Os adventistas, os romeiros de Aparecida e a contextualização

adventistasQuando eu era católico, uma das experiências mais marcantes e significativas que tive foi representar Jesus em uma encenação da paixão de Cristo, durante a Semana Santa de 1990. Fazia pouco mais de um ano que eu estava estudando a Bíblia com um jovem adventista chamado Vanderlei. Eu ainda tinha o coração dividido, e aquela foi a minha última participação em um evento da Igreja Católica. Conto essa história com mais detalhes no vídeo “Minha História Eterna”, em meu canal no YouTube. O que quero destacar aqui, no entanto, é a atitude daquele jovem adventista quando lhe pedi que fotografasse a encenação, pois se tratava de um momento muito especial para mim. O Vanderlei aceitou meu pedido e a decisão dele me deixou positivamente impressionado. Em outras ocasiões ele também aceitou meu convite para participar de reuniões do grupo de jovens que eu liderava. O Vanderlei quebrou meus preconceitos e ajudou a preparar o caminho para a decisão que eu tomaria meses depois.

Por que conto essa história? Para mostrar como é importante construir pontes em lugar de erigir muros entre nós e as pessoas com quem queremos partilhar as boas-novas do evangelho. Desde que, nesse processo, princípios não sejam comprometidos, devemos sempre nos aproximar do nosso semelhante (na condição de pecadores somos mais semelhantes do que imaginamos) e procurar maneiras novas, às vezes diferentes, contextualizadas de cumprir a antiga comissão de Jesus.

Foi o que grupos de adventistas procuraram fazer no último feriado de 12 de outubro, data reservada para homenagear a santa católica Nossa Senhora de Aparecida. Como acontece todos os anos, milhares de romeiros se dirigem para o santuário localizado na cidade de Aparecida do Norte, em São Paulo. Alguns caminham a duras penas por muitos e muitos quilômetros numa peregrinação que pode durar vários dias. Há quem chegue à basílica em condições lastimáveis, até. O que fizeram os adventistas, afinal? Montaram tendas e ali ofereceram abrigo do sol, água aos romeiros sedentos e até massagem relaxante. Graças a essa atitude misericordiosa, puderam fazer contato com quase três mil pessoas, conversar com elas sobre saúde e outros assuntos e, depois, entregar um livro missionário para cada uma delas. Livros que foram invariavelmente aceitos de todo o coração e com muita gratidão.

O vídeo na página do Facebook oficial da Igreja Adventista no estado de São Paulo teve mais de três milhões de visualizações e as reportagens veiculadas pela TV Canção Nova e emissoras seculares tiveram grande repercussão.

Milhares de pessoas deixaram comentários elogiosos no Facebook da igreja, entre elas muitos católicos, espíritas e umbandistas. Segundo os organizadores da iniciativa, uma força-tarefa foi criada para dar prosseguimento a esses contatos e manter um diálogo com essas pessoas.

Infelizmente, houve também críticas farisaicas – não de pessoas “de fora”… Gente que parece ter se esquecido do conselho de Ellen White: “Unicamente os métodos de Cristo trarão verdadeiro êxito no aproximar-se do povo. O Salvador misturava-Se com os homens como uma pessoa que lhes desejava o bem. Manifestava simpatia por eles, ministrava-lhes às necessidades e granjeava-lhes a confiança. Ordenava então: ‘Segue-Me.’” (A Ciência do Bom Viver, p. 143).

Como se a solidariedade por si só não fosse uma grande ação destruidora de preconceitos e um exemplo de amor desinteressado como o de Jesus, é bom que fique claro que o “segue-me” não foi esquecido. A diferença é que, por ter sido precedida de misericórdia, a mensagem encontrou terreno mais receptivo.

Obviamente que aqueles romeiros sabem (ou pelo menos a maioria deve saber) que os adventistas não concordam com a adoração de imagens e que, portanto, não estavam ali na rodovia para apoiar a romaria. Estavam ali simplesmente porque queriam fazer o bem. Mais ou menos como os adventistas fazem em projetos como aquele que ficou conhecido como “Bálsamo”, que consiste em organizar grupos de irmãos para visitar os cemitérios no Dia de Finados a fim de distribuir folhetos e revistas que tratam da esperança da ressurreição. É claro que, com esse tipo de ação, os adventistas não estão apoiando a veneração aos mortos, as preces pelos falecidos, nem coisa semelhante (clique aqui e saiba por que). Estão apenas, mais uma vez, expressando solidariedade aos que sofrem e partilhando verdades bíblicas que trazem consolo.

Um último exemplo de oportunidade evangelística contextualizada que quero citar são as campanhas realizadas durante a chamada Semana Santa. Os adventistas não celebram essa data, mas levam em conta a predisposição natural das pessoas para a religiosidade, nessa época, e falam de Jesus, do plano da salvação e das promessas bíblicas quanto ao retorno do Mestre. Curiosamente, décadas atrás, quando esse projeto começou a ser posto em prática, críticos de plantão igualmente levantaram objeções. Hoje ninguém duvida de que se trate de um plano abençoado.

Contextualização e excessos

Já que falei em “contextualização”, é bom que se diga que, apesar de necessário e bem-vindo, esse esforço deve ter limites. Deus utilizou uma estátua para tornar Sua mensagem conhecida ao rei Nabucodonosor. Jesus contou uma parábola antibíblica (do rico e Lázaro) a fim de ilustrar um assunto mais profundo e importante. Paulo, no areópago em Atenas, citou pequenos trechos da literatura grega a fim de captar e manter o interesse dos que o ouviam. Mas note que em todos esses e em outros exemplos que poderiam ser aqui mencionados os pregadores e mesmo Deus não se demoram no elemento secular da história. O propósito sempre é conduzir as pessoas à salvação e a uma maior compreensão dos planos divinos.

Acredito que os adventistas que fizeram contato com os romeiros de certa forma imitaram a conduta evangelística de Paulo diante dos altares pagãos de Atenas, o que é bem diferente, por exemplo, de incentivar cristãos a assistirem séries de TV para tentar extrair dali eventuais e esparsos conteúdos cristãos. Eu sei, esse assunto dá “pano pra manga”. Por isso voltarei a ele oportunamente.

Oremos por aquelas milhares de pessoas que receberam livros missionários e o carinho dos adventistas, e oremos também para que cada vez mais nossa igreja se torne relevante e atuante, deixando na comunidade uma marca positiva que facilitará o processo de compartilharmos as verdades que nos são tão caras. Conteúdos que nos fizeram tão bem que não nos contentamos em guardar só para nós. Exatamente como o Vanderlei fez comigo há mais de duas décadas.

Michelson Borges

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