agora? Será que quando Ellen White fala dos principais pontos de nossa fé ela não tem em mente o documento de 1872? Veremos isso mais adiante, na resposta 3.

Além disso, se aceitamos a visão trinitária de que toda a nossa base doutrinária foi lançada em 1872, teremos sérias dificuldades com a ausência de várias doutrinas que se desenvolveram posteriormente:

  1. Modéstia Cristã – 1889.
  2. Conduta Cristã – 1889.
  3. Dízimos e Mordomia – 1889.
  4. Temperança – após 1863 (Ellen White). Obs.: Uriah Smith, ainda em 1883, negava a validade de Levítico 11 (Manuscript Releases, 852, in: Spirit of Prophecy Library, v. VI, Peace Press, Loma Linda, EUAM S/D, p. 1915).
  5. A própria Justificação pela Fé passou a ser mais discutida a partir de 1888.

Algo bastante interessante – e no mínimo curioso – é o fato de os antitrinitarianos não mencionarem este texto de Uriah Smith, escrito em 1896, numa seção de perguntas e respostas da Review and Herald, na qual ele comenta a resposta:

“Pergunta: As Escrituras ordenam o louvor ou a adoração ao Espírito Santo? Se não, a última linha da doxologia não contém um pensamento não bíblico?

“Resposta: Não conhecemos nenhum lugar na Bíblia onde somos ordenados a adorar o Espírito Santo, como foi ordenado no caso de Cristo (Hb 1:6), ou onde encontramos um exemplo da adoração do Espírito Santo, como no caso de Cristo (Lc 24:52). No entanto, na fórmula para o batismo, o nome ‘Espírito Santo’ está associado ao do Pai e ao Filho. Se o nome pode ser assim usado, por que não poderia ser apropriado como parte da mesma TRINDADE no hino de louvor: ‘Louve a Deus de quem é todo fluxo de bênção?’” (Uriah Smith, Review and Herald, 27/10/1896).

Não podemos dizer que Uriah Smith tenha se tornado plenamente trinitariano, mas que sua visão já estava muito melhorada; isso com certeza. Ele até usa o termo “Trinity”, algo incomum para ele anteriormente.

Resposta à pergunta 2: Os pioneiros nunca ficaram parados no tempo em relação ao crescimento na compreensão da doutrina. Eles não tinham um credo fechado. Ao contrário disso, estavam sempre crescendo no conhecimento da verdade. Veja o que disse Tiago White:

“Eu afirmo que os credos estão em direta oposição aos dons. Imaginemos a seguinte circunstância: Obtemos um credo, declarando exatamente em que deveremos acreditar sobre esse ponto e outro, e o que deveremos fazer em referência a isso ou aquilo, e afirmamos que creremos nos dons também. Mas suponha que o Senhor, por meio dos dons, nos conceda alguma nova luz que não se harmonize com nosso credo; então, se permanecermos fiéis aos dons, isso se chocará completamente com nosso credo. Fazer um credo é fixar estacas e impedir todo avanço futuro” (Tiago White, “Doings of the Battle Creek Conference, Acts 5:16, 1861”, Review and Herald, 8/10/1861, p. 148, 149).

“Temos conseguido regozijar-nos em verdades muito além do que então percebíamos. […] Mas não pensamos de modo algum que já sabemos tudo. Esperamos ainda progredir, de forma que nossa vereda se torne cada vez mais brilhante até ser dia perfeito. Que mantenhamos sempre um estado mental inquiridor, buscando mais luz e mais verdade” (Uriah Smith, Review, 30/4/1857).

“Nunca foram as Sagradas Escrituras tão valorizadas pelo remanescente como agora. Quando o testemunho da Bíblia para começar o dia ao pôr do sol foi apresentado em clara luz, assim como outros assuntos foram apresentados na Review, eles [os primeiros adventistas] de bom grado abraçaram esse testemunho. E nós acreditamos que eles mudariam outros pontos de sua fé se eles pudessem ver uma boa razão para fazê-lo a partir das Escrituras” (Tiago White, Review, 7/2/1856).

Será que Ellen White pensava diferente?

“Percepções nítidas e claras da verdade nunca serão a recompensa da indolência. A investigação de cada ponto que foi recebido como verdade irá ricamente recompensar o pesquisador: ele encontrará pedras preciosas. E, investigando de perto todo jota e til que achamos ser verdade estabelecida, comparando escritura com escritura, podemos descobrir erros em nossa interpretação das Escrituras. Cristo quer que o pesquisador de sua palavra cave fundo nas minas da verdade. Se a pesquisa for realizada corretamente, serão encontradas joias de valor inestimável. A Palavra de Deus é a mina das insondáveis riquezas de Cristo” (Review and Herald, 12/7/1898).

“Há homens entre nós que professam compreender a verdade para estes últimos dias, mas que não investigarão com calma a verdade mais recentemente estabelecida. Estão decididos a não avançar além das estacas que estabeleceram e não ouvirão aqueles que, dizem eles, não estão em defesa dos marcos antigos. São tão autossuficientes que tornam impossível que argumentemos com eles. […] Se forem apresentadas ideias que diferem em alguns pontos de nossas doutrinas anteriores, não devemos condená-las sem uma busca diligente da Bíblia para ver se elas são verdadeiras. Devemos jejuar e orar e pesquisar as Escrituras, como fizeram os nobres bereanos, para ver se essas coisas são assim. Precisamos aceitar todos os raios de luz que nos chegam. Por meio de fervorosa oração e diligente estudo da Palavra de Deus, as coisas sombrias serão esclarecidas para o entendimento” (Signs of the Times, 26/5/1890).

Respondendo à pergunta 3:

O que são os marcos, os pilares de nossa fé, de que Ellen White fala? São os princípios fundamentais escritos por Smith em 1872? Não! Analisemos o contexto das declarações:

“Tenho estado a suplicar ao Senhor força e sabedoria para reproduzir os escritos das testemunhas que foram confirmadas na fé e NA PRIMITIVA HISTÓRIA DA MENSAGEM. DEPOIS DE PASSAR O TEMPO EM 1844, eles receberam a luz e andaram na luz, e quando os homens que pretendiam possuir novo esclarecimento vinham com suas maravilhosas mensagens acerca de vários pontos da Escritura, tínhamos, PELA ATUAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, TESTEMUNHOS BEM DEFINIDOS, que excluíam a influência de mensagens como as que o pastor G [A. F. Ballenger] tem devotado o tempo a apresentar. Esse pobre homem tem estado a trabalhar decididamente CONTRA A VERDADE CONFIRMADA PELO ESPÍRITO SANTO. QUANDO O PODER DE DEUS TESTIFICA DAQUILO QUE É VERDADE, ESSA VERDADE DEVE PERMANECER PARA SEMPRE COMO VERDADE. Não deve ser agasalhada nenhuma suposição posterior contrária ao esclarecimento que Deus proporcionou. Surgirão homens com interpretações das Escrituras que para eles são verdade, mas que não o são. Deu-nos Deus a verdade para este tempo como um fundamento para nossa fé. ELE PRÓPRIO NOS ENSINOU O QUE É A VERDADE. Aparecerá um, e ainda outro, com nova iluminação, que contradiz aquela QUE FOI DADA POR DEUS SOB A DEMONSTRAÇÃO DE SEU SANTO ESPÍRITO. Vivem ainda alguns que passaram pela experiência obtida QUANDO ESTA VERDADE FOI FIRMADA. Deus lhes tem benignamente poupado a vida para repetir, e repetir até ao fim da existência a experiência por que passaram da mesma maneira que o fez o apóstolo João até ao termo de sua vida. E os porta-bandeiras que tombaram na morte devem falar mediante a reimpressão de seus escritos. Estou instruída de que, assim, sua voz se deve fazer ouvir. Eles devem dar seu testemunho relativamente ao que constitui a verdade para este tempo. Não devemos receber as palavras dos que vêm com uma mensagem em contradição com os pontos especiais de nossa fé. Eles reúnem uma porção de passagens, e amontoam-na como prova em torno das teorias que afirmam. Isso tem sido repetidamente feito durante os cinquenta anos passados. E se bem que as Escrituras sejam a Palavra de Deus, e devam ser respeitadas, sua aplicação, uma vez que mova uma coluna do fundamento sustentado por Deus ESTES CINQUENTA ANOS, constitui grande erro. Aquele que faz tal aplicação ignora A MARAVILHOSA DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO QUE DEU PODER E FORÇA ÀS MENSAGENS PASSADAS, VINDAS AO POVO DE DEUS” (Ellen G. White, The Integrity of the Sanctuary Truth, p. 15-20).

Lendo o texto acima, CONSTATAMOS QUE O ASSUNTO DO QUAL A SERVA DO SENHOR ESTÁ FALANDO É ESPECIALMENTE O SANTUÁRIO. O título do documento é “A Integridade da Verdade do Santuário”. Nada de Divindade não trinitária. Observe a menção que ela faz ao pastor Albion Ballenger. Quem foi Ballenger? Foi um popular pregador adventista que trabalhou na Inglaterra, País de Gales e Irlanda. Ballenger concluiu que o entendimento adventista do ministério de Cristo no santuário era antibíblico. Foram as ideias de Ballenger CONTRA A DOUTRINA DO SANTUÁRIO QUE MOTIVARAM O TESTEMUNHO DE ELLEN WHITE ACIMA. Não deixe também de perceber que Ellen recorda os tempos depois de 1844, quando Deus, mediante o Espírito Santo, deu testemunhos bem definidos por meio de Sua serva para confirmar o que era a verdade e para não permitir que falsas ideias penetrassem na Igreja. Quando, no texto acima, ela menciona que foi o próprio Deus quem ensinou a verdade à Igreja, quando se refere ao esclarecimento que o próprio Deus proporcionou, da maravilhosa demonstração do Espírito Santo e de que quando o poder de Deus testifica daquilo que é a verdade essa verdade não deve mais ser alterada, ELA ESTÁ FALANDO DA DOUTRINA DO SANTUÁRIO NO CONTEXTO DO ATAQUE DE BALLENGER A ESSA DOUTRINA. Nos primeiros anos do Movimento, Deus de fato deu visões a Ellen orientando os pioneiros na interpretação correta da Escritura quando após muito estudo chegavam a um impasse. Isso ocorreu nos estudos sobre o Santuário nos primeiros anos após 1844. Veja como os antitrinitarianos pegam textos fora do contexto para criar um pretexto.

Os dois textos – do Manuscrito 135 (1903) e o de Mensagens Escolhidas, volume 1, p. 208 – geralmente usados pelos objetores da Trindade, de fato estão falando dos princípios fundamentais, dos marcos antigos, das doutrinas definidoras do adventismo, as quais foram resultado de muita oração, estudo da Bíblia e confirmação por meio das visões da mensageira do Senhor. O problema é que, ao analisar o contexto dessas duas passagens, constata-se que Ellen White de forma alguma está se referindo ao documento de 1872. Vamos ler o contexto (parágrafos precedentes) dos dois trechos, respectivamente:

“Meu marido, o pastor José Bates, o pai Pierce, o pastor Edson, um homem ávido, nobre e verdadeiro, e muitos outros cujos nomes não consigo recordar agora, estavam entre aqueles que, após a passagem do tempo em 1844, buscaram a verdade. Em nossas reuniões importantes, esses homens se reuniam e buscavam a verdade como a um tesouro escondido. Reunia-me com eles e estudávamos e orávamos fervorosamente, pois sentíamos que era nosso dever aprender a verdade de Deus. Muitas vezes ficávamos reunidos até alta noite e, às vezes, a noite toda, orando por luz e estudando a palavra. Quando jejuamos e oramos, um grande poder veio sobre nós. Mas eu não conseguia entender o raciocínio dos irmãos. Minha mente estava por assim dizer fechada e eu não conseguia compreender o que estávamos estudando. Então o Espírito de Deus vinha sobre mim, eu era arrebatada em visão, e era-me dada uma clara explicação das passagens que estávamos estudando, com instruções sobre a posição que deveríamos tomar em relação à verdade e ao dever. Foi-me tornada clara uma sequência de verdades que se estendia daquele tempo até ao tempo em que entraremos na cidade de Deus, e transmiti a meus irmãos e irmãs a instrução que o Senhor me deu. Eles sabiam que, quando eu não estava em visão, eu não conseguia entender esses assuntos e aceitavam como luz direta do céu as revelações dadas. Os principais pontos de nossa fé, como os mantemos hoje, foram firmemente estabelecidos. Ponto após ponto foi claramente definido, e todos os irmãos entraram em harmonia. Toda a companhia dos crentes estava unida na verdade. Houve aqueles que vieram com doutrinas estranhas, mas nunca tivemos medo de enfrentá-los. Nossa experiência foi maravilhosamente confirmada pela revelação do Espírito Santo” (Manuscrito 135 [1903]).

“Que influência essa, que desejaria levar os homens, neste período de nossa história, a trabalhar de modo enganador e poderoso, para solapar os alicerces de nossa fé – alicerces QUE FORAM LANÇADOS NO PRINCÍPIO DE NOSSA OBRA mediante DEVOTO ESTUDO DA PALAVRA E PELA REVELAÇÃO? Sobre esses alicerces temos estado a construir, nos últimos CINQUENTA ANOS. Admirai-vos de que, quando vejo o princípio de uma obra que pretende remover alguns dos pilares de nossa fé, tenha algo a dizer? Tenho de obedecer à ordem: ‘Enfrentai-o!’ Tenho de proclamar as mensagens de advertência que Deus me dá para divulgar, e então deixar com o Senhor os resultados. Tenho de agora apresentar o assunto em todos os seus aspectos, pois o povo de Deus não deve ser despojado. Somos o povo de Deus, observador dos mandamentos. Nos passados cinquenta anos tem-se feito pressão sobre nós com toda sorte de heresias, a fim de embotar-nos o espírito em relação aos ensinos da Palavra – especialmente quanto ao ministério de Cristo no santuário celestial e à mensagem do Céu para estes últimos dias, como foi dada pelos anjos do décimo quarto capítulo do Apocalipse. Mensagens de toda espécie e feitio têm feito pressão sobre os adventistas do sétimo dia, pretendendo substituir a verdade que, ponto por ponto, foi buscada com estudo e oração, e atestada pelo poder milagroso do Senhor. Mas OS MARCOS que nos tornaram o que somos devem ser preservados, e sê-lo-ão, conforme Deus o mostrou mediante Sua Palavra e o testemunho de Seu Espírito. Ele nos conclama a nos apegarmos firmemente, com a mão da fé, aos princípios fundamentais baseados em autoridade inquestionável” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 208).

Note-se que algumas expressões se repetem ou são equivalentes. “Após a passagem do tempo”, “Nos passados cinquenta anos” (o texto de ME é de 1904; os cinquenta anos são uma média que vai chegar lá nos primeiros anos do movimento; o próprio texto se refere ao “princípio de nossa obra”). Os dois textos mencionam o estudo dedicado da Bíblia e a Revelação do Espírito. É inegável que os dois textos estão se referindo à mesma época: os primeiros anos após a passagem de 1844, quando os primeiros adventistas se entregaram completamente à oração e se debruçaram intensamente sobre a Bíblia a fim de aprender o que é a verdade. Seus esforços foram recompensados pela atuação do Espírito de Deus por meio do dom profético de Ellen White. Durante esse período inicial, os pilares da fé adventista foram estabelecidos. Em outro texto, ela faz a mesma recordação. Note a semelhança nas expressões:

“Os cinquenta anos passados não apagaram um jota ou princípio de nossa fé ao recebermos as grandes e maravilhosas evidências que se tornaram certas para nós em 1844, após a passagem do tempo […] Aquilo que o Espírito Santo testificou como verdade após a passagem do tempo, em nosso grande desapontamento, é o sólido fundamento da verdade. Os pilares da verdade foram revelados e nós aceitamos os princípios fundamentais que nos tornaram o que somos – adventistas do sétimo dia, observando os mandamentos de Deus e tendo a fé de Jesus” (Carta 326, 1905).

De forma clara, Ellen White está se referindo aos primórdios da Igreja, quando as doutrinas distintivas foram estabelecidas pela oração, estudo da Palavra e revelação. Os princípios fundamentais de que Ellen White fala nesses textos NEM DE LONGE SE REFEREM AOS DE 1872, ESCRITOS POR URIAH SMITH. Por que os antitrinitarianos não mostram O CONTEXTO dos trechos que citam? Agora fica claro: OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EM ELLEN WHITE NÃO SÃO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE URIAS SMITH (de 1872). Encadear os textos de modo que passem a impressão de que Ellen White está se referindo ao documento de Uriah Smith induz a uma falsidade histórica!

Mas, para que não fique nenhuma dúvida, no próximo texto, Ellen White deixa bem claro que doutrinas são essas que foram fruto de muita oração, estudo da Palavra, e que o Espírito Santo, por meio de visões, confirmou a veracidade bíblica dessas doutrinas. Preste muita atenção no texto a seguir:

“Em Mineápolis, Deus concedeu preciosas gemas da verdade ao Seu povo. Essa luz do Céu enviada a algumas pessoas foi rejeitada com toda a resistência que os judeus manifestaram ao rejeitar a Cristo, havendo muita discussão em torno da defesa dos antigos marcos. Ficou evidente, porém, que quase nada sabiam sobre o que eram os antigos marcos. Ficou claro e foram feitos apelos diretos à consciência com base na Palavra de Deus; contudo, as mentes estavam cauterizadas, seladas contra a entrada da luz, porque decidiram que seria um perigoso erro remover os ‘marcos antigos’ quando não se estava removendo nada, além das ideias errôneas do que constituíam os antigos marcos. O PASSAR DO TEMPO EM 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a PURIFICAÇÃO DO SANTUÁRIO que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com AS MENSAGENS DO PRIMEIRO, DO SEGUNDO E DO TERCEIRO ANJOS, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: ‘OS MANDAMENTS DE DEUS E A FÉ DE JESUS.’ Um dos marcos dessa mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A LUZ DO SÁBADO DO QUARTO MANDAMENTO lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A NÃO IMORTALIDADE DOS ÍMPIOS É UM MARCO. NÃO CONSIGO LEMBRAR-ME DE ALGUMA OUTRA COISA QUE POSSA SER COLOCADA NA CATEGORIA DOS ANTIGOS MARCOS. Todo esse rumor sobre a mudança do que não deveria ser mudado é puramente imaginário” (O Outro Poder, p. 21 [Manuscrito 13, 1889]).

A QUAIS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS EGW ESTAVA SE REFERINDO?

– A purificação do santuário celestial

– A tríplice mensagem angélica

– Os mandamentos de Deus

– A fé em Jesus

– O sábado

– A não imortalidade dos ímpios

Esses são, de acordo com a voz profética, os MARCOS ANTIGOS QUE NOS TORNAM O QUE SOMOS. Essas são as doutrinas chamadas de pilares de nossa fé, os principais pontos de nossa fé.

É válido ressaltar que a rejeição da Trindade por alguns pioneiros não se deu em si pela doutrina, mas pela forma como as igrejas romana e protestante a apresentavam na época, conforme bem expressa J. N. Loughborough: a doutrina “é contrária às Escrituras. Em quase qualquer texto do Novo Testamento que lermos, fala-se sobre o Pai e o Filho, apresentando-Os como duas pessoas distintas. […] O capítulo 17 de João já é suficiente para refutar a doutrina da Trindade. Mais de quarenta vezes em apenas um capítulo Cristo fala de Seu Pai como uma pessoa distinta de Si mesmo”. Numa análise simples, nota-se que J. N. Loughborough estava falando acerca da distorcida visão de que Jesus e o Pai eram um e o mesmo ser. Seria mais ou menos como mostram as ilustrações abaixo:

1.png

Qualquer ser inteligente e conhecedor da Bíblia negaria esse conceito de Trindade. Reforçando a ideia de que o que os pioneiros combatiam era o conceito errôneo acerca da Trindade, segue-se a afirmação de Sarah Haselton: “A doutrina chamada Trindade afirma que Deus é sem forma ou partes; e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os três são apenas uma pessoa.” Esse conceito de Trindade os pioneiros realmente jamais deveriam ter aceitado, e não é assim que a Igreja Adventista creu ou crê. O comentário de A.C. Bourdeau confirma ainda mais isso:

“Que Deus é um Espírito infinito e eterno, sem pessoa, corpo, aparência ou partes; está presente em toda parte e em nenhum lugar; ou está em toda parte como um Espírito e em lugar algum como um ser tangível. Pergunto: isso não torna Deus quase um mero nada? Examinemos brevemente esses pontos à luz das Escrituras. É mostrado claramente: (1) Que Deus é uma inteligência material e organizada, possuindo corpo e partes. (2) Que Jesus é o Filho de Deus. Ele não é Seu próprio filho, nem Seu próprio pai, e é um ser distinto de Deus, o Pai.”

Veja como era ensinada a Trindade naquela época. Esse tipo de ensinamento eu também não aceitaria. O conceito de Trindade encontrado nos Escritos da senhora White jamais se assemelham ao conceito errôneo vigente em seu tempo. Ela diz: “Cumpre-nos cooperar com os três poderes mais alto no Céu – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – e esses poderes operarão por meio de nós, fazendo-nos coobreiros de Deus.”

Ela ainda afirma: “Aqui estão as três personalidades vivas do trio celestial, nas quais cada alma arrependida dos seus pecados recebe Cristo por fé viva, para aqueles que são batizados em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.”

É verdade, entretanto, que o conceito trinitário foi sendo compreendido com o tempo, como se nota na declaração de Waggoner na Review and Herald do ano de 1875: “Há uma questão que tem sido muito controvertida no mundo teológico sobre a qual nunca temos presumido entrar. É da personalidade do Espírito de Deus.”

Mesmo assim, eles seguiam a ordem do mestre batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (bem diferente dos antitrinitários de hoje, que negam o batismo trinitário). Na sessão da Review and Herald com o subtítulo “Church Manual” (Manual da Igreja) está assim: “Quando o momento adequado foi finalmente alcançado, o ministro deve levar o candidato devagar e solenemente para o local onde ele se propõe batizá-lo. […] Tendo chegado ao local desejado, o administrador deve ter uma firmeza do candidato, proferindo as seguintes palavras: meu irmão (ou irmã), agora eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Adequando a ação à palavra, ele deve lentamente mover o corpo do candidato em uma direção para trás até que a cabeça toque a água, em seguida, por um movimento súbito, o candidato deve ser mergulhado abaixo da superfície a uma profundidade suficiente para cobrir cada parte de sua pessoa com a água. Feito isso, ele deve ser levantado para a posição de pé novamente. Assim como ele emerge da água, é habitual para o administrador pronunciar a palavra ‘Amém’.”

Mais evidente e nítido se torna o crescimento da visão dos pioneiros quanto à Trindade nestas afirmações encontradas na Review and Herald de 1898 (mesmo ano em que Ellen White escreveu O Desejado de Todas as Nações), escritas por R. A. Underwood, com o título “The Holy Spirit a Person” (O Espírito Santo uma Pessoa):

“Espírito é o representante pessoal de Cristo no campo, e Ele é carregado com o trabalho de conhecer Satanás e derrotar esse inimigo pessoal de Deus e Seu governo. Parece estranho para mim, agora, que eu sempre acreditei que o Espírito Santo era apenas uma influência, tendo em vista o trabalho que ele faz. Mas nós queremos a verdade porque é verdade, e nós rejeitamos o erro porque ele é o erro, independentemente de quaisquer visões que mantivemos anteriormente, ou qualquer dificuldade que tivemos, ou podemos ter, quando vemos o Espírito Santo como uma pessoa. A luz é semeada para o justo. O esquema de Satanás é destruir toda a fé na personalidade da Divindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo, – também em sua própria personalidade.”

É bem perceptível também que após uma compreensão mais aclarada acerca da Trindade esse assunto passou a ser bastante explorado nas literaturas da igreja. A seguir uma sequência de textos publicados por M. E. Steward no volume 87 da Review and Rehald, números 50, 51 e 52, que datam respectivamente de 15, 22 e 29 de dezembro de 1910. O primeiro artigo intitulado “The Divine Godhead: God, the Father” (A Divina Divindade: Deus, o Pai) começa com a declaração de 1 João 5:7: “Há três seres na Divindade: Deus, o Pai, Jesus Cristo, a Palavra e o Espírito Santo. Estes três são um.” Não é intenção desse artigo discutir a autenticidade dessa passagem, apenas mostrar que a compreensão dos pioneiros quanto a esse assunto foi gradual e crescente.

O segundo artigo é intitulado “The Second Person of the Godhead – Jesus Christ” (A Segunda Pessoa da Divindade – Jesus Cristo) e traz as seguintes afirmações: “Cristo tinha uma existência, antes de vir à Terra . (1) Ele tinha glória com o Pai ‘antes que o mundo existisse’ (João 17:5). (2) ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ‘O Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (João 1:1, 14). (3) Cristo estava com os israelitas no deserto (1 Coríntios 10:4, 9). Jesus Cristo uniu a humanidade à divindade. ‘Grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne’ (1 Timóteo 3:16).”

O terceiro artigo tem como título “The Third Person of the Godhead – the Holy Spirit” (A Terceira Pessoa da Divindade – O Espírito Santo). Nesse artigo é afirmado que o Espírito é “o representante de Cristo”, e “por isso o Espírito Santo é o direto agente no cumprimento de todos os propósitos e promessas divinos na obra da salvação do homem. E, como representante de Cristo, aquele que aceita a Cristo tem o dom do Espírito Santo”.

No ano de 1913, a Review publicou uma edição especial com relatos dos avanços do evangelho em todo o mundo. Entretanto, ao meio da revista com o subtítulo “Mensagem para hoje” há a seguinte declaração: “Para o benefício daqueles que podem desejar saber mais particularmente as características fundamentais da fé mantida por esta denominação, nós referiremos que os adventistas do sétimo dia creem… na Trindade divina. Essa Trindade consiste do eterno Pai, um ser espiritual pessoal, onipotente, onisciente, infinito em poder, sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, o Filho do eterno Pai, por quem todas as coisas foram criadas, e através de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o regenerador na obra da redenção” (grifo nosso).

É importante salientar que todos esses textos foram produzidos enquanto a senhora White estava viva e não houve da parte dela nenhum tipo de observação contrária. Alguns indivíduos já tiveram a ousadia de afirmar para mim que tais declarações passaram a ocorrer e não houve crítica da senhora White porque ela já estava bastante avançada em idade (morreu em 1915), e que, portanto, não estava mais acompanhando as supostas entradas de heresias na igreja. Ora, essa afirmação é no mínimo absurda. Prova disso é que nessa mesma revista apresentada acima (do ano de 1913) há um artigo escrito pela senhora White, e o curioso é que o artigo dela é imediatamente anterior ao artigo que traz a declaração mencionada anteriormente.

CONCLUSÃO

Pelo que se nota com clareza, o assunto da Trindade não foi introduzido na igreja a partir da década de 1940, como alguns advogam, nem na década de 1980. Mas a compreensão gradual dos pioneiros é evidenciada ao longo das edições das literaturas eclesiásticas, em especial (como mostrou este artigo), nas edições da Review and Herald. Portanto, qualquer tentativa contrária ao ensino da Trindade, tomando-se como base o argumento de que os pioneiros não aceitavam essa doutrina, carece de um estudo sério e abalizado, tanto na história da Igreja quanto em sua literatura. Proceder dessa maneira é evidenciar total ignorância e carência informacional acerca do assunto, o que torna os argumentos dos proponentes de tais alegações pueris e reducionistas.

Eleazar Domini, além de bacharel em Teologia, é mestre em Teologia na área de Interpretação e Ensino da Bíblia com ênfase na língua hebraica. Atualmente é pastor distrital em Aracaju.

Leia também: “Respostas a um antitrinitariano” parte 1parte 2 e parte 3

Material complementar:

“Desenvolvimento do pensamento cristológico na IASD”

“Os pioneiros adventistas e a Trindade”

“Desenvolvimento gradual da doutrina da Trindade na Igreja Adventista do Sétimo Dia: uma análise nos registros iniciais da Review and Herald e da Revista Adventista”

Prezis:

“O adventistas e a Trindade”

“Mitos e fatos sobre a Trindade na IASD”

O sábado está sendo guardado no dia correto?

calendar“Há um grupo chamado World’s Last Chance (WLC) dizendo que o calendário lunar foi estabelecido por Deus e o calendário gregoriano, pela Igreja Católica com o objetivo de mudar os tempos e as leis. De acordo com essas pessoas, a Igreja Adventista teve “medo” de divulgar essa “verdade” depois do grande desapontamento de 1844. Dizem que não estamos adorando a Deus, o Criador, no dia estabelecido por Ele durante a semana da criação, ou seja, estamos adorando em um dia qualquer. Desde já agradeço a atenção e aguardo ansioso sua resposta.”

Resposta: Essas pessoas afirmam que o sábado não é o sétimo dia do ciclo semanal, mas o sétimo dia do “calendário lunissolar” proposto por eles, sendo que o primeiro dia do mês (“lua nova”) e o último dia do mês precedente – caso este tenha tido 30 dias – são considerados “não-dias”. Assim, o “sábado” seria sempre o 8º, 15º, 22º e 29º dias do mês nesse calendário.

No site deles é apresentada uma série de pressuposições que na verdade são falsas. Logo no início, é dito que “o primeiro dia da festa dos pães asmos era no dia 15 [do mês de abibe], que era um sábado”. A WLC afirma que esse era um sábado semanal, e a única “prova” que apresentam disso é o argumento de que nesse dia havia uma “santa convocação”. Ora, esse argumento não tem validade nenhuma, porque havia “santa convocação” não só no sábado semanal, mas em todos os sábados cerimoniais. Assim, havia santa convocação também no sétimo dia da festa dos pães asmos (Lv 23:8), na festa das primícias ou pentecostes (Lv 23:20, 21), na festa das trombetas (Lv 23:24), no dia da expiação (Lv 23:27), e no primeiro e último dias da festa dos tabernáculos (Lv 23:34-36). Destes, eles consideram que o dia 15 do primeiro mês e os dias 15 e 22 do sétimo mês eram sábados semanais. Baseados em quê?

Para sustentar suas pressuposições, dizem ainda que “Israel saiu do Egito na noite de 15 de abibe” (já que consideram que o dia 15 era um sábado). A Bíblia diz: “Aconteceu que, ao cabo dos quatrocentos e trinta anos, nesse mesmo dia, todas as hostes do Senhor saíram da terra do Egito. Esta noite se observará ao Senhor, porque, nela, os tirou da terra do Egito; esta é a noite do Senhor, que devem todos os filhos de Israel comemorar nas suas gerações. Disse mais o Senhor a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela” (Êx 12:41-43). A Bíblia é clara em dizer que os israelitas saíram nesse mesmo dia. Que dia? Ora, o dia 15 de abibe. Se tivessem saído à noite, já não seria dia 15 de abibe, mas 16 (já que o novo dia se inicia ao pôr-do-sol). E que noite é essa, em que a Bíblia diz que Deus “os tirou da terra do Egito”? A noite que “se observará ao Senhor”, e, portanto, a noite do dia 15, em que o povo comeu a Páscoa, e não a do dia 16. Não há como escapar ao fato de que os israelitas saíram em sua jornada no dia 15 e, portanto, que esse dia não poderia ser um sábado.

Outras “provas” são acrescentadas que absolutamente não são provas. Por exemplo, o argumento de que o maná cessou no dia 16 de abibe e que, portanto, o dia anterior seria um sábado semanal em que o maná não caiu. Qual a lógica desse argumento? Nenhuma. O maná cessou no dia 16 porque no dia 15 eles já comeram pães asmos feitos com o fruto da terra.

Outra “prova”, retirada do livro de Ester, diz que “o 15º dia do 12º mês foi um dia de descanso, o que torna o 8º, 22º e 29º dias, dias de descanso também”. O que a Bíblia diz é que uma parte dos judeus fez do dia 14 um dia de banquetes e de alegria pela vitória sobre seus inimigos, e que os judeus de Susã fizeram isso no dia 15. Então, “Mordecai […] enviou cartas a todos os judeus que se achavam em todas as províncias do rei Assuero, […] ordenando-lhes que comemorassem o dia catorze do mês de adar e o dia quinze do mesmo, todos os anos, como os dias em que os judeus tiveram sossego dos seus inimigos” (Et 9:20-22). Dois dias foram instituídos como feriados, e isso não tem nada a ver com o sábado.

O calendário dos judeus era realmente lunissolar, mas esse calendário seguia o ciclo semanal normalmente e não havia nenhum dia considerado “não-dia” da semana. O mês começava quando a estreita faixa de lua nova era avistada; os meses eram lunares, de 29 ou 30 dias. Como isso perfazia apenas cerca de 354 dias no ano, ou seja, deixava o ano cerca de 11 dias mais curto, a fim de manter o ano em harmonia com as estações, um mês adicional era intercalado cada vez que a cevada ainda não estava madura para a Páscoa. Assim, o calendário lunar era mantido em harmonia com o ano solar, e, portanto, o calendário era lunissolar.

Aqui é dito que em 31 d.C. “não se tem e não se pode ter uma crucifixão na sexta-feira”. Isso é totalmente contestado no livro Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27, de Juarez Rodrigues de Oliveira. A crucifixão é possível em 31 d.C., não, porém, numa sexta feira, 14 de abibe/nisã, mas numa sexta-feira 15.

Com base nesse “problema”, tomam uma carta de M. L. Andreasen para Grace Amadon e dizem que ele argumentou contra a adoção de um calendário em que o sábado “flutuava” ao longo da semana moderna, calendário este que estava sendo advogado por alguns da comissão. O problema não era esse. Na carta, Andreasen argumenta contra a adoção de um calendário como o que era usado nos tempos bíblicos, porque “embora o esquema proposto não afete de maneira alguma a sucessão dos dias da semana, e, portanto, não afete o sábado” (o que é justamente o contrário do que a WLC afirma que ele disse), a adoção de um calendário assim pela igreja causaria confusão, porque, devido ao fato de o crescente lunar, que marca o início do mês, se tornar visível em dias diferentes nas diversas localidades, as pessoas dessas diversas localidades poderiam começar seus meses em dias diferentes (por exemplo, cidades vizinhas poderiam estar, uma no último dia de um mês, outra já no primeiro dia do outro).

Os guardadores do sábado lunar estão divididos quanto ao que fazer nos dias 30 de um mês e 1º do mês seguinte, que são os dias da “festa da lua nova”. Alguns descansam nesses dias, considerando-os uma extensão do sábado do dia 29; outros se abstêm apenas de atividades comerciais e emprego remunerado, mas podem realizar outras tarefas comuns. Então, na última semana do mês, (1) no primeiro caso, trabalham seis dias e descansam três (em vez de um); (2) no segundo caso, trabalham sete ou oito dias (em vez de seis), antes de descansar um dia. Com qualquer dos dois métodos, o mandamento do Criador de que se trabalhasse seis dias e se descansasse no sétimo é violado. (Confira aqui.)

(Rosangela Lira é formada em Teologia)

Auxiliar para o estudo da Lição da Escola Sabatina: o segundo dízimo

dízimoA Lição da Escola Sabatina do dia 10 de julho (quarta-feira) trata do tema do segundo dízimo. Um dos pontos principais a serem respondidos é o seguinte: De acordo com o livro de Deuteronômio, o dízimo poderia ser usado pelo adorador para ajudar os pobres, as viúvas e outras pessoas? Para responder a essa questão, temos que ter em mente que a palavra “dízimo”, no Antigo Testamento, refere-se a três devoluções distintas em seu uso e aplicação. Havia então três dízimos no Antigo Testamento:

1. O dízimo do rei ou imposto real. Surge por volta do ano 1000 a.C., com o início da monarquia, e desaparece quando a monarquia acaba. Ver 1 Samuel 8:11, 14-17.

2. O dízimo da família e para os pobres, também conhecido como “segundo dízimo”. Oferta para caridade. Surge por volta de 1400 a.C., com a entrada dos israelitas em Canaã. Dependia do ciclo sabático de sete anos que iniciou em Canaã, e também das regras do tabernáculo e da lei cerimonial. Termina quando cessa esse sistema teocrático. Ver Deuteronômio 12:17-21; 14:22-29 e 26:12-14. É sobre esse dízimo que trata a Lição da Escola Sabatina.

3. O dízimo mais antigo ou do sacerdócio. Diferente dos outros, porque era todo do levita, integralmente entregue na Casa do Tesouro e seu uso era exclusivo para o ministério levítico (ver Números 18: 21-24; Malaquias 3:8-10). Não se podia reter, trocar ou vender (ver Levítico 27:31-33). Seu começo não tem registro. A primeira vez que aparece é por volta de 1900 a.C., com Abraão. Portanto, tem sua origem antes dos levitas e da lei cerimonial. Não termina com a teocracia nem com a lei cerimonial, porque exista antes e se destina a manter ministros exclusivos para Deus. É esse dízimo que 500 anos antes de Israel entrar em Canaã foi dado a Melquisedeque, e que Hebreus diz ser um tipo ou figura de Jesus. O dizimo de Abraão foi dado Àquele que vive, uma referência a Jesus (ver Hebreus 7:8). Esse é o dízimo que dura enquanto o ministério de Cristo durar na Terra.

Embora com o mesmo nome, os três dízimos tinham diferenças:

1. Origem (datas diferentes).

2. Destino (um todo para o imposto do rei, outro todo para a família e para os pobres, e o terceiro era todo para a casa do tesouro).

3. Natureza (governamental, caritativa, ministerial).

4. Aplicação (despesas governamentais, despesas com a peregrinação da família para as festas religiosas e para caridade, e o último era exclusivo para o ministério).

Portanto, são completamente distintos entre si.

A passagem usada na lição é Deuteronômio 14:22-29 e trata do dízimo da família, usado para ajudar os pobres. Nenhuma parte era entregue na Casa do Tesouro. Era todo consumido pelo adorador e por seus convidados.

As citações abaixo, de Ellen White, confirmam esse entendimento:

“A fim de promover a reunião do povo para serviço religioso, bem como para se fazerem provisões aos pobres, exigia-se um segundo dízimo de todo o lucro. Com relação ao primeiro dízimo, declarou o Senhor: ‘Aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel’ (Números 18:21). Mas em relação ao segundo Ele ordenou: ‘Perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o Seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto, e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus todos os dias’ (Deuteronômio 14:23, 29; 16:11-14). Este dízimo, ou o seu equivalente em dinheiro, deviam por dois anos trazer ao lugar em que estava estabelecido o santuário. Depois de apresentarem uma oferta de agradecimento a Deus, e uma especificada porção ao sacerdote, os ofertantes deviam fazer uso do que restava para uma festa religiosa, da qual deviam participar os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Em cada terceiro ano, entretanto, este segundo dízimo devia ser usado em casa, hospedando os levitas e os pobres, conforme Moisés dissera: ‘Para que comam dentro das tuas portas, e se fartem’ (Deuteronômio 26:12). Este dízimo proveria um fundo para fins de caridade e hospitalidade” (Patriarcas e Profetas, p. 530).

“A consagração a Deus de um décimo de toda a renda, quer fosse dos pomares quer dos campos, dos rebanhos ou do trabalho mental e manual; a dedicação de um segundo dízimo para o auxílio dos pobres e outros fins beneficentes, tendia a conservar vívida diante do povo a verdade de que Deus é o possuidor de todas as coisas, e a oportunidade deles para serem portadores de Suas bênçãos. Era um ensino adaptado a extirpar toda a estreiteza egoísta, e cultivar largueza e nobreza de caráter” (Educação, p. 44).

(Conteúdo extraído do livro Perguntas Sobre o Dízimo, do pastor Demóstenes Neves Silva)