Do espartilho vitoriano ao escândalo da calça legging

leggingHouve um tempo em que o vestuário feminino era composto por fabulosas camadas de tecido: meia, saiote, vestido estruturado… e o espartilho vitoriano que afinava a cintura e tinha um efeito push-up. As curvas do quadril e as pernas eram íntimas demais para a mulher do século 19; ser vista com a roupa “de baixo” (que já era muito mais que um vestido de igreja dos dias de hoje) era uma desonra, mesmo que acidentalmente. Não por vergonha sem sentido do próprio corpo, mas por cuidado com a intimidade. Sim, acredite! Mas os tempos, costumes e valores mudaram. Em meio a tantas revoluções de vestuário que a sociedade ocidental protagonizou até agora, a meia-calça foi promovida: teve o pé cortado e deu origem à calça legging. No dress code contemporâneo, a legging faz parte do traje feminino para a prática de esportes na academia. O tecido à base de elastano e a modelagem bem justa ajudam a ter mais consciência corporal durante o treino. Quem já vestiu uma legging sabe bem a sensação de conforto e domínio de movimentos que ela proporciona. Quem também já usou uma meia-calça de boa qualidade sabe que a sensação é a mesma.

Agora, quem vestiu uma legging pela primeira vez lá pelos 15 anos de idade, como eu, conhece a sensação de nudez que ela provoca, mesmo com uma camiseta estilo long por cima. A sensação é de estar de meia-calça e camiseta – e ninguém sai na rua assim. Mas o desconforto desaparece rápido. É, a gente se acostuma e logo se sente vestida usando legging na academia.

Você já viu algum homem trajado apenas de sunga entrar no transporte público? A moda praia é para a água, pijama é para dormir e roupa íntima é para usar por baixo da roupa. Então, por que a calça legging saiu da academia e foi parar até nas igrejas cristãs?

O assunto está em alta por causa de uma carta de pedido de ajuda escrita por uma mãe católica, publicada no jornal universitário The Observer, da Universidade de Notre Dame e do colégio de Saint Mary, no dia 25 de março. A reação do público foi estarrecedora e mostra uma forte inversão de valores. Constrangida com as leggings e top croped das garotas durante a missa, a mãe pediu que pensassem nos garotos católicos que querem praticar a virtude da castidade, pois seus filhos não conseguiam tirar os olhos delas, uma vez que a “legging é muito reveladora e deixa a mulher quase nua”. Revoltadas, as alunas protestaram nas redes sociais em um espetáculo de poses eróticas e ginecológicas, com legendas apelativas: “Garotos, olhem para mim, por favor!”

Marcas de moda fitness se aproveitam da situação. Lançaram o “dia do orgulho legging”, chamando a peça de roupa do futuro. E eu pergunto: Onde está a delicadeza feminina? Onde está a doçura das jovens adolescentes? Os garotos são mesmo os pervertidos por terem impulsos biológicos e dificuldade de concentração para rezar ou para estudar perto de uma garota vestida com sua intimidade física tão exposta? O que antes era “proibido mostrar” agora é exposto de maneira tão grosseira: “Agora vocês são obrigados a ver e não podem fazer nada, então, controlem-se!”

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Vestindo o corpo pelo avesso – inversão do significado de vestir

A polêmica das leggings rendeu nota no New York Times, que comentou que o protesto pode ter exposto “uma falha cultural que atravessa gerações”, citando o escândalo que foi a minissaia lançada pela estilista Mary Quant, nos anos 1960, e alegando que rupturas assim abrem caminho para mudanças sociais.

O protesto das estudantes revela muito sobre os rumos da sociedade e anuncia uma grande necessidade de exposição a um olhar erótico, apelando para serem vistas por todos, de uma maneira até imposta, em uma atitude combativa ao controle do tamanho da saia que os pais tinham no passado. O que antes seria considerado íntimo demais agora é exposto em público, como uma consulta ginecológica no papel de protagonista em um espetáculo da liberdade para se poder fazer o que quiser com o próprio corpo.

Esse tipo de espetáculo apresenta uma inversão de sentido do próprio vestuário, e mostra um ego dilacerado por uma ânsia de liberdade em uma liberdade escravizada e constrangedora. Esse movimento de banalização da própria intimidade é uma falsa revolução. É uma revolta puramente espetacular no fato de que a própria intimidade se tornou algo público. Se o que é público não é íntimo, o que sobra para o encontro na intimidade do casal?

Essa inversão de valores é consequência de uma ideologia que parece ser libertária, mas está longe de servir aos interesses das próprias mulheres – só que elas não percebem isso. A ideia da “liberdade” para expor o corpo cada vez mais nasceu na cabeça de homens astutos que estavam interessados somente em suas próprias perversões. Plantaram na cabeça delas a ideia de que não deveria existir nada de posse, nada de ciúmes e sim “orgulho” de “exibir” o que tem em casa e até um certo prazer em provocar desejo de outros homens “em minha mulher”. Assim ele teria liberdade de desejar e possuir outras mulheres sem que a sua desse um chilique. Afinal, ela também “queria” ser livre.

Quando eu convenço você a fazer algo que não é para o seu bem, mas faço você pensar que é por você, quando, na verdade, é para me servir, isso é manipulação. E foi o que aconteceu. Dessa vez, em vez de terem sua intimidade e dignidade protegida, agora estão sendo controladas e persuadidas pelo homem perverso que só pensa em satisfazer a própria lascívia.

O movimento feminista comprou o discurso e não percebe que ele está a favor do homem que diz combater: a mulher deve ser livre e não deve exigir nenhum compromisso, porque ele quer usar e jogar fora, quantas conseguir, sem nenhuma responsabilidade atrelada a isso. Ele não quer ter compromisso. Não quer ter filhos e viver com a mesma mulher para sempre. Transformaram-se em “Sexy Machine”, escravizando-se voluntariamente, acreditando que é “vingança” dos anos de repressão dos tempos do espartilho e da castidade vigiada.

Dormindo com a inimiga

Ah, se aquelas garotas soubessem que o agente do espetáculo posto em cena como “vingança” das leggings é inimigo delas mesmas – e não inimigo de uma opressão machista –, aí, sim, encontrariam a verdadeira liberdade para serem mulheres em toda a sua plenitude. O problema é que essa ideologia da pura liberdade afasta toda e qualquer ideia do mal, e essa racionalização é agravada pela própria irracionalidade do seu meio, onde muitas mulheres escolhem renunciar sua intimidade em nome da autonomia para se identificar com a lei geral da obediência e submissão a homens não convertidos a Cristo. Pois é, também acho que isso não tem o menor sentido! É como me machucar esperando que o outro sinta a dor.

Ouso parafrasear Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, e nessa mesma linha de raciocínio lamento quantas mulheres perderam seus valores nessa “luta entre a tradição e a inovação cultural” e suas manifestações negativas! Ao tentar comunicar o incomunicável, a “organização social da aparência está obscurecida” pela pseudoliberdade que ela defende. A sociedade “não percebe que o conflito está em todas as coisas do seu mundo corrompido pelo seu desprezo pelo conhecimento do homem desprezível e ditador que realmente é o espectador desse espetáculo” apelativo e vulgar que chamam de “liberdade”. “Ao atender aos desejos desse espectador inescrupuloso e pervertido”, a mulher que expõe sua intimidade levianamente também corrompe o homem virtuoso, contaminando os desejos do homem fiel e casto. E, além disso, ela se priva de um encontro íntimo e verdadeiro, que é o que nos permite reconhecer-nos como indivíduo, deixando-nos incapazes de reconhecer nossa própria realidade.

Mulher embalada a vácuo é mequetrefe!

Falando em realidade, “mas e se eu usar a legging com uma camiseta long ou com uma saia por cima?” Perfeito para academia. Assim você não se expõe ginecologicamente e fica mais delicada, mesmo em um ambiente em que a peça não seria escandalosa – uma vez que a academia é o local para esse tipo de roupa. “Mas e no dia a dia, nas compras, nos passeios?” Eu só consigo me lembrar da Paula Serman, médica e consultora de imagem que mantém o perfil Beleza Cura, no Instagram: “Esqueçam a legging de uma vez por todas”, diz ela, explicando que nenhuma roupa justa demais é elegante, que a legging não é bonita e não valoriza o corpo da mulher. Apenas expõe o corpo de maneira deselegante como se fosse embalado a vácuo. “Legging é mequetrefe, só serve para faxina e academia”, diz ela.

Quem gosta de ler sobre moda, imagem e antropologia, sabe que esse assunto está longe de ser uma questão puramente religiosa. Nesse contexto, destaco as dicas das consultoras de imagem. Tenho algumas amigas pessoais que são profissionais dessa área, com quem aprendo muito e morro de vergonha quando lembro das gafes absurdas que já cometi – passando uma informação errada sem saber, corrompida pela preguiça do “todo mundo usa”, sem refletir na coerência do significado. Mas estou aprendendo aos poucos. E a cada nova informação, me sinto mais livre para expressar o que eu realmente quero e quem eu sou de verdade.

Acontece que, diferentemente dessas mulheres que realmente querem se expor – seja devido ao ego dilacerado ou por terem comprado a ideia de que é legal se exibir como forma de protesto contra certos valores que elas consideram opressão machista –, a mulher cristã não quer atrair olhares impuros, não quer ser responsável por instigar a lascívia ilegal.

Então por que esse tipo de roupa tem feito parte do look de mulheres cristãs, cujo objetivo de vida é servir ao Criador e praticar a virtude do amor? Talvez por falta de informação sobre a mensagem que cada peça de roupa transmite sobre quem você é, ou talvez porque ainda não alcançaram o conhecimento de como a modéstia também é uma virtude que conduz ao amor.

“Afinal, o que é modéstia?”

Eu sempre confundi modéstia com modesto. Nunca havia pesquisado o assunto. Achava que roupa cara é que era falta de modéstia. E usava a modéstia e a decência como se fossem coisas distintas. Sim, eu cometi esse erro até março deste ano, quando assisti à live da Paula Serman sobre esse tema. Em resumo, ela, que professa a fé católica, explicou que a modéstia é uma virtude que está associada ao pudor, à castidade e à temperança. Todas as virtudes conduzem ao amor, com o objetivo de nos tornar pessoas melhores e preocupadas com a felicidade do outro, e a modéstia nos ajuda a amar com o coração inteiro, de acordo com o estágio de vida: solteira, casada… “E viver o ápice da demonstração do amor, que é o ato sexual, dentro da sua dignidade.” Como médica, ela explica que o próprio corpo humano nos ensina que o que é nobre tem que ser bem guardado, pois, por exemplo, se o coração fosse exposto, poderia romper uma artéria facilmente. A modéstia ensina a proteger nossa interioridade e a entregá-la somente para quem realmente vai receber com cuidado, com delicadeza, com a devida importância. Através da nossa corporeidade, expressa em nossa aparência externa em nossas roupas, expomos nosso interior. “Isso não é religioso. É parte da antropologia humana, é uma exigência do ser humano”, explica Paula Serman. “Essa voz que pede que a gente guarde isso às vezes fica embotada; às vezes nossa sensibilidade está comprometida e acabamos expondo demais o corpo e entregamos o interior de maneira esparramada, com o coração exposto, com tudo à amostra, com o risco de entrar uma bactéria na nossa afetividade. E eu não estou nem sabendo”, destaca.

Nesse sentido, penso que homem e mulher precisam ser mais compreensíveis e tolerantes com as diferenças um do outro, porque elas são importantes para a atração e união do casal. Não é saudável simplesmente achar que todo homem é pervertido e por isso não adianta cuidar da exposição. Muito pelo contrário. Paula explica que as características corporais e psicológicas que distinguem homem e mulher fazem que ela esteja mais exposta, e quando ela se expõe demais acaba despertando no homem determinados impulsos que podem confundir. Isso é antropólogo, não é religioso nem machista.

E ela vai além: mostrar quem a gente é de verdade, sem confundir, faz parte da capacidade de amar através da aparência. “A gente vai começar a usar nossa imagem não para constranger os outros, não para violentar, não para chocar, não para atrair de forma leviana. A gente vai usar nossa imagem para agradar, para elevar, para trazer uma sensação gostosa, um conforto para a vida dos outros, para agradar nosso Criador e ter um amor-próprio saudável.”

Fiquei emocionada quando ouvi isso. Mudou muita coisa dentro de mim. Entendi que o fundamento da modéstia é muito bonito, que a base da elegância e da decência é o amor e a retidão na intenção. “Não é por medo, nem por obediência servil. É por ter o coração dilatado de um amor que nos engrandece e nos liberta de tudo que é egoísta e feio. Só vive isso quem vive o amor, quem quer realmente tratar o próprio corpo, a si mesmo e o outro com delicadeza, cuidado, respeito, sem fugir, sem se esconder”, como explicou a consultora. “Quando a gente tem uma mudança de vida, a gente vai entendendo muitas coisas aos poucos. É uma obediência por amor, é uma confiança em Deus.”

 Para Paula, uma pessoa sensata, que tem retidão de coração, mesmo que não tenha nenhuma religião, vai chegar a essa conclusão de que é importante ter uma atitude e uma aparência digna que ajude na afetividade. “Ela vai se preocupar em não tornar o ambiente leviano, não constranger quem está por perto”, conclui. (Assista à live completa no YouTube.)

Como espalhar amor e verdade através da aparência

Agora que falamos sobre o que é a verdadeira virtude da modéstia, tenho certeza de que o olhar sobre o protesto de legging muda mais ainda, não? Consegue perceber que há uma certa agressividade por parte de muitas dessas mulheres que se expõem demais? É como se a delicadeza feminina de muitas delas tivesse sido corrompida, pervertida de uma forma grosseira, a troco de nada. As mulheres estão deixando de ser femininas autênticas e se transformando em outra coisa contrária à sua natureza. Por que sofrer voluntariamente? Se a mulher não estiver livre para ser realmente uma mulher, o homem também não estará livre para ser realmente um homem.

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Por que essa vingança do avesso? Essa falta de sensibilidade cria episódios como o que presenciei nessa primeira semana de abril. Uma mulher foi fotografada em um ônibus, trajando mínimas peças de academia, com o shorts esticado ao limite (foto), parecia até machucar. As fotos foram publicadas no Facebook, com a legenda: “Entra no ônibus cheio com uma roupa dessa e depois vai reclamar que alguém passou a mão.” Nos comentários, homens casados reclamam que era muito chato ter que lidar com isso, porque eles não queriam olhar. Mulheres diziam que ela podia usar a roupa que quisesse e que ninguém tinha que ficar olhando. Muitos disseram que ela não tinha noção do ridículo (mesmo com o corpo perfeito de academia).

Lendo os vários comentários, percebi que muitos homens realmente se sentem agredidos com essa hiperexposição do corpo feminino. Especialmente os que são casados e realmente não querem ter seus impulsos naturais acionados dessa forma. Então comentei que esse tipo de vestimenta deveria ser enquadrada na Lei Nº 13.718, de 24 de setembro de 2018: “Importunação sexual: Art. 215-A. Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro.” Para quê?! Logo vieram dizer que a lei é para proteger as mulheres de cantadas, abusos, aquelas passada de mão indesejada, gestos insinuando o que o sujeito está a fim de fazer, e outros constrangimentos à mulher.

Mas por que proteger só as mulheres? Tudo isso é muito legítimo e necessário. Mas, cá entre nós, não são ofensivos, constrangedores e indesejados certos tipos de trajes que expõem toda a intimidade feminina sem o menor pudor? E se tem uma criança com você, você não sai de perto? Eu tiro a criança de perto. Fico constrangida e desconfortável se estou acompanhada. E sei que ele também – pois é daqueles que têm uma coisa boa chamada caráter. A meu ver, da mesma maneira que o homem não pode fazer um gesto obsceno, pois humilha e constrange, a mulher também não deve poder expor suas “obscenidades”. Isso faz sentido para você?

Mas sempre tem quem diga: “Ah, o homem que controle seus impulsos porque eu mostro o que eu quero e você é que é um pervertido se ficar olhando!” Isso não é nem um pouco gentil, é uma atitude destrutiva. Mulheres inteligentes alimentam relações saudáveis e se preocupam em afastar em vez de atrair olhares impuros.

A mulher precisa ter liberdade para se desenvolver naturalmente em sua feminilidade. E o homem precisa ser o mais masculino possível para crescer como homem. Assim, ambos estarão saudáveis e atraídos o suficiente para que o encontro, na intimidade, traga dois mundos diferentes a uma união que será uma verdadeira e rica bênção.

Tudo isso tem que ver com o amor, com a beleza, com a verdade, com a bondade, com a generosidade, com a disponibilidade de ser inteiro e de se entregar inteiramente a Deus.

Passe esse conceito para quem você ama, ensine suas filhas e ajude a espalhar verdade, beleza e amor neste mundo tão frio, feio e cruel.

Débora Carvalho é jornalista e editora de conteúdo